domingo, 29 de maio de 2011

A primavera dos povos nevense


Por Cléber Sérgio de Seixas

Países árabes e agora algumas nações européias capitaneadas pela Espanha, onde os manifestantes tentam abrir as “portas do sol”, vivem sua “primavera dos povos”, um despertar da cidadania depois de um longo inverno de apatia política. Trata-se de uma reação contra o desemprego estrutural, contra as políticas neoliberais e contra a velha política, sinônimo de politicagem.

Embora ainda estejamos no outono, Ribeirão das Neves, cidade da RMBH (Região Metropolitana de Belo Horizonte), experimenta os primeiros vicejos de sua primavera. Cansados do descaso a que alguns políticos há muito relegam o município, os cidadãos se organizam para mostrar que podem contribuir para mudar os rumos sócio-políticos de Ribeirão das Neves.

Aglutinados na Rede Nós Amamos Neves, vários movimentos sociais e a sociedade civil organizada têm levantado suas vozes contra a construção de mais um complexo prisional na cidade.

O projeto, um conjunto de cinco unidades prisionais com capacidade para 3.040 detentos, fruto de uma parceria público-privada (PPP) firmada entre o governo do Estado de Minas Gerais na gestão de Aécio Neves e o consórcio GPA (Gestores Prisionais Associados), terá enormes impactos sociais no cotidiano da já tão sofrida cidade. O empreendimento reflete o modus operandi neoliberal dos governos tucanos, marcado pelo desmonte do patrimônio do Estado via privatizações e ideologicamente sustentado pelo famigerado, mas improvável, “choque de gestão”.

Em nenhum momento o governo do Estado ouviu os clamores da população nevense sobre a implantação de mais um complexo prisional. Assim sendo, os movimentos sociais ligados à Rede Nós Amamos Neves se organizaram numa “agenda do bem” para lutar contra a construção de mais presídios na cidade. Dentre os eventos desta agenda convém destacar os seguintes:
- No dia 13 de fevereiro de 2011, manifestantes fecharam um trecho da rodovia BR-040 para protestar pacificamente contra a construção do complexo prisional supracitado;
- No dia 10 de abril último, integrantes da Rede e lideranças comunitárias promoveram uma caminhada ecológica rumo às proximidades do canteiro de obras do futuro complexo prisional. Apesar da comunicação prévia às autoridades competentes, os caminhantes foram barrados no meio do caminho por agentes do GIT fortemente armados – ação desproporcional diante do nulo potencial ofensivo dos que ali estavam (idosos, crianças e mulheres em sua maioria);
- No dia 26 de abril, em audiência pública promovida por deputados da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, cerca de 400 cidadãos nevenses manifestaram aos membros do legislativo mineiro seu descontentamento com a vinda de mais presídios para a cidade. Na ocasião foram aprovados vários requerimentos, com destaque para um que exige o embargo da construção do novo cadeião.

Nessa luta que coloca em cantos opostos a sociedade civil organizada nevense, capitaneada pela Rede Nós Amamos Neves, e o governo do Estado, o último round foi ganho pelos primeiros. Explico: desde o dia 21 de maio as obras do complexo prisional estão embargadas por liminar judicial. Fontes insuspeitas afirmam que trabalhadores da obra foram temporariamente dispensados e que veículos utilizados na construção já não trafegam pelo canteiro de obras.

Ao que tudo indica, tal liminar é fruto das mobilizações supramencionadas, mas já se ouvem vozes dissonantes dizendo que a responsabilidade pelo embargo é da prefeitura, o que não soa verossímil, haja vista que no dia 26 de abril de 2010 o prefeito Walace Ventura Andrade assinou uma declaração na qual afirma que o empreendimento está em conformidade com a lei de uso e ocupação do solo do município.

A declaração de conformidade assinada pelo prefeito Walace Ventura (Fonte: Neves News). Clique para ampliar

Nessa luta de Davi contra Golias, os cidadãos nevenses, bem representados pelos integrantes da Rede Nós Amamos Neves, podem se considerar vitoriosos por terem vencido uma das batalhas dessa guerra que promete durar anos. Como bem afirmou Rosely Augusto, “a guerra não está ganha, mas é uma importante vitória da população de Neves e das organizações populares que vêm lutando há anos contra esse projeto inconstitucional de privatizar o sistema penitenciário em MG e no Brasil. É, com certeza, um duro golpe sobre a arrogância e o autoritarismo do governo de Minas Gerais.”

Este blogueiro diferenciado continuará acompanhando todos os lances dessa luta e, na medida de sua modesta capacidade, tentará dar sua contribuição para que Ribeirão das Neves rompa o estigma de município dos presídios, cidade dormitório, reduto de políticos corruptos etc.

Tal como Egito e Espanha, Ribeirão das Neves prossegue em sua primavera dos povos. Muitos tentarão detê-la, mas, parafraseando Che Guevara, “os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira”.

Até o próximo round.


Ler também:
- Dos que amam Ribeirão das Neves;
- População organizada exige embargo do complexo penitenciário em Neves.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Dois séculos de conquistas estão sendo jogados no lixo"

Em entrevista à Televisão da Catalunha, o escritor uruguaio Eduardo Galeano fala sobre as mobilizações que levaram milhares de jovens para as ruas de diversas cidades espanholas nos últimos dias. "Esse é um dos dramas do nosso tempo. Dois séculos de lutas operárias que conquistaram direitos muito importantes para a classe trabalhadora, estão sendo jogados na lata de lixo por governos que obedecem à uma tecnocracia que se julga eleita pelos deuses para governar o mundo. É uma espécie de governo dos governos, como este senhor que agora parece que se dedica a violar camareiras, mas antes violava países e era aplaudido por isso".

Untitled from Rebelión on Vimeo.



Fonte: Carta Maior
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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Saúde do povo, descaso do Estado

Por Frei Betto *

O neoliberalismo deu um tiro de misericórdia no Estado de bem-estar social. Destruiu os vínculos societários nas relações de trabalho, deslegitimou a representação sindical, deslocou o público para o privado. O que era direito do cidadão, como a saúde, passou a depender das relações de mercado e da iniciativa pessoal do consumidor.

Quem não tem plano privado de saúde entra na planilha dos cemitérios. Hoje, 40 milhões de brasileiros desembolsam, todo mês, considerável quantia, convictos de que, doentes, serão atendidos com a mesma presteza e gentileza com que foram assediados pelos corretores das empresas de saúde privada.

Os clientes se multiplicam e os planos proliferam, sem que a rede hospitalar acompanhe essa progressão. O associado só descobre o caminho purgatório na hora em que necessita de resposta do plano: laboratórios e hospitais repletos, filas demoradas, médicos escassos, atendentes extenuados.

Em geral, o pessoal de serviço, que faz contato imediato com os beneficiários, não demonstra a menor disposição para o melhor analgésico à primeira dor: gentileza, atenção, informação sem dissimulação ou meias palavras.

Ora, se faltam postos de saúde e hospitais; se consultórios têm salas de espera repletas como estação rodoviária em véspera de feriado; se na hora da precisão se descobre que o plano é bem mais curvo e acidentado do que se supunha... a quem recorrer? Entregar-se às mãos de Deus?

O Brasil é o país dos paradoxos. O que o governo faz com u’a mão, desfaz com a outra. O SUS banca 11 milhões de internações por ano. Muitas poderiam ser evitadas se o governo tivesse uma política de prevenção eficiente e, por exemplo, regulamentasse, como já faz com bebidas alcoólicas e cigarro, a publicidade de alimentos nocivos à saúde. A obesidade compromete a saúde de 48% da população.

Entre nossas crianças, 45% estão com sobrepeso, quando o índice de normalidade é não ultrapassar 2,3%. De cada cinco crianças obesas, quatro continuarão assim quando adultos. No entanto, as leis asseguram imunidade e impunidade a uma infinidade de guloseimas e bebidas, muitas anunciadas ao público infantil na TV e em outros veículos. Haja excesso de açúcares e gordura saturada!

A boa-fé nutricional insiste na importância de verduras e legumes. Mas a Anvisa (vigilância sanitária) não se empenha para livrar o Brasil do vergonhoso título de campeão mundial no uso de agrotóxicos. Substâncias químicas proibidas em outros países são encontradas em produtos vendidos no Brasil. Haja câncer, má-formação fetal, hidroencefalia etc!

Entre 2002 e 2008, os acidentes de motos se multiplicaram 7,5 vezes no Brasil. Na capital paulista, são 4 mortes por dia. Muitos motoqueiros sobrevivem com graves lesões. No entanto, a fiscalização de veículos e condutores é precária e as vias públicas não são adaptadas ao tráfego de veículos de duas rodas.

Quem chega ao Brasil do exterior deve preencher e assinar um documento da Receita Federal declarando se traz ou não medicamentos. Em caso positivo, o produto e o passageiro são encaminhados à Anvisa. Ora, toneladas de veneno entram diariamente por nossos portos e aeroportos, e são vendidos em qualquer esquina: anabolizantes, energizantes, enquanto a TV veicula publicidade de refrigerantes com alto teor de cafeína e poder de corrosão óssea.

Embora todos saibam que saúde, alimentação e educação são prioritários, o Ministério da Saúde dispõe de poucos recursos, apenas 3,6% do PIB, o que equivale, neste ano de 2011, a R$ 77 bilhões. Detalhe: em 1995 o governo FHC destinou, à saúde, R$ 91,6 bilhões. A Argentina, cuja população é cinco vezes inferior à do Brasil, destina anualmente duas vezes mais recursos que o nosso país.

Nossa saúde é prejudicada também pelo excesso de burocracia das agências reguladoras, a corrupção que grassa nos tentáculos do poder público (vide o prontuário da Funasa na sua relação com a saúde indígena), a falta de coordenação entre a União, os Estados e os municípios. Acrescem-se a mercantilização da medicina, a carência de médicos e sua má distribuição pelo país (o Rio tem 4 médicos por cada 1.000 habitantes: o Maranhão 0,6).

Governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão. Se a sociedade civil não exigir melhorias na saúde, no atendimento do SUS, no controle dos planos privados e dos medicamentos (pelos quais se pagam preços abusivos), estaremos fadados a ser uma nação, não de cidadãos, e sim de pacientes – no duplo sentido do termo. E condenados à morte precoce por descaso do Estado.


* Frei Betto é escritor, autor de Calendário do poder (Rocco), entre outros livros

Fonte: Jornal Estado de Minas – 26 de maio de 2011.
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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Tecnologia, trabalho e valores


Por Paulo Itacarambi e Cristina Spera

Uma das grandes conquistas da sociedade industrial foi a divisão das atividades de um dia em jornadas de 8 horas. Atualmente, a jornada de trabalho mais comumente empregada é de 40 horas semanais, com um período de descanso de dois dias (48 horas).

Quando, nos anos 1990, a revolução tecnológica tornou-se uma realidade cotidiana, dizia-se que o ganho de produtividade na indústria abriria milhões de oportunidades no setor de serviços e este, também beneficiado pelas inovações tecnológicas, poderia oferecer o melhor dos mundos aos trabalhadores: jornada menor e oportunidade de estudar e passar mais tempo com a família e os amigos.

Hoje, já ultrapassando a primeira década do século XXI, vemos ocorrer justamente o contrário dessa “utopia”: a tecnologia, em vez de libertar, tornou as pessoas cativas das atividades profissionais, com a jornada de trabalho avançando sobre qualquer tempo “livre” do profissional.

Na verdade, parece que estamos no limiar de uma era em que o tempo pessoal e o período de trabalho vão ficar tão misturados que será difícil distinguir um do outro. Essa era já tem nome: era do trabalho imaterial ou intelectual, cujos empregos são gerados pelo setor de serviços e cujas funções podem ser desempenhadas de qualquer lugar, a qualquer hora. A produtividade depende, claro, da tecnologia, mas igualmente do conhecimento.

Ainda não existem pesquisas em larga escala sobre as conseqüências dessa mudança de paradigma no mundo do trabalho. Há, no entanto, estudos isolados, feitos nos Estados Unidos e na Europa, que trazem alguns dados importantes, como os relatados na matéria de capa da revista Carta Capital desta semana.

Na Inglaterra, o descanso semanal caiu de 48 horas para 27. Uma pesquisa da Universidade de Uppsalla, na Suécia, constatou que apenas 24% dos trabalhadores dos 15 maiores países da União Européia cumprem jornadas regulares de trabalho – fora de horários noturnos, nos fins de semana ou em regime temporário. Os profissionais autônomos são os que têm as jornadas mais irregulares.

Nos Estados Unidos, 77% dos trabalhadores lêem e-mails à noite e 35% respondem demandas de trabalho quando estão com os filhos.

No Brasil, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) deve realizar, em breve, uma pesquisa sobre o impacto da tecnologia no trabalho. Ainda não temos dados oficiais, mas sabemos, pela nossa própria experiência, que qualquer profissional de qualquer área trabalha nos finais de semana ou atende celular durante um jantar em família.

Embora tenhamos apenas os resultados de outros países, é possível fazermos uma reflexão a respeito desse fenômeno, sob o ponto de vista da responsabilidade social empresarial.

Do ponto de vista profissional, se o tempo pessoal está misturado com o do trabalho, não há mais possibilidade de se dividir a vida em dois momentos, como fazíamos até agora: o de ganhar dinheiro e o de usufruir desse dinheiro durante o lazer ou descanso. Então, o trabalho precisa trazer muita satisfação; é cada vez mais fundamental gostar do que se faz, para o trabalho não virar uma permanente tortura.

Sob o ângulo da empresa, é preciso considerar que o tempo pessoal do funcionário está misturado com o do expediente e aprender a lidar com essa situação, que tem reflexos não só nos negócios, mas na sociedade.

O sociólogo e escritor norte-americano Richard Sennett tem um livro sobre o que ele chama de “mundo do trabalho no novo capitalismo”, o qual recebe o impacto não apenas das tecnologias, mas da globalização. O livro se chama A Corrosão do Caráter e nele Sennett avalia as conseqüências dessas vertentes sobre o ser humano. Para o sociólogo, há dois efeitos mais evidentes. Em primeiro lugar, de ordem existencial, vamos dizer assim. Com o “tempo do emprego” invadindo todas as esferas do cotidiano, a vida emocional fica em segundo plano. E, sem vida emocional significativa, o ser humano não consegue desenvolver nem assimilar valores. Outra conseqüência dessa situação é o isolamento, que promove um individualismo extremado.

O trabalho on-line exige pouca ou nenhuma interação social. O profissional passa o dia na frente de uma tela, no máximo conversando via celular ou skype com outros profissionais que não conhece. Nada daquele papo sobre o fim de semana, a família, enfim, as conversas informais tão importantes na vida de qualquer ser humano, pois estabelecem vínculos emocionais, criando e consolidando valores como lealdade, compromisso, amizade e companheirismo. Retirado desse convívio e posto em lugar solitário, esse profissional torna-se também imediatista, impaciente e sem visão da coletividade.

Como superar essa situação? Pelos valores. São eles que vão unir trabalho e emoção. Para fazer essa junção, a gestão responsável torna-se imprescindível, pois ela é orientada por valores, transparência e diálogo com os públicos impactados pelas atividades do negócio. Valores, transparência e diálogo tornam o ser humano menos individualista, porque o fazem sentir-se “pertencendo a algo”. Com isso, ele se torna capaz de “perceber o outro” e construir empatia e uma visão mais coletiva do mundo. Esse sentido de pertencimento pode ser desenvolvido por meio de ações que promovam as relações sociais.

Mais do que a “invasão” da vida pessoal pelo trabalho, no entanto, o maior dilema trazido pela tecnologia ainda não tem solução: como absorver bilhões de trabalhadores no mundo todo, nos próximos anos, se a tecnologia, mesmo com mais produtividade, não criou novos postos de trabalho; ao contrário, aumentou a jornada?

A sociedade, junto com as empresas, precisa refletir sobre essa questão e encontrar talvez mais de uma solução, que pode significar a criação de novos direitos, civis e trabalhistas, que garantam renda e ocupação para os bilhões de profissionais do futuro, bem como uma sociedade sustentável.


Fonte:Instituto Ethos
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segunda-feira, 23 de maio de 2011

STF submete Battisti a extrema violência

Por Dalmo de Abreu Dallari *

Fingir que o Supremo Tribunal Federal ainda pode decidir sobre o pedido de extradição de Cesare Battisti formulado pelo governo italiano não passa de uma farsa processual, uma simulação jurídica que agride a Ética e o Direito.

E manter Battisti na prisão, sem que haja qualquer fundamento legal para isso, é ato de extrema violência, pois além da ofensa ao direito de locomoção, reconhecido e proclamado como um dos direitos fundamentais da pessoa humana e garantido pela Constituição brasileira, em decorrência da prisão ilegal todos os demais direitos fundamentais da vítima da ilegalidade são agredidos.

Basta lembrar, entre outros, o direito à intimidade, o direito à liberdade de expressão e os direitos inerentes à vida social e familiar, todos consagrados e garantidos pela Constituição brasileira e cujo respeito é absolutamente necessário para preservação da dignidade humana.

E a simulação de um processo pendente de decisão do Supremo Tribunal, para saber se Battisti será ou não extraditado, o que já teve decisão transitada em julgado, agrava essa violência e desmoraliza a Suprema Corte brasileira.

Na realidade, o Supremo Tribunal já esgotou sua competência para decidir sobre esse pedido quando, em sessão de 18 de novembro de 2009, tomou decisão concedendo autorização para que o presidente da República pronunciasse a palavra final, com o reconhecimento expresso de que é da competência privativa do chefe do Executivo a decisão de atender ou negar o pedido de extradição e com a observação de que deveria ser levado em conta o tratado de extradição assinado por Brasil e Itália. Estava encerrada aí a participação, legalmente prevista e admitida, do Supremo Tribunal Federal no processo gerado pelo pedido de extradição.

Depois disso, em 31 de dezembro de 2010, o presidente da República, no exercício de sua competência constitucional privativa, tornou pública sua decisão de negar atendimento ao pedido de extradição de Cesare Battisti. E aqui se torna evidente a dupla ilegalidade, configurada na manutenção da prisão de Battisti e na farsa de continuação da competência do Supremo Tribunal Federal para decidir sobre o mesmo pedido de extradição sobre o qual já o Tribunal já decidiu, tendo esgotado sua competência.

Com efeito, a legalidade da decisão do presidente Lula, negando a extradição de Cesare Battisti pretendida pelo governo italiano, é inatacável. O presidente decidiu no exercício de suas competências constitucionais, como agente da soberania brasileira e a fundamentação de sua decisão, claramente enunciada, tem por base disposições expressas da Constituição brasileira e das normas legais relativas à extradição, como também do tratado de extradição assinado por Brasil e Itália.

Não existe possibilidade legal de reforma dessa decisão pelo Supremo Tribunal Federal e não passa de uma farsa o questionamento processual da legalidade da decisão do presidente da República por meio de uma Reclamação, que não tem cabimento no caso, pois não estão sendo questionadas a competência do Supremo Tribunal nem a autoridade de uma decisão sua, sendo essas as únicas hipóteses em que, segundo o artigo 156 do Regimento Interno do Supremo Tribunal, cabe a Reclamação. Apesar da evidente falta de fundamento legal, a Reclamação vem tramitando com a finalidade óbvia, mesquinha e imoral, de manter Cesare Battisti preso por muito mais tempo do que a lei permite.

Quanto à prisão de Battisti, que já dura quatro anos, é de fundamental importância lembrar que se trata de uma espécie de prisão preventiva, que já não tem cabimento. Quando o governo da Itália pediu a extradição de Battisti teve início um processo no Supremo Tribunal Federal, para que a Suprema Corte verificasse o cabimento formal do pedido e, considerando satisfeitas as formalidades legais, enviasse o caso ao presidente da República. Para impedir que o possível extraditando fugisse do País ou se ocultasse, obstando o cumprimento de decisão do chefe do Executivo se esta fosse concessiva da extradição, o presidente do Supremo Tribunal Federal determinou a prisão preventiva de Battisti, com o único objetivo de garantir a execução de eventual decisão de extraditar. Não houve qualquer outro fundamento para a prisão de Battisti, que se caracterizou, claramente, como prisão preventiva.

Em 18 de novembro de 2009 o Supremo Tribunal decidiu conceder a autorização, o que foi comunicado ao chefe do Executivo com o reconhecimento expresso de que tal decisão não impunha ao presidente a obrigação de extraditar e a observação de que deveria ser considerado o tratado de extradição celebrado por Brasil e Itália. É importante ressaltar que cabe ao presidente da República “decidir” e não aplicar burocraticamente uma decisão autorizativa do Supremo Tribunal, o que implica o poder de construir sua própria convicção quanto ao ato que lhe compete praticar, sem estar vinculado aos diferentes motivos que levaram cada Ministro da Suprema Corte a votar num determinado sentido.

Em 31 de dezembro de 2010 o presidente da República tomou a decisão final e definitiva, negando atendimento ao pedido de extradição, tendo considerado as normas constitucionais e legais do Brasil e o tratado de extradição firmado com a Itália. Numa decisão muito bem fundamentada, o chefe do Executivo deixou claro que teve em consideração os pressupostos jurídicos que recomendam ou são impeditivos da extradição.

Na avaliação do pedido, o presidente da República levou em conta todo o conjunto de circunstâncias políticas e sociais que compõem o caso Battisti, inclusive os antecedentes do caso e a situação política atual da Itália, concluindo que estavam presentes alguns pressupostos que recomendavam a negação do pedido de extradição. Decisão juridicamente perfeita. Desde então, a prisão preventiva de Cesare Battisti perdeu o objeto, não havendo qualquer fundamento jurídico para que ele continuasse preso. Cesare Battisti deveria ter sido libertado imediatamente, em respeito ao Direito e à Justiça.

Por todos esses motivos e fundamentos, fica evidente que a continuação da discussão do pedido de extradição de Battisti no Supremo Tribunal Federal e sua manutenção na prisão não têm qualquer fundamento jurídico, só encontrando justificativa na prevalência de interesses contrários à ética e ao Direito. Em respeito ao Direito e à Justiça e para a preservação da autoridade e da dignidade do Supremo Tribunal Federal impõe-se o arquivamento da descabida Reclamação e a imediata soltura de Cesare Battisti, fazendo prevalecer os princípios e as normas da ordem jurídica democrática.


* Dalmo de Abreu Dallari é professor emérito da Faculdade de Direito da USP e professor catedrático da Unesco na cadeira de Educação para a Paz, Direitos Humanos e Democracia e Tolerância.

Fonte: Brasil de Fato
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domingo, 22 de maio de 2011

Professor: uma espécie em extinção

Por Cléber Sérgio de Seixas

O vídeo do depoimento da professora Amanda Gurgel durante uma audiência pública na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte sintetiza as angústias que afligem os educadores brasileiros. Salários baixos, salas superlotadas, alunos problemáticos, falta de material escolar e infra-estrutura precária são apenas alguns dos problemas enfrentados pelos docentes em todo o país.

Os professores ainda enfrentam jornada dupla, pois à jornada normal de trabalho se somam outras horas gastas em casa na elaboração de atividades, correção de provas, avaliação dos alunos etc. A mais-valia dos docentes corre por conta desta jornada extra.

Minha esposa, que coopera comigo neste blog, possui graduação em curso Normal Superior e especialização em Psicopedagogia. É professora de educação básica (1º ao 5º ano) na rede municipal de Ribeirão das Neves, Minas Gerais. Para uma jornada 98 horas mensais, percebe um salário de R$ 700,94. Em função da pós-graduação, recebe um adicional de 12%, o que eleva seu salário para R$ 785,05. Somando-se a essa quantia o adicional por insalubridade e o auxílio transporte, sua remuneração sobe para R$ 810,00. Com esse mísero salário, tal como a professora Amanda Gurgel, minha esposa vê-se obrigada a dar aulas em outros turnos para complementar a renda.

O sindicato de professores local tenta mobilizar a categoria para uma greve que reivindica, dentre outras coisas, aumento de salário. Não é tarefa fácil, haja vista que, paradoxalmente à vala comum onde são atirados pelos gestores públicos, os professores constituem uma classe desunida. Assim sendo, o movimento pode iniciar já fadado ao fracasso.

Enquanto o famigerado piso nacional não chega, resta aos professores a lida diária na qual fazem papel de educadores, pais/mães, psicólogos, médicos, babás e, caso a violência nas escolas persista e aumente, de agentes penitenciários. Apesar desta multiplicidade de atribuições, os sofridos professores seguem desvalorizados e desmotivados; representantes de uma profissão em extinção.

Reproduzo abaixo o vídeo com o discurso da professora Amanda Gurgel.




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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Quando o humor não tem graça

Por Marcelo Carneiro da Cunha *

Não é de hoje que eu acho esquisito que um povo como o nosso, com um incrível senso de humor no varejo, crie humor de qualidade tão ruim quando a coisa é profissional. Parece que somos engraçadíssimos quando a situação não pede, e sem-gracíssimos quando somos pagos para fazer rir. Na nossa televisão, com a honrosa exceção de exceções como o TV Pirata, Casseta e Planeta e os bons especiais do Guel Arraes, imperou e impera a tristeza generalizada. Nosso humor sempre andou pelo pastelão, pela chanchada, pelo riso pesado em vez da leveza bem humorada que ajuda a vida a deslizar por aí. Na comparação com o acachapante humor inglês, com o brilhante humor americano (em grande parte produzido pela porção judaica da população de New York), a gente se sai muito, muito mal. Os argentinos mesmos, aqui ao lado, podem ser excelentes - videm o grupo Les Luthiers como demonstração do abismo entre nós e eles.

E eis que nesses tempos globalizados importamos uma forma de humor americana por excelência, o stand up, que faz um sucesso desenraizado em nossas bandas. Importamos a forma, esquecemos uma coisinha no caminho, e o resultado é esse que se manifesta ultimamente, nos ditos, feitos e acontecidos de gente como Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Diogo Portugal e assemelhados, uns deles amplificados pelo espaço televisivo do CQC.

Stand up é a afirmação do indivíduo sobre todas as coisas, talvez por isso combine tão bem com a visão americana de mundo. Se ele é essa afirmação, então o indivíduo precisa entregar o que promete, porque sobre os ombros dele se apóia a humanidade. Haja crença, ousadia, convicção e gogó. Haja texto. E não temos.

Nada, caros leitores, nada mesmo, exceto uma eventual extração de vários sisos sem o benefício de uma anestesia, pode ser pior do que humor sem graça. Humor sem graça começa pela falta de inteligência e informação e desaba na falta de humanidade.

Fazer piada de judeus sendo levados a Auschwitz é um exemplo do que eu estou falando. Dizer que somente mulheres feias são estupradas, ou algo do tipo, também.

O humor costuma ser cáustico, prezados leitores. Brincar com nossos adversários, brincar com nossos amigos, apontar fraquezas nos outros, melhor ainda se for em si mesmo, é uma maneira de passear pelos aspectos mais dolorosos de nossa curta existência. Isso, é do jogo. Algumas das coisas mais divertidas que lemos ou vemos são razoavelmente cruéis. Várias delas raspam o mau gosto, ou mesmo flertam com ele.

Mas tudo isso pode ser feito, e muito bem, sem mergulhar na feiúra possível da vida, e essa é a grande lição que uns aprendem, outros nunca. O humor foi criado para podermos dizer o que não deve ser pensado, e sairmos chamuscados, mas vivos. O humor serve para dizermos o que nos levará ao fuzilamento, dito de outra forma. Mas o humor não foi feito para reduzir, magoar, e, especialmente, oprimir. Piadas étnicas podem ser uma forma suprema de justificar o racismo. Sexo é engraçadíssimo, e homens durante o sexo, mais ainda. Estupro não tem nada, mas nada mesmo, de engraçado, se ele é o que eu imagino que seja.

Jamais alguém lerá algo nessa coluna defendendo a censura, caros leitores. Eu acredito e defendo o direito desses maus humoristas de dizerem todo o tipo de asneira, até mesmo por ser o que eles conseguem fazer e todo mundo precisa viver de alguma coisa. Acredito que há limites, como demonstrado agora pelo über-imbecil Lars von Trier e seu discurso nazista. Acho que o Capitão Bolsonaro comete crimes, e por isso pode ser punido, mas não por expressar opiniões, óbvio. Expressão é livre, desde que não promova crimes e ódios. A sociedade precisa tanto de liberdade quanto de limites, e saber onde começa um e termina o outro é um truque tão difícil quanto saber o que é ou não, bom, excelente humor, e o que é apenas vazio e grosseiro.

Esses caras não são humoristas; são apenas pessoas que dizem coisas tolas a partir de um certo tipo de púlpito. O púlpito os legitima. O que dizem, os desmonta. Não precisamos de leis para proteger o mundo dessas tolices. Precisamos apenas dizer a eles o que são, afirmar que o que falam não merece ser ouvido, ou, especialmente, pago.

Sem graça, o mundo fica frio como uma noite de inverno na Paulista. Sem humor, o mundo se esteriliza. Com o que esses caras dizem ele se imbeciliza, e disso, simplesmente, não precisamos. Precisamos tão somente juntar o que sabemos fazer, com o que fazemos. Que seja esse um bom desafio para o século que começa, que a Dilma crie um PAC somente para esse fim. Se tudo vale a pena quando a alma não é pequena, tudo se enche de graça quando a gente, por sorte e competência, chega e fica na graça. Tão simples, tão claro. Só falta, agora, fazer.


* Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fonte: Terra Magazine

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ouvir o inaudível é imprescindível - A questão dos moradores de rua

Por Delze Laureano[1], Gilvander Moreira[2] e Maria do Rosário Carneiro[3]

Anteontem, manhã do dia 15 de maio de 2011, oito moradores de rua foram envenenados, em uma praça da região da Pampulha, em Belo Horizonte, MG. Enquanto dormiam, foi deixada ao lado deles uma garrafa de cachaça com chumbinho, veneno para matar rato, adicionado,. Hoje, dia 17/05/2011, o Jornal Estado de Minas fez reportagem de Capa sobre “os moradores de rua” de Belo Horizonte, MG. Ouviu a prefeitura, comerciantes, sociedade incomodada pelo povo da rua e, perifericamente, ouviu dois peregrinos em situação de rua membros do povo da rua. Todavia, faltou ouvir com profundidade o povo da rua, vez que não ouviu os integrantes da Pastoral de Rua ou do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua e Catadores de Material Reciclável – CNDDH -, que se localiza em Belo Horizonte, MG, na Rua Paracatu, 969, Santo Agostinho, tel. 031 3250 6360, e-mail: centronddh@gmail.com.

Todas essas questões são bastante complexas e somente após ouvir muito e sentir muito o que pessoas que fazem da rua o seu lar e o seu modo de vida têm a nos ensinar é que podemos compreender o que está por trás de tudo isso.

Cotidianamente o povo da rua está sendo crucificado. Assassinatos, desaparecimentos, torturas, agressões, roubo de seus poucos pertences, injúria, discriminação. Cada vez mais estão sendo encurralados. Não podem mais ficar na rua, pois “a rua é dos carros”, dizem uns. Estima-se que haja em Belo Horizonte mais de 2 mil pessoas sobrevivendo nas ruas. Não dá mais para taparmos os ouvidos diante dos clamores desse povo. Feliz de um povo que ouve os gritos do povo da rua, composto por pessoas que não são só um poço de miséria, mas são, acima de tudo, um poço de sabedoria, de humanidade e de dignidade humana que deve ser respeitada.

Um amigo me confidenciou, em São Paulo: “Outro dia eu estava parado no semáforo. Chegou um peregrino – povo da rua, injustamente chamado de mendigo - para pedir dinheiro. Eu disse para ele todo cheio de moral: '- Se você não fosse beber pinga, eu te daria dinheiro.' O peregrino, sorrindo e de braços abertos, me disse: '- Você disse que não me dá dinheiro, porque sou um vagabundo cachaceiro. Se você viesse dormir comigo umas duas noites aqui na calçada, neste frio lascado, você veria que a pinga é o meu cobertor. Bebo para esquentar meu corpo. Senão não agüento o frio e morro, como muitos outros colegas meus já morreram. Mas como você dorme no seu quarto quentinho, com ar condicionado, com 2 ou 3 cobertores, é muito fácil para você me chamar de cachaceiro'”. Bem dizia meu amigo: “Vemos o mundo a partir de onde estão os nossos pés. Os seus pés estão em um bom apartamento e de lá você contempla o mundo.”

As políticas públicas para a população em situação de rua ainda estão muito aquém do necessário. Em Belo Horizonte, por exemplo, os albergues estão superlotados. Foi aprovada no Orçamento Participativo a construção de mais dois albergues, mas isso não saiu do papel ainda. Essa é uma questão social que diz respeito a todos nós, sobretudo ao poder público que tem, muitas vezes, considerado essas pessoas como “obstrução do espaço público, da via pública” e para desobstruir, manda a guarda municipal, os fiscais e a polícia militar limpar a área, “ir circulando”.

Para a população em situação de rua, em Belo Horizonte, tem sido aplicada a Lei municipal “Código de Posturas” do Município, sobretudo a parte que se refere às penalidades previstas neste código. A Municipalidade parece não saber que existe um Decreto Federal que regulamenta as Políticas Públicas para estes atores e, além disso, estão sendo “rasgados” os tratados internacionais de Direitos Humanos e os princípios basilares do nosso ordenamento jurídico como a defesa da vida.

O jornalista Pedro Rocha encontrou o Sr. Luiz Vida, que aos 50 anos, sobrevivendo na rua, rejeita o rótulo de morador de rua. Diz ser um peregrino. “O termo ‘morador de rua’ não condiz com a verdade”, diz. “As ruas são ocupadas pelos carros, não há espaço para outros”, reclama. Sr. Luiz abandonou o álcool, a maconha, a cocaína e o crack. Eloquente, expressa-se muito bem. Trabalha todos os dias na reciclagem de materiais, que são doados. “Uma boneca jogada fora pode ganhar vida e uma criança vai se realizar com ela”, conta o andarilho. “Somos como os extraterrestres. Viemos para invadir um terreno ocupado”, diz Luiz, que sabe o incômodo que representa para o “resto da população”. Luiz diz rejeitar a mendicância, em troca de um modo de vida mais “espiritual”. Questionado sobre como consegue comida para sobreviver, aponta para os pombos que sobrevoam a Praça da Assembleia Legislativa de Minas e faz referência a uma passagem bíblica: “Eles não plantam nem colhem e todos os dias comem para sobreviver. Eu sou muito mais importante. É claro que Deus também iria me abençoar.” Luiz se compara a uma tartaruga, carregando seu casco para onde vai. A “casa” se restringe a duas malas, onde guarda os utensílios da cozinha e do quarto. A sala de estar é o banco de praça e as honras da casa são feitas por ele mesmo, disposto a conversar com quem se aproxima. “Renunciamos a uma vida para nos adaptar a outra. Cansei da vida que eu tinha. Tudo que é repetitivo é enjoativo”, resume.

As populações de classe média e alta vivem “protegidas” dentro de muros, pela cidade anda nos seus automóveis. Muitos vêem o povo da rua à distância, passam rápido por eles quando, raramente, cruzam a pé a cidade. Muitos os rotulam como “mendigos”, “cachaceiros”... A “sociedade” sente-se ameaçada e cobra à prefeitura que “limpe a cidade”. Muitos não sabem que nos bancos das praças, nas calçadas, nas marquises está o Sr. José, o Sr. Pedro, a dona Thereza, a Maria... Que estas pessoas têm uma história de vida bonita para contar. Que são seres humanos e que têm todos os direitos garantidos pela Constituição e consagrados na Bíblia. Que merecem respeito e querem simplesmente ser tratados com humanidade. Desça do automóvel, ande pelas ruas, escute o povo de rua e ouça o inaudível. Isso é imprescindível e nos humaniza. Devemos abominar todo tipo de violência contra a vida, principalmente contra os nossos irmãos mais vulneráveis que só dispõem dos espaços públicos urbanos para a sua proteção.


[1] Advogada, doutoranda em Direito Público internacional, professora de Direito Agrário e procuradora do município de Belo Horizonte, MG;

[2] Frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica; professor de Teologia Bíblica do Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA -, em Belo Horizonte, MG; assessor da CPT, do CEBI, das CEBs e do SAB; www.gilvander.org.br – www.twitter.com/gilvanderluis - No facebook: gilvander.moreira

[3] Advogada, integrante da Comissão Pastoral da Terra – CPT/MG – e da Rede Nacional dos Advogados Populares – RENAP -, da Rede de Solidariedade à Comunidade Dandara;
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Liberdades civis ameaçadas nos EUA

Por Idelber Avelar

A União Americana de Liberdades Civis (ACLU) instaurou na última sexta-feira um processo judicial contra o governo estadunidense e a Agência Nacional de Segurança (NSA), no que é mais um caso de violação dos direitos de livre expressão e associação nos Estados Unidos. No dia 3 de novembro de 2010, o programador de computadores e ativista David House, ao voltar de férias no México com a namorada, foi detido por agentes federais no aeroporto de Chicago e viu seu computador, câmera fotográfica, celular e pen drive confiscados pelo governo. House não é acusado ou suspeito de nenhum crime. Foi interrogado por causa de seu papel na fundação da Rede de Apoio a Manning, um grupo de cidadãos e organizações da sociedade civil que levantam recursos financeiros e advogam por tratamento legal a Bradley Manning, o soldado acusado de vazar informações para o Wikileaks. Manning está detido numa solitária em prisão de segurança máxima na Virgínia.

A Rede de Apoio a Manning se dedica exclusivamente a atividades legais, protegidas pela Primeira Emenda à Constituição dos EUA. Mas David House, que montou a página do grupo na internet, já foi visitado e interrogado por agentes do FBI, do exército e do Departamento de Estado. Depois do confisco de seus aparelhos eletrônicos em Chicago, a ACLU enviou carta ao governo exigindo devolução. Os aparelhos foram devolvidos sete semanas depois, mas o governo não se pronunciou sobre o pedido de que fossem destruídas quaisquer cópias que por ventura tenham sido feitas. O processo instaurado pela ACLU pede que a Justiça declare que o confisco e a retenção da propriedade de House foi uma violação da Primeira e da Quarta Emendas à Constituição, que garantem, respectivamente, o direito a livre expressão e associação e o direito de não ser revistado ou ter propriedade confiscada sem mandado judicial ou suspeita razoável de alguma ilegalidade. No último fim de semana de janeiro, House conseguiu visitar Manning na prisão de segurança máxima na qual está detido, e a conversa foi monitorada por dois guardas durante todo o tempo.

O confisco dos aparelhos de David House é parte de uma sequência de atos de intimidação a cidadãos estadunidenses que tenham algum envolvimento com o Wikileaks. Em julho de 2010, Jacob Appelbaum, pesquisador ligado ao grupo, foi detido por várias horas no aeroporto de Newark, em Nova Jersey, e também teve seus aparelhos eletrônicos confiscados. Em balanço publicado hoje pela ACLU, a Associação conclui que os programas de monitoramento e espionagem contraditórios com a Constituição dos EUA tiveram crescimento exponencial em 2010. Quadruplicou o número de intimações judiciais secretas, autorizadas pela seção 215 do “Ato Patriota” de Bush, que dá ao governo o acesso a “qualquer coisa tangível”, incluindo-se históricos financeiro, médico, e até a lista de livros sacados por um cidadão de uma biblioteca. Também houve grande aumento nas chamadas “Cartas de Segurança Nacional” (NSL), que permitem ao FBI monitorar correspondência eletrônica privada sem autorização da Justiça.

Uma das grandes bandeiras da campanha de Barack Obama foi o fim dos programas de espionagem ilegal do governo Bush.


Fonte: Revista Fórum
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domingo, 15 de maio de 2011

O aumento do consumo dos pobres não é a raiz do problema

(Foto: Agência Estado)

Por Cléber Sérgio de Seixas


Que o sistema capitalista é desigual por natureza acredito que poucos duvidam. Marxistas ou não, socialistas ou capitalistas, todos concordam que o capitalismo é exclusivo, concentrador e baseado na disputa predatória. No entanto, para não se curvarem ao discurso socialista da abolição da propriedade privada e, por extensão, do próprio capitalismo, os arautos deste sistema recorrem ao darwinismo como explicação para a competição encarniçada que o caracteriza: “só os mais fortes sobrevivem”, “o mundo não é para os fracos”, “a competição é saudável para a seleção dos mais capazes” etc. Enquanto a competição e o individualismo são louvados, a cooperação é execrada.

Já no século XIX, no célebre Manifesto Comunista, os pais do socialismo científico asseveravam que na sociedade burguesa a propriedade privada já estava abolida para nove décimos de seus membros e que ela existia para o um décimo da sociedade, isto é, para os burgueses, exatamente porque inexistia para os nove décimos restantes, o proletariado. De 1848 pra cá muita coisa mudou e tal cifra se alterou em função da conquista de mais alguns décimos por parte do proletariado, mas essa lei férrea da acumulação capitalista, que coloca em campos diametralmente opostos os interesses das duas principais classes econômicas, permanece incólume.

Quando os nove décimos a que se referiam Marx e Engels começam a desfrutar de pequenas fatias do bolo da riqueza, a classe economicamente superior logo trata de garantir que as mudanças sociais não ameacem sua hegemonia. Em praticamente todas as situações de iminência de ruptura da ordem capitalista vigente, houve violentas reações da classe dominante no sentido de frear o processo. Um exemplo clássico foi a ascensão do nazi-fascismo na Alemanha durante os anos 30 em resposta ao avanço do comunismo. É hoje notório o patrocínio da burguesia alemã aos fascistas capitaneados por Adolf Hitler.

Em situações menos extremas, como por ocasião do surgimento de Estados de bem-estar social na Europa, a burguesia optou por entregar os anéis a perder seus dedos, ou seja, admitiu reformas que não tocassem nos pilares centrais do sistema capitalista. O Estado de bem-estar social tratou de humanizar o capitalismo com mecanismos de proteção social.

Nos anos 70 uma onda neoliberal varreu o mundo e tratou de dilapidar algumas conquistas auferidas durante os anos do welfare state. Essa onda chegou ao Brasil com toda a força nos anos 90, sobretudo durante os oito anos da gestão de Fernando Henrique Cardoso. Naqueles anos, o desmonte do Estado correu por conta de privatizações, austeridade fiscal, arrocho salarial e outros mecanismos preconizados pelo Consenso de Washington.

De oito anos pra cá, em função de uma política econômica nada ortodoxa aos olhos dos grandes organismos financeiros internacionais, promovida pelo governo de Luís Inácio Lula da Silva, testemunhamos a distribuição de renda promovendo a mobilidade social de grande parcela dos brasileiros. Milhões deixaram a pobreza extrema e outros tantos adentraram na classe média. Nunca antes na história desse país tantos adquiriram automóveis, fizeram um curso superior, viajaram de avião, frequentaram shopping centers, adquiriram produtos tecnológicos de maior valor agregado etc.

Trata-se de um processo que não é visto com bons olhos pela elite tupiniquim. Se, por exemplo, os pobres começarem a freqüentar uma universidade, onde as madames de Higienópolis ou do Leblon vão encontrar empregadas domésticas ou diaristas? Não são poucos os que se incomodam com a ocupação pelos pobres de nichos antes restritos aos indivíduos de classes mais abastadas. Para estes, os pobres estão tumultuando os aeroportos, complicando o trânsito, rebaixando o nível do ensino superior e poluindo a paisagem nos shopping centers. É nesse contexto que surgem exemplos como o do jornalista Luiz Carlos Prates, segundo o qual os acidentes de trânsito são “resultado deste governo espúrio que popularizou, pelo crédito fácil, o carro para quem nunca tinha lido um livro”.

Assim com os malthusianos atribuíam a culpa pela fome aos próprios trabalhadores, que se reproduziriam num ritmo maior que a produção de alimentos, muitos, atualmente, vêem no maior acesso ao consumo pelas classes economicamente menos favorecidas a culpa pelas mazelas do capitalismo. Segundo essa receita, essas “invasões bárbaras” deveriam ser detidas por mecanismos neoliberais que preconizam, por exemplo, a manutenção de um exército de mão-de-obra de reserva, pré-requisito para o enfraquecimento dos sindicatos e para o rebaixamento dos salários – este último consistiria num freio ao aumento do consumo e, por conseguinte, num inibidor da inflação. Tais mecanismos garantem que as condições de cidadão e consumidor fiquem restritas a ínfimas parcelas da população.

O trânsito caótico das cidades brasileiras, por exemplo, é um indicativo de que o sistema capitalista não comporta a massificação de um nível de consumo nos padrões norte-americanos. Cada vez mais brasileiros adquirem seu veículo para fugir do desconforto do transporte público, o que cria gargalos insuportáveis no tráfego das grandes cidades, acidentes nas estradas, poluição, stress etc. O automóvel, desde primórdios do século passado, é um símbolo de individualidade. Se na China cada cidadão tivesse o mesmo nível de consumo que um norte-americano de classe média e possuísse um automóvel, quantos planetas seriam necessários para dar conta da demanda de consumo? Contudo, a solução para evitar a exaustão do nosso sistema de transporte não é evitar que os pobres adquiram um carro, mas melhorar e massificar o transporte público de passageiros.

Tal questão nos leva à reflexão de que há algo errado nesse sistema. E a solução dos erros não passa pela sujeição dos mais pobres a níveis mínimos de consumo, e sim pelo fim do desperdício protagonizado pelas classes mais favorecidas. Para o bem do planeta, os níveis de consumo devem ser equalizados levando em conta a sustentabilidade.

A fórmula Luiz Carlos Prates consiste em deter o processo de ascensão social ora em curso, impedindo aos pobres o acesso ao consumo de bens que por décadas ficou restrito aos mais abastados. Se tal receita for seguida, estaremos confessando que a forma de combater a pobreza é matando mendigos, ou seja, concentrar a ação sobre os efeitos enquanto o cerne da questão permanece intacto.

Abaixo reproduzo um vídeo do infeliz comentário do jornalista Luiz Carlos Prates.

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A discriminação no Brasil é étnica, social e regional

Por Emir Sader

O processo de ascensão social de massas, inédito no Brasil, volta a promover formas de discriminação. A política – de sucesso comprovado – de cotas nas universidades, a eleição de um operário nordestino para Presidente da República – igualmente de sucesso inquestionável -, a ascensão ao consumo de bens essenciais que sempre lhes foram negados – fenômeno central no Brasil de hoje -, provocaram reações de discriminação que pareciam não existir entre nós.

A cruel brincadeira de repetir um mote das elites – “O Brasil não tem discriminação porque os negros conhecem o seu lugar” – mostra sua verdadeira cara quando essas mesmas elites sentem seus privilégios ameaçados. Setores que nunca se importavam com a desigualdade quando seus filhos tinham preparação sistemática para concorrer em melhores condições às vagas das universidades públicas, passaram a apelar para a igualdade na concorrência, quando os setores relegados secularmente no Brasil passaram a ter cotas para essas vagas.

Professores universitários – incrivelmente, em especial antropólogos, que deveriam ser os primeiros a lutar contra a discriminação racial -, músicos – significativa a presença de músicos baianos, que deveriam ser muito mais sensíveis que os outros à questão negra -, publicaram manifesto contra a política de cotas, em nome da igualdade diante da lei do liberalismo.

A vitória da Dilma, por sua vez, provocou a reação irada e ressentida de vozes, especialmente da elite paulistana, contra os nordestinos, por terem sido os setores do país que pela primeira vez são atendidos em seus direitos básicos. Reascendeu-se o espírito de 1932, aquele que orientou o separatismo paulista na reação contra a ascensão do Getúlio e de suas politicas de democratização econômica e social do Brasil. Um ranço racista, antinordestino, aflorou claramente, dirigidos ao Lula e aos nordestinos, que vivem e constroem o progresso de São Paulo, e aos que sobreviveram à pior miséria nacional no nordeste e hoje constroem uma região melhor para todos.

A discussão sobre o metrô em Higienópolis tem a vem com a apropriação privilegiada dos espaços urbanos pelos mais ricos que, quando podem, fecham ilegalmente ruas, se blindam em condomínios privados com guardas privados. A rejeição de pessoas do bairro – 3500 assinaturas – à estação do metrô expressava o que foi dito por alguns, sentido por todos eles, de impedir que seja facilitado o acesso ao bairro – a que mesmo seus empregados particulares tem que chegar tomando 2 ou 3 ônibus -, com a alegação que chegariam camelôs, drogas (como se o consumo fosse restrito a setores pobres), violência, etc.

Nos três tipos de fenômeno, elemento comum é a discriminação. Étnica, contra os negros, na politica de cotas; contra os nordestinos, nas eleições; na estação do metrô, contra os pobres.

Os três níveis estão entrelaçados historicamente. Fomos o último país a terminar com a escravidão, por termos passado de colônia à monarquia e não à república. Adiou-se o fim da escravidão para o fim do século. No meio do século XIX foi elaborada a Lei de Terras, que legalizou a propriedade – via grilagem, em que em papel forjado é colocado na gaveta e o cocô do grilo faz parecer antigo. Quando terminou finalmente a escravidão, todas as terras estavam ocupadas. Os novos cidadãos “livres” deixaram de ser escravos, mas não foram recompensados nem sequer com pedaços de terra. Os negros livres passaram a se somar automaticamente à legião de pobres no Brasil.

O modelo de desenvolvimento, por sua vez, concentrador de investimentos e de renda, privilegiou o setor centro sul do Brasil, abandonando o nordeste quando se esgotou o ciclo da cana de açúcar. Assim, nordestino, esquematicamente falando, era latifundiário ou era pobre. Esse mesmo modelo privilegiou o consumo de luxo e a exportação como seus mercados fundamentais, especialmente com a ditadura militar e o arrocho salarial.

A discriminação dos negros, dos nordestinos e dos pobres foi assim uma construção histórica no Brasil, vinculada às opções das elites dominantes – em geral brancas, ricas e do centro-sul do pais. A discriminação tem que ser combatida então nas suas três dimensões completamente interligadas: étnicas, regionais e sociais. O fato do voto dos mais pobres (que inclui automaticamente os negros) e dos nordestinos estar na base da eleição e reeleição do Lula e na eleição da Dilma, com os avanços sociais correspondentes, só acirram as reações das elites. Discriminações que tem que ser combatidas com politicas publicas, com mobilizações populares e também com a batalha no plano das idéias.


Fonte: Blog do Emir
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sábado, 14 de maio de 2011

Os 'diferenciados' mostraram seu valor

Por Cléber Sérgio de Seixas

A realização do “Churrascão da Gente Diferenciada” ratificou a tese – já provada pelos eventos que resultaram no afastamento do ditador egípcio Hosni Mubarak - de que as redes sociais são um grande instrumento de mobilização. Contudo, qualquer movimento social só terá chance de lograr algum êxito se ganhar as ruas. Enquanto as redes mobilizam, as ruas dão visibilidade. É bom lembrar que grandes revoluções como a Revolução Francesa foram feitas num tempo em que sequer existia o telefone.

O evento que hoje atraiu centenas de pessoas à avenida Angélica no bairro de Higienópolis – nome que, aliás, evoca as políticas sanitaristas que afastavam os pobres dos centros urbanos – mostrou a força das redes sociais e sua eficiência em mobilizar.

Redes sociais como Twitter, Facebook, Orkut e outras são um instrumento poderoso nas mãos dos "diferenciados". Tal instrumento dá voz àqueles que nunca tiveram vez. Portanto, doravante, o poder das redes sociais não poderá ser menosprezado, muito menos ignorado.

Abaixo reproduzo uma reportagem da TV Estadão a respeito da manifestação.



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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Os riscos da arrogância do Império

Por Leonardo Boff

Conto-me entre os que se entusiasmaram com a eleição de Barack Obama para Presidente dos EUA, especialmente vindo depois de George Bush Jr., Presidente belicoso, fundamentalista e de pouquíssimas luzes. Este acreditava na iminência do Armagedon bíblico e seguia à risca a ideologia do Destino Manifesto, um texto inventado pela vontade imperial norte-americana, para justificar a guerra contra o México, segundo o qual os EUA seriam o novo povo escolhido por Deus para levar ao mundo os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Esta excepcionalidade se traduziu numa histórica arrogância que fazia os EUA se arrogarem o direito de levarem ao mudo inteiro, pela política ou pelas armas, o seu estilo de vida e sua visão de mundo.

Esperava que o novo Presidente não fosse mais refém desta nefasta e forjada eleição divina, pois anunciava em seu programa o multilateralismo e a não hegemonia. Mas tinha lá minhas desconfianças, pois atrás do Yes, we can (“sim, nós podemos”) podia se esconder a velha arrogância. Face à crise econômico-financeira apregoava que os EUA mostraram em sua história que podiam tudo e que iam superar a atual situação. Agora por ocasião do assassinato de Osama bin Laden ordenada por ele (num Estado de direito que separa os poderes, tem o Executivo o poder de mandar matar ou não cabe isso ao Judiciário que manda prender, julgar e punir?) caiu a máscara. Não teve como esconder a arrogância atávica.

O Presidente, de extração humilde, afrodescendente, nascido fora do Continente, primeiramente muçulmano e depois convertido evangélico, disse claramente: “O que aconteceu domingo envia uma mensagem a todo o mundo: quando dizemos que nunca vamos esquecer, estamos falando sério”. Em outras palavras: “Terroristas do mundo inteiro, nós vamos assassinar vocês”. Aqui está revelada, sem meias palavras, toda a arrogância e a atitude imperial de se sobrepor a toda ética.

Isso me faz lembrar uma frase de um teólogo que serviu por 12 anos como assessor da ex-Inquisição em Roma e que veio me prestar solidariedade por ocasião do processo doutrinário que lá sofri. Confessou-me: ”Aprenda da minha experiência: a ex-Inquisição, não esquece nada, não perdoa nada e cobra tudo; prepare-se”. Efetivamente assim foi o que senti. Pior ocorreu com um teólogo moralista, queridíssimo em toda a cristandade, o alemão, Bernhard Hâring, com câncer na garganta a ponto de quase não poder falar. Mesmo assim foi submetido a rigoroso interrogatório na sala escura daquela instância de terror psicológico por causa de algumas afirmações sobre sexualidade. Ao sair confessou: “o interrogatório foi pior do que aquele que sofri com a SS nazista durante a guerra”. O que significa: pouco importa a etiqueta, católico ou nazista, todo sistema autoritário e totalitário obedece à mesma lógica: cobra tudo, não esquece e não perdoa. Assim prometeu Barack Osama e se propõe levar avante o Estado terrorista, criado pelo seu antecessor, mantendo o Ato Patriótico que autoriza a suspensão de certos direitos e a prisão preventiva de suspeitos sem sequer avisar aos familiares, o que configura sequestro. Não sem razão escreveu Johan Galtung, norueguês, o homem da cultura da paz, criador de duas instituições de pesquisa da paz e inventor do método Transcend na mediação dos conflitos (uma espécie de política do ganha-ganha): tais atos aproximam os EUA ao Estado fascista.

O fato é que estamos diante de um Império. Ele é consequência lógica e necessária do presumido excepcionalismo. É um império singular, não baseado na ocupação territorial ou em colônias, mas nas 800 bases militares distribuídas pelo mundo todo, a maioria desnecessária para a segurança americana. Elas estão lá para meter medo e garantir a hegemonia no mundo. Nada disso foi desmontado pelo novo Imperador, nem fechou Guantánamo como prometeu e ainda mais, enviou outros trinta mil soldados ao Afeganistão para uma guerra de antemão perdida.

Podemos discordar da tese básica de Abraham P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações. Mas nele há observações, dignas de nota, como esta: “a crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa” (p.395). Mais ainda: “a intervenção ocidental provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional” (p.397). Pois as condições para semelhante tragédia estão sendo criadas pelos EUA e pelos seus súcubos europeus.

Uma coisa é o povo norte-americano, bom, engenhoso, trabalhador e até ingênuo que admiramos, outra é o Governo imperial, que não respeita tratados internacionais que vão contra seus interesses e capaz de todo tipo de violência. Mas não há impérios eternos. Chegará o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos.


Fonte: Leonardoboff.com

Operação Jerônimo

à esquerda o Jerônimo original em fotografia de Ben Wittick

Por Frei Betto *


Por que a ação militar que teria matado Bin Laden mereceu o nome de Operação Jerônimo? Prescott Busch integrava, em 1918, a associação estudantil Skull & Bones (Crânio e Osso). Desafiado pelos colegas, invadiu um cemitério apache e roubou o escalpo do lendário cacique Jerônimo.

Dono de terras no Texas, Prescott tornou-se um exitoso empresário do ramo de petróleo e amigo íntimo de John Foster Dulles, que comandava a CIA por ocasião do assassinato de John Kennedy, em 1963. Dulles convenceu o amigo a fazer um gesto magnânimo e devolver aos apaches o escalpo de Jerônimo. Bush o atendeu, mas não tardou para os indígenas descobrirem que a relíquia restituída era falsa...

A amizade com Dulles garantiu ao filho mais velho de Prescott, George H. Bush, o emprego de agente da CIA. George destacou-se a ponto de, em 1961, coordenar a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, para tentar derrubar o regime implantado pela guerrilha de Sierra Maestra. Malgrado a derrota, tornou-se diretor da CIA em 1976.

Triste com o mau desempenho de seu primogênito como 007, Prescott Bush consolava-se com o êxito dele nos negócios de petróleo. E aplaudiu o faro empresarial do filho quando George, em meados dos anos 1960, tornou-se amigo de um empreiteiro árabe que viajava com freqüência ao Texas: Muhammad Bin Laden. Em 1968, ao sobrevoar os poços de petróleo de Bush, Bin Laden morreu em acidente aéreo no Texas. Os laços de família , no entanto, estavam criados.

George Bush não pranteou a morte do amigo. Andava mais preocupado com as dificuldades escolares de seu filho, George W. Bush, que só obtinha média C. A guerra do Vietnã acirrou-se e, para evitar que o filho fosse convocado, George tratou de alistá-lo na força aérea da Guarda Nacional.

Papai George incentivou o filho a fundar, em meados dos anos 1970, sua própria empresa petrolífera, a Arbusto (bush, em inglês) Energy. Graças aos contatos internacionais que o pai mantinha desde os tempos da CIA, George filho buscou os investimentos de Khaled Bin Mafouz e Salem Bin Laden, o mais velho dos 52 filhos gerados pelo falecido Muhammad. Mafouz era banqueiro da família real saudita e casara com uma das irmãs de Salem. Esses vínculos familiares permitiram que Mafouz se tornasse presidente da Blessed Relief, a ONG árabe na qual trabalhava um dos irmãos de Salem, Osama Bin Laden.

Em dezembro de 1979, George H. Bush viajou a Paris para um encontro entre republicanos e partidários moderados de Khomeini, no qual trataram da libertação dos 64 reféns estadunidenses seqüestrados, em novembro, na embaixada dos EUA, em Teerã. Buscava-se evitar que o presidente Jimmy Carter se valesse do episódio e prejudicasse as pretensões presidenciais de Ronald Reagan. Papai George fez o percurso até a capital francesa a bordo do jatinho de Salem Bin Laden, que lhe facilitava o contato com o mundo islâmico. (Em 1998, Salem faleceu, como o pai, num desastre de avião).

Naquele mesmo ano, os soviéticos invadiram o Afeganistão. Papai George, que coordenava operações da CIA, recorreu a Osama, um dos irmãos de Salem, que aceitou infiltrar-se no Afeganistão para, monitorado pela CIA, fortalecer a resistência afegã contra os invasores comunistas.

Os dados acima são do analista italiano Francesco Piccioni. Mais detalhes no livro A fortunate son: George W. Bush and the making of an American President, de Steve Hatfield.

Em 1979, a pedido de George Bush pai, então diretor da CIA, Osama, já com 23 anos, transferiu-se para o Afeganistão para administrar os recursos financeiros destinados às operações secretas da agência contra a invasão soviética àquele país. Preocupado com a ofensiva de Moscou, o governo dos EUA havia liberado a mais alta soma que a CIA recebeu, em toda a sua história, para atuar em um só país: US$ 2 bilhões.

Quando o presidente George W. Bush, depois do 11 de setembro, enquadrou, como crime anexo ao terrorismo, o “aproveitamento ilícito de informações privilegiadas”, sabia do que falava. Tudo indica que, graças a essas informações, Osama Bin Laden montou a sua rede terrorista mundo afora, movimentando recursos em paraisos fiscais.

Talvez Freud pudesse explicar um detalhe das armas escolhidas pelos terroristas de 11 de setembro: aviões. O pai e o irmão mais velho de Osama Bin Laden morreram em acidentes aéreos, ambos nos EUA.

Se o escalpe de Jerônimo era falso, quem garante que Bin Laden foi mesmo morto na mansão paquistanesa? Não seria mais útil ao combate ao terrorismo agarrá-lo vivo e obrigá-lo a revelar tudo sobre a Al-Qaeda? Não duvido que, em algum porta-aviões dos EUA, Bin Laden esteja sendo torturado para dizer o que sabe. Depois, basta adotar a “solução argentina”: atirar o corpo ao mar. Caso o encontrem boiando em alguma praia, ficam por conta dos afiados dentes dos peixes as marcas profundas.


* Frei Betto é escritor, autor de Calendário do poder (Rocco), entre outros livros.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 12 de maio de 2011.
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terça-feira, 10 de maio de 2011

“Minha reação ante a morte de Osama"

Por Noam Chomsky

Fica cada vez fica mais evidente que a operação foi um assassinato planejado, violando de múltiplas maneiras normas elementares de direito internacional. Aparentemente não fizeram nenhuma tentativa de aprisionar a vítima desarmada, o que presumivelmente 80 soldados poderiam ter feito sem trabalho, já que virtualmente não enfrentaram nenhuma oposição, exceto, como afirmara, a da esposa de Osama bin Laden, que se atirou contra eles.

Em sociedades que professam um certo respeito pela lei, os suspeitos são detidos e passam por um processo justo. Sublinho a palavra "suspeitos". Em abril de 2002, o chefe do FBI, Robert Mueller, informou à mídia que, depois da investigação mais intensiva da história, o FBI só podia dizer que "acreditava" que a conspiração foi tramada no Afeganistão, embora tenha sido implementada nos Emirados Árabes Unidos e na Alemanha.

O que apenas acreditavam em abril de 2002, obviamente sabiam 8 meses antes, quando Washington desdenhou ofertas tentadoras dos talibãs (não sabemos a que ponto eram sérias, pois foram descartadas instantâneamente) de extraditar a Bin Laden se lhes mostrassem alguma prova, que, como logo soubemos, Washington não tinha. Por tanto, Obama simplesmente mentiu quando disse sua declaração da Casa Branca, que "rapidamente soubemos que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram realizados pela al-Qaida.

Desde então não revelaram mais nada sério. Falaram muito da "confissão" de Bin Laden, mas isso soa mais como se eu confessasse que venci a Maratona de Bosto. Bin Laden alardeou um feito que considerava uma grande vitória.

Também há muita discussão sobre a cólera de Washington contra o Paquistão, por este não ter entregado Bin Laden, embora seguramente elementos das forças militares e de segurança estavam informados de sua presença em Abbottabad. Fala-se menos da cólera do Paquistão por ter tido seu território invadido pelos Estados Unidos para realizarem um assassinato político.

O fervor antiestadunidense já é muito forte no Paquistão, e esse evento certamente o exarcebaria. A decisão de lançar o corpo ao mar já provoca, previsivelmente, cólera e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Poderiamos perguntar como reagiriamos se uns comandos iraquianos aterrizassem na mansão de George W. Bush, o assassinassem e lançassem seu corpo no Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um "suspeito", mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que "tomou as decisões", quem deu as ordens de cometer o "supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto" (citando o Tribunal de Nuremberg), pelo qual foram enforcados os criminosos nazistas: os centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, destruição de grande parte do país, o encarniçado conflito sectário que agora se propagou pelo resto da região.

Há também mais coisas a dizer sobre Bosch (Orlando Bosch, o terrorista que explodiu um avião cubano), que acaba de morrer pacificamente na Flórica, e sobre a "doutrina Bush", de que as sociedades que recebem e protegem terroristas são tão culpadas como os próprios terroristas, e que é preciso tratá-las da mesma maneira. Parece que ninguém se deu conta de que Bush estava, ao pronunciar aquilo, conclamando a invadirem, destruirem os Estados Unidos e assassinarem seu presidente criminoso.

O mesmo passa com o nome: Operação Gerônimo. A mentalidade imperial está tão arraigada, em toda a sociedade ocidental, que parece que ninguém percebe que estão glorificando Bin Laden, ao identificá-lo com a valorosa resistência frente aos invasores genocidas.

É como batizar nossas armas assassinas com os nomes das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk (nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos). Seria algo parecido à Luftwaffe dar nomes a seus caças como "Judeu", ou "Cigano".

Há muito mais a dizer, mas os fatos mais óbvios e elementares, inclusive, deveriam nos dar mais o que pensar.


Fonte: Cubadebate via Vermelho

domingo, 8 de maio de 2011

BRT e transtornos no metrô BH

Enquanto o metrô engatinha, a Avenida Cristiano Machado pára


Por Cléber Sérgio de Seixas

A última pesquisa SIPS (Sistema de Indicadores de Percepção Social) do IPEA demonstrou como os brasileiros estão percebendo o transporte e a mobilidade urbana. A pesquisa que ouviu 2.786 pessoas em 146 municípios, em linhas gerais, apontou uma preocupação maior com rapidez, preço e disponibilidade do transporte. Demonstrou também que 60% dos habitantes das regiões metropolitanas utilizam o transporte público em seus deslocamentos. Fora dos grandes centros urbanos esse número cai para 25%. De certa forma, a pesquisa revela o que o senso-comum já atestava.

A capital mineira já prepara sua infra-estrutura para importantes eventos internacionais como a Copa do Mundo de futebol em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Enquanto as obras de modernização do estádio Magalhães Pinto, vulgo Mineirão, vão de vento em popa, o mesmo não pode ser dito a respeito das obras de infra-estrutura de transportes.

As obras de adequação e ampliação da Avenida Antônio Carlos, um dos principais corredores que fazem a ligação entre o centro e a região norte de Belo Horizonte, já causam enormes transtornos no ir e vir de milhares de pessoas. Essa avenida será a primeira a implantar o sistema BRT (Bus Rapid Transit). Em virtude de tais obras, muitos têm optado pelo deslocamento através de outro vetor de ligação da região norte ao centro: a Avenida Cristiano Machado. Ocorre que este corredor frequentemente apresenta pontos de retenção nos horários de pico, provocando grandes congestionamentos, apesar de recentemente ter passado por obras de expansão.

Fugindo da Antônio Carlos e da Cristiano Machado, os usuários do transporte público da capital mineira e região metropolitana que querem se deslocar da região norte para o centro têm no metrô sua única alternativa para chegar a tempo ao trabalho. Em consequência, os metrôs estão trafegando no limite de sua capacidade de lotação nos horários de pico da manhã, não sendo incomum já saírem superlotados da estação Vilarinho. Quem desembarca na estação Vilarinho pela manhã passa por um verdadeiro sufoco, haja vista o desespero daqueles que tentam entrar. Às vezes, o trem que já saiu da Vilarinho lotado chega à estação São Gabriel – uma das mais movimentadas do sistema - sem condições para o embarque, obrigando os passageiros a aguardarem a próxima composição.

Entre os dias 21 de março e 14 de abril últimos, em horários de maior movimentação de passageiros, a CBTU promoveu uma campanha educativa na estação Vilarinho visando estimular bons hábitos de segurança no embarque e desembarque. Sob o slogan “Deixe sair para depois entrar”, os monitores tentavam conscientizar os passageiros. Lograram certo êxito durante a campanha, mas tão logo a mesma terminou, os atropelos reiniciaram, bem como os atrasos decorrentes dos tumultos nos embarques/desembarques.

Monitores em ação na estação Vilarinho

Enquanto prosseguem as obras na Avenida Antônio Carlos e os amassos e atropelos no metrô durante os horários de pico, nada se diz sobre a construção das linhas 2 e 3. Também nada se fala sobre opções que, apesar de mais onerosas que o BRT, trariam impacto mais positivo sobre a infraestrutura de transportes da capital mineira, como o VLT e o trem monotrilho. Pelo visto, apenas o BRT se tornará realidade até a Copa 2014, deslocando-se sobre os corredores da Antônio Carlos, Cristiano Machado e Pedro II. Tais obras, sobretudo as da Cristiano Machado, prometem transtornos futuros para os sofridos usuários dos transportes públicos da RMBH. A opção pelo modal rodoviário, em detrimento de expansões no ferroviário, fica patente na implantação do BRT.

Paralelamente às obras da Avenida Antônio Carlos, um grande shopping Center está sendo construído sobre a estação intermodal Vilarinho. É pouco provável que tal empreendimento vá mitigar o sofrimento dos que utilizam o metrô de Belo Horizonte no sentido norte - oeste durante os horários de pico, mas isso é outra história e assunto para outro artigo.

Abaixo um vídeo mostrando a campanha em prol do embarque seguro.



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Se foi uma vitória dos EUA, as suas tropas não deviam agora ir para casa?

Por Robert Fisk

Por que estamos no Afeganistão? O objetivo dos americanos e britânicos que foram para lá em 2001 não era lutar contra Osama Bin Laden? Não o mataram na segunda-feira? Houve um simbolismo doloroso no ataque aéreo da Otan na terça-feira – quase 24 horas após a morte de Bin Laden – que matou mais guardas de segurança afegãos. Pois a verdade é que há muito tempo perdemos o argumento no cemitério de impérios, transformando a caça a um inventor da jihad global, que se tornara em grande parte irrelevante, numa guerra contra dezenas de milhares de insurreitos talibãs, que têm pouco interesse na al-Qaeda, mas muito entusiasmo em expulsar do seu país os exércitos ocidentais.

As esperanças de Hamid Karzai e de Hillary Clinton – que os talibãs fiquem tão assustados com a morte de Bin Laden ao ponto de querer tornar-se felizes democratas, e humildemente se aliem à totalmente corrupta liderança do Afeganistão, apoiada pelo Ocidente – mostra o quão desligados eles estão da ensanguentada realidade do país. Alguns dos talibãs admiravam Bin Laden, mas não o amavam, e ele não fizera parte da sua campanha contra a Otan. No Afeganistão, o mullah Omar é mais perigoso para o Ocidente do que Bin Laden. E ninguém matou Omar.

Por uma vez, o Irã falou em nome de milhões de árabes quando reagiu à morte de Bin Laden. "Foi eliminada uma desculpa para países estrangeiros deslocarem tropas para a região sob o pretexto de combater o terrorismo", disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros. "Esperamos que este evento acabe com a guerra, com o conflito, com a instabilidade e a morte de inocentes, e ajude a estabelecer a paz e a tranquilidade na região."

Jornais de todo o mundo árabe disseram a mesma coisa. Se foi uma vitória tão grande para os Estados Unidos, chegou a hora de ir para casa, o que, naturalmente, os EUA, por enquanto, não têm intenção de fazer.

O fato de muitos americanos pensarem a mesma coisa não vai mudar o mundo às avessas em que está enquadrada a política dos EUA. Porque há uma verdade incômoda que o mundo ainda não entendeu: que as revoluções na Tunísia e do Egito – e, com mais premência, os banhos de sangue na Líbia e na Síria e os perigos para o Líbano – têm uma importância infinitamente maior do que abater um homem barbudo que atingiu, na imatura imaginação do Ocidente, proporções hitlerianas.

O brilhante discurso do primeiro-ministro turco Erdogan, terça-feira em Istambul – apelando a que os sírios parem de matar o seu povo e a Khadafi a que saia da Líbia – foi mais eloquente, mais poderoso e mais histórico do que os mesquinhos e arrogantes discursos hollywoodianos de Obama e de Clinton na segunda-feira. Agora perdemos o nosso tempo especulando quem vai "assumir" a liderança da al-Qaeda – Zawahiri ou Saif al-Adel – quando o movimento não tem uma "liderança" como tal, sendo Bin Laden mais o fundador que o patrão.

Mas, sendo um dia um longo tempo nos campos de morte do Oriente Médio, apenas 24 horas depois da morte de Osama Bin Laden, outras questões começaram a ganhar importância. Se, por exemplo, Barack Obama realmente acha que o mundo é "um lugar mais seguro" depois da morte de Bin Laden, como é que os EUA aumentaram o alerta de ameaça e as embaixadas em todo o mundo estão sendo aconselhadas a tomar precauções extra contra eventuais ataques?

E que aconteceu exatamente nessa casa mal-cuidada – não, ao que parece, já não é uma “mansão” de um milhão de dólares – quando puseram fim à vida efervescente de Bin Laden? É pouco provável que a Human Rights Watch seja a única instituição a pedir uma "investigação minuciosa e transparente" sobre o assassinato.

Havia uma história inicial de “fontes” do Pentágono que falava de duas esposas de Bin Laden mortas e uma mulher usada como "escudo humano" que também morrera. Em poucas horas, as esposas estavam vivas e, nalguns relatos, a terceira mulher simplesmente desapareceu.

E depois, é claro, há o Paquistão, a dizer ansiosamente ao mundo que participou no ataque contra Bin Laden, para depois o presidente Zardari se desdizer um dia depois. Duas horas mais tarde, tivemos um oficial americano que descreve o ataque contra Bin Laden como "uma conquista partilhada".

E há o segredo do corpo de Bin Laden no Mar da Arábia. Será que foi previsto antes do ataque a Bin Laden, com o claro plano de o matar ao invés de capturá-lo? E se a cerimônia foi realizada "de acordo com os direitos islâmicos" – o corpo do morto é lavado e colocado numa mortalha branca – deve ter levado muito tempo para que o oficial do USS Carl Vinson planeasse uma cerimónia religiosa de 50 minutos religiosos e arranjasse um marinheiro de língua árabe para traduzi-la.

Façamos então uma verificação da realidade. O mundo não é mais seguro devido à morte de Bin Laden. É mais seguro por causa dos ventos de liberdade que sopram no Oriente Médio. Se o Ocidente tratar o povo desta região com justiça, em vez de usar o poder de fogo militar, a Al-Qaeda vai tornar-se ainda mais irrelevante do que tem sido desde as revoluções árabes.

Claro, há um lado positivo para o mundo árabe. Com Bin Laden morto, os Khadafi, os Saleh e os Assad vão ter ainda mais dificuldades para alegar que é um homem agora morto que está por trás das revoluções populares que tentam derrubá-los.


Fonte: site da Revista Fórum
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Osama e Obama

Por Frei Betto

Estranho que a CIA, ao declarar que assassinou Osama Bin Laden, não tenha exibido o corpo, como fez à sobeja com outro "troféu de caça": Ernesto Che Guevara.

Bin Laden saiu da vida para entrar na história. Até aí, nada de novo. A história, da qual poucos têm memória, está repleta de bandidos e terroristas, cujos nomes e feitos quase ninguém lembra. Os mais conhecidos são o rei Herodes; Torquemada, o grande inquisidor; a rainha Vitória, a maior traficante de drogas de todos os tempos, que promoveu na China a Guerra do Ópio; Hitler; o presidente Truman, que atirou bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki; e Stálin.

O perigo é que Osama passa da história ao mito e, de mito, a mártir. Sua morte não deveria merecer mais do que uma nota nas páginas interiores dos jornais. No entanto, como os EUA são um país necrófilo, que se nutre de vítimas de suas guerras, Obama transforma Osama num ícone do mal, atiçando o imaginário de todos aqueles que, por alguma razão, odeiam o imperialismo estadunidense.

Saddam Hussein, marionete da Casa Branca manipulada contra a revolução islâmica do Irã, demonstrou que o feitiço se volta contra o feiticeiro.

Desde 1979, Osama bin Laden tornou-se o braço armado da CIA contra a ocupação soviética no Afeganistão. A CIA ensinou-o a fabricar explosivos e realizar ataques terroristas, movimentar sua fortuna através de empresas-fantasmas e paraísos fiscais, operar códigos secretos e infiltrar agentes e comandos.

“Bin Laden é produto dos serviços americanos”, afirmou o escritor suíço Richard Labévière. Derrubado o Muro de Berlim, desde 1990 Bin Laden passou a apontar seu arsenal terrorista para o coração do Tio Sam.

O terrorismo é execrável, ainda que praticado pela esquerda, pois todo terrorismo só beneficia um lado: a extrema-direita. Na vida se colhe o que se planta. Isso vale para as dimensões pessoal e social. Se os EUA são hoje atacados de forma tão violenta é porque, de alguma forma, eles se valeram do seu poder de humilhar povos e etnias. Há décadas abusam de seu poder, como é o caso da ocupação de Porto Rico; a base naval de Guantánamo encravada em Cuba; as guerras ao Iraque e Afeganistão e, agora, à Líbia; a participação nas guerras da Europa Central; a omissão diante dos conflitos e das ditaduras árabes e africanas.

Já era o tempo de os EUA, como mediadores, terem induzido árabes e israelenses a chegarem a um acordo de paz. Tudo isso foi sendo protelado, em nome da hegemonia de Tio Sam no planeta. De repente, o ódio irrompeu da forma brutal, mostrando que o inimigo age, também, fora de toda ética, com a única diferença de que ele não dispõe de fóruns internacionais para legitimar sua ação criminosa, como é o caso da conivência da ONU com os genocídios praticados pela Casa Branca.

Quem conhece a história da América Latina sabe muito bem como os EUA, nos últimos 100 anos, interferiram diretamente na soberania de nossos países, disseminando o terror. Maurice Bishop foi assassinado pelos Boinas Verdes em Granada; os sandinistas foram derrubados pelo terrorismo desencadeado por Reagan; os cubanos continuam bloqueados desde 1961, sem direito a relações normais com os demais países e uma parte de seu território, Guantánamo, continua invadida pelo Pentágono.

Nas décadas de 1960 e 1970, ditaduras foram instauradas no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai, na Bolívia, na Guatemala e em El Salvador, com o patrocínio da CIA e sob a orientação de Henry Kissinger.

Violência atrai violência, dizia dom Hélder Câmara. O terrorismo não leva a nada, exceto a endurecer a direita e suprimir a democracia, levando os poderosos à convicção de que o povo é incapaz de governar-se por si mesmo. Vítimas inocentes não podem ser sacrificadas para satisfazer a ganância de governos imperiais que se julgam donos do mundo e pretendem repartir o planeta como se fosse fatias de um apetitoso bolo. Os atentados de 11 de setembro de 2001 demonstram que não há ciência ou tecnologia capazes de proteger pessoas ou nações. Inútil os EUA gastarem trilhões de dólares em esquemas sofisticados de defesa. Melhor seria que essa fortuna fosse aplicada na paz mundial, que só irromperá no dia em que ela for filha da justiça.

A queda do Muro de Berlim pôs fim ao conflito Leste-Oeste. Resta agora derrubar a muralha da desigualdade entre Norte-Sul. Sem que o pão seja nosso, nem o Pai e nem a paz serão nossos.


Fonte: Jornal Estado de Minas - 05 de maio de 2011.
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terça-feira, 3 de maio de 2011

Matando o álibi

Reproduzo artigo de Marwan Bishara publicado no site da Revista Fórum

A morte de Osama Bin Laden é uma vitória simbólica enorme para a administração Obama, mas realmente muda o jogo para a estratégia dos EUA no “Grande Oriente Médio”?

Após 10 anos de perseguição ao líder da al-Qaeda, responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001, os EUA fecharam um capítulo, mas não o livro, da guerra contra a al-Qaeda e o “terrorismo internacional”.

Desde os ataques em Nova Iorque e Washington, a “al-Qaeda central” que estava sendo dirigida da fronteira Paquistão-Afeganistão, se transformou numa rede global de afiliados.

Os “especialistas em terrorismo” nos EUA estão divididos sobre a relevância da “al-Qaeda central” sob a direta liderança de Bin Laden e seus tenentes, em comparação à rede global de células menores e combatentes incondicionais que juraram lealdade às lideranças ou, para dizer concretamente, à marca: al-Qaeda.

Aqueles que subestimam a importância dos líderes “desconectados e na fuga” na fronteira de Paquistão e Afeganistão realçam a importância da descentralização do grupo.

Eles se referem a ela como um grupo SPIN (por sua sigla em inglês – segmentada, policêntrica, ideologicamente conectada), onde os combatentes da al-Qaeda em várias partes do mundo gradualmente aumentaram sua atuação independente sem ordens diretas ou suporte financeiro e logístico da al-Qaeda central.

Neste sentido, a al-Qaeda é mais um fenômeno global e pós-moderno do que um fenômeno religioso. E agora?

Enquanto ela continua evocando o Islã e a Jihad para ganhar apoio e incitar o ódio contra não-muçulmanos, na realidade, sua organização e extensão, seja pela web ou uso de tecnologia moderna, sempre esteve no centro de seu propósito enquanto rede global.

Seja como for, a morte física de Bin Laden sem dúvida causará um sério atraso psicológico e inspirador para os combatentes da al-Qaeda e suas causas. Mas, para o mundo muçulmano, Bin Laden já havia se tornado irrelevante em comparação à Primavera Árabe que realçou o significado do poder do povo por meios pacíficos.

Também vale relembrar que a al-Qaeda de Bin Laden e seus afiliados mataram mais árabes e muçulmanos do que mataram ocidentais.

E foi somente após falharem em reunir apoio no mundo Árabe que voltaram ao Afeganistão e começaram a alvejar o Ocidente.

Depois de muito se apropriar das causas árabes e muçulmanas através de seus ataques sangrentos a alvos ocidentais, a al-Qaeda foi desacreditada desde 11/9 e sua capacidade organizacional diminuída pelas medidas ocidentais anti-terror.

A al-Qaeda de Bin Laden providenciou à administração Bush a perfeita desculpa para lançar suas desastrosas e custosas guerras no grande Oriente Médio.

Como esperado, as guerras de Washington no Iraque, Afeganistão e Paquistão continuaram a fornecer recrutas novos para a al-Qaeda, além de apoio no mundo muçulmano e de perpetuar um ciclo de violência que arrasou a região na última década.

No entanto, esta foi o mais tácito e menos custoso serviço de inteligência dos EUA e Ocidentais a ser bem sucedido em larga escala a cercear atividades da al-Qaeda, limitando o movimento de seus líderes e eventualmente organizando suas mortes.

Então, o que significa isso para a guerra dos EUA no Afeganistão e no Paquistão? Certamente Washington tem menos razão ou justificativas para financiar uma guerra no Afeganistão agora que Bin Laden não mais existe.

Isso também deve encontrar mais respaldo entre certos líderes Taliban na ausência da mais pungente questão da al-Qaeda, para fazer um acordo que assegure o compartilhamento de poder em favor do Taliban em troca de limitar o uso do Afeganistão pela al-Qaeda para exportar “terrorismo”.

Bin Laden continuará a ser uma distração a curto-prazo, e especialmente se alguns dos grupos da al-Qaeda planejarem ataques de retaliação.

Mas, em longo prazo, são as transformações históricas no mundo árabe e muçulmano que eventualmente fecharão o livro sobre a al-Qaeda.

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