ESVAZIAR PARA ENCHER



Por Cléber Sérgio de Seixas

Os antigos mestres do Budismo Zen propunham a seus discípulos problemas insolúveis, como por exemplo: "Qual é o som de uma das mãos ao bater palmas?". Eram os chamados Koans, cuja proposição tinha como objetivo fazer com que os discípulos esvaziassem suas mentes, esquecessem o que aprenderam para permanecerem abertos a novas descobertas. Para permanecer cheio seria necessário esvaziar-se - neste contexto o permanecer cheio pode ser entendido como sinônimo de permanecer renovado, atualizado, tal como uma caixa d’água que, para ter suas águas sempre renovadas, precisa estar sempre fluindo. A filosofia taoísta tem como um de seus ícones o Tai Chi, simbolizado por um círculo cujas metades, uma preta e outra branca, Yin e Yang, bem e mal, céu e terra, representam os opostos interdependentes do universo, cuja coexistência harmoniosa garantiria o equilíbrio do universo. Uma ilustração do principio que norteia o Tai Chi é o movimento do pedal de uma bicicleta, isto é, enquanto um pedal vai, outro vem; um não virá se o outro não for. Partindo deste princípio, não há ignorância sem sabedoria; não há luz sem trevas, se esta última for entendida como ausência de luz; não há encher sem esvaziar. Se os pedais não cederem mutuamente, o deslocamento do ciclista não ocorrerá. Assim é necessário cessão de ambas as partes para que haja movimento.

Princípio semelhante encontra-se na filosofia hegeliana. Hegel, filósofo alemão, foi um dos pais da dialética, termo grego cujas raízes etimológicas são as mesmas da palavra diálogo, onde diá=entre e logos=palavra, discurso. Assim como o diálogo é um discurso no qual haverá pelo menos dois pólos, duas partes envolvidas, a dialética hegeliana pressupõe que no universo há uma constante interação de entre pólos distintos, tese e antítese, que se encontram em constante tensão até que atingem um ponto de superação, no qual a tensão se desfaz e se chega a um ponto de equilíbrio que Hegel chama de síntese. Posteriormente, faz-se nova tensão, desfaz-se o equilíbrio, e a dialética prossegue sua dinâmica, tal como o movimento dos pedais da bicicleta.

Não precisamos ser budistas, taoístas ou conhecer em profundidade a dialética de Hegel para aplicar em nosso cotidiano alguns dos princípios que norteiam tais filosofias. Se nos atermos ao nosso dia-a-dia, perceberemos que em várias circunstâncias somos apresentados a situações que implicam superação de paradigmas e conceitos passados. Se ao deparar com novas situações permanecermos aferrados às experiências adquiridas, as mesmas podem tornar-se empecilhos à aquisição de novos conhecimentos. Em outras palavras, precisamos muitas vezes nos esvaziar de nossa experiência, de nossa bagagem, de nosso “pré-conceito” e de nosso egocentrismo para prosseguirmos aprendendo e descobrindo.

No dia 25 que se avizinha, parte da cristandade vai, mais uma vez, comemorar o aniversário do nascimento de Cristo. Contudo, poucos percebem que em tal evento esteve implícito um processo de humilhação e de esvaziamento tendo em vista o aprendizado. Conforme a tradição bíblica, no céu estava Deus Pai. Era-lhe fácil impor leis aos homens, julgá-los e condená-los. Contudo, Deus Pai jamais fora homem e talvez não estivesse tão confortável em tal posição e resolveu passar pelas mesmas experiências pelas quais os homens passam, experiências de tristeza, alegria, dor, ira, humilhação etc. Deus tornou-se homem na pessoa do Cristo para, dentre outras coisas, conhecer o viver humano com suas particularidades. Podemos concluir então que Deus Pai deu um exemplo de humildade quando se tornou um simples homem, Jesus. Indaguemos a nós mesmos se estaríamos dispostos a descer de nosso salto alto em determinadas situações, se somos os que sempre têm a razão, se nos consideramos sempre superiores aos outros, os mais inteligentes, os que nunca têm a aprender, ou os que sempre têm a ensinar. Paulo apóstolo considerou Jesus como expoente no quesito de se auto-esvaziar, tanto que escreveu: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele..., a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2:5,7,8).

O assim chamado Natal, para os cristãos que o consideram em sua essência, não deve ser apenas ocasião de desfrute de banquetes, de consumismo exacerbado ou troca de presentes, mas oportunidade de refletirmos que o aniversariante era Deus se humilhando, se esvaziando para aprender a ser homem.

As águas do nosso conhecimento devem ser tais como as de uma caixa d’água, que estão sempre se renovando, não águas turvas pela estagnação, e a humildade é uma das ferramentas promotoras de tal renovação. Saibamos pois que a rigidez excessiva, a intransigência, o “fechar-se em si mesmo” são prejudiciais a um viver harmonioso. Pode parecer óbvio, mas para encher é necessário esvaziar. E você, leitor, já se esvaziou hoje?

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