A máquina a vapor libertou os escravos

Por Cléber Sérgio de Seixas

A saudosa Clara Nunes certa vez cantou: “Ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil... /Negro entoou um canto de revolta pelos ares no Quilombo dos Palmares, onde se refugiou”. A música lembra um episódio de nossa história pouco lembrado nos livros, o que destoa de sua importância para o movimento negro. 

Cansados de comida escassa, castigos sobre-humanos e trabalho extenuante, um grande número de escravos fugiu para buscar refúgio no Quilombo dos Palmares, cuja extensão chegou a ocupar desde o cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, até o rio São Francisco, em Alagoas. Em plena época de plantações açucareiras onipotentes, Palmares era o único lugar do Brasil onde se desenvolvia a policultura – cultivava-se milho, batata, feijão, banana, mandioca, etc. Tratou-se de uma das mais extensas e significativas rebeliões escravas de que se tem notícia. Enquanto a rebelião de Espartaco na Roma antiga durou apenas 18 meses, o Quilombo de Palmares resistiu, valendo-se de táticas de guerrilha, ao assédio de várias expedições militares por quase um século, até sua queda final em 1694. 

Para o movimento negro o 13 de maio perdeu em importância para o 20 de novembro, data da morte do líder negro Zumbi, último defensor do célebre quilombo e mais importante herói negro brasileiro. Isto talvez se deva ao fato de que Zumbi signifique combatividade, luta pelos direitos da raça ao passo que a lei assinada pela princesa Isabel foi apenas uma conseqüência do processo pelo qual passava a economia de então.

É de conhecimento geral que a mão de obra escrava dos negros nas lavouras de cana de açúcar, e posteriormente na mineração, durante o período colonial, tornou possível à Inglaterra inaugurar uma nova fase do capitalismo denominada Revolução Industrial. O capital acumulado pelos ingleses neste período, através do comércio triangular – manufaturas, escravos, açúcar – tornou possível a invenção da máquina a vapor. James Watt foi patrocinado por mercadores que haviam feito assim suas fortunas. 

Em determinado momento histórico, quando se percebeu que o regime escravocrata era antieconômico, buscou-se eliminá-lo, pois o custo de um escravo era maior do que o de um trabalhador assalariado livre, e o escravo tinha produtividade menor por baixa qualificação e falta de interesse em aumentar a produtividade por não ser recompensado por isso. Além disso, sob a escravidão o consumo não era incentivado porque o trabalhador escravo não tinha como consumir os frutos do seu próprio trabalho. 

Não por acaso, a Inglaterra tomou a dianteira das campanhas antiescravistas, sendo importante lembrar que “nossa” primeira lei antiescravista, a lei Bill Aberdeen de 1845, que proibia o tráfico negreiro, não era brasileira e sim inglesa. Promulgavam-se as leis, mas permanecia incólume o preconceito. Mudava-se a economia, com todos os seus desdobramentos práticos, mas a mentalidade preconceituosa dos homens permanecia intacta. Desta forma, o fim da escravidão foi motivado por questões econômicas e não ideológicas. Se a escravidão dos negros, indiretamente, tornou possível a construção da máquina a vapor, a máquina a vapor, por sua vez, libertou os escravos. Louvado seja James Watt!

Em outras palavras, apesar da pena de Izabel ter rabiscado e ratificado no papel a Lei Áurea, a realidade é que preconceito e discriminação ainda persistem, pois o negro ainda não obteve seu devido espaço na sociedade. 

Se nas artes e no esporte o negro vem cada vez mais encontrando reconhecimento com exemplos de peso na música, no futebol e na ginástica, o mesmo não pode ser dito de outros segmentos. Ainda há poucos negros nas universidades, na política, em cargos executivos, na recepção das empresas, nos outdoors e nos comerciais de TV. 

Assim, os negros têm pouco a comemorar. Parafraseando a obra de Gilberto Freyre, podemos dizer que o negro evoluiu de senzalas a mocambos e de mocambos a favelas, estes últimos verdadeiros guetos de negros que, mesmo libertos, não têm oportunidades reais de ascensão social, desempenhando sempre as funções mais reles. O roqueiro Lobão assinalou certa vez em uma de suas canções: "A favela é a nova senzala".

Urge, então, a todos os negros entoar um canto de revolta pelos ares, buscando sua cidadania plena. E se ninguém ouviu este canto, que o ouça a partir de agora. 

Cabe ao povo brasileiro não concordar com esta aberração chamada racismo, último baluarte da escravidão, para não incorrer no que já denunciava em seu tempo o poeta dos negros, Castro Alves: “E existe um povo que a bandeira empresta pr'a cobrir tanta infâmia e cobardia!... E deixa-a transformar-se nessa festa em manto impuro de bacante fria!...Auriverde pendão de minha terra...Antes te houvessem roto na batalha, que servires a um povo de mortalha!..."

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