29 de novembro de 2009

SUCESSÃO SEM RESPALDO

Reportagem de Heloísa Vilela no portal R7

TEGUCIGALPA -- O hospital público, no centro da capital de Honduras, é simples. A enfermaria infantil, com seis camas, um forno! Mas Angel David, de treze anos, não reclama de nada.

Muito magro, um bocado tímido, ele levanta a bata para mostrar a cicatriz que vai de um lado a outro do abdômen. Ele está se recuperando da segunda operação para contornar os danos provocados pela bala que o atingiu, pelas costas, no dia vinte e um de setembro.

Naquela noite, vigorava o toque de recolher imposto pela ditadura hondurenha. E ele estava a caminho de casa com o pai e o irmão mais velho.

Angel vai ter alta neste sábado. E a mãe dele, Dona Neli Rodriguez, disse que a família toda vai ficar em casa no domingo. Adultos e crianças. Nada de votar. Dona Neli tem quatro filhos e mais um a caminho que nascerá em abril.

Um ano depois do aumento de sessenta por cento do salário mínimo, concedido pelo presidente deposto Manuel Zelaya que, dois meses depois, foi deposto por um golpe de estado.

Dona Neli chora muito quando fala das eleições e de Zelaya. Apesar da gravidez, que quase sempre enche as mulheres de sonhos e esperanças, ela confessa um grande desânimo com relação ao futuro. Diz que gostaria muito que o próximo presidente “fosse a favor das pessoas pobres”. Que lutasse por elas.

Mas depois do que aconteceu com o filho, ela tem medo de sair, raiva do regime que deixou o menino no hospital e não acredita na legitimidade do processo eleitoral organizado pelos golpistas.

Ela não está sozinha. A grande maioria dos governos das Américas também acha que o resultado das urnas não deve ser reconhecido. Mas a Casa Branca avisou, há semanas, que vai reconhecer como presidente o vencedor das eleições e conseguiu atrair para a mesma posição os governos do Peru, do Panamá e da Costa Rica.

A Organização dos Estados Americanos, que se uniu em voto unânime para condenar o golpe, agora está dividida.

Aqui em Tegucigalpa, as opiniões também são variadas. Na banquinha que distribuía material de campanha do líder das pesquisas, Porfirio Lobo, chamado de Pepe, representante do partido conservador, uma senhora explicou que gostava de Zelaya. Das medidas que ele tomou para aliviar a pobreza.

Mas acha que ele se tornou próximo demais do venezuelano Hugo Chávez. Esse é o principal tema da campanha dos golpistas contra o presidente.

No trânsito infernal da sexta-feira, um homem ao volante me disse que vai votar no domingo porque quer paz e a volta da democracia. Sobre o golpe de estado, reagiu: “não houve nenhum golpe aqui”.

O regime de Roberto Michelleti tomou providências para garantir a eleição e produzir uma imagem de legitimidade. Convidou “monitores independentes”. Cerca de trezentos aceitaram o convite. A ONU, a OEA e a Uniao Europeia se recusaram a enviar observadores internacionais.

Mas o ex-presidente direitista de El Salvador, Armando Calderón, e o também direitista, Jorge Quiroga, ex-presidente da Bolívia (por um ano), derrotado nas últimas eleições, fazem parte dos monitores convidados.

Armando Calderón não gostou da pergunta a respeito da ausência de monitores das organizações internacionais. E acusou a OEA de ser uma instituição de esquerda, manipulada por Hugo Chávez. E a ONU? “Ela segue a OEA”, afirmou.

As organizações de direitos humanos estão preocupadas. As medidas de intimidação se multiplicam. Vários líderes do movimento de resistência ao golpe foram presos nos últimos dias. Alguns por poucas horas. Outros, por mais de um dia.

Todos sem nenhuma explicação a não ser o fato de serem contra as eleições. Quatro bombas já explodiram esta semana, em diferentes partes do país. Bertha Oliva, da Confederação de Direitos Humanos de Honduras, acredita que todas elas foram lançadas para criar um clima de medo e instabilidade e, assim, justificar as medidas repressoras do regime.

Um script antigo… Quem não se lembra da bomba do Riocentro?

É por essas e por outras que muita gente vai ficar em casa no domingo. E o movimento de resistência ao golpe convocou um toque de recolher popular. Pede a todos que fiquem em casa das seis da manhã às seis da tarde de domingo. Assim, não votam nem correm risco de morte.

27 de novembro de 2009

Presos quatro dos dez indiciados no Sindicato de Trabalhadores Rurais de Sabinópolis


Policiais estiveram nesta quinta-feira (26), às seis horas da manhã, nas residências de Afonso da Aparecida dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sabinópolis, e de seus filhos Riller Tadim dos Santos e Ricardo Darques dos Santos e ainda da funcionária do escritório em Materlândia, Maria Aparecida Pereira Costa de Jesus para cumprir mandado de prisão contra eles.

Ao todo, dez pessoas foram indiciadas, entre elas, toda a família do Afonso, que trabalha no sindicato, e funcionários. Eles são acusados por dez crimes: formação de quadrilha, extorsão, peculato, estelionato, apropriação indébita e falsidade ideológica. Todos os crimes, segundo investigações, foram cometidos contra o próprio Sindicato dos Trabalhadores Rurais e aposentados sindicalizados.

O mandado foi cumprido pelo novo delegado de Sabinópolis, Rômulo Guimarães Dias. Segundo o promotor de justiça Márcio Kakumoto, houve um pedido da decretação de prisão preventiva pelo delegado Welbert de Souza Santos, para Afonso e Ricardo, por ocuparem cargos "chaves" dentro do sindicato. Ricardo, o filho do presidente do sindicato, ocupa o cargo de chefe do setor contábil.

Ao receber o pedido, o promotor incluiu o requerimento de prisão do outro filho, Riller Tadim e ainda da funcionária Maria Aparecida Pereira. Isso, porque segundo Márcio Kakumoto, mesmo depois de indiciados, eles teriam continuado a extorquir os aposentados.

"Todos os atos constam no inquérito policial, que começou dentro do Ministério Público. Eu dei início à investigação e encaminhei para que o delegado Welbert finalizasse e isso foi feito", comentou o promotor de justiça Márcio Kakumoto.

Ainda segundo informações do promotor, o juiz Marcelo Fioravante, que substitui em Sabinópolis, aceitou todo o pedido para decretação da prisão preventiva dos quatro. "Agora eles vão continuar presos durante toda a tramitação do processo.", disse Márcio Kakumoto.

Fonte: Jornão Folha de Guanhães Online

26 de novembro de 2009

O CORRUPTÔMETRO

Por Frei Betto

A Transparência Internacional divulgou, dia 17, na Alemanha, o índice de corrupção no mundo. Numa escala de 0 (sem corrupção) a 10 (haja lanterna de Diógenes para descobrir um honesto!), o Brasil mereceu 3,7 pontos. Avançou da 80ª posição para a 75ª, entre as 180 nações analisadas. Nosso país se equipara, agora, à Colômbia, ao Peru e ao Suriname. O país onde há menos corrupção é a Nova Zelândia.

Por que há tanta corrupção no Brasil? Temos leis, sistema judiciário, polícias e mídia atenta. Prevalece, entretanto, a impunidade – a mãe dos corruptos. Você conhece o nome de um notório corrupto brasileiro? Ele foi processado e está na cadeia?

Padre Vieira, no sermão em homenagem à festa de Santo Antônio, em 1654, indagava: "O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?". A seu ver, havia duas causas principais: a contradição de quem deveria salgar e a incredulidade do povo diante de tantos atos que não correspondiam às palavras.

O corrupto se caracteriza por não se admitir como tal. Esperto, age movido pela ambição de dinheiro. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, desses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. Anzol sem isca peixe não belisca.

O corrupto não se expõe; extorque. Considera a comissão um direito; a porcentagem, pagamento por serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence; o caixa dois, investimento eleitoral. Bobos aqueles que fazem tráfico de influência sem tirar proveito.

Há muitos tipos de corruptos. O corrupto oficial se vale da função pública para tirar proveitos para si, a família e os amigos. Troca a placa do carro, embarca a mulher com passagem custeada pelo erário, usa cartão de crédito debitável no orçamento do Estado, faz gastos e obriga o contribuinte a pagá-los. Considera natural o superfaturamento, a ausência de licitação, a concorrência com cartas marcadas.

A lógica do corrupto é corrupta: "Se não aproveito, outro leva vantagem em meu lugar". Seu único temor é ser apanhado em flagrante delito. Não se envergonha de se olhar no espelho, apenas teme ver o nome estampado nos jornais. Confiante, jamais imagina a filha pequena a indagar-lhe: "Papai, é verdade que você é corrupto?".

O corrupto não sente nenhum escrúpulo em dar ou receber caixas de uísque no Natal, presentes caros de fornecedores ou patrocinar férias de juízes. Afrouxam-lhe com agrados e, assim, ele relaxa a burocracia que retém as verbas públicas.

Há o corrupto privado. Jamais menciona quantias, tão somente insinua, cauteloso. Assim, torna-se o rei da metáfora. Nunca é direto. Fala em circunlóquios, seguro de que o interlocutor saberá ler nas entrelinhas.

O corrupto franciscano pratica o toma lá, dá cá. Seu lema é "quem não chora, não mama". Não ostenta riquezas, não viaja ao exterior, faz-se de pobretão para melhor encobrir a maracutaia. É o primeiro a indignar-se quando o assunto é a corrupção que grassa pelo país.

O corrupto exibido gasta o que não ganha, constrói mansões e castelos, enche o latifúndio de bois, convencido de que puxa-saquismo é amizade e sorriso cúmplice, cegueira. Vangloria-se de sua astúcia ao enganar e mentir.

O corrupto nostálgico orgulha-se do pai ferroviário, da mãe professora, da origem humilde na roça, mas está intimamente convencido de que, tivessem as mesmas oportunidades de meter a mão na cumbuca, seus antepassados não deixariam passar.

O corrupto previdente, calculista, já está de olho na Copa do Mundo no Brasil, em 2014, e nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Ele sabe que os jogos Pan-americanos no Rio, em 2007, tiveram orçamento de R$ 800 milhões e consumiram R$ 4 bilhões.

O corrupto não sorri, agrada; não cumprimenta, estende a mão; não elogia, incensa; não tem valores, apenas saldo bancário. De tal modo se corrompe que nem mais percebe que é um corrupto. Julga-se um negocista bem-sucedido.

Melífluo, o corrupto é cheio de dedos, encosta-se nos honestos para se lhe aproveitar a sombra, trata os subalternos com uma dureza que o faz parecer o mais íntegro dos seres humanos. Aliás, o corrupto acredita piamente que todos o consideram de uma lisura capaz de causar inveja em madre Teresa de Calcutá.

O corrupto se julga dotado de uma inteligência que o livra do mundo dos ingênuos e torna-o mais arguto e esperto do que o comum dos mortais.

Enquanto os corruptos brasileiros não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem podemos impedi-los de ser eleitos para funções públicas.


Frei Betto é escritor, autor do romance Um homem chamado Jesus, lançamento da Editora Rocco.

Fonte: Jornal Estado de Minas

25 de novembro de 2009

A SANHA DO TORTURADOR

Por Camila Alam

Ganha as telas brasileiras no próximo dia 27 o filme que maior comoção causa entre os espectadores de documentários sobre a história recente do País. Vencedor da 14ª edição do festival É Tudo Verdade, Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, gira em torno da participação de grandes empresários no financiamento das ações do Exército durante a ditadura. O principal deles, e figura central deste longa, foi Henning Albert Boilesen, dinamarquês naturalizado brasileiro, presidente da Ultragaz na década de 1960.

No longa, o diretor Litewski aborda o tema de maneira interessante, com trilha sonora animada e edição moderna. Resultado de pesquisa extensa, a trajetória de Boilesen é contada desde a infância, com a ajuda de arquivos escolares municipais, reveladores, desde cedo, de uma personalidade dúbia do protagonista.
Conhecido por amigos como pessoa bem-humorada, um líder nato, Boilesen por vezes era cruel, frio. Chegou ao Brasil pobre, mas rapidamente, e por méritos próprios, tornou-se presidente de uma das maiores companhias da época. Frequentava colunas sociais, adorava bailes, caipirinhas e mulatas. Anticomunista, teria sido o maior entusiasta da “caixinha” entre os empresários brasileiros – sobretudo paulistanos – para financiar a Operação Bandeirante, criada pelo Exército. Boilesen teria participado pessoalmente de sessões de tortura, sendo responsável por trazer ao País um aparelho de choques elétricos mais moderno, tempos depois conhecido como Pianola Boilesen.

Por meio de depoimentos diferentes, Cidadão Boilesen traça um perfil do empresário até a sua morte, em 1971, quando fora encurralado e executado por militantes da ANL e MRT em uma rua próxima à avenida Paulista, em São Paulo. Carlos Eugênio Paz, líder da ação e um dos poucos sobreviventes do grupo, fala com detalhes sobre o dia da morte do empresário. O depoimento de ex-militares, políticos, religiosos, guerrilheiros, amigos e parentes estão mesclados a cenas de ficção de longas como Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, e Lamarca, de Sérgio Rezende. A narrativa por vezes deixa escapar sutilmente um quê de ironia, resultado da fala descuidada de alguns entrevistados.



Camila Alam é colunista da revista Carta Capital

23 de novembro de 2009

ADEUS, FHC!


Fernando Henrique Cardoso foi um presidente da República limítrofe, transformado, quase sem luta, em uma marionete das elites mais violentas e atrasadas do país. Era uma vistosa autoridade entronizada no Palácio do Planalto, cheia de diplomas e títulos honoris causa, mas condenada a ser puxada nos arreios por Antonio Carlos Magalhães e aquela sua entourage sinistra, cruel e sorridente, colocada, bem colocada, nas engrenagens do Estado. Eleito nas asas do Plano Real – idealizado, elaborado e colocado em prática pelo presidente Itamar Franco –, FHC notabilizou-se, no fim das contas, por ter sido co-partícipe do desmonte aleatório e irrecuperável desse mesmo Estado brasileiro, ao qual tratou com desprezo intelectual, para não dizer vilania, a julgá-lo um empecilho aos planos da Nova Ordem, expedida pelos americanos, os patrões de sempre.

Em nome de uma política nebulosa emanada do chamado Consenso de Washington, mas genericamente classificada, simplesmente, de “privatização”, Fernando Henrique promoveu uma ocupação privada no Estado, a tirar do estômago do doente o alimento que ainda lhe restava, em nome de uma eficiência a ser distribuída em enormes lucros, aos quais, por motivos óbvios, o eleitor nunca tem acesso.

Das eleições de 1994 surgiu esse esboço de FHC que ainda vemos no noticiário, um antípoda do mítico “príncipe dos sociólogos” brotado de um ninho de oposição que prometia, para o futuro do Brasil, a voz de um homem formado na adversidade do AI-5 e de outras coturnadas de então. Sobrou-nos, porém, o homem que escolheu o PFL na hora de governar, sigla a quem recorreu, no velho estilo de república de bananas, para controlar a agenda do Congresso Nacional, ora com ACM, no Senado, ora com Luís Eduardo Magalhães, o filho do coronel, na Câmara dos Deputados. Dessa tristeza política resultou um processo de reeleição açodado e oportunista, gerido na bacia das almas dos votos comprados e sustentado numa fraude cambial que resultou na falência do País e no retorno humilhante ao patíbulo do FMI.

Isso tudo já seria um legado e tanto, mas FHC ainda nos fez o favor de, antes de ir embora, designar Gilmar Mendes para o Supremo Tribunal Federal, o que, nas atuais circunstâncias, dispensa qualquer comentário.

Em 1994, rodei uns bons rincões do Brasil atrás do candidato Fernando Henrique, como repórter do Jornal do Brasil. Lembro de ver FHC inaugurando uma bica (isso mesmo, uma bica!) de água em Canudos, na Bahia, ao lado de ACM, por quem tinha os braços levantados para o alto, a saudar a miséria, literalmente, pelas mãos daquele que se sagrou como mestre em perpetuá-la. Numa tarde sufocante, durante uma visita ao sertão pernambucano, ouvi FHC contar a uma platéia de camponeses, que, por causa da ditadura militar, havia sido expulso da USP e, assim, perdido a cátedra. Falou isso para um grupo de agricultores pobres, ignorantes e estupefatos, empurrados pelas lideranças pefelistas locais a um galpão a servir de tribuna ao grande sociólogo do Plano Real. Uns riram, outros se entreolharam, eu gargalhei: “perder a cátedra”, naquele momento, diante daquela gente simples, soou como uma espécie de abuso sexual recorrente nas cadeias brasileiras. Mas FHC não falava para aquela gente, mas para quem se supunha dono dela.

Hoje, FHC virou uma espécie de ressentido profissional, a destilar o fel da inveja que tem do presidente Lula, já sem nenhum pudor, em entrevistas e artigos de jornal, justamente onde ainda encontra gente disposta a lhe dar espaço e ouvidos. Como em 1998, às vésperas da reeleição, quando foi flagrado em um grampo ilegal feito nos telefones do BNDES. Empavonado, comentava, em tom de galhofa, com o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, das Comunicações, da subserviência da mídia que o apoiava acriticamente, em meio a turbilhão de escândalos que se ensaiava durante as privatizações de então:

Mendonça de Barros – A imprensa está muito favorável com editoriais.

FHC – Está demais, né? Estão exagerando, até!

A mesma mídia, capitaneada por um colunismo de viúvas, continua favorável a FHC. Exagerando, até. A diferença é que essa mesma mídia – e, em certos casos, os mesmos colunistas – não tem mais relevância alguma.

Resta-nos este enredo de ópera-bufa no qual, no fim do último ato, o príncipe caído reconhece a existência do filho bastardo, 18 anos depois de tê-lo mandado ao desterro, no bucho da mãe, com a ajuda e a cumplicidade de uma emissora de tevê concessionária do Estado – de quem, portanto, passou dois mandatos presidenciais como refém e serviçal.

Agora, às portas do esquecimento, escondido no quarto dos fundos pelos tucanos, como um parente esclerosado de quem a família passou do orgulho à vergonha, FHC decidiu recorrer à maconha.

A meu ver, um pouco tarde demais.

22 de novembro de 2009

O PERÍODO ENTRE MUROS

Por Cléber Sérgio de Seixas

No fim da década de 80, o mundo passou por profundas mudanças que romperam com paradigmas há muito arraigados. Um dos indivíduos que cooperaram para estas mudanças foi um senhor nascido numa cidade russa chamada Stavropol. O homem cuja marca registrada era uma mancha na cabeça calva angariou a simpatia do ocidente quando abriu a caixa preta do socialismo soviético para o mundo, desnudando-lhe as mazelas e mostrando que aquele sistema fazia água por todos os lados. Seu nome era Mikhail Serguéievich Gorbachev. O ocidente apelidou-o carinhosamente de Gorby. O diriginte soviético tinha bom trânsito em países capitalistas, sobretudo nos EUA. Nunca um político comunista fora tão bem visto pelas nações que integravam a aliança militar da OTAN. Reagan era só risos para Gorby, sobretudo porque este último assinara com ele vários acordos militares de diminuição de armas estratégicas, pondo fim aos temores de uma tão propalada guerra nuclear.

Gorbachev abdicara de continuar a manter a União Soviética na corrida armamentista porque os gastos militares estavam arruinando a economia do país e causando insatisfação popular. Para retirar o elefante branco soviético do atoleiro do atraso econômico, tecnológico e social, Gorbachev instituiu a Perestroika e a Glasnost, respectivamente reestruturação e transparência. A Perestroika foi iniciada em 1986 e pretendia impor um maior dinamismo à economia, introduzindo mecanismos que estimulassem a livre iniciativa, acabando com o monopólio estatal e descentralizando as operações empresariais. A Glasnost acabou com a burocracia política, combateu a corrupção, permitiu a liberdade de imprensa e libertou alguns dissidentes políticos. O saldo de todas estas transformações foi o fim da União Soviética, que em 1991 se desintegrou em várias repúblicas.

No rastro do fim da URSS, vários países do leste europeu romperam com o paradigma socialista e fizeram sua opção pelo regime de mercado, abandonando a planificação econômica. Antes do fim da URSS, porém, a Alemanha já tinha se reunificado, pondo abaixo aquilo que era considerado o maior símbolo da polarização do mundo entre comunismo e capitalismo. A queda do muro fora saldada como a derrocada do socialismo, sendo que muitos foram além e consideraram o fato como o triunfo do capitalismo. Nesse contexto o grupo de rock alemão ocidental Scorpions cantava a música Wind of Change para celebrar o vento de mudança que varria o leste europeu.



A indagação que deve ser feita 20 anos depois da queda do Muro de Berlim é por que o socialismo veio abaixo no leste europeu. Em seu livro A Mosca Azul, Frei Betto responde a pergunta da seguinte forma: “O capitalismo tem a esperteza de socializar o sonho (vide Hollywood) e privatizar os bens materiais, sobretudo a renda. O socialismo cometeu o erro contrário: socializou os bens materiais e a renda, mas privatizou o sonho. Só o Birô Político podia sonhar, assim mesmo dentro dos cânones. Os demais – artistas, intelectuais, sindicalistas, religiosos – deveriam sonhar os sonhos dos chefes do Partido ou suportar em silêncio seus pesadelos. (...) O marxismo idealista, ao elevar o Estado à condição de Espírito Absoluto, tratou de incorporar o pobretariado às vias de acesso da inclusão social (educação, saúde, trabalho etc), porém ao preço de destituí-lo de seu direito de crítica ao acesso ao Estado.”

De lá para cá o que vimos foi a unipolarização do mundo, com o crescente fortalecimento dos EUA no cenário internacional e, por conseguinte, do american way of life. Pode-se afirmar com toda a segurança que os Estados Unidos são hoje hegemônicos no quesito militar e econômico, apesar dos últimos reveses decorrentes da recente crise.

Com o avanço das tecnologias das comunicações, o fenômeno conhecido como globalização é fortalecido. Sob a égide de tal fenômeno, a soberania dos Estados é ignorada, as fronteiras nacionais são desrespeitadas, as empresas e a mídia passam a operar na geografia mundial como se o fizessem em suas sedes. A concorrência empresarial desaparece dando lugar a um fenômeno muito comum antes da crise de 1929: os oligopólios e as mega-empresas, que controlam de bancos a fábricas de roupas, de redes de lanchonetes a clubes de futebol, de fábricas de produtos químicos a fábricas de veículos.

Sob a globalização, as barreiras para o capital são forçadas a desaparecer para que a especulação supere a produção, para que a busca desenfreada pelo lucro burle as leis ou quaisquer princípios éticos. Um exemplo de burla a tais princípios éticos foi a tentativa de privatizar o sistema de abastecimento de água da cidade de Cochabamba, Bolívia. A transnacional Bechtel aumentou drasticamente o valor das contas de água dos habitantes daquela cidade boliviana e ainda os proibiu de armazenar a água da chuva, ou seja, até a água da chuva fora privatizada. Diante dos abusos, os bolivianos foram às ruas protestar e conseguiram fazer as autoridades bolivianas voltar atrás.

Sobre alguns aspectos da globalização, Frei Betto se pronuncia da seguinte forma na obra supracitada: “Os sistemas produtivo e financeiro são globalizados, o distributivo, afunilado. Há cada vez mais mercados para menos consumidores. Reduz-se então o preço das mercadorias, tornando-as mais competitivas, como fazem os chineses. Atrás do preço barato de um produto embutem-se salários irrisórios, horas extras não pagas, direitos trabalhistas lesados. Os EUA aprendem a lição e instalam suas fábricas no México e na América Central”.

Os arautos do neoliberalismo sempre apregoam que os países subdesenvolvidos só experimentam o subdesenvolvimento porque ainda não implementaram o capitalismo em profundidade. Assim sendo, a solução seria um “choque de capitalismo”. Este remédio amargo foi receitado à America Latina com o nome de Consenso de Washington, ou seja, um conjunto de reformas que conduziriam os países subdesenvolvidos à trilha do desenvolvimento. O Consenso receitava austeridade fiscal, elevação de impostos, aplicação de juros altos para atrair investimentos estrangeiros, privatizações etc. No Brasil, os governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso seguiram à risca tais conselhos e no fim da década de 90 vimos no que deu.

Em todo o mundo acirrou-se o desemprego, a pobreza e a degradação ambiental, frutos diretos e indiretos do capitalismo em sua variante neoliberal. O abismo que separa os mais ricos dos mais pobres aprofundou-se ainda mais. Em seu bojo o sistema traz o pressuposto de que poucos consomem muito porque muitos consomem muito pouco ou quase nada, apesar da ideologia neoliberal apregoar que o capitalismo é um sistema que concede oportunidades para todos.

A crise de 2008 mostrou a fragilidade do neoliberalismo e forçou o capitalismo a recuar e retomar o uso de mecanismos keynesianos. Neste momento, por exemplo, Obama prepara-se para introduzir uma política que garantirá assistência médica gratuita e de qualidade a 90% dos norte-americanos. O estado do bem estar social (welfare state), que fora dilapidado por anos a fio pelas políticas neoliberais, agora volta à cena em decorrência da maior crise capitalista desde a Quinta Feira Negra.

Portanto, podemos dizer que estamos num período que seguramente pode ser chamado de entre-muros. Há 20 anos desabou um muro que era tido como o bastião de um sistema que ruiu feito castelo de cartas devido à burocracia, falta de liberdade de expressão e ineficiência econômica. Num processo que se iniciou em 2008 e continuou por este ano, outro murro ruiu: aquele representado pelo touro de bronze de Wall Street (“rua do muro”), símbolo da pujança do sistema capitalista neoliberal. O período entre muros demonstrou que nem o socialismo real nem o capitalismo neoliberal são sistemas que garantem qualidade de vida à maioria dos seres humanos.

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, a humanidade precisa encontrar outros rumos para as políticas sociais e econômicas, aproveitando o que cada sistema sócio-econômico tem de melhor, a fim de que um novo paradigma se erija dos escombros de ambos os muros.


Para saber mais:
- Leiam meu texto "O Homo Davos em Extinção";
- Assistam ao documentário "Encontro com Milton Santos ou a globalização vista do lado de cá";
- Assistam ao filme "A vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

20 de novembro de 2009

20 DE NOVEMBRO É LUTA


Por Cléber Sérgio de Seixas 

Castro Alves, o poeta dos negros, cantou em sua magistral obra que “existe um povo que a bandeira empresta/ P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!.../ E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria!.../ Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta”. Só podemos entender os versos do poeta contextualizando-os na época em que o mesmo viveu. A geração condoreira ansiava por liberdade para os negros. Os abolicionistas lutaram muito para que aqueles que vieram da África e seus descendentes obtivessem um mínimo de dignidade e direitos civis. Apesar de serem um reflexo de seu tempo, os versos do Navio Negreiro permanecem atuais pelo fato de muitos no Brasil ainda emprestarem nossa bandeira para macularem-na ao tentarem, com ela, encobrir esta chaga aberta que se chama preconceito racial contra os negros.

Em 1888 foi assinada uma lei que pouco mudou na realidade dos negros. Libertos, eles foram deixados à própria sorte, sem nenhum aparato jurídico que os amparassem ou os protegessem do preconceito racial que ainda ficara latente, o qual às vezes vinha à tona sem que aqueles que o trouxeram à luz fossem legalmente punidos.

No auge do café, os negros foram substituidos por imigrantes italianos, japoneses e outros. Se viram livres, porém desamparados. Quando outrora estavam sob o telhado da senzala e sob a égide do senhor de engenho, pelo menos gozavam de uma estrutura que, apesar de extremamente violenta e opressora, contituia seu mundo, sua esfera de convívio com outros representantes de sua raça, com os quais compartilhavam os mesmos anseios. Quando o negro sai de dentro das senzalas, apesar de muitos alforriados ainda continuarem a trabalhar nas mesmas fazendas, fica sem teto e sem chão. Alguns refugiam-se em quilombos, optando por uma vida de ostracismo longe do desenvolvimento urbano e industrial. Outros, a maioria, preferem fugir para os grandes centros urbanos, engrossando o número de desvalidos. É nesse contexto, por exemplo, que surgem as favelas cariocas, senzalas modernas que abrigam, em sua maioria, aqueles que foram socialmente relegados às mais reles condições sociais, carecendo de direitos, habitação, emprego, etc. Não é à toa que o roqueiro Lobão certa vez cantou que “a favela é a nova senzala”.

É sempre importante situar as várias leis que acabaram com a escravidão no Brasil no contexto econômico internacional, salientando que nossa abolição é descendente direta da fase industrial do capitalismo, cuja pujança e dinamismo necessitavam de novos mercados compostos por homens livres. Manter os negros escravos tornou-se, portanto, um entrave às necessidades de expansão do capital industrial. Assim sendo, o Brasil, que no século XIX já gravitava na órbita das grandes potências, especificamente da Inglaterra, foi gradativamente erradicando a escravidão. É importante, também, salientar que o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão. A Lei Áurea não foi simplesmente uma benevolência da Princesa Isabel, e sim decorrência de uma imposição dos capitães internacionais da indústria, que precisavam do mercado nos moldes que lhes fossem favoráveis.

Há 314 anos morria Zumbi dos Palmares, líder negro que comandou o maior quilombo de que se tem notícia, tanto em extensão quanto em se tratando do tempo em que resistiu a ataques. O 13 de maio pouco tem de significativo para a conquistas dos direitos dos negros (clique aqui para ler meu texto “A Máquina a Vapor Libertou os Escravos”), visto que os frutos dele decorrentes não foram obtidos pelo engajamento direto do negro, apesar dos esforços abolicionistas. Muito mais importante para os afrodescendentes brasileiros é o 20 de novembro, sobretudo por evocar a figura de Zumbi, que traz em si uma carga simbólica de luta pela conquista de direitos e oportunidades.  O 20 de novembro evoca luta, enquanto o 13 de maio lembra uma esmola de brancos a negros, levada a cabo num contexto de mudanças no sistema econômico capitalista. Esta data deve ser lembrada sempre, sobretudo porque os negros ainda têm muito o que conquistar em se tratando de direitos e cidadania. É também um momento para dizer não ao racismo, à discriminação e ao preconceito social, e, por outro lado, dizer sim às cotas para negros em universidades públicas e a punições severas para aqueles que teimarem em discriminar um ser humano pela cor de sua pele.
 

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