segunda-feira, 31 de maio de 2010

A saudade do servo na velha diplomacia brasileira

FHC nos tempos da subserviência

Por Leonardo Boff na Adital

O filósofo F. Hegel em sua Fenomenologia do Espírito analisou detalhadamente a dialética do senhor e do servo. O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o servo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de servo. A mesma dialética identificou Paulo Freire na relação oprimido-opressor em sua clássica obra Pedagogia do oprimido. Com humor comentou Frei Betto: "em cada cabeça de oprimido há uma placa virtual que diz: hospedaria de opressor". Quer dizer, o oprimido hospeda em si o opressor e é exatamente isso que o faz oprimido". A libertação se realiza quando o oprimido extrojeta o opressor e ai começa então uma nova história na qual não haverá mais oprimido e opressor, mas o cidadão livre. Escrevo isso a propósito de nossa imprensa comercial, os grandes jornais do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre, com referência à política externa do governo Lula no seu afã de mediar junto com o governo turco um acordo pacífico com o Irã a respeito do enriquecimento de urânio para fins não militares. Ler as opiniões emitidas por estes jornais, seja em editoriais seja por seus articulistas, alguns deles, embaixadores da velha guarda, reféns do tempo da guerra-fria, na lógica de amigo-inimigo é simplesmente estarrecedor. O Globo fala em "suicídio diplomático" (24/05) para referir apenas um título até suave. Bem que poderiam colocar como sub-cabeçalho de seus jornais: "Sucursal do Império", pois sua voz é mais eco da voz do senhor imperial do que a voz do jornalismo que objetivamente informa e honestamente opina. Outros, como o Jornal do Brasil, têm seguido uma linha de objetividade, fornecendo os dados principais para os leitores fazerem sua apreciação.

As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como é Hawai e Porto-Rico. Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.

O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições.

O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros. E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado. Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata. Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula.

A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula.

domingo, 30 de maio de 2010

O LEÃO DO OESTE

Uma das cenas de Era Uma Vez no Oeste

Por Cléber Sérgio de Seixas


Em minha infância, lá pelos idos de 80, me acostumei com meu pai ouvindo o que ele chamava de "músicas de bang-bang”. Ele as escutava naqueles toca-discos portáteis conhecidos na época como radiola. Hoje, do alto da tecnologia MP3, as novas gerações fazem troça dos bolachões e das engenhocas que os punham em movimento para deles extrair melodias e, eventualmente, chiados. Da mesma forma, os representantes da geração Z, acostumados a tecnologias que produzem filmes como Star Wars e Avatar, consideram filmes de western ultrapassados. Eu não gostava daquelas músicas orquestradas e daqueles assovios sem fim, nem tampouco dos filmes cujo gênero meu pai chama de faroeste. Entre djangos e trinities meu velho, ainda hoje, declara sua preferência pelos faroestes italianos.

Passaram-se os anos, acumularam-se as lembranças dos vários filmes assistidos e eis-me um cinéfilo. Na minha bagagem cabia de tudo, menos os representantes do antiquado gênero western. Até que um dia me deparei com um filme chamado Era uma Vez no Oeste (C'era Una Volta Il West). O nome foi retirado do baú de minha memória e despertou minha curiosidade. Assisti-o não só uma, mas várias vezes, até que me vi obrigado a comprar o DVD. A partir de então, tornei-me um fã incondicional, não exatamente do gênero, mas do gênero sob a batuta de um maestro chamado Sérgio Leone.

Leone, cineasta italiano que começou sua carreira como assistente de direção em filmes dirigidos por cineastas famosos como Vittorio De Sica, Mervyn Leroy e Luigi Comencini, alçou vôos solo e estreou na direção com um épico chamado O Colosso de Rodes. O ano era 1960. Quatro anos depois produziu um western intitulado Por um Punhado de Dólares (Per Un Pugno Di Dollari), cujo papel principal foi dado ao desconhecido Clint Eastwood. Este filme introduziu um gênero que ficou pejorativamente conhecido como western spaghetti. O termo que alude ao famoso prato servia para descrever todos os westerns dirigidos por italianos. Leone abriu as portas para vários outros diretores daquele país, dentre os quais destaco Sergio Corbucci, Sergio Solima, Tonino Valerii.

Em 1965 e 1966, Leone daria continuidade ao que ficou conhecido como a trilogia dos dólares com os filmes Por Uns Dólares a Mais (Per qualche dollaro in più) e Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo). Em todos eles, Clint Eastwood fazia o papel de um personagem sem nome. A consagração do diretor italiano viria em 1968 com Era Uma Vez no Oeste - na minha modesta opinião, o melhor western de todos os tempos. Seguiram-se outros filmes, mas sem o mesmo brilho deste último. O derradeiro trabalho de Leone foi um épico gângster, Era Uma Vez na América, cujo elenco estelar incluía nomes como James Woods e Robert De Niro. 

Leone não só revelou astros com Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Gian Maria Volonté, mas também ensinou os norte-americanos, pais do gênero, a fazer western. O oeste de Leone em muito difere daquele mostrado nos filmes de diretores norte-americanos como John Ford, John Huston ou Howard Hawks.

Nos filmes de Leone os protagonistas não são mocinhos nem bandidos - talvez sejam as duas coisas ao mesmo tempo. São seres humanos em busca de seus objetivos, nem que para alcançá-los seja necessário matar e roubar. Geralmente, são caçadores de recompensa ou estão atrás de vingança. É o que podemos chamar de anti-heróis. Nos filmes leoninos não existem os politicamente corretos tal como nos filmes americanos. Os cowboys de Leone não têm rostos belos e escanhoados. Pelo contrário, são barbudos, cheios de cicatrizes, sujos, traiçoeiros, mal-educados, além de nunca se envolverem em romances.

A cenas de violência nos filmes do diretor italiano são curtas, mas sempre precedidas de longos diálogos emoldurados pelas belíssimas trilhas sonoras de Morriconne.

Enquanto nos westerns de diretores estadunidenses os índios e mexicanos são sempre retratados como violentos, traiçoeiros e como um mal a ser extirpado, Leone, deixando de lado qualquer espécie de maniqueísmo, poucas vezes os apresenta assim. Em certos filmes até os ignora ou os apresenta como revolucionários, como é o caso dos mexicanos em Quando Explode a Vingança (Giù La Testa) de 1971.

O estilo Leone de filmar transita dos close-ups nos rostos dos atores às grandes panorâmicas. Leone usou e abusou das gruas em suas filmagens para obter tomadas antológicas, como aquela em que a personagem Jill McBain - vivida por Claudia Cardinale - de Era Uma Vez no Oeste, desce do trem, atravessa a estação de desembarque e caminha pela cidade, tudo sem nenhum corte. O formato cinemascope dá ao filme uma aura ainda mais épica.

Detalhe: Era Uma Vez no Oeste foi traduzido erroneamente do italiano. O nome correto seria Era Uma Vez o Oeste, significando o fim do oeste em decorrência do progresso trazido pelas ferrovias, uma referência constante nesse filme – o filme começa e termina com a chegada do trem.

Leone manteve uma parceria, que duraria até seu último filme, com o gênio das trilhas sonoras e também italiano Ennio Morricone. Entre sinos e assovios, a criatividade de Morricone dava vida e emoção às cenas. Algumas canções pareciam ter nascido para as cenas que sonorizaram. Das trilhas, destaque para as de Três Homens em Conflito, Era Uma Vez no Oeste e Era Uma Vez na América (Once Upon a Time in America), de 1984.

Leone faleceu em 1989, mas deixou um legado seguido por diretores como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. No recente Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds), o estilo Leone é notado logo nos primeiros instantes do filme dirigido por Tarantino, inclusive pela música de Morricone.

O gênero western pode, seguramente, ser divido em duas eras: antes e depois de Leone. Nenhum outro conseguiu transpor para a grande tela aquele ambiente que deve ter caracterizado o velho oeste. Leone é, portanto, referência obrigatória para o gênero. Ave, Leone!

Deixo-vos com um trecho daquela que considero a maior obra de Leone: Era Uma Vez No Oeste. Atentem para a trilha de Morriconne.


sábado, 29 de maio de 2010

CANDIDATA DA CONTINUIDADE


Por Maurício Dias

A sucessão presidencial parece ter sido invadida por curiosos fenômenos sazonais. No verão, o noticiário foi aquecido por uma certeza, difundida pela oposição, de que Lula não teria condições de transferir votos para Dilma. Agora, em pleno outono, quando as mentiras despencam como folhas de árvores, a oposição “denuncia” a influência de Lula no crescimento da candidatura de Dilma Rousseff, a partir do programa de televisão do PT, no qual o presidente foi âncora.

Essa é a tese favorita da oposição e nela o senador Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, se agarrou para dizer que, após o próximo programa do PSDB na televisão, a candidatura de Serra voltará a crescer. “O mês de maio foi de Dilma, o mês de junho será nosso”, diz Guerra.

É mais um sinal do desnorteado comportamento de vaivém da oposição. Um lero-lero que esconde a inconsequência e a fragilidade do discurso do candidato tucano, que ora morde, ora assopra o governo.

As provas desmentem a versão de que a alavanca de crescimento da candidatura de Dilma, neste momento, foi a televisão. Essa versão embute a tentativa de desqualificar a petista e de contornar fatos que os opositores dificilmente conseguirão arredar do debate eleitoral: os resultados econômicos e sociais da administração e Lula. O que faz Dilma -realmente crescer é ser cada vez mais conhecida como candidata da continuidade.

As pesquisas dos institutos Vox Populi e Sensus, nessa sequência, foram as primeiras a detectar o avanço da petista: Dilma 37%, Serra 34% (Vox) e Dilma 37%, Serra 37,8% (Sensus). No entanto, como as duas sondagens fizeram o campo entre os dias 8 e 13 e 10 e 14, respectivamente, não tiveram impacto do programa do PT que foi ao ar na noite de 15 de maio. Isso abala o argumento de que a televisão foi determinante no crescimento de Dilma e teria provocado essa rápida variação das intenções de voto. Será?

Como se forma a opinião dos eleitores? São muitas as variáveis de influência. Certamente, a televisão, um veículo de comunicação de massa que define a pauta de assuntos de grande parte da população, tem peso. Mas há sérias dúvidas de que essa máquina que, segundo o ensaísta italiano Giovanni Sartori, “destrói mais saber do que transmite”, seja capaz de formar juízos sólidos.

Em outubro de 2009, o sociólogo Antonio Lavareda coordenou uma pesquisa nacional do Ipesp sobre Fontes de Informação Política e recolheu resultados interessantes com indícios sobre a influência da televisão e do rádio. Embora a maioria não goste (48%), há um número substancial de eleitores (27%) que “gosta muito” ou “gosta”.

Ao lado dessa pequena surpresa surge uma resposta que não surpreende ninguém. Perguntada se confia nas coisas ditas nas Propagandas Políticas, a maioria maciça (83%) responde que não. As propagandas políticas na televisão não são eficazes se não são verdadeiras ou, pelo menos, se não correspondem a tendências sociais. O eleitor sabe que os políticos, no Brasil e em todos os lugares, são assim: oferecem o paraíso para se eleger, mas não entregam depois de eleitos.

Mas um bom administrador, seja qual for, pode eleger o sucessor. Essa é a questão.


Fonte: revista Carta Capital - edição de 28 de maio de 2010.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

POST CURTO E GROSSO

Por Cléber Sérgio de Seixas

Não vou ter tempo hoje de postar um artigo mais longo e denso como gostaria. Assim sendo, vou escrever o post que, acredito, entrará para a história deste blog como o mais curto (e grosso).

Durval Barbosa, ex-secretário de José Roberto Arruda, delator do "mensalão do DEM", declarou ao Estado de São Paulo (clique aqui para ler) que Rodrigo Maia era um dos beneficiários do esquema. Acontece que Rodrigo é o presidente nacional de um partido (DEM) que apóia a candidatura Serra à presidência. Serra apareceu ontem no programa político do DEM (clique aqui para ler). Se fosse Dilma no programa do PT seria crime, mas no caso do DEM poooode!!

Assim sendo, o sobrenome Arruda não tem servido, tal qual aquela famosa plantinha, para espantar os maus agouros que assolam o partido do DEMO. Os respingos da podridão acabam de atingir o presidente do partido e, faço votos, respingarão também em Serra, isso se o PIG (Partido da Imprensa Golpista) não abafar.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Irã: quem atira a primeira pedra?

Bombas atômicas sobre o Japão em 1945: o maior atentado terrorista da História


Por Frei Betto


O presidente Lula empreendeu uma delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um “paiseco” como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional?

Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?

Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o “eixo do mal”. Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.

Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de ter arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fizeram, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.

O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criação diabólica de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.

Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco, a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.

Fortalecido belicamente, o Irã poderia ocupar países vizinhos? E o que dizer da ocupação usamericana de Porto Rico, desde 1898, e agora do Iraque e do Afeganistão? E com que direito os EUA mantêm uma base naval, transformada em cárcere clandestino de supostos terroristas, em Guantánamo, território cubano?

Respaldado em que lei internacional os EUA implantaram 700 bases militares em países estrangeiros? Só na Itália existem 14. Na Colômbia, cinco. E quantas bases militares estrangeiras há nos EUA?

Há que admitir: o Irã não está preparado para se integrar no seio das nações civilizadas... Nações que financiam, pelo consumo, os cartéis das drogas, tratam imigrantes estrangeiros como escória da humanidade, fazem do consumismo o ideal de vida.

E convém lembrar: fundamentalismo não é apenas uma síndrome religiosa. É, sobretudo, uma enfermidade ideológica, que nos induz a acreditar que o capitalismo é eterno, fora do mercado não há salvação e a desigualdade social é tão natural quanto o inverno e o verão.

Lula candidato era discriminado pelo elitismo brasileiro por não dominar idiomas estrangeiros. Surpreendeu todos por falar a linguagem dos pobres e revelar-se exímio negociador em questões internacionais.

Sem o apoio do Brasil não avançaria essa primavera democrática que, hoje, semeia esperança de tempos melhores em toda a América Latina. Os eleitores dão as costas às velhas oligarquias políticas e escolhem governantes progressistas.

Essa nova geopolítica latino-americana, que oficializará em 2011 a União das Nações Latino-Americanas e Caribenhas, certamente preocupa Washington. A crise financeira bate às portas das nações mais poderosas do mundo e a Europa entra num período de recessão. O livre mercado, o Estado mínimo, a moeda única (euro), a ciranda especulativa mergulham numa crise sem precedentes.

Tudo indica que, daqui pra frente, o mundo será diferente. Se melhor ou pior, depende do resultado do embate entre duas forças contrárias: os que pensam a partir do próprio umbigo, interessados apenas em obter fortunas, e os que buscam um projeto alternativo de sociedade, menos desigual e mais humano. É a antiética em confronto com a ética.


Fonte: jornal Estado de Minas - 27/05/2010.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

ELEIÇÃO SIM, TAPETÃO NÃO!

Por Cléber Sérgio de Seixas

Primeiro foram as declarações da procuradora da República e vice-procuradora geral eleitoral, Sandra Cureau (clique aqui para ler), depois as do ministro do TSE Marco Aurélio Mello. Por fim o jornalista e blogueiro Ricardo Noblat, antecipando-se ao judiciário, afirmou o seguinte em seu blog: “Há abusos suficientes para ameaçar o registro da candidatura de Dilma, admitem dois ministros do Tribunal Superior Eleitoral ouvidos por este blog. Mas falta ao tribunal coragem para tomar qualquer medida mais drástica a esse respeito”. A afirmação "falta ao tribunal coragem..." pode ser interpretada como uma chamada aos brios dos magistrados ou, em outras palavras, uma provocação.

Tais fatos nada mais são que o reflexo do desespero que ronda a candidatura do maior adversário de Dilma, José Serra. As últimas pesquisas dão conta da escalada de Dilma enquanto o tucano vem perdendo pontos. Seguindo este ritmo, dentro em pouco teremos Dilma muito acima nas pesquisas. Já afirmei em outros posts neste blog que veríamos de tudo na campanha eleitoral para presidente deste ano, talvez como jamais tenhamos visto "na história deste país", dado o caráter plebiscitário da eleição. Uma suposta aliança do judiciário com a imprensa golpista seria apenas o princípio das dores.

Em resposta às afirmações de membros do judiciário - fora dos autos, diga-se de passagem - e de representantes da direita midiática que insistem na tese da suspensão da candidatura de Dilma em decorrência de suposta campanha antecipada (em tempo: o TRE de São Paulo derrubou a cassação de Gilberto Kassab por acusação de doações ilegais de campanha), o deputado federal Brizola Neto lançou ontem em seu blog uma campanha pela legalidade nas eleições. Incluí no espaço deste blog intitulado "Espaço Cidadania" um banner da campanha para que os leitores possam clicar e participar, juntando-se, assim, à conclamação de Brizola Neto por legalidade.

Nesse momento crucial da história brasileira, quero fazer um pequeno parêntese para evocar a figura de um dos mais coerentes e corajosos políticos brasileiros: Leonel Brizola. Seu neto, o deputado federal supracitado, deu este nome à campanha que ora leva a cabo em memória da campanha liderada por seu avô que impediu que o golpe militar ocorresse três anos antes de 1964.

Na efervescência dos anos 60 - tempo da bipolaridade representada pelos EUA e pela URSS, comunismo versus capitalismo, auge da Guerra Fria, com a Revolução Cubana ainda em seus primórdios - o país passava por um conturbado processo político. No dia 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros, o presidente da vassourinha, renuncia ao cargo. Pelo rito legal, o vice deveria assumir. Ocorre que João Goulart estava em visita diplomática à China comunista. Detalhe: João Goulart, vulgo Jango, era figurinha carimbada desde os tempos em que, na qualidade de ministro do trabalho do governo democrático de Getúlio Vargas, dobrou o valor do salário mínimo, despertando, assim, a fúria do empresariado nacional. Muitos temiam a instalação do comunismo no Brasil caso Jango tomasse posse. Temendo as supostas posições esquerdistas do vice de Jânio, os militares defendiam o impedimento de sua posse e, por outro lado, eram favoráveis à convocação de novas eleições.

Em resposta à tentativa de golpe, Leonel Brizola, governador do estado do Rio Grande do Sul, organizou a partir de Porto Alegre a chamada Campanha da Legalidade em defesa da posse de Jango. Da Rádio Guaíba, operando em ondas curtas, Brizola levou sua voz a todo o país, liderando a reação ao golpe. Reproduzo abaixo trechos do discurso de Brizola que foi ao ar no dia 27 de agosto de 1961:

"O Governo do Estado do Rio Grande do Sul cumpre o dever de assumir o papel que lhe cabe nesta hora grave da vida do País. Cumpre-nos reafirmar nossa inalterável posição ao lado da legalidade constitucional. Não pactuaremos com golpes ou violências contra a ordem constitucional e contra as liberdades públicas. Se o atual regime não satisfaz, em muitos de seus aspectos, desejamos é o seu aprimoramento e não sua supressão, o que representaria uma regressão e o obscurantismo.
A renúncia de Sua Excelência, o Presidente Jânio Quadros, veio surpreender a todos nós. A mensagem que Sua Excelência dirigiu ao povo brasileiro contém graves denúncias sobre pressões de grupos, inclusive do exterior, que indispensavelmente precisam ser esclarecidas. [...]Por motivo dos acontecimentos, como se propunha, o Governo deste Estado dirigiu-se à Sua Excelência, o Sr. Vice-Presidente da República, Dr. João Goulart, pedindo seu regresso urgente ao País, o que deverá ocorrer nas próximas horas.
O ambiente no Estado é de ordem. O Governo do Estado, atento a esta grave emergência, vem tomando todas as medidas de sua responsabilidade, mantendo-se, inclusive, em permanente contato e entendimento com as autoridades militares federais. O povo gaúcho tem imorredouras tradições de amor à pátria comum e de defesa dos direitos humanos. E seu Governo, instituído pelo voto popular - confiem os riograndenses e os nossos irmãos de todo o Brasil - não desmentirá estas tradições e saberá cumprir o seu dever."

Diante da crise, o Congresso Nacional aprovou uma emenda constitucional que instituiu o parlamentarismo no país, o que limitava os poderes de Jango. Sob tais circunstâncias, os militares aceitaram sua posse.

Fechando este parêntese, afirmo que nos tempos atuais não vivemos num mundo bipolarizado tal qual no início dos anos 60. Contudo, é necessário que as esquerdas estejam mais atentas do que estiveram durante o governo Jango. A inércia dos partidos e movimentos de esquerda permitiu o avanço fácil dos militares golpistas e o resultado de tal omissão todos já conhecem: 21 anos sob as botas dos militares.

A iniciativa do deputado Brizola Neto é oportuna e louvável, além de evocar a bravura do avô. Se uma decisão política tiver que ser tomada, que seja nas urnas, não nos quartéis ou nos tribunais; e que a soberana vontade do povo seja respeitada.

Para finalizar, sugeri ao deputado Brizola o seguinte slogan para a campanha: “Eleição se ganha com votação, não no tapetão”.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A NOVA DIREITA


Reproduzo abaixo artigo de autoria do jornalista Leandro Fortes publicado em seu blog, o Brasília, eu Vi


Três eventos distintos, separados em períodos esparsos, definiram nos últimos meses o arrazoado doutrinário e os modos da nova direita brasileira, remodelada em forma e conteúdo, mas não nas intenções, como era de se esperar. Aterrissaram em sua pista dourada intelectuais do calibre de Fernando Gabeira, Ferreira Gullar, Nelson Motta e Arnaldo Jabor, grupo ao qual se agregou, para estupefação do humor, o humorista Marcelo Madureira, do abismal Casseta & Planeta. Essa nova direita, cheia de cristãos novos e comunistas arrependidos tem no DNA um instinto de sobrevivência mais pragmático, gestado nos verdadeiros interesses em jogo, não mais na espuma do gosto popular. Não por outra razão, se ancora menos na ação parlamentar e mais na mídia, onde mantém brigadas de colunistas, e onde também atua, nas redações, de cima para baixo, de modo a estabelecer um padrão único de abordagem sobre os temas que lhe dizem respeito: dinheiro, liberdade irrestrita de negócios, dominação de classe, individualismo, acúmulo de riqueza e concentração fundiária.

Os três eventos aos quais me refiro causaram um razoável revertério na estratégia de comunicação social bolada por esse grupo neoconservador tupiniquim montado na rabeira da história dos neocons americanos. Senão, vejamos:

A surpreendente confissão de Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ)

“A liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.”

Judith, autora da fala acima, primeira mulher a assumir a presidência da ANJ, é diretora-superintendente do Grupo Folha da Manhã, responsável pela publicação do diário “Folha de S.Paulo”. Disse o que disse porque, como chefe da entidade, tinha como certo de que não haveria outra interpretação, senão à dos editoriais dos jornais que representa, todos favoráveis ao papel da imprensa anunciado por ela. Em suma, Judith Brito, embora não seja jornalista, representa bem um dos piores vícios da categoria, sobretudo no que diz respeito à cobertura política: falar exclusivamente para si e para os seus pares de ofício, prisioneira em um círculo de giz no qual repórteres escrevem para outros repórteres, certos de que uns irão repercutir os outros, escravos de uma fantasia jornalística alheia à realidade do mundo digital que está no cerne, por exemplo, da decadência e no descrédito dos jornais impressos – não por acaso, fonte do poder e da autoridade de Judith Brito.

O acordo nuclear com o Irã, capitaneado por Luiz Inácio Lula da Silva e pelo primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan

O sucesso da diplomacia brasileira nesse episódio criou um paradigma de atuação profissional do Itamaraty até então considerado impossível. De forma pacífica e disciplinada, a operação que resultou no acordo foi conduzida com extrema leveza, a caminhar sobre os ovos de aves agourentas distintas que se odeiam desde as primeiras luzes. Incorporou à biografia de Lula essa aura dos que lutam pela paz, requisito fundamental para a seleção dos premiados do Prêmio Nobel da Paz. Mas, antes que isso aconteça, a mídia brasileira vai finalmente descobrir que o milionário Alfred Nobel inventou a dinamite.

O resultado concretamente político dessa ação no Oriente Médio, apesar da bem sucedida pressão da extrema-direita americana sobre Barack Obama a favor de sanções contra o Irã, foi a desconstrução do discurso conservador da diplomacia brasileira, todo ele montado sobre as teses de alinhamento automático aos Estados Unidos, reação acrítica de atos de barbárie cometidos por Estados ocidentais e a submissão pura e simples às regras financeiras ditadas pelas nações ricas. Nesse aspecto, a história do chanceler Celso Amorim será extremamente mais relevante do que a de seus antecessores, torcedores vibrantes pelo fracasso do ministro com ampla visibilidade nas matérias e programas de entrevista da velha mídia nacional. Entre eles, Celso Lafer, o ministro das Relações Exteriores de FHC que acatou a ordem de tirar os sapatos no aeroporto de Washington, em 2002, para entrar nos EUA. Agora, Lafer acusa Lula de ter montado um palanque eleitoral no Itamaraty e encabeça a turma de ressentidos com a nova imagem do órgão, incomodado com a natural comparação entre tempos tão próximos. A ele se juntaram os diplomatas Sérgio Amaral, ex-porta-voz de FHC, e Rubens Barbosa, embaixador nos Estados Unidos à época em que Lafer se entregou à cerimônia do lava-pés da alfândega americana.

Também perfilado com eles está Luiz Felipe Lampreia, que odiava, com razão, ser chamado de “Lampréia”, nome de uma enguia sugadora com boca de ventosa. Isso significa que o ex-chanceler de Fernando Henrique deve estar também irritado com a reforma ortográfica, já que “lampréia” virou “lampreia” mesmo. Além de secar a gestão de Amorim, Lampreia se apresenta como “um dos 100 melhores palestrantes do Brasil” no site “palestrantes.org”. Justiça seja feita, trata-se de uma lista plural e, aparentemente, preparada a partir de parâmetros profissionais estabelecidos pelo site.

Interessante, contudo, é descobrir que Lampreia se apresenta, entre outros títulos, como membro dos conselhos consultivos de multinacionais e firmas de interesse ostensivamente americanos como Coca-Cola, Unilever, Council on Foreign Relations de Nova York, Inter-American Dialogue de Washington, e Kissinger MC Larty Associates, escritório de consultoria política montado pelo ex-secretário de Estado Henry Kissinger, primeiro chefe da comissão de investigação sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, nomeado por George W. Bush. O outro sócio, Mack MacLarty, foi chefe-de-gabinete de Bill Clinton, na Casa Branca. A banca de Kissinger e MacLarty é filiada ao Council of the Americas, uma agremiação de defesa da livre iniciativa intimamente ligada ao movimento neoliberal e neoconservador que tanto sucesso ainda faz entre tucanos e os liberais do DEM.

Fica fácil, portanto, de entender a birra de Lampreia com a política sul-sul, independente dos EUA, encabeçada por Celso Amorim. Da mesma maneira que ficou fácil entender por que, com Amorim, passamos a nos apresentar ao mundo de cabeça erguida, apesar de manchetes em contrário.

A adequação do Bolsa Família ao discurso da oposição e o refortalecimento do Estado

O PSDB apelidou o Bolsa Família de “bolsa esmola” por duas razões. A primeira, por vingança, porque “bolsa esmola” era justamente o apelido dado pelo PT ao programa “Bolsa Escola”, do governo Fernando Henrique Cardoso, que dava 15 reais por filho matriculado na escola, no limite de três por família. Atingiu, entre 2001 e 2003, cerca de cinco milhões de famílias. Era, de fato, uma merreca. A partir de 2003, o Bolsa Escola foi incorporado ao Bolsa Família, assim como outros programas assistenciais da confusa burocracia tucano-pefelista. Desde então, virou um programa de transferência de renda centralizado no Ministério do Desenvolvimento Social, condicionado à freqüência escolar e ao cuidado com a vacinação de crianças e adolescentes. Os pagamentos variam de 22 reais a 200 reais e beneficiam perto de 13 milhões de família, ou um quarto de todas as famílias brasileiras. Daí, a segunda razão do apelido: despeito.

O potencial eleitoral do Bolsa Família está intrinsecamente ligado ao poder de transferência do prestígio e da popularidade de Lula à candidata do PT, Dilma Rousseff. A oposição percebeu isso muito cedo, mas nada pôde fazer. Simplesmente, não combina com a doutrina neoliberal a intervenção do Estado de forma tão ostensiva no combate à pobreza e à miséria. Além disso, o movimento tectônico de classes sociais provocado pelas intervenções estatais na economia incomoda em demasia o establishment, trazendo para a classe média uma população até então tratada como escória pela mesmíssima classe média. Sem falar nessa história de pobre andar de avião e comprar geladeira.

De uma hora para outra, as críticas ao Bolsa Família sumiram. O emblema dessa nova postura da oposição foi a reação nervosa do candidato tucano José Serra à pergunta, feita por um repórter da TV Brasil, sobre o futuro do Bolsa Família em um eventual governo do PSDB. Desconfortável, Serra não consegue responder a essa pergunta de forma direta e convincente. Jamais vai conseguir. Confrontado, apela para o despiste, assume um comportamento rude com os repórteres e passa a responder fazendo perguntas, um expediente tão primário quanto constrangedor. Infelizmente, às vezes dá resultado: a presidente da Empresa Brasileira de Comunicação, Teresa Cruvinel, pediu desculpas (!) a Serra pela pergunta e prometeu um manual para cobertura das eleições. Eu pergunto, então, duas coisas:

1) Será vedado aos repórteres da EBC (TV Brasil, Agência Brasil e Rádio Nacional) perguntar ao candidatos sobre o Bolsa Família? Sob que argumento?

2) O que fazer com o Manual de Jornalismo da Radiobrás (atual EBC) lançado, em 12 de julho de 2006, pelo então presidente da empresa, Eugênio Bucci? Trata-se de um livro de 245 páginas construído em dois anos de trabalho com a participação de dezenas de grupos temáticos compostos por todos os funcionários da estatal. Esse manual perdeu a validade? E o protocolo de conduta da Radiobrás para eleições que ficava disponível na página da empresa na internet? Onde está?

E eu, ingênuo, pensei que José Serra é que devia desculpas ao repórter da EBC.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MARINA SOB O TAPETE

Revista Veja de 02/09/2009 -Marina sendo incensada pela mais fascista das revistas nacionais

Por Cléber Sérgio de Seixas


Soube hoje do episódio ocorrido ontem durante o lançamento da pré-candidatura do deputado federal Fernando Gabeira ao governo do estado do Rio de Janeiro (clique aqui para ler mais detalhes). Durante o evento, o nome de Marina foi apressadamente ocultado em várias faixas que estavam estendidas no local com o intuíto de se evitar um mal-estar com os partidos (PSDB, DEM e PPS) integrantes da coligação que apóia Gabeira no estado, mas que também apóia a candidatura Serra à presidência. Além disso, em nenhum momento o nobre deputado citou o nome de Marina em seu acalorado discurso, apesar de ter comparado o desempenho da coligação que o apóia com o vôo do pássaro tuiuiú. Marina foi literalmente varrida para debaixo do tapete.

Outra coisa que Gabeira tomou o cuidado de não citar é o racha que está em curso em seu partido por conta de dissidentes que não concordam com os rumos que o PV tem tomado. Reunidos em Belo Horizonte no último dia 22, dissidentes do PV, futuros integrantes do PL (Partido Livre), formalizaram seu apoio à candidatura Dilma.

Não fiquei surpreso com a notícia por considerar o PV um mero apêndice de PSDB e DEM, bastiões da direita nacional. É justo destacar que Marina tem um currículo pessoal e político respeitável, contudo, escolheu o partido errado quando decidiu deixar o PT. Se tivesse optado por qualquer partido realmente de esquerda (Pc do B, PCB, PSOL) teria sido mais fiel ao seu passado como militante de causas sociais. Sua escolha foi infeliz e destoa de seu passado. No PV ela alia-se, consciente ou inconscientemente, ao mais espúrio neoliberalismo- tal qual fez há algum tempo, por exemplo, Roberto Freire - e, na qualidade de candidata à presidência pelo PV, está meramente sendo usada para retirar votos de Dilma. Acrescente-se a isso que o programa de Marina até agora é como um samba de uma nota só, cujo acorde principal se resume ao discurso ambiental.

Dizem por aí que não há nada pior do que um ex-esquerdista. Terá Marina se convertido numa ex-esquerdista por conta de um pragmatismo à moda Carlos Lacerda, Fernando Gabeira, Roberto Freire e outras? Outra pergunta que não quer calar é a seguinte: num possível segundo turno entre Dilma e Serra, de que lado ficaria Marina?


Leia também:
- Um Questionário para Marina;
- Ato de Gabeira 'some' com Marina;
- Dissidentes acusam PV de oportunismo.

domingo, 23 de maio de 2010

ENSINA-ME, Ó CEU!

Por Cléber Sérgio de Seixas


Quando o plúmbeo céu pranteia
Derrama do infinito lágrimas de prata
Se o choro é muito a chuva mata
E o solo seca se o pranto escasseia

Olho o céu porque não sei chorar
E aprendi que o choro lava as mágoas
Tal como a chuva com suas águas
Lava o chão pro grão brotar

Ó, imenso céu! Ensina-me o segredo
De verter meu pranto qual menino
Desaguando juntos ódio e desatino
Fluindo a dor sem nenhum medo

Se a mulher que me fez chorar por dentro
Quiser ver meus olhos marejados
Ao pranto nunca acostumados
Devo mirar, agora, o firmamento

Aprendo, assim, que o choro existe
Que a lágrima oculta é loucura
Que o pranto é gêmeo da ternura
E o não chorar a dor mais triste

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METRÔ SUPRAPARTIDÁRIO

O metrô de Belo Horizonte é um túnel no fim da luz


Reproduzo abaixo um artigo publicado no jornal Estado de Minas em 23 de maio de 2010. O texto é de autoria dos deputados federais por Minas Gerais Rodrigo de Castro (PSDB), Virgílio Guimarães (PT) e Antônio Roberto (PV).

Mais do que em qualquer outro lugar no país, Belo Horizonte sofre com o adiamento, anos a fio, do sonho de contar com um metrô eficiente e estrategicamente distribuído, como plataforma essencial para a mobilidade urbana da terceira maior metrópole brasileira. Desde meados dos anos 1980, quando iniciou sua operação, e com modestíssimos soluços de crescimento nos anos 1990, o metrô pouco avançou. De lá até aqui, transporta diariamente pouco mais de 160 mil pessoas, quando já poderia estar transportando 220 mil passageiros por dia apenas com a melhoria da integração e operação plena da Estação Vilarinho, ponto mesmo assim distante da sua implementação total projetada – 800 mil usuários/dia.

O tempo passou e esta justa reivindicação da comunidade metropolitana vem se esvaindo pela descrença e frustração que atravessam diferentes governos. E, com um detalhe ainda mais incômodo: constatamos a crônica paralisia do projeto, enquanto plantas de outras capitais avançam Brasil afora, acompanhando o crescimento natural da urbanização. Não é, portanto, sem razão que, em face de sua importância, o tema esteja, mais uma vez, de volta ao topo da agenda de prioridades dos mineiros da região metropolitana, neste ano de eleições gerais, em que temos a oportunidade de revisitar os nossos grandes desafios. Sua relevância e urgência alcançam tal ordem que, pela primeira vez, o projeto ganha forte defesa suprapartidária e mobiliza importantes lideranças de diferentes partidos e bandeiras, candidaturas diversas e programas diferenciados.
Na prática, apesar da nossa militância em campos opostos, estamos convergindo para formar um vigoroso consenso político em torno da execução integral do projeto. É neste sentido que vamos, juntos, reapresentá-lo aos presidenciáveis dos nossos partidos, como demanda comum e reivindicação rediviva de toda a coletividade. Esperamos que cada um dos presidenciáveis possa examiná-lo e assumir compromissos públicos e concretos para finalmente tornar o metrô realidade em nossa cidade. A soma de esforços que se organiza em torno dessa causa, ao contrário de significar um capricho da capital dos mineiros, nada mais é do que uma ação coordenada de recuperação de um longo e exaustivo tempo perdido por desencontros, que só têm prejudicado a população.

Nosso desejo é apoiar a execução do Plano Diretor de Transporte sobre Trilhos, elaborado pela Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) para Belo Horizonte, que consiste em três linhas básicas: a linha 1, que liga a Região Norte (Estação Vilarinho) à Oeste (Estação Eldorado, no limite BH/Contagem), que já funciona atualmente, precisa de urgente adequação para aumento de capacidade; a linha 2 ligará, em superfície, o Barreiro ao Calafate e, a partir dali, segue subterrânea à Avenida Amazonas e à região hospitalar (Santa Casa/Hospital das Clínicas); a linha 3 partirá da Savassi e alcançará a Pampulha, passando pela Lagoinha, totalmente subterrânea.

Numa primeira etapa, apoiamos a proposta apresentada pelo governo do estado de Minas Gerais e pela Prefeitura de Belo Horizonte, que contou com a participação da Prefeitura de Contagem e do governo federal para, por meio de parceria com a iniciativa privada, possibilitar a execução, a médio prazo, de parte do plano diretor: 1) adequação e ampliação até o Bairro Bernardo Monteiro, em Contagem, e, no sentido Norte, até a Cidade Administrativa Tancredo Neves; 2) a construção de parte da linha 2, do Barreiro ao Calafate; 3) a construção de parte da linha 3, da Savassi à Lagoinha. Ainda faz-se necessária a extensão da ligação ao município de Betim.

A CBTU já está elaborando os projetos de engenharia necessários à execução das obras pela União. O governo do estado realizou os estudos, modelagens e concebeu um edital de licitação que possibilitam a imediata contratação de uma empresa por meio de parceria público-privada (PPP), para assumir a operação do metrô e investir nas reformulações necessárias da linha 1, inclusive com a aquisição de novos trens e sistemas eletroeletrônicos. O governo do estado será responsável pela alocação de parte dos recursos que equilibrem a equação econômico-financeira necessária à concretização dos empreendimentos. O governo federal ficará responsável pela alocação de recursos e execução das obras das linhas 2 e 3. Ademais, a iniciativa privada fornecerá os trens e sistemas necessários ao funcionamento dessas linhas.

Com a implantação das novas linhas, o metrô atenderá a demanda de transporte na região metropolitana e, em especial, a área central de Belo Horizonte e todos os principais polos de geração e atração de demanda – o Hipercentro da cidade, a região industrial, a Região Norte, a região hospitalar, a do Barro Preto (Fórum Lafaiete e confecções), a da Praça da Liberdade (cultura e lazer), a Savassi (comercial) e a Pampulha (aeroporto, universidade). Só com esta nova rede será possível promover uma grande racionalização do sistema de transporte, reduzir os congestionamentos, acidentes e a poluição atmosférica. Por isso, a proposta conta com o nosso apoio, nossa decidida solidariedade e nossas melhores esperanças. Acima do interesse dos partidos e das urnas deste ano.


Para saber mais leia:

- O OCASO DAS FERROVIAS - DO METRÔ AO APAGÃO RODOVIÁRIO;
- O OCASO DAS FERROVIAS - DO APAGÃO RODOVIÁRIO À COPA 2014;
- O METRÔ DE BH SE ARRASTA SOBRE OS TRILHOS.

sábado, 22 de maio de 2010

SOBRE A PERIFERIA

Por Cléber Sérgio de Seixas

A periferia abraça, circunscreve, cerca, ameaça e deixa apreensiva a cidade grande. É um amontoado de gente, gente sobre gente disputando espaço. Cresce desordenadamente, sobe morros, avança sobre calçadas, toma de assalto áreas comuns; constrói enquanto desconstrói. O homem da periferia não entende o porquê de tanto aperto, nem o preço salgado da terra, nem tampouco porque há tanto espaço livre, tão pouca gente no campo e tanta gente na cidade se espremendo em edificações que dariam inveja a Gaudí.

A cidade grande precisa dos braços baratos que a periferia possui em profusão. Mas a cidade grande também vomita homens, regurgita os desvalidos na periferia quando assim lhe convém, quando não os quer mais poluindo a paisagem, quando os espaços que ocupam nos guetos vão se transformar em viadutos.

O homem da periferia cansa mais indo ao trabalho do que trabalhando. Dorme no ônibus, cochila no metrô. Transportado feito gado, premido, espremido, quando não apanha para entrar no trem. As crianças da periferia não conhecem seus pais, só vultos que chegam a noite em casa depois de uma extenuante jornada laboral. A casa já não é casa, é dormitório. Diálogo com os filhos? Como, se o horário urge o descansar?

O homem da periferia vive das sobras que caem da mesa da metrópole: piores empregos, pior renda, piores serviços, piores políticos. Quando algum político vai à periferia, leva junto a escolta. Mas na qualidade de candidatos, à cata de votos, beijam e abraçam. A periferia casa-se com os projetos dos aspirantes a cargos eletivos, mas é divorciada deles tão logo os vencedores do pleito assumam os mandatos. Toda obra inaugurada na periferia precisa de multidão, massa de manobra para fazer número, dar show e sair na televisão. Novo hospital inaugurado: solenidade, fanfarra e um ou outro discurso inflamado. No dia a dia, porém, cadê o médico? Onde o clínico, o pediatra e o ortopedista?

O homem periférico planta trabalho e colhe dívidas, pois o ganho que obtém não lhe sustenta, e o desespero o leva ao agiota, para que uma dívida pague outra, pois é mais forte a máxima de que quem não deve não tem.

O homem da periferia vê TV e não se vê; e não se vendo, sonha em possuir o que não pertence a seu mundo. Ele seria mais feliz se não visse TV, pois não veria tanta coisa que não tem condições de possuir desfilando na tela diante da qual se assenta, se deita, se ajoelha. Alguns rompem o paradigma do não possuir e vão buscar o direito à posse, a ferro e fogo, do bem, do objeto, do talismã que lhes garantirá a aceitação alheia, tal como o cavalo que é apreciado pela beleza da sela que trás sobre os lombos. Vão lotar as prisões – presos por furtar pares de tênis ou de traficar para, com o ganho assim obtido, vestir roupas de marca.

A periferia da TV é poética, mas a vida na periferia real é prosa. No folhetim Global o homem de periferia se resigna, é feliz, contenta-se com o pouco que tem e sabe ficar em seu lugar. Ou, talvez, o homem que parte de baixo e atinge o topo, o self made man. Concordo que o homem periférico em carne e osso não se entrega, vai à luta e faz o que pode e o que não pode para sobreviver. A periferia não tem duas caras e não se sabe quem ali depositou a fábula cujo enredo entoa loas à convivência harmoniosa entre seus moradores. A vida no arrabalde é cobra comendo cobra, luta encarniçada por sobrevivência, por espaço, por emprego, por dignidade. A vida é dura na periferia, e pode ser tudo, menos obra de idílio. Só é exótico na periferia o que é culturalmente aproveitável. No ex ótico, contudo, é que mora o perigo: o que se come, como se dorme, como se sobrevive sem dinheiro, não se sabe.

A cultura sai da periferia, desce o morro e transborda no asfalto. Contudo o asfalto não devolve o que tomou emprestado. Eis que as vozes do morro ecoam pedindo atenção aos ouvidos: “eu sou o samba”, “eu sou o funk”, “eu sou o rap”, "eu existo". Quem ouvirá? Quem socorrerá? Quem se compadecerá?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

OS INTERESSES DO IMPÉRIO E OS NOSSOS


Por Mino Carta

Ao ler os jornalões na manhã de segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.

Entendi a mensagem. A elite brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte.

Para citar eventos recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso, postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha. O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.

Não pretendo aqui celebrar o êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é que se enrede em equívocos e desatinos.

Não há entidade, instituição, setor, capaz de representar de forma mais eficaz a elite brasileira do que a nossa mídia. Desta nata, creme do creme, ela é, de resto, o rosto explícito. E a elite brasileira fica a cada dia mais anacrônica, como a Igreja do papa Ratzinger. Recusa-se a entender que o tempo passa, ou melhor, galopa. Tudo muda, ainda que nem sempre a galope. No entanto, o partido da mídia nativa insiste nos vezos de antanho, e se arma, compacto, diante daquilo que considera risco comum. Agora, contra a continuidade de Lula por meio de Dilma.

Imaginemos o que teriam estampado os jornalões se na manhã da segunda 17, em lugar de Lula, o presidente FHC tivesse passado por Teerã? Ele, ou, se quiserem, uma neoudenista qualquer? Verifiquem os leitores as reações midiáticas à fala de Marta Suplicy a respeito de Fernando Gabeira, um dos sequestradores do embaixador dos Estados Unidos em 1969. Disse a ex-prefeita de São Paulo: por que só falam da “ex-guerrilheira” Dilma, e não dele, o sequestrador?

A pergunta é cabível, conquanto Gabeira tenha se bandeado para o outro lado enquanto Dilma está longe de se envergonhar do seu passado de resistência à ditadura, disposta a aderir a uma luta armada da qual, de fato, nunca participou ao vivo. Nada disso impede que a chamem de guerrilheira, quando não terrorista. Quanto a Gabeira, Marta não teria lhe atribuído o papel exato que de fato desempenhou, mas no sequestro esteve tão envolvido a ponto de alugar o apartamento onde o sequestrado ficaria aprisionado. E com os demais implicados foi desterrado pela ditadura.

Por que não catalogá-lo, como se faz com Dilma? Ocorre que o candidato ao governo do Rio de Janeiro perpetrou outra adesão. Ficou na oposição a Lula, primeiro alvo antes de sua candidata. Cabe outro pensamento: em qual país do mundo democrático a mídia se afinaria em torno de uma posição única ao atirar contra um único alvo? Só no Brasil, onde os profissionais do jornalismo chamam os patrões de colegas.

Até que ponto o fenômeno atual repete outros tantos do passado, ou, quem sabe, acrescenta uma pedra à construção do monumento? A verificar, no decorrer do período. Vale, contudo, anotar o comportamento dos jornalões em relação às pesquisas eleitorais. Os números do Vox Populi e da Sensus, a exibirem, na melhor das hipóteses para os neoudenistas, um empate técnico entre candidatos, somem das manchetes para ganhar algum modesto recanto das páginas internas.

Recôndito espaço. Ao mesmo tempo Lula, pela enésima vez, é condenado sem apelação ao praticar uma política exterior independente em relação aos interesses do Império. Recomenda-se cuidado: a apelação vitoriosa ameaça vir das urnas.


Fonte: revista Carta Capital - 21 de maio de 2010.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

AS DORES DE PARTO DO FICHA LIMPA


Por Cléber Sérgio de Seixas

Enfim foi votado o Ficha Limpa. O projeto prova que o engajamento da sociedade pode mobilizar os parlamentares e o Executivo a apreciar propostas de lei de iniciativa popular. Este blog tentou sempre divulgar o projeto, dando assim sua modesta contribuição.

Ontem, o Ficha Limpa deus os primeiros passos em direção ao nascedouro. É claro que foi um pouco desfigurado em prol dos interesses daqueles que o votaram, mas já se trata de um avanço num país onde campeia a impunidade de políticos que cometem delitos no exercício do cargo, beneficiando-se da condição de parlamentares ou membros do executivo para se safarem de punições legais.

É interessante dizer que em ano de eleição as coisas sempre tramitam de forma diferente, com os parlamentares tendo as urnas de outubro como norte. Assim sendo, a aprovação de um projeto tão controverso com maioria esgamadora a favor é algo típico de ano eleitoral. É possível que os efeitos do projeto sejam sentidos somente nas próximas eleições.

De qualquer forma, trata-se de uma vitória da sociedade num processo que contou com o engajamento de várias pessoas e entidades, somando mais de 1,6 milhão de assinaturas. É, indiscutivelmente, um caso emblemático da cidadania e exemplo marcante de exercício da democracia direta. É uma vitória do lobby da mobilização da opinião pública, quando sabemos que o lugar-comum no Brasil é o lobby representante de interesses empresariais.

Estão de parabéns, portanto, todos aqueles que se engajaram e lutaram para que o projeto viesse à luz após tantas dores de parto. Resta, agora, aguardar o veto ou a sanção presidencial, depois do que se iniciará a contagem de tempo para os políticos corruptos de plantão.

ORÁCULOS DA VERDADE


Por Frei Betto

O filósofo alemão Emmanuel Kant não anda muito em moda. Sobretudo por ter adotado em suas obras uma linguagem hermética. Porém, num de seus brilhantes textos – O que é o Iluminismo? – sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, se torna cada vez mais generalizado: as pessoas renunciam a pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade”: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.

Esses os guardiões da verdade, que, bondosamente, velam para não nos permitir incorrer em equívocos. Graças a seus alertas sabemos que as mortes de terroristas nas prisões made in USA de Bagdá e Guantánamo são apenas acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de prolongada greve de fome.

São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos EUA no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias com crianças e mulheres, e nos fazem encarar com horror a pretensão do Irã de fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho Israel ostenta a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária, enquanto o latifúndio, em nome do agronegócio, invade a Amazônia, desmata a floresta e utiliza mão de obra escrava.

É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh “gado doméstico”, arrebanhamento, de modo que todos aceitem, resignadamente, permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinhos.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote etc. Todos clamam “não pensem!”, “obedeçam!”, “paguem!”, “creiam!”. O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário, que, hoje, ordena ao rebanho de consumidores: “Não pensem! Gastem!”.

Tocqueville, autor de Da democracia na América (1840), opina em seu famoso livro que o tipo de despotismo que as nações democráticas deveriam temer é exatamente sua redução a “um rebanho de animais tímidos e industriosos”, livres da “preocupação de pensar”.

O velho Marx, que anda em moda por ter previsto as crises cíclicas do capitalismo, assinalou que elas decorreriam da superprodução, o que de fato ocorreu em 1929. Mas não foi o que vimos em 2008, cujos reflexos perduram. A crise atual não derivou da maximização da exploração do trabalhador, e sim da maximização da exploração dos consumidores. “Consumo, logo existo”, eis o princípio da lógica pós-moderna.

Para transformar o mundo num grande mercado, as técnicas do marketing contaram com a valiosa contribuição de Edward Bernays, duplo sobrinho estadunidense de Freud. Anna, irmã do criador da psicanálise e mãe de Bernays, era casada com o irmão de Martha, mulher de Freud. Os livros deste foram publicados pelo sobrinho nos EUA. Já em 1923, em Crystallizing public opinion, Bernays argumenta que governos e anunciantes são capazes de “arregimentar a mente (do público) como os militares o fazem com o corpo”.

Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de homogeneizar seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo por meio de uma propaganda libidinal que nele imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, tanto maior a maximização do lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.

Para se atingir esse objetivo, é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.

A inveja é estimulada no anúncio da família que tem um carro melhor que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurados por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol.

A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumir bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores.

Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Esta a verdade proclamada pelos oráculos do sistema.


Fonte: jornal Estado de Minas - 20 de maio de 2010.

terça-feira, 18 de maio de 2010

NÃO VERÁS LULA NENHUM

Por Leandro Fortes

Em linhas gerais, Luís Fernando Veríssimo disse, em artigo recente, que as gerações futuras de historiadores terão enorme dificuldade para compreender a razão de, no presente que se apresenta, um presidente da República tão popular como Luiz Inácio Lula da Silva ser alvo de uma campanha permanente de oposição e desconstrução por parte da mídia brasileira. Em suma, Veríssimo colocou em perspectiva histórica uma questão que, distante no tempo, contará com a vantagem de poder ser discutida a frio, mas nem por isso deixará de ser, talvez, o ponto de análise mais intrigante da vida política do Brasil da primeira década do século XXI.

A reação da velha mídia nativa ao acordo nuclear do Irã, costurado pelas diplomacias brasileira e turca chega a ser cômica, mas revela, antes de tudo, o despreparo da classe dirigente brasileira em interpretar o força histórica do momento e suas conseqüências para a consolidação daquilo que se anuncia, finalmente, como civilização brasileira. O claro ressentimento da velha guarda midiática com o sucesso de Lula e do ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, deixou de ser um fenômeno de ocasião, até então norteado por opções ideológicas, para descambar na inveja pura, quando não naquilo que sempre foi: um ódio de classe cada vez menos disfarçado, fruto de uma incompreensão histórica que só pode ser justificada pelo distanciamento dos donos da mídia em relação ao mundo real, e da disponibilidade quase infinita de seus jornalistas para fazer, literalmente, qualquer trabalho que lhe mandarem os chefes e patrões, na vã esperança de um dia ser igual a eles.

Assim, enquanto a imprensa mundial se dedica a decodificar as engrenagens e circunstâncias que fizeram de Lula o mais importante líder mundial desse final de década, a imprensa brasileira se debate em como destituí-lo de toda glória, de reduzi-lo a um analfabeto funcional premiado pela sorte, a um manipulador de massas movido por programas de bolsas e incentivos, a um demagogo de fala mansa que esconde pretensões autoritárias disfarçadas, aqui e ali, de boas intenções populares. Tenta, portanto, converter a verdade atual em mentiras de registro, a apagar a memória nacional sobre o presidente, como se fosse possível enganar o futuro com notícias de jornal.

Destituídos de poder e credibilidade, os barões dessa mídia decadente e anciã se lançaram nessa missão suicida quando poderiam, simplesmente, ter se dedicado a fazer bom jornalismo, crítico e construtivo. Têm dinheiro e pessoal qualificado para tal. Ao invés disso, dedicaram-se a escrever para si mesmos, a se retroalimentar de preconceitos e maledicências, a pintarem o mundo a partir da imagem projetada pela classe média brasileira, uma gente quase que integralmente iletrada e apavorada, um exército de reginas duartes prestes a ter um ataque de nervos toda vez que um negro é admitido na universidade por meio de uma cota racial.

Ainda assim, paradoxalmente, uma massa beneficiada pelo crescimento econômico, mas escrava da própria indigência intelectual.


Fonte: blog Brasília eu Vi

domingo, 16 de maio de 2010

Amansado

Minha amada esposa: a musa que inspira este e outros poemas


Por Cléber Sérgio de Seixas

Ai, menina, não me maltrates assim,
mostrando entre os cabelos a face nua -
crina negra qual noite sem lua,
encontro do ébano e o marfim!

Deixa-te ouvir a minha voz
Deixa que eu te mostre o meu canto
saturado de louvor e lamento
nesse louco instante fugaz

Não rias do meu encantamento
Nem te espantes com minha loucura
Se tua dor me conduz à penúria,
que minhas lágrimas lavem o teu pranto

Já fui grande, sou hoje pequeno
Amansado por dores infindas
Bem menor por batalhas perdidas
Mais humilde, suave e ameno

Abandono o semblante austero
e me entrego a ti como escravo,
ao calor do teu corpo tão alvo
que nas noites mais frias espero

SOMOS TODOS DESEMPREGADOS


Por João Paulo

Por muito tempo, o ideal da economia de mercado era a sociedade de pleno emprego. Em tal paraíso sociológico, as pessoas teriam autonomia, dignidade e liberdade. A remuneração garantida funcionaria como colchão ético, um estado de segurança que permitiria a cada cidadão fazer planos, pensar no futuro, não barganhar seus princípios. A consequência dessa realidade seria uma sociedade pacificada, capaz de produzir serviços de qualidade, que seriam adquiridos no mercado. No caso dos produtos ditos sociais, como saúde e educação, eles seriam fornecidos por um Estado rico em razão da própria funcionalidade da economia. Um jogo de ganhador-ganhador.

O chamado Estado de bem-estar social era herdeiro desse projeto. Capitalista na produção e socialista na distribuição, parecia trazer para seu núcleo o melhor dos dois mundos. Da mesma forma que incorporava ideologias aparentemente antagônicas – como liberalismo e igualitarismo –, o funcionamento desse modelo social colocaria no mesmo processo ferramentas típicas da democracia liberal e do socialismo. Assim, o pleno emprego só se manteria operante com forte estrutura sindical; a democracia de massas só se manteria com a liberdade de organização.

De uma hora para outra, o equilíbrio se rompeu. Antes de a chamada social-democracia surgir como solução, o emprego era quase um problema para o setor produtivo. As pessoas trabalhavam, no sistema fordista, como peças de máquina que precisavam ser vigiadas. Todas as teorias aplicadas ao campo do trabalho eram voltadas para controle, estandartização, obediência, verticalismo e reforço da autoridade. Quanto mais ditador, melhor patrão. Assim, o pleno emprego não era visto como ameaça, apenas como um estágio de maior cobrança de competência dos feitores.

A fase seguinte foi a de esgarçamento desse olhar controlador, apostando na capacidade de manifestação das pessoas, na busca de climas de cooperação, nas chamadas parcerias produtivas. Nesse tempo, falava-se em círculos de controle de qualidade, os empregados eram chamados de colaboradores, todo mundo era cliente de todo mundo. A amortização dos conflitos queria fazer crer que os interesses eram os mesmos dos dois lados do balcão: numa empresa rica, todos ganham. A mensagem de paz só era possível com o tacão da castração da liberdade de organização dos trabalhadores, ainda que por mecanismos ideológicos.

Na dinâmica da história, esse momento foi também ultrapassado com a percepção de que, no cenário da produção, o homem perdeu a centralidade. Foi o tempo do downsizing, da flexibilização das normas, da valorização da informalidade, da busca de burla da legislação trabalhista em nome de uma vicária garantia do mercado de trabalho para a maioria das pessoas. Para manter o máximo de empregos, o mínimo de garantias. O que era solidariedade entre trabalhadores se tornou competição entre indivíduos-empresas. Eu S/A.

É chegado agora, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o momento da modernidade líquida. Já não importam tanto os controles e panópticos. As funções administrativas ortodoxas se esgotam em nome de ameaça muito mais forte, porque internalizada: o medo do desemprego e da inutilidade social. O primeiro passo foi convencer parte da humanidade de que ela é desnecessária; em seguida, ameaçar a outra porção de que ela pode ser a próxima da fila. O gasto é muito menor e a eficácia bem maior. As pessoas se tornam capazes de tudo para manter seus empregos, até mesmo de deixar de ser pessoas.

Os funcionários e empregados hoje aprenderam com o que de pior a história recente do mercado de trabalho realizou no mundo ocidental. Do fordismo, herdaram a obediência rigorosa às normas e a alienação produtiva; dos círculos de controle de qualidade, o descaso com a organização sindical em nome de interesses corporativos inconfessáveis; da modernidade líquida, o comportamento beligerante com o outro, no limite da deslealdade.

Atualmente, o candidato ideal a um emprego é aquele que vende a si mesmo como produto. E que convence aos outros, que o contratam, que tem algo de novo a entregar. A obsessão pela novidade e criatividade (os chamados comportamentos inovadores), na verdade, vão na contramão do processo educativo que desenvolveu o próprio setor produtivo. Conhecimentos antigos, que exigem tempo e dedicação para se sedimentarem como comportamento moral, se tornaram inúteis. Saem os professores, entram os treinadores. A ética é o oposto da eficácia.

Quem acompanhou a escalação da Seleção Brasileira por Dunga teve um exemplo de como essa movimentação ocupa todos os setores, das empresas aos times de futebol. Dunga é um homem que expõe seus valores com desassombro: gosta de obediência, não admite opiniões contrárias, é conservador, não valoriza o passado, tem medo do futuro. Para tal comportamento, escolheu um estilo de administrar a equipe que tem como único critério o resultado e como método a tirania.

As pessoas, hoje, são pequenos Dungas, mesmo quando reclamam da falta de Ganso na Seleção: todos querem fazer parte da equipe, mesmo às custas de abrir mão da criatividade e de outros valores; aceitam se submeter a um pensamento menor para garantir a estabilidade; trocam o conhecimento pela esperteza; preferem treinadores a sábios por trás de suas decisões. Somos, nesse sentido, todos portadores do medo. Almas de desempregados.

Não é casual que no mundo corporativo, cada dia com mais poder, entrem em cena os chamados coachers, treinadores de carreira. Eles ensinam comportamentos, estratégias de ascensão, marketing pessoal e outros atributos competitivos. Quando tudo dá errado, tornam-se consultores de recolocação, profissionais que mudam o nome do desemprego para oportunidade. E se põem a vender pessoas. Os antigos sábios, guias de uma sociedade que buscava se aprimorar na herança iluminista do bom uso da razão, são hoje intelectuais desprezados pelo passadismo. Além disso, conhecimento humanista não dá dinheiro, logo não deve ser boa coisa.

A Seleção de Dunga é nosso horizonte de civilização. Nada que uma boa derrota não ajude a resolver.


Fonte: jornal Estado de Minas - 16 de maio de 2010.

MANDANTES E EXECUTORES

à esquerda, foto de Emmanuel Bezerra dos Santos, morto em 1973, encontrada nas dependências do DOPS paulista.

Por Mino Carta

Em artigo recente, o coronel Jarbas Passarinho, fiel e fluente servidor da ditadura em ocasiões diversas, escreveu que o general Ernesto Geisel, ditador de 1974 a 1979, autorizava a tortura. Houve quem se surpreendesse. Evidentemente não leu uma entrevista dada por Geisel a um pessoal do CPDoc vários anos atrás, publicada em um livraço desses que implodem criados-mudos. Ali o general dizia, imperturbável, que, “em determinadas situações”, a tortura é perfeitamente admissível.

A despeito do seu peso específico, li o tal volume e verifiquei que Geisel orgulhava-se dos progressos econômicos alcançados durante o seu reinado e pouco falava da distensão, lenta, gradual, porém segura, como se lhe atribuísse um valor secundário. Se me faltassem motivos para crer que ele fora, no exercício do poder político, um títere nas mãos de Golbery do Couto e Silva, colhia enfim a prova definitiva.

Geisel foi quem definiu o Brasil como “uma ilha de prosperidade”, logo após o primeiro Choque do Petróleo. Quem sabe a prosperidade dos moradores dos Jardins paulistanos. Esta não arrefeceu, não arrefece, e não há risco de que venha a arrefecer. Sem esquecer outras ilhas do arquipélago Brasil, bem maiores e ainda miseráveis. Inadequadas à contemporaneidade do mundo que pretendemos alcançar.

Acaba de ser lançado pela Paz e Terra o ensaio Ditadura e Repressão, de autoria do brasilianista Anthony Pereira, diretor do Brasil Kings College de Londres. A tese de Pereira: uma ditadura que conta com o suporte de um Judiciário, e realiza alguns julgamentos às claras, é mais eficaz para manter sob controle uma nação em peso. Refere-se à ditadura verde-amarela.

Entrevistado por Cynara Menezes, diz: “É impactante quando se compara o golpe de 1964 com os do Chile e da Argentina. A preocupação com a legalidade era muito maior no Brasil”. A partir desta premissa, Pereira sustenta que a ditadura brasileira foi menos cruel do que a argentina e a chilena, mas, “depois que terminou foi mais difícil de desfazer”. Pergunta Cynara: “O senhor fala de consenso entre Judiciário e militares no Brasil. A decisão do STF de duas semanas atrás, de confirmar a validade da Lei da Anistia, significa que esse consenso ainda existe?” “Responde Pereira: “Em certo grau, sim. Acho que a decisão do Supremo confirma isso”.

Toda ditadura, creio eu, age conforme as condições próprias de cada país oprimido. Ao se aceitar a comparação com Argentina e Chile, temos de levar em consideração as nossas diferenças em relação a ambos. Por exemplo, os índices precipitados pelo monstruoso desequilíbrio social brasileiro colocam argentinos e chilenos muito à nossa frente em termos de consciência política, educação e civilidade. Tanto Argentina quanto Chile têm, por exemplo, taxas de analfabetismo baixíssimas. Lembrete: vendem-se mais livros em Buenos Aires do que no Brasil todo.

No caso do Chile, em 1973 estava no poder um líder de declarada fé socialista, Salvador Allende. No Brasil, em 1964, não havia qualquer ameaça de levante de esquerda, embora um ou outro político estivesse empenhado em definir uma política desatrelada das conveniências e vontades de Washington. No mais, inconsistente, e até vergonhosa para quem a defende, a ideia da “ditabranda” verde-amarela. A qual, permitam-me os privilegiados nativos e o brasilianista Pereira, seria tão cruel quanto as outras se preciso fosse.

Aqui os janízaros da ditadura esmeraram-se em tortura, e não é por acaso que remetemos os nossos especialistas no ramo para os países vizinhos, na qualidade de mestres insuperáveis. Não esqueço o filme de Costa-Gavras, Missing, que assisti na Europa: nas entranhas do estádio de Santiago, os torturadores falam em português da rua Tutoia, ou da Barão de Mesquita. Obviamente, estas cenas no Brasil os censores cuidaram de cortar.

Já que no País os assassinados pela repressão ficam em torno de 300, enquanto foram 30 mil na Argentina e em vasto número ainda não definido no Chile, li, servido o prato de formas variadas, que a dita foi quase suave. Campeão neste torneio o Uruguai, com 3 mil mortos. Infame campeonato.

E chego ao ponto. A imposição de uma legalidade inviável, observada pelo brasilianista Pereira, é o espelho e o estandarte da hipocrisia dos privilegiados à moda pátria, fardados e à paisana. Demonstração da aliança inescapável, da desfaçatez sem limites. Do faz de conta da eterna conciliação da minoria apresentada como se a nação toda a invocasse.
Na noite de quarta 12, o governo enviou ao Congresso novo projeto de lei que estabelece a criação da Comissão da Verdade, incumbida de analisar “graves violações dos direitos humanos” cometidas entre 1946 e 1988. Mas não se tratava do período que vai de 64 a 85?

Foi então que a repressão política, expressão banida deste novo projeto, atentou gravemente contra os direitos humanos por meio de anspeçadas bem treinados. Mas não há, no caso, bala perdida. Mesmo porque as ordens vinham de cima. Por exemplo, do general Ernesto Geisel.


Fonte: revista Carta Capital

quinta-feira, 13 de maio de 2010

SELEÇÃO BRASILEIRA: DE JOÃO "SEM MEDO" AO ANÃO DUNGA


Por Cléber Sérgio de Seixas

Não é de minha geração e creio que tampouco será da maioria dos que lerem este artigo, mas há cerca de 40 anos, no dia 13 de março de 1970 para ser mais exato, João Saldanha era demitido do cargo de técnico da seleção brasileira de futebol. Saldanha fora notificado da demissão pelo então presidente da CBD - atual CBF -, João Havelange. Faltavam poucos meses para a Copa do mundo e o time das 11 feras já estava montado.

Surge, então, a figura do ditador de plantão, Garrastazu Médici. Em uma entrevista a Armando Nogueira, falecido este ano, o presidente da república teria dito que gostava de Dario e queria vê-lo no ataque da seleção no lugar de Tostão, que no ano anterior tinha sofrido um descolamento de retina e se recuperava do trauma. Rumores vão, rumores vêem e eis que um dia, durante uma entrevista, indagado sobre a possível escalação de Dario, Saldanha responde:
- Olha: o presidente escala o ministério dele e eu escalo o meu time.
É hoje público e notório que a ditadura militar utilizou a participação do selecionado brasileiro na Copa do Mundo de 1970 como oportunidade para propagandear o regime. De uma hora para outra o presidente se converteu no torcedor número 1 do país, indo aos jogos freqüentemente. Era uma estratégia para cooptar o patriotismo dos brasileiros e ao mesmo tempo distraí-los com pão e circo futebolísticos enquanto atrocidades aconteciam nos porões do regime.

O técnico de quem muitos zombavam dizendo que tinha cara de cavalo, era curto e grosso e nunca gostou de levar desaforo para casa, o que justificava seu apelido de João “Sem Medo”. Para desgosto dos milicos de plantão, era membro do Partido Comunista Brasileiro. Persona non grata, Saldanha seria uma pedra no sapato dos militares se retornasse do México com a Jules Rimet em mãos - seu cacife poderia torná-lo um porta-voz dos contrários ao regime linha dura dos militares. Costumava afirmar que a imprensa era corrupta e tinha rabo preso com a ditadura. Acabou pagando caro por esta e por outras declarações.

O comando das “feras” de Saldanha seria repassado a Mário Jorge Lobo Zagallo, que preferiu manter Tostão no ataque e, talvez receoso de peitar um general de cinco estrelas, convocou Dario. No entanto, o atacante que costumava dizer que parava no ar ficou parado no banco durante toda a Copa. O resto todos conhecem: aquela seleção entraria para a história com a melhor de todos os tempos.

Damos um salto de 40 anos e encontramos um treinador sendo rechaçado, quase em uníssono, pela grande imprensa (vulgo Partido da Imprensa Golpista - PIG) por sua escalação da seleção brasileira de futebol. As escolhas heterodoxas do treinador gaúcho, cujo nome evoca uma personagem de histórias infantis, têm despertado a fúria de uma imprensa sempre afeita a impor suas escolhas e fazer lobbies sob os quais se escondem os mais escusos interesses. Por falar em escuso, não sei se os leitores perceberam que ao passo que Robinho desfila em vários comerciais televisivos, não vimos nenhuma propaganda protagonizada por Ronaldinho Gaúcho ou Adriano. Será que as mentes brilhantes do marketing já sabiam que os supracitados não seriam escalados e que o franzino Robinho seria a bola da vez?

Dunga sempre jogou um futebol duro e objetivo, em detrimento do que muitos chamam de “futebol arte”. A cara de poucos amigos e a liderança em campo lhe renderam a braçadeira de capitão durante a copa de 1994 – um tetracampeonato conquistado sem brilho nas cobranças de pênaltis. Seu espírito aguerrido deu nome a uma nova era na história da seleção brasileira: a “Era Dunga”. Enquanto seleções como a de 1982, que encantou mas não trouxe a taça, primaram pelo futebol arte, a de 1994 caracterizou-se pela força e pela objetividade. Dunga tornou-se o maior expoente dessa geração. Com seu cabelo espetado estilo bad boy e sua tenacidade em campo, protagonizou momentos polêmicos na carreira. Um deles foi quando deu uma cabeçada em Bebeto em pleno campo na Copa de 1998. Após a vergonhosa derrota da seleção no mundial de 2006, o comando do escrete verde e amarelo foi retirado das mãos do inexpressivo Parreira e entregue a Dunga. De lá pra cá foram várias conquistas sob a batuta do maestro carrancudo, dentre as quais convém salientar a Copa América em 2007 e a Copa das Confederações no ano passado.

Apesar de tal cabedal de conquistas, Dunga despertou o furor da imprensa com sua recente escalação da seleção que deixou de fora campeões do Paulistão como Ganso e Neimar, queridinhos do povão como Ronaldinho Gaúcho, além de escolhas aparentemente óbvias como Adriano do Flamengo. Por não terem primeiro perguntado aos barões midiáticos quais jogadores deveriam ter sido escalados, Dunga e Jorginho são execrados diariamente pelos noticiários. O Jornal da Band de terça-feira (11/05) dedicou até um editorial sobre o assunto. Hoje no jornal Estado de Minas o colunista Jaeci Carvalho, num texto cujo título é “Os Ditadores”, soltou as seguintes pérolas: “Os dois têm comportamento ditatorial ao extremo. Ufanistas, não aceitam críticas de ninguém”, “Não vejo no grupo de Dunga alguém com essa capacidade (futebol-arte e genialidade). Digo time de Dunga porque tem a cara dele, com o feio futebol que tanto adora” e para completar “...ganhando ou perdendo, vão continuar a ser figuras execradas pelos amantes do futebol-arte. Vou vibrar se houver um jogo que me encante ou um jogador como Zidane, que nos deu uma aula de bola em 2006, em Frankfurt”. Vejam que o nobre colunista do EM diz nas entrelinhas que vai torcer contra.

Doravante pode-se esperar toda sorte de ataques e baixarias. Se trouxerem a taça, dirão que foi sem brilho. Se perderem, dirão que foi em virtude dos equívocos na escalação e pela falta dos craques do futebol-arte. Qualquer que seja o resultado, não deixarão Dunga crescer. Condenalo-ão a ser sempre um anão, desprovido da alta estatura que é conferida somente aos sabujos da grande imprensa. Seu destino será o ostracismo a que relegaram Saldanha e tantos outros que ousaram peitar o quarto poder e seus asseclas.

Não sei se vocês leitores dão ouvidos a teorias de conspiração. Eu não costumo dar – mesmo assim muitas se revelaram reais -, mas acredito que a imprensa torce para que a seleção saia derrotada, pois uma derrota da seleção na pátria de chuteiras é também uma derrota da nação, e uma derrota da nação enfraquece o presidente, e um presidente enfraquecido não elege seu sucessor e assim por diante. Já ouviram falar que futebol e política não se misturam? Ledo engano. Se misturam sim e dão um bom guisado. Por falar em guisado, a seleção vai sem pato e sem ganso. Assim sendo pergunto: será que vai ter frango?