MUDANDO ESTRELAS DE LUGAR



Por Cléber Sérgio de Seixas

Velhos clichês sempre ressurgem quando um ano cede lugar a outro. Ouvem-se frases como “o próximo ano com certeza será melhor” ou “neste ano vou realizar meus sonhos”. Uma antiga canção, que já foi muito repetida por ocasião dos festejos de fim de ano, dizia o seguinte: "Este ano quero paz no meu coração. Quem quiser ter um amigo, que me dê a mão. O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos sem parar. Nossos passos pelo chão vão ficar. Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter...

Se os homens vivem de razão e sobrevivem de sonhos, estes funcionam como molas propulsoras dos indivíduos, impulsionando-os na direção de seus objetivos e projetos. Os versos da canção supracitada fazem menção às marcas do que se foi interagindo com os sonhos que permeiam o imaginário de todo ser humano.

Se o ano seguinte será bom ou ruim, se os projetos se concretizarão ou não, dependerá não somente dos sonhos, mas também do que foi feito no ano anterior, das atitudes pregressas, sempre geradoras de marcas e conseqüências para o porvir. Por exemplo, se alguém se endividou para não fazer feio nos festejos natalinos e naqueles que marcam a passagem, é possível que nos primeiros meses do ano seguinte sinta no bolso os efeitos decorrentes do endividamento, o que poderá ou não adiar os planos para o ano que se inicia. Oxalá a conta fosse zerada junto com o fenecer do período de trezentos e sessenta e cinco dias a que chamamos ano, e só fossem computadas as atitudes positivas, deletando-se os equívocos. Porém, o caráter de um indivíduo e aquilo que o cerca resultam não somente dos acertos, mas também dos erros, e os dias vindouros farão sua colheita na lavoura dos passados. Sempre haverá uma reação correspondente a toda ação que empreendermos. É impossível dissociar passado e futuro. Assim sendo, eis a indagação que não se cala: somos e seremos o que fizemos ou o que almejamos ser?

É oportuno lembrar como dois judeus entendiam as relações entre passado e futuro. Um deles, chamado Sigmund Freud, procurava escavar o passado do indivíduo, sobretudo na infância, a fim de encontrar nele eventos que, de alguma forma, explicassem os desequilíbrios mentais observados no presente. Maus tratos, acidentes ou frustrações deixam marcas indeléveis na psiquê humana. Saindo do ponto de vista do indivíduo para o da coletividade, outro judeu, chamado Karl Marx, procurou explicar como as interações que os indivíduos mantinham entre si enquanto produtores e consumidores, relações econômicas, eram a estrutura sobre a qual se erigiriam todas as superestruturas pertinentes às relações humanas, tais como a moral, a religião, a cultura, o direito etc. Trata-se do que ficou conhecido como Materialismo Histórico, no qual Marx procurava conhecer os vários modos de produção através do resgate de suas histórias para melhor entendê-los.

Assim, tanto em Freud quanto em Marx, a história, seja individual, seja coletiva, assume importância crucial para entendermos o que somos e para onde iremos, ou seja, conhecer o que fomos para entender o que somos e planejar como seremos.

Tempo é História, ou melhor, a História é a ciência que se ocupa de analisar a interação das ações dos homens com o mundo no tempo. Portanto, nem só de presente vive o homem, mas também de passado. Contudo há uma tendência de perenizar o presente a fim de convencer a todos a aproveitar o dia (Carpe Diem), fechando os olhos ao passado e às conseqüências das ações do presente no futuro.

Nesse fim de ano como em tantos outros não faltam exortações e esperanças de um futuro melhor baseadas em ações promotoras da paz e da justiça e no otimismo. Contudo tais esperanças e exortações se tornarão inócuas se não houver no presente uma mudança de paradigmas com um olhar para os erros que ficaram para trás a fim de não repeti-los. Tal como o mitológico deus grego Jano que tinhas duas faces, uma para enxergar frontalmente e outra para ver atrás, devemos ter um olhar tanto para o futuro quanto para o passado.

Alguns apontam como cores do ano novo o branco, o vermelho, o amarelo - cada uma capaz, segundo a tradição, de atrair dinheiro, amor e paz. Mas a crendice popular esqueceu de incluir também o verde, cor com a qual é identificada a esperança. De fato, a cor verde evoca a renovação da natureza, o brotar e a novidade. Diz o ditado que quem espera sempre alcança. Sob o prisma de tal assertiva, o que é a esperança? Encontramo-la no dicionário como sinônimo de expectativa otimista. Esperança é meramente esperar pensando positivamente? Até quando e como se deve esperar?

No livro Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire tentou responder da seguinte forma: “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero”. Já em Pedagogia da Esperança, o pensador e pedagogo diz o seguinte: “Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas, prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão. Prescindir da esperança que se funda também na verdade como na qualidade ética da luta é negar a ela um dos seus suportes fundamentais. O essencial como digo mais adiante no corpo desta Pedagogia da Esperança, é que ela, enquanto necessidade ontológica, precisa de ancorar-se na prática. Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã”. Portanto a esperança deve vir associada com movimento, com ações que promovam não só o bem estar individual como também o coletivo. Lutar, mover-se com esperança, é esperar. A esperança que se aferra à ação não se converte em espera vã. Cruzar os braços, esperar e conformar-se são atitudes de pessoas preguiçosas e acomodadas, aquelas que costumam dizer “vamos deixar como está para ver como fica”.

Também é comum nesta época do ano ouvir frases parecidas com esta: “se Deus quiser, neste ano...” Se a expectativa não é alcançada diz-se: “não foi da vontade de Deus...”. Assim, debita-se na conta do Criador enquanto a criatura se exime de responsabilidades. Pode ser que o Criador fique assistindo a criatura colher o que ela própria semeou. Talvez a providência divina se manifeste na própria ação do indivíduo e não somente em circunstâncias miraculosas nas quais não há o dispêndio de esforço por parte do mesmo.

Se o destino estiver escrito nas estrelas, urge reescrever o mapa astral, mudando estrelas de lugar. O indivíduo não é tão poderoso quanto supõem os manuais de auto-ajuda. Por outro lado não é tão fraco que não possa estabeleçer diretrizes para nortear sua vida e conduzí-lo a seus objetivos. É pouco ficar apenas nas lentilhas, nos banhos de cheiro, nos pés de coelho e na dependência de toda sorte de simpatias, pois, como diz o adágio, se ferradura desse sorte, burro não puxaria carroça.

Se erros foram cometidos no ano que passou ou projetos não foram concretizados, ainda resta tempo para tal. Se o que é velho ficará para trás ou não, se o ano será novo ou tão velho quanto o que passou, dependerá, em grande parte, de nós mesmos. Convém deixar medos, mazelas, fracassos, enfim, tudo o que é velho, para trás, fazendo novo, com nossas próprias mãos, o ano que se inicia, e tendo como norteadora a esperança.

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