terça-feira, 29 de dezembro de 2009

MUDANDO ESTRELAS DE LUGAR



Por Cléber Sérgio de Seixas

Velhos clichês sempre ressurgem quando um ano cede lugar a outro. Ouvem-se frases como “o próximo ano com certeza será melhor” ou “neste ano vou realizar meus sonhos”. Uma antiga canção, que já foi muito repetida por ocasião dos festejos de fim de ano, dizia o seguinte: "Este ano quero paz no meu coração. Quem quiser ter um amigo, que me dê a mão. O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos sem parar. Nossos passos pelo chão vão ficar. Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter...

Se os homens vivem de razão e sobrevivem de sonhos, estes funcionam como molas propulsoras dos indivíduos, impulsionando-os na direção de seus objetivos e projetos. Os versos da canção supracitada fazem menção às marcas do que se foi interagindo com os sonhos que permeiam o imaginário de todo ser humano.

Se o ano seguinte será bom ou ruim, se os projetos se concretizarão ou não, dependerá não somente dos sonhos, mas também do que foi feito no ano anterior, das atitudes pregressas, sempre geradoras de marcas e conseqüências para o porvir. Por exemplo, se alguém se endividou para não fazer feio nos festejos natalinos e naqueles que marcam a passagem, é possível que nos primeiros meses do ano seguinte sinta no bolso os efeitos decorrentes do endividamento, o que poderá ou não adiar os planos para o ano que se inicia. Oxalá a conta fosse zerada junto com o fenecer do período de trezentos e sessenta e cinco dias a que chamamos ano, e só fossem computadas as atitudes positivas, deletando-se os equívocos. Porém, o caráter de um indivíduo e aquilo que o cerca resultam não somente dos acertos, mas também dos erros, e os dias vindouros farão sua colheita na lavoura dos passados. Sempre haverá uma reação correspondente a toda ação que empreendermos. É impossível dissociar passado e futuro. Assim sendo, eis a indagação que não se cala: somos e seremos o que fizemos ou o que almejamos ser?

É oportuno lembrar como dois judeus entendiam as relações entre passado e futuro. Um deles, chamado Sigmund Freud, procurava escavar o passado do indivíduo, sobretudo na infância, a fim de encontrar nele eventos que, de alguma forma, explicassem os desequilíbrios mentais observados no presente. Maus tratos, acidentes ou frustrações deixam marcas indeléveis na psiquê humana. Saindo do ponto de vista do indivíduo para o da coletividade, outro judeu, chamado Karl Marx, procurou explicar como as interações que os indivíduos mantinham entre si enquanto produtores e consumidores, relações econômicas, eram a estrutura sobre a qual se erigiriam todas as superestruturas pertinentes às relações humanas, tais como a moral, a religião, a cultura, o direito etc. Trata-se do que ficou conhecido como Materialismo Histórico, no qual Marx procurava conhecer os vários modos de produção através do resgate de suas histórias para melhor entendê-los.

Assim, tanto em Freud quanto em Marx, a história, seja individual, seja coletiva, assume importância crucial para entendermos o que somos e para onde iremos, ou seja, conhecer o que fomos para entender o que somos e planejar como seremos.

Tempo é História, ou melhor, a História é a ciência que se ocupa de analisar a interação das ações dos homens com o mundo no tempo. Portanto, nem só de presente vive o homem, mas também de passado. Contudo há uma tendência de perenizar o presente a fim de convencer a todos a aproveitar o dia (Carpe Diem), fechando os olhos ao passado e às conseqüências das ações do presente no futuro.

Nesse fim de ano como em tantos outros não faltam exortações e esperanças de um futuro melhor baseadas em ações promotoras da paz e da justiça e no otimismo. Contudo tais esperanças e exortações se tornarão inócuas se não houver no presente uma mudança de paradigmas com um olhar para os erros que ficaram para trás a fim de não repeti-los. Tal como o mitológico deus grego Jano que tinhas duas faces, uma para enxergar frontalmente e outra para ver atrás, devemos ter um olhar tanto para o futuro quanto para o passado.

Alguns apontam como cores do ano novo o branco, o vermelho, o amarelo - cada uma capaz, segundo a tradição, de atrair dinheiro, amor e paz. Mas a crendice popular esqueceu de incluir também o verde, cor com a qual é identificada a esperança. De fato, a cor verde evoca a renovação da natureza, o brotar e a novidade. Diz o ditado que quem espera sempre alcança. Sob o prisma de tal assertiva, o que é a esperança? Encontramo-la no dicionário como sinônimo de expectativa otimista. Esperança é meramente esperar pensando positivamente? Até quando e como se deve esperar?

No livro Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire tentou responder da seguinte forma: “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero”. Já em Pedagogia da Esperança, o pensador e pedagogo diz o seguinte: “Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas, prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão. Prescindir da esperança que se funda também na verdade como na qualidade ética da luta é negar a ela um dos seus suportes fundamentais. O essencial como digo mais adiante no corpo desta Pedagogia da Esperança, é que ela, enquanto necessidade ontológica, precisa de ancorar-se na prática. Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã”. Portanto a esperança deve vir associada com movimento, com ações que promovam não só o bem estar individual como também o coletivo. Lutar, mover-se com esperança, é esperar. A esperança que se aferra à ação não se converte em espera vã. Cruzar os braços, esperar e conformar-se são atitudes de pessoas preguiçosas e acomodadas, aquelas que costumam dizer “vamos deixar como está para ver como fica”.

Também é comum nesta época do ano ouvir frases parecidas com esta: “se Deus quiser, neste ano...” Se a expectativa não é alcançada diz-se: “não foi da vontade de Deus...”. Assim, debita-se na conta do Criador enquanto a criatura se exime de responsabilidades. Pode ser que o Criador fique assistindo a criatura colher o que ela própria semeou. Talvez a providência divina se manifeste na própria ação do indivíduo e não somente em circunstâncias miraculosas nas quais não há o dispêndio de esforço por parte do mesmo.

Se o destino estiver escrito nas estrelas, urge reescrever o mapa astral, mudando estrelas de lugar. O indivíduo não é tão poderoso quanto supõem os manuais de auto-ajuda. Por outro lado não é tão fraco que não possa estabeleçer diretrizes para nortear sua vida e conduzí-lo a seus objetivos. É pouco ficar apenas nas lentilhas, nos banhos de cheiro, nos pés de coelho e na dependência de toda sorte de simpatias, pois, como diz o adágio, se ferradura desse sorte, burro não puxaria carroça.

Se erros foram cometidos no ano que passou ou projetos não foram concretizados, ainda resta tempo para tal. Se o que é velho ficará para trás ou não, se o ano será novo ou tão velho quanto o que passou, dependerá, em grande parte, de nós mesmos. Convém deixar medos, mazelas, fracassos, enfim, tudo o que é velho, para trás, fazendo novo, com nossas próprias mãos, o ano que se inicia, e tendo como norteadora a esperança.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

METRÔ É A SOLUÇÃO


Celso de Moura Reis - engenheiro

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) apresentou a proposta de implantação do “BRT” (corredor rápido de transporte), que prevê pistas exclusivas nas principais avenidas da capital destinadas ao uso dos ônibus. A implantação do “BRT” vai requerer obras pesadas (travessias, viadutos) e isolamento de pistas nas avenidas, que serão atendidas pelo sistema de transporte rápido. O caótico trânsito da capital mostra que somente a implantação do sistema “BRT”, embora seja uma boa proposta, não vai solucionar o problema do deficiente transporte coletivo em BH, devido a uma constatação muito clara: as saturadas avenidas vão ficar com pistas ainda mais estranguladas, em função da exigência de faixas exclusivas destinadas ao deslocamento dos ônibus do sistema “BRT”.

Mesmo admitindo a redução do número de veículos particulares nas avenidas depois da implantação do sistema, o trânsito continuará congestionado. O aumento da frota de veículos é muito superior à capacidade do poder público de investir em melhoria da infraestrutura viária da cidade. As alterações recentes feitas na Av. Nossa Senhora do Carmo, mostram que priorizar o transporte coletivo requer ações mais abrangentes do que o aumento da frota de ônibus e o uso de faixas preferenciais para o transporte público nas avenidas.

Por outro lado, a implantação das linhas 2 e 3 do metrô – projeto ainda acanhado para o porte da cidade – vai atender de forma muito mais efetiva ao transporte público. O metrô com trechos subterrâneos não restringe faixas nas estreitas avenidas e nem interfere no fluxo de veículos, propiciando o deslocamento de um maior número de pessoas em um transporte coletivo mais rápido, seguro, menos poluidor e de melhor qualidade, resultando em melhoria da mobilidade. A combinação do metrô com o veículo leve sobre trilhos (VLT) que poderia ser implantado para acesso às cidades da grande BH, seria certamente uma solução mais adequada para o futuro de BH, de menor custo operacional e menos poluidora, permitindo de fato a redução do excessivo trânsito de veículos particulares e ônibus nas principais artérias de transporte da cidade e regiões próximas.

Se a implantação do metrô (linhas 2 e 3) requer altos investimentos, mais caro ainda é não implantá-lo. Basta analisar os gastos com combustíveis (veículos particulares e ônibus), manutenção da estrutura viária da cidade, tempo perdido em congestionamentos, excesso de poluição provocada pelo trânsito de veículos e gastos pesados decorrentes dos acidentes no trânsito da capital. A todos esses custos devem ser somados ainda os altos investimentos necessários à implantação do sistema “BRT” – que se implantado de forma isolada não soluciona o problema do transporte coletivo deficiente.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 28/12/2009

A DECISÃO DE 2010

Por Eduardo Guimarães

Você pode estar lendo este texto por tê-lo procurado no blog que edito, por tê-lo recebido por e-mail de alguém que conhece ou por tê-lo encontrado em uma página da internet que o reproduziu. Seja como for, sugiro que leia com atenção, mesmo que seja para, ao fim da leitura, descartar o que leu. Mas, ao menos, saberá de uma teoria que, se for correta, poderá mudar sua vida.


Escrevo sobre uma decisão que o Brasil terá que tomar em 2010 que equivalerá às maiores decisões que já teve que tomar em sua história. Além do fato de que em anos de eleição para presidente o que se coloca em jogo é sempre o futuro de todos, nesta eleição presidencial que se aproxima o que estará em jogo é o futuro de uma nação que está sendo vista, pelo mundo, como a grande potência emergente do século XXI.


Não faltam matérias na imprensa internacional falando do protagonismo brasileiro, das riquezas imensas que este país detém sobre e sob a terra e da força de sua economia, forjada, sobretudo, por um dos maiores mercados internos do planeta.


O Brasil assumiu esse protagonismo na cena internacional não só por graça dos números de sua economia, que são excelentes no contexto de um mundo mergulhado na maior crise econômica mundial em quase um século, mas pela mudança do paradigma econômico da nação, que passou da antiga teoria de que era preciso sofrer com recessão e desemprego em momentos de crise para atingir o paraíso em algum lugar incerto do futuro para uma mentalidade exatamente oposta...


A crise econômica internacional serviu para mostrar ao mundo como um país que até há pouco tempo vivia mergulhado em cataclismos financeiros pôde se tornar uma das economias mais sólidas do mundo em bem menos de uma década, ou seja, investindo num mercado de consumo de massas e criando ambiente propício a investimentos, sendo o Estado o grande indutor do processo, além de colocar o bem estar social como meta prioritária.


A mudança de paradigma deste governo para o anterior foi dramática, mas, por razões políticas, para não contrariar os interesses do grupo político que supostamente defende a hegemonia do capital nesta parte do mundo e que tem inegável força para conturbar o bom momento brasileiro, muitos analistas fazem concessões a um período obscuro da história que terminou em 2002, período no qual o país foi saqueado por meros despachantes dos interesses de corporações estrangeiras convertidos pelo povo em governantes graças a uma máquina midiática de propaganda que conseguia direcionar esse povo para suas escolhas políticas – e que parece ter perdido esse poder.


Eis que, sob nova concepção de desenvolvimento, o país mergulha em uma rota luminosa rumo ao futuro, cheio de promessas e possibilidades. Todavia, sobre si se estende uma sombra ameaçadora que diariamente teima em dizer o tipo de mentalidade que, até 2002, amarrava o Brasil.


Está muito mais do que claro que aqueles que governaram este país até 2002 são contrários aos motes desenvolvimentistas que elenquei acima (mercado de consumo de massas, indução estatal do desenvolvimento e bem estar social), haja vista que, durante o desenrolar da crise deste ano, foram contra a pregação do governo Lula para que os brasileiros consumissem, foram contra cortes de impostos, concessão de crédito pelos bancos oficiais enquanto o sistema bancário se retraia, continuam contra o Bolsa Família reiterando que é “esmola” e pedindo “portas de saída” àqueles que mal acabaram de entrar... Etc.


Você tem, portanto, dois projetos na mesa, caro leitor. No ano que vem, começa um novo ciclo para o Brasil – pós crise, com economia crescendo fortemente e uma imensa riqueza natural a explorar e dividir entre a sociedade e os entes federativos. Caberá a todos os brasileiros a escolha do país que seremos.


Hoje, o Brasil ainda é um país de renda extremamente concentrada tanto do ponto de vista racial – ou, sendo políticamente correto, “étnico” – quanto por classe social e região do país. Trocando em miúdos: devido à histórica má distribuição da riqueza e dos investimentos, respectivamente os negros e os descendentes de negros, de classe média para baixo e do Norte e Nordeste foram prejudicados em momentos de crescimento econômico que se mostraram tão intensos quanto excludentes.


Temos uma nova chance, a partir de 2010. O Brasil precisa distribuir os recursos do pré-sal de forma equânime entre seus entes federativos, de forma a reparar outros momentos em que regiões do país foram alijadas das conquistas nacionais como a indústria e os investimentos. Até porque, o subsolo brasileiro pertence à União e porque a riqueza petrolífera ora descoberta foi encontrada graças aos impostos de todos nós.


Em minha mente, está muito claro que decisão devo tomar na escolha do governo que assumirá em 1º de janeiro de 2011. Quero continuidade.


O caminho foi encontrado e está demarcado para que o Brasil se redesenhe nos próximos anos, para que a renda seja melhor distribuída, para que as tensões sociais sejam mitigadas via maior sensação de bem estar social das camadas até aqui oprimidas e degradadas da sociedade, que vêm mergulhando num processo de radicalização desesperada devido a uma falta de perspectivas que, agora, pode ser revertida.


A decisão eleitoral de 2010, portanto, leitor, garanto-lhe que será, talvez, a mais importante de sua vida. Tome-a pensando na única forma de você realmente sair ganhando, que não é pensando em seus supostos interesses de classe social, de etnia ou de região do país, mas no interesse de todos, pois só este não exclui ninguém.


É idílio de um setor aristocrático e insensível da sociedade acreditar que é possível manter um modelo social que segrega quase todos em prol do gáudio de uma ínfima minoria étnico, social e geográfica. Além de o país ter que carregar o peso morto de dezenas de milhões de almas empobrecidas e ignorantes incapazes de se adequar às exigências das sociedades modernas, essas massas acabam tendendo à violência devido ao constante drama da falta de tudo, sobretudo de dignidade.


Está claríssimo para mim, vendo e ouvindo o que o grupo político que governava antes diz em seus grandes jornais, revistas, tevês, rádios e em seus mega portais de internet, que tal grupo não se emendou, que continua acreditando no formato de sociedade que sustentou e que fracassou, um formato de exclusão social e de consumo de castas, com a maioria tendo que se contentar meramente com pão e circo.


A decisão de 2010, para mim, além de ser a mais importante decisão política de minha vida, será também a mais fácil de tomar.



Fonte: Cidadania.com

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Jornal Le Monde elege Lula como o "Homem do Ano"

Redação Carta Maior

O jornal francês Le Monde escolheu o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva como o “Homem do Ano”, apontando-o como responsável pelo renascimento do Brasil como um gigante na cena mundial. É a segunda homenagem deste tipo que Lula recebe neste final de ano. O jornal espanhol El País também elegeu o presidente brasileiro como a “Personalidade do Ano” e a revista The Economist dedicou um número especial ao Brasil, destacando na capa o Cristo Redentor como um foguete decolando rumo ao espaço.

Na homenagem divulgada nesta quinta-feira (24), o Le Monde afirma: “Embandeirado dos países emergentes, mas também do mundo em desenvolvimento do qual se sente solidário, o presidente brasileiro, de 64 anos, colocou decididamente seu país em uma dinâmica de desenvolvimento".

Na avaliação do jornal francês, “o presidente brasileiro, que no fim de 2010 deixará a presidência sem ter tentado modificar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato, soube continuar sendo um democrata, lutando contra a pobreza sem ignorar os motores de um crescimento mais respeitoso dos equilíbrios naturais". E acrescenta:

"Presidente do Brasil desde 1º de janeiro de 2003, ao fim de dois mandatos terá dado uma nova imagem a América Latina". "A consagração de Lula acompanha a renovação do Brasil", destaca a publicação que define assim o presidente brasileiro: "Carismático, de sorriso fácil e jovial, Lula, nascido em 27 de outubro de 1945 no estado de Pernambuco, ex-torneiro mecânico e sindicalista, transformou o Brasil em ator essencial do cenário internacional. Diplomacia, comércio, energia, clima, imigração, espaço, droga: tudo lhe interessa e diz respeito."

O Le Monde destaca ainda que Lula foi o primeiro presidente da América Latina a ser recebido pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na Casa Branca. O jornal aponta também como destaques da ação do presidente brasileiro a liderança exercida dentro do G20, a aspiração do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e a condição de primeiro sócio comercial da China.

Já o espanhol El País destaca a gestão do presidente brasileiro dizendo: “Quando foi eleito para um segundo e último mandato, Lula disse que o Brasil estava cansado de ser uma potência emergente e que havia chegado a hora de o país se tornar um país desenvolvido sem andar para trás outra vez. Esta é a ambição com que Lula passará à história, diz o jornal.

“Nos sete anos de Presidência, Lula fez o país avançar muito; o Brasil foi o primeiro país a sair da recessão provocada pela crise econômica mundial, seus índices de crescimento ao longo deste período tem sido muito superiores aos das duas décadas anteriores, a pobreza extrema caiu de 35% em 2001 para 24,1% em 2008, e quatro milhões de cidadãos deixaram o patamar da pobreza, incorporando-se às classes médias que já superam a casa dos 50% da população".

Fonte: Carta Maior

O ANIVERSARIANTE ESQUECIDO


Por Cléber Sérgio de Seixas

A ceia está pronta. Comensais ávidos para degustar as apetitosas iguarias põem-se a postos depois de terem trocado presentes e votos de felicidade. O ambiente é todo enfeitado com luzes piscantes, e uma árvore decorada com bolas coloridas, presentes e pequenos adereços domina o centro da sala. Entretanto, mais sobressai o sorridente homem com a fantasia vermelha arrastando seu enorme saco cheio de presentes. Este homem encarna a alegria das crianças, e não se cansa de repetir o irritante mantra: “ho, ho, ho”. Em segundo plano vê-se um presépio em miniatura – adereço ofuscado diante da presença do homem de vermelho.

Esta cena poderia ter como palco qualquer residência se for constatado que a comemoração do Natal se repete no 25 de dezembro em praticamente todo os lares cristãos mundo afora. No entanto, o que poucos lembram é que tal comemoração é na verdade uma grande festa de aniversário, onde o aniversariante é ninguém menos que o próprio filho de Deus, cujo nascimento, segundo a tradição cristã, visou iniciar um processo que salvaria o homem e redimi-lo-ia de seus pecados.

Este nascimento se deu de forma humilde, não como os judeus esperavam, pois esperavam-no como um rei. O pobre menino nasceu numa manjedoura, espécie de coxo onde animais comiam, local inapropriado para um rei vir ao mundo. Daí o motivo dos descendentes de Abraão ainda esperarem seu Messias, seu salvador, já que um rei dos judeus não seria concebido em meio a tanta penúria. O fausto dos festejos natalinos, portanto, contrasta com a pobreza que cercou o nascimento do menino Jesus.

Em que data isto ocorreu? A tradição responde que foi no 25 de dezembro, mas tal datação não resiste a nenhuma análise bíblica, muito menos histórica. De qualquer forma, vamos fazer de conta que Jesus Cristo tenha realmente nascido neste dia. Se o 25 de dezembro marca seu nascimento, na categoria de aniversariante não deveria ser ele o mais lembrado neste dia? Alguém se lembra de ter ido a uma celebração de aniversário e ter presenciado algum convidado ilustre receber mais honrarias que o aniversariante?

Se observarmos o enfoque comercial, constataremos que o velhinho de barba branca e roupas de esquimó, o convidado ilustre citado anteriormente, aparece diante de nossos olhos nessa época mais que o filho de Javé. Mas de onde vem esse célebre homem? Da tórrida Palestina? Com tais roupas, dificilmente teria vindo de lá. Teria sido algum conterrâneo de Cristo?

Não é objetivo deste artigo aprofundar nas origens desse notório personagem. No entanto, sabemos que ele cresceu, deixou de ser aquele gnomo de roupas verdes e se tornou o velhinho rechonchudo que aterrisou com seu trenó nos terrenos da Coca-Cola para incrementar as vendas. Tornou-se um ilustre mascote que se divertia com as crianças - alvo principal do seu marketing - e, terminadas as travessuras, se refrescava com uma garrafa do conhecido refrigerante. Entre um e outro comercial da Coca, o bom velhinho ganhou até cachê como garoto propaganda de uma certa marca de cigarros.

Vejam as cores de sua roupa! Não são as mesmas da poderosa multinacional do refrigerante? Quão bem recebido foi pelas pessoas! Grande jogada publicitária! E os presentes que “ele” doa a todos? Que achado para os comerciantes! No Natal de Papai Noel, Deus e Mamon se reconciliam. O fim de ano aquece as vendas, tendo como carro abre-alas um fantástico trenó.

Portanto, nesse como em outros Natais, Papai Noel surge apoteoticamente nos lares após ter singrado o céu a bordo de sua espetacular carruagem puxada por renas, e ter descido pela chaminé. Enquanto isso, Jesus, outrora protagonista, hoje mero coadjuvante, entra despercebido pela porta dos fundos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Imperialismo cria o seu universal soldier

Obama: Nobel da Paz ou senhor da guerra?

Por José Arbex Júnior

Em plena crise, o sistema capitalista mundial encontrou o seu universal soldier, o representante maior dos “valores democráticos ocidentais”, em nome dos quais torna-se palatável a “guerra sem fronteiras” contra o terror, a prática de invasões militares e de matanças indiscriminadas, a intervenção em qualquer parte do planeta. Barack Obama, agraciado com o Nobel da Paz, é o “imperialismo de face humana”, mais ou menos como, nos anos 60, John Kennedy, responsável pela escalada da Guerra do Vietnã, era o ícone glamourizado da barbárie. Obama, aliás, já tem o seu próprio Vietnã: após o gigantesco fiasco no Iraque, a Casa Branca sabe que tampouco pode vencer a Guerra do Afeganistão, como não puderam, antes dela, os impérios britânico e soviético. Pior: a guerra já ultrapassou as fronteiras afegãs e envolve diretamente o Paquistão, país dotado de arsenal nuclear. Apesar disso, Obama estuda o possível envio de novos 60 mil soldados ianques para a região.

Um ano após a sua eleição à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama mantém, fundamentalmente, a mesma política externa de George Bush, exceto pelo fato de que o atual presidente, ao contrário do troglodita que o antecedeu, aceita manter o diálogo com os governos “aliados” europeus. Obama tem consciência do valor ideológico e estratégico da Otan, uma aliança que perdeu a sua razão de ser com o fim do “bloco socialista” e da Guerra Fria, mas que se mantém como guardiã dos interesses imperialistas dos Estados Unidos e da Europa dita ocidental (particularmente, Grã-Bretanha, Alemanha e França). Como ícone da “sagrada família” imperialista ocidental, Obama faz manobras provocadoras contra a Rússia (sede do império euroasiático eslavo) e cria áreas de atrito até mesmo com a superaliada China. As ameaças de punição contra o Irã e a Coréia do Norte fazem parte desse jogo, assim como a tentativa de instalar mísseis da Otan em antigos países do Leste europeu, na fronteira com a Rússia.

Mas o universal soldier Barack Obama sabe promover a escalada com a fala mansa e jeito soft. Numa reunião de cúpula do Oriente Médio, realizada em junho, no Cairo, Obama inicia o seu discurso em árabe, com a tradicional saudação As-Salam Aleikum, e compromete o seu governo com a criação de um Estado palestino viável. Mas, em pouco tempo, a euforia cede lugar à frustração. Obama nada faz para impor ao governo israelense a suspensão total da expansão dos assentamentos nos territórios palestinos ocupados, exceto pelos patéticos apelos de seu assessor George Mitchell, ainda ssim mitigados pelos elogios ao primeiro-ministro Benyamin Netaniahu, feitos pela secretária de Estado Hillary Clinton. Sequer o já famoso relatório sobre os crimes cometidos pelo exército israelense em Gaza, feito por Richard Goldstone, enviado especial da ONU para a Palestina, é suficiente para levar Obama a adotar medidas efetivas contra Israel. Ao contrário, os diplomatas estadunidenses fazem o possível para evitar a análise do Relatório Goldstone pelo Conselho de Segurança da ONU.

A escalada militarista da era Obama atinge diretamente a América Latina. Na Cúpula das Américas, realizada em Trinidad e Tobago, entre 17 e 19 de abril, Obama adota uma postura simpática e amigável, mesmo quando submetido a um bombardeio de críticas. Recebe, com sorrisos, uma cópia do livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, das mãos do presidente venezuelano Hugo Chávez. Ouve e anota denúncias de tentativas de assassinato do presidente boliviano Evo Morales, assim como um longo relato, feito pelo ex e atual presidente da Nicarágua Daniel Ortega, sobre as atrocidades cometidas pela CIA, nos anos 80, contra o regime sandinista. Em seu discurso, assegura que já se foram os tempos em que Washington se considerava na posição de determinar os rumos do hemisfério ocidental, e condena explicitamente “qualquer esforço de subversão violenta de governos democraticamente eleitos”. Como no Cairo, seu discurso dá margem a esperanças de mudanças reais.

Fonte: Revista Caros Amigos - edição de dezembro de 2009

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

ESTAS SINISTRAS FESTAS DE NATAL

Por Gabriel García Marquez*

Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há dois mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi. Cerca de 954 milhões de cristãos – quase 1 bilhão deles, portanto – acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém. Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como acontece na Espanha, com toda razão –, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos. No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo. Naquele dia – como diziam os professores jesuítas na escola primária –, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos trinta anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve. Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século XVIII, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-bretanha e à França. Em seguida, chegou aos EUA e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar. No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções mal feitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala. Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há quinze anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir. É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.

Não é raro, como aconteceu freqüentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças – vendo tantas coisas atrozes – terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.


*Publicado originalmente pelo jornal espanhol 'El Pais', em 24 de dezembro de 1980 Tradução: Emir Sader

Fonte: Agência Carta Maior

domingo, 20 de dezembro de 2009

QUATRO 'ERRES' CONTRA O CONSUMISMO


Por Leonardo Boff

A fome é uma constante em todas as sociedades históricas. Hoje, entretanto, ela assume dimensões vergonhosas e simplesmente cruéis. Revela uma humanidade que perdeu a compaixão e a piedade. Erradicar a fome é um imperativo humanístico, ético, social e ambiental. Uma pré-condição mais imediata e possível de ser posta logo em prática é um novo padrão de consumo.

A sociedade dominante é notoriamente consumista. Dá centralidade ao consumo privado, sem auto-limite, como objetivo da própria sociedade e da vida das pessoas. Consome não apenas o necessário, o que é justificável, mas o supérfluo, o que questionavel. Esse consumismo só é possível porque as políticas econômicas que produzem os bens supérfluos são continuamente alimentadas, apoiadas e justificadas. Grande parte da produção se destina a gerar o que, na realidade, não precisamos para viver decentemente.

Como se trata do supérfluo, recorrem-se a mecanismos de propaganda, de marketing e de persuasão para induzir as pessoas a consumir e a fazê-las crer que o supérfluo é necessário e fonte secreta da felicidade.

O fundamental para este tipo de marketing é criar hábitos nos consumidores a tal ponto que se crie neles uma cultura consumista e a necessidade imperiosa de consumir. Mais e mais se suscitam necessidades artificiais e em função delas se monta a engrenagem da produção e da distribuição. As necessidades são ilimitadas, por estarem ancoradas no desejo que, por natureza, é ilimitado. Em razão disso, a produção tende a ser também ilimitada. Surge então uma sociedade, já denunciada por Marx, marcada por fetiches, albarrotada de bens supérfluos, pontilhada de shoppings, verdadeiros santuários do consumo, com altares cheios de ídolos milagreiros, mas ídolos, e, no termo, uma sociedade insatisfeita e vazia porque nada a sacia. Por isso, o consumo é crescente e nervoso, sem sabermos até quando a Terra finita aguentará essa exploração infinita de seus recursos.

Não causa espanto o fato de o Presidente Bush (nota do blog: este texto foi escrito em 09/05/2008) conclamar a população para consumir mais e mais e assim salvar a economia em crise, lógico, à custa da sustentabilidade do planeta e de seus ecossistemas. Contra isso, cabe recordar as palavras de Robert Kennedy, em 18 de março de 1968: ”Não encontraremos um ideal para a nação nem uma satisfação pessoal na mera acumulação e no mero consumo de bens materiais. O PIB não contempla a beleza de nossa poesia, nem a solidez dos valores familiares, não mede nossa argúcia, nem a nossa coragem, nem a nossa compaixão, nem a nossa devoção à pátria. Mede tudo menos aquilo que torna a vida verdadeiramente digna de ser vivida”. Três meses depois foi assassinado.

Para enfrentar o consumismo urge sermos conscientemente anti-cultura vigente. Há que se incorporar na vida cotidiana os quatro “erres” principais: reduzir os objetos de consumo, reutilizar os que já temos usado, reciclar os produtos dando-lhes outro fim e finalmente rejeitar o que é oferecido pelo marketing com fúria ou sutilmente para ser consumido.

Sem este espírito de rebeldia consequente contra todo tipo de manipulação do desejo e com a vontade de seguir outros caminhos ditados pela moderação, pela justa medida e pelo consumo responsável e solidário, corremos o risco de cairmos nas insídias do consumismo, aumentando o número de famintos e empobrecendo o planeta já devastado.

Fonte: site do Leonardo Boff

DIRCURSO DE LULA NA COP 15

Por Cléber Sérgio de Seixas

No dia 18/12 último, Lula fez um discurso histórico em Copenhague, Dinamarca, durante a 15ª Conferência da ONU sobre Clima. Talvez o clima frio do país tenha esfriado os corações dos que alí estavam para tomar decisões acerca do futuro do planeta, bem como lhes tenha anestesiado as consciências a respeito das trágicas consequências que podem advir da falta de ação no presente. Assim sendo, o presidente puxou as orelhas de todas as autoridades presentes e reafirmou o direito das nações em processo de desenvolvimento de seguirem se industrializando e se desenvolvendo, ao mesmo tempo frisou que quem mais polui são as nações ricas, que primeiro se lançaram na Revolução Industrial e se desenvolveram.

Na verdade não é um vídeo, mas um áudio do discurso ao qual acrescentei algumas imagens estáticas, visto que não é possível inserir arquivos de áudio no blog.

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sábado, 19 de dezembro de 2009

ESVAZIAR PARA ENCHER



Por Cléber Sérgio de Seixas

Os antigos mestres do Budismo Zen propunham a seus discípulos problemas insolúveis, como por exemplo: "Qual é o som de uma das mãos ao bater palmas?". Eram os chamados Koans, cuja proposição tinha como objetivo fazer com que os discípulos esvaziassem suas mentes, esquecessem o que aprenderam para permanecerem abertos a novas descobertas. Para permanecer cheio seria necessário esvaziar-se - neste contexto o permanecer cheio pode ser entendido como sinônimo de permanecer renovado, atualizado, tal como uma caixa d’água que, para ter suas águas sempre renovadas, precisa estar sempre fluindo. A filosofia taoísta tem como um de seus ícones o Tai Chi, simbolizado por um círculo cujas metades, uma preta e outra branca, Yin e Yang, bem e mal, céu e terra, representam os opostos interdependentes do universo, cuja coexistência harmoniosa garantiria o equilíbrio do universo. Uma ilustração do principio que norteia o Tai Chi é o movimento do pedal de uma bicicleta, isto é, enquanto um pedal vai, outro vem; um não virá se o outro não for. Partindo deste princípio, não há ignorância sem sabedoria; não há luz sem trevas, se esta última for entendida como ausência de luz; não há encher sem esvaziar. Se os pedais não cederem mutuamente, o deslocamento do ciclista não ocorrerá. Assim é necessário cessão de ambas as partes para que haja movimento.

Princípio semelhante encontra-se na filosofia hegeliana. Hegel, filósofo alemão, foi um dos pais da dialética, termo grego cujas raízes etimológicas são as mesmas da palavra diálogo, onde diá=entre e logos=palavra, discurso. Assim como o diálogo é um discurso no qual haverá pelo menos dois pólos, duas partes envolvidas, a dialética hegeliana pressupõe que no universo há uma constante interação de entre pólos distintos, tese e antítese, que se encontram em constante tensão até que atingem um ponto de superação, no qual a tensão se desfaz e se chega a um ponto de equilíbrio que Hegel chama de síntese. Posteriormente, faz-se nova tensão, desfaz-se o equilíbrio, e a dialética prossegue sua dinâmica, tal como o movimento dos pedais da bicicleta.

Não precisamos ser budistas, taoístas ou conhecer em profundidade a dialética de Hegel para aplicar em nosso cotidiano alguns dos princípios que norteiam tais filosofias. Se nos atermos ao nosso dia-a-dia, perceberemos que em várias circunstâncias somos apresentados a situações que implicam superação de paradigmas e conceitos passados. Se ao deparar com novas situações permanecermos aferrados às experiências adquiridas, as mesmas podem tornar-se empecilhos à aquisição de novos conhecimentos. Em outras palavras, precisamos muitas vezes nos esvaziar de nossa experiência, de nossa bagagem, de nosso “pré-conceito” e de nosso egocentrismo para prosseguirmos aprendendo e descobrindo.

No dia 25 que se avizinha, parte da cristandade vai, mais uma vez, comemorar o aniversário do nascimento de Cristo. Contudo, poucos percebem que em tal evento esteve implícito um processo de humilhação e de esvaziamento tendo em vista o aprendizado. Conforme a tradição bíblica, no céu estava Deus Pai. Era-lhe fácil impor leis aos homens, julgá-los e condená-los. Contudo, Deus Pai jamais fora homem e talvez não estivesse tão confortável em tal posição e resolveu passar pelas mesmas experiências pelas quais os homens passam, experiências de tristeza, alegria, dor, ira, humilhação etc. Deus tornou-se homem na pessoa do Cristo para, dentre outras coisas, conhecer o viver humano com suas particularidades. Podemos concluir então que Deus Pai deu um exemplo de humildade quando se tornou um simples homem, Jesus. Indaguemos a nós mesmos se estaríamos dispostos a descer de nosso salto alto em determinadas situações, se somos os que sempre têm a razão, se nos consideramos sempre superiores aos outros, os mais inteligentes, os que nunca têm a aprender, ou os que sempre têm a ensinar. Paulo apóstolo considerou Jesus como expoente no quesito de se auto-esvaziar, tanto que escreveu: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele..., a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2:5,7,8).

O assim chamado Natal, para os cristãos que o consideram em sua essência, não deve ser apenas ocasião de desfrute de banquetes, de consumismo exacerbado ou troca de presentes, mas oportunidade de refletirmos que o aniversariante era Deus se humilhando, se esvaziando para aprender a ser homem.

As águas do nosso conhecimento devem ser tais como as de uma caixa d’água, que estão sempre se renovando, não águas turvas pela estagnação, e a humildade é uma das ferramentas promotoras de tal renovação. Saibamos pois que a rigidez excessiva, a intransigência, o “fechar-se em si mesmo” são prejudiciais a um viver harmonioso. Pode parecer óbvio, mas para encher é necessário esvaziar. E você, leitor, já se esvaziou hoje?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A DECISÃO DE AÉCIO NEVES


Por Mauro Santayana

Quando, instado por importantes personalidades da sociedade brasileira, entre elas líderes políticos regionais, a candidatar-se à sucessão presidencial, Aécio Neves sugeriu consultas prévias às bases partidárias. Seria a forma mais democrática de escolha. Não deveria o partido, que surgiu da dissidência do PMDB, em oposição ao mando do governador de São Paulo, Orestes Quércia, ficar submetido à vontade de duas ou três personalidades paulistas, como vinha ocorrendo desde a Presidência de Fernando Henrique.

Em uma Federação, os diretórios regionais devem ter o direito de expor suas ideias e suas preferências, de acordo com as condições políticas locais. Não podem transformar-se em caudatários resignados de um diretório em particular. O problema não houve em 1995, porque o PSDB não elegeu o sociólogo; quem o elegeu foi Itamar Franco. O PSDB não o elegeria, sem o claro apoio do presidente da República, que dispunha de prestígio equivalente ao do atual chefe de Estado.

Os paulistas, com Fernando Henrique à frente, se opuseram às prévias, ao perceber que o governador mineiro as venceria facilmente. Aécio, nas visitas esporádicas aos estados, reunia poderosas alianças regionais, em torno dos diretórios de seu partido. Se realizadas, as consultas confirmariam a tendência já registrada. Por isso, Serra, Fernando Henrique e Geraldo Alckmin não aceitaram a consulta.

Não aceitaram a consulta, nem tiveram a coragem de dizer ao governador de Minas que pretendiam impor a candidatura paulista. Interessava-lhes manter as coisas bambas até o prazo final para a filiação partidária, de maneira a impedir que, se o desejasse, Aécio aceitasse disputar a Presidência por outras legendas, que lhe eram oferecidas – entre elas, a do próprio PMDB. Mas ele preferia que sua candidatura se fizesse de baixo para cima, e contava com as prévias.

Não convinha ao governador de São Paulo, nem a seus aliados paulistas, assumir a posição de anti-Lula, conforme percebeu argutamente o senador Pedro Simon, no momento em que o presidente dispõe de altíssimo índice de popularidade, registrado por todos os institutos de pesquisa. Serra preferia fazê-lo no ano próximo, já que previa dificuldades na economia nacional, que trouxessem problemas políticos para o presidente – e de eventuais denúncias contra o PT, tão comuns em tempo de eleição. Ao recusar as prévias, e diante do pronunciamento de Aécio, José Serra já é, na percepção do povo brasileiro, o candidato da oposição, o anti-Lula.

O senador Sérgio Guerra, que manifestara a convicção de que Aécio dispunha de maior capacidade de ampliação de alianças regionais, voltou a elogiar a coragem moral do mineiro, reafirmando que ele será um grande presidente da República se vier a ocupar o cargo. Se o quadro se mantiver, com a candidatura de Serra, o grande beneficiário será Ciro Gomes. Relembre-se que as mesmas pesquisas que dão, hoje, preferência a Serra atribuem a uma chapa Aécio-Ciro 35% de intenções de voto.

De maneira diferente, mas com os mesmos fundamentos, repete-se, nas eleições do ano próximo, o problema registrado em 1930. Os paulistas estavam convencidos de que a sua supremacia econômica significava, necessariamente, seu predomínio político sobre a Federação. Em razão disso, vetaram a candidatura do então governador de Minas, Antonio Carlos – o que acabou conduzindo o gaúcho Getulio Vargas ao poder.

Cabe ao partido decidir em convenção nacional se ratifica o nome de Serra, ou se aceita outra postulação. O tempo é curto, mas ainda não se esgotou. E só a convenção partidária é soberana.

O governador de Minas tem seu prestígio político nacional robustecido pela coragem da decisão de ontem. Minas terá grande peso no pleito do ano que vem, e acompanhará a sua liderança, na hipótese de que não seja candidato à Presidência da República, e sim ao Senado. A leitura atenta da carta que enviou ao partido não o compromete em favor de qualquer candidatura. Como registrou a imprensa, ele não mencionou o nome do governador de São Paulo. A nota de Serra, nos termos em que foi redigida, era esperada. Ele tentou, com os elogios a Aécio, e em atitude diplomática, convencer os diretórios regionais do PSDB de que a agremiação é “democrática”.

O anúncio de Aécio não encerrou a questão, nem decidiu o pleito. É mais um movimento do processo sucessório, que promete ainda fortes surpresas.

Fonte: JBOnline

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

TENTATIVA DE FRAUDE NA CONFECOM


Por Eduardo Guimarães (visitem o blog Cidadania.com)

Eu estava conversando com o jornalista Rodrigo Vianna no plenário da Confecom agora pela manhã. Estávamos ao lado do setor da platéia onde se concentra o empresariado. De repente, o Rodrigo chama a minha atenção para um sujeito atrás dele, de crachá azul (do empresariado) votando com duas maquininhas, uma em cada mão.


Tirei a máquina fotográfica da pasta enquanto o Rodrigo me ajudava a disfarçar para que o sujeito não visse que estava sendo fotografado. Filmei e fotografei a cena, conforme vocês vêem na foto acima. Em seguida, primeiro o Rodrigo e depois eu pedimos questão de ordem à mesa e fizemos a denúnicia, mas essa mesa se recusou pôr a foto no telão e tomar medidas cabíveis.


Fica aqui meu protesto contra essa barbaridade, que ameaça deslegitimar a Conferência.

BELO MONTE, TRAGÉDIA AMBIENTAL

Rio Xingu


Por Frei Betto

Raoni, líder indígena, afirma que em 2007, ao receber a Medalha do Mérito Cultural das mãos do presidente Lula, este prometeu jamais assinar a construção da barragem de Belo Monte, no Xingu (PA).

Está tudo pronto para que, em janeiro, ocorra o leilão da hidrelétrica a ser construída no Rio Xingu. Uma das joias da coroa do PAC. Falta apenas a licença ambiental do Ibama. Devido às pressões do Planalto para que o sinal verde seja dado o quanto antes, vários peritos do Ibama já pediram demissão.

Sting, cantor britânico, esteve no Xingu na última semana de novembro para apoiar a rejeição a Belo Monte: “Sei que a obra faz sentido do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista ecológico talvez não seja uma boa ideia”, declarou ele.

Os povos indígenas do Xingu se queixam de não ter sido chamados a debater Belo Monte com o governo. O Brasil assinou a Convenção 69 da OIT, comprometendo-se a obter o consentimento prévio dos indígenas antes de tomar medidas que os afetem.

Segundo especialistas, a construção de Belo Monte fará com que 3/4 da região, conhecida como Volta Grande do Xingu, sofra drástica escassez hídrica, perda de biodiversidade (que, ali, é uma das maiores do mundo), e efeitos sobre a população local devido à redução do lençol freático, dos níveis de água e da vazão daquele trecho do rio.

Imagens de satélite identificam Volta Grande: o Rio Xingu corre para o Norte, em direção ao Amazonas e, súbito, faz uma volta de quase 200 quilômetros, dando a impressão de retornar ao Sul. Em seguida, retoma o rumo do norte, quase a fechar um anel completo. É um dos mais belos traçados fluviais do nosso planeta.

Prevê-se a construção, na Volta Grande do Xingu, de três barragens de concreto, vários canais e cinco represas, alagando áreas que abrigam, hoje, agricultura, pecuária e inúmeros igarapés que abastecem a população local. Pretende-se escavar ali o mesmo volume de terra retirado para a construção do Canal do Panamá!

Especialistas apontam que a obra é tecnicamente inviável, pois a potência instalada prevista, de 11.233 MW, só estará disponível durante três ou quatro meses do ano. O ganho de energia firme, de apenas 4.462 MW – 1/3 do total –, inviabiliza financeiramente o projeto.

Se ele for realizado, mais de 25 mil habitantes de Altamira, Transamazônica e das barrancas do Xingu serão obrigados a se mudar, condenados a uma pobreza ainda maior.

O contribuinte brasileiro é quem pagará, por meio de financiamentos do BNDES e da participação de estatais, boa parte dos custos desta empreitada de efeitos devastadores. Empresas como Chesf, Eletronorte, Furnas e Eletrosul, poderão entrar juntas ou isoladamente no leilão para a construção de Belo Monte. Assim, o contribuinte irá financiar o lucro imediato de empreiteiras, e o lucro a longo prazo das empresas mineradoras que atuam na Amazônia, as grandes beneficiárias de Belo Monte. De quebra, a nação brasileira arcará com os custos ambientais.

Lula concedeu, este ano, duas audiências ao bispo do Xingu, dom Erwin Kräutler, a quem prometeu que Belo Monte “não será imposta goela abaixo.” Em carta ao presidente, o bispo frisou que, a ser construída apenas a Usina Belo Monte, é um despropósito técnico assegurar a potência prevista no projeto. A potência almejada pelos técnicos da Eletrobrás só sera alcançada se forem construídas outras três usinas rio acima (Altamira, Pombal e São Félix). Neste caso, os grandes reservatórios atingirão outros territórios indígenas demarcados e homologados, e áreas de conservação ambiental. Quem vive da pesca e da agricultura familiar perderá a base de sua subsistência.

A população a ser atingida está sendo subestimada, e as empresas e o BNDES não sabem quanto irão desembolsar para amenizar o impacto social. Ora, quem já viu uma empresa dessas deixar-se guiar por um espírito altruísta, solidarizando-se com os pobres e, em seguida, esmerando-se na promoção de obras para mitigar a miséria das famílias atingidas?

A região de Volta Grande do Xingu ficará praticamente seca com a construção da usina. A exemplo do que ocorreu com a cachoeira de Sete Quedas na construção da usina de Itaipu, também Belo Monte modificará 100 quilômetros de uma sucessão de cachoeiras, corredeiras e canais naturais.

A obra atrairá intenso fluxo migratório no rumo de Altamira, Vitória do Xingu, Brasil Novo, Anapu e Senador José Porfírio. Esses municípios não dispõem da infraestrutura necessária, nem contam com escolas e hospitais suficientes para atender a tanta gente.
O projeto promete assegurar qualidade de vida apenas para quem trabalhar nas obras de construção da usina. A população restante, cinco vezes maior, ficará na miséria, exposta à criminalidade e agredida pelos antros de narcotráfico e prostituição.

Quanto vai custar a obra? O próprio presidente da Eletrobrás fala em variações de 1 a 3 mil dólares o quilowatt instalado, o que significa um total de US$ 33 bilhões, ou R$ 60 bilhões para uma usina que ficará parada váriaos meses durante o ano.

A tarifa de energia elétrica ficará extremamente alta. Pior será obrigar o Tesouro Nacional a subsidiar a energia gerada. Nesse caso, serão penalizados mais uma vez a cidadã e o cidadão brasileiros.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 17/12/2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ARRUDA: A FASE DO AUTISMO

à esquerda, Arruda: o único governador do partido do DEMO


Por Leandro Fortes

Eu era repórter da Zero Hora, em Brasília, e presidente do Comitê de Imprensa do Palácio do Planalto, em setembro de 1992, quando Fernando Collor de Mello foi afastado do cargo por decisão da Câmara dos Deputados e, em seguida, exilou-se na biblioteca da Casa da Dinda, no Setor de Mansões do Lago Norte da capital federal. Setorista no Palácio do Planalto, acompanhei a agonia de Collor desde as primeiras denúncias, centradas na vida e na obra de Paulo César Farias, o PC, até a derrocada do primeiro presidente eleito depois de 21 anos de ditadura militar. De tudo que se passou naqueles tempos, o que mais me interessou foi a fase de Collor na biblioteca da Casa da Dinda. A fase do autismo.

O trauma do afastamento (o impeachment só seria votado, dois meses depois, em novembro) havia tornado a personalidade de Collor ainda mais estranha. Diariamente, ele acordava cedo, se vestia impecavelmente de paletó e gravata, se fazia acompanhar de assessores e seguranças e, então, atravessava a rua para ir à biblioteca. Isso mesmo: o cômodo não ficava na Casa da Dinda, mas numa casa menor, em frente à residência do presidente. Todo santo dia, um Collor soturno, com olhar vidrado e andar robótico, fazia aquela travessia surreal em direção a um poder imaginário.

Lá, sentava em frente a uma mesa de reuniões de madeira maciça e colocava em frente a si um daqueles aparelhos elétricos antigos que matavam insetos. Por quase dois meses, quando finalmente renunciou antes de ser cassado, o presidente do Brasil fingia governar o país em meio a consultas solitárias de títulos aleatórios de livros da família ao som de pequenos estalos provocados pela eletrocutação de moscas e muriçocas. Enquanto o mundo se desmoronava a seu redor, Collor vivia, como um autista, num universo próprio e impenetrável. E dele, ao que parece, nunca mais emergiu.

Essas impressões sobre o atual senador Collor me vieram à cabeça depois de ouvir o pronunciamento do governador José Roberto Arruda, no momento em que ele anunciou sua desfiliação do DEM. Arruda virou um espectro humano desagradável, e mesmo para jornalistas experientes não deixa de ser penoso se defrontar com a manifestação física da degradação moral de um político caído em desgraça. Desmoralizado e abandonado pela raia miúda que com ele se locupletou dos maços de dinheiro que fazem a festa no Youtube, Arruda parece ter entrado naquela fase autista de Collor. Ao falar à imprensa, não estava se dirigindo ao mundo real, mas a uma existência virtual projetada em outra dimensão. Arruda decidiu que o importante agora é continuar governando o Distrito Federal e tocar as mais de mil obras em andamento, levantadas em toda parte, com vistas aos 50 anos de Brasília, a serem comemorados em 21 de abril de 2010.

Em primeiro lugar, José Roberto Arruda não governa mais o Distrito Federal. Sua última ação administrativa foi, digamos assim, a ordem dada à Política Militar para atacar, com cavalos, cães e cassetetes, dois mil manifestantes que estavam pacificamente no Eixo Monumental de Brasília. Lá, como ilustração da anarquia que virá, um coronel PM de cabelos brancos partiu como um babuíno enfurecido para cima de um estudante e rasgou-lhe a camisa. Filmado, ordenou aos PMs que jogassem gás de pimenta nos olhos dos cinegrafistas. Arruda, ao que parece, estava na residência oficial, decidindo se contratará a cantora pop Madonna ou a banda irlandesa U2 para abrir os festejos do Cinqüentenário.

Arruda não tem mais nenhum partido em sua base de sustentação e, agora, não faz parte de nenhuma sigla partidária. Em duas semanas, perdeu 12 secretários e seis administradores regionais (das cidades-satélites e do Plano Piloto). Na Câmara Legislativa, metade dos 24 deputados distritais está envolvida no Mensalão do DEM. Arruda, que costumava inaugurar até creche de boneca, não tem mais coragem de colocar o pé para fora de casa.

Vai para o Palácio do Buritinga, sede do governo, em Taguatinga, escondido pelos vidros fumê de carros oficiais, mais ou menos como Collor atravessava a rua para mergulhar no mundo encantado da biblioteca do avô.

Entrou, definitivamente, na fase do autismo. E com ele, o DEM. O Ex-PFL, ao que parece, acredita mesmo que, ao se livrar de Arruda, irá também se livrar da pecha de partido atrasado, reacionário e corrupto.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O OCASO DAS FERROVIAS - DO APAGÃO RODOVIÁRIO À COPA 2014

Metrô de BH



Por Cléber Sérgio de Seixas


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Por ser um entusiasta do transporte ferroviário, e ao mesmo tempo um saudosista dos tempos em que as pessoas, com mais freqüência, deslizavam sobre trilhos a bordo de possantes máquinas movidas a vapor, diesel ou eletricidade, sou suspeito de abordar, novamente, a temática do transporte ferroviário no Brasil. Contudo, quero dar seqüência ao assunto, visto que já o abordei em outras ocasiões neste blog, sob outros prismas (leiam o que já escrevi sobre o assunto aqui e aqui).
Já disse em outros posts que o transporte de passageiros sobre trilhos teve tempos gloriosos no Brasil e experimentou um arrefecimento nos anos JK e no período da ditadura militar (1964-1985), tendo sido desmontado de vez com a privatização da RFFSA nos anos 90. Afirmei que o país optou pelo modal rodoviário em detrimento do ferroviário. É possível que o abandono de um modo de transporte de passageiros tão eficiente se deva ao poderoso lobby da indústria automobilística e do petróleo. As poucas linhas que restaram se destinam ao turismo de curta distância, salvo raríssimas exceções, tal como a linha Vitória-Minas.

Mapa ferroviário brasileiro. Fonte: ANTT (clique para ampliar)

Neste post pretendo por em relevo outro aspecto sobre o transporte ferroviário: sua importância para a infra estrutura de transporte concernente aos eventos que o país está para sediar.

Todos os dias, em meu deslocamento para o trabalho, utilizo o metrô como um dos meios de transporte. Da estação onde embarco até meu desembarque é gasto um tempo aproximado de 25 minutos. Se o mesmo percurso fosse feito de ônibus, eu gastaria no mínimo o dobro do tempo.

Uma viagem de metrô transporta o equivalente a 12 ônibus lotados e a frota atual de Belo Horizonte é composta por 25 trens elétricos que juntos realizam 245 viagens por dia a uma velocidade média de 37,7 km/h. A única linha do metrô BH em operação, a linha 1, é composta de 19 estações que são as seguintes: Eldorado, Cidade Industrial, Vila Oeste, Gameleira, Calafate, Carlos Prates, Lagoinha, Central, Santa Efigênia, Santa Tereza, Horto Florestal, Santa Inês, José Cândido da Silveira, Minas Shopping, São Gabriel, 1º de Maio, Waldomiro Lobo, Floramar e Vilarinho. O percurso de 28,2 km desta linha é completado em 45 minutos. O metrô de Belo Horizonte está prestes a soprar 25 velinhas e, no entanto, ainda opera somente uma linha e não atende a todas as regiões da cidade.

Foram apresentadas propostas para a expansão do metrô BH, incluindo-se aí planos para a criação das linhas 2 (Santa Tereza/Barreiro) e 3 (Pampulha/Savassi). Se tais linhas saíssem do papel, o trânsito de Belo Horizonte seria, em muito, desafogado. Contudo, o que se tem visto é uma má vontade e inépcia das entidades federais, estaduais e municipais para alavancar a construção das mesmas. No contexto do impasse da implantação das novas linhas, outros projetos acessórios, tal como a implementação da nova rodoviária no bairro Calafate, também estão sendo gradativamente abandonados para dar lugar a soluções de menor impacto, tal qual a utilização da estação de integração metrô-ônibus São Gabriel como apêndice do TERGIP.
Ramais do metrô BH. Fonte: CBTU (clique para ampliar)

É provável que nunca tenham sido comprados tantos veículos automotores no Brasil como agora. As facilidades de financiamento ampliam a frota de veículos, o que afunila cada vez mais o trânsito, aumentando o número de acidentes e poluindo mais o já tão poluído ar das grandes cidades. Creio que não é exagero afirmar que se o cidadão fosse servido por um transporte público de qualidade, não sairia com seu veículo de casa para padecer as agruras de um trânsito lento e engarrafado. Enquanto os projetos da linha 1 e 2 do metrô não saem do papel, o trânsito de Belo Horizonte torna-se cada vez mais caótico. Mesmo as grandes obras viárias em curso nas avenidas Antônio Carlos e Cristiano Machado, vetores importantes que fazem o elo entre o centro e a região norte, podem não dar conta dos grandes desafios que o porvir reserva à capital mineira.

Belo Horizonte será palco de alguns jogos da Copa do Mundo de 2014. O estádio Mineirão já passa por reformas para receber as delegações estrangeiras e não fazer feio no mundial. Enquanto as promessas acerca do metrô vêm e vão ao sabor da titubeante vontade de nossos governantes, o tempo passa sem que nada de efetivo seja feito para solucionar o problema do fluxo rodoviário no centro e hipercentro da capital. A pergunta que fica é a seguinte: se atualmente, o trânsito possui vários pontos de estrangulamento nos horários de pico, o que ocorrerá quando um importante evento ocorrer no Estádio Magalhães Pinto? Não experimentaremos algo como um “apagão rodoviário”?

Enquanto não avançam as propostas para a ampliação do metrô, outras mais baratas surgem como contrapartida. Uma delas é a do VLT (Veículo leve sobre trilhos), que utilizaria a capacidade ociosa de algumas linhas férreas, muitas das quais em total abandono (conforme matéria do jornal EM postada anteriormente). O VLT é uma alternativa interessante diante do impasse acerca da expansão do metrô em Belo Horizonte, já que demanda menores custos de implantação, alem de contar com tecnologia nacional para sua fabricação.

No Brasil existem 15 sistemas de trens metropolitanos transportando cerca de 1,1 bilhão de passageiros por ano em 12 regiões metropolitanas, abrangendo 68 municípios. É pouco diante da gigantesca demanda que um país que deseja modernizar-se apresenta. Os eventos de 2014 e 2016 tornam urgente a implementação de um transporte de passageiros ferroviário e urbano de qualidade e maior abrangência. Nos poucos anos que restam, os governantes deverão se desdobrar para levar a cabo tais projetos, sob pena do Brasil passar por um vexame diante dos vários turistas, delegações e autoridades que aqui desembarcarem para prestigiar os eventos supramencionados.



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Vídeo institucional da CBTU. Fonte: CBTU



HISTÓRIA VOLTA AOS TRILHOS

Reportagem de Junia Oliveira

O apito dos trens, o burburinho do entra e sai dos vagões, acenos de despedida e abraços de reencontro ficaram num passado distante de muitas cidades do interior de Minas depois da desativação dos trens de passageiros. Com o fim desses personagens célebres das Gerais, muitas estações foram condenadas ao abandono e à degradação. Mas a história do palco de chegadas e partidas das locomotivas que desafiaram as sinuosas montanhas para ligar lugarejos, cidades e pessoas de um ponto ao outro acaba de ganhar um novo capítulo. A Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico, o Ministério Público Federal, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Secretaria de Patrimônio da União (SPU) firmaram termo de compromisso com cinco municípios mineiros para a proteção e a preservação dos bens ferroviários. As prefeituras terão prazo de quase dois anos para recuperar e dar uma destinação sociocultural às estações de Miguel Burnier (em Ouro Preto) e Lobo Leite (em Congonhas), ambas na Região Central, Campanha (Sul de Minas), Lassance (Norte) e Chiador (Zona da Mata).

As administrações assumiram a obrigação de fazer obras emergenciais e de restaurar os prédios. Até o início de abril, as prefeituras devem providenciar o tombamento dos imóveis em âmbito municipal e elaborar os projetos de restauração dos prédios, que serão apresentados ao Iphan. O instituto terá prazo de 90 dias, a partir da data de recebimento, para analisar os documentos. As restaurações deverão ocorrer em, no máximo, 12 meses, a contar da data de aprovação do projeto, com recursos dos municípios. A supervisão e a fiscalização das obras ficarão a cargo do Iphan, que deverá ainda expedir as orientações e recomendações de natureza técnica para as intervenções. Quem descumprir o acordo está sujeito a multa diária de um salário mínimo (R$ 465).

Minas Gerais tem 1,5 mil bens da extinta Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA). A maioria, segundo o coordenador das Promotorias de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais, Marcos Paulo de Souza Miranda, está completamente abandonada. “As estações fizeram parte do cotidiano de muitas pessoas e foram largadas de forma abrupta. Ficou uma lacuna em vários locais. Muitos perderam a razão de ser com a retirada do transporte de passageiros, como as regiões de Barra Mansa (RJ), Lavras (Sul de Minas) e Miguel Burnier. Algumas povoações se transformaram em verdadeiras cidades fantasmas”, afirma.

Até agora, a responsabilidade sobre as estações foi transferida para 10 municípios. Há seis meses, foi assinado termo de compromisso também para a preservação de Mariano Procópio (distrito de Juiz de Fora, na Zona da Mata), Andrelândia (Sul de Minas), Conselheiro Mata (distrito de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha), Velho da Taipa (em Conceição do Pará, no Centro-Oeste do estado) e Uberaba (Triângulo). “O interessante é que não foi uma imposição. Todas as cidades que fazem parte do acordo quiseram e nos procuraram”, relata o promotor.

As cidades comemoram o repasse da gestão das estações às prefeituras. Em Congonhas, o processo de restauração da Lobo Leite promete ser simples, com a substituição de telhas e esquadrias, conserto de portas e janelas, uma vez que o imóvel não apresenta problemas estruturais, como trincas e rachaduras. O diretor de Patrimônio Histórico da cidade, Maurício Geraldo Vieira, ressalta a importância da iniciativa: “Reivindicávamos a estação havia muito tempo. É um espaço centralizado e chave para a prefeitura, que paga aluguel de posto de saúde e dos Correios. Queremos criar também um espaço no qual as pessoas podem ter cursos de dança e teatro, fazer uma horta e várias outras atividades que as façam se sentir parte desse patrimônio”, diz.

Depois de registrada no livro do tombo, a estação de Miguel Burnier vai integrar um importante conjunto ferroviário. O secretário de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano de Ouro Preto, Gabriel Gobbi, chama a atenção para o transporte. “No Brasil se discute muito a questão ferroviária e, por isso, é preciso pensar no meio ferroviário como algo maior no futuro. Além disso, é um bem cultural protegido e um local que pode ter alguma funcionalidade. Essas estações podem integrar um projeto com pontos de visitação cultural, no contexto da história do Brasil”, sugere.
A decadência e o abandono das estações de trem em Minas Gerais, processo consolidado com a privatização da rede ferroviária do país na década de 1990, deixaram marcas não apenas na estrutura física de imóveis, mas também um passivo social. Por isso, os termos de compromissos firmados com os municípios para proteção e conservação dos bens culturais ferroviários têm também o objetivo de recuperar o papel social dos imóveis.

Grande parte deles representa a memória cultural de vilas e municípios e, neste caso, manter as tradições significa garantir que gerações futuras tenham acesso à história do lugar no qual vivem. Na estação de Lassance, no Norte de Minas, será criado um complexo educativo, cultural e turístico que vai sediar a biblioteca e as secretarias de Cultura e Turismo. A área externa servirá para a difusão de atividades culturais e esportivas. O local é um exemplar arquitetônico construído no início do século 20. Foi inaugurado em 1908 e tem enorme relevância para o país, pois, durante sua passagem por Lassance, ela serviu de consultório ao médico sanitarista e cientista Carlos Chagas (1879-1934), quando descobriu a doença de Chagas, causada pelo Trypanosoma cruzi.

As estações de Chiador (Zona da Mata) e Campanha (Sul de Minas) também vão se tornar centros culturais. A primeira é a mais antiga do estado – foi inaugurada em 1869, em solenidade que contou com a presença do então imperador dom Pedro II. Os cuidados com Miguel Burnier, em Ouro Preto, ficarão a cargo de um agente público que more no distrito. A de Lobo Leite, em Congonhas, na Região Central do estado, será transformada em espaço multiuso, com salão para eventos e reuniões da comunidade e salas multimídia. O local vai abrigar ainda um ponto de apoio a turistas que passam pela Estrada Real.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 13/12/2009