HAITI: UMA CABEÇA DE PONTE

Haiti ontem (1987): execuções em praça pública.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

Castro Alves


Por Cléber Sérgio de Seixas

"O Haiti é o país mais pobre do hemisfério ocidental. Lá existem mais lava-pés que sapateiros: meninos que em troca de uma moeda lavam os pés dos clientes descalços, que não têm sapatos para engraxar. Os haitianos vivem, em média, pouco mais de trinta anos. De cada dez haitianos, nove não sabem ler nem escrever. Para o consumo interno são cultivadas as ásperas encostas das montanhas. Para a exportação, cultivam-se os vales férteis: as melhores terras são dedicadas ao café, ao açúcar, ao cacau e a outros produtos requeridos pelo mercado norte-americano. Ninguém joga beisebol no Haiti, mas o Haiti é o principal produtor mundial de bolas de beisebol. No país não faltam ofcinas onde crianças trabalham a um dólar por dia armando cassetes e peças eletrônicas. São, é claro, produtos de exportação. Também é claro que os lucros são exportados, uma vez (é claro!) deduzida a parte que corresponde aos administradores do terror. O menor sinal de protesto, no Haiti, resulta em prisão ou morte. Por incrível que pareça, os salários dos trabalhadores haitianos perderam, entre 1971 e 1975, um quarto de seu valor real. É significativo que nesse período tenha entrado no país um novo fluxo de capital norte-americano.[...] Afinal de contas, as matanças do general Videla não são mais civilizadas que as de Papa Doc Duvalier ou de seu herdeiro no trono, ainda que na Argentina a repressão tenha um nível tecnológico mais alto. No essencial, as duas ditaduras funcionam a serviço do mesmo objetivo: proporcionar braços baratos para um mercado internacional que exige produtos baratos”.

O trecho acima transcrito não é nenhum relato sobre a situação atual do Haiti. Foi escrito há 34 anos por Eduardo Galeano no livro As Veias Abertas da América Latina. Mesmo tendo mudado a história daquele país, então mergulhado numa das mais sangrentas ditaduras que já assolaram a América Latina, de lá para cá algumas variáveis ainda subsistem: pobreza extrema, exploração internacional e falta de democracia.

Não tenho conhecimento se no Haiti há riquezas naturais tais como as encontradas em território brasileiro. Contudo, o Haiti tem algumas mercadorias muito apreciadas em tempos de globalização: mão de obra barata, posição geográfica privilegiada e um certo potencial para o turismo. Para que norte-americanos e europeus possam desfrutar de mercadorias de qualidade a preços acessíveis, urge que as fábricas se desloquem para países de terceiro mundo, onde abunde mão de obra barata e onde impere a desregulamentação econômica, garantia de fluidez ao capital estrangeiro de forma a enriquecer os empresários das transnacionais. Em troca, o país que cede tal tipo de mão de obra recebe algumas migalhas em forma de baixos salários que não são suficientes para alavancar o mercado interno nem tampouco a industrialização, condições sine qua non para o desenvolvimento. O receituário dados aos países explorados pelas entidades financeiras internacionais e às nações subdesenvolvidas é sempre o mesmo, ou seja, desregulamentar e diminuir o tamanho do Estado em nome de uma suposta eficiência do setor privado.

Se a moeda de troca para tais mudanças no setor político-econômico for mais uma ditadura, os Marines estarão por perto, dando cobertura aos governos fantoches para garantir que nenhuma insurgência atrapalhe seus interesses. O resultado de políticas neoliberais e de governos títeres dos interesses dos EUA é o que vemos no Haiti. A hecatombe que se abateu em forma de terremoto sobre aquele país das Antilhas serviu para agravar ainda mais o caos social ao qual já estão acostumados os haitianos.

Haiti hoje: destruição, morte e fome

O desembarque de tropas estadunidenses em território haitiano, colocando ordem na ajuda assistencial, esconde interesses geopolíticos que se sobrepõem à catástrofe que se abate sobre aquele povo. Além do desembarque de comida, medicamentos e de toda logística humanitária, estão em jogo Cuba e Venezuela, podendo ser o Haiti uma futura cabeça de ponte no Caribe, um posto avançado situado estrategicamente entre os dois supracitados países destinado a se interpor entre aquilo que representam para a América Latina; sobretudo num momento em que as direitas ensaiam uma reação em todo o continente latino-americano, capitaneadas pelos falcões de Washington.

No texto anterior publicado neste blog, o autor indaga o que ocorrerá quando a imprensa não mais tiver olhos para o Haiti. O que ocorrerá quando as equipes de imprensa que hoje fazem cobertura cerrada voltarem para seus países sede ou para outros a fim de cobrirem outros eventos? Se atualmente turbas famintas que saqueiam e avançam sobre os donativos são contidas a bala, o que será quando as câmeras que denunciam abusos se forem? Infelizmente o que surgirá dos escombros haitianos pode ser um pais ainda mais dominado pelos interesses estrangeiros e escravizado pela geopolítica. Seguirá a política de repressão social e de esvaziamento econômico, continuará sua vocação de importador de tudo, montador de artigos destinados a abastecer o mercado exterior e continuará dominado por governos ditatoriais representantes de interesses estrangeiros.

Comentários

fabio henrique disse…
nossa eu sou brasileiro e sou muito solidario com o que atualmente estar acontecendo com esse pais, por isso eu gostaria que todos os materias para piossiveis fatos que acontecem para que eu possa realizar um documentario aqui no brasil...
sporte.fabio@gmail.com
http://www.youtube.com/watch?v=I532p54c38Q
Anônimo disse…
NAUM 3:1 ESTA NA BIBLIA O PQ ACONTECEU ISSO NO HAITI