sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Dica cultural - 89 anos do julgamento de Sacco e Vanzetti

Por Cléber Sérgio de Seixas

Sacco & Vanzetti (Itália/França – 1971) é uma película que conta a história dos anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, ambos condenados à eletrocução nos EUA, no dia 23 de agosto de 1927, sob a acusação de roubo e assassinato. Dirigida por Giuliano Montaldo, trata-se de uma das maiores obras do cinema político italiano.

Sacco e Vanzetti, respectivamente um sapateiro e um peixeiro, saíram da Itália em busca do sonho americano. O que encontraram nos EUA, no entanto, foi a dura realidade do tratamento reservado a imigrantes. Utilizados como bodes expiatórios no âmbito do processo de repressão ao movimento anarquista, foram condenados injustamente pela morte de um contador e de um guarda-costas, e pelo roubo de US$ 15 mil, num julgamento cheio de armações e distorções. Foram condenados à morte apesar de o verdadeiro autor dos crimes ter sido identificado pelos advogados de defesa em 1925. Passados 50 anos, o governador do estado de Massachusetts, Michael Dukakis, divulgou um documento no qual se absolvia os dois anarquistas.

Pela sua encarnação de Nicola Sacco, o ator Riccardo Cucciolla conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes de 1971. Curiosidade: o grande ator italiano Gian Maria Volonté, que no filme interpretou Bartolomeo Vanzetti, era filiado ao Partido Comunista Italiano.

Num dos melhores momentos da obra, Vanzetti (Volonté) defende-se no tribunal e afirma que está ali sendo julgado por lutar contra a exploração do homem pelo homem.

Destaque para a belíssima trilha sonora de Morricone, sobretudo para a canção The Ballad of Sacco and Vanzetti interpretada por Joan Baez.

Abaixo o trecho do discurso de Vanzetti.

domingo, 15 de maio de 2016

Um discurso temerário



Por Cléber Sérgio de Seixas

O ambiente do primeiro discurso de Michel Temer como presidente interino deu a tônica do que serão os próximos 02 anos caso o impeachment de Dilma se confirme. A julgar pelo que se viu e ouviu na última quinta-feira, depreende-se que a gestão Temer será de um governo de ricos para ricos, que privilegiará as classes mais abastadas e o rentismo, e onde as minorias não terão vez nem voz. O mise-en-scène bem que procurou transmitir austeridade ao evento, mas não conseguiu esconder o caráter conservador e elitista do novo governo. Não se viu ali nenhuma ministra mulher ou negra, pelo contrário, o staff do presidente provisório é exclusivamente composto de brancos e ricos. 

Sem trocadilhos, mas tratou-se de um discurso, para dizer o mínimo, temerário. Temer citou a crise atual por três vezes em seu pronunciamento à nação: 
- “Partidos políticos, lideranças e entidades organizadas e o povo brasileiro hão de emprestar sua colaboração para tirar o país dessa grave crise em que nos encontramos”. 
- “O Brasil, meus amigos, vive hoje sua pior crise econômica”.
Na terceira vez em que o vocábulo crise foi utilizado, Temer o fez dando a entender que durante seu governo o termo será varrido do léxico:
- “Dizia aos senhores que a partir de agora nós não podemos mais falar em crise. Trabalharemos. Aliás, há pouco tempo, eu passava por um posto de gasolina, na Castelo Branco, e o sujeito botou uma placa lá: ‘Não fale em crise, trabalhe’. Eu quero ver até se consigo espalhar essa frase em 10, 20 milhões de outdoors por todo o Brasil, porque isso cria também um clima de harmonia, de interesse, de otimismo, não é verdade? Então, não vamos falar em crise, vamos trabalhar”. 

domingo, 10 de abril de 2016

Impeachment e instabilidade

Por Cléber Sérgio de Seixas

O atual cenário político nacional é, para dizer o mínimo, preocupante. Às vésperas da votação do impeachment da presidenta Dilma Roussef algumas considerações devem ser feitas acerca da legalidade do impedimento da mandatária da nação e das intenções recônditas daqueles que clamam pelo seu afastamento.

Enquanto algumas vivandeiras tomavam as ruas clamando por uma “intervenção militar constitucional” - seja qual for o sentido disto -, a caserna esclarecia que não é seu papel imiscuir-se em assuntos jurídicos e políticos. Em 18 de março último, durante um simpósio jurídico realizado no Comando Militar da Amazônia, o Comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Bôas, afirmou que achava lamentável que num país democrático como o Brasil as pessoas só encontrem nas Forças Armadas uma possibilidade de solução da crise. O militar ponderou, ainda, “que hoje o Brasil tem instituições sólidas e amadurecidas, com capacidade de encontrar os caminhos para a saída dessa crise”. Tais declarações de Bôas derivam de seu conhecimento acerca da natureza dos golpes hodiernos. Ele sabe que hoje mídia e judiciário fazem o papel outrora reservado a tanques e fuzis. 

De fato, nesses tempos modernos a burguesia nativa pode prescindir das quarteladas para manter intacto seu status quo, haja vista que os golpes de Estado, atualmente, são de outra natureza e com outros protagonistas. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Fotos e Fatos - o grito de um corpo silencioso


Foto: Nilufer Demir - DHA


Por Cléber Sérgio de Seixas

A foto do menino sírio Aylan Kurdi morto e de bruços numa praia turca expôs de forma contundente não somente o drama dos refugiados sírios, fugitivos da guerra que assola seu país, como também de todos os imigrantes que deixam suas pátrias fugindo da fome, das guerras e dos genocídios, em busca de abrigo em países europeus mais desenvolvidos. Aqueles que conseguem romper as fronteiras dessas nações, nem sempre encontram boa guarida, haja vista que uma nova onda de xenofobia, intensificada pela crise econômica e por ataques terroristas em solo europeu, atinge a Zona do Euro. 

Enquanto o capital transnacional prossegue tornando as fronteiras mais porosas a seus interesses, moldando a política e a economia dos países que se rendem às suas investidas, ergue muros para deter o avanço de refugiados, sobretudo os oriundos da África e do Oriente Médio. Em síntese: dólares são bem-vindos, estrangeiros não; pode-se exaurir as riquezas minerais de uma nação africana, mas se uma catástrofe humana obrigar seus cidadãos a buscar refúgio num país europeu, as fronteiras serão logo fechadas em nome da segurança nacional.

A impossibilidade de se entrar legalmente obriga muitos a se lançarem nas águas do Mare Nostrum e adjacentes, viagens que produzem mais náufragos que navegantes. Foi o que aconteceu com a família de Abdullah Kurdi. No dia 02 de setembro de 2015, o barco em que navegavam a família de Kurdi e mais 08 pessoas rumo à Grécia afundou no Mar Egeu, próximo às praias de Bodrum, Turquia. No acidente, Abdullah perdeu os dois filhos e a esposa.

No mesmo dia, a lente da fotógrafa turca Nilufer Demir (DHA) captava a imagem da criança síria, morta aos 03 anos. Em entrevista à CNN, Nilufer afirmou que hesitou em registrar as imagens ao chegar à praia de Bodrum, mas mudou de ideia ao ver o cadáver de Aylan Kurdi estendido na praia. Segundo ela, fotografar aquilo seria a única forma de expressar o grito daquele corpo silencioso. 

Apesar da comoção oriunda da divulgação da foto, a tragédia dos refugiados continua.

Aylan Kurdi se foi, mas seu grito ainda ecoa, aguardando ser ouvido por parte da humanidade que é surda às tragédias dos povos da periferia do mundo. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Um salto no abismo


Por Cléber Sérgio de Seixas

O fim do kirchnerismo na Argentina e o resultado das eleições na Venezuela, com a oposição ao chavismo assumindo a maioria das cadeiras na Assembléia Nacional, assanhou a mídia tupiniquim, ansiosa por um efeito dominó que resulte na debacle de todos os governos pós-neoliberais da América Latina. 

Aqui na Terra Brasilis respira-se os ares de um golpe branco por conta do pedido de impeachment da presidenta Dilma acolhido pelo presidente da Câmara. Ficou claro que o pedido protocolado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, e aceito por Eduardo Cunha, foi uma retaliação deste ao PT ao saber que os deputados petistas votariam contra ele na Comissão de Ética da Câmara, onde será investigado por quebra de decoro parlamentar. A vendetta é confirmada quando se constata que Cunha, havia meses, colecionava pedidos de impeachment em sua gaveta e, duas horas após saber da decisão dos deputados do PT, resolveu dar andamento a um deles.

Enquanto Eduardo Cunha fazia manobras para salvar seu mandato e, por outro lado, para abreviar os dias de Dilma no Planalto, veio à tona uma carta aberta do vice Michel Temer em cujo teor o presidente do PMDB, praticamente, rompe com o Planalto. Nesse interregno, foi divulgado o documento “Uma Ponte para o Futuro” - espécie de plano de governo do PMDB numa eventual substituição de Dilma por Temer via impeachment da Presidenta. Assinado pela Fundação Ulisses Guimarães, o documento traz propostas que fariam o desenvolvimentista Celso Furtado revirar-se em seu túmulo. Na carta-rompimento, Temer ousa afirmar que se trata de um programa “aplaudido pela sociedade”. Antes de passar à análise do que é proposto no supramencionado documento ou aplaudi-lo, faz-se necessário situar, brevemente, o PMDB no atual cenário político nacional.

sábado, 14 de novembro de 2015

O que está em jogo



Por Boaventura de Sousa Santos

O fenômeno não é só português. É global, embora em cada país assuma uma manifestação específica. Consiste na agressividade inusitada com que a direita enfrenta qualquer desafio a sua dominação, agressividade expressada em uma linguagem abusiva e recorrendo a táticas que beiram os limites do jogo democrático: manipulação do medo para eliminar a esperança, falsidades proclamadas como verdades sociológicas, destempero emocional na confrontação de ideias, etc. Por direita entendo o conjunto das forças sociais, econômicas e políticas que se identificam com os desígnios globais do capitalismo neoliberal e com o que isto implica em termos de políticas nacionais, do aumento das desigualdades sociais, da destruição do Estado de bem-estar, do controle dos meios de comunicação e do estreitamento da pluralidade do espectro político. De onde vem este radicalismo exercido pelos políticos e comentaristas que até a pouco pareciam moderados, pragmáticos, realistas com ideias ou idealistas sem ilusões? Em Portugal estamos entrando na segunda fase de implementação global do neoliberalismo. A escala mundial deste modelo econômico, social e político apresenta as seguintes características: priorização da lógica do mercado na regulação não só da economia, mas também da sociedade em seu conjunto; privatização da economia e liberalização do comércio internacional; demonização do Estado como regulador da economia e promotor de políticas sociais; concentração da regulação econômica global em duas instituições multilaterais, ambas dominadas pelo capitalismo euro-norteamericano (o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional) em detrimento das agências da ONU que anteriormente supervisionavam a situação global; desregulação dos mercados financeiros, substituição da regulação econômica estatal (hard law) pela auto-regulação controlada pelas empresas multinacionais (soft law). 

A partir da queda do muro de Berlim, este modelo foi assumido como a única alternativa possível de regulação social e econômica. Desde então, o objetivo foi transformar a dominação em hegemonia, ou seja, fazer com que inclusive os grupos sociais prejudicados por este modelo sejam induzidos a pensar que era o melhor para eles. E, de fato, nos últimos 30 anos este modelo tem conseguido grandes êxitos, um dos quais foi haver sido adotado na Europa por dois importantes partidos social-democratas (o Trabalhista britânico de Tony Blair e o Social Democrata alemão de Gerhard Schroder) e ter conseguido dominar a lógica das instituições europeias (Comissão e BCE). 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dica cultural - Lula e as lutas sindicais

Por Cléber Sérgio de Seixas

Apesar de o regime militar já estar em seus estertores nos anos finais da década de 70 e início dos anos 80, fazer greve em plena ditadura não era uma empreitada aconselhável, sobretudo à luz do que ocorrera ao operário Manuel Fiel Filho. Os sindicalistas de São Bernardo do Campo - SP ignoraram o risco e, aspirando a melhores salários e condições de trabalho, deflagraram uma onda de greves na região mais industrializada do Brasil. 

As lendárias greves operárias do ABC paulista prestaram enorme contribuição ao sindicalismo nacional e fomentaram a criação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT). 

À frente dos grevistas, Luiz Inácio da Silva, um retirante nordestino que se tornou operário, sindicalista, parlamentar e, mais tarde, o maior presidente deste país. 

Nestes três documentários um pouco da história recente do sindicalismo brasileiro e da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, o aniversariante do dia. 

Parabéns a Lula e aos trabalhadores brasileiros!



terça-feira, 13 de outubro de 2015

O banho do cidadão não é o culpado


A tragédia do Mar de Aral deve servir de alerta

Por Cléber Sérgio de Seixas

A racionalidade no consumo de água deve ser uma realidade no cotidiano de qualquer cidadão, não importa em que parte do Globo se encontre ou qual seja sua condição socioeconômica, e deve levar em conta tanto a finitude do “ouro azul” quanto sua importância para a sobrevivência dos seres vivos. Se o surgimento de água e o aumento dos oceanos forneceram o ambiente para que a vida proliferasse em nosso planeta, a diminuição desse bem precioso pode anunciar o início do fim das espécies.

Ultimamente, a parcimônia no consumo da água tem sido estimulada em função de premissas que revelar-se-ão falsas se postas sob a lupa de análises honestas. No contexto da estiagem, aqui e acolá, os brasileiros, sobretudo os do sudeste, têm sido instados a serem ligeiros no banho, a deixarem abertas as torneiras por menos tempo e, se possível, a reutilizarem suas águas. Súbito, uma preocupação que inexistiu no imaginário popular por décadas floresce como que no ritmo do crescimento dos cogumelos, a ponto de quase tornar-se um lugar-comum. 

A mídia representa a quem?

Por Jeferson Malaguti Soares *

“Grupos de atores políticos, defensores de seus próprios interesses e dos seus financiadores”. Essa é a mais completa definição da imprensa no planeta. A nossa nada fica a dever. A “opinião pública” nada mais é que a opinião dos donos midiáticos. Os principais grupos da mídia reivindicam a representação da opinião pública, em detrimento dos canais institucionais para tal: partidos políticos, governos e o legislativo.

Segundo a ética jornalistica, a mídia nunca pode se colocar na posição de porta-voz da opinião pública. Aqui então no Brasil isto deveria ser seguido à risca, haja vista nossa imprensa ter características de forte concentração nas mãos de algumas poucas famílias, formando um oligopólio de interesses particulares.

A mídia não se apresentou em nenhuma eleição. Não se candidatou. Não foi eleita. Não tem a legitimidade concedida pela vontade popular. Ao contrário, ela quer influenciar, formar, moldar a vontade popular. A opinião pública é a opinião da minoria que detém o poder da informação.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Fotos e Fatos - a ambiguidade de Jânio



Por Cléber Sérgio de Seixas

Dizem que agosto é o mês do cachorro louco. A má fama do oitavo mês do ano é tributária de acontecimentos funestos como o início da Primeira Guerra Mundial; a detonação de duas bombas nucleares sobre o Japão, marcando o fim da 2ª Guerra Mundial; o início da construção do Muro de Berlim, entre outros. No Brasil, dois eventos corroboram essa má reputação: o suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, e a renúncia de Jânio. 

Há exatos 54 anos renunciava Jânio Quadros. “Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. (...) Forças terríveis levantam-se contra mim e me intrigam ou infamam...” - desabafava o presidente em sua carta renúncia.  Ainda hoje são misteriosas as causas da renúncia do 22º presidente do Brasil, que chegou ao poder sob os afagos da UDN de Carlos Lacerda. Tampouco são conhecidas as “forças terríveis” a que Quadros se referia. Alguns analistas especulam que Jânio, pressionado pelos espectros direito e esquerdo da política nacional, optou pela renúncia como saída estratégica visando a uma hipotética volta ao poder nos braços do povo. 

O governo de Jânio – que durou apenas 08 meses – foi marcado por muitas ambiguidades. Se, de um lado, Jânio foi capaz de condecorar Ernesto Che Guevara com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, além de restabelecer relações comerciais e diplomáticas com a URSS e a China, em plena Guerra Fria, de outro, reprimiu movimentos de esquerda e congelou salários, sem falar de anedóticas medidas como as proibições do uso de biquínis em transmissões televisivas de concursos de miss, das rinhas de galo e do uso de lança-perfume em bailes de carnaval. 

Em 21 de abril de 1961 o fotógrafo gaúcho Erno Schneider cobria o encontro de Jânio com o presidente argentino, Arturo Frondizi, que se daria sobre uma ponte que ligava as cidades de Uruguaiana (RS) e Libres, Argentina. No meio do evento, um tumulto assustou o presidente brasileiro, que se voltou, mas com as pernas enviesadas. Um clique congelou a imagem que sintetiza bem um governo que não sabia se ia para a direita, para a esquerda ou se permanecia no centro. 

A fotografia rendeu a Schneider o Prêmio Esso de Jornalismo de 1962 e o sagrou como um dos maiores fotógrafos brasileiros.