segunda-feira, 30 de novembro de 2009

HONDURAS E O FUTURO DA AMÉRICA LATINA

Jovem morto em uma manifestação em Honduras

Por Cléber Sérgio de Seixas


A vitória de um candidato socialista no Uruguai acrescenta mais um elo à cadeia esquerdista que tem se formado nesse continente, ao mesmo tempo em que uma eleição de caráter duvidoso, realizada sob o ambiente de um golpe de estado, lança sombras sobre o futuro latino-americano.

O impasse que tem sido observado em Honduras está distante de um desfecho popularmente satisfatório. É sintomático que a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União Européia não tenham enviado observadores para monitorar a lisura do pleito hondurenho. Será que havia o temor por parte de tais entidades internacionais de se defrontarem com alguma irregularidade que deveriam condenar e dar publicidade?

Apesar de o processo eleitoral ter sido acompanhado por 445 observadores de 31 países, existem fortes indícios de manipulação por parte do TSE hondurenho, que afirma que mais de 61% de votantes se fizeram presentes, o que legitimaria a eleição, quando se sabe que, na verdade, uma maioria contrária ao regime golpista boicotou a eleição, permanecendo em casa com medo de represálias, o que explicaria o baixo índice de violência e confrontos de rua na data do pleito. Zelaya não aceita ser reconduzido ao cargo para repassar o poder a um candidato eleito sob tais circunstâncias. Lula, Daniel Ortega e Zapatero não aceitam, por enquanto, o resultado de uma eleição realizada sob golpe.

É importante sublinhar que o golpe de estado em Honduras ocorre num cenário em que governantes latino-americanos como Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa recorrem constantemente a expedientes constitucionais tais como referendos para dar à democracia a acepção mais pura da palavra. Em outras palavras, o golpe que apeou Zelaya do poder é na verdade uma forma de evitar que o mesmo levasse a cabo naquele país da América Central o mesmo que os supracitados chefes de estado já fizeram em suas nações.

O mais interessante é que Zelaya não era pertencente a um partido de esquerda, e sim ao Partido Liberal (PL), de direita. A ira interna e, ao que tudo indica, externa, se abateu sobre Zelaya a partir do momento em que ele se aproxima do governo venezuelano para negociar questões relativas a petróleo e quando concede um aumento expressivo de salário mínimo. É sabido por todos que Honduras é, literalmente, uma republiqueta das bananas, tendo seu mercado exportador de frutas majoritariamente voltado para os EUA. Assim sendo, um aumento no salário representaria produtos vendidos a preços mais elevados aos clientes norte-americanos.

Para os conhecedores da história da América Latina, a crise hondurenha é um retrocesso sob o ponto de vista da democracia no continente latino-americano, bem como um claro sinal do reagrupamento das forças anti-democráticas capitaneadas pela nação do Tio Sam, que só aceita a democracia em seu território. O precedente do golpe hondurenho traz preocupações a todos aqueles que já viveram sob as botas de regimes ditatoriais na América Latina.

Grande parte da imprensa nacional e internacional preparou terreno para que a opinião pública se satisfizesse com a tese do “golpe preventivo”. Pseudo-intelectuais e “especialistas”, aqui e acolá, surgiram para corroborar a tese de que o que ocorreu em Honduras não foi um golpe de estado. Neologismos foram criados e um governo golpista foi transformado em “de fato” ou “interino”. O problema é que tal tipo de expediente pode se repetir sempre que algum governante das terras ao sul do Rio Bravo tente implantar em seu país alguma medida de cunho popular e reestruturante. Em entrevista, Lula afirmou que "nossa preocupação é que introduzam a tese do golpe preventivo na América Latina".

No fim de sua magistral obra As Veias Abertas da América Latina, o brilhante Eduardo Galeano cita uma frase de Simon Bolívar: “Nunca seremos afortunados, nunca!”. O grande libertador morreu derrotado e nunca viu concretizar seu sonho de uma Gran Colombia, ou seja, um continente unido econômica, social e culturalmente. Terá sido profética a afirmação de Bolívar de que nunca seremos aventurados?

Num momento em que o continente abre-se para a proposta da ALBA, forças não tão ocultas se movem para ofuscar o horizonte que se descortina. Cabe a nós, latino-americanos, estarmos alertas e de olhos bem abertos.

Mujica é eleito no 2º turno


Reportagem de Silvio Queiroz

O candidato de esquerda do Uruguai, o ex-guerrilheiro José Mujica, de 74 anos, foi o grande vencedor do segundo turno das eleições uruguais, segundo projeção feita em cima de contagens parciais da consultora Factum. O candidato opositor, Luis Alberto Lacalle, admitiu a derrota ainda na noite de ontem. De acordo com a pesquisa, Mujica teria obtido 51,2% dos votos, contra 44,9% de seu adversário.

Mujica passou a tarde em um hotel no Centro da capital, preparado para se pronunciar assim que os números permitissem. Amplo favorito para derrotar o ex-presidente liberal Luis Lacalle, o candidato esquerdista chegou a declarar ironicamente, após depositar seu voto na urna, que o pleito estava "tão emocionante quanto dançar com a irmã".

Os locais de votação abriram as portas às 8h, e a única preocupação das autoridades era a previsão de fortes chuvas, o que, segundo o ministro da Corte Eleitoral, Edgardo Martínez Zimarioff, fez com que algumas seções em zonas rurais, afetadas por inundações, abrissem um pouco mais tarde. Também chamou a atenção a constatação de que a lei seca, da mesma maneira como ocorre no Brasil, foi solenemente ignorada.

Embalado pela vantagem, Mujica já pensava na composição do governo e fazia acenos à oposição, embora seu partido tenha maioria absoluta em ambas as Casas do Congresso. Além de garantir que seu companheiro de chapa, Danilo Astori, se encarregue da gestão econômica, Mujica se mostrou disposto a negociar sobre alguns temas – educação, segurança, energia e meio ambiente – e até abriu a possibilidade de nomear opositores para alguns ministérios. "Ter votos a mais não significa que sejamos donos da sociedade, muito menos que nossa verdade seja imaculada", declarou.

A realização das eleições em Honduras, sem que o presidente deposto, Manuel Zelaya, tenha sido restituído ao cargo, colocará o governo brasileiro diante de uma discussão delicada: como levar adiante a promessa de não reconhecer o novo presidente, especialmente se o comparecimento às urnas for significativo. O Itamaraty já deixou claro que reconhecer as eleições hondurenhas é uma atitude inadmissível, pois seria o mesmo que aceitar o golpe.

Na prática, se o Brasil mantiver essa postura, as relações diplomáticas entre os dois países ficarão congeladas. Além disso, a embaixada brasileira em Tegucigalpa será fechada e os acordos firmados serão suspensos. Segundo um diplomata brasileiro, que comentou a situação sob a condição de anonimato, ainda existem implicações políticas. Oficialmente, o Itamaraty diz não ter um plano B para a situação. "Não antecipamos cenários. As avaliações têm sido feitas com base em fatos concretos. E ainda há muito o que ocorrer nos próximos dias."

Na quinta-feira, a Suprema Corte de Justiça de Honduras deu seu parecer sobre o retorno do presidente deposto ao cargo. Esse foi o grande entrave para que se alcançasse um acordo entre ele e o governo interino de Honduras, liderado por Roberto Micheletti. A Corte aconselhou os parlamentares a rechaçarem a restituição do mandatário eleito. A polêmica questão será tratada na quarta-feira pelo Congresso. Por sua vez, Micheletti se afastou do cargo provisoriamente, em uma tentativa de tornar o clima eleitoral menos tenso. Seu retorno depende agora do Congresso e pode ser decidido no dia 2.

A principal preocupação do governo brasileiro é com o recado que será dado aos países da região. "Nossa preocupação é que introduzam a tese do golpe preventivo na América Latina", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na avaliação do Itamaraty, a região tem um histórico de instabilidade política e que é preciso "combater qualquer estímulo nesse sentido". O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, diz que o novo regime não deve ser aceito e que a "tendência é Honduras ser expulsa da Organização dos Estados Americanos (OEA)". No dia 4, os 24 países-membros da OEA se reúnem para avaliar as eleições em Honduras e, possivelmente, o futuro do país na organização.

Choques entre manifestantes e a polícia deixaram vários feridos na cidade de San Pedro Sula, cidade localizada no Norte de Honduras. Foi um dos poucos episódios de violência. De acordo com rádios locais, cerca de 1 mil manifestantes estavam reunidos no Centro da cidade para protestar contra as eleições, quando a polícia decidiu intervir. Até o fechamento desta edição, o número exato de feridos não havia sido divulgado.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 30/11/2009

domingo, 29 de novembro de 2009

SUCESSÃO SEM RESPALDO

Reportagem de Heloísa Vilela no portal R7

TEGUCIGALPA -- O hospital público, no centro da capital de Honduras, é simples. A enfermaria infantil, com seis camas, um forno! Mas Angel David, de treze anos, não reclama de nada.

Muito magro, um bocado tímido, ele levanta a bata para mostrar a cicatriz que vai de um lado a outro do abdômen. Ele está se recuperando da segunda operação para contornar os danos provocados pela bala que o atingiu, pelas costas, no dia vinte e um de setembro.

Naquela noite, vigorava o toque de recolher imposto pela ditadura hondurenha. E ele estava a caminho de casa com o pai e o irmão mais velho.

Angel vai ter alta neste sábado. E a mãe dele, Dona Neli Rodriguez, disse que a família toda vai ficar em casa no domingo. Adultos e crianças. Nada de votar. Dona Neli tem quatro filhos e mais um a caminho que nascerá em abril.

Um ano depois do aumento de sessenta por cento do salário mínimo, concedido pelo presidente deposto Manuel Zelaya que, dois meses depois, foi deposto por um golpe de estado.

Dona Neli chora muito quando fala das eleições e de Zelaya. Apesar da gravidez, que quase sempre enche as mulheres de sonhos e esperanças, ela confessa um grande desânimo com relação ao futuro. Diz que gostaria muito que o próximo presidente “fosse a favor das pessoas pobres”. Que lutasse por elas.

Mas depois do que aconteceu com o filho, ela tem medo de sair, raiva do regime que deixou o menino no hospital e não acredita na legitimidade do processo eleitoral organizado pelos golpistas.

Ela não está sozinha. A grande maioria dos governos das Américas também acha que o resultado das urnas não deve ser reconhecido. Mas a Casa Branca avisou, há semanas, que vai reconhecer como presidente o vencedor das eleições e conseguiu atrair para a mesma posição os governos do Peru, do Panamá e da Costa Rica.

A Organização dos Estados Americanos, que se uniu em voto unânime para condenar o golpe, agora está dividida.

Aqui em Tegucigalpa, as opiniões também são variadas. Na banquinha que distribuía material de campanha do líder das pesquisas, Porfirio Lobo, chamado de Pepe, representante do partido conservador, uma senhora explicou que gostava de Zelaya. Das medidas que ele tomou para aliviar a pobreza.

Mas acha que ele se tornou próximo demais do venezuelano Hugo Chávez. Esse é o principal tema da campanha dos golpistas contra o presidente.

No trânsito infernal da sexta-feira, um homem ao volante me disse que vai votar no domingo porque quer paz e a volta da democracia. Sobre o golpe de estado, reagiu: “não houve nenhum golpe aqui”.

O regime de Roberto Michelleti tomou providências para garantir a eleição e produzir uma imagem de legitimidade. Convidou “monitores independentes”. Cerca de trezentos aceitaram o convite. A ONU, a OEA e a Uniao Europeia se recusaram a enviar observadores internacionais.

Mas o ex-presidente direitista de El Salvador, Armando Calderón, e o também direitista, Jorge Quiroga, ex-presidente da Bolívia (por um ano), derrotado nas últimas eleições, fazem parte dos monitores convidados.

Armando Calderón não gostou da pergunta a respeito da ausência de monitores das organizações internacionais. E acusou a OEA de ser uma instituição de esquerda, manipulada por Hugo Chávez. E a ONU? “Ela segue a OEA”, afirmou.

As organizações de direitos humanos estão preocupadas. As medidas de intimidação se multiplicam. Vários líderes do movimento de resistência ao golpe foram presos nos últimos dias. Alguns por poucas horas. Outros, por mais de um dia.

Todos sem nenhuma explicação a não ser o fato de serem contra as eleições. Quatro bombas já explodiram esta semana, em diferentes partes do país. Bertha Oliva, da Confederação de Direitos Humanos de Honduras, acredita que todas elas foram lançadas para criar um clima de medo e instabilidade e, assim, justificar as medidas repressoras do regime.

Um script antigo… Quem não se lembra da bomba do Riocentro?

É por essas e por outras que muita gente vai ficar em casa no domingo. E o movimento de resistência ao golpe convocou um toque de recolher popular. Pede a todos que fiquem em casa das seis da manhã às seis da tarde de domingo. Assim, não votam nem correm risco de morte.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Presos quatro dos dez indiciados no Sindicato de Trabalhadores Rurais de Sabinópolis


Policiais estiveram nesta quinta-feira (26), às seis horas da manhã, nas residências de Afonso da Aparecida dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sabinópolis, e de seus filhos Riller Tadim dos Santos e Ricardo Darques dos Santos e ainda da funcionária do escritório em Materlândia, Maria Aparecida Pereira Costa de Jesus para cumprir mandado de prisão contra eles.

Ao todo, dez pessoas foram indiciadas, entre elas, toda a família do Afonso, que trabalha no sindicato, e funcionários. Eles são acusados por dez crimes: formação de quadrilha, extorsão, peculato, estelionato, apropriação indébita e falsidade ideológica. Todos os crimes, segundo investigações, foram cometidos contra o próprio Sindicato dos Trabalhadores Rurais e aposentados sindicalizados.

O mandado foi cumprido pelo novo delegado de Sabinópolis, Rômulo Guimarães Dias. Segundo o promotor de justiça Márcio Kakumoto, houve um pedido da decretação de prisão preventiva pelo delegado Welbert de Souza Santos, para Afonso e Ricardo, por ocuparem cargos "chaves" dentro do sindicato. Ricardo, o filho do presidente do sindicato, ocupa o cargo de chefe do setor contábil.

Ao receber o pedido, o promotor incluiu o requerimento de prisão do outro filho, Riller Tadim e ainda da funcionária Maria Aparecida Pereira. Isso, porque segundo Márcio Kakumoto, mesmo depois de indiciados, eles teriam continuado a extorquir os aposentados.

"Todos os atos constam no inquérito policial, que começou dentro do Ministério Público. Eu dei início à investigação e encaminhei para que o delegado Welbert finalizasse e isso foi feito", comentou o promotor de justiça Márcio Kakumoto.

Ainda segundo informações do promotor, o juiz Marcelo Fioravante, que substitui em Sabinópolis, aceitou todo o pedido para decretação da prisão preventiva dos quatro. "Agora eles vão continuar presos durante toda a tramitação do processo.", disse Márcio Kakumoto.

Fonte: Jornal Folha de Guanhães Online

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O CORRUPTÔMETRO

Por Frei Betto

A Transparência Internacional divulgou, dia 17, na Alemanha, o índice de corrupção no mundo. Numa escala de 0 (sem corrupção) a 10 (haja lanterna de Diógenes para descobrir um honesto!), o Brasil mereceu 3,7 pontos. Avançou da 80ª posição para a 75ª, entre as 180 nações analisadas. Nosso país se equipara, agora, à Colômbia, ao Peru e ao Suriname. O país onde há menos corrupção é a Nova Zelândia.

Por que há tanta corrupção no Brasil? Temos leis, sistema judiciário, polícias e mídia atenta. Prevalece, entretanto, a impunidade – a mãe dos corruptos. Você conhece o nome de um notório corrupto brasileiro? Ele foi processado e está na cadeia?

Padre Vieira, no sermão em homenagem à festa de Santo Antônio, em 1654, indagava: "O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?". A seu ver, havia duas causas principais: a contradição de quem deveria salgar e a incredulidade do povo diante de tantos atos que não correspondiam às palavras.

O corrupto se caracteriza por não se admitir como tal. Esperto, age movido pela ambição de dinheiro. Não é propriamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, desses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. Anzol sem isca peixe não belisca.

O corrupto não se expõe; extorque. Considera a comissão um direito; a porcentagem, pagamento por serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence; o caixa dois, investimento eleitoral. Bobos aqueles que fazem tráfico de influência sem tirar proveito.

Há muitos tipos de corruptos. O corrupto oficial se vale da função pública para tirar proveitos para si, a família e os amigos. Troca a placa do carro, embarca a mulher com passagem custeada pelo erário, usa cartão de crédito debitável no orçamento do Estado, faz gastos e obriga o contribuinte a pagá-los. Considera natural o superfaturamento, a ausência de licitação, a concorrência com cartas marcadas.

A lógica do corrupto é corrupta: "Se não aproveito, outro leva vantagem em meu lugar". Seu único temor é ser apanhado em flagrante delito. Não se envergonha de se olhar no espelho, apenas teme ver o nome estampado nos jornais. Confiante, jamais imagina a filha pequena a indagar-lhe: "Papai, é verdade que você é corrupto?".

O corrupto não sente nenhum escrúpulo em dar ou receber caixas de uísque no Natal, presentes caros de fornecedores ou patrocinar férias de juízes. Afrouxam-lhe com agrados e, assim, ele relaxa a burocracia que retém as verbas públicas.

Há o corrupto privado. Jamais menciona quantias, tão somente insinua, cauteloso. Assim, torna-se o rei da metáfora. Nunca é direto. Fala em circunlóquios, seguro de que o interlocutor saberá ler nas entrelinhas.

O corrupto franciscano pratica o toma lá, dá cá. Seu lema é "quem não chora, não mama". Não ostenta riquezas, não viaja ao exterior, faz-se de pobretão para melhor encobrir a maracutaia. É o primeiro a indignar-se quando o assunto é a corrupção que grassa pelo país.

O corrupto exibido gasta o que não ganha, constrói mansões e castelos, enche o latifúndio de bois, convencido de que puxa-saquismo é amizade e sorriso cúmplice, cegueira. Vangloria-se de sua astúcia ao enganar e mentir.

O corrupto nostálgico orgulha-se do pai ferroviário, da mãe professora, da origem humilde na roça, mas está intimamente convencido de que, tivessem as mesmas oportunidades de meter a mão na cumbuca, seus antepassados não deixariam passar.

O corrupto previdente, calculista, já está de olho na Copa do Mundo no Brasil, em 2014, e nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Ele sabe que os jogos Pan-americanos no Rio, em 2007, tiveram orçamento de R$ 800 milhões e consumiram R$ 4 bilhões.

O corrupto não sorri, agrada; não cumprimenta, estende a mão; não elogia, incensa; não tem valores, apenas saldo bancário. De tal modo se corrompe que nem mais percebe que é um corrupto. Julga-se um negocista bem-sucedido.

Melífluo, o corrupto é cheio de dedos, encosta-se nos honestos para se lhe aproveitar a sombra, trata os subalternos com uma dureza que o faz parecer o mais íntegro dos seres humanos. Aliás, o corrupto acredita piamente que todos o consideram de uma lisura capaz de causar inveja em madre Teresa de Calcutá.

O corrupto se julga dotado de uma inteligência que o livra do mundo dos ingênuos e torna-o mais arguto e esperto do que o comum dos mortais.

Enquanto os corruptos brasileiros não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem podemos impedi-los de ser eleitos para funções públicas.


Frei Betto é escritor, autor do romance Um homem chamado Jesus, lançamento da Editora Rocco.

Fonte: Jornal Estado de Minas

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A SANHA DO TORTURADOR

Por Camila Alam

Ganha as telas brasileiras no próximo dia 27 o filme que maior comoção causa entre os espectadores de documentários sobre a história recente do País. Vencedor da 14ª edição do festival É Tudo Verdade, Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, gira em torno da participação de grandes empresários no financiamento das ações do Exército durante a ditadura. O principal deles, e figura central deste longa, foi Henning Albert Boilesen, dinamarquês naturalizado brasileiro, presidente da Ultragaz na década de 1960.

No longa, o diretor Litewski aborda o tema de maneira interessante, com trilha sonora animada e edição moderna. Resultado de pesquisa extensa, a trajetória de Boilesen é contada desde a infância, com a ajuda de arquivos escolares municipais, reveladores, desde cedo, de uma personalidade dúbia do protagonista.
Conhecido por amigos como pessoa bem-humorada, um líder nato, Boilesen por vezes era cruel, frio. Chegou ao Brasil pobre, mas rapidamente, e por méritos próprios, tornou-se presidente de uma das maiores companhias da época. Frequentava colunas sociais, adorava bailes, caipirinhas e mulatas. Anticomunista, teria sido o maior entusiasta da “caixinha” entre os empresários brasileiros – sobretudo paulistanos – para financiar a Operação Bandeirante, criada pelo Exército. Boilesen teria participado pessoalmente de sessões de tortura, sendo responsável por trazer ao País um aparelho de choques elétricos mais moderno, tempos depois conhecido como Pianola Boilesen.

Por meio de depoimentos diferentes, Cidadão Boilesen traça um perfil do empresário até a sua morte, em 1971, quando fora encurralado e executado por militantes da ANL e MRT em uma rua próxima à avenida Paulista, em São Paulo. Carlos Eugênio Paz, líder da ação e um dos poucos sobreviventes do grupo, fala com detalhes sobre o dia da morte do empresário. O depoimento de ex-militares, políticos, religiosos, guerrilheiros, amigos e parentes estão mesclados a cenas de ficção de longas como Pra Frente Brasil, de Roberto Farias, e Lamarca, de Sérgio Rezende. A narrativa por vezes deixa escapar sutilmente um quê de ironia, resultado da fala descuidada de alguns entrevistados.



Camila Alam é colunista da revista Carta Capital

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ADEUS, FHC!


Fernando Henrique Cardoso foi um presidente da República limítrofe, transformado, quase sem luta, em uma marionete das elites mais violentas e atrasadas do país. Era uma vistosa autoridade entronizada no Palácio do Planalto, cheia de diplomas e títulos honoris causa, mas condenada a ser puxada nos arreios por Antonio Carlos Magalhães e aquela sua entourage sinistra, cruel e sorridente, colocada, bem colocada, nas engrenagens do Estado. Eleito nas asas do Plano Real – idealizado, elaborado e colocado em prática pelo presidente Itamar Franco –, FHC notabilizou-se, no fim das contas, por ter sido co-partícipe do desmonte aleatório e irrecuperável desse mesmo Estado brasileiro, ao qual tratou com desprezo intelectual, para não dizer vilania, a julgá-lo um empecilho aos planos da Nova Ordem, expedida pelos americanos, os patrões de sempre.

Em nome de uma política nebulosa emanada do chamado Consenso de Washington, mas genericamente classificada, simplesmente, de “privatização”, Fernando Henrique promoveu uma ocupação privada no Estado, a tirar do estômago do doente o alimento que ainda lhe restava, em nome de uma eficiência a ser distribuída em enormes lucros, aos quais, por motivos óbvios, o eleitor nunca tem acesso.

Das eleições de 1994 surgiu esse esboço de FHC que ainda vemos no noticiário, um antípoda do mítico “príncipe dos sociólogos” brotado de um ninho de oposição que prometia, para o futuro do Brasil, a voz de um homem formado na adversidade do AI-5 e de outras coturnadas de então. Sobrou-nos, porém, o homem que escolheu o PFL na hora de governar, sigla a quem recorreu, no velho estilo de república de bananas, para controlar a agenda do Congresso Nacional, ora com ACM, no Senado, ora com Luís Eduardo Magalhães, o filho do coronel, na Câmara dos Deputados. Dessa tristeza política resultou um processo de reeleição açodado e oportunista, gerido na bacia das almas dos votos comprados e sustentado numa fraude cambial que resultou na falência do País e no retorno humilhante ao patíbulo do FMI.

Isso tudo já seria um legado e tanto, mas FHC ainda nos fez o favor de, antes de ir embora, designar Gilmar Mendes para o Supremo Tribunal Federal, o que, nas atuais circunstâncias, dispensa qualquer comentário.

Em 1994, rodei uns bons rincões do Brasil atrás do candidato Fernando Henrique, como repórter do Jornal do Brasil. Lembro de ver FHC inaugurando uma bica (isso mesmo, uma bica!) de água em Canudos, na Bahia, ao lado de ACM, por quem tinha os braços levantados para o alto, a saudar a miséria, literalmente, pelas mãos daquele que se sagrou como mestre em perpetuá-la. Numa tarde sufocante, durante uma visita ao sertão pernambucano, ouvi FHC contar a uma platéia de camponeses, que, por causa da ditadura militar, havia sido expulso da USP e, assim, perdido a cátedra. Falou isso para um grupo de agricultores pobres, ignorantes e estupefatos, empurrados pelas lideranças pefelistas locais a um galpão a servir de tribuna ao grande sociólogo do Plano Real. Uns riram, outros se entreolharam, eu gargalhei: “perder a cátedra”, naquele momento, diante daquela gente simples, soou como uma espécie de abuso sexual recorrente nas cadeias brasileiras. Mas FHC não falava para aquela gente, mas para quem se supunha dono dela.

Hoje, FHC virou uma espécie de ressentido profissional, a destilar o fel da inveja que tem do presidente Lula, já sem nenhum pudor, em entrevistas e artigos de jornal, justamente onde ainda encontra gente disposta a lhe dar espaço e ouvidos. Como em 1998, às vésperas da reeleição, quando foi flagrado em um grampo ilegal feito nos telefones do BNDES. Empavonado, comentava, em tom de galhofa, com o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, das Comunicações, da subserviência da mídia que o apoiava acriticamente, em meio a turbilhão de escândalos que se ensaiava durante as privatizações de então:

Mendonça de Barros – A imprensa está muito favorável com editoriais.

FHC – Está demais, né? Estão exagerando, até!

A mesma mídia, capitaneada por um colunismo de viúvas, continua favorável a FHC. Exagerando, até. A diferença é que essa mesma mídia – e, em certos casos, os mesmos colunistas – não tem mais relevância alguma.

Resta-nos este enredo de ópera-bufa no qual, no fim do último ato, o príncipe caído reconhece a existência do filho bastardo, 18 anos depois de tê-lo mandado ao desterro, no bucho da mãe, com a ajuda e a cumplicidade de uma emissora de tevê concessionária do Estado – de quem, portanto, passou dois mandatos presidenciais como refém e serviçal.

Agora, às portas do esquecimento, escondido no quarto dos fundos pelos tucanos, como um parente esclerosado de quem a família passou do orgulho à vergonha, FHC decidiu recorrer à maconha.

A meu ver, um pouco tarde demais.

domingo, 22 de novembro de 2009

O PERÍODO ENTRE MUROS

Por Cléber Sérgio de Seixas

No fim da década de 80, o mundo passou por profundas mudanças que romperam com paradigmas há muito arraigados. Um dos indivíduos que cooperaram para estas mudanças foi um senhor nascido numa cidade russa chamada Stavropol. O homem cuja marca registrada era uma mancha na cabeça calva angariou a simpatia do ocidente quando abriu a caixa preta do socialismo soviético para o mundo, desnudando-lhe as mazelas e mostrando que aquele sistema fazia água por todos os lados. Seu nome era Mikhail Serguéievich Gorbachev. O ocidente apelidou-o carinhosamente de Gorby. O diriginte soviético tinha bom trânsito em países capitalistas, sobretudo nos EUA. Nunca um político comunista fora tão bem visto pelas nações que integravam a aliança militar da OTAN. Reagan era só risos para Gorby, sobretudo porque este último assinara com ele vários acordos militares de diminuição de armas estratégicas, pondo fim aos temores de uma tão propalada guerra nuclear.

Gorbachev abdicara de continuar a manter a União Soviética na corrida armamentista porque os gastos militares estavam arruinando a economia do país e causando insatisfação popular. Para retirar o elefante branco soviético do atoleiro do atraso econômico, tecnológico e social, Gorbachev instituiu a Perestroika e a Glasnost, respectivamente reestruturação e transparência. A Perestroika foi iniciada em 1986 e pretendia impor um maior dinamismo à economia, introduzindo mecanismos que estimulassem a livre iniciativa, acabando com o monopólio estatal e descentralizando as operações empresariais. A Glasnost acabou com a burocracia política, combateu a corrupção, permitiu a liberdade de imprensa e libertou alguns dissidentes políticos. O saldo de todas estas transformações foi o fim da União Soviética, que em 1991 se desintegrou em várias repúblicas.

No rastro do fim da URSS, vários países do leste europeu romperam com o paradigma socialista e fizeram sua opção pelo regime de mercado, abandonando a planificação econômica. Antes do fim da URSS, porém, a Alemanha já tinha se reunificado, pondo abaixo aquilo que era considerado o maior símbolo da polarização do mundo entre comunismo e capitalismo. A queda do muro fora saldada como a derrocada do socialismo, sendo que muitos foram além e consideraram o fato como o triunfo do capitalismo. Nesse contexto o grupo de rock alemão ocidental Scorpions cantava a música Wind of Change para celebrar os ventos de mudança que varriam o leste europeu.

A indagação que deve ser feita 20 anos depois da queda do Muro de Berlim é por que o socialismo veio abaixo no leste europeu. Em seu livro A Mosca Azul, Frei Betto responde a pergunta da seguinte forma: “O capitalismo tem a esperteza de socializar o sonho (vide Hollywood) e privatizar os bens materiais, sobretudo a renda. O socialismo cometeu o erro contrário: socializou os bens materiais e a renda, mas privatizou o sonho. Só o Birô Político podia sonhar, assim mesmo dentro dos cânones. Os demais – artistas, intelectuais, sindicalistas, religiosos – deveriam sonhar os sonhos dos chefes do Partido ou suportar em silêncio seus pesadelos. (...) O marxismo idealista, ao elevar o Estado à condição de Espírito Absoluto, tratou de incorporar o pobretariado às vias de acesso da inclusão social (educação, saúde, trabalho etc), porém ao preço de destituí-lo de seu direito de crítica ao acesso ao Estado.”

De lá para cá o que vimos foi a unipolarização do mundo, com o crescente fortalecimento dos EUA no cenário internacional e, por conseguinte, do american way of life. Pode-se afirmar com toda a segurança que os Estados Unidos são hoje hegemônicos no quesito militar e econômico, apesar dos últimos reveses decorrentes da recente crise.

Com o avanço das tecnologias das comunicações, o fenômeno conhecido como globalização é fortalecido. Sob a égide de tal fenômeno, a soberania dos Estados é ignorada, as fronteiras nacionais são desrespeitadas, as empresas e a mídia passam a operar na geografia mundial como se o fizessem em suas sedes. A concorrência empresarial desaparece dando lugar a um fenômeno muito comum antes da crise de 1929: os oligopólios e as mega-empresas, que controlam de bancos a fábricas de roupas, de redes de lanchonetes a clubes de futebol, de fábricas de produtos químicos a fábricas de veículos.

Sob a globalização, as barreiras para o capital são forçadas a desaparecer para que a especulação supere a produção, para que a busca desenfreada pelo lucro burle as leis ou quaisquer princípios éticos. Um exemplo de burla a tais princípios éticos foi a tentativa de privatizar o sistema de abastecimento de água da cidade de Cochabamba, Bolívia. A transnacional Bechtel aumentou drasticamente o valor das contas de água dos habitantes daquela cidade boliviana e ainda os proibiu de armazenar a água da chuva, ou seja, até a água da chuva fora privatizada. Diante dos abusos, os bolivianos foram às ruas protestar e conseguiram fazer as autoridades bolivianas voltar atrás.

Sobre alguns aspectos da globalização, Frei Betto se pronuncia da seguinte forma na obra supracitada: “Os sistemas produtivo e financeiro são globalizados, o distributivo, afunilado. Há cada vez mais mercados para menos consumidores. Reduz-se então o preço das mercadorias, tornando-as mais competitivas, como fazem os chineses. Atrás do preço barato de um produto embutem-se salários irrisórios, horas extras não pagas, direitos trabalhistas lesados. Os EUA aprendem a lição e instalam suas fábricas no México e na América Central”.

Os arautos do neoliberalismo sempre apregoam que os países subdesenvolvidos só experimentam o subdesenvolvimento porque ainda não implementaram o capitalismo em profundidade. Assim sendo, a solução seria um “choque de capitalismo”. Este remédio amargo foi receitado à America Latina com o nome de Consenso de Washington, ou seja, um conjunto de reformas que conduziriam os países subdesenvolvidos à trilha do desenvolvimento. O Consenso receitava austeridade fiscal, elevação de impostos, aplicação de juros altos para atrair investimentos estrangeiros, privatizações etc. No Brasil, os governos de Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso seguiram à risca tais conselhos e no fim da década de 90 vimos no que deu.

Em todo o mundo acirrou-se o desemprego, a pobreza e a degradação ambiental, frutos diretos e indiretos do capitalismo em sua variante neoliberal. O abismo que separa os mais ricos dos mais pobres aprofundou-se ainda mais. Em seu bojo o sistema traz o pressuposto de que poucos consomem muito porque muitos consomem muito pouco ou quase nada, apesar da ideologia neoliberal apregoar que o capitalismo é um sistema que concede oportunidades para todos.

A crise de 2008 mostrou a fragilidade do neoliberalismo e forçou o capitalismo a recuar e retomar o uso de mecanismos keynesianos. Neste momento, por exemplo, Obama prepara-se para introduzir uma política que garantirá assistência médica gratuita e de qualidade a 90% dos norte-americanos. O estado do bem estar social (welfare state), que fora dilapidado por anos a fio pelas políticas neoliberais, agora volta à cena em decorrência da maior crise capitalista desde a Quinta Feira Negra.

Portanto, podemos dizer que estamos num período que seguramente pode ser chamado de entre-muros. Há 20 anos desabou um muro que era tido como o bastião de um sistema que ruiu feito castelo de cartas devido à burocracia, falta de liberdade de expressão e ineficiência econômica. Num processo que se iniciou em 2008 e continuou por este ano, outro murro ruiu: aquele representado pelo touro de bronze de Wall Street (“rua do muro”), símbolo da pujança do sistema capitalista neoliberal. O período entre muros demonstrou que nem o socialismo real nem o capitalismo neoliberal são sistemas que garantem qualidade de vida à maioria dos seres humanos.

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, a humanidade precisa encontrar outros rumos para as políticas sociais e econômicas, aproveitando o que cada sistema sócio-econômico tem de melhor, a fim de que um novo paradigma se erija dos escombros de ambos os muros.


Para saber mais:
- Leiam meu texto "O Homo Davos em Extinção";
- Assistam ao documentário "Encontro com Milton Santos ou a globalização vista do lado de cá";
- Assistam ao filme "A vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

20 DE NOVEMBRO É LUTA

Por Cléber Sérgio de Seixas 

Castro Alves, o poeta dos negros, cantou em sua magistral obra que “existe um povo que a bandeira empresta/ P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!.../ E deixa-a transformar-se nessa festa/ Em manto impuro de bacante fria!.../ Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta”. Só podemos entender os versos do poeta contextualizando-os na época em que o mesmo viveu.

A geração condoreira ansiava por liberdade para os negros. Os abolicionistas lutaram muito para que aqueles que vieram da África e seus descendentes obtivessem um mínimo de dignidade e direitos civis. Apesar de serem um reflexo de seu tempo, os versos do Navio Negreiro permanecem atuais pelo fato de muitos no Brasil ainda emprestarem nossa bandeira para outros a macularem ao tentarem, com ela, encobrir esta chaga aberta que se chama preconceito racial contra os negros.

Em 1888 foi assinada uma lei que pouco mudou na realidade dos negros. Libertos, eles foram deixados à própria sorte, sem nenhum aparato jurídico que os amparasse ou os protegesse do preconceito racial que ainda ficara latente, o qual às vezes vinha à tona sem que aqueles que o trouxeram à luz fossem legalmente punidos.

No auge do ciclo do café, os negros foram substituidos por imigrantes italianos, japoneses e outros. Se viram livres, porém desamparados. Quando outrora estavam sob o telhado da senzala e sob a égide do senhor de engenho, pelo menos gozavam de uma estrutura que, apesar de extremamente violenta e opressora, constituia "seu" mundo, sua esfera de convívio com outros representantes de sua raça, com os quais compartilhavam os mesmos anseios.

Quando o negro sai de dentro das senzalas, apesar de muitos alforriados ainda continuarem a trabalhar nas mesmas fazendas, fica sem teto e sem chão. Alguns refugiam-se em quilombos, optando por uma vida de ostracismo longe do desenvolvimento urbano. Outros, a maioria, preferem fugir para os grandes centros urbanos, engrossando o número de desvalidos. É nesse contexto, por exemplo, que surgem as favelas cariocas, senzalas modernas que abrigam, em sua maioria, aqueles que foram socialmente relegados às mais reles condições sociais, carecendo de direitos, habitação, emprego, etc. Não é à toa que o roqueiro Lobão certa vez cantou que “a favela é a nova senzala”.

É sempre importante situar as várias leis que acabaram com a escravidão no Brasil no contexto econômico internacional, salientando que nossa abolição é descendente direta da fase industrial do capitalismo, cuja pujança e dinamismo necessitavam de novos mercados compostos por homens livres. Manter os negros escravos tornara-se, portanto, um entrave às necessidades de expansão do capital industrial. Assim sendo, o Brasil, que no século XIX já gravitava na órbita das grandes potências, especificamente da Inglaterra, foi gradativamente erradicando a escravidão.

É importante, também, salientar que o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolí-la. A Lei Áurea não foi simplesmente uma benevolência da Princesa Isabel, e sim a decorrência de uma imposição dos capitães internacionais da indústria, que precisavam do mercado nos moldes que lhes fossem favoráveis.

Há 314 anos morria Zumbi dos Palmares, líder negro que comandou o maior quilombo de que se tem notícia, tanto em extensão quanto em se tratando do tempo em que resistiu a ataques. O 13 de maio pouco tem de significativo para a conquistas dos direitos dos negros (clique aqui para ler meu texto “A Máquina a Vapor Libertou os Escravos”), visto que os frutos dele decorrentes não foram obtidos pelo engajamento direto do negro, apesar dos hercúleos esforços abolicionistas.

Muito mais importante para os afrodescendentes brasileiros é o 20 de novembro, sobretudo por evocar a figura de Zumbi, que traz em si uma carga simbólica de luta pela conquista de direitos e oportunidades.  O 20 de novembro evoca luta, enquanto o 13 de maio lembra uma esmola de brancos a negros, levada a cabo num contexto de mudanças no sistema econômico capitalista.

Esta data deve ser lembrada sempre, sobretudo porque os negros ainda têm muito o que conquistar em se tratando de direitos e cidadania. É também um momento para dizer não ao racismo, à discriminação e ao preconceito social, e, por outro lado, dizer sim às cotas para negros em universidades públicas e a punições severas para aqueles que teimarem em discriminar um ser humano pela cor de sua pele.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MÉDICOS DO POVO PARA O POVO




Há 10 anos que se estão formando as primeiras gerações de médicos de origem pobre na América Latina. Não estão sendo formados pelas excelentes universidades publicas latinoamericanas, que têm os melhores cursos tradicionais de medicina do continente. Nem falar das universidades privadas.

Eles estão sendo formados pelas Escolas Latinoamericanas de Medicina, projeto iniciado há 10 anos em Cuba e que agora já conta com uma Escola similar na Venezuela e tem projeto de ampliar-se para países como Bolívia e Equador. São selecionados estudantes por cotas de movimentos sociais –originários do movimento camponês, do movimento negro, do movimento sindical, do movimento indígena e de outros movimentos sociais -, se tornam alunos do melhor curso de medicina social do mundo e retornam a seus países para praticar os conhecimentos adquiridos não na medicina privada, mas na medicina social, pública, nos lugares que os nossos países mais precisam, sem contar normalmente com os médicos formados nas universidades tradicionais.

Cuba transformou uma antiga instalação militar – a Academia Naval Granma – em uma universidade médica latinoamericana, para que milhares de jovens privados de estudar medicina nos seus países, possam ter acesso a esse curso em Cuba e retornem a seus países para atender necessidades que não são contempladas pela medicina tradicional.

Além da melhor medicina social que se pode dispor hoje no mundo, os alunos recebem formação histórica sobre o nosso continente, respeitando-se as convicções – políticas, religiosas – de cada aluno. “Médicos dispostos a trabalharem onde for preciso, nos mais remotos cantos do mundo, onde outros não estão dispostos a ir. Esse é o médico que vai ser formar nesta Escola” – dizia Fidel na inauguração da Escola.

A primeira turma se formou em 2005. Formar um médico nos EUA custa não menos de 300 mil dólares. Cuba está formando atualmente mais de 12 mil médicos para países do Terceiro Mundo, em uma contribuição inestimável para os povos desses países. Mesmo passando dificuldades econômicas nas duas ultimas décadas, Cuba não diminuiu nenhuma vaga na Escola Latinoamericana de Medicina – como, aliás, nenhuma vaga nas escolas cubanas, nem nenhum leito em hospital.

Desde a formação da primeira turma, em 2005, graduaram-se médicos de 45 países e de cerca de 84 povos originários. Formaram-se 1496 médicos em 2005, 1419 em 2006, 1545 em 2007, 1500 em 2008, 1296 em 2009. Os três países que tiveram mais médicos formados na Escola são Honduras, com 569, Guatemala, com 556 e Haiti, com 543. Atualmente mais de 2 mil alunos estudam na Escola. A procedência social deles é em sua maioria operários e camponeses. As religiões predominantes são a católica e a evangélica.

A Escola em Cuba – em uma cidade contigua a Havana – é integrada por 28 edificações numa área de mais de um milhão de metros quadrados, onde os estudantes recebem o curso pré-medico e os dois primeiros anos do curso de medicina, de ciências básicas. Depois os alunos recebem o “ciclo clínico” nas 13 universidades médicas existentes em Cuba. O corpo geral de professores é de mais de 12 mil.

O Brasil também já conta com cinco gerações de médicos, formados na melhor medicina social, sem que possam exercer a profissão, propiciada pela generosidade de Cuba. Os Colégios Médicos tem conseguido bloquear esse beneficio extraordinário para o povo brasileiro, alegando que o currículo em que se formara, não corresponde exatamente ao das universidades brasileiras – uma forma corporativa de defender seus privilégios.

As nossas universidades públicas costumam ter as vagas ocupadas por alunos que se preparam muito melhor que a grande maioria, por dispor de recursos econômicos que lhes possibilitam ter formação muito superior às dos outros. Assim, em geral tem origem na classe média alta e na burguesia, que desfrutam da melhor formação que as universidades públicas possuem, gratuitamente, sem que a isso corresponda a contrapartida de exercer medicina social, nas regiões em que o país mais necessita.

Essas instituições corporativas não devem se preocupar, as centenas de médicos formados na Escola Latinoamericana de Medicina não abrirão consultórios nos Jardins de São Paulo, na zona sul do Rio ou em outras regiões ricas das capitais brasileiras. Eles irão fazer a medicina social que o Brasil precisa, atendendo a demandas que não são atendidas pelos médicos formados nas melhores universidades públicas brasileiras, mas que derivam seus conhecimentos para atender a clientelas privadas, em condições de pagar consultas e tratamentos caros.

As negociações para o reconhecimento dos diplomas dos jovens médicos solidários formados em Cuba estão em desenvolvimento, com apoio do governo brasileiro, mas ainda não chegaram a uma solução que permita o aporte dessas primeiras gerações de médicos brasileiros de origem popular.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

400 políticos americanos foram pagos para manter bloqueio a Cuba

Um relatório do grupo independente Public Campaign aponta que cerca de 400 congressistas e candidatos dos Estados Unidos receberam um valor de US$ 11 milhões (R$ 18,9 milhões) em doações de campanha desde 2004 com a condição de manter o criminoso bloqueio americano a Cuba. A lista inclui o senador republicano John McCain, derrotado pelo democrata Barack Obama nas eleições presidenciais de 2008.

Segundo o grupo — que defende o financiamento público das campanhas políticas —, o valor foi pago ainda para evitar que qualquer medida de abertura do bloqueio fosse aprovada no Senado ou na Casa dos Representantes. O relatório foi citado em reportagem do jornal espanhol El País e diz que pelo menos 18 parlamentares mudaram de opinião sobre Cuba, depois de receber doações de campanha.

A lista de beneficiários, afirma o jornal, é liderada por três congressistas republicanos da Florida: Lincoln Diaz-Balart (US$ 366.964); seu irmão Mario (US$ 364.176) e Ileana Ross-Lehtinen (US$ 240.050) Já McCain aparece em quarto, com um montante de US$ 183.415.

As doações aos democratas, contudo, aumentaram 50% nestes quatro anos. O aumento ocorreu principalmente depois de 2006, quando os democratas conquistaram a maioria na Casa dos Representantes. Como resultado do pagamento, afirma o jornal, 53 dos deputados enviaram uma carta à presidente da Casa, a democrata Nancy Pelosi, opondo-se às propostas do presidente Barack Obama de aliviar o bloqueio.

Iniciado oficialmente em 7 de fevereiro de 1962, o bloqueio americano sobre Cuba começou sob o governo de John F. Kennedy — mas Washington já tinha imposto certas sanções a partir de 1959. As restrições comerciais e financeiras representaram perdas à economia cubana de US$ 96 bilhões desde quando entraram em vigor, segundo o governo de Havana. Só em 2008, estima-se que Cuba deixou de receber US$ 242,4 milhões.

Obama e Cuba

O governo Obama adotou uma política de abertura em relação a Cuba, permitindo, inclusive, o fim da suspensão de Cuba na OEA (Organização dos Estados Americanos). O limite para o envio de dinheiro para parentes na ilha também foi suspenso, e Obama retomou os diálogos sobre imigração com o governo cubano e reatamento do serviço direto de correio.

O presidente americano já afirmou, contudo, que o bloqueio não será suspenso até que Cuba sucumba ao padrão americano de democracia e liberdade — mesmo que a custo de perder as conquistas da Revolução Cubana (1959). Vários parlamentares dos Estados Unidos, no entanto, propuseram medidas intermediárias, como acabar com a proibição de viagens a Cuba para todos os americanos.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

DE OLHO NOS VEREADORES

Reportagem de Alessandra Mello

Que tal adotar um vereador e acompanhar todos os seus passos, gastos com verbas indenizatórias e projetos até o fim de seu mandato? Essa é a proposta do projeto Adote um vereador, que usa a internet como ferramenta para que os cidadãos possam fiscalizar os políticos. Idealizada inicialmente pelo Instituto Ágora em Defesa do Eleitor e da Democracia, ela tem sido adotada por eleitores e também organizações não governamentais (ONGs), como o Movimento Voto Consciente, que há 22 anos acompanha o trabalho do Legislativo paulista, e a Transparência Brasil, que tem dado força para disseminar a ideia, que já faz sucesso nos Estados Unidos e Inglaterra.

 Surgida em janeiro deste ano, inicialmente na capital paulista, onde 17 dos 55 vereadores já foram adotados, a ideia está aos poucos se expandindo para outros estados, mas em Minas Gerais até hoje nenhum foi adotado. Quem se habilita? Pela proposta, os interessados escolhem os vereadores de sua cidade para acompanhar durante todo o mandato e se cadastram na Wiki, uma plataforma de uso coletivo na internet, onde são reunidos os links e informações dos “adotados” para quem quiser acompanhar.

 “O ideal é criar um blog gratuito e começar a partir daí a reunir informações sobre o trabalho dos vereadores, como presença nas votações e comissões, projetos aprovados e apresentados, doadores de campanha, declaração de bens e todo tipo de informação que for possível levantar”, conta o estudante de informática Joildo Santos, de 23 anos, um dos organizadores voluntários da campanha. Segundo ele, quem quiser pode se cadastrar no grupo de discussão do site do projeto para receber todas as instruções sobre como fiscalizar os representantes do Legislativo municipal e também como integrar a rede comunitária que divulga a iniciativa. Além do blog, o cidadão adotante pode informar ao vereador que seu trabalho passará a ser acompanhado e divulgado sistematicamente por meio do Wiki, que nada mais é que um site colaborativo, no qual os associados interferem no conteúdo, nos moldes da Wikipédia. “A gente sempre vê uma cobertura ampla do que acontece nos legislativos estaduais e também no Congresso, mas pouco nos municípios, principalmente nas cidades pequenas. E essa é uma fiscalização importante, pois o que mais nos afeta é o que acontece com a nossa cidade e com os recursos que ela dispõe”.

Para um dos voluntário do Adote um vereador, o físico e programador Everton Zanella, de 25 anos, o uso da internet como ferramenta de combate à corrupção e de controle dos gastos públicos ainda é tímido no Brasil. “Mas nosso projeto é de longo prazo. A intenção é ampliar nossa rede para que nas próximas eleições municipais os eleitores possam ter uma boa base de dados para consultar antes de votar em alguém que já exerça cargo público”, afirma Zanella, responsável pela página principal do site colaborativo que reúne as informações sobre os vereadores adotados em todo o país. Segundo ele, quem se interessar em participar pode acessar os contatos no site para ter mais informações. O projeto, que é mantido por voluntários, pretende também dá cursos on-line para quem se interessar pela proposta.


 Um exemplo em Taboão da Serra

Sozinho, o jornalista Allan dos Reis, 28 anos resolveu adotar de uma vez todos os 13 vereadores de Taboão da Serra, cidade da Região Metropolitana de São Paulo, com cerca de 230 mil habitantes. “Interessei-me pelo projeto e como não achei ninguém para dividir os vereadores resolvi adotar todos. Mas continuo divulgando o projeto para ver se consigo alguém para dividir comigo essa tarefa”, relata.

Segundo ele, não é nada fácil, pois os vereadores de Taboão se reúnem toda terça-feira e o trabalho para acompanhar é muito. “Assisto a todas as reuniões, anoto tudo, relaciono os projetos e requerimentos apresentados e ponho tudo no site.” A página mantida por ele também disponibiliza informações sobre doadores e gastos com a campanha eleitoral. Allan conta que a intenção é montar ao longo dos mandatos um perfil sobre a atuação de cada vereador, para que a população da cidade saiba nas próximas eleições como seus representantes se comportaram para ter meios de avaliar melhor se merecem ou não permanecer no posto.

A fiscalização dos vereadores nas comissões também é feita pela organização Movimento pelo Voto Consciente, fundada em 1987. Toda semana, voluntários  acompanham as reuniões da Câmara Municipal de São Paulo e fazem relatos do desempenho de cada um. Depois tudo isso é postado no site da entidade para que os eleitores possam conferir.

A psicóloga e vice-coordenadora da entidade, Rosângela Giembinsky, conta que os “pais” dos vereadores são “voluntários de altíssima qualidade” e que vão desde trabalhadores domésticos, advogados, estudantes e até mesmo o ex-presidente do TRE-SP, Nelson Schiarazi. “Não precisa ter escolaridade, entender de direito ou administração, basta ter consciência da importância da educação para a cidadania e de que os estamos fiscalizando e cobrando daqueles que definem os destinos dos gastos públicos e da cidade”, conta.

Segundo Rosângela, o movimento dá cursos e treinamentos para os voluntários e também mantém em seu site um link para troca de informações sobre as atividades desenvolvidas em todo o Brasil de fiscalização do poder público em todas as instâncias.


Fonte: Jornal Estado de Minas - 16/11/2009

domingo, 15 de novembro de 2009

Eleições 1989 - 20 anos depois


 Por Cléber Sérgio de Seixas

Nesse dia 15 de novembro convém lembrar que há exatamente 20 anos nós, brasileiros, voltávamos às urnas para eleger um presidente da república. Naquele ano de 1989, havia 29 anos que não votávamos para presidente, impedidos que estávamos por uma ditadura que calcou a democracia sob suas botas.

A nação verde e amarela e o mundo viviam tempos de mudança. No Brasil, tínhamos recém-saído de uma longa noite sob as rédeas dos militares, havíamos sido derrotados na campanha das Diretas Já, padecíamos de inflação de quase 1000% ao ano. O mundo havia assistido à queda do Muro de Berlim, o que alguns consideravam como a última pá de cal sobre o socialismo. Intelectuais se apressavam em decretar o “fim da História” e apregoar a vitória do ideário capitalista. Os arautos do neoliberalismo cantavam odes à unipolarização do mundo, que doravante ficaria sob a égide dos EUA. Em meio a este cenário, as propostas de partidos e candidatos de esquerda em todo o mundo eram ridicularizadas e consideradas ultrapassadas pela História.

No Brasil, há muito não se via tantos políticos notórios em disputa: Mário Covas, Ulisses Guimarães, Aureliano Chaves, Guilherme Afif Domingos, Leonel Brizola, Paulo Maluf, Roberto Freire, Lula. Sem uma definição no primeiro turno, o resultado das eleições fora adiado para o segundo turno, cuja data havia sido marcada para 17 de dezembro.

A disputa ficara polarizada entre um candidato que representava as elites e os interesses da mídia, e outro, que vinha dos movimentos de base, do operariado e das lutas sindicais. De um lado Collor, auto-proclamado “caçador de marajás”, eleito pela mídia como o mais preparado, jovem e belo. De outro, Lula, ex-deputado federal, de aparência sisuda, proferindo um discurso que não agradava à mida nem ao empresariado. Lembro-me, como se fosse hoje, das várias aparições de Collor em programas de televisão onde ele abusava de frases de efeito cujos conteúdos sempre faziam alusão ao combate à corrupção e à moralização na esfera política nacional. A mídia incensou-o até ao fim, tendo sido a apoteose deste apoio o famoso debate promovido pela Rede Globo, quando uma edição criminosa conduziu o “caçador de marajás” de Alagoas à vitória naquele pleito – tal episódio é apenas um dos vários que comprovam a trajetória criminosa das organizações dos Marinho. Contribuiu também para a derrota de Lula a veiculação na campanha de Collor do depoimento de Miriam Cordeiro, com quem Lula tinha tido um filho.

Eleito, Collor, o mais jovem a assumir a presidência da república, confiscaria a poupança dos brasileiros e iniciaria um governo marcado pela mudança constante de ministros e desastres na política econômica, em meio a passeios de jet-ski, vôos de supersônico e corridas de domingo cobertas pela mídia, nas quais sempre vestia camisetas estampadas com suas idéias.  Não demorou e uma luta fratricida deu início ao fim do alagoano que dizia que tinha “aquilo roxo”. Em 2 de outubro de 1992, Collor era afastado por impeachment, após um longo processo no qual denúncias de corrupção vieram à tona. Seu vice, Itamar Franco, assumiria a presidência. Dois anos depois, o tesoureiro da campanha de Collor, Paulo César Farias, pivô do escândalo, seria encontrado morto numa casa situada no litoral alagoano - um caso que até hoje deixa dúvidas se foi um crime passional ou uma queima de arquivo.


Há 20 anos pagamos caro por termos votado em um indivíduo e não num projeto. Demos ouvidos ao canto de sereia da mídia e elegemos um candidato que inseriu o país no contexto dos ditames do Consenso de Washington, iniciando um processo de privatizações, austeridade fiscal, invasão do capital estrangeiro e demonização dos movimentos populares, processo este que Fernando Henrique Cardoso daria seqüência.


De lá para cá houve quatro eleições para presidente. Amadurecemos muito nosso voto, contudo, ainda nos falta consciência para votar, visto que ainda votamos em indivíduos e não em propostas políticas.

No próximo ano iremos de novo às urnas para escolher o trigésimo sexto presidente do Brasil. Nos defrontaremos, novamente, com o dilema de votarmos sob perspectivas personalistas ou então visando  um projeto de governo para o desenvolvimento do Brasil. Estejamos preparados, pois as investidas da mídia já despontam no horizonte de forma feroz, tentando nos induzir a votar conforme as preferências de uma elite que sempre se mostrou avessa aos interesses da grande maioria dos brasileiros. 

sábado, 14 de novembro de 2009

A REVOLUÇÃO NECESSÁRIA



Vitor Feitosa

Em sua opinião, qual o maior problema ambiental que enfrentamos hoje? A poluição hídrica e a escassez da água? A perda de biodiversidade provocada pelos desmatamentos? A poluição atmosférica nas grandes cidades? As montanhas de resíduos amontoados de maneira inadequada em malcheirosos lixões? A inconsciência de cidadãos e governantes em relação aos descalabros ambientais? O avanço do consumismo, que detona recursos naturais? O crescimento urbano e populacional descontrolado?

Seja qual for a sua escolha, será fácil concordarmos, pois para cada uma delas podemos enumerar diversas razões muito bem fundamentadas. Todas são situações que saltam aos olhos e, por si sós, podem levar a uma militância ambientalista por toda uma vida.

Agora, tente imaginar uma situação que reúna as consequências de tudo isso junto. Você começará a ter ideia da complexidade existente nas questões relativas às mudanças climáticas. Isso porque crescem os sinais de que as atividades do homem, alterando o clima do planeta, estão mudando as condições básicas, tanto econômicas quanto naturais, sobre as quais a moderna sociedade se consolidou. E, com elas, certamente mudando as relações culturais que nos permitem ser cidadãos e protagonistas de nossa própria história, como atores sociais.

Longe de uma visão fatalista do problema da mudança climática, o que precisamos analisar é o cunho das novas relações que ela traz consigo. Porque é aí que estarão as sementes que nos permitirão equacionar problema de tal magnitude.

Enquanto a mudança climática é discutida como um problema ambiental na imprensa e em outros fóruns, o que se verifica no âmbito das negociações da ONU são discussões que refletem a busca por novas relações econômicas que se configurarão a partir daí. Porque é disso que efetivamente se trata o problema das mudanças climáticas: relações econômicas e seus impactos ambientais. Para entender o porquê disso, precisamos reconhecer que foi no uso da energia que se assentaram as bases da Revolução Industrial, que reconfigurou a história. O uso do carvão mineral e, posteriormente, do petróleo permitiu que as máquinas que sustentaram o gigantesco crescimento industrial a partir do século 18 pudessem evoluir mecanicamente, atingindo altas produtividades e fazendo com que uma incipiente sociedade de consumo pudesse se desenvolver. À eficiência mecânica de tais máquinas se somava uma alta ineficiência energética, promovida pela abundância de insumos energéticos baratos, e uma total ausência de preocupação com emissões decorrentes da queima de combustíveis fósseis.

A concentração industrial necessitava de trabalhadores e a logística de distribuição era favorecida pela concentração de pessoas, o que estimulou muito o crescimento populacional nas cidades e a estruturação de um padrão de consumo impulsionado pelo desejo quase absoluto por uma melhoria nos padrões sociais, caracterizando o que hoje chamamos de “qualidade de vida”.

Independentemente das incipientes questões ambientais, até então vistas como mero obstáculo ao alcance da almejada qualidade de vida, o crescimento das cidades trouxe outros problemas mais visíveis. As questões sociais oriundas da exclusão de grupos de cidadãos que não podiam consumir no mesmo padrão, com todas as mazelas daí decorrentes e já conhecidas, permitiram o desenvolvimento de uma gama de ideologias políticas exclusivamente apoiadas na visão social do problema.



Apenas na segunda metade do século 20 é que a questão ambiental ganha importância, quando o conhecimento do efeito dos poluentes atmosféricos – inicialmente –, o  escassear da água potável e a perda de biodiversidade – posteriormente –, confrontaram a sociedade moderna com seus limites de crescimento. Mas é a partir da década de 1980 que a sociedade conhece mais de perto os efeitos das mudanças climáticas e consegue perceber que a Terra tem uma capacidade limitada de suportar esses efeitos. O maior problema então já era de cunho cultural: à custa de recursos naturais, tidos como infinitos, e queima de combustíveis fósseis para embalar o desenvolvimento econômico, a sociedade atinge patamares de “qualidade de vida” até então inimagináveis. Como exemplo, comparada à expectativa média de vida de 100 anos atrás, que não chegava aos 40 anos, o homem urbano de hoje beira os 80 anos e almeja os 120. Como no romance de Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, morrer tornou-se postergável sem que para tal se prestasse atenção ao preço exigido, na forma de uma pegada ecológica (medida que demonstra o consumo de recursos naturais de uma entidade – pessoa, empresa, cidade ou país) superior ao que o planeta Terra poderia dar conta. Atualmente já necessitamos de 1,25 planeta, quando efetivamente temos apenas um.

PROVEDORA INFINITA A história sempre foi suportada por um conceito básico: a natureza é provedora infinita, fornecendo tudo que é necessário e absorvendo tudo que descartamos. Essa relação persistiu por pelo menos três milênios de história registrada, quando o homem dispunha tão somente de ferramentas simples para atender às suas necessidades. Com o advento da Revolução Industrial, a sociedade ganhou ferramentas poderosas, que ampliaram em muito a capacidade produtiva de um único indivíduo, permitindo que ele produzisse a mesma coisa em ritmo muito superior à sua capacidade até então. Mudou-se a forma de trabalho, mas não mudaram as relações culturais que preservavam o entendimento da natureza como infinita provedora. Estava dada a senha para o crescimento vertiginoso da pegada ecológica.

Abandonar relações que se mostram inúteis ao desenvolvimento e à sobrevivência da espécie é sempre algo difícil. Muitas espécies desaparecer do planeta por não encontrar meio de se adaptar às mudanças, que sempre existiram na história geológica da Terra. Nós, seres humanos, fomos dotados de uma capacidade adicional às demais espécies: a de estabelecer relações culturais, que permitem a identificação de modos de comportamento perante a realidade, que leva à adaptação às mudanças. As relações culturais se caracterizam pela capacidade que temos de aprender com experiências e passar à frente as experiências vividas, gerando novos aprendizados. Com isso, futuras gerações têm um ponto de partida para desenvolver as próprias experiências e aperfeiçoar o processo. A experiência que vivemos no momento com as mudanças climáticas não é nova para o planeta, conquanto seja nova dentro dos registros históricos humanos. Por isso o aprendizado rápido torna-se fundamental.

A questão das mudanças climáticas traz duas vertentes de análise igualmente importantes. A primeira refere-se à origem do problema. Como mencionado, as causas estão relativamente bem estabelecidas, já sendo conhecidas as razões científicas que levam ao efeito estufa, pelo qual alguns gases retêm mais calor na superfície da Terra do que seria necessário à preservação da vida. Esses gases em excesso derivam principalmente das atividades humanas, por meio da queima de combustíveis fósseis, atividades agrossilvopastoris e manuseio de resíduos. Em decorrência do aumento da quantidade desses gases, surge o aquecimento mais intenso da superfície do planeta e a atmosfera reage buscando dissipar o calor por meio de mudanças nos padrões climáticos, uma vez que o clima é o grande regulador térmico da Terra.

A segunda vertente refere-se ao problema da adaptação aos efeitos das mudanças do clima. Inundações, furacões, aumento do nível dos mares, entre outras reações, provocam dramáticos impactos nas populações estabelecidas, muitas delas completamente despreparadas para enfrentar o problema.

RELAÇÕES INSUSTENTÁVEIS O que se observa atualmente é uma discussão muito intensa sobre a maneira de reduzir as emissões, mas insuficiente debate sobre a adaptação. Reduzir emissões é importante. No entanto, os efeitos são muito lentos e as consequências sofridas hoje não decorrem das emissões atuais, mas de emissões de décadas atrás e que ainda permanecerão ativas por séculos. Portanto, a adaptação precisa ser discutida com alta prioridade também. Não é por outra razão que relatório do Pentágono feito em 2004 indicava a questão da adaptação às mudanças climáticas como a maior ameaça à segurança dos EUA. A questão do terrorismo vinha apenas em segundo lugar.

Lidar com o problema da mudança climática é, portanto, lidar com um modelo de sociedade que foi construído com base em relações econômicas insustentáveis. Tanto as demandas exageradas por parte da sociedade de consumo precisam ser revistas, quanto o modelo de produção ser completamente alterado. Precisamos de uma nova Revolução Industrial, baseada na inovação e em práticas sustentáveis de produção, que, por sua vez, induzam a mudança de comportamento do consumidor e criem novas relações culturais.

Sem essas relações fortemente estabelecidas, poderemos nos perder em meio a uma discussão infértil de busca de culpados. Precisamos nos reconhecer como parte do problema, para encontrarmos a solução. Pois, enquanto cada indivíduo considerar que a responsabilidade não é dele também, faltará o ingrediente mais importante para a mudança da relação cultural: a pactuação entre os agentes econômicos que, em conjunto, concorreram para o problema.

Portanto, mudança climática precisa ser entendida como uma mudança cultural nos padrões sociais estabelecidos em bases insustentáveis. É um alarme soando, a indicar que uma nova Revolução Industrial, lastreada por inovações tecnológicas, científicas, sociais e culturais, faz-se imperiosa no direcionamento dos novos rumos que nos levarão a uma sociedade realmente sustentável.

Vitor Feitosa  é geólogo, formado pela USP, tem MBA em gestão e empreendedorismo social pela FIA-USP. É presidente do Conselho de Empresários para o Meio Ambiente da Fiemg e coordenador do SC-09, Subcomitê de Mudanças Climáticas da ABNT.


Fonte: Jornal Estado de Minas 

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Brasil em Copenhague



Por Frei Betto


É uma espinha na garganta do governo brasileiro a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, marcada para dezembro, em Copenhague.

Todos sabemos que o nosso planeta está doente. Nós, humanos, podemos usar máscaras para nos proteger da poluição atmosférica. A Terra não. Ela está irremediavelmente exposta aos efeitos nocivos de nossas atividades, que, na ânsia de acumular lucros, afetam a preservação ambiental.

A Terra é um ser vivo. Os gregos antigos a chamavam de Gaia. É também um milagre da natureza. Um pouco mais ou um pouco menos de calor e a vida não existiria em nosso planeta. Ele seria árido e desabitado como Marte ou Vênus.

Calcula a ciência que o universo existe há 14 bilhões de anos. A Terra, há 4,5 bilhões. Atingida, durante milênios, por meteoros, períodos glaciais, secas prolongadas, ela foi capaz de autorregenerar.

Porém, nos últimos 150 anos, o bicho homem/mulher causou demasiado estrago em seu hábitat. Entupiu de lixo rios e mares, desmatou florestas (a Amazônia, em 17% de sua área), contaminou o ar que respiramos... enfim, provocou tamanha degradação, a ponto de, hoje, Gaia ter perdido 25% de sua capacidade de autorregeneração. Só pode ser salva do apocalipse precoce se houver intervenção humana.

Aqui entra a saia justa do governo brasileiro. Nele, no que concerne à questão ambiental, há muitas cabeças e pouco consenso. O Brasil é o quarto maior emissor do mundo de gases de efeito estufa. O presidente Lula, capaz de virar a mesa na defesa da melhoria de renda dos mais pobres, nunca priorizou a agenda ecológica. Prova disso é a liberação de sementes transgênicas na lavoura brasileira, o desmatamento progressivo da Amazônia e o silêncio do Planalto quando ministros lobistas do agronegócio e das empreiteiras se queixam de que o Ibama – que avalia o impacto ambiental das obras – atrapalha o progresso... O PAC, por exemplo, é um primor de anabolizante do PIB e de ameaça ao desenvolvimento sustentável.

Com alto e merecido índice de aprovação, o governo Lula não soube sequer manter à frente do Ministério do Meio Ambiente uma figura internacionalmente reconhecida como Marina Silva. Quando ela vetava obras prejudiciais à mãe ambiente, o governo, pressionado pelo agronegócio e as empreiteiras, se sentia incomodado.

A decisão de Marina Silva de entrar na disputa presidencial nas eleições de 2010 se constituiu, para o governo, num imprevisto político que, doravante, o obriga a não mais empurrar com a barriga a questão ambiental. Aliás, agora todos os prováveis candidatos são verdes desde criancinha...

O que seria uma eleição de caráter plebiscitário, voltada a avaliar os oito anos de governo Lula, realinha o olhar da nação no rumo do futuro. Os candidatos, por força da participação de Marina Silva, terão de debater o projeto Brasil centrado no desenvolvimento sustentável.

A Conferência de Copenhague estabelecerá um novo protocolo, em substituição ao de Kyoto. Governos e empresas devem se comprometer, urgentemente, a reduzir a emissão de CO2 (gás carbônico). A excessiva presença de poluentes na atmosfera esburaca a camada de ozônio, derrete as geleiras, faz subir o nível do mar, aumenta o aquecimento global, causa desertificação (e, portanto, fome e fluxos migratórios), multiplica cânceres e enfermidades respiratórias.

O que está em questão não é apenas evitar que a temperatura da Terra suba dois graus, provocando efeitos nefastos. Temos pela frente apenas 15 anos para evitá-lo. É o próprio sistema de estímulo consumista, centrado no uso privado de carros e de energias poluentes. Sem mudança do paradigma capitalista, a catástrofe será inevitável.

Os países ricos, vilões da excessiva emissão de CO2, resistem às medidas de redução a serem adotadas até 2020. O Brasil vacila. O Ministério do Meio Ambiente defende o compromisso de, até lá, se reduzirem em 40% as emissões nacionais e o desmatamento da Amazônia em 80%. O Itamaraty e o Ministério da Ciência e Tecnologia são contra. A ministra Dilma Rousseff, como boa mineira, prefere não falar em índices ou números...

No centro do debate está a candidatura à Presidência da ministra-chefe da Casa Civil. O governo não mira propriamente Copenhague, e sim as urnas de outubro de 2010. Se a delegação brasileira presente na capital da Dinamarca abraçar a posição dos países ricos – que coincide com a do agronegócio e das empreiteiras – a candidata Dilma corre o risco de ficar mal na foto ecológica, sombreada pela candidata Marina, que não abre mão da sustentabilidade. Se o Brasil se comprometer com a meta de redução de 40%, Dilma ganha destaque ecológico na foto, mas desagrada a base aliada que lhe sustentará a candidatura.

Dia 3 passado, Lula e os ministros debateram a questão durante três horas. Não chegaram a um consenso. Nova reunião está prevista para sábado. Queira Deus que o governo se preocupe mais com as futuras gerações e a saúde do planeta do que com os interesses pecuniários das empresas responsáveis pela degradação ambiental.

O FACTÓIDE DO APAGÃO

Por Cléber Sérgio de Seixas

A mídia de forma desavergonhada resolveu classificar o blecaute ocorrido na noite do dia 10 passado como “apagão”. O termo “apagão” ganhou notoriedade e caiu na boca do povo durante o último governo de Fernando Henrique Cardoso, quando ocorreu um racionamento de energia. Nessa época, os brasileiros foram incentivados a poupar energia para que fosse evitado um colapso no sistema de distribuição, devido ao baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas e dos também baixos investimentos do governo no setor naquele momento. Porém, comparar o “apagão” de FHC com o blecaute que durou umas cinco horas em algumas regiões do país é, para dizer o mínimo, desonestidade intelectual. Uma das diferenças cruciais entre um e outro é que a falta de energia nos tempos de FHC se deu em decorrência de problemas na geração, enquanto que o desabasteciamento energético ocorrido anteontem, ao que tudo indica, foi devido a problemas na transmissão. Em outras palavras, não há nenhuma crise energética no Brasil, tal como ocorreu no governo do sociólogo dos príncipes.


Costumo comentar com minha esposa que, doravante até às eleições presidenciais do ano que vem, a campanha do PIG (Partido da Imprensa Golpista) contra o governo Lula e, consequentemente, contra sua afilhada política Dilma Roussef, vai se intensificar cada vez mais até chegar a um nível explícito em que não sobrarão dúvidas de que o objetivo do quarto poder é impedir que o presidente operário eleja um(a) sucessor(a). Pode-se esperar de tudo por parte da oposição e de seu tentáculo midiático em 2010.

O Jornal da Band do dia 11 de novembro dedicou seus 30 minutos para abordar de todas as perspectivas possíveis o assim chamado apagão. Sempre que possível, os âncoras Ricardo Boechat e Joelmir Beting aproveitavam para alfinetar o governo federal, responsabilizadando-o pela pane elétrica. Já o Jornal da Record foi mais sutil na abordagem, não sem um certo ar tendencioso a denegrir a imagem do governo.

O jornal Estado de Minas de 12 de novembro dedica um especial de várias reportagens ao blecaute e faz a seguinte chamada em sua capa: “E o Brasil apagou...”. Numa das matérias, assinada por Marcílio de Morais, há o seguinte trecho:

“O incidente que ocorreu nas linhas de transmissão de energia elétrica no Paraná e em São Paulo, desligando a usina hidrelétrica de Itaipu na noite de terça-feira e afetando o abastecimento de eletricidade em 18 estados brasileiros, provocou um curto-circuito político entre o governo e oposição ontem. Antes mesmo de serem esclarecidas as causas do blecaute, a oposição partiu para o ataque à ministra da Casa Civil e pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, atribuindo a ela a responsabilidade pelo apagão por ela ter sido ministra das Minas e Energia, ainda que tenha deixado o cargo em 2005”.


Acuada pela popularidade de Lula, que pode transferir votos para Dilma, bem como pelas conquistas que ele recentemente obteve para o Brasil (por exemplo, a descoberta das camadas petrolíferas do pré-sal, o despontar do Brasil no cenário político e econômico internacional, a Copa do Mundo em 2014 e as olimpíadas no Rio em 2016), a oposição continuará a valer-se, via mídia, da distribuição de factóides com o intuito de desestabilizar o governo e, por extensão, denegrir a imagem de Dilma. Em outro trecho a matéria diz o seguinte:

“O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), apresentou um pedido na Comissão de Infraestrutura para realização de audiência pública com a presença do ministro Lobão e da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para que prestem esclarecimentos sobre o apagão. Ele lembrou que ainda há duas semanas a ministra-chefe da Casa Civil garantiu que o Brasil estava a salvo de novo apagão elétrico”.

Note que os tucanos, que não propuseram até agora nenhum projeto político para o Brasil, tentam, novamente, desgastar Dilma levando-a a mais uma audiência, não bastasse o caso Lina Vieira. Na mesma matéria, o partido democrata – mais conhecido como partido do DEMO -  foi mais incisivo e adiantou para que veio, tocando direto na ferida:

“O líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), relacionou o blecaute diretamente a Dilma Rousseff, ex-ministra de Minas e Energia. ‘Faltou investimento. O modelo implantado por Dilma expulsou os investidores e o governo não investiu, provocando o colapso’, disse”.

Sempre comparo a situação do Brasil sob Lula à do Chile sob Allende no início dos anos 70. Sabe-se, hoje, que a oposição interna e a externa ao governo socialista de Salvador Allender tentou desestabilizar seu governo de várias formas, da paralização do sistema de transportes (financiada pela CIA) até ao golpe de misericórdia que consistiu em bombardear o palácio de governo. Nesse ínterim, o uso de sabotagens a linhas de transmissão elétrica, por exemplo, foi um dos expedientes utilizados pelos adversários do governo da Unidade Popular.

Como disse certa vez Eduardo Galeano, a história é um profeta com o olhar voltado para trás para anunciar o que será. Á luz da frase deste grande jornalista uruguaio, afirmo que  pode-se esperar de tudo e um pouco mais no ano que vem no que tange a ataques da imprensa contra o governo. Factóides mais factóides surgirão com o intuito de “queimar o filme” do governo Lula. Se os factóides não surtirem efeito, outros tipos de sabotagem poderão ser utilizados. Pergunto ao leitor: não é muita coicidência que, num momento em que o ENEM tentava aumentar sua abrangência para abarcar também os vestibulares das universidades federais, tenha ocorrido um “vazamento” das provas? Da mesma forma, não é também uma coincidência que, logo agora que Dilma subiu 4 pontos nas pesquisas e Serra caiu também 4 pontos- ou “de quatro”, como queiram - aconteça um incidente energético que passa imediatamente a ser utilizado como fato político?

Não costumo dar ouvidos a teorias da conspiração, mas é bom ficar precavido pois sabotagens já ocorreram aqui e acolá e podem muito bem se repetir.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Capitalismo precisa de sua perestroika



Por Mikhail Gorbachev

Vinte anos se passaram desde a queda do Muro de Berlim, um dos símbolos vergonhosos da Guerra Fria e da divisão do mundo em esferas de influência antagônicas. Hoje, podemos revisitar esses acontecimentos de maneira menos emocional.

O anunciado "Fim da História" não se concretizou. Contudo, tampouco se concretizou o mundo em que muitos de minha geração acreditavam, um mundo em que a humanidade poderia, enfim, esquecer o absurdo da corrida armamentista, conflitos regionais e disputas ideológicas estéreis, e entrar num século dourado com segurança coletiva, uso racional de recursos, fim da pobreza e da desigualdade.

Outra consequência do fim da Guerra Fria é a realização de um dos postulados centrais do novo pensamento: a interdependência de elementos importantes que chegam ao coração da existência humana. Isso envolve não só processos e eventos em diferentes continentes, mas a conexão orgânica entre mudanças nas condições econômicas, tecnológicas, sociais, demográficas e culturais que determinam a existência diária de bilhões no planeta. A humanidade começou a se transformar em uma civilização única.

Naturalmente, nós políticos do século passado podemos nos orgulhar de termos evitado uma guerra nuclear. Mas, para milhões de pessoas, o mundo não se tornou mais seguro. Ao contrário, surgiram inúmeros conflitos locais e guerras étnicas e religiosas, como uma maldição no novo mapa-múndi da política, produzindo uma quantidade imensa de vítimas.

Prova da irracionalidade e irresponsabilidade da nova geração de políticos é o fato de que os gastos com defesa de numerosos países, grandes ou pequenos, é hoje maior que durante a Guerra Fria, e as táticas de uso da força são, de novo, a maneira padrão de lidar com disputas.

O mundo, nas últimas décadas, não se tornou um lugar mais justo: as disparidades entre ricos e pobres se mantiveram ou aumentaram, não só entre Norte e Sul, mas também dentro dos países desenvolvidos. Os problemas sociais na Rússia, assim como em outras nações pós-comunistas, são a prova de que o simples abandono do modelo fracassado de economia centralizada não garante a competitividade global e o respeito aos princípios de justiça social ou um padrão de vida digno para a população.

Novos desafios podem ser acrescidos aos do passado. Um deles é o terrorismo. Num contexto em que a guerra mundial já não é mais um instrumento de dissuasão entre as nações mais poderosas, o terrorismo se tornou a "bomba atômica do pobre". A proliferação de armas de destruição em massa, a competição entre os antigos adversários da Guerra Fria para alcançar novos níveis tecnológicos de produção de armas e a presença de novos pretendentes a um papel influente num mundo multipolar, tudo faz aumentar a sensação de caos na política global.

A crise de ideologias, que ameaça se transformar numa crise de ideais e valores, marca outra perda de pontos de referência sociais e fortalece a atmosfera de pessimismo político e niilismo. A verdadeira conquista que podemos celebrar é o fato de que o século 20 marcou o fim de ideologias totalitárias, em particular daquelas que se basearam em crenças utópicas.

Novas ideologias, porém, estão substituindo as velhas. Muitos agora esquecem que a queda do Muro não foi a causa de mudanças, mas a consequência de movimentos profundos de reforma popular. Após décadas do experimento bolchevista e a percepção de que este deixou a sociedade soviética num beco sem saída, um forte impulso pela reforma democrática evoluiu na forma da perestroika (reestruturação), que também se tornou acessível a países do Leste Europeu.

O capitalismo ocidental, contudo, privado de seu velho adversário e imaginando-se o vencedor inconteste e a encarnação do progresso global, corre o risco de conduzir a sociedade a outro beco sem saída histórico.

A crise econômica global de hoje revelou os defeitos do modelo de desenvolvimento ocidental que foi imposto ao restante do mundo como o único possível. Revelou também que não só o socialismo burocrático, mas também o capitalismo ultraliberal precisa de uma reforma democrática profunda - seu próprio tipo de perestroika.

Muitas verdades que já foram consideradas inquestionáveis, tanto no Oriente como no Ocidente, deixaram de ser verdades, incluindo a fé cega no todo poderoso mercado e, sobretudo, em sua natureza democrática. Havia também a fé de que o modelo ocidental de democracia seria disseminado mecanicamente para outras sociedades com experiências e tradições diferentes. Na situação atual, mesmo um conceito como o progresso social, que parece ser compartilhado por todos, precisa ser definido mais precisamente.

*Mikhail Gorbachev foi líder da União Soviética de 1985 a 1991