O MAIOR COMUNISTA É DEUS

A Criaçao, obra de Michelangelo

Por Cléber Sérgio de Seixas


Há alguns anos, no programa Conexão Internacional, o jornalista Roberto D’Ávila entrevistou o então primeiro ministro de Israel Shimon Perez. O teor da entrevista girou basicamente em torno da história de Israel, da fundação do estado, em 1948, até os conflitos mais recentes com os palestinos. Nas palavras finais Shimon disse: “O maior comunista é Deus”. A afirmação de Perez pode soar herética, mas se formos examinar alguns preceitos do maior cânone dos cristãos, a Bíblia, e compará-los com as idéias comunistas, dos socialistas utópicos até Marx, Lênin, Gramsci e outros, chegaremos à conclusão de que há mais coisas em comum do que antagonismos.

Na Bíblia, no livro de Atos, capítulo 2, versículos 42 a 45 lemos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade”. Notem a palavra “comunhão” e o trecho “tinham tudo em comum”. Já o “à medida que alguém tinha necessidade” me lembra as palavras de Marx em sua obra Crítica ao Programa de Gotha, onde ele afirma que na bandeira da sociedade sob o regime comunista estaria escrito o seguinte lema: “de cada um conforme a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades”. O que ocorria ali dentre os primeiros cristãos nada mais era do que um comunismo em estágio incipiente, talvez uma espécie de proto-comunismo.

Ora, se Deus é um deus de justiça, que deseja o bem estar de toda a humanidade, que preza pela igualdade entre os homens, porque não dizer que ele é o maior de todos os comunistas? Muitos se chocam com tal afirmação, sobretudo aqueles cristãos mais fundamentalistas, porque ainda se prendem ao conceito de que todo comunista é ateu ou que o ateísmo é um pré-requisito para ser comunista.

De fato, vários autores de clássicos da literatura socialista como Marx e Bakunin, enxergam na religião e na crença em Deus apenas uma artimanha criada pelos próprios homens para anestesiar a realidade, ou seja, para que o homem não tente aqui na terra resolver seus próprios problemas, pois, na eternidade, Deus os resolverá a todos. Assim, segundo Marx, “a religião é o ópio do povo” e que não teria sido Deus quem criou o homem à sua imagem e semelhança, mas, pelo contrário, o homem é quem teria moldado Deus à sua imagem e semelhança. Deus seria, assim, uma criação do próprio homem e a religião, entendida como elo entre Deus e o homem, funcionaria como uma espécie de calmante, um amortecedor dos conflitos sociais, de forma que, quando estes fossem descambar para a violência e para a revolta, entrariam em cena ensinamentos como os seguintes: “Deus há de julgar” ou “a justiça Divina tarda mas não falha” ou “escapou da justiça dos homens mas não escapará da justiça de Deus” ou mesmo “o mundo jaz no maligno”.

Se o mundo jaz no maligno, se as injustiças sociais, tal com a existência de uma distância abissal entre a qualidade de vida de ricos e pobres, explorados e exploradores, é algo inelutável e impossível de ser mudado pela criatura, já que Deus assim o determinara, para que lutariam os oprimidos? Tal como disse Marx, a religião seria o sussurro da criatura aflita. Concordo com Marx se levarmos em conta que a maioria das crenças atuais, cristãs e não cristãs, em sua maioria, transfere o bem estar individual e social para a transcendência. Na eternidade, para os crédulos, é sabido que tudo estará bem. Contudo e o aqui e agora? Devemos suportar de dentes cerrados todas as injustiças sociais e não lutarmos, de alguma forma, para que seja feita justiça?

Se entrarmos no coro dos materialistas, concordaremos com Marx e nos tornaremos ateus, rejeitando toda idéia de transcendentalidade, o que pode nos jogar no poço da desilusão, já que dentro do homem existe um vazio que pode ser do tamanho de Deus. Se por outro lado abraçarmos o discurso dos fundamentalistas, estaremos fadados à eterna capitulação frente aos interesses daqueles que moldam a religião conforme os mais execráveis interesses.

Creio, hoje, que uma crença, seja qual for o segmento religioso, jamais pode servir como elemento justificador de qualquer tipo de injustiça. Se, por exemplo, um povo não pode se levantar contra uma autoridade tirânica porque na Bíblia se lê que toda autoridade foi instituída por Deus, e que, lutando contra tal autoridade estaríamos entrando em choque com o próprio Deus, aí sim concordarei com a afirmação de Marx que a religião não passa de um lenitivo.

Se lermos o livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber, acharemos um elo entre o protestantismo e o capitalismo. Sob o ponto de vista weberiano, encontraremos identidade entre o protestantismo com o capitalismo nascente, na medida em que o primeiro forneceu a liberdade necessária à prosperidade dos negócios para o segundo, separando a busca pelo ganho e lucro individuais da noção de pecado, coroando a busca da riqueza com uma auréola de santidade; usando o jargão bíblico, promovendo a reconciliação entre Deus e Mamon. Trata-se do que o poeta Virgílio chamou certa vez de auri sacra fames, ou seja, a fome sagrada pelo ouro.

Por outro lado, o capitalismo que vemos hoje, na sua variante neoliberal é um sistema completamente antagônico aos preceitos divinos, pois condena a maior parte da humanidade a chafurdar na miséria e na segregação social. Ora, se o capitalismo é aceito pelos cristãos, em sua maioria, por se tratar de um sistema garantidor da liberdade religiosa, apesar de se tratar de um sistema que garante bem estar somente a uma ínfima parcela da humanidade, porque não dizer que o sistema socialista e comunista, que apregoa a igualdade entre os homens, seria um sistema melhor para a humanidade?

Os que satanizam o sistema socialista e comunista sempre evocam exemplos como os expurgos soviéticos promovidos pelo stalinismo, passando pela lavagem cerebral da Revolução Cultural de Mao Tsé Tung e pelas atrocidades cometidas no Camboja pelo Khmer Vermelho. Estes são exemplos de um socialismo deturpado, que desvirtuou os preceitos marxistas e, por conseguinte, descambou num totalitarismo de esquerda e no culto à personalidade, além de esbarrar na burocracia estatal e na ineficiência econômica. A isso chamam de "socialismo real". Não entrarei em detalhes sobre o socialismo real por não ser o objetivo deste artigo, mas afirmo categoricamente que as experiências socialistas não podem se esgotar no que foi tentado nos exemplos acima citados. A vertente cubana do socialismo procurou trilhar caminhos diferentes dos supracitados.

Em Cuba, nos anos 80 e 90, ocorreu uma aproximação entre a Igreja Católica e o regime comunista da ilha graças à Teologia da Libertação – variante católica que alia elementos de marxismo com o cristianismo. A aproximação tornou-se possível, sobretudo, pela atuação de dois religiosos ligados à Teologia da Libertação: Frei Betto e Leonardo Boff. Em conseqüência, hoje, em Cuba, cristãos podem fazer partes das fileiras do Partido Comunista Cubano enquanto professam livremente suas crenças, além de serem encontradas em naquele país igrejas católicas e protestantes. À luz do exemplo cubano pergunto: por que não ser cristão e comunista ao mesmo tempo? Que antagonismo há entre comunismo e cristianismo senão aquele forjado há tempos para satanizar um sistema econômico que sempre pregou a igualdade entre os homens?

Na escatologia bíblica a história humana vai desembocar na Nova Jerusalém, novos céus e nova terra para novos homens. Já na teoria marxista, o ápice da justiça social, que criaria o novo homem, se daria no comunismo, ao qual se chega passando por uma fase intermediária, o socialismo (ditadura do proletariado).

Costumo dizer que sou um marxista não-ortodoxo, ou seja, que concorda com Marx, mas com ressalvas. Uma delas é que não acho que um marxista tenha que ser obrigatoriamente um ateu. Assim sendo, faço minhas as palavras de Shimon Perez e repito que o maior dos comunistas é Deus e que a Nova Jerusalém será a mais comunista das cidades. Não acredito mais que devamos suportar as injustiças sociais, resignando-nos ante as arbitrariedades de um sistema opressor, só porque num futuro hipotético tudo estaria bem e haveria justiça. Entendo que podemos professar nossa fé e ao mesmo tempo lutar em prol de um mundo melhor para todos, e não somente para alguns.

Comentários

Anonymous disse…
Quando li este artigo, minha alma vibrou de alegria, qual copo de água fresca, após caminhada forçada debaixo de sol ardente. Vivo nos dias de hoje, uma procura incessante e incansável de harmonização entre o passado, o presente e o futuro. Fui durante anos marxista/leninista convicto, militante activo, companheiro fiel, camarada solidário,político autêntico, ateu por consequência doutrinária, irresignado à injustiça e à crueldade religiosa. Hoje convertido,professando a religião Evangélica Baptista, na tentativa de encontrar um caminho que me aproxime da santidade de Jesus Cristo,afirmo convictamente ter encontrado a essência da vida, em Jesus.Sou hoje, afrimo-o categoricamente, um homem novo, diferente para melhor, pois vivo com Deus no coração. Mas na essência, continuo como sempre fui, humanista, solidário, fraterno, fiel, companheiro, amigo...
Descobri em suma, características que ja me eram inerentes, enquanto comunista, que são apanágio do irmão cristão de hoje. Descobri pois, que são muito mais as caracteríscas que unem, comunismo e cristianismo, do que as que opõem. Começava a notar porém, alguma perplexão quando me afirmava comunista cristão, por parte dos irmãos. Uns, talvez procurando uma saída épica para a situação, achavam o máximo, um comunista convertido-que grande milagre-, outros achando que uma coisa não combinava com a outra, provavelmente achando uma maluquice do Português, e outros ainda (comunistas)achando que tinha pirado de vez. Bem a verdade, é que como ilustrado no texto, nem todos os comunistas se opunham ao cristianismo, e muito menos ferozmente, como foi larga e erradamente difundido, a par com outras enormidades do dtipo "comer criancinhas ao pequeno almoço". Mas não foi só em Cuba que a Igreja Católica e os Cristãos ombrearam lado a lado, com o comunismo. Em Portugal onde fui Prefeito e diretor local do Partido Comunista Português durante vinte anos, não só convivemos pacifica e cordialmente com os cristãos, como construímos, conservámos, e melhorámos muitas igrejas, como colaborámos com a obra social e religiosa delas. Além de que mais de 30% dos membros e militantes comunistas locais serem cristãos. Tendo convivido e participado desta realidade, nada mais natural, para mim, afirmar alegremente em simultãneo a minha condição de comunista cristão, ou cristão comunista, dando continuidade pratica a uma colocação ativa de partilha, solidariedade, companheirismo, fidelidade e fraternidade, temperada agora, com a crença nas promessa de um Deus Vivo, onipresente, onipotente, misericordioso, bondoso e amoroso. Também como o irmão, tenho a certeza que Deus além de nos premiar com a salvação e a vida eterna, qual sublime promessa, para o homem pecador, nos quer igualmente proporcionar, uma vida mais fraterna, mais justa e solidária, mais equitativa, mais confortável e feliz, aqui na terra. Como porém, a nossa "passagem" por esta terra, está subordinada ao "livre arbritrio" de que todos fomos dotados, cabe-nos a nós "seres viventes", criados para dominar sobre toda a terra, mas não uns sobre os outros, encontrar a forma de governo ideal para obter esse desiderato. Eu acredito, que a seguir à democracia, a forma de ogarnização política mais consentânea com a felicidade humana é o comunismo na sua forma pura, temperado com as humanidades cristãs. Não se diga, que isso não existe, que é mera utopia, e que no cerne o comunismo é um regime cruel, despótico e escravizante, porque algumas tentativas falhadas, nas quais não me revejo nem nunca me revi, antes pelo contrário condeno, conspurcaram, uma filosofia essencialmente humanitária, redistributiva e equitativamente justa. Da mesma forma que algumas práticas cristãs, envergonharam e envergonham os irmãos católicos, pela sua crueldade e nepotismo, mas nem por isso deixam de se afirmar como um ideal cristão para a salvação da homem.
José Fialho
William Pimentel disse…
- Realmente, uma exelente observação e um magnifico artigo. Compreendo pois, eu profiro a fé cristã e vou a Igrejas evangélicas com frequência. Digo, me vi nesta mesma situação. sofri um certo apartheid por parte de meus "Irmãos" por dizer que sou um esquerdista (apesar de minha pouca idade) e defender as ideias do marxismo-leninismo-maoísmo. Agora me diga, no momento da traição de Cristo; Quem foi o Comunista e quem foi Socialista? Ora, Cristo pregava a igualdade para pobres e humildes, em busca da paz universal enquanto o seu Apóstolo Judas Escariotes,o entregou em troca de Moedas. Mesmo não aceitando qualquer fé e sendo o cristão como base, me diga, quem fez o papel de egoísta e quem fez o de "vilão" ? Sim, o comunismo até hoje não foi bem aplicado. Marx já dissia que esse iria dominar o mundo cedo ou tarde. Conclusão, A guerra fria ainda não acabou
não para quem ainda tem o sonho de ver a ascenção da classe operária e quer morrer de vermelho. Tenho 15 anos, quero ser político e tenho mente formada.
Nachi disse…
qual é o problema é lindo ser humanista ?
defender a vida, a religiosidade, sim, mais não respeitam a sua vida, não respeitam a vida dos pobres por que respeitariam a vida de um humanista ? o que a mídia é capaz de fazer na mente das pessoas o que os burgueses são capazes de fazer? Eles pisam sem dó nos mais fracos e nos menos oportunados afim de subir, de ganhar dinheiro toda vez que você ganha alg de bom está passando por cima de outra pessoa para isso. Acha que em uma revolta pacífica o governo não lutaria, e apontaria armas para você ?

A sociedade patriarcal e a igreja não permite que haja esta relação a TL foi condenada pelo vaticano pode existir em sua esperança, mas você duvida de padres, papas e bispos ? então não pode fazer parte da igreja pois jesus deu poder a pedro e pedro a outros padres logo com o poder direto de deus para diser quem é maior e deve mandar nos fieis foi o proprio deus.
e entre outras coisas a igreja condena revolução ela condena a luta, a luta para a igreja é a submição Mt 5: 39 “ Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;” (não á reação)(reação silênciosa) vocês concordam com isso ?
Pr.Marcos Dornel disse…
belo Post..parabéns!!!!!
Jailson lia disse…
Não querendo inflamar mas se Deus é o MAIOR COMUNISTA, por que há hierarquias celestiais e destruições de grandes galardões e pequenos galardões? O bem comum, desejo de Deus para o homem, não faz Dele um grande comunista. O "comunismo" NUNCA funcionará pelo simples fato de sermos diferentes, livres pela graça de Deus que poderia muito bem fazer de nós marionetes, iguais, comuns! A ideia, a filosofia comunista é linda! Sim é linda, mas não funcionará nem aqui e nem na Nova Jerusalém! E acredite, o "comunismo" só funcionará onde TODOS sejam iguais, réplicas, clones perfeitos controlados por um "deus"(ditador) que não seja o Deus de Israel! Somos diferentes e nada irá mudar isso nem as minhas ideologias ou as de qualquer outra pessoa.