EUROPA: DIREITA VOLVER!

Por Frei Betto

Eleitores de 27 países que configuram, hoje, a União Europeia elegeram, a 7 de junho, os deputados do Parlamento europeu, sediado em Estrasburgo.

O nível de abstenção foi alto: 57,06% dos eleitores preferiram não comparecer às urnas. Comprova-se a progressiva despolitização dessa sociedade em que as pessoas estão mais interessadas em adquirir um carro novo do que conquistar direitos sociais. Na Europa, o consumismo venceu o comunismo...

Das 763 cadeiras do Parlamento europeu, 263 passam a ser ocupadas pelos partidos conservadores. Sem contar os eurodeputados britânicos, tchecos e poloneses que formam, à parte, a bancada dos eurocéticos e sempre votam com a direita.

Os socialistas (leia-se: social-democratas) detinham 217 cadeiras. Ficam, agora, com apenas 161. Os ambientalistas ampliaram sua bancada de 43 para 52 cadeiras, liderada pelo ex-líder estudantil francês (maio de 1968) Daniel Cohn-Bendit.

Na bancada francesa de euroecologistas figura José Bové, líder camponês que, anos atrás, participou de atividades do MST no Brasil.

Os conservadores obtiveram expressiva vitória nos seguintes países: Reino Unido, Irlanda, Holanda, Áustria, Portugal, França, Eslovênia, Itália, Hungria, Luxemburgo, Chipre, Bulgária, República Tcheca, Polônia, Lituânia, Finlândia, Alemanha e Espanha (onde o Partido Popular, de direita, obteve 42,2% dos votos, e o PSOE, socialista, 38,5%).

Os socialistas venceram na Dinamarca, Suécia, Malta, Grécia, Romênia e Eslováquia. A meio caminho ficaram Bélgica, Letônia e Estônia.

Esse resultado confirma o adiamento da pretensão da Turquia de integrar a União Europeia. No bojo dessa direitização da política europeia está o antiterrorismo, com fortes conotações anti-islâmicas. A Europa “cristã” promove, à semelhança dos reis católicos da Espanha no século 15, novo expurgo de quem não reza por seu credo.

Vencido o ateísmo (leia-se: comunismo), chegou a hora de rechaçar o islamismo em nome de uma “civilização cristã” que ostenta, como um de seus líderes, um primeiro-ministro italiano septuagenário que paquera meninas de 16 e promove, em sua casa de praia, embalos em trajes adâmicos...

O grande cabo eleitoral da direita foi a crise financeira. Nos anos 1930, em consequência da bancarrota da Bolsa de Nova York (1929), o capitalismo passou pela crise de adolescência que levou a Europa ao nazifascismo e, com efeito, à guerra que fez 50 milhões de vítimas fatais.

Na atual crise senil, o pêndulo da história europeia repete o movimento. A diferença reside nos alvos. Desta vez não são os judeus, e sim os imigrantes, sobretudo árabes e africanos. O crescente desemprego ainda não toma postos de trabalho de europeus, mas de estrangeiros que ali buscam sobreviver. Governos, como o espanhol, oferecem ao imigrante interessado em retornar a seu país de origem passagem aérea, gastos de viagem e ainda uma ajuda equivalente a R$ 1,3 mil.

O resultado dessas eleições confirma a falência da esquerda europeia. Ela desabou com o Muro de Berlim, tentou resistir ao naufrágio agarrando-se em frágeis boias como Mitterrand, Zapatero e D’Alema e, agora, obtém ridículos índices de aprovação. E ninguém ignora que foi ela que salvou a Europa do nazifascismo. As tropas aliadas tiveram êxito porque, de um lado, a União Soviética fez Hitler recuar e, de outro, a Resistência clandestina minou o moral dos ocupantes.

Por que a esquerda faliu na Europa? Entre várias hipóteses, a dificuldade de entender que a classe operária já não é a mesma da primeira metade do século 20. E há uma nova agenda que a esquerda, de início, encarou com preconceito: ecologia, sustentabilidade, relações de gêneros, ecoeconomia solidária etc.

A religião, tão impregnada na consciência popular, também sofria discriminação. Refém de conceitos teóricos acadêmicos, a esquerda europeia nem reconheceu nem manteve vínculos com os novos sujeitos históricos: imigrantes, desempregados, “minorias” excluídas e amplos setores da classe média desamparados pelo fim do Estado de bem-estar social e o advento do neoliberalismo.

Não são as teorias de Marx (aliás, O capital é, hoje, um dos livros mais vendidos na Europa) que justificam a esquerda, e sim a existência de 4 bilhões de seres humanos sobrevivendo abaixo da linha da pobreza. Para esses, o capitalismo já nasceu fracassado. Só lhes resta buscar o outro mundo possível. Mas... com que roupa? Com que força política capaz de transformar o desalento e a indignação em mobilização e projeto de futuro?

Fonte: jornal Estado de Minas - 18/06/2009

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