terça-feira, 30 de junho de 2009

DEMOCRACIA E MILITARES

Por Eduardo Guimarães

Os assuntos vão me surgindo na mente de uma forma quase autônoma. É como se fosse um filme que já tivesse visto. Novamente há que escrever.

Fatos desta segunda-feira me deixaram ainda mais estarrecido com o ressurgimento de um movimento político na América Latina que foi característico nesta parte do mundo até pelo menos o fim do século passado. Autoritarismo, censura, ataques explícitos à democracia no exterior e em forma de conceitos antidemocráticos no Brasil, tudo isso não quer me sair da cabeça.

Falo sério com vocês: estou preocupado. Nos últimos dias, freqüentei os blogs do Ricardo Noblat e do Reinaldo Azevedo, preocupado com a relativização que fizeram de um ataque virulento à democracia em Honduras que, como disseram de Barack Obama a Hugo Chávez, ameaça criar um precedente antidemocrático nesta parte do mundo, tendo potencial para gerar fatos semelhantes em outros países.

Apesar de a Globo ter se diferenciado da Folha, do Estadão e Cia. e da maioria das tevês comerciais, passando a tratar o golpe de Tegucigalpa pelo que ele é (golpe) e a denunciar violações de direitos, censura e violência contra cidadãos por parte dos militares golpistas, é pela batuta daquele que fundamenta o discurso de todo direitista na blogosfera, o Azevedo, que os comentaristas do blog dele e do blog do Noblat, mimetizando o blogueiro da Veja, desandaram a verter as frases dele ipsis litteris.

O problema é a idéia que essas frases de Azevedo encerram. Há que lê-las e notar o que de assustador centenas de comentaristas dele estão espalhando pela blogosfera, pelo Orkut, por comunidades virtuais de todos os tipos, por sites e, claro, por aí, no mundo real.

Vamos ao discurso de Azevedo, logo abaixo. Quem o diz tem relações próximas com o PSDB, com o PFL – e, portanto, com os militares – e talvez com “aquela” parte da Cúpula do Judiciário. O sujeito não fala às coisas à toa. Deixa até a impressão que fala por interpostas autoridades e políticos ligados (formal ou informalmente) a esses partidos.

O Brasil e os militares. Ou “Honduras como metáfora”

(...) Vou evocar o artigo 142 da Constituição [brasileira] com a maior serenidade, sem sofrimento, sem hesitação, em nome da civilidade. E recomendo a esses mequetrefes que o leiam. E lá está escrito para quem sabe ler, no “CAPÍTULO II – DAS FORÇAS ARMADAS”:

Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

É preciso que eu explique o que quer dizer “POR INICIATIVA DE QUALQUER DESTES”? É? Então explico.

Por iniciativa também do Legislativo e do Judiciário, as Forças Armadas podem ser chamadas a garantir “a lei e a ordem” se elas estiverem sendo violadas — e ninguém pode violá-las, nem o presidente da República.

O presidente é o comandante-em-chefe das Forças Armadas NA GARANTIA DA CONSTITUIÇÃO, NÃO CONTRA ELA.

Acreditem: assim é em todas as democracias do mundo.

(...)

Honduras não é metáfora sobre o Brasil. Se fosse, conviria ler a Constituição.

Muito bem, esse discurso já foi usado no Brasil no golpe de 1964. Há até comentaristas-clones do Azevedo dizendo isso abertamente pela blogosfera e recomendando a Lula – e à esquerda, claro – que “se comporte”. Há uma ameaça, pois.

Discursos de chefes militares de alto escalão vão no mesmo sentido desafiador e ameaçador a cada data por eles considerada “apropriada”, como, por exemplo, nos 31 de março de 1964 de cada ano, e isso vem de décadas, desde o fim do regime militar. E não parou até hoje.

A fundamentação das ameaças à democracia feitas freqüentemente por chefes militares é a mesma que diz Azevedo. Louve-se que o esteja fazendo, pois, dando aos democratas o meio de ver até onde isso é bravata e até onde é ameaça.

Agora com os EUA nas mãos de alguém mentalmente são e com a união mundial pela democracia que está se formando contra o golpe em Honduras, acho que é o momento perfeito para que o mundo discuta países nos quais esse discurso de Azevedo é cultivado por influentes setores da sociedade.

A idéia de que cabe às Forças Armadas destituírem presidentes desarmados no meio da noite em suas camas com tanques e centenas ou milhares de soldados é defendida devido ao artigo constitucional que confere às forças armadas o dever de “manter a ordem pública”, o que foi pensado para o caso de distúrbios sociais violentos e não para derrubar governos.

Para os governos, a Carta Magna designa o Congresso Nacional e o Judiciário, para que votem impedimento de um governante. Impedido pela lei, o governante que tiver perdido o cargo sai naturalmente.

Tudo isso demanda um processo legal. Não é automático, há que dar àquele que se quer impedir o mais amplo direito de defesa etc. Um processo desses leva meses e não horas, como foi em Honduras.

Está mais do que na hora de o Brasil enfrentar essa questão. Não se pode mais permitir que essa ameaça militar paire sobre o país e a democracia. Há uma ameaça clara, defendida abertamente, de ruptura da ordem institucional e constitucional. As instituições brasileiras devem se mobilizar para resolver essa questão. Já.

Fonte: Blog Cidadania.com

CAI A MÁSCARA DE VIRGÍLIO

Ao representar nesta segunda (29) no Conselho de Ética contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o senador amazonense, admitiu que contraiu um empréstimo por intermédio de um amigo que trabalha em seu gabinete, Carlos Homero Vieira Nina.

Sob o título "Os amigos Sumiram", a matéria da revista semanal diz que Arthur Virgílio tentou se antecipar a futuras revelações que poderiam constragê-lo. Por isso, foi ao plenário na semana passada dizer que estava sendo chantageado. "Só que acabou dando um tiro ainda mais certeiro no próprio pé", diz o texto.

Segundo a reportagem, o senador contou que, durante uma viagem a Paris, em 2003, com a família, ao tentar fazer uma compra identificou um problema com seu cartão de crédito. Ele foi rejeitado. De acordo com sua versão, um amigo conterrâneo e funcionário do Senado foi acionado para resolver o problema.

"Mas não foi bem o que aconteceu. Quem Virgílio procurou pedindo socorro foi o próprio Agaciel. Para isso, fez o contato por intermédio do amigo Carlos Homero Vieira Nina, hoje lotado em seu gabinete."

A matéria diz que "Homero telefonou para Agaciel numa manhã de domingo e pediu encarecidamente que o ajudasse. Foi taxativo: era um pedido urgente de Arthur Virgílio. Na conversa, Agaciel ponderou que seria impossível, pois era um domingo. Mas, diante da insistência do assessor de Virgílio, o ex-diretor telefonou para o gerente do banco e pediu que fizesse uma transferência de sua própria conta poupança no valor de US$ 10 mil para a conta do senador."

Diz a revista que assim o cartão de crédito foi liberado. "O fato foi confirmado à ISTOÉ por pessoas próximas ao exdiretor- geral. Com amigos, Agaciel comentou que esse dinheiro até hoje não lhe foi ressarcido."

Ainda segundo a revista Homero empregou no gabinete de Virgílio seus filhos Guarani Alves Nina, Tomas Alves Nina e Carlos Alberto Nina Neto. O último mora no Exterior, mas não deixa de receber salário.

"Há quem diga que a súbita fúria de Virgílio contra Agaciel estaria relacionada a outro fato que ele preferiu não contar em público: a exoneração do Instituto Legislativo Brasileiro (ILB) de Vânia Maione, esposa de Homero. Ela foi substituída por Carlos Roberto Stuckert, a mando de Agaciel", especula a revista.

Outro episódio, diz a matéria, que o senador tentou justificar como uma possível chantagem de Agaciel se refere ao tratamento de saúde de sua mãe, Isabel Vitória de Matos Pereira, falecida em 2006. Como esposa de ex-senador, ela teria direito pelo regimento do Senado a ressarcimento de até R$ 30 mil por ano. Mas, segundo levantamento feito por servidores do Senadoforam gastos R$ 723 mil com as despesas médicas.

"O pagamento foi autorizado a contragosto pelo então presidente da Casa, senador Antônio Carlos Magalhães, também graças a um pedido de Agaciel. Por várias ocasiões, ACM chegou a questionar com diretores do Senado o gasto muito acima do permitido pelo regimento interno."

No discurso de duas horas no Senado, o líder do PSDB na Casa disse que não sabia que o amigo pedia o empréstimo não pago a Agaciel. Homero acha que avisou ao seu padrão.

De Brasília com informações da ISTOÉ e Agências

Fonte: Portal Vermelho

Nota do blog: Praticamente todos os dias temos a infelicidade de ver o nobre senador Arthur Virgílio sob os holofotes da grande imprensa, a qual não hesita em dar voz ao mesmo quando a intenção é descer a borduna no governo Lula. Vamos ver agora se o PIG (Partido da Imprensa Golpista) irá acorbertar o fato ou se irá dar mais espaço ainda ao senador para que o mesmo possa tentar se defender.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Palestra Protógenes - quinta e sexta partes

Quinta parte


Sexta parte

HONDURENHOS CONTRA O GOLPE

O presidente Zelaya (à esquerda) foi banido para a Costa Rica


O presidente da federação Unitária de Trabalhadores de Honduras, Juan Carlos Barahona, disse à Agência Bolivariana de Notícias, em entrevista por telefone, que ''o povo vai manter a resistência'', concentrando-se diante da sede do governo e exigindo a volta do presidente eleito pelo povo em 2005.

''Também nos outros departamentos do país o povo está nas ruas, mobilizado'', disse Barahona.

Os militares golpistas ameaçaram impor um toque de recolher em Tegucigalpa, mas Barahona disse que ele não será obedecido. ''A decisão que temos é de continuar nas ruas. Ninguém irá para casa nem abandonará essa luta'', afirmou.

''Vamos desafiar esse toque de recolher dos golpistas e militares gorilas'', agregou. O termo ''gorila'', usado na América Latina do século passado para designar militares truculentos e golpistas, voltou subitamente à atualidade depois do golpe.

''Pela primeira vez, dignidade''

A representante do Sindicato dos Trabalhadores no Registro de Pessoas, Maritza Somoza, informou que a iniciativa da greve geral é apoiada por todos os trabalhadores, pelas confederações de organizações sindicais de Honduras.

A sindicalista salientou que o movimento sindical hondurenho tem uma profunda motivação para apoiar o presidente. Argumentou que o governo de Zelaya foi o único que deu dignidade aos trabalhadores.

''É a primeira vez que um presidente nos dá dignidade'', disse Maritza. Ela observou que, em resposta a essa dignidade, a bandeira do povo hondurenho será agora a convocação da Assembléia Nacional Constituinte .

''A bandeira do povo hondurenho já não é a consulta, da qual participávamos de maneira simbólica, mas agora vai será a convocação da Assembléia Nacional Constituinte. Agora o que queremos é um governo que esteja diretamente nas mãos do povo'', disse a líder sindical.

Ela descreveu esse processo como ''o despertar do povo hondurenho''. ''Este povo já foi apático, nunca tínhamos visto que as pessoas respondessem como agora''.

Maritza descreveu que, enquanto os trabalhadores apóiam o presidente Zelaya, a burguesia foge do país, tirando de Honduras os seus filhos e interesses económicos. Disse que o governo constitucional perdoou uma dívida de mais de 8,7 milhões de lempiras (moeda de Honduras) de várias empresas privadas, mas a burguesia continua a hostilizá-lo.

Deputado vê 37 cidades mobilizadas

O deputado Marvin Ponce, do partido Unificação Democrática, que apóia Zelaya, avaliou que existem 50 mil pessoas em 37 cidades dispostas a resgatar o mandato presidencial truncado pelo golpe. Para Ponce, a mobilização acontecerá mesmo que haja repressão, pois a única saída para a crise é o retorno do presidente, o fim do ''governo usurpador'' e o julgamento dos deputados que estão apoiando o golpe.

O deputado Tomas Andino Mencias, do mesmo partido, esclareceu que ele e seus companheiros não participaram da sessão do Congresso que entregou o poder a Micheletti. Segundo Mencias, os parlamentares legalistas estão sendo presos.

Oito ministros também teriam sido presos, entre eles Patricia Rodas, ministra de Relações Exteriores, que fez um chamamento à resistência popular antes de ser detida. Patricia foi presa por militares encapuzados e armados, na presença dos embaixadores da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua, que a visitavam para hipotecar-lhe apoio.

Condenação mundial

Enquanto Honduras prepara a greve geral, a reação mundial ao golpe deste domingo prenuncia um forte isolamento das forças que sequestraram e depuseram Zelaya. No entanto, Barahona condenou duramente o comportamento da mídia mercantil de Honduras.

''Se a comunidade internacional está nos apoiando, é graças aos meios de comunicação de países irmãos, porque aqui em Honduras toda a mídia está com os golpistas, exceto uma única emissora'', explicou.

A OEA (Organização dos Estados Americanos) convocou uma reunião de emergência na sua sede em Washington, para discutir a crise hondurenha. O secretário-geral da Organização, José Miguel Insulza (chileno), pronunciou-se com clareza:

''Estamos evidenciando uma ruptura da ordem constitucional, que só pode ser catalogada como um golpe de Estado'', afirmou Insulza. Ele informou que estava em contato telefônico com o presidente derrubado, que se encontra em San José da Costa Rica. E propôs que a OEA o envie a Honduras, para realizar gestões ''para reconstituir a institucionalidade e a democracia''.

Fonte: Portal Vermelho

domingo, 28 de junho de 2009

UM BALANÇO DO PROUNI

Por Lúcia Stumpf, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE)

Dados do INEP recentemente divulgados na imprensa demonstram que bolsistas do Programa Universidade para Todos, o ProUni, tiveram nota igual ou superior aos demais estudantes no Enade, o exame nacional de avaliação do desenvolvimento do estudante de ensino superior. É a comprovação da importância do investimento em políticas públicas que democratizem o acesso ao Ensino Superior contemplando jovens de baixa renda. Segundo o Ministério da Educação (MEC), desde que foi instituído em 2005, até o momento, foram oferecidas 796.218 bolsas integrais e parciais.

O bom rendimento desmascara críticas preconceituosas que afirmavam que as instituições de ensino perderiam qualidade com a entrada de estudantes bolsistas, oriundos de escola pública e filhos de famílias de baixa renda. Demonstra a capacidade de superação do jovem que agarra com as duas mãos a possibilidade de cursar uma faculdade.

No Brasil, apenas 12% dos jovens entre 18 e 24 anos cursam o Ensino Superior. A grande maioria encontra as instituições públicas de portas fechadas pelo limitado número de vagas, apesar da recente expansão propiciada pelo Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). E as instituições privadas são inacessíveis aos jovens de baixa renda. O grande desafio do país é, portanto, radicalizar a democratização da universidade e romper os muros que a separam do povo brasileiro.

O maior mérito do ProUni é, portanto, o de incluir uma parcela da juventude oriunda das periferias dos grandes centros, até então estranha a esse ambiente, e que é capaz de mudar o perfil da universidade e de transformar o conhecimento ali forjado. Atualmente, negros, pardos e indígenas representam mais da metade dos bolsistas.

Para melhor conhecer as necessidades específicas dos bolsistas, a UNE realizou em 2008 uma série de encontros que reuniu mais de 10 mil prounistas em oito estados. O que já era direito para os estudantes não bolsistas foi conquistado nesses espaços, como o direito à transferência de curso e instituição, a igualdade de concorrência a todos os espaços da universidade, os programas de extensão e bolsas de pesquisa e a garantia de conclusão plena dos cursos.

Distorções também foram corrigidas, como a retirada da obrigatoriedade de comprovação de renda anual, que excluía do programa jovens que se empregassem ou conseguissem um estágio durante a graduação, promovendo o aumento da renda familiar. Entretanto, como principais reivindicações aparecem a ampliação do numero de bolsas integrais (100% de desconto na mensalidade) oferecidas e a criação de um plano nacional de assistência estudantil para o bolsista.

Vivendo a experiência do ProUni, quase cinco anos depois de sua implantação, fica claro que para democratizar a universidade não basta criar somente mecanismos de acesso. A adoção pelo Estado de políticas que favoreçam a permanência destes alunos na universidade contribuiria para que os mesmo pudessem concluir sua trajetória escolar com maior tempo disponível para dedicação aos estudos. Além disso, a criação de mecanismos que auxiliem o estudante bolsista a arcar com os gastos de transporte, alimentação e moradia durante o período da graduação, diminuirá a evasão no programa.

Um jovem com as características sociais exigidas pelo ProUni muda a qualidade de vida de sua família ao obter um diploma. Em recente pesquisa realizada pelo Ministério da Educação e pelo IBOPE com 1,2 mil recém-formados pelo PROUNI de diversas regiões do Brasil, concluiu-se que 80% dos estudantes que obtiveram bolsas integrais estão empregados. Além disso, a renda da família aumentou para 68% dos entrevistados e oito de cada dez bolsistas ouvidos afirmaram que membros da família foram motivados a iniciar ou prosseguir os estudos.

Durante o 51º Congresso da UNE, que reunirá cerca de 15 mil estudantes universitários de todo o Brasil, em Brasília, entre os dias 15 e 19 de julho, será realizado o 1º Encontro Nacional de Estudantes do ProUni. O encontro acontecerá no dia 16, no Centro de Convenções Ulisses Guimarães, e servirá para discutir e apresentar propostas e reivindicações ao MEC e ao presidente Lula, presente no evento.

A educação é um tema caro no Brasil e a implementação de políticas que permitam aos jovens sonhar com um futuro melhor, desafia e motiva a continuação da luta. Não queremos mais desperdiçar as grandes mentes brasileiras excluídas dos bancos escolares. Esse é o desafio de toda uma geração!

Publicado na Carta Capital

Palestra Protógenes - terceira e quarta partes

Seguem abaixo a terceira e quarta partes da palestra.

Terceira parte


Quarta parte

sábado, 27 de junho de 2009

Palestra Protógenes - primeira e segunda partes

Conforme informei em posts anteriores, estive no último dia 25 numa palestra onde o delegado Protógenes Queiroz falou sobre os eventos políticos em torno da Operação Satiagraha, operação esta que ele liderava antes de ser afastado. Por trás do afastamento do delegado estão os tentáculos do banqueiro bandido Daniel Dantas, tentáculos estes que se espalham em várias instâncias do poder, do executivo ao judiciário - a ponto de alcançar até a mais suprema corte deste país -, passando pelo quarto poder, ou seja, por jornalistas empregados em grandes veículos de comunicação que se ocupam de criar factóides e matérias conforme os interesses do banqueiro. Trata-se de um esquema de corrupção gigantesco, como, talvez, nunca se tenha visto no Brasil.

Embaixo vão os dois primeiros vídeos que gravei no evento com minha modesta câmera fotográfica, assim sendo, a qualidade do vídeo não está tão boa. Mas o áudio está bom (apesar do ruído de um maldito ar-condicionado). Como são sete vídeos, em futuros posts publicarei os demais.

Fiquem com os vídeos.

Primeira parte



Segunda parte

CRÔNICA

A primeira vez a gente nunca esqueçe. Me refiro à primeira vez que participei de uma manifestação pública. Estive no dia 24/06 numa manifestação do Movimento Saia às Ruas Gilmar - cuja sessão Belo Horizonte é coordenada pela professora de Química Laura Furquim, a quem tive o prazer de conhecer no dia seguinte durante uma palestra. Assim sendo, escrevi uma pequena e singela crônica sobre o fato.

A MINHA VIDA É ESTA...

Por Cléber Sérgio de Seixas

Saio do trabalho e apresso os passos para chegar rápido ao destino e aproveitar todos os momentos do evento cujo início está previsto para as 18 horas. No caminho, observo o contraste do romantismo dos arcos do viaduto Santa Tereza com a sobriedade dos espigões que o cercam, amenizada pelas árvores do Parque Municipal. Embaixo passam céleres o metrô em seu caminho metálico e os veículos sobre o leito coberto do Arrudas, onde já se pescou um dia.

Atravesso a Afonso Pena, mais famosa avenida de Belo Horizonte. O semáforo é rápido, pedestres não têm vez naquele cruzamento, pois atrapalham o fluxo dos veículos que, por sua vez, devolvem a gentileza enchendo de monóxido de carbono os pulmões dos transeuntes.

Subo a Bahia, pois a vida do belorizontino é esta: subir Bahia e descer Floresta. Viro à esquerda na Goiás, fundos da prefeitura: dou as costas ao Executivo municipal. Não sei de quem são as estátuas em tamanho natural com as quais me deparo, e minha curiosidade é suplantada pela ansiedade de chegar ao local do evento.

Sigo a Goiás direto, cruzando a Álvares Cabral em seu nascedouro. Confiro o número e eis diante de mim o Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Gente bem vestida entra e sai. Quase em frente, gente não tão bem vestida espera no ponto de ônibus. “Será aqui?”. Olho em volta e não avisto nenhum sinal de manifestação, faixa, cartaz ou o delegado Protógenes Queiroz, que ficara de prestigiar o evento. “Talvez esteja muito cedo. O horário previsto, afinal, é às 18 horas”. Resolvo ir até o fim da Goiás e subir a Guajajaras. Faço isto e depois desço a João Pinheiro, cruzo pela praça Afonso Arinos, subo um trecho da Álvares Cabral, nicho de repartições ligadas ao judiciário e da Faculdade de Direito da UFMG e depois eis-me descendo de novo a Bahia, pois a vida do belorizontino é esta...

Adentro o Maleta, edifício que abrigaria a mais antiga escada rolante de Belo Horizonte. Observo a escada, está desligada. Me lembro do tempo em que eu e um grande amigo freqüentávamos os famosos sebos dali. Avisto um sebo remanescente, porém os livros que vejo expostos na banca são, em sua maioria, de auto-ajuda – sinal dos tempos. Me vejo cercado de barzinhos; cheios pelo fim de tarde convidativo a um bom trago. Nada que me interesse. Abandono o prédio histórico e avisto a Augusto de Lima. Desço-a e retorno à Goiás. Chego novamente à frente do TJMG. Deparo com um caminhãozinho com uma pequena faixa onde se lê: “Gilmar Mendes. Saia às ruas e não volte ao STF”. O tom incisivo da frase pintada num reles pano branco contrasta com o numero de manifestantes: contando comigo eram cinco.

Fico ali estudando o ambiente. Uma equipe da TV Alterosa já está de prontidão. Me assento próximo a eles e não tenho como não escutar as conversas de bastidores, as quais me fazem concluir que nem todo repórter é tão inteligente quanto aparenta na TV. A equipe de reportagem não sabia totalmente a que vinham os manifestantes.

Aos poucos o caldo vai engrossando, se encorpando. Gente bem vestida - uma surpresa para mim que esperava aqueles militantes de calça jeans, bonés e camisas brancas de algodão, agitando suas bandeirolas, bem ao estilo MST. Próximo de mim uma escritora dialoga com um jornalista que há alguns minutos me confidenciara que tivera, tempos atrás, seu jornal empastelado pelo governador de Minas. Segura de si, a escritora desafia o jornalista a lhe ditar um número de telefone para que ela memorize: diz isto tocando o dedo indicador na testa seguidas vezes e se gabando de não usar agenda. Coisa de escritores.

Inicio a sessão de fotos com minha modesta câmera fotográfica digital que já completa 5 velinhas. Flashes iluminam a escuridão. Em meio ao festival de luzes, conheço a coordenadora do movimento em Belo Horizonte, que no dia seguinte eu descobriria ser uma simples professora de Química da rede estadual de ensino; simples porém decidida, e é isto o que importa para integrantes de movimentos sociais. Para tornar permanente a iluminação, velas são distribuídas aos manifestantes. A vigília é acompanhada de longe pelos passantes, que não sabem o que ali ocorre. Uma transeunte me pergunta o que acontece ali, no que respondo que se trata de uma manifestação cujo objetivo é pedir a saída do presidente do Supremo, Gilmar Mendes. “Quem?”. A senhora, que não conhece Gilmar Mendes, se afasta franzindo a testa e levando ainda consigo a dúvida.

Outros transeuntes furam o bloqueio humano formado pelos manifestantes, que àquela altura já contam uns 80, e seguem seu caminho, pois, afinal, é fim de expediente nas empresas, horário de pico e dia de jogo no Mineirão.

Os ocupantes de uma viatura da Polícia Militar, que até então acompanhavam o evento de longe, procuram saber quais os objetivos e quem é o líder. Observo a conversa de longe, mas percebo que a carta branca fora dada para continuarmos o ato. Mesmo assim conto umas quatro voltas do mesmo tático móvel pelo quarteirão.

Acendo a vela que me é dada. Alguém tem a brilhante idéia de, com as velas acesas, formar a frase “fora Gilmar” na entrada do Tribunal. Vamos, um a um, dando nossa contribuição para formar aquele grito de indignação iluminado. Enquanto estamos ali, a repórter da TV Alterosa vai fazendo entrevistas. Iniciam-se os discursos inflamados.
Um senhor que ninguém sabe quem é, toma o microfone e fala de tudo um pouco: das falcatruas do governo FHC à recente decisão do supremo referente à não obrigatoriedade do diploma de curso de jornalismo para exercício da função de jornalista, passando por críticas ao Pelé. Um jovem que se apresenta como representante de um determinado movimento estudantil se apossa do microfone e abre sua metralhadora giratória contra a decisão do Supremo que afetou diretamente o futuro da carreira jornalística. Sua jaqueta marrom esconde parte de uma camisa preta com o símbolo daquele personagem da Marvel Comics: o Justiceiro. De alguma forma todos ali presentes são justiceiros, mas buscam fazer justiça de um jeito diferente daquele utilizado pelo famoso personagem dos gibis.
A frase “fora Gilmar” composta pelas velas acesas começa a incomodar quem tenta sair ou adentrar o tribunal. O segurança do tribunal contata instâncias superiores que logo surgem pedindo que seja liberado o caminho para os que tentam sair ou adentrar o recinto. Após um certo bate-boca, algumas velas são retiradas deixando o “fora Gilmar” irreconhecível.

Súbito Gilson Reis, presidente do SINPRO MG, toma o microfone e anuncia que o delegado Protógenes não poderá ir ao evento por motivos legais. É como um balde de água fria. Percebo que muitos começam a ir embora. Bato mais algumas fotos e decido fazer o mesmo, pois, afinal, sou homem de periferia, moro longe, vou acordar cedo no dia seguinte para trabalhar e devo caminhar alguns quarteirões antes de pegar minha condução.

Vou me afastando e sigo meu caminho. Cruzo novamente a Álvares Cabral, continuo na Goiás e desço novamente a Bahia. Me sinto leve e realizado nessa primeira experiência de exercício público de minha cidadania, pois realmente a minha vida é esta...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Sabinópolis - Delegado detecta caixa dois

A Polícia Civil começou a analisar cerca de uma tonelada de documentos que foram apreendidos nas sedes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Sabinópolis e no Serro, durante a "Operação Manumissão". Segundo o delegado que comanda as investigações, Welbert de Souza Santos, a cada documentação analisada, fica mais evidente que as denúncias feitas pelos trabalhadores ao Ministério Público são procedentes. "A cada instante temos uma surpresa. São documentos altamente comprometedores da quadrilha", afirmou.
Segundo Welbert de Souza, no cofre foram encontrados documentos que eram alvos da investigação, como guias de contribuição confederativa falsas, que seriam utilizadas para formação de "caixa dois" do sindicato.

Ainda de acordo com o delegado, os trabalhadores pagavam a contribuição diretamente no sindicato e o dinheiro não era repassado para a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg). "A própria Fetaemg era vítima da quadrilha", afirmou Welbert de Souza.
Atas apreendidas durante a operação dão indícios de que a quadrilha teria cometido também o crime de falsidade ideológica. As atas registram assembléias gerais, realizadas na sede do sindicato com o quorum superior a mil sindicalizados. "As atas são uma mentira. O quorum nunca existiu, pois o local não comporta este montante de pessoas", disse o delegado.

As deliberações aprovadas tornaram mais suspeitas as assembléias, isso porque, segundo apurado pela Polícia Civil, foram aprovadas nas reuniões questões que geram taxas aos sindicalizados, como a contribuição federativa, a cobrança de honorários advocatícios e a autorização de descontar 2% do benefício dos trabalhadores. Todas as atas foram assinadas pelo diretor presidente do sindicato, Afonso da Aparecida dos Santos.

A documentação apreendida também compromete advogados que são alvos da investigação. Foram apreendidos recibos que comprovariam que valores cobrados dos trabalhadores com a menção de que se trataria de honorários advocatícios eram destinados, na verdade, ao sindicato e não aos advogados.

A Polícia Civil deve levar ainda mais uma semana para analisar toda a documentação e os 12 CPU´s apreendidos. Após toda documentação ser catalogada, as testemunhas e os investigados serão ouvidos.

Fonte: Jornal Folha de Guanhães On-Line


Nota do Blog: Todo policial é corrupto? Não acredito. Assim como não acredito que todo político seja corrupto. Há policiais e policiais, políticos e políticos, médicos e médicos, advogados e advogados, faxineiros e faxineiros, professores e professores, jornalistas e jornalistas, padres e padres, pastores e pastores. Talvez os leitores que acompanham este blog a mais tempo não estejam entendendo por que de repente aqui, onde sempre filosofei, falei de política, educação e cidadania, de repente, replico uma matéria a respeito de uma operação policial para desbaratar uma quadrilha travestida de sindicato. Não sou leitor de tablóides fartos em páginas policiais (estilo jornal "Aaui" ou "Super"), nem recomendo que alguém seja. Faço isto não só por causa da dimensão da Operação Alforria, mas principalmente por ser amigo do delegado Welbert de Souza Santos há alguns anos.

Iniciei esta nota dizendo que nem todo policial é corrupto porque tenho certeza de que este homem que hoje está a frente da delegacia de Sabinópolis não se enquadra no rol daqueles policiais que optam por ingressar na carreira de segurança pública visando tão somente utilizarem o cargo para lucrar em cima da desgraça alheia. Repito, não é o caso do delegado Welbert, pois o conheço há tempos e posso atestar sua conduta e caráter ilibados.

Estive ontem numa palestra onde o delegado Protógenes Queiroz - que hoje paga caro por ter prendido o banqueiro bandido Daniel Dantas - afirmou que mesmo que ele seja calado de alguma forma pelos podres poderes que hoje estão instalados em Brasília, outros "protógenes" irão se levantar. Se encontra em franco processo hoje no Brasil uma inversão de valores onde bandido vira moçinho e moçinho vira bandido. Enquanto Protógenes é afastado do cargo na PF, o banqueiro bandido anda por aí de carrão e motorista, com direito a dois habeas-corpus impetrados em tempo recorde pelo supremo presidente do Supremo Tribunal Federal.

O exemplo do delegado Welbert faz jus à máxima do delegado Protógenes. Assim sendo, mantenhamos nossa esperança, pois ainda restam muitos homens de bem integrando nossas forças de segurança pública e judiciais, tanto quanto homens de bem, que só querem ajudar de alguma forma ao próximo, podem ser encontrados em quaisquer áreas. São aqueles pessoas para quem o altruísmo é profissão de fé.

Sobre debate com Protógenes

Tive o prazer de participar ontem de um debate com o delegado Protógenes Queiroz. O debate se deu na Faculdade de Direito da Uni-BH. Como não costumo perder a caminhada, tirei algumas fotos e gravei alguns vídeos que pretendo disponibilizar depois neste blog. Também escreverei algo a respeito posteriormente.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Saia às ruas Gilmar - Fotos do evento em BH

Conforme havia dito em outros posts, estive ontem na manifestação contra o supremo presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, em frente à sede do TJMG, rua Goiás, no centro de BH. Reproduzo aqui algumas fotos e, ainda esta semana, farei um comentário sobre como foi o evento.

Caso queiram como foi o evento em São Paulo e Brasília, cliquem aqui.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

DELEGADO DE SABINÓPOLIS CHEFIA OPERAÇÃO ALFORRIA

Delegado Welbert de Souza em ação

O delegado da Polícia Civil de Sabinópolis, Welbert de Souza Santos, que está comandando as investigações da Operação Manumissão, também conhecida como Operação Alforria, informou nesta manhã (24) que não descarta o pedido de prisão do diretor presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sabinópolis, Afonso da Aparecida dos Santos, da esposa e dos três filhos.

Segundo Welbert de Souza, o pedido, que geralmente é feito no final da investigação pode, inclusive, ser antecipado caso seja constatada a interferência dos suspeitos na investigação. Ainda segundo o delegado, há o interesse da Polícia Civil de afastar Afonso da Aparecida da direção do sindicato para cessar a atuação da quadrilha.

A Polícia Civil estuda até mesmo a possibilidade de se tomar medidas administrativas com base no regimento do próprio sindicato para afastá-lo. "Existem indícios de fraude na eleição do atual diretor presidente, que há 20 anos está no comanda da instituição", afirmou o delegado.

A Polícia Civil está separando a documentação apreendida e está comunicando aos Ministérios do Trabalho e da Previdência Social, além da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg) e Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) sobre as irregularidades constatadas para que os mesmo adotem providência.

O Ministério da Previdência Social deve ser informado sobre a apreensão das cartas destinadas aos trabalhadores que estavam chegando ao sindicato e não na residência dos trabalhadores. Já ao Ministério do Trabalho, o delegado disse que irá informar sobre os indícios de "Caixa Dois" na contribuição confederativa.

O delegado Welbert de Souza disse não ter ainda ideia de qual o valor movimentado pela quadrilha. Para ele, só após o pedido de quebra do sigilo bancário ser feito ao juiz da Comarca de Sabinópolis, e o Banco Central liberar as informações bancárias dos envolvidos, será possível determinar quanto foi desviado dos trabalhadores rurais.

"Quando os trabalhadores obtinham o benefício, os investigados se apropriavam de parcelas da aposentadoria com a argumentação de honorários advocatícios ou despesas que foram realizadas para obter a previdência social. Mas a própria cartilha do sindicato indica que o sindicalizado tem uma série de direitos, entre eles, o atendimento jurídico gratuito", afirmou o delegado.

Para a Polícia Civil, há índicos claros de enriquecimento ilícito e de sonegação de imposto, já que os bens são incompatíveis com a renda da família. De acordo com o delegado, foram encontrados até o momento, em nome da família, quatro carros zero quilômetro que foram comprados à vista, além de uma casa, uma propriedade rural e uma mansão que estariam construindo.

Segundo o delegado, a esposa e os filhos de Afonso da Aparecida são funcionários do sindicato e têm salário de R$ 710,00 cada. A Polícia Civil não descarta a possibilidade de a família possuir mais bens e está fazendo um levantamento em cartórios de imóveis.

Os envolvidos na operação e as testemunhas devem começar a serem ouvidos esta semana. Ontem, além das apreensões realizadas em Sabinópolis, a Polícia Civil cumpriu os mandados no Serro.

"Foram apreendidos computadores, documentos, guias de recolhimentos, notas fiscais altamente suspeitas, livro caixa, atas e documento de contabilidade", afirmou Welbert de Souza.

O cofre apreendido na sede do sindicato em Sabinópolis e que está na Delegacia de Polícia ainda não foi aberto.

A reportagem da Folha tentou o contato com o diretor presidente do sindicato Afonso da Aparecida, mas ele estava em reunião na sede do sindicato e não retornou até o fechamento desta reportagem.

Fonte: Jornal Folha de Guanhães Online

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Já o Jornal Hoje em Dia abordou assim a notícia:

Quadrilha teria lesado 7 mil trabalhadores rurais cobrando 2% do salário

Reportagem de Celso Martins

A Polícia Civil investiga um esquema de enriquecimento ilícito no Sindicato Rural de Sabinópolis, a 270 quilômetros de Belo Horizonte, no Vale do Rio Doce. Pelo menos 7 mil trabalhadores rurais na ativa e aposentados estariam sendo obrigados a contribuir com 2% dos salários, sob ameaça de terem o benefício suspenso pela entidade. Segundo a Polícia Civil, o esquema teria movimentado, desde 1986, cerca de R$ 1 milhão. Essa quantia inclui comissão de 20% paga pelos associados na liberação das aposentadorias.
Na primeira fase da investigação, realizada ontem, durante operação em quatro cidades da região, foram apreendidos dois computadores, documentos, cartões bancários e cerca de R$ 1 mil. O delegado de Sabinópolis, Welbert de Souza Santos, que comanda as investigações, informou que vai pedir a prisão preventiva do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Afonso da Aparecida dos Santos, apontado como responsável pelo esquema.
Segundo o delegado, recai sobre o sindicalista a suspeita de receber 5% de comissão na liberação das aposentadorias. Outros 15% seriam destinados a uma ex-advogada do sindicato. “O estatuto da entidade não permite a cobrança de comissão ou de honorário para um trabalhador conseguir sua aposentadoria”, destacou o delegado.
Os três filhos e a esposa do sindicalista também estão sendo investigados, além de uma funcionária de uma ex-advogada. “O patrimônio de Afonso da Aparecida não é compatível com sua renda. Ele está construindo uma mansão, no topo da cidade, que chama a atenção de todo mundo”, disse o delegado.
Ainda de acordo com o policial, os filhos do sindicalista circulam pela cidade em um carro avaliado em R$ 40 mil. Um deles é contratado pelo sindicato, com um salário de pouco mais de R$ 600, conforme consta no inquérito da Polícia Civil.
As investigações do esquema começaram em abril deste ano, quando um aposentado procurou o Ministério Público para denunciar os descontos no seu salário. Até ontem, 30 trabalhadores foram interrogados. Eles confirmaram que receberam ameaças de bloqueio da aposentadoria, caso deixassem de contribuir com o sindicato. Além disso, documentos da entidade foram encontrados queimados em um sítio de Afonso da Aparecida. Parte que não foi queimada foi recolhida para análise da perícia da Polícia Civil.
Conforme consta no inquérito policial, há indícios de envolvimento de funcionários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no esquema. Um dos indícios é de envio de cartas endereçadas aos trabalhadores rurais para o sindicato. Essas correspondências eram dirigidas a trabalhadores rurais dos municípios de Sabinópolis, Serro, Materlândia e Serra Azul de Minas.
Entre as vítimas está um aposentado de 60 anos, morador de Sabinópolis, que pediu para que não fosse identificado, temendo represálias. Ele disse que recebeu R$ 20 mil de aposentadoria, em 2002, mas conseguiu sacar apenas R$ 16 mil. Depois de ser informado pelo INSS de que seu benefício não poderia ter desconto, procurou o sindicato, mas alega que foi ameaçado de parar de receber o salário.
O delegado Welbert de Souza informou que vai pedir à Justiça a quebra do sigilo bancário de Afonso da Aparecida. Também vai solicitar apoio da Polícia Federal nas investigações. Fotos da casa que está sendo construída pelo sindicalista, com acabamento em gesso em quase todos os cômodos, foram anexadas no inquérito.
Os computadores apreendidos serão periciados. O sindicalista Afonso da Aparecida não foi encontrado ontem em Sabinópolis. Uma funcionária do sindicato, que não informou seu nome, disse que ele estava viajando, mas não revelou para qual cidade. Na próxima semana, a Polícia Civil começa a interrogar os filhos e a esposa do sindicalista.

Fonte: Jornal Hoje em Dia

Sempre um Papo com Frei Betto - terceira e quarta partes

Abaixo a terceira e a parte final da palestra de Frei Betto no Sempre um Papo sobre o lançamento do livro "Diário de Fernando".

Terceira parte:



Parte final:

terça-feira, 23 de junho de 2009

Amanhã tem arraiá do Gilmá. Não percam!

Pessoal, amanhã estarei em mais uma empreitada para colher conteúdo para este modesto blog. Vou à manifestação cujo panfleto reproduzo acima. O evento é imperdível até porque o ínclito delegado Protógens Queiroz (como diz o jornalista Paulo Henrique Amorim) vai estar lá. Assim sendo, não terei tempo de postar nada amanhã. Retorno na quinta-feira reproduzindo aqui os vídeos e as fotos.

Sempre um Papo com Frei Betto - Primeira e segunda partes

Após muito trabalho, consegui subir para o You Tube os vídeos que gravei no dia 17/06, por ocasião da palestra do Sempre um Papo com Frei Betto e Frei Fernando.

Seguem abaixo a primeira e segunda partes. Posteriormente postarei a terceira e quarta partes.

Primeira parte



Segunda parte

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Imperdível - delegado Protógens faz palestra em BH

O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz faz uma palestra com o tema Passando o país a limpo, no dia 25 de junho, às 19 horas, na Faculdade de Direito do Uni-BH (Av. Olegário Maciel,1627). Como debatedores participam o presidente do Sinpro Minas e da CTB Minas, Gilson Reis e o jornalista Luiz Carlos Bernardes. A entrada é franca.

Em recente visita a Belo Horizonte, o delegado, que está temporariamente afastado da PF, defendeu mudanças na legislação processual para facilitar a investigação de crimes financeiros no país e disse acreditar na prisão do banqueiro Daniel Dantas, um dos principais alvos da operação Satiagraha. “Com total isenção, o Judiciário brasileiro saberá dar a resposta à altura do que a sociedade está esperando”, afirmou. Ele disse ainda que não se surpreendeu com a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que concedeu dois habeas corpus a Dantas em menos de 48 horas. “Entendo que é uma decisão da Suprema Corte do país e que é preciso respeitá-la, e eu a respeitei”.

Protógenes rebateu as acusações de que teria cometido irregularidades na condução da operação e declarou também que o esquema criminoso que teria sido montado por Daniel Dantas no país começou há mais de 20 anos, com o processo de privatização. “A Satiagraha revelou vários atores, incluindo membros do Judiciário, do Ministério Público e da própria Polícia Federal”, denunciou.

Fonte: portal Vermelho.org

Lembrete do blog: no dia anterior, 24/06, ele estará presente também no "Arraiá do Gilmar"

domingo, 21 de junho de 2009

ENTRE QUATRO PAREDES

Por Emir Sader

Duas analises tem sido muito difundidas, ambas incorretas: uma acredita que a crise atual levou ao fim do neoliberalismo e condena o próprio capitalismo à morte. A outra afirma que todas as tentativas atuais – especialmente as latinoamericanas – de superação do neoliberalismo fracassaram ou tendem a fracassar, “traindo” os mandatos que receberam.

Parecem analises contrapostas, mas são funcionais uma à outra. Porque remetem à idéia de que as condições de superação do capitalismo estão dadas, só não se realizam pela “traição das direções políticas”, burocráticas e/ou corrompidas, cooptadas pela burguesia e pelo capitalismo.

Além de equivocadas ambas as análises servem de álibi para as derrotas da esquerda: são sempre derrotas “dos outros”. Fica-se na eterna e indispensável tarefa da denúncia, tanto da repressão, quanto das “traições”. Mas os setores mais radicais se consideram imunes às derrotas, como se ao não se aproveitar a crise do capitalismo e o esgotamento do neoliberalismo para construir alternativas de esquerda capazes de disputar hegemonia, não estaríamos sendo todos derrotados.

Ou os argumentos da esquerda estão equivocados – e a realidade insiste em provar que isso não é verdade, quando se avança é pela esquerda e as propostas de direita estão associadas à geração da crise – ou temos sido incapazes de convencimento e de construção de forças alternativas que tratem de transformar essas idéias em força concreta – econômica, social, política, ideológica. Talvez as posições concretas da esquerda ou não sejam suficientemente concretas para chegar às pessoas ou estejam erradas na sua forma. Talvez se exorbite no radicalismo verbal e isso leva a esquerda ao isolamento e ao doutrinarismo, fechando-se sobre si mesma, apegando-se excessivamente à teoria e aprendendo pouco das formas sempre novas e heterodoxas da realidade concreta. Talvez se privilegie as palavras, a doutrina, em relação à realidade concreta, esquecendo-nos que a verdade é sempre concreta.

“A teoria, quando penetra nas massas, se torna força material” – dizia Marx. Seu pensamento pretende ser ao mesmo tempo interpretação do mundo e sua transformação radical. As palavras que não se transformam em força material, que não sensibilizam, que não chegam ao povo e não são assumidas por este como vetor de mobilização e projeto de transformação da realidade, permanecem palavras, teorias, doutrinas.

Por isso um marxista é necessariamente, ao mesmo tempo, teórico e dirigente político, intelectual e militante, de forma indissolúvel.

Quanto mais setores da esquerda consideram que os projetos atualmente existentes são todos cooptados pela burguesia, projetos de uma “nova direita” disfarçada de esquerda, etc., etc., mais deveriam se sentir derrotados e desmoralizados. Porque acreditam cegamente que têm razão, mas nunca conseguem triunfar, não conseguem convencer aos amplos setores do povo das suas propostas. Deveriam se sentir mais derrotados que todos. No entanto, exibem soberba diante das derrotas, parece que as derrotas são dos outros. (Como no caso da peça do Sartre, “Entre quatro paredes”, em que “o inferno são os outros").

Muitas vezes setores da esquerda colocam como seu objetivo a disputa de espaço dentro da esquerda, a demonstração de força de que têm mais força que outros grupos de esquerda, quando o objetivo fundamental é construir e disputar hegemonia na sociedade como um todo. Tantas vezes reina o prazer quando se considera que tal pessoa ou tal grupo teria “capitulado”, quando se deveria ficar triste, porque – caso seja realmente assim – é mais uma pessoa ou um setor que abandonaria a esquerda, refletindo nossa incapacidade de conquistá-los.

As vezes dá a impressão que se considera que o gênero humano está condenado à traição e cada vez que se considera que isso acontece, gera uma espécie de satisfação interior, ao constatar que mais e mais gente morde a maçã do pecado e das garras da cooptação do capitalismo.

O debate ideológico dentro da esquerda deve ser dar em função do objetivo maior de construção de alternativas de esquerda, não de ver quem triunfa no marco fechado da esquerda. Senão o campo ficará livre para que a direita decida quem governará – e o fará sempre contra a esquerda e o campo popular.

Do Blog do Emir

Bem-vindo ao futuro!



Por Cléber Sérgio de Seixas


Oficialmente, hoje é o primeiro dia do inverno, uma estação de clima seco e frio. Lembro-me que anos atrás as estações eram mais bem definidas e era possível perceber com mais facilidade as transições de uma estação a outra. Hoje, porém, a situação climática é bem diferente. Há casos de no inverno fazer mais calor que no verão e eventos próprios de uma estação se repetirem em outra. A questão crucial é a seguinte: nunca a atividade humana mudou tão rapidamente o clima do planeta como no século passado e nesse início de século XXI.

É atribuída ao líder messiânico de Canudos, Antônio Conselheiro, a profética frase: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”. Nomes como Furnas, Sobradinho e Três Marias fazem-nos crer que a primeira parte do vaticínio de Conselheiro já se cumpriu, já que a vontade e engenharia humanas transformam, da noite para o dia, regiões áridas em oásis, e hoje o que restou do arraial de Canudos jaz sob o peso das águas do açude de Cocorobó.

Em meio à desoladora paisagem de rios secos, peixes mortos e morrendo, barcos encalhados e populações isoladas, sem água potável e sem meios de locomoção, membros da ONG Greenpeace, numa expedição para documentar os efeitos da estiagem que assolou região amazônica em outubro de 2005, fixaram no mosaico de barro seco, que fora antes o fundo do leito de um rio, uma placa com os seguintes dizeres: “Welcome to the future!”. Se a maior bacia hidrográfica do planeta pode ser atingida por uma seca, que será então de outras regiões menos favorecidas hidricamente? Será este o dantesco futuro que nos aguarda? Cumprir-se-á a segunda parte da profecia de Conselheiro?
Enquanto o planeta é castigado por tufões, furacões e secas, cientistas especulam se catástrofes como estas, cada dia mais superlativas, são oriundas do aquecimento global. Acredito que o aquecimento global é apenas a ponta do iceberg. A causa mais profunda, creio eu, está nos nossos hábitos, no modus vivendi intrínseco ao sistema econômico no qual vivemos, na forma como temos tratado nosso planeta. Se o consumismo é gêmeo siamês do capitalismo, é necessário aprofundar a reflexão a respeito de como temos explorado os recursos que a natureza tem nos dado sobejamente. Apenas considerando causas e efeitos, os fatos, na verdade, serão apenas uma questão de pura Física, se levarmos em conta o enunciado da 3ª lei de Newton que diz que “a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, porém de sentido contrário”. Não estranhemos, a natureza está apenas nos dando o troco!
Precisamos, no entanto, descer do pedestal da "civilização" e tentar aprender algo com quem vive mais harmoniosamente com a natureza: os índios. Não no sentido de parar a roda do progresso e sairmos por aí pelados e comendo insetos, mas visando ao que tem sido chamado de desenvolvimento sustentável, eufemismo de “explore, mas reponha!”. Podemos começar nosso aprendizado lendo alguns trechos da carta que um índio escreveu ao presidente norte-americano Franklin Pierce no ano de 1855: “... o homem branco não entende nossos costumes... ele é um estranho que vem na noite e toma à terra o que necessita... seu apetite devorará a terra e deixará para trás um deserto... Será o fim da vida e o início da subsistência... Todas as coisas estão relacionadas. Tudo o que fere a terra, também ferirá aos filhos da Terra”. Estamos, portanto, apenas colhendo o que plantamos. Se plantarmos desmatamento, extrativismo irresponsável, poluição do ar, rios e lagos, é óbvio que colheremos um futuro nebuloso para nossos filhos e netos.

Empresas e governos deixam de engatinhar e dão os primeiros passos em direção a uma maior responsabilidade no que diz respeito às questões ambientais, deixando para trás o extrativismo irresponsável de tempos passados e a ilusão de que os recursos que arrancamos do planeta são inesgotáveis.

Está chegando o dia!


Conforme eu havia anunciado dias antes, dia 24 próximo haverá manifestação pela saída do supremo presidente do Supremo, o imeretíssimo ministro Gilmar Dantas, ops, Gilmar Mendes.

A novidade é que contaremos com a honorável presença do delegado Protógens Queiroz.
Como sei que a grande mídia não cobrirá o evento, estarei lá com minha modesta câmera, fotografando e filmando para posterior veiculação neste blog.

Não percam!

Cliquem aqui para ir ao blog do Movimento Saia às Ruas

Sempre um Papo com Frei Betto

Conforme eu havia informado em posts anteriores, participei, na última quarta-feira do Sempre um Papo com Frei Betto e Frei Fernando, onde ambos falaram sobre o livro "Diário de Fernando".

Gravei praticamente todo o evento com minha máquina fotográfica e estou desde sexta-feira tentando postar os vídeos aqui neste blog. A princípio tentei subí-los aqui no próprio blog, o que não deu certo devido ao tamanho dos arquivos e à lentidão e instabilidade de minha conexão com a internet. Tentei então subir os vídeos no You Tube mas, para minha surpresa, fiquei sabendo que novas contas no You Tube, como é o caso da minha, não permitem que sejam enviados vídeos com mais de 10 minutos de duração. Assim sendo, nao me restou outra opção a não ser tentar cortar o vídeo em partes que não excedam 10 minutos para tentar enviar aqui no blog. É o que estou tentando mas ainda não consegui algum software adequado para isto.

Vou continuar tentando e, tão logo consiga, vou divulgar os vídeos aqui, juntamente com algum comentário sobre o evento.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

PÉSSIMA NOTÍCIA

Por Leandro Fortes

O fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é uma derrota para a sociedade brasileira, não esta que discute alegremente conceitos de liberdade de expressão e acredita nas flores vencendo o canhão, mas outra, excluída da discussão sobre os valores e os defeitos da chamada “grande imprensa”. São os milhões de brasileiros informados por esquemas regionais de imprensa, aí incluídos jornais, rádios, emissoras de TV e sites de muitas das capitais brasileiras, cujo único controle de qualidade nas redações era exercido pela necessidade do diploma e a vigilância nem sempre eficiente, mas necessária, dos sindicatos sobre o cumprimento desse requisito.

Tenho ouvido, há anos, como continuei ouvindo, hoje, quando o STF decidiu por oito votos a um acabar com a obrigatoriedade do diploma, essa lengalenga interminável sobre os riscos que a liberdade de expressão sofria com a restrição legal a candidatos a jornalistas sem formação acadêmica específica. Esse discurso enviesado de paixão patronal, adulado aqui e ali por jornalistas dispostos a se sintonizar com os sempre citados países do Primeiro Mundo que não exigem diploma, gerou uma percepção falaciosa, para dizer o mínimo, de que para ser jornalista basta apenas ter jeito para a coisa, saber escrever, ser comunicativo ou, como citou um desses ministros do STF, “ter olho clínico”. Foi baseado nesse amontoado de bobagens, dentro de uma anti-percepção da realidade do ofício, que se votou contra o diploma no Supremo.

Conheço e respeito alguns (poucos) jornalistas, excelentes jornalistas, que sempre defenderam o fim do diploma, e não porque foram cooptados pelo patronato, mas por se fixarem em bons exemplos e na própria e bem sucedida experiência. São jornalistas de outros tempos, de outras redações, de outra e mais complexa realidade brasileira, mais rica, em vários sentidos, de substância política e social. Não é o que vivemos hoje. Não por acaso, e em tom de deboche calculado, o ministro Gilmar Mendes, que processa jornalistas que o criticam e crê numa imprensa controlada, comparou jornalistas a cozinheiros e costureiros ao declarar seu voto pelo fim da obrigatoriedade do diploma. É uma maneira marota de comemorar o fim da influência dos meios acadêmicos de esquerda, historicamente abrigados nas faculdades de jornalismo, na formação dos repórteres brasileiros.

Sem precisar buscar jornalistas formados, os donos dos meios de comunicação terão uma farta pescaria em mar aberto. Muito da deficiência dessa discussão vem do fato de que ela foi feita sempre pelo olhar da mídia graúda, dos jornalões, dos barões da imprensa e de seus porta-vozes bem remunerados. Eu, que venho de redações pequenas e mal amanhadas da Bahia, fico imaginando como é que essa resolução vai repercutir nas redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, estes já contaminados até a medula pelos poderes políticos locais. Arrisco um palpite: serão infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares.

O fim da obrigatoriedade do diploma vai, também, potencializar um fenômeno que já provoca um estrago razoável na composição das redações dos grandes veículos de comunicação: a proliferação e a expansão desses cursinhos de trainee, fábricas de monstrinhos competitivos e doutrinados para fazer tudo-o-que-seu-mestre-mandar. Ao invés de termos viabilizado a melhoria dos cursos de jornalismo, de termos criado condições para que os grandes jornalistas brasileiros se animassem a dar aulas para os jovens aspirantes a repórteres, chegamos a esse abismo no fundo do qual se comemora uma derrota.

De minha parte, acho uma pena.

Públicado originalmente no blog do jornalista Leandro Fortes

quinta-feira, 18 de junho de 2009

EUROPA: DIREITA VOLVER!

Por Frei Betto

Eleitores de 27 países que configuram, hoje, a União Europeia elegeram, a 7 de junho, os deputados do Parlamento europeu, sediado em Estrasburgo.

O nível de abstenção foi alto: 57,06% dos eleitores preferiram não comparecer às urnas. Comprova-se a progressiva despolitização dessa sociedade em que as pessoas estão mais interessadas em adquirir um carro novo do que conquistar direitos sociais. Na Europa, o consumismo venceu o comunismo...

Das 763 cadeiras do Parlamento europeu, 263 passam a ser ocupadas pelos partidos conservadores. Sem contar os eurodeputados britânicos, tchecos e poloneses que formam, à parte, a bancada dos eurocéticos e sempre votam com a direita.

Os socialistas (leia-se: social-democratas) detinham 217 cadeiras. Ficam, agora, com apenas 161. Os ambientalistas ampliaram sua bancada de 43 para 52 cadeiras, liderada pelo ex-líder estudantil francês (maio de 1968) Daniel Cohn-Bendit.

Na bancada francesa de euroecologistas figura José Bové, líder camponês que, anos atrás, participou de atividades do MST no Brasil.

Os conservadores obtiveram expressiva vitória nos seguintes países: Reino Unido, Irlanda, Holanda, Áustria, Portugal, França, Eslovênia, Itália, Hungria, Luxemburgo, Chipre, Bulgária, República Tcheca, Polônia, Lituânia, Finlândia, Alemanha e Espanha (onde o Partido Popular, de direita, obteve 42,2% dos votos, e o PSOE, socialista, 38,5%).

Os socialistas venceram na Dinamarca, Suécia, Malta, Grécia, Romênia e Eslováquia. A meio caminho ficaram Bélgica, Letônia e Estônia.

Esse resultado confirma o adiamento da pretensão da Turquia de integrar a União Europeia. No bojo dessa direitização da política europeia está o antiterrorismo, com fortes conotações anti-islâmicas. A Europa “cristã” promove, à semelhança dos reis católicos da Espanha no século 15, novo expurgo de quem não reza por seu credo.

Vencido o ateísmo (leia-se: comunismo), chegou a hora de rechaçar o islamismo em nome de uma “civilização cristã” que ostenta, como um de seus líderes, um primeiro-ministro italiano septuagenário que paquera meninas de 16 e promove, em sua casa de praia, embalos em trajes adâmicos...

O grande cabo eleitoral da direita foi a crise financeira. Nos anos 1930, em consequência da bancarrota da Bolsa de Nova York (1929), o capitalismo passou pela crise de adolescência que levou a Europa ao nazifascismo e, com efeito, à guerra que fez 50 milhões de vítimas fatais.

Na atual crise senil, o pêndulo da história europeia repete o movimento. A diferença reside nos alvos. Desta vez não são os judeus, e sim os imigrantes, sobretudo árabes e africanos. O crescente desemprego ainda não toma postos de trabalho de europeus, mas de estrangeiros que ali buscam sobreviver. Governos, como o espanhol, oferecem ao imigrante interessado em retornar a seu país de origem passagem aérea, gastos de viagem e ainda uma ajuda equivalente a R$ 1,3 mil.

O resultado dessas eleições confirma a falência da esquerda europeia. Ela desabou com o Muro de Berlim, tentou resistir ao naufrágio agarrando-se em frágeis boias como Mitterrand, Zapatero e D’Alema e, agora, obtém ridículos índices de aprovação. E ninguém ignora que foi ela que salvou a Europa do nazifascismo. As tropas aliadas tiveram êxito porque, de um lado, a União Soviética fez Hitler recuar e, de outro, a Resistência clandestina minou o moral dos ocupantes.

Por que a esquerda faliu na Europa? Entre várias hipóteses, a dificuldade de entender que a classe operária já não é a mesma da primeira metade do século 20. E há uma nova agenda que a esquerda, de início, encarou com preconceito: ecologia, sustentabilidade, relações de gêneros, ecoeconomia solidária etc.

A religião, tão impregnada na consciência popular, também sofria discriminação. Refém de conceitos teóricos acadêmicos, a esquerda europeia nem reconheceu nem manteve vínculos com os novos sujeitos históricos: imigrantes, desempregados, “minorias” excluídas e amplos setores da classe média desamparados pelo fim do Estado de bem-estar social e o advento do neoliberalismo.

Não são as teorias de Marx (aliás, O capital é, hoje, um dos livros mais vendidos na Europa) que justificam a esquerda, e sim a existência de 4 bilhões de seres humanos sobrevivendo abaixo da linha da pobreza. Para esses, o capitalismo já nasceu fracassado. Só lhes resta buscar o outro mundo possível. Mas... com que roupa? Com que força política capaz de transformar o desalento e a indignação em mobilização e projeto de futuro?

Fonte: jornal Estado de Minas - 18/06/2009

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sempre um Papo

Aviso aos leitores deste blog que amanhã não postarei nada pois estarei no evento de lançamento do livro "Diário de Fernando - Nos cárceres da ditadura militar brasileira", onde Frei Betto e Frei Fernando estarão dando suas contribuições para refrescar a memória do povo brasileiro acerca de um dos períodos mais obscuros de nossa história.

O evento faz parte do projeto Sempre um Papo. Clique aqui para obter maiores detalhes.

A FOLHA ÀS MOSCAS OU À FOLHA AS MOSCAS?

Por Cléber Sérgio de Seixas

Depois de rebatizar a ditadura militar que assolou nosso país por 21 anos, atribuindo-lhe o neologismo "ditabranda", o que lhe custou a perda de vários assinantes, a Folha de São Paulo tenta recuperar terreno (leia-se assinantes e credibilidade) lançando um comercial de TV. Não vou discorrer muito sobre o conteúdo do comercial pois vou reproduzí-lo logo abaixo. Além disso prefiro indicar a leitura de um artigo do brilhante Eduardo Guimarães em seu Cidadania.com.

O máximo que posso dizer por hora é o seguinte: um jornal que está às moscas se auto-elogiando num comercial, só cumpre o ridículo papel de quem está em desespero e rumo à falência, perdendo mercado para os blogs dia a dia. Complemento com a máxima que cada bosta tem as moscas que mereçe. A Folha é a bosta e as moscas apareçem no vídeo.

Preparem os estômagos e vejam o vídeo.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

RESGATANDO A MEMÓRIA

Arranjo de flores para Fleury: herói nacional?


Por Cléber Sérgio de Seixas


Às vezes me pergunto se este país tem ou quer ter alguma memória política e histórica. Converso com pessoas de minha geração – a dos que nasceram nos anos setenta - ou com outros da geração seguinte e percebo um claro desconhecimento dos acontecimentos que marcaram os últimos 50 anos de nossa história e um quase total desinteresse em conhecer. Quando o assunto é o período da ditadura militar, o desconhecimento fica patente. Certa vez um colega de trabalho disse que a ditadura militar foi muito boa para o país, a não ser pela repressão.

Nosso passado permaneçe nublado. A memória nacional às vezes tenta resgatar fatos, mas encontra pouca documentação. Enquanto países como Argentina e Chile passaram a limpo seu passado, punindo torturadores e assassinos que estiveram a serviço de ditaduras militares que assolaram seus países durante anos, a nação verde e amarela sequer abriu os arquivos da ditadura, verdadeira caixa de pandora cujo conteúdo azedaria a vida de muita gente que colaborou com o regime e anda por aí impunemente.

Nossa transição política do regime ditatorial para a democracia foi um acordo entre a elite fardada e a elite engravatada; acordo de cuja mesa de negociação se excluiu o povo. É como se os militares tivessem dito: “tudo bem, anistiamos os perseguidos políticos e os exilados podem voltar, mas vocês não vão poder mais tocar no assunto tortura ou assassinatos. Passaremos a faixa presidencial a um civil, mas não mencionem mais nossos crimes. Deletem da memória nacional os muitos assassinatos que cometemos e as muitas torturas que infligimos que iremos conviver bem com vocês”. Na transição, nem um presidente pudemos eleger, tarefa que foi delegada a um colégio eleitoral. O vencedor da disputa morreu logo em seguida. Só fomos eleger novamente um presidente pelo voto direto em 1989. Desacostumados que estávamos a votar para presidente, após um jejum de 29 anos, acabamos por colocar no poder um corrupto que logo foi impedido de continuar no cargo.

Recentemente, um artigo do jornal Folha de São Paulo, um dos órgãos de imprensa que colaboraram ativamente com o aparato de repressão da ditadura militar, se referiu à ditadura que dominou nosso país por vinte e um anos como “ditabranda”, ou seja, uma ditadura mais branda, se for levado em consideração as demais que estiveram no poder em outras nações latino-americanas. Nossa ditadura teria sido mais branda por ter assassinado menos gente ou se utilizado de medidas menos extremas na repressão, se comparada com as ditaduras chilena e argentina, por exemplo. No entanto, nenhum regime assassino deve ser considerado brando baseado simplesmente no número de indivíduos que matou ou torturou, pois marcas indeléveis ficam no corpo e na mente daqueles que sofreram e foram mutilados, ou nas memórias daqueles em cujos corações ficou a lembrança dos entes queridos que foram assassinados. Portanto, a idéia de “ditabranda” dever ser rechaçada com firmeza por aqueles que pretendem ter alguma honestidade intelectual.

As viúvas da ditadura estão por aí aos milhares, saudosas do tempo em que a vontade popular era suplantada pelo chumbo e pelo porrete. Não se enganem aqueles que pensam que as pessoas mudam suas concepções tão facilmente. Basta uma oportunidade para que sentimentos antidemocráticos, até então latentes, aflorem com violência. Cinco dias após o aniversário de 30 anos da morte do delegado Fleury, ou seja, em 06 de maio último, por exemplo, houve uma missa em homenagem ao notório torturador (clique aqui para ler post anterior no qual citei trechos da biografia do delegado Fleury). No altar da igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Sumaré, localizado na capital paulista, foi colocado um quadro de flores no qual havia uma foto de Fleury e uma faixa com os seguintes dizeres: “herói nacional”. Bertold Brecht certa vez disse: “Miserável país aquele que precisa de heróis”. Deste tipo de “herói”, no entanto, acredito que nenhuma nação precise. Recentemente uma rua da cidade paulista de São Carlos foi rebatizada de Sérgio Paranhos Fleury para Dom Hélder Câmara, o que talvez possa ser interpretado como um resgate da memória dos verdadeiros heróis deste país.

A história, na maior parte das vezes, é contada sob o ponto de vista dos vencedores. Acredito que os colaboradores do regime militar golpista saíram vencedores se considerarmos que ficaram impunes dos muitos crimes que cometeram. Assim, muitos fatos desabonadores da credibilidade daquele regime que se dizia promotor do “milagre econômico” foram varridos para debaixo do tapete e lá permanecerão até que vozes corajosas ousem explicitá-los. A tal empreitada têm se proposto alguns cineastas, documentaristas, escritores e outros. Exemplos recentes são os filmes Zuzu Angel e Batismo de Sangue, este último baseado no livro homônimo de Frei Betto.

Em prol do resgate da memória a que me referi acima, convido a você, leitor deste blog, e que for morador da região metropolitana da grande Belo Horizonte, a participar do evento que ocorrerá nesta quarta-feira, 17/06, no Auditório da CEMIG, localizado à Av. Barbacena, 1200, bairro Santo Agostinho. No evento, o teólogo e escritor Frei Betto, acompanhado do religioso Frei Fernando, ambos presos por terem colaborado com movimentos que faziam oposição à ditadura militar, farão o lançamento do livro “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira”. Trata-se de mais um evento do projeto Sempre Um Papo. Mais detalhes podem ser obtidos aqui.

Nos dias atuais, em que alguns tentam reescrever a história dando-lhe uma versão que absolva torturadores e assassinos, eventos como este são indispensáveis para refrescar nossa memória, evitando que barbaridades como as impetradas pela ditadura militar brasileira se repitam.