segunda-feira, 13 de março de 2017

Brasil em declínio


Por Frei Betto *

Com a atual recessão, a população brasileira já empobreceu 9,1%, segundo dados do IBGE divulgados na primeira semana de março. A economia retraiu 3,6%. É a mais longa recessão da história do país. O consumo das famílias decresceu 4,2% em relação ao ano passado. O desemprego, que já atinge 13 milhões de pessoas, e o endividamento das famílias, são as principais causas do empobrecimento do brasileiro.

Nau sem rumo, o governo Temer não sabe como sair do atoleiro. Mas, como no naufrágio do Titanic, tenta salvar os camarotes dos ricos com “reformas” que ampliam os privilégios da elite e ferem os direitos dos trabalhadores. Hoje, 18% de nossa população, cerca de 37 milhões de pessoas, vivem com menos de meio salário mínimo por mês, o que equivale a R$ 468,50.

A desigualdade social brasileira acentua a disparidade entre brancos e negros. Entre os 10% mais pobres do país, 75,5% são negros ou pardos. Já os brancos são apenas 23,4%. Na ponta de cima da pirâmide, habitada por 1% da população, a parcela mais rica, a proporção se inverte: 79,7% são brancos, e apenas 17,8% são negros e pardos.

Embora a carga tributária brasileira seja das mais altas do mundo, nosso dinheiro some nos ralos da corrupção e do desgoverno. Os serviços públicos são precários: 34,7% da população não contam com coleta de esgoto; 14,6% não têm água encanada; e 11% não dispõem de coleta de lixo residencial. Depois há quem se espante ao constatar o reaparecimento de enfermidades debeladas há um século, como a febre amarela.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Dica cultural - o silêncio ensurdecedor das mulheres

Maria da Penha Maia Fernandes na juventude

Por Cléber Sérgio de Seixas

Neste Dia Internacional da Mulher há pouco a comemorar, haja vista que na sociedade brasileira ainda predominam o machismo, o patriarcalismo e a misoginia. O discurso do presidente Temer na presente data reflete o sentimento dos homens brasileiros em relação ao locus social reservado ao sexo feminino, sentimento este que, infelizmente, tem sido introjetado por muitas mulheres.

Foram muitas as conquistas do segundo sexo (Beauvoir) nas últimas décadas, e o processo emancipatório das mulheres hora em curso é algo a ser celebrado. Contudo, há ainda muito a ser conquistado pelo assim chamado – erroneamente, diga-se de passagem – sexo frágil. Infelizmente, em pleno século XXI, a mulher ainda é considerada um ser humano de segunda categoria.

Os números das estatísticas da violência contra as mulheres gritam aos ouvidos e fornecem a resposta aos que precipitadamente afirmam que leis semelhantes deveriam ser criadas para homens que também são violentados por suas parceiras. 

Como no Direito há o princípio de que se deve tratar desigualmente quem é desigual, e partindo do pressuposto de que as mulheres são desiguais em relação aos homens, reiteradas vezes vítimas da violência dos mesmos, fez-se premente a criação de leis que as protegessem. Uma dessas leis é a 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, alcunha que remete ao nome de uma bioquímica e farmacêutica cearense que ficou paraplégica após ter sido baleada pelo marido que tentou matá-la por duas vezes.

O documentário “Silêncio das Inocentes” (2010), dirigido por Ique Gazzola, enseja o debate sobre a situação das mulheres submetidas a violência doméstica e conta com depoimentos de vítimas e especialistas no assunto. 


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Fotos e fatos - a imagem que marcou 2016



Por Cléber Sérgio de Seixas

A contemporaneidade tem acompanhado o crescimento vertiginoso do radicalismo, seja o de matiz político, seja o de orientação religiosa. Se o Estado Islâmico recruta pessoas capazes de cometer assassinatos em quase todos os cantos do globo, os EUA de Trump, com sua política ultra nacionalista e xenófoba, pode tornar o mundo um lugar mais perigoso para se viver. Há extremistas de ambos os lados dispostos a matar em nome de Deus ou de uma ideologia.

Num país do Oriente Médio chamado Síria hora se ensaia um recomeço daquilo que outrora foi chamado de Guerra Fria. Por trás do conflito entre as tropas de Bashar al-Assad e os rebeldes financiados e, quem sabe, municiados pela OTAN, digladiam Estados Unidos, de um lado, e Rússia e China, de outro. Constatada a capacidade bélico-nuclear dos dois lados, tanto no âmbito tático quanto no estratégico, não é temerário supor que tratar-se-á de um conflito caracterizado por embates indiretos entre os contendores.

No dia 19 de dezembro último o conflito sírio fez, indiretamente, mais uma vítima. Naquela fatídica segunda-feira as lentes do fotógrafo turco Burhan Ozbilici registraram momentos do assassinato de Andrei Karlov, embaixador russo na Turquia. Karlov inaugurava uma exposição de fotos numa galeria de artes de Ancara quando Mevlüt Mert Altintas, um policial turco de 22 anos, efetuou oito disparos contra ele. Antes de ser abatido por outros policiais, Altintas bradou: “Deus é grande! Deus é grande! Nós morremos em Aleppo, vocês morrem aqui! Matam gente inocente em Aleppo e na Síria!”. 

Sublinhe-se que conflitos de grande envergadura por vezes têm início com assassinatos de líderes políticos. Lembre-se que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, pelo sérvio Gavrilo Princip foi o gatilho da Primeira Guerra Mundial.

A foto de Mevlüt Mert Altintas com o braço esquerdo levantando e com o dedo em riste, portando na mão direita a arma do crime e tendo a seu lado o cadáver do embaixador russo, correu o mundo e foi capa do New York Times. Recentemente, foi eleita a melhor foto de 2016 no concurso World Press Photo.

Burhan Ozbilici trabalha para a Associated Press há 27 anos e já cobriu conflitos na Arábia Saudita, Egito e Síria.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Dica cultural – 13ª Emenda: de escravos a criminosos

Por Cléber Sérgio de Seixas

O sistema prisional de uma nação diz muito sobre seu grau de justiça social. No Brasil, o último país livre do mundo a abolir a escravidão e um dos mais desiguais do planeta, a maioria dos encarcerados é negra. Nos EUA, onde também se praticou a escravidão de forma intensiva, há hoje mais encarcerados negros do que havia de escravos em meados do século XIX. Apesar de ser a democracia que mais encarcera, os EUA ainda se intitulam o país mais livre do mundo. Isso significa que o encarceramento em massa de negros aqui e nos Estados Unidos revela uma seletividade penal em desfavor destes e redunda na transformação dos presídios em senzalas modernas. 

À libertação dos escravos nos EUA, como no Brasil, seguiu-se um processo de marginalização da população negra que tem como um de seus resultados seu encerramento em prisões. No Brasil tivemos a Lei Áurea, enquanto na terra do Tio Sam a 13ª Emenda foi a responsável por romper os grilhões dos negros. Reza sua primeira seção o seguinte: “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados...”. Na sequência é armada uma arapuca: “...salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”. É este o ponto de partida da análise de Ava DuVernay no documentário a 13ª Emenda (EUA, 2016). 

Na película a diretora trata do processo de estereotipação que identificou “ser negro” com “ser criminoso”. DuVernay também pontua como a Lei dos Três Strikes, cujo efeito prático é a prisão perpétua, muito contribui para o aumento do encarceramento, expediente extremamente lucrativo às empresas privadas que atuam no setor carcerário. Tais empresas constituem um verdadeiro complexo industrial prisional, cujas engrenagens são azeitadas pelo trabalho dos detentos. O documentário constata a perversa lógica punitivista do encarceramento, segundo a qual não basta infligir ao recluso a pena de privação de liberdade. 

Logo após o afloramento do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA, e depois da eliminação de seus expoentes (Malcolm X, Luther King, lideranças do Black Panthers) e a aprovação da Lei dos Direitos Civis, surge a famigerada guerra às drogas - em voga até o presente momento - cujo maior efeito nos EUA foi contribuir com o encarceramento em massa dos afro-americanos, um verdadeiro sistema de controle social e racial. 

Abaixo o trailer oficial do documentário.


domingo, 8 de janeiro de 2017

2016: o ano que não terminou

Amanhã vai ser outro dia

Por Cléber Sérgio de Seixas

Há algum tempo o compositor Gonzaguinha nos falou que o hoje é a semente do amanhã. De fato, o que foi feito no ano anterior refletirá no que se inicia. É normal que em meio às festividades que precedem o ano novo sejam proferidos votos de um porvir mais risonho. Contudo, a passagem de um ano a outro não se faz de forma estanque, ou seja, o que foi plantado em 2016, para o bem ou para o mal, florescerá em 2017. 

Já há quem considere que 2016 é o ano que não terminou. A alusão ao título do famoso livro de Zuenir Ventura é proposital, haja vista que alguns eventos do ano passado deixarão marcas indeléveis na estrutura sócio-político-econômica do país.

Não se pretende assumir aqui um tom pessimista, sobretudo porque o pessimismo convida à resignação e esta à inação. E inação e imobilismo são tudo o que os conservadores de plantão querem daqueles que hora mais sofrem com o status quo político e social deste nosso imenso Brasil. É oportuno frisar que a opção pelo otimismo se dá em função de não podermos nos dar ao luxo de sermos pessimistas neste cenário que reclama nosso engajamento. Como alguém já disse: “sejamos otimistas, deixemos o pessimismo para dias melhores”. 

Nesses tempos sombrios por que passamos, no entanto, impõe-se que sejamos, no mínimo, realistas. A julgar pelo momento, não são bons os augúrios para o ano que inicia, e o amanhã não promete alvíssaras. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A PEC da morte e a apatia política do brasileiro



Dormia a nossa pátria mãe
tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Chico Buarque - Vai Passar


Por Cléber Sérgio de Seixas

Se o impedimento de Dilma Rousseff, levando em conta as análises providas por juristas de renome brasileiros e estrangeiros, pode ser considerado um golpe de Estado parlamentar – um golpe branco ou “suave” – a PEC 241, também conhecida como PEC do Teto de Gastos, se aprovada pelo Senado Federal, significará o golpe dentro do golpe, semelhantemente ao que significou o AI-5 para o golpe desfechado pelos militares em 1º de abril de 1964.

Aprovada pela Câmara - não sem antes a Presidência da República ter oferecido um jantar aos deputados federais - , a PEC 241, também aprovada em primeiro turno pelo Senado como PEC 55, teria a missão de equilibrar as contas públicas. O dito equilíbrio que supostamente a dita PEC proporcionaria seria feito a expensas de medidas que, de tão impopulares, jamais fariam parte da plataforma política de um aspirante ao cargo mais alto da República. Temer, no entanto, não teme a impopularidade decorrente de propostas como as contidas na tal PEC, uma vez que não foi alçado ao poder pelas urnas. Em palestra proferida a empresários no dia 30 de setembro último em São Paulo, o presidente assim se manifestou: “Se eu ficar impopular e o Brasil crescer, eu me dou por satisfeito”. De fato, a popularidade de Temer vem caindo no mesmo ritmo em que são anunciados os pacotes de maldade de seu governo. É pouco, porém.

Soubesse a camada mais pobre da população brasileira o destino que a aguarda caso seja aprovada a Emenda Constitucional 55, tomaria as ruas de todas as cidades do país para pressionar seus parlamentares a desistirem de chancelar tal ignominiosa proposta.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

De canalhas e inocentes úteis

Dax (ao centro) e Mireau (à direita) numa das cenas de Paths of Glory

Existe um povo que a bandeira empresta 
Pr'a cobrir tanta infâmia e cobardia!
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!
Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!

Castro Alves - Navio Negreiro

Por Cléber Sérgio de Seixas

Em discurso histórico na tribuna do Senado nacional, proferido em 30 de agosto último por ocasião da votação do impedimento da Presidente Dilma naquela casa, o senador Roberto Requião (PMDB/PR), alude à reação de Tancredo Neves à declaração de vacância da Presidência da República proferida pelo senador Aldo de Moura Andrade na madrugada do fatídico 02 de abril de 1964. Naquele day after do golpe, Tancredo reagiu de forma incisiva àquela declaração e bradou: “canalha, canalha, canalha!”, referindo-se a Andrade. A alusão de Requião foi oportuna na medida em que o Brasil está, novamente, diante de um golpe de Estado. 

Paths of Glory (Stanley Kubrick, 1957) é destaque entre as películas anti-belicistas do cinema. A trama gira em torno de uma missão suicida a que são convocados soldados franceses, a qual consistia na tomada de uma posição dominada pelo exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Seduzido pela hipótese de ser condecorado e promovido caso seus subordinados realizem tal missão, o General Paul Mireau, vivido pelo ator George Macready, ordena a empreitada. Seu posicionamento em relação à missão, contudo, entra em choque com o do Coronel Dax, protagonista interpretado por Kirk Douglas. Enquanto Dax põe em relevo o custo em vidas da operação, Mireau, pragmático e maquiavélico, menospreza o sofrimento e as perdas humanas no campo de batalha, sem disfarçar sua ambição pelos louros da glória.  Um dos grandes momentos do filme fica por conta do diálogo entre Dax e Mireau, quando o primeiro faz alusão a uma célebre frase de Samuel Johnson, pensador inglês do século XVIII, qual seja: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. 

De fato, e tal como no longa de Kubrick, às vezes o patriotismo serve de guarida aos mais execráveis interesses, encobrindo com seu manto o individualismo, e confundindo projetos pessoais ou de uma classe em particular com causas coletivas. Deve-se aqui frisar que quem luta nos conflitos armados entre países não são os membros das classes abastadas e sim, e em maioria esmagadora, os representantes das subalternas, enviados ao matadouro em nome dos interesses das burguesias de suas respectivas nações, interesses aos quais é mais útil o conceito de pátria. Os trabalhadores, porém, não têm pátria, dizia o velho Marx, pelo menos não a pátria na acepção burguesa da palavra.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Dica cultural - 89 anos do julgamento de Sacco e Vanzetti

Por Cléber Sérgio de Seixas

Sacco & Vanzetti (Itália/França – 1971) é uma película que conta a história dos anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, ambos condenados à eletrocução nos EUA, no dia 23 de agosto de 1927, sob a acusação de roubo e assassinato. Dirigida por Giuliano Montaldo, trata-se de uma das maiores obras do cinema político italiano.

Sacco e Vanzetti, respectivamente um sapateiro e um peixeiro, saíram da Itália em busca do sonho americano. O que encontraram nos EUA, no entanto, foi a dura realidade do tratamento reservado a imigrantes. Utilizados como bodes expiatórios no âmbito do processo de repressão ao movimento anarquista, foram condenados injustamente pela morte de um contador e de um guarda-costas, e pelo roubo de US$ 15 mil, num julgamento cheio de armações e distorções. Foram condenados à morte apesar de o verdadeiro autor dos crimes ter sido identificado pelos advogados de defesa em 1925. Passados 50 anos, o governador do estado de Massachusetts, Michael Dukakis, divulgou um documento no qual se absolvia os dois anarquistas.

Pela sua encarnação de Nicola Sacco, o ator Riccardo Cucciolla conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 1971. Curiosidade: o grande ator italiano Gian Maria Volonté, que no filme interpretou Bartolomeo Vanzetti, era filiado ao Partido Comunista Italiano.

Num dos melhores momentos da obra, Vanzetti (Volonté) defende-se no tribunal e afirma que está ali sendo julgado por lutar contra a exploração do homem pelo homem.

Destaque para a belíssima trilha sonora de Morricone, sobretudo para a canção The Ballad of Sacco and Vanzetti interpretada por Joan Baez.

Abaixo um trecho do discurso de Vanzetti no filme de Montaldo.

domingo, 15 de maio de 2016

Um discurso temerário



Por Cléber Sérgio de Seixas

O ambiente do primeiro discurso de Michel Temer como presidente interino deu a tônica do que serão os próximos 02 anos caso o impeachment de Dilma se confirme. A julgar pelo que se viu e ouviu na última quinta-feira, depreende-se que a gestão Temer será de um governo de ricos para ricos, que privilegiará as classes mais abastadas e o rentismo, e onde as minorias não terão vez nem voz. O mise-en-scène bem que procurou transmitir austeridade ao evento, mas não conseguiu esconder o caráter conservador e elitista do novo governo. Não se viu ali nenhuma ministra mulher ou negra, pelo contrário, o staff do presidente provisório é exclusivamente composto de brancos e ricos. 

Sem trocadilhos, mas tratou-se de um discurso, para dizer o mínimo, temerário. Temer citou a crise atual por três vezes em seu pronunciamento à nação: 
- “Partidos políticos, lideranças e entidades organizadas e o povo brasileiro hão de emprestar sua colaboração para tirar o país dessa grave crise em que nos encontramos”. 
- “O Brasil, meus amigos, vive hoje sua pior crise econômica”.
Na terceira vez em que o vocábulo crise foi utilizado, Temer o fez dando a entender que durante seu governo o termo será varrido do léxico:
- “Dizia aos senhores que a partir de agora nós não podemos mais falar em crise. Trabalharemos. Aliás, há pouco tempo, eu passava por um posto de gasolina, na Castelo Branco, e o sujeito botou uma placa lá: ‘Não fale em crise, trabalhe’. Eu quero ver até se consigo espalhar essa frase em 10, 20 milhões de outdoors por todo o Brasil, porque isso cria também um clima de harmonia, de interesse, de otimismo, não é verdade? Então, não vamos falar em crise, vamos trabalhar”. 

domingo, 10 de abril de 2016

Impeachment e instabilidade

Por Cléber Sérgio de Seixas

O atual cenário político nacional é, para dizer o mínimo, preocupante. Às vésperas da votação do impeachment da presidenta Dilma Roussef algumas considerações devem ser feitas acerca da legalidade do impedimento da mandatária da nação e das intenções recônditas daqueles que clamam pelo seu afastamento.

Enquanto algumas vivandeiras tomavam as ruas clamando por uma “intervenção militar constitucional” - seja qual for o sentido disto -, a caserna esclarecia que não é seu papel imiscuir-se em assuntos jurídicos e políticos. Em 18 de março último, durante um simpósio jurídico realizado no Comando Militar da Amazônia, o Comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, afirmou que achava lamentável que num país democrático como o Brasil as pessoas só encontrem nas Forças Armadas uma possibilidade de solução da crise. O militar ponderou, ainda, “que hoje o Brasil tem instituições sólidas e amadurecidas, com capacidade de encontrar os caminhos para a saída dessa crise”. Tais declarações de Bôas derivam de seu conhecimento acerca da natureza dos golpes hodiernos. Ele sabe que hoje mídia e judiciário fazem o papel outrora reservado a tanques e fuzis. 

De fato, nesses tempos modernos a burguesia nativa pode prescindir das quarteladas para manter intacto seu status quo, haja vista que os golpes de Estado, atualmente, são de outra natureza e com outros protagonistas.