domingo, 31 de janeiro de 2010

INSTANTÂNEOS HISTÓRICOS


A partir de hoje, este blog contará com mais uma seção. Trata-se da seção "Fatos e Fotos", localizada no lado direito, logo abaixo da seção "Cantinho You Tube". A cada semana a nova seção trará uma foto que tenha retratado algum fato histórico. Para inaugurar, uma das mais famosas fotos da Guerra do Vietnam. Prestigiem!

O FATOR MST


Por Leandro Fortes

A prisão de nove lideranças do MST, no interior de São Paulo, algumas das quais filiadas ao PT, foi o ponto de partida de uma estratégia eleitoral virtualmente criminosa e extremamente profissional, embora carente de originalidade. Trata-se de perseguição organizada, de inspiração claramente fascista, de líderes de um movimento que diz respeito à vida e ao futuro de milhões de brasileiros, que revela mais do que o uso rasteiro da política. Revela um tipo de crueldade social que se imaginava restrita a políticos do Brasil arcaico, perdidos nos poucos grotões onde ainda vivem, isolados em seus feudos de miséria, uns poucos coronéis distantes dos bons modos da civilização e da modernidade.

No entanto, o rico interior paulista, repleto de terras devolutas da União griladas por diversas gerações de amigos do rei, tem sido um front permanente dessa guerra patrocinada pela extrema direita brasileira perfilada hoje, mais do que nunca, por trás da bela fachada do agronegócio e sua propalada importância para a balança comercial brasileira. Falar-lhes mal passou a ser de mau alvitre, um insulto a uma espécie de cruzada dourada cujo efeito colateral tem sido a produção de miséria e cadáveres no campo e, por extensão, nas cidades. É nosso mais grave problema social e o mais claramente diagnosticável, mas nem Lula chegou a tanto.

Assim, na virada de seu último ano de mandato, o presidente parece ter afrouxado o controle sobre a aliança política que lhe permitiu colocar, às custas de não poucos danos, algumas raposas dentro do galinheiro do Planalto. Bastou a revelação do pacote de intenções do Plano Nacional de Direitos Humanos, contudo, para as raposas arreganharem os dentes sem medo, fortalecidos pela hesitação de Lula em enquadrá-los sob o pretexto de evitar crises inevitáveis. A reação do ministro Nelson Jobim, da Defesa, ao PNDH-3, nesse sentido, foi emblemática e, ao mesmo tempo, reveladora da artificialidade dessa convivência entre forças conservadoras e progressistas dentro do governo do PT, um nó político-ideológico a ser desatado durante a campanha eleitoral, não sem traumas para a candidata de Lula, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil.

Com a ajuda de Jobim, a velha sanfona anticomunista voltou a soltar os foles e se engajou nesse desarranjo histórico que tem gerado crises artificiais e um consequente show de péssimo jornalismo. Tocou-se, então, o triste baião anti-Dilma das vivandeiras, a arrastar os pés nas portas dos quartéis e a atiçar as sentinelas com assombros de revanchismo e caça às bruxas, saudosos do obscurantismo de tempos idos – mas, teimosamente, nunca esquecidos –, quando bastava soltar bestas-feras fardadas sobre a sociedade para calá-la. Ao sucumbir à chantagem de Jobim e, por extensão, à dos comandantes militares que lhe devem subordinação e obediência, Lula piscou.

No lastro da falsa crise militar criada por Jobim, com o auxílio luxuoso de jornalistas amigos, foi a vez de soltar a voz o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, cujo arrivismo político iniciou-se na ditadura militar, à qual serviu como deputado da Arena (célula-tronco do DEM) e presidente do INPS no governo do general Ernesto Geisel, até fazer carreira de ministro nos governos Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula. Essa volatilidade, no entanto, sempre foi justificada por conta de um festejado “perfil técnico” de Stephanes. Trata-se de um mistério ainda a ser desvendado, não a capacidade técnica, mas as intenções de um representante político do agronegócio dentro governo Lula, uma posição institucional baseada em alinhamento incondicional à Confederação Nacional da Agricultura (CNA), comandada pelo senadora Kátia Abreu, do DEM de Tocantins.

Com Kátia, Stephanes ensaiou um animado jogral e conseguiu, até agora, boicotar a mudança dos índices de produtividade agrícola para fins de reforma agrária – um tiro certeiro no peito do latifúndio, infelizmente, ainda hoje não desferido por Lula. Depois, a dupla partiu para cima do PNDH-3, ambos procupadíssimos com a possibilidade de criação de comitês sociais a serem montados para mediar conflitos agrários deflagrados por ocupações de terra. Os ruralistas liderados por Kátia Abreu e Ronaldo Caiado se arrepiam só de imaginar o fim da tradicional política de reintegração de posse, tocada pelos judiciários e polícias estaduais, como no caso relatado nesta matéria de CartaCapital. A dupla viu na proposta um incentivo à violência no campo, quando veria justamente o contrário qualquer menino bem educado nas escolas geridas pelo MST. São meninos crescidos o suficiente para saber muito bem a diferença entre mediadores de verdade e os cassetetes da Polícia Militar.

O governo Lula já havia conseguido, em 2008, neutralizar um movimento interno, tocado pelo Gabinete de Segurança Institucional, interessado em criminalizar o MST taxando o ato de invasão de terra de ação terrorista. Infelizmente, coisas assimainda vêm da área militar. O texto do projeto foi engavetado pela Casa Civil por obra e graça da ministra Dilma Rousseff. Lula, contudo, não quer gastar o último ano de uma era pessoal memorável comprando briga com uma turma que, entre outros trunfos, tem uma bancada de mais de uma centena de congressistas e a simpatia declarada do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes. Assim, distraído, o presidente deixou que Jobim e Stephanes envenenassem o processo político às vésperas das eleições, com óbvios prejuízos para a candidatura Dilma, bem no começo da briga com José Serra, do PSDB, o governador que por ora se ocupa em prender militantes do MST e do PT enquanto toca terror em assentamentos cheios de mulheres e crianças, no interior de São Paulo, com seu aparato de segurança pública.

O MST existe há 25 anos e é o mais importante movimento social de base da história do Brasil. A crítica à sua concepção socialista e a eventuais desvios de conduta de alguns de seus participantes é, deliberadamente, ultradimensionada no noticiário para passar à sociedade, sobretudo à dos centros urbanos, a impressão de que seus militantes são vândalos nutridos pelo comunismo e outras reflexões sociológicas geniais do gênero.

A luta do MST é, basicamente, a luta contra o latifúndio e a concentração fundiária nas mãos de uma elite predatória, violenta e vingativa. Essa é a origem de todos os problemas da sociedade brasileira desde a sua fundação, baseada em capitanias hereditárias, em 1532. Nenhum governo teve a coragem necessária, até hoje, para tomar medidas efetivas para acabar com o latifúndio e, assim, encerrar com esse ciclo cruel de concentração de terras no campo brasileiro, responsável pelo inchaço das periferias e pela violência contra trabalhadores rurais, inclusive torturas e assassinatos, com o periódico beneplácito da Justiça e das autoridades constituídas, muitas das quais com campanhas eleitorais financiadas pelos grupos interessados em manter este estado de coisas.

A luta contra o latifúndio não é a luta contra a propriedade privada, essa relação também foi contruída de forma deliberada e tem como objetivo tirar o verdadeiro foco da questão. A construção desse discurso revelou-se um sofisma baseado na a inversão dos valores em jogo, como em uma charada de um mundo bizarro: a ameaça social seria a invasão (na verdade, a distribuição) de terras, e não a concentração no campo, o latifúndio. E isso é vendido, assim, cru, no horário nobre.

É uma briga dura, difícil. Veremos se Dilma Rousseff, em cima do palanque, será capaz de comprá-la de novo.


Fonte: Blog do Leandro Fortes

A MÍDIA FAZENDO MÉDIA

Caso Nardoni: Mídia põe o carro na frente dos bois

Por Cléber Sérgio de Seixas

Etimologicamente podemos falar em mídia como plural latino de medium, ou seja, meio, instrumento, canal. O termo mídia pode ser definido como o conjunto de instituições que utiliza tecnologias específicas para promover a comunicação humana. Entendemos hoje por mídia a reunião dos veículos envolvidos no que chamamos de comunicação de massa, ou seja, jornais, emissoras de rádio e de televisão, cinema e Internet. Como a comunicação é intermediada por aparatos tecnológicos, podemos falar de uma comunicação “midiatizada”, caracterizada, sobretudo, pela unidirecionalidade.

Uma das ferramentas da mídia, à qual gostaria de me ater neste artigo, é o jornalismo. Considero ser uma das falhas do jornalismo atual a cobertura sensacionalista dos fatos, sem a devida contextualização, com maior interesse em chocar, garantir audiência, do que em informar. Qual deve ser o papel da imprensa jornalística atualmente? O jornalista Luís Nassif, em sua obra O Jornalismo dos Anos 90, coloca a questão da seguinte maneira: “Este é o grande dilema da imprensa de opinião no século 21: atender às expectativas imediatas do seu leitor ou ser uma guardiã dos valores da civilização? Se o leitor pede linchamento, ele lhe será oferecido? Como definir as relações com o público, sabendo-se participante do jogo de mercado, dependendo da tiragem para se viabilizar economicamente? Como impedir que o jornalismo de opinião, instituição essencial para todo país, não se contamine definitivamente com o espetáculo, tornando o jornalismo um “reality show” diário e, ao mesmo tempo, não se torne maçante, a ponto de ser apreciado só por meia dúzia de eleitos?”. Em matéria de jornalismo, a palavra de ordem nos dias atuais tem sido basicamente entretenimento.

O caso Nardoni foi uma prova cabal de que o noticiário sempre opta pela cobertura folhetinesca dos fatos. Da prisão do casal até o que eles jantaram na noite anterior, passando pela descrição meticulosa da cela onde ficaram encarcerados, tudo se transformou em espetáculo para garantir audiência, com direito a leitura labial do pai suspeito. Do “show midiático” em que se converteu a cobertura do drama da menina Izabella, gostaria de tirar duas lições.

A primeira delas é que a mídia é seletiva com os fatos. No mesmo dia em que Izabella foi morta, uma menina pobre de Brasília foi violentada e assassinada. O caso praticamente não foi veiculado pela imprensa. No Brasil milhares de crianças já foram mutiladas, estupradas, abandonadas e mortas desde o dia em que a menina de classe média alta foi jogada da janela, mas nenhum dos casos mereceu cobertura semelhante por parte da grande imprensa. Não fosse a cobertura cerrada da mídia nem a condição social da menina Izabella, o caso não mereceria o mesmo empenho investigativo, com as autoridades utilizando o que há de mais moderno em termos de prática forense. Cada um de nós, leitores, ouvintes e telescpectadores, deve refletir sobre o porquê da seletividade midiática e fazer a clássica indagação: a quem interessa?

A segunda lição, mais importante que a primeira, é a capacidade que a mídia possui de mobilizar as massas conforme o enfoque que dá aos fatos. A forma como o caso Nardoni foi apresentado pela imprensa induziu as pessoas à conclusão precipitada de que os pais da menina realmente fossem os algozes, mesmo antes de qualquer julgamento formal, contrariando o princípio de presunção de inocência, isto é, in dubio pro reo. Multidões fizeram vigília nas proximidades do endereço do casal Nardoni para hostilizá-lo. A capacidade da mídia de mobilizar corações e mentes é tamanha que em 2008 muitos brasileiros foram se vacinar sem nenhuma necessidade, induzidos pelo alardeamento midiático de uma suposta epidemia de febre amarela. As filas dobravam esquinas nos postos de vacinação e houve até quem veio a óbito por overdose de vacina. A pseudo-epidemia foi criada por interesses obscuros de nossa grande imprensa marrom. Já no ano passado, muitos chegaram a utilizar máscaras em locais públicos e o pânico se alastrou diante da possibilidade de uma epidemia de gripe suína (clique aqui e aqui para ler o que escrevi sobre a Gripe do PIG). O poder da mídia é tal que podemos dizer que se Montesquieu ainda estivesse entre nós, certamente incluiria o poder midiático na tríade dos poderes das assim chamadas sociedades democráticas, totalizando quatro ao invés de somente os já conhecidos executivo, legislativo e judiciário.

Atualmente a mídia e a propaganda estão, basicamente, a serviço de grandes empresas e governos, e ainda persiste entre alguns desavisados ou mal intencionados a confusão entre liberdade de imprensa e liberdade de empresa. No entanto, houve tempos em que o Estado era senhor absoluto dos meios de comunicação. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda e Informação, isto é, marketeiro do III Reich, certa vez disse que uma grande mentira repetida várias vezes, se transforma numa grande verdade. Apesar de a Alemanha ser um país desenvolvido e com uma das populações mais instruídas da Europa, isso não impediu que seus cidadãos fossem manipulados pela máquina de propaganda nazista, com a qual prontamente colaboraram naquilo que veio a ser um dos maiores genocídios da humanidade: o Holocausto de mais de 6 milhões de judeus. Se na instruída Alemanha dos anos 40, uma nação quase inteira foi induzida ao ódio aos judeus pelos meios de comunicação estatais, que será de nós brasileiros, com nossa mídia tendenciosa e nossos milhões de analfabetos funcionais?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

UM QUESTIONÁRIO PARA MARINA


Por Emir Sader

1. Com o acordo de Gabeira com os tucanos e demos no Rio, tua candidatura pode ser definitivamente considerada como pertencente a esse bloco de direita?

2. Quais os pontos essenciais da sua plataforma para o Brasil ou será apenas uma plataforma ecológica?

3. Considera que a ecologia pode ser o centro de uma plataforma geral para o Brasil?

4. Que tipo de política econômica seu governo teria?

5. O que aconteceria com o PAC? E com o Bolsa Familia?

6. Que modificações introduziria na política internacional do Brasil?

7. Quais seriam seus principais ministros? O de Meio Ambiente seria Zequinha Sarney, que ocupou esse cargo no governo FHC e pertence ao teu novo partido?

8. Se não passar para o segundo turno, apoiaria a Dilma ou Serra? Ou daria como tudo igual e ficaria com a abstenção?

9. Tuas posições a favor do criacionismo, contra o aborto, entre outras, de fundamento religioso, de que forma seriam implementadas em um governo em que você fosse a presidente?

10. Seria a favor do ensino religioso nas escolas públicas? Seria orientada por qual das religiões?

11. O fato de ter um grande empresário privado como vice-presidente, ao invés de alguém vinculado aos movimentos sociais, que significado tem?


Fonte: Blog do Emir


Nota do Blog: Sempre admirei muito Marina Silva, sobretudo por seu passado de militância pelas causas ambientais e por ser "cria" de Chico Mendes. Contudo, ela escolheu o partido errado. O PV é apenas uma sombra do PSDB e do DEM. No PV ela terá que fazer um ajustamento ideológico e, uma vez ocupando a presidência da república, seu governo teria que adequar-se às convicções da direita mais retrógrada do país. Estranhei muito quando ela apareceu nas páginas amarelas da revista Veja sendo incensada pela mais fascista das publicações nacionais. É por essas e outras que Marina não terá meu voto. Se ela tivesse escolhido o PDT, o PSOL o Pc do B, o PCB ou quaisquer outros partidos de esquerda, com certeza eu cogitaria votar nela. Mas no partido de Gabeira e asseclas, sem chance.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O HAITI EXISTE?

O Haiti segundo o Google Maps (clique para ampliar)

Por Frei Betto

Interessados em exibir na Europa uma coleção de animais exóticos, no início do século 19, dois franceses, os irmãos Edouard e Jules Verreaux, viajaram à África do Sul. A fotografia ainda não havia sido inventada, e a única maneira de saciar a curiosidade do público era, além do desenho e da pintura, a taxidermia, empalhar animais mortos, ou levá-los vivos aos zoológicos.

No museu da família Verreaux os visitantes apreciavam girafas, elefantes, macacos e rinocerontes. Para ela, não poderia faltar um negro. Os irmãos aplicaram a taxidermia ao cadáver de um e o expuseram, de pé, numa vitrine de Paris; tinha uma lança numa das mãos e um escudo na outra.

Ao falir o museu, os Verreaux venderam a coleção. Francesc Darder, veterinário catalão, primeiro diretor do zoológico de Barcelona, arrematou parte do acervo, incluído o africano. Em 1916, abriu seu próprio museu em Banyoles, na Espanha.

Em 1991, o médico haitiano Alphonse Arcelin visitou o Museu Darder. O negro reconheceu o negro. Pela primeira vez, aquele morto mereceu compaixão. Indignado, Arcelin pôs a boca no mundo, às vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. Conclamou os países africanos a sabotarem o evento. O proprio Comitê Olímpico interveio para que o cadáver fosse retirado do museu.

Terminadas as Olimpíadas, a população de Banyoles voltou ao tema. Muitos insistiam que a cidade não deveria abrir mão de uma tradicional peça de seu patrimônio cultural. Arcelin mobilizou governos de países africanos, a Organização para a Unidade Africana, e até Kofi Annan, então secretário-geral da ONU. Vendo-se em palpos de aranha, o governo Aznar dediciu devolver o morto à sua terra de origem. O negro foi descatalogado como peça de museu e, enfim, reconhecido em sua condição humana. Mereceu enterro condigno em Botsuana.

Em meus tempos de revista Realidade, nos anos 60, escandalizou o Brasil a reportagem de capa que trazia, como título, “O Piauí existe”. Foi uma forma de chamar a atenção dos brasileiros para o mais pobre estado do Brasil, ignorado pelo poder e pela opinião públicos.

O terremoto que arruinou o Haiti nos induz à pergunta: o Haiti existe? Hoje, sim. Mas e antes de ser arruinado pelo terremoto? Quem se importava com a miséria daquele país? Quem se perguntava por que o Brasil enviou para lá tropas a pedido da ONU? E agora será que a catástrofe – a mais terrível que presencio ao longo da vida – é mera culpa dos desarranjos da natureza? Ou de Deus, que se mantém silencioso frente ao drama de milhares de mortos, feridos e desamparados?

Colonizado por espanhóis e franceses, o Haiti conquistou sua independência em 1804, o que lhe custou um duro castigo: os escravagistas europeus e estadunidenses o mantiveram sob bloqueio comercial durante 60 anos.

Na segunda metade do século 19 e início do 20, o Haiti teve 20 governantes, dos quais 16 foram depostos ou assassinados. De 1915 a 1934 os EUA ocuparam o Haiti. Em 1957, o médico François Duvalier, conhecido como Papa Doc, elegeu-se presidente, instalou uma cruel ditadura apoiada pelos tonton macoutes (bichos-papões) e pelos EUA. A partir de 1964, ele se tornou presidente vitalício... Ao morrer em 1971, foi sucedido por seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que governou até 1986, quando se refugiou na França.

O Haiti foi invadido pela França em 1869; pela Espanha em 1871; pela Inglaterra em 1877; pelos EUA em 1914 e em 1915, permanecendo até 1934; pelos EUA, de novo, em 1969.

As primeiras eleições democráticas ocorreram em 1990; elegeu-se o padre Jean-Bertrand Aristide, cujo governo foi decepcionante. Deposto em 1991 pelos militares, refugiou-se nos EUA. Retornou ao poder em 1994 e, em 2004, acusado de corrupção e conivência com Washington, exilou-se na África do Sul. Embora presidido hoje por René Préval, o Haiti é mantido sob intervenção da ONU e agora ocupado, de fato, por tropas usamericanas.

Para o Ocidente “civilizado e cristão”, o Haiti sempre foi um negro inerte na vitrine, empalhado em sua própria miséria. Por isso, a mídia do branco exibe, pela primeira vez, os corpos destroçados pelo terremoto. Ninguém viu, por TV ou fotos, algo semelhante na Nova Orleans destruída pelo furacão ou no Iraque atingido pelas bombas. Nem mesmo depois da passagem do tsunami na Indonésia.

Agora, o Haiti pesa em nossa consciência, fere nossa sensibilidade, arranca-nos lágrimas de compaixão, desafia a nossa impotência. Porque sabemos que se arruinou, não apenas por causa do terremoto, mas sobretudo pelo descaso de nossa dessolidariedade.

Outros países sofrem abalos sísmicos e nem por isso destroços e vítimas são tantos. Ao Haiti enviamos “missões de paz”, tropas de intervenção, ajudas humanitárias; jamais projetos de desenvolvimento sustentável.

Findas as ações emergenciais, quem haverá de reconhecer o Haiti como nação soberana, independente, com direito à sua autodeterminação? Quem abraçará o exemplo da dra. Zilda Arns, de ensinar o povo a ser sujeito multiplicador e emancipador de sua própria história?

Fonte: caderno de cultura do jornal Estado de Minas - 28/01/2010

O PASSADO NÃO CONSEGUE PASSAR

1º Ato - Marcha da Família com Deus pela Liberdade - Deus não foi convidado


Por Luiz Gonzaga Belluzzo

Em 17 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos afirmava “que o desprezo e o desrespeito pelos Direitos Humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homen comum. É essencial que os Direitos Humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão”.

Em 2008, escrevi um artigo para celebrar os 60 anos da Declaração. Naquela ocasião, percebi claramente que os fantasmas dos traumas nascidos das experiências totalitárias dos anos 30 assombram suas linhas e entrelinhas. Por isso, a declaração afirmava que toda a pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público, no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. Ninguem poderá ser inculpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.

É considerada intolerável a interferência na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, (e, atenção!) nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques. O cidadão (note o leitor, o cidadão) tem direito à liberdade de opinião e de expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações por quaisquer meios e independente de fronteiras.

Todos têm direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistências especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social. A instrução é um direito de todos e ela será gratuita pelo menos nos graus elementares e fundamentais. O artigo 17 é dedicado a Bush Filho: “Toda pessoa terá direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados”.

Na Europa dos séculos XIX e XX, a consciência dos direitos moveu a luta dos subalternos e transformou o Estado numa instância de “totalização das relações sociais”. Suas intervenções realizam a mediação entre as classes e entre os membros individuais das diferentes classes. O avanço da “totalização das relações sociais” pode ser avaliado de forma mais clara pelo grau de independência adquirido pelas instâncias do poder público e da política diante do poder material da camada dominante. Os sitemas de proteção aos Direitos Humanos nos países mais avançados da Europa assumem que há, sim, contradição entre as exigências de impessoalidade e publicidade dos atos praticados pela autoridade, regulados pela lei abstrata e universal e o exercício do poder real pelas camadas economicamente mais poderosas.

A Declaração dos Direitos Humanos, na esteira do pensamento liberal e progressista dos séculos XIX e XX, imaginou que a igualdade e a diferença seriam indissociáveis na sociedade moderna e deveriam subsistir reconciliadas, sob as leis de um Estado Ético. Esse Estado permitiria ao cidadão preservar sua diferença em relação aos outros e, ao mesmo tempo, harmonizá-la entre si, manter a integridade do todo. Mas as transformações econômicas das sociedades modernas suscitaram o bloqueio das tentativas de impor o Estado Ético e reforçaram, na verdade, a fragmentação e o individualismo agressivo. Assim, a “ética” contemporânea não é capaz de resistir à degradação das propostas coletivas.

O século XXI completou uma década e o Brasil ainda não conseguiu acertar contas com o passado. O passado não passa, lança suas sombras sobre o presente e projeta maus agouros para o futuro. As reações à publicação do decreto dos Direitos Humanos lançaram no ar os odores da famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade e suas consequências funestas. Sob essas consignas – Deus, Família e Liberdade – os beleguins da ditadura assassinaram religiosos, invadiram os lares de muitos brasileiros que dissentiam, desarmados, aos atropelos da exceção. Para garantir a liberdade de expressão degradaram (algumas) redações com censores de ornamentos culturais que iam do grotesco ao obsceno.

Digo acertar as contas sem ranço revanchista nem propósitos de revigorar a Lei de Talião, mas de abrir aos brasileiros de todas as gerações as portas da verdade. Não entenda o leitor que vamos encontrá-la apenas cavoucando as masmorras da ditadura, indagando os paus de arara, ou até mesmo desencavando e publicando os arquivos da repressão política (vou insistir: da repressão política). A verdade vai chegar a nós na discussão, sem receios nem interdições, acerca das razões e das circunstâncias históricas e sociais que levaram o País a sucumbir diante da inescrupulosa e oportunista violação dos princípios da vida democrática e do Estado de Direito.

Nos anos 60, às vésperas do famigerado golpe de Estado de 1964, surgiu um slogan premonitório: “Basta de intermediários, Lincoln Gordon para presidente”. Gordon era o embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Conspirava abertamente com as “forças democráticas” nativas, aquelas que estão permanentemente arquitetando a supressão da democracia. Da conspiração participavam naturalmente os homens de bem, os mesmos que hoje se arvoram em defensores intransigentes da democracia e do Estado de Direito. Nada mais inconveniente para essa turma do que uma Comissão da Verdade.

2º Ato - Tortura e morte (na foto, Joaquim Seixas, mais uma das várias vítimas da ditadura militar brasileira)

O silêncio devotado e cúmplice de muitos protagonistas dos anos de escuridão denuncia a falsidade de suas juras de amor pelos princípios que dizem defender. Não por acaso, depois de 25 anos de vida democrática, as garantias individuais somadas aos direitos econômicos ainda sofrem os ataques e achaques das forças do poder real e mal conseguem sair dos códigos para ganhar vida do povaréu, cotidianamente massacrado pelos abusos dos senhoritos da “ordem” e seus sequazes. Os mais furiosos se apresentam como “humanos direitos”, em contraposição aos defensores dos “direitos humanos”. Fico a imaginar como seria a vida dos humanos direitos na moderna sociedade capitalista de massas, crivada de conflitos e contradições, sem as instituições que garantam os direitos civis, sociais e econômicos conquistados a duras penas. A possibilidade da realização desse pesadelo, um tropismo da anarquia de massas, tornaria o Gulag e o Holocausto ensaios de amadores.



Fonte: revista Carta Capital - edição 21/01/2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Fórum Social Mundial: Um novo mundo socialista possível, urgente e necessário


Editorial do Vermelho

Quando, em 25 de janeiro de 2001, a bandeira que diz "Um novo mundo é possível" foi desfraldada em Porto Alegre (RS), a luta anti-neoliberal deu um passo decisivo ao juntar, num mesmo evento, milhares de militantes do largo espectro anticapitalista de todo o mundo.

Desde então, todos os inícios de ano aquela bandeira voltou a tremular, numa rica troca de experiências que, desde então, marca e aprofunda a resistência dos povos e dos trabalhadores. O Fórum Social Mundial surgiu como uma reação ao encontro anual em Davos (Suíça) onde magnatas mundiais debatem, desde 1971, os rumos da economia mundial.

E demonstra manter esse espírito quando, em sua 10º edição - aberta hoje em Porto Alegre -, aponta para a necessidade dos lutadores pelo progresso social encontrarem um caminho comum para enfrentar os problemas contemporâneos, neste mundo que parece deixar para trás aquele de 2001, quando o FSM começou a se reunir. A bandeira desfraldada em 2001 continua de pé!

O FSM coroa o movimento que vinha crescento desde meados da década de 1990 contra a globalização neoliberal, marcado por protestos populares como ocorridos em outubro de 1993 em Bangalore (Índia) contra o neoliberalismo. Em junho de 1999 houve com manifestações em todo o mundo contra o FMI, e em novembro daquele ano ocorreu um verdadeiro levante em Seattle (EUA) contra uma reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), que se espalhou pelos EUA e outros países.

As reuniões anuais (algumas delas descentralizadas, como as que ocorreram em 2006, 2008 e agora, em 2010) acompanharam a elevação da luta dos povos e dos trabalhadores a um novo patamar.

Era uma outra etapa da luta contra o imperialismo e sua expressão, o neoliberalismo; hoje, a ofensiva progressista, democrática e nacionalista é mais forte do que em 2001. Com certeza o FSM contribuiu para essa mudança vitoriosa. Ao propiciar a rica troca de experiências, opiniões e informações, ajudou a fortalecer a luta dos povos. E passou de 15 mil participantes no primeiro Fórum, para 120 mil em 2009 - um crescimento que merece destaque.

Hoje surgem novas preocupações, decorrentes do próprio avanço da luta contra a globalização neoliberal. Um exemplo delas foi manifestado pelo sociólogo português Boaventura Sousa Santos, para quem a presença militar dos EUA na América Latina (particularmente na Colômbia) e a vitória da direita na eleição presidencial chilena sinalizam mudanças que a região terá que enfrentar para consolidar os avanços já alcançados. Esse temor tem sentido e sinaliza a necessidade da luta prosseguir.

Os cerca de 10 mil participantes da etapa Porto Alegre do FSM-2010 manifestam otimismo antes estes desafios, expresso nas faixas e bandeiras da marcha de abertura. Unidade na diversidade: este foi o tom que se pode notar, expresso também na afirmação de Francisco Whitaker, um dos idealizadores do FSM, de que o slogan "um outro mundo é possível" precisa ser atualizado, face à realidade atual, incorporando as palavras "necessário e urgente". E socialista, acrescentamos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

POUCO A COMEMORAR



Não fosse um imerecido Nobel da Paz, o presidente dos EUA nada teria a festejar ao cumprir o primeiro ano de mandato. Gastou seu capital político sem obter nada substancial (de uma aprovação inicial de 68%, a maior desde John Kennedy, caiu para 49%) e seu partido sofreu uma derrota eleitoral humilhante.

O republicano Scott Brown ganhou a eleição para substituir o falecido senador democrata Ted Kennedy, um dos maiores defensores da reforma da Saúde, basicamente opondo-se a ela. Brown é menos conservador que a média dos republicanos e é algo excepcional a situação de Massachusetts, que já tem um sistema de saúde estadual, ao qual o federal apenas acrescentaria despesas, mas ainda assim foi uma derrota contundente.

As circunstâncias encontradas por Obama, criadas pelo governo de Bush júnior e pela gestão de Alan Greenspan no Fed, foram muito desfavoráveis, mas a maneira como as enfrentou não foram inspiradoras. Continua no Iraque, enviou mais tropas ao Afeganistão, desistiu de pressionar Israel a suspender as construções em terras palestinas, respaldou um golpe de Estado em Honduras e lavou as mãos em relação à mudança climática.

Mas isso é secundário para o eleitor dos EUA: o que o frustra é a política econômica, balizada pelo temor de desagradar ao setor financeiro. Proporcionou trilhões em ajuda aos grandes bancos sem exigir quase nada em troca e que esse governo, como os outros, é cúmplice de sua exploração.

Eleitores com empregos e moradia em risco veem bancos distribuírem dezenas de bilhões em bônus a executivos que teriam perdido cargos e fortunas, não fosse o socorro estatal. Ao ressentimento racional somam-se preconceitos alucinados de brancos empobrecidos que querem “de volta” o país supostamente tomado por um complô de negros, imigrantes e financistas.

Isso se reflete na reforma da Saúde, que beneficiaria dezenas de milhões, mas pode vir a ser rejeitada. Tantas foram as diluições para tentar agradar aos centristas que se tornou mais tímida e conservadora que a proposta do republicano Richard Nixon, em 1971. Ainda assim, é pintada pelos republicanos como golpe comunista, fascista ou ambos. E os democratas, ante uma oposição disposta a bloquear qualquer política que venha de seu governo, progressista ou não, só sabem reagir ao desafio recuando de suas propostas e desanimando ainda mais quem os ajudou por acreditar em Change e Hope.

Da redação da revista Carta Capital

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SOB O MANTO DA GUERRA FRIA



Por Wadih Damous - Presidente da Seccional Rio da OAB

"A presidente Cristina Kirchner recentemente firmou decreto ordenando a abertura dos arquivos da repressão política na ditadura militar argentina.

Dias antes, no Brasil, ante a ameaça de renúncia do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e dos comandantes militares, o presidente Lula recuara da criação da Comissão Nacional da Verdade, com composição plural e o objetivo de apurar violações dos direitos humanos na repressão política da ditadura militar.

Os dois fatos mostram as diferenças entre os processos de consolidação da democracia no Brasil e nos demais países do Cone Sul. Aqui, quase 25 anos depois de a ditadura ter acabado, a democracia tem que pedir autorização aos militares para saber até onde pode avançar.

Por que é importante saber-se o que aconteceu nos anos de chumbo? Seria revanchismo?

O conhecimento da História é importante por duas razões.

A primeira, para que se criem anticorpos na sociedade, evitando-se a repetição dos crimes.

Vale o exemplo de Nelson Mandela na África do Sul. Preso durante 27 anos, parte dos quais em isolamento e trabalhos forçados, torturado pelo regime racista, Mandela tornou-se presidente com a democratização do país. Tinha razões para ser ressentido.

Mas ele compreendeu que mais importante do que a prisão de assassinos e torturadores era que as barbaridades não se repetissem. O projeto de lei que propôs anistiava agentes da repressão que admitissem publicamente seus crimes. Mas era claro num ponto: qualquer fato omitido poderia levar o autor a responder por ele nos tribunais. Houve cerca de 3.500 confissões de violações de direitos humanos de militantes políticos.

A sociedade sul-africana ficou chocada. Mas, certamente, tão cedo cenas como aquelas não se repetirão. Os anticorpos criados com a luz do sol impedirão que isso ocorra. No Brasil, a abertura dos arquivos da repressão política poderia ter efeito semelhante, inclusive em relação à tortura de presos comuns, que não teve fim.

A segunda razão pela qual os arquivos devem ser abertos é a necessidade de se arejar as Forças Armadas. Elas devem respeito às leis e às autoridades constituídas democraticamente. Não podem ser um feudo, fechado, no qual seus chefes fazem o que bem entendem.

Os atuais militares não participaram dos crimes da ditadura. Mas, ainda que os torturadores da ditadura tivessem deformações de personalidade, seus crimes não foram iniciativas isoladas de sádicos ou tarados. Houve a cobertura do Alto Comando Militar. A tortura era uma política de Estado. Aliás, em depoimento ao CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, transformado em livro, o general Ernesto Geisel afirma que a decisão de assassinar presos foi tomada pela cúpula militar.

É preciso mudar a mentalidade das Forças Armadas, tornando-as compatíveis com a democracia. Este é o papel de um governo democrático.

Mas, o que fizeram os sucessivos ministros da Defesa, senão serem porta-vozes da cúpula militar junto aos governos, nas (muitas vezes justas) reivindicações de verbas? Se houve exceção foi José Viegas Filho, defenestrado porque se chocou com chefes militares que louvaram o golpe de 64 em ordens do dia e, no conflito, não teve o apoio do presidente Lula.

Não é aceitável que a formação dos militares hoje se dê como nos tempos da Guerra Fria e sob a égide da velha "doutrina de segurança nacional". Não é aceitável que as Forças Armadas defendam o que fizeram assassinos e criminosos, como antigos chefes do DOI-Codi. E tudo isso vem acontecendo.

Assim, a criação da Comissão Nacional da Verdade tem dupla importância: vacinar a sociedade e arejar as Forças Armadas. Duas condições importantíssimas para a consolidação da democracia".

Fonte: Conselho Federal da OAB

domingo, 24 de janeiro de 2010

HAITI: UMA CABEÇA DE PONTE

Haiti ontem (1987): execuções em praça pública.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

Castro Alves


Por Cléber Sérgio de Seixas

"O Haiti é o país mais pobre do hemisfério ocidental. Lá existem mais lava-pés que sapateiros: meninos que em troca de uma moeda lavam os pés dos clientes descalços, que não têm sapatos para engraxar. Os haitianos vivem, em média, pouco mais de trinta anos. De cada dez haitianos, nove não sabem ler nem escrever. Para o consumo interno são cultivadas as ásperas encostas das montanhas. Para a exportação, cultivam-se os vales férteis: as melhores terras são dedicadas ao café, ao açúcar, ao cacau e a outros produtos requeridos pelo mercado norte-americano. Ninguém joga beisebol no Haiti, mas o Haiti é o principal produtor mundial de bolas de beisebol. No país não faltam ofcinas onde crianças trabalham a um dólar por dia armando cassetes e peças eletrônicas. São, é claro, produtos de exportação. Também é claro que os lucros são exportados, uma vez (é claro!) deduzida a parte que corresponde aos administradores do terror. O menor sinal de protesto, no Haiti, resulta em prisão ou morte. Por incrível que pareça, os salários dos trabalhadores haitianos perderam, entre 1971 e 1975, um quarto de seu valor real. É significativo que nesse período tenha entrado no país um novo fluxo de capital norte-americano.[...] Afinal de contas, as matanças do general Videla não são mais civilizadas que as de Papa Doc Duvalier ou de seu herdeiro no trono, ainda que na Argentina a repressão tenha um nível tecnológico mais alto. No essencial, as duas ditaduras funcionam a serviço do mesmo objetivo: proporcionar braços baratos para um mercado internacional que exige produtos baratos”.

O trecho acima transcrito não é nenhum relato sobre a situação atual do Haiti. Foi escrito há 34 anos por Eduardo Galeano no livro As Veias Abertas da América Latina. Mesmo tendo mudado a história daquele país, então mergulhado numa das mais sangrentas ditaduras que já assolaram a América Latina, de lá para cá algumas variáveis ainda subsistem: pobreza extrema, exploração internacional e falta de democracia.

Não tenho conhecimento se no Haiti há riquezas naturais tais como as encontradas em território brasileiro. Contudo, o Haiti tem algumas mercadorias muito apreciadas em tempos de globalização: mão de obra barata, posição geográfica privilegiada e um certo potencial para o turismo. Para que norte-americanos e europeus possam desfrutar de mercadorias de qualidade a preços acessíveis, urge que as fábricas se desloquem para países de terceiro mundo, onde abunde mão de obra barata e onde impere a desregulamentação econômica, garantia de fluidez ao capital estrangeiro de forma a enriquecer os empresários das transnacionais. Em troca, o país que cede tal tipo de mão de obra recebe algumas migalhas em forma de baixos salários que não são suficientes para alavancar o mercado interno nem tampouco a industrialização, condições sine qua non para o desenvolvimento. O receituário dados aos países explorados pelas entidades financeiras internacionais e às nações subdesenvolvidas é sempre o mesmo, ou seja, desregulamentar e diminuir o tamanho do Estado em nome de uma suposta eficiência do setor privado.

Se a moeda de troca para tais mudanças no setor político-econômico for mais uma ditadura, os Marines estarão por perto, dando cobertura aos governos fantoches para garantir que nenhuma insurgência atrapalhe seus interesses. O resultado de políticas neoliberais e de governos títeres dos interesses dos EUA é o que vemos no Haiti. A hecatombe que se abateu em forma de terremoto sobre aquele país das Antilhas serviu para agravar ainda mais o caos social ao qual já estão acostumados os haitianos.

Haiti hoje: destruição, morte e fome

O desembarque de tropas estadunidenses em território haitiano, colocando ordem na ajuda assistencial, esconde interesses geopolíticos que se sobrepõem à catástrofe que se abate sobre aquele povo. Além do desembarque de comida, medicamentos e de toda logística humanitária, estão em jogo Cuba e Venezuela, podendo ser o Haiti uma futura cabeça de ponte no Caribe, um posto avançado situado estrategicamente entre os dois supracitados países destinado a se interpor entre aquilo que representam para a América Latina; sobretudo num momento em que as direitas ensaiam uma reação em todo o continente latino-americano, capitaneadas pelos falcões de Washington.

No texto anterior publicado neste blog, o autor indaga o que ocorrerá quando a imprensa não mais tiver olhos para o Haiti. O que ocorrerá quando as equipes de imprensa que hoje fazem cobertura cerrada voltarem para seus países sede ou para outros a fim de cobrirem outros eventos? Se atualmente turbas famintas que saqueiam e avançam sobre os donativos são contidas a bala, o que será quando as câmeras que denunciam abusos se forem? Infelizmente o que surgirá dos escombros haitianos pode ser um pais ainda mais dominado pelos interesses estrangeiros e escravizado pela geopolítica. Seguirá a política de repressão social e de esvaziamento econômico, continuará sua vocação de importador de tudo, montador de artigos destinados a abastecer o mercado exterior e continuará dominado por governos ditatoriais representantes de interesses estrangeiros.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quando começaremos a nos esquecer do Haiti?


Por Gabriela Warkentin

As tragédias têm a dimensão da atenção midiática que conseguem atrair. Já estamos acostumados a isso e temo que volte a acontecer no caso do Haiti. Há pouco mais de uma semana do terremoto devastador, e de suas quase incontáveis réplicas, parece que já vimos tudo. A história renderá mais? As audiências manterão o interesse ou logo virá outra tragédia espetacular que capture a atenção de todos e relegue o Haiti à posição em que estava antes do infeliz 12 de janeiro: o nada informativo? É preciso reconhecer: o Haiti não aparecia no radar de ninguém. E também por isso dói tanto. Não estou sendo cínica, só precavida.

A mobilização dos meios de comunicação internacionais foi extraordinária. Dezenas de jornalistas estadunidenses, mexicanos, espanhóis, canadenses, britânicos, venezuelanos... descobriram a existência profunda desta metade de ilha cujo futuro nos sacode de modo recorrente. Com o entusiasmo próprio de quem é testemunha de uma parte importante da História, assim, com letra maiúscula, muitos repórteres e apresentadores se lançaram a uma aventura complexa, incerta e perigosa. Começaram a chegar relatos, imagens, mais relatos, histórias de horror, imagens de esperança, mais imagens, áudios.

Houve momentos felizes – os relatos de resgates de pessoas -, episódios lamentáveis – o anúncio na televisão nacional, por parte do embaixador do México no Haiti, da morte do funcionário Gerardo Le Chevallier, sem ter a confirmação e sem ter informado previamente a família; a ligação em tempo real do professor Carlos Peralta Valle, resgatado entre os escombros, com a mãe; depois saberíamos que estavam há mais de um ano sem falar, mas não importa, a cena serviu para ilustrar o poder midiático da reunificação – chauvinismos manifestos – no tempo e no espaço, algo ao qual todos os meios de comunicação deram destaque. Porque nada comove mais que identificar entre as mortes anônimas e os escombros ameaçadores, um rosto com o qual se compartilha, ao menos, a origem. Estas e outras situações se repetiram em cada um de nossos países.

Mas é certo que o papel dos meios de comunicação tem sido fundamental para colocar o Haiti no cenário, para incluí-lo nas conversas, para mobilizar a ajuda e ativar a solidariedade. As esplêndidas crônicas e reportagens que recebemos pelo rádio, televisão, meios impressos e digitais, nos permitiram começar a compreender não só a dimensão da tragédia, mas também algo do contexto da mesma. Para quem quiser há um ótimo material circulando por aí: perfis, entrevistas, fotografias, ensaios. Poucas tragédias tiveram este nível imediato de exposição midiática. O problema é que, como espectadores, às vezes, ficamos satisfeitos com uma única história que consumimos, e não buscamos, não confrontamos. Quem gosta de ver o mundo de forma unidimensional, nunca o fará de outra maneira.

Uma semana depois do terremoto e de suas incontáveis consequências, as histórias sobre o Haiti começam a perder espaço. Hoje, já não ocupam todos os lugares entre as mais lidas ou visitadas nos portais da internet. As chamadas em emissoras de rádio começam a refletir uma certa saturação que não é mal intencionada, mas sim resultado quase natural da super exposição midiática que parece não conduzir a nenhum lado: porque o que mais recebemos são as mesmas histórias dramáticas, e a redundância nos traz uma sensação de impotência. Um pouco como no 11 de setembro, quando as televisões repetiam incessantemente a queda das torres gêmeas. “Quantas torres, afinal, caíram?” – perguntaram vozes angustiadas. As reações, as mortes (sobretudo as crianças mortas), o cheiro, a fome...., começam a repetir-se, e quando o drama se torna cotidiano, deixa de ser um drama.

Enquanto escrevo, no portal de um dos maiores jornais do México a notícia mais lida é que Scarlett Johansson faria um leilão para ajudar o Haiti. Sim, com a generosidade de nossos povos – e de alguns artistas – a ajuda segue fluindo de maneira impressionante: os donativos enviados por meio de torpedos de celulares, por exemplo, superaram recordes de arrecadação. As embaixadas não sabem o que fazer com tantas arrecadações, as mãos se multiplicam para ajudar. Mas, insisto, quanto tempo vai durar essa história?

Se tudo seguir o curso daquilo que já vimos em outros momentos, logo os meios de comunicação começarão a centrar sua atenção em outros temas. Uma jornalista argentina, residente na Venezuela, queixava-se de que nas redes sociais desse país predominavam as histórias relacionadas às últimas medidas de Chávez. No México, os meios de comunicação começaram a ceder espaços para a interminável luta contra o narcotráfico, as próximas eleições, o início das festividades do Bicentenário, o início da temporada de futebol e a iminente final de futebol americano. Não há tragédia que aguente tanto tempo. A menos que saibamos contá-la de outra maneira, torná-la importante, sustentar sua duração.

Em uma de suas notas para o El País, Pablo Ordaz relata como foi repreendido por um jovem haitiano que buscava cadáveres: “É verdade que irão contar?” – perguntou com uma boa dose de ceticismo, “ou se irão daqui quando já tiverem fotos suficientes?”. Saberemos manter o interesse nesta nação tão golpeada e tão digna ou encerraremos os despachos, voltaremos a nossos assuntos e abriremos a porta para que, na solidão, as feras sejam soltas. Ruanda é um claro exemplo: quando o interesse diminuiu, começaram as mortes. E não terminaram. A civilização do século XXI, tão rápida para reagir midiaticamente diante das histórias que nos competem, deve encontrar a forma na qual a dor não ceda espaço para o espetáculo seguinte. Essa não é uma tarefa só dos meios de comunicação, mas eles tem uma responsabilidade adicional ao dar visibilidade às histórias em importam, ou que deveriam importar.

Chegamos, contamos algumas histórias e vamos embora. Adeus Haiti?


Gabriela Warkentin é diretora do Departamento de Comunicação da Universidade Iberoamericana, na Cidade do México, e apresentadora de rádio e TV.

Fonte: site Carta Maior

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Se o metrô não vem, BH vai de VLT

Um VLT europeu

Por Ernesto Braga


Com a ampliação do metrô cada vez mais distante da realidade de Belo Horizonte e região metropolitana, o poder público busca em instituições internacionais soluções para o transporte de massa. Ontem, o governador Aécio Neves (PSDB) assinou convênio com o consórcio espanhol Iberinsa-Spim, que vai investir 310 mil euros – cerca de R$ 1 milhão – no estudo de viabilidade social, econômica e ambiental do planejamento do Vetor Norte da capital. A análise contempla a criação de um ramal ferroviário entre a estação do metrô Vilarinho, em Venda Nova, e o Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, passando pela Cidade Administrativa, no Bairro Serra Verde, conforme o Estado de Minas informou com exclusividade em 28 de outubro do ano passado. A opção mais provável para o trecho é a adoção do veículo leve sobre trilhos (VLT).

A mesma solução vem sendo estudada pelas duas maiores vizinhas da capital. Ontem, as prefeitas de Contagem, Marília Campos (PT), e Betim, Maria do Carmo Lara (PT), se reuniram com representantes da Agência Francesa de Desenvolvimento. Segundo elas, a instituição manifestou interesse em financiar a construção de um trecho de 12 quilômetros do VLT, ligando os dois municípios, orçado em R$ 600 milhões.

Quanto à ligação do Vetor Norte da capital, o estudo do consórcio espanhol está previsto para ficar pronto em nove meses. Segundo o governador, ele definirá que tipo de transporte ferroviário será economicamente mais viável: o veículo leve sobre trilhos ou a ampliação do metrô da estação Vilarinho ao aeroporto. O certo é que o traçado terá 30 quilômetros de extensão. “O metrô convencional é uma hipótese mais remota”, reconheceu Aécio Neves. “Achamos que o metrô é muito caro, mas o mais relevante é que estamos estudando qual transporte de massa é mais viável”, acrescentou o secretário de estado de Assuntos Internacionais, Luiz Antônio Athayde.

Enquanto um quilômetro de VLT custa R$ 33 milhões, são gastos R$ 99 milhões para igual trecho de metrô. Todo o percurso dos veículos leves sobre trilhos é em superfície, eles são movidos a biodiesel e têm 100% de tecnologia nacional, o que barateia o sistema. Além do traçado, o estudo espanhol vai apontar onde deverão ser construídas as estações e os recursos necessários para a construção do ramal. “Nos apontará ainda qual a melhor linha de financiamento, que poderá ser uma parceria público-privada (PPP)”, destacou o governador.

Além de moradores da região e passageiros com destino a Confins, a linha ferroviária ligando a estação Vilarinho ao aeroporto atenderá as 20 mil pessoas que deverão passar diariamente pela Cidade Administrativa. Aécio Neves prometeu anunciar o cronograma de transferência das secretarias e outros órgãos estaduais para a nova sede do governo, erguida às margens da rodovia MG-010, no dia 28.

A contratação do consórcio surgiu de uma parceria do governo de Minas com o da Espanha. Os 310 mil euros empregados no estudo serão doados pelo governo espanhol, a fundo perdido, por meio de linha de financiamento do Fondo de Estúdios de Viabilidad (FEV), um instrumento de política comercial gerenciado pela Direção Geral de Financiamento Internacional do Ministério da Economia espanhol. O embaixador da Espanha no Brasil, Carlos Alonso Zaldívar, assinou o documento com Aécio Neves.

Grande BH busca saída nos trilhos
O projeto de um ramal de 12 quilômetros de veículo leve sobre trilho (VLT), ligando a estação do metrô do Eldorado, em Contagem, ao Bairro Jardim Alterosas, em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foi apresentado ontem a representantes da Agência Francesa de Desenvolvimento. A prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), afirmou que a instituição internacional voltada para ações de fomento e investimento demonstrou interesse em financiar os R$ 600 milhões necessários para a obra. De acordo com ela, a linha atenderá 110 mil pessoas por dia.

Além de Marília Campos e da prefeita de Betim, Maria do Carmo Lara (PT), participaram da reunião representantes da BHTrans, Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e Ferrovia Centro Atlântica. “Se esse trecho fosse de metrô, o custo seria de R$ 1,8 bilhão. Estamos buscando um arranjo institucional para contrair o financiamento. Os franceses fizeram uma visita técnica ao trecho, consideram o projeto viável e se mostraram disponíveis para o empréstimo”, disse a prefeita de Contagem. Segundo ela, o projeto também será apresentado a instituições italianas de fomento.

O próximo passo agora, de acordo com Maria do Carmo Lara, é dar início à parte técnica do projeto, que apontará, entre outras coisas, como será o traçado. “Essa parte pode ser feita pelas empresas de trânsito de Betim (Transbetim), Contagem (Transcon), BHTrans e CBTU”, disse. O projeto do VLT ligando os dois municípios será apresentado no dia 24, na reunião do Conselho Deliberativo da Região Metropolitana. “Vamos agendar outra reunião na (Ministério da) Casa Civil, em Brasília, para que o recurso seja incluído no PAC da Mobilidade”, afirmou a prefeita de Betim.

Nos projetos iniciais das duas prefeituras apresentados à CBTU, o trecho de VLT teria dois ramais em Contagem: um partindo do Bairro Bernardo Monteiro à estação Eldorado e o outro do Bernardo Monteiro à Região do Barreiro, na capital, totalizando 16 quilômetros. Em Betim, o ramal de 13 quilômetros partiria do Eldorado até o Bairro Jardim Teresópolis. “Fizemos uma fusão para tornar o projeto mais viável”, disse Marília Campos.

Fonte: jornal Estado de Minas

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

OS PECADOS DO HAITI

O pensativo Galeano: um dos homens que mais pensam a América Latina

Por Eduardo Galeano

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca idéia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito com um voto sequer.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:

– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:

– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das Leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos tinham conquistado antes a sua independência, mas meio milhão de escravos trabalhavam nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém comprava do Haiti, ninguém vendia, ninguém reconhecia a nova nação.

O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar conseguiu reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma idéia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. A essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perda por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Fonte: Resistir.Info

VIVA O PESSIMISMO



Por Lucas Mendes

No mais fundo da fossa econômica americana nesta grande recessão estão os negros. O número de desempregados é o dobro dos brancos e a renda média deles caiu quase 3% desde 2007, mas o número de otimistas entre eles dobrou nos últimos dois anos (de 20% para 39%).

Você pode ver o número pelo outro lado, 61% continuam negativos, mas a maioria (53%) acha que a vida vai melhorar. Não vamos esmiuçar os números, porque podem ser vistos de vários ângulos, mas o responsável pelo otimismo é, como você sacou, o presidente Obama.

Barbara Ehrenreich, cabeça de esquerda, escritora, jornalista e ensaísta, não vê nenhum motivo para otimismo. Ela é a profeta do pessimismo. E eu, com meu DNA mineiro, carregado de desconfiança, estou com a Barbara.

Ela começou como cientista, brilhou. Formou-se em física, fez doutorado em biologia molecular, mas, filha de um mineiro de cobre, viu na década de 70 um mundo injusto, com Johnson, Nixon , a guerra do Vietnã, pobreza e injustiça. Encasquetou e foi fazer revolução.

Numa das marchas, conheceu seu marido, teve dois filhos, separou, encontrou o segundo, separou, se engajou na carreira de jornalista e escritora. Já publicou vinte livros, quase todos críticos da sociedade americana. Um deles tem o objetivo título This Land is Their Land : Reports from a Divided Nation, outro, o grande sucesso dela, Nickel and Dimed: On ( NOT ) Getting By in America.

Entre um livro e outro, escreveu para a revista Time, e ainda contribui com The Progressive, New York Times , The New Republic, The Atlantic Monthly e várias outras publicações liberais, mas sua carreira foi interrompida em 2001 por um câncer de mama.

Na recuperação aproveitou para escrever Welcome to Cancerland (Bem-vindo à Terra do Câncer ) na revista Harper’s, onde levantou várias questões e críticas sobre a indústria médica americana.

Foi neste período de tratamento do câncer que ela diagnosticou um câncer nos Estados Unidos: o otimismo.

Barbara frequentava grupos de apoio em que a atitude era “sorria ou morra” e a ideologia cultuava o positivo, o otimismo, a boa disposição permanente: “tudo que nos pode fazer mais sadios vai curar nosso câncer”, ela escreveu no novo livro Bright Sided: How Relentless Promotion of Positive Thinking Has Undermined America (Sufocado pela Luz: Como a Incansável Promoção do Pensamento Positivo Enfraqueceu a América).

O choque que ela levou não foi no grupo de apoio a cancerosos, mas dos desempregados de “colarinho branco”. Descobriu a mesma arenga da luta contra o câncer, o do despertar e sair da cama com pensamento positivo: ”quem deseja alguma coisa com absoluta convicção acaba conseguindo, porque gente positiva atrai forças positivas".

“Eu via pessoas com graves problemas de câncer e desemprego cair neste conto todo o tempo."

Sempre fui criticado pelo meu pessimismo e pela minha fé na teoria de Murphy (com certeza teve influência de Minas ), que diz que “se pode dar errado, vai dar errado” . É melhor se preparar para o pior. Se vier o melhor, é muito mais fácil se adaptar sem perder a desconfiança.

Esta minha fé mineira foi abalada quando uma amiga íntima, ainda na faixa dos 50 anos, com um câncer inoperável, decidiu cometer suicídio com ajuda dos médicos.

Eu, o marido e meia dúzia de amigos estávamos no quarto, e a disposição dela, já depois de ter tomado os remédios que iriam matá-la, era infinitamente melhor que a nossa. Não tinha religião, mas dava a impressão que ia partir para umas férias maravilhosas. Bye bye para nós, os patetas, que ficávamos neste mundo sujo e mau.

Então, seria melhor uma atitude de profunda depressão, ou positiva, de "viva a morte!"?

A Barbara não esclarece esta dúvida no livro, mas investe contra as megaigrejas e Wall Street. Ela culpa os líderes evangélicos que deram a milhões de pobres a ilusão de que poderiam ser donos de casas caras e de bens materiais. Eles se endividaram até o pescoço embalados por sermões que prometiam mundos e fundos. São vítimas e cúmplices desta grande fossa.

E se na Wall Street, se banqueiros e investidores tivessem sido mais desconfiados e duvidosos, os pobres não teriam conseguido os empréstimos e não teríamos perdido trilhões.

Quem está doente ou desempregado, diz Barbara, "deve sair da cama certo de que há forças contra ele e, apesar de tudo, vai enfrentar a doença e a pobreza e correr atrás de um emprego e da cura com realismo, sem a infantilidade do otimismo”.

Nos últimos meses eu levanto todo dia e penso: a bolsa da China vai furar. E a do Brasil vai junto. Se cuide. Dias piores virão.

Fonte: BBC Brasil

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

SEBASTIÁN PIÑERA É PRESIDENTE CHILENO


Homem mais rico do país vence coalizão de centro-esquerda e põe direita de volta ao poder, após 20 anos sem governar.

Santiago – O empresário Sebastián Piñera, de 60 anos, da coalizão de centro-direita Aliança pelo Chile, foi eleito o novo presidente chileno. O pleito marca o fim de um ciclo de 20 anos de poder da Concertação – a coalizão de centro-esquerda que governa o país desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Ele assume o cargo em 11 de março para um mandato de quatro anos, sem direito à reeleição.

Com 60,3% das urnas apuradas, Piñera se impunha com 51,87% dos votos válidos, contra 48,12% do senador e ex-presidente Eduardo Frei (1994-1999), que diminuiu a desvantagem do primeiro turno – quando perdeu por 44% a 29% –, mas não conseguiu reverter a derrota. A vitória de Piñera é o primeiro triunfo da direita em uma eleição presidencial no país desde 1958. Foi a segunda vez que o empresário disputou o Palácio de La Moneda - em janeiro de 2006, perdeu o segundo turno por 486 mil votos para a socialista Michelle Bachelet, que deixa o cargo beirando 80% de aprovação, o maior índice desde 1990.

Essa popularidade mostrou ter componentes mais pessoais do que políticos, por não se transferir a Frei, de 67 anos, ex-presidente que enfrentou o desgaste natural da Concertação por duas décadas no poder e o debilitamento da unidade interna da coalizão.

Falta de coesão expressa na divisão da esquerda no primeiro turno, que competiu com três nomes -dois deles de dissidentes da Concertação, entre eles o deputado Marco Enríquez-Ominami, 36, que deixou a aliança após ser impedido de participar das primárias para escolha do candidato. Disputando como independente e pregando a renovação na política, conseguiu 20% dos votos.

Renovação e mudança foram os eixos da campanha de Piñera, o homem mais rico do Chile, dono de patrimônio estimado em US$ 1 bilhão. Entre seus negócios estão 26% da principal empresa aérea do Chile, a LAN, 14% do clube local de futebol mais popular, o Colo-Colo e 100% da TV Chilevisión. Durante a campanha, ele prometeu vender suas ações da companhia aérea, transferir às da TV a uma fundação e manter as da equipe de futebol.

Filho de um embaixador, criado nos EUA e na Europa, Piñera fez fortuna nos anos 80 como pioneiro dos cartões de crédito no Chile. Votou contra a ditadura no plebiscito de 1988 e foi eleito o senador mais jovem do país em 1990. Criticado pela esquerda por ter o apoio de setores que sustentaram a ditadura militar, Piñera se moveu ao centro na eleição, acenando com propostas liberais como a união civil homossexual e a entrega gratuita da pílula do dia seguinte.
Numa campanha de debate centrado mais em como fazer melhor as coisas do que em mudanças radicais, Piñera prometeu ampliar a rede de proteção social que é marca registrada da Concertação e retomar o ritmo de crescimento da economia mediante ganhos de gestão, criando 1 milhão de empregos.

Frei reconheceu a derrota às 19h43 (horário de Brasília), ao lado dos ex-presidentes chilenos Patricio Aylwin (1990-1993) e Ricardo Lagos (2000-2005). Defendeu o diálogo com o governo da direita e os êxitos de sua coalizão, invocando a unidade da centro-esquerda. "Nosso projeto segue vigente.” Em que pese sua importância, a campanha não entusiasmou os chilenos. Fruto de consensos sobre o rumo do país, como resume o professor aposentado Germán Echeverria, 73, eleitor de Frei, morador da periferia de Santiago. "Com Piñera ou Frei, seguirá governando a economia de mercado.”

Fonte: jornal Estado de Minas - 18/01/2009

sábado, 16 de janeiro de 2010

MIREM-SE NO EXEMPLO DAQUELAS MULHERES

Leila Diniz e sua exuberante gravidez



"Toda mulher é meio Leila Diniz"
Rita Lee



Por Cléber Sérgio de Seixas

Num dia desses minha esposa contou-me o caso de uma amiga sua que, após quase 20 anos de casamento e um filho de 18 anos, nunca havia tido um orgasmo com o marido. Nos dias de hoje isso pode soar como um caso isolado, mas houve épocas em que exemplos como esse eram comuns. Eram tempos em que a função da mulher casada era cuidar dos filhos e da casa, submetendo-se ao marido e, algumas vezes, sendo seu objeto sexual. O prazer sexual da esposa não era preocupação do marido, e os casamentos, em sua maioria, eram uma grande fachada, pois as mulheres optavam por viverem infelizes com seus cônjuges a se separar dos mesmos, já que mulheres desquitadas eram mal vistas pela sociedade.

Algumas, no entanto, fizeram fama por estarem à frente de seu tempo. Consideremos o exemplo de Leila Diniz, que foi marcante numa época em que o machismo ditava as cartas mais do que hoje. No início dos anos 70, grávida, ousou se deixar fotografar de biquíni, um absurdo naquele tempo. A atriz também causou furor quando proferiu a frase: “transo de manhã, de tarde e à noite”. Depois que Leila deu uma polêmica entrevista ao jornal O Pasquim, na qual falou abertamente sobre sexo, a ditadura militar decretou uma lei de censura prévia à imprensa.Tratou-se do decreto nº 1077, apelidado de Decreto Leila Diniz.

Nos dias atuais várias pop stars são fotografadas nuas e grávidas sem que ninguém se ruborize, e há aquelas que vão à TV dar declarações bem mais íntimas do que as da falecida atriz. Além disso, há algumas revistas femininas cujas matérias são bem mais picantes que aquelas encontradas em publicações reservadas ao público masculino, apesar de menos imagéticas, diga-se de passagem.

Atitudes como as de Leila na atualidade não causariam escândalo, haja vista as várias conquistas sociais alcançadas pelas mulheres. Vários fatores contribuíram para a emancipação feminina. Dentre eles convém destacar o direito ao voto, a inserção no mercado de trabalho e a invenção da pílula anticoncepcional, que reconfigurou o ato sexual para o sexo feminino.

Grávidas e nuas: Leila Diniz ficaria ruborizada

Celebremos as conquistas que as mulheres alcançaram, mas assumamos também que ainda há muito a ser alcançado pelo assim chamado sexo frágil.

Estatísticas revelam que mulheres ganham menos que homens exercendo as mesmas funções e ocupando os mesmos cargos em muitas empresas; inúmeras são espancadas pelos próprios companheiros em seus lares, crimes que ficam impunes na maioria das vezes; algumas enfrentam jornada dupla, uma no trabalho e outra no lar, e há culturas nas quais é praticada a circuncisão feminina, uma forma de negar à mulher o prazer sexual e reforçar a supremacia masculina.

A sociedade do consumo - com sua poderosa varinha de condão que tudo transforma em mercadoria - já há muito tempo associou a mulher a produtos de consumo tais como bebidas, revistas etc, coisas das quais se tira o máximo proveito e se descarta em seguida, tal como a cerveja que desce redondo e é mais gostosa se a identificarmos com a bela loira que estampa o outdoor. Segundo o ponto de vista dos machões consumidores, se a mercadoria chamada mulher se tornar feia ou ficar velha e gorda, deve logo ser descartada e trocada por uma mais nova, pois o tempo e a força da gravidade não respeitam "Giseles" nem "Lumas".

Em tempos de revolução sexual, as mulheres ainda são vítimas de preconceitos arraigados no imaginário masculino, muitos deles oriundos de interpretações de escritos de cunho religioso. Um exemplo disso é a narrativa bíblica onde Adão, o primeiro macho, justificando-se diante de Deus, acusou a mulher de ter-lhe oferecido o fruto proibido. Imediatamente, Javé proferiu sua sentença relativa aos delitos dos primeiros humanos. O texto bíblico do Gênesis afirma que o desejo da mulher seria para o marido e este a dominaria. Uma ação feminina, então, conforme alguns exegetas, teria sido a responsável por todas as desgraças que acometem a humanidade.

Se querem prazer, são vadias, se não o desejam, são frias; se o marido trai a esposa é porque a concubina foi quem o seduziu ou a esposa não fora competente o suficiente na cama. O homem que “papa todas” é garanhão no círculo de amigos, mas a mulher que sai com muitos é puta. Se a esposa se realiza sexualmente com o marido e procura-o com freqüência para o ato sexual há algo errado com ela, pois a esposa é a santa que desposou-o no altar, ao contrário das vadias com as quais ele se deita, se deleita e se lambuza na rua.

No antigo Malleus Maleficarum, a mulher orgástica era identificada com a feiticeira. Séculos depois, a mulher liberada sexualmente ainda é mal vista na sociedade.
O Martelo das Bruxas: as mulheres eram um instrumento do demônio

Quem como Chico Buarque para cantar as particularidades da alma feminina? Os versos de Mulheres de Atenas jogam luz sobre a obscura situação de sujeição e sofrimento a que muitas estão submetidas: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas. Quando amadas, se perfumam. Se banham com leite, se arrumam... Quando fustigadas, não choram. Se ajoelham, pedem, imploram... Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas. Quando eles embarcam, soldados, elas tecem longos bordados. Mil quarentenas. E quando eles voltam sedentos querem arrancar violentos, carícias plenas, obscenas”. Mal interpretado, o poema-canção poderia ser considerado machista por encorajar o conformismo e a submissão incondicional feminina, no entanto trata-se de uma sutil exortação para que as mulheres não ajam como aquelas de Atenas.

Implícitas no poema estão as figuras diametralmente opostas da mulher fatal representada pela bela Helena, cujo rapto fomentou a Guerra de Tróia, e da mulher submissa e fiel simbolizada por Penélope, mulher de Ulisses, ambas personagens dos poemas homéricos Ilíada e Odisséia. Talvez haja um equilíbrio das personalidades destas duas representantes do sexo feminino dentro de cada mulher. Que não sejam destruidoras de lares e fomentadoras de guerras como foi Helena, mas que não percam a vaidade, saibam valorizar-se e lutar pelos seus direitos. Que sejam fiéis como foi Penélope na sua longa espera de 20 anos pela volta do amado Ulisses, mas que não sejam tolas a ponto de ignorar nos braços de quem dormem seus homens. Que não sejam nem uma nem outra, mas ambas ao mesmo tempo, aproveitando o que há de positivo em cada uma.

Que as mulheres sejam percebidas além do invólucro exterior. Que sejam vistas como portadoras de virtudes superiores aos efêmeros atributos físicos. Que sejam compreendidas, amadas, valorizadas e respeitadas como seres que sentem, que amam e que têm não apenas deveres, mas também direitos.

Cantemos a beleza, a ternura e a fidelidade das formosas mulheres, mas também as exortemos a serem independentes, objetivas, sem jamais abdicar da própria dignidade e auto-estima.


Fiquem com Mulheres de Atenas na voz de Chico Buarque.

CASSARAM A REPRESSÃO POLÍTICA

Por Mino Carta

Acabo de verificar que não houve repressão política durante a ditadura que mandou de 1964 a 1985. Deduzo a partir da leitura do texto final do decreto que institui o Programa Nacional de Direitos Humanos. A minoria privilegiada deste país regozija-se com isso. Privilegiada e, se for preciso, golpista. E o resto que se moa.

Chamaram-na de revolução. Depois, constrangidos, admitiram: ditadura militar. Ora, ora, quem foi convocado para fazer o serviço sujo foram os gendarmes, por trás estavam eles mesmos, os engravatados e verdadeiros donos do poder.

E como haverá de reagir a esquerda nativa diante de mais este assalto à verdade factual? Não é o caso de se esperar demais da capacidade de reação da esquerda nativa. É a mesma que até hoje não consegue entender a diferença entre o ex-terrorista italiano Cesare Battisti e outros da nossa Resistência, por exemplo, Genoino, Franklin Martins, Dilma Rousseff.

Não se trata de contribuição decisiva para a inteligência brasileira. Há outras, do lado oposto, truculentas. Por exemplo. A alteração do texto do decreto decorre de uma exigência do ministro Nelson Jobim, disposto a se apresentar como porta-voz das Forças Armadas. Destas a pretensão de que qualquer investigação de violações dos Direitos Humanos seja executada também do lado de quem pegou em armas para enfrentar o Terror de Estado. Teríamos de apurar, portanto, as responsabilidades dos perseguidos e dos torturados? Mas já não foram perseguidos e torturados? Mais uma colaboração à construção de um Febeapá sinistro. Trágico.

Lamentável trajetória a do decreto, a rigor esboço de declaração de intenções. Oceanos hão de passar debaixo desta ponte, e haja ponte. A rigor, pretende estabelecer algumas regras destinadas a assentar um sistema democrático e laico digno da contemporaneidade. Não contém maiores surpresas se confrontado com os mandamentos em vigor em outros países mais adiantados destes pontos de vista.

Vamos do aborto (que provavelmente voltará ao status quo ante) à união civil entre homossexuais, à retirada de quaisquer símbolos religiosos dos próprios do Estado. E assim por diante. Causa-me espécie, isto sim, o que diz respeito aos meios de comunicação. Que o Estado possa retirar concessões à emissora de televisão e rádio soa perfeitamente admissível, a se considerar o mandamento brasileiro. Não lhe cabe, contudo, elaborar o ranking de quem da mídia defende a contento os Direitos Humanos e de quantos não os respeitam.

Todos aqueles que se consideram atingidos pelo decreto esperneiam. A Igreja e os ruralistas em primeiro lugar. Quanto aos barões midiáticos, o governo ofereceu um prato oceânico para protestos furibundos. No mais, sobra a questão central, a chamada Lei da Anistia, imposta pela própria ditadura e, portanto, inaceitável por um regime democrático, desde que autêntico e a vigorar em benefício de todos. Sem memória, não há povo habilitado a alcançar liberdade e igualdade. A memória tem de ser recuperada por completo para construir o futuro a partir dela. Isto vale para o indivíduo no singular e para as nações no plural.

Outros países sul-americanos reconstituíram o passado de formas diferentes e, no entanto, eficazes. Estão nitidamente à frente do Brasil e representam um exemplo recomendável. Estamos é muito atrasados. Tíbios e assustadiços, prisioneiros de inflexões, vezos, temores muito antigos, totalmente passadistas, anacrônicos, às vezes hipócritas e sempre inadequados ao nosso tempo.

O golpe de 1964, de cujas consequências ainda padecemos, foi a mais recente desgraça brasileira, depois da colonização predatória, da escravidão, da Independência a resultar de uma briga familiar diante da indiferença do povo, da Proclamação da República manu militari. Ah, sim, não me consta que na Alemanha haja uma avenida Hitler e na Itália uma praça Mussolini. Já na Rússia, as estátuas de Stalin foram derrubadas. Em Brasília, entretanto, há uma ponte Costa e Silva, o ditador que assinou o AI-5, sobre o Lago Sul. Em São Paulo, uma rua Sérgio Fleury, celebrado mestre em tortura.

Fonte: revista Carta Capital