quarta-feira, 30 de junho de 2010

COMO DESEJARIA ESTAR ERRADO


Por Fidel Castro Ruz*

Quando estas linhas se publiquem no jornal Granma, amanhã, sexta-feira, o dia 26 de julho, data na qual sempre lembramos com orgulho a honra de ter resistido os embates do império, ficará distante, apesar de que somente restam 32 dias.

Aqueles que determinam cada passo do pior inimigo da humanidade — o imperialismo dos EUA, uma mistura de mesquinhos interesses materiais, desprezo e subestimação as demais pessoas que habitam o planeta — o calcularam tudo com precisão matemática.

Na reflexão de 16 de junho escrevi: "Entre jogo e jogo da Copa Mundial de Futebol, as notícias diabólicas vão deslizando aos poucos, de forma tal que ninguém se ocupe delas".

O famoso evento esportivo entrou nos seus momentos mais emocionantes. Durante 14 dias os times integrados pelos melhores futebolistas de 32 países competiram para avançar rumo a fase de oitavas de final; depois vêm sucessivamente as fases de quartas de final, semifinais e o final do evento.

O fanatismo esportivo cresce incessantemente, cativando centenas e talvez milhares de milhões de pessoas em todo o planeta.

Haveria que se perguntar quantos, no entanto, conhecem que desde 20 de junho navios militares norte-americanos, inclusive o porta-aviões Harry S. Truman, escoltado por um ou mais submarinos nucleares e outros navios de guerra com mísseis e canhões mais potentes que o dos velhos navios de guerra utilizados na última guerra mundial entre 1939 e 1945, navegavam rumo as costas iranianas através do canal de Suez. Juntamente com as forças navais ianques avançavam navios militares israelenses, com armamento igualmente sofisticado, para inspecionar quanta embarcação parta para exportar e importar produtos comerciais que o funcionamento da economia iraniana requer.

O Conselho de Segurança da ONU, por proposta dos EUA, com o apoio da Grã-Bretanha, França e Alemanha, aprovou uma poderosa resolução que não foi vetada por nenhum dos cinco países que ostentam esse direito.

Outra resolução mais forte foi aprovada por acordo do Senado dos Estados Unidos.

Com posterioridade, uma terceira resolução mais poderosa ainda, foi aprovada pelos países da Comunidade Europeia. Tudo isto aconteceu antes de 20 de junho, o que motivou uma viagem urgente do presidente francês, Nicolas Sarkozy à Rússia, segundo notícias, para entrevistar-se com o chefe de Estado desse poderoso país, Dimitri Medvédev, com a esperança de negociar com o Irã e evitar o pior.

Agora se trata de calcular quando as forças navais dos EUA e de Israel se desdobrarão frente às costas do Irã, para unir-se aos porta-aviões e demais navios militares norte-americanos que estão à espreita nessa região.

O pior é que, igual que os Estados Unidos, Israel, seu gendarme no Oriente Médio, possui modernos aviões de ataque e sofisticadas armas nucleares fornecidas pelos EUA, que o tornou na sexta potência nuclear do planeta por seu poder de fogo, entre as oito reconhecidas como tais, que incluem à Índia e o Paquistão.

O Xá do Irã foi derrocado pelo aiatolá Ruhollah Jomeini em 1979 sem empregar uma arma. Depois, os Estados Unidos impuseram-lhe a guerra àquela nação com o emprego de armas químicas, cujos componentes forneceu ao Iraque juntamente com a informação requerida pelas suas unidades de combate e que foram empregues por estas contra os Guardiães da Revolução. Cuba o conhece porque nesse então era, como temos explicado outras vezes, presidente do Movimento de Países Não-Alinhados. Sabemos muito bem os estragos que causou na sua população. Mahmud Ahmadineyad, atualmente chefe de Estado no Irã, foi chefe do sexto exército dos Guardiães da Revolução e chefe dos Corpos dos Guardiães nas províncias ocidentais do país, que levaram o peso principal daquela guerra.

Hoje, em 2010, tanto os EUA quanto Israel, depois de 31 anos, subestimam o milhão de homens das Forças Armadas do Irã e sua capacidade de combate por terra, e às forças de ar, mar, e terra dos Guardiães da Revolução.

A estas, se acrescentam os 20 milhões de homens e mulheres, entre 12 e 60 anos, selecionados e treinados sistematicamente por suas diversas instituições armadas entre os 70 milhões de pessoas que habitam o país.

O governo dos EUA elaborou um plano para organizar um movimento político que, apoiando-se no consumismo capitalista, dividisse os iranianos e derrubasse o regime.

Tal esperança é atualmente inócua. Resulta risível pensar que com os navios de guerra estadunidenses, unidos aos israelenses, despertem as simpatias de um só cidadão iraniano.

Pensava inicial mente, ao analisar a atual situação, que a contenda começaria pela península da Coreia, e ali estaria o detonador da segunda guerra coreana que, a sua vez, daria lugar de imediato à segunda guerra que os Estados Unidos lhe imporiam ao Irã.

Agora, a realidade muda as coisas no avesso: a do Irã desatará de imediato a da Coreia.

A direção da Coreia do Norte, que foi acusada do afundamento do "Cheonan", e sabe perfeitamente que foi afundado por uma mina que os serviços de inteligência ianque conseguiram colocar no casco desse navio, não esperará um segundo para atuar enquanto no Irã se inicie o ataque.

É justo que os fanáticos do futebol desfrutem das competições da Copa do Mundo. Somente cumpro o dever de exortar o nosso povo pensando, sobretudo em nossa juventude, cheia de vida e esperanças, e especialmente nas nossas maravilhosas crianças, para que os fatos não nos surpreendam absolutamente desprevenidos.

Dói-me pensar em tantos sonhos concebidos pelos seres humanos e nas assombrosas criações das quais têm sido capazes em só uns poucos milhares de anos.

Quando os sonhos mais revolucionários se estão cumprindo e a Pátria se recupera firmemente, como desejaria estar errado!


* Artigo publicado no site Brasil de Fato

Bicentenário de Karl Marx


Sérgio Farnese - Professor de filosofia, autor do livro A teoria

Em 5 de maio de 2018, serão comemorados os 200 anos do nascimento de Karl Marx. Parece estar meio longe esse bicentenário, não fossem as tarefas intelectuais que inspira, não fossem esses os mesmos oito anos que faltam, o tempo que ele levou para concluir O capital, em 1867. Prazo razoável para credenciamento de linhas de pós-graduação e para teses de pós-doutorado, anos suficientes para aprender alemão e também grego, latim, russo, inglês e francês, para uma interlocução com o domínio idiomático e universal do pensador alemão. A pergunta é: afinal, está ou não decretada a morte intelectual de Karl Marx?

Ecoa no ar um espectro, uma lei férrea, como ele chamava sua polêmica lei geral da acumulação capitalista, singelamente resumida no mote mais progresso, mais miséria. No emergente Brasil, em que há pouco mais de 100 anos o ser humano menos valia que um cavalo, se olharmos nossos dentes, segundo dados do governo, veremos que metade da nação vegeta sem acesso ao meio bilhão de escovas aqui produzidas todo ano e que circulam apenas pelos lábios privilegiados, talvez pela vida útil de três meses, peças para viagem, em casa de namorados e em drogarias. Seriam os lázaros da classe trabalhadora os protagonistas, no calendário de 2018, de eventos populares homenageando o filósofo? Atirados na banguela da história, embrutecidos pela ignorância massificada pela superexploração capitalista, Marx ainda os pôde ver nos braços dos golpistas e reacionários de plantão, em troca de um prato de comida, lutando contra os operários em revolução, seguindo, aqui e acolá, cevados por programas similares a Brasil Sorridente, bolsas Escola e Família e outras mordomias.

Ele também não se dirigia à aristocracia operária, cooptada estruturalmente pela artimanha patronal de ofertar anel para não perder dedo. Tinha lá suas razões para preferir setores mais esclarecidos e organizados dos trabalhadores em movimento, para quem redigiu, com Friedrich Engels, o Manifesto comunista, de 1848. Fundando em 1864 a Internacional Socialista, que teve um hino composto por um pedreiro e um entalhador e que governou a Paris revolucionária no maio de 1871, apontava um horizonte mais largo para a tarefa ainda mal executada da negação da negação, categoria top do sistema de Hegel, filósofo prussiano de quem se declarou discípulo nas mesmas páginas do Livro I de O capital, em que, curiosamente, encontramos Minas Gerais e seus diamantes, em referência aos registros de Eschewege, que minerou na região de Congonhas, no século 19.

Doutor em filosofia aos 23 anos, pela Universidade de Iena, tese unindo Epicuro e Demócrito, pensadores gregos dos átomos, do prazer e da liberdade, alemão de Colônia, ascendência judia, diplomado em direito, Marx ocupa seu lugar entre 20 filósofos dos 20 séculos passados dos quais não se pode não falar no Ocidente. Por isso, a filosofia é a rainha dessa festa, descalça nesse hoje nada disputado espaço teórico, exilado de modismos acadêmicos tão reticentes, politizados, propensos a propinas ecomiásticas, banquete desdenhado, ao modo da parábola bíblica. Quiçá, do frio pálido de sua lápide londrina, Marx nos envie presentes de aniversário, vetustos ruídos, intuições sobranceiras, serenas, mas ansiosas: e daí? E agora?


Fonte: jornal Estado de Minas em 30 de junho de 2010.

sábado, 26 de junho de 2010

ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL - UM PRESENTE DOS SENHORES: 2ª Parte

Na "democracia" racial brasileira, os negros ainda estão em posição subalterna


Por Cléber Sérgio de Seixas

Muitos tentaram dar resposta a essa pergunta desde que os negros se viram libertos. Alguns teorizaram sobre os processos de miscigenação ocorridos no Brasil e chegaram às mais surpreendentes conclusões. Gilberto Freyre, por exemplo, legou-nos o mito da democracia racial, segundo o qual no Brasil haveria um convívio pacífico entre as raças. Esta ideologia assevera a existência de uma sociedade sem raças e sem cor, uma sociedade igualitária, na qual o Estado deveria manter-se a distância das questões relativas às diferenças raciais.

Pelo contrário, é indiscutível que a situação dos negros no Brasil é indisputadamente pior que a dos brancos. Os negros têm os menores níveis educacionais, as maiores taxas de analfabetismo, são mais afetados pelas situações de desemprego e, quando conseguem alguma ocupação, são menos remunerados. Se levarmos em conta outros parâmetros, como saneamento, habitação e acesso a serviços públicos, os resultados demonstrarão o fosso abissal que separa negros e brancos.

Some-se às degradantes condições sócio-econômicas nas quais chafurdam os negros no Brasil o racismo velado que aqui impera, diferente do racismo franco que foi praticado pelo apartheid sul-africano, e bem distinto da marginalização dos negros norte-americanos em passado recente.

O racismo potencializa a pobreza. Ser pobre e ser negro é bem pior que ser pobre e branco.

O racismo decompõe-se em preconceito e discriminação. Enquanto o racismo é a ideologia que distingue, classifica, qualifica e ordena os grupos sociais em função da cor ou de seu biótipo, o preconceito é decorrência direta do racismo, sendo a internalização dessa ideologia pelos indivíduos. Já a discriminação é o preconceito em movimento, ou seja, é o preconceito externalizado em atos. Se a discriminação é crime previsto em lei, podendo ser considerada caso de “polícia”, o preconceito deve ser considerado caso de “políticas”. São as chamadas políticas de ações afirmativas, que buscam valorizar o negro, combatendo a visão preconceituosa que dele tem parcelas consideráveis da sociedade.

O governo Lula trouxe novo fôlego às discussões sobre a problemática racial no Brasil. A Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) foi criada em 2003 para prover iniciativas contra as desigualdades raciais no País. É nesse contexto que o senador Paulo Paim (PT) propôs o Estatuto da Igualdade Racial. Após longa tramitação, o Estatuto foi aprovado no último dia 16, mas foi “desfigurado” pela retirada de alguns pontos considerados polêmicos pela Casa Grande. Para que o projeto fosse destravado, o relator, o deputado Antônio Roberto (PV-MG) decidiu retirar do texto final trechos que tratavam da regularização de terras para os quilombolas, de forma a entrar em acordo com a bancada ruralista.

Além disso, a questão das cotas para negros em universidades também foi retirada do texto do Estatuto. Demóstenes Torres (DEM-GO) salientou que o Estatuto não objetiva criar enfrentamentos. É importante lembrar que o mesmo Demóstenes Torres foi quem afirmou numa audiência sobre as cotas no STF, realizada em março deste ano, que as escravas negras se entregavam aos caprichos de seus senhores por puro deleite sexual.

É, portanto, indiscutível que - apesar de significar um grande passo para a conquista da cidadania pelos negros brasileiros – o Estatuto, ao suprimir de seu teor questões cruciais para a real democratização racial brasileira, como as cotas para negros em universidades, passa para a História como algo que foi decidido na e pela Casa Grande. O presidente Lula sancionará, democratas e petistas comemorarão e posarão em suas campanhas eleitorais como paladinos defensores da igualdade de direitos entre as raças. Haverá festa, mas muitos negros ficarão de fora e comerão das migalhas que caírem das mesas daqueles que sempre decidem - senhores de ontem, senhores de hoje.

Eis o Estatuto, mas com pouco de concreto para mudar a realidade injusta na qual padecem os representantes da raça negra brasileira. Há ainda um longo caminho a ser percorrido pelos negros brasileiros em busca de sua afirmação social. Este caminho terá de ser trilhado com muita luta. Há um ditado que diz que quando a esmola é demais o santo desconfia. Portanto, era para se desconfiar o fato do presente ter partido das mãos dos Senhores. É por isso que os negros, quando alçam seus estandartes no meio da luta por melhores condições de vida, não estampam nos mesmos a efígie da princesa Isabel, e sim a figura emblemática e libertária de Zumbi, um personagem que evoca luta contínua.

Ler também: ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL - UM PRESENTE DOS SENHORES: 1ª Parte.

Rede Globo é alvo de "vuvunzelazo" na internet

Reproduzo um editorial do site Carta Maior veiculado no dia 25/06/2010

A Globo não está mais falando sozinha no Brasil. A chamada grande mídia não se esgota na Rede Globo, é verdade, mas esta simboliza a hegemonia do modelo midiático concentrador e excludente construído no Brasil ao longo das últimas décadas. A briga envolvendo o técnico da seleção brasileira e o maior conglomerado de comunicação do país deu visibilidade a esse novo cenário. O chamado para um "Dia sem Globo", convocado via twitter para esta sexta-feira, foi um movimento inédito no país, nos termos em que aconteceu. A ordem era não ver o jogo da seleção brasileira contra Portugal pelos veículos da Globo. Moveu ponteiro na audiência da emissora? Nada dramático, segundo os indicadores oficiais de audiência, mas algo parece ter se movido.

O blog Noticias da TV Brasileira divulgou os seguintes números dos índices de audiência das emissoras concorrentes da Globo no horário do jogo desta sexta-feira entre Brasil e Portugal:

“A Band obteve hoje com a transmissão do jogo Brasil X Portugal o seu melhor resultado de audiência até agora na Copa do Mundo: pela prévia do Ibope, média de 13 pontos. Nos dois primeiros jogos do Brasil a média da emissora tinha sido de 10 pontos. O resultado de hoje mais uma vez garantiu à Band o segundo lugar isolado. No horário do jogo, SBT deu 1,1, Record 0,9 e Rede TV 0,1.”

Luiz Carlos Azenha, por sua vez, informou no Vi o Mundo que os números preliminares do Ibope para a Grande São Paulo indicam um aumento na audiência tanto para a Globo quanto para a Bandeirantes em relação ao jogo anterior do Brasil na Costa do Mundo, domingo passado. “Na estreia do Brasil, a Globo cravou 45 pontos, contra 10 da Band. No terceiro jogo, entre Brasil e Portugal, os números preliminares indicam que a Globo obteve 44 pontos de média, contra 13 da Band”. No entanto, o “share” da TV Globo caiu (porcentagem de sintonizados na emissora sobre o número total de televisores ligados), de 75% no primeiro jogo para 72% no segundo e, agora, para 67%. O “share” da Bandeirantes, por sua vez, iniciou com 16%, passou para 17% e chegou a 20% no jogo contra Portugal. Todos esses números, adverte Azenha, são preliminares e se referem apenas à medição automática do Ibope na Grande São Paulo.

Mas a principal novidade desse episódio não é audiência da Globo ou da Bandeirantes, mas sim a exposição pública de um tipo de prática midiática (de manutenção de privilégios) que não era conhecido pela imensa maioria da população. Na terça-feira desta semana começaram a surgir os primeiros relatos (dos jornalistas Bob Fernandes, no portal Terra, e de Maurício Stycer, no UOL) sobre o conflito ocorrido no domingo entre Dunga e a Rede Globo. Segundo esses relatos, Dunga não aceitou dar à Globo acesso privilegiado a jogadores da seleção para a realização de entrevistas exclusivas. Essas entrevistas teriam sido negociadas diretamente pela Globo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Dunga não gostou e vetou.

A imensa maioria dos jornalistas condenou o modo como Dunga reagiu, proferindo palavrões durante a coletiva após o jogo contra a Costa do Marfim. No dia seguinte, o episódio parecia que ia somar para um suposto aumento do desgaste da imagem de Dunga. Mas não foi isso que aconteceu. A repercussão do caso na internet indicou que a maioria dos internautas estava ficando com Dunga e contra a Globo. As enquetes nos portais esportivos e as seções de comentários nestes espaços mostravam um amplo apoio para o técnico contra a emissora. Ainda na terça, internautas começaram a propor um boicote nacional à TV Globo na sexta-feira. Na madrugada de terça-feira, cresceu no twitter o chamado para um #diasemglobo, que convidava as pessoas a verem o jogo entre Brasil e Portugal, sexta-feira, em qualquer outra emissora que não a Globo.

A reação da Globo e de seus parceiros
A alergia à crítica da Globo e de suas empresas parceiras provocou cenas curiosas, como a consulta à distância a psicanalistas para diagnosticar problemas mentais no treinador. Os jornais O Globo, no Rio de Janeiro, e Zero Hora, em Porto Alegre, publicaram matérias quase idênticas.

O primeiro noticiou, dia 22 de junho, em matéria assinada por Fernanda Thurler: “E se o destempero entrar em campo – Psicanalista teme que atitude exaltada do treinador seja incorporada pelos jogadores ”. Na mesma linha, ZH disse, em matéria de Itamar Melo: “Especialistas analisam Dunga”. Praticamente a mesma matéria. Só mudaram os psicanalistas ouvidos. No caso do Globo, Alice Bitencourt e Chaim Katz. A ZH foi de Mario Corso, João Ricardo Cozac e Robson de Freitas Pereira.

O jornalista Leandro Fortes apontou, em seu blog Brasília, eu vi, o surgimento de uma nova era Dunga e uma de suas primeiras conseqüências: o fim do besteirol esportivo. Ele escreveu:

“O estilo grosseiro e inflexível de Dunga desmoronou esse mundo colorido da Globo movido por reportagens engraçadinhas e bajulações explícitas confeitadas por patriotadas sincronizadas nos noticiários da emissora. Sem acesso direto, exclusivo e permanente aos jogadores e aos vestiários, a tropa de jornalistas enviada à África do Sul se viu obrigada a buscar informações de bastidores, a cavar fontes e fazer gelados plantões de espera com os demais colegas de outros veículos. Enfim, a fazer jornalismo. E isso, como se sabe, dá um trabalho danado”.

O fato é que a Globo e as grandes empresas midiáticas não estão falando mais sozinhas e perderam a legitimidade auto-atribuída que os apresentava como porta-vozes dos interesses, anseios e desejos da sociedade. Eles não são esses porta-vozes. O número de porta-vozes da sociedade aumentou significativamente e eles estão se valendo das novas ferramentas tecnológicas para expressar suas opiniões. Há quem diga que é muito barulho por uma questão envolvendo um campeonato de futebol. Na verdade, é muito mais do que isso. Os palavrões e o “destempero” de Dunga serviram ao menos para mostrar que há muitas vozes gritando do lado de cá da tela. E, nesta semana, essas vozes fizeram tanto barulho quanto as vuvunzelas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

UMA GUERRA EM BUSCA DE MOTIVO


Em 13 de junho, o governo Obama fez vazar, por meio do New York Times, a descoberta de 1 trilhão de dólares em riquezas minerais no Afeganistão, incluindo ferro, cobre, cobalto, ouro e lítio. Diferentes reservas, em diferentes regiões, certamente não identificadas ao mesmo tempo, em levantamento parcialmente baseado em pesquisas soviéticas nos anos 70 e 80.

O momento de divulgação foi escolhido por razões não técnicas, mas políticas. A saber, tentar reanimar a disposição do público e dos aliados a continuar a guerra mais longa já travada pelos EUA em sua história e cujas perpectivas não estão melhorando para a Otan, apesar do aumento de 30 mil para 100 mil do número de soldados do Pentágono no país.

A ofensiva dita "modelo" em Marjah está parada e a operação em Kandahar foi adiada. Mesmo onde as tropas avançam, não conseguem estabilizar o controle, implantar mecanismos de governo ou eliminar a presença do Taleban. Foi simbólico, se não sintomático, o desmaio do comandante do Centcom, general David Petraeus, ao ser interrogado no Senado sobre prazos para a retirada.

O presidente afegão Hamid Karzai, reeleito contra a vontade de Washington, parece não mais acreditar em vitória militar. Convocou uma assembléia de chefes tribais, principalmente pashtus do sul, para discutir a possibilidade de um acordo com o Taleban, mesmo se isso lhe custar o apoio de etnias do norte.


Fonte: revista Carta Capital - edição 23 de junho de 2010.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL - UM PRESENTE DOS SENHORES: 1ª Parte

Os negros carregaram a sociedade branca nas costas


Por Cléber Sérgio de Seixas

O relato bíblico do Gênesis narra um episódio no qual o patriarca Noé plantou uma vinha, embriagou-se de vinho, pôs-se nu dentro de sua tenda e foi surpreendido na sua vergonha pelo filho mais moço, Cam. O caçula fez saber o ocorrido a seus irmãos mais velhos. Diante da exposição promovida por Cam, Noé o amaldiçoou condenando os descendentes daquele a serem servos dos servos de seus irmãos.

Muitos exegetas fundamentalistas bíblicos enxergam aí a origem da raça negra e a explicação "divina" para a escravidão desta por outras ditas superiores, inferindo, assim, que os negros são membros de uma raça maldita cuja sina é servir aos descendentes dos filhos de Sem e Jafé, os outros filhos de Noé. Se levarmos em conta que o delito de Cam foi uma simples fofoca, concluiremos que a represália do Criador foi e tem sido desmesurada. Aqueles que se apropriam de tal narrativa bíblica, tentam justificar, assim, de forma simples, não científica e fundamentalista, a opressão, o racismo e a depreciação do ser humano por causa da cor de sua pele.

Crenças e interpretações bíblicas à parte, é oportuno abordamos a questão do racismo sob o prisma da História. Por séculos os negros foram relegados, rebaixados em sua humanidade e escravizados com base em toda sorte de preconceitos que lançavam âncoras em sórdidos interesses. Com o fim da antiguidade e o advento dos tempos medievais, a escravidão – que não era exclusividade dos negros na Roma antiga, por exemplo - parecia ter sido abolida. Foi então que o processo de acumulação capitalista fez com que os europeus transformassem o continente africano em um gigantesco campo de caça de escravos que, transportados feito animais em brigues imundos – como disse Castro Alves em seu célebre poema Navio Negreiro –, atravessavam o oceano e desembarcavam em portos nada amistosos para um destino ainda menos amistoso.

Nas novas terras d’além mar, sobretudo nas colônias do Novo Mundo, estouravam de trabalhar nas lavouras de cana, nas minas de ouro e nas plantações de café e algodão. Entre uma e outra jornada de trabalhos forçados, eram castigados impiedosamente, tendo os corpos marcados pela ira dos senhores de engenho e de seus capatazes – estigmas a lembrá-los de suas condições de subjugados. Muitos se insurgiram contra os senhores e tantos outros fugiram em busca de horizontes mais favoráveis. Destes horizontes libertários, Palmares é o exemplo mais marcante.

Foi aí que um senhor inglês chamado James Watt teve a brilhante idéia de criar uma máquina para retirar a água acumulada nas minas. O vapor como força motriz marcou o início de uma nova revolução, a Industrial, cujos desdobramentos econômicos tornariam o sistema capitalista incompatível com o escravismo (leia A Máquina a Vapor Libertou os Escravos). Paralelamente, aqui e ali, o movimento abolicionista ganhava fôlego, contudo, o fator preponderante para o fim da escravidão foi o econômico: homens livres e assalariados para a produção de mais-valia e para formação e ampliação dos mercados consumidores.

No Brasil, último país onde o hediondo sistema escravagista foi abolido, os negros libertos foram abandonados à própria sorte, sem que houvesse nenhuma compensação econômica ou legal para quase 350 anos de servidão involuntária. Como ovelhas soltas do aprisco, não sabiam o que fazer com a liberdade ou como usufruí-la. Muitos voltaram a trabalhar para os antigos senhores, outros formaram quilombos e outros tantos, talvez a maioria, foram habitar os guetos dos grandes centros urbanos, onde formaram favelas e aglomerados.

A liberdade dos negros brasileiros não passou de letra morta rabiscada pela pena da Princesa Isabel. No mais, permaneceram o racismo, o preconceito e a discriminação. A única evolução sócio-econômica que os negros brasileiros experimentaram desde que o primeiro africano aqui pisou, foi aquela no estilo gradativo freyreano, ou seja, evoluíram de senzalas a mocambos e destes para as favelas. Nessa ingrata senda foram espalhadas as sementes da fome, da marginalização e da violência.

Como cantou um certo roqueiro - hoje um reacionário de carteirinha - , a favela é a nova senzala. E quem é que vai pagar por isso? Eis a pergunta que não quer calar.

Respondo a pergunta acima na segunda parte deste artigo

terça-feira, 22 de junho de 2010

PARTICIPAÇÃO POPULAR

Manifestação em prol das eleições diretos nas anos 80


Por Dom Dimas Lara Barbosa*


Os 50 anos da inauguração de Brasília, as eleições gerais do mês de outubro, a crise mundial e a mudança de época que atravessamos proporcionaram ao Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunido de 9 a 11 de março na capital federal, a oportunidade de pensar a trajetória do País, querendo contribuir para o diálogo nacional sobre o que precisa ser modificado, numa verdadeira “Reforma do Estado”, para a construção de uma sociedade efetivamente democrática e participativa. A conjuntura atual mostra que, para atingir essa meta, não bastam meias-medidas. Faz-se necessária uma reforma estrutural das instâncias de poder. Isso exigirá percorrer um longo e difícil caminho. Daí a necessidade de que os primeiros passos sejam dados desde já e na direção certa.

Uma dificuldade séria a ser vencida logo no início é a insatisfação e a descrença com o atual sistema político e com as próprias instituições públicas, nos Três Poderes e em todos os níveis. Cada vez mais elas são vistas apenas como espaços de corporativismo que só funcionam em favor de grupos privilegiados. Mesmo que concordemos que a solução para este mal passa por nova postura ética dos indivíduos, é mister insistir que se as estruturas não forem profundamente reformadas não haverá transformações significativas. A Democracia Representativa está em crise. Ela já não responde aos novos sujeitos históricos, que exigem uma participação mais ampla na construção das políticas públicas. Nas circunstâncias atuais, ela tem seu ponto alto e quase exclusivo no momento do voto. Cumprida essa sua missão, o eleitor desaparece como agente político e delega aos eleitos a função de agirem em seu nome. Seu ser político foi outorgado a outrem.

É urgente uma reforma do sistema eleitoral e uma nova regulamentação dos partidos políticos, bem como uma definição mais clara das competências do Executivo e do Legislativo, na elaboração e execução do Orçamento, e a garantia de transparência e fiscalização da aplicação dos recursos públicos. Questiona-se, por exemplo, a profunda disparidade numérica na representação dos estados na Câmara Federal, bem como o maior poder político delegado ao Senado, que representa apenas a federalização dos estados brasileiros. Hoje, no Senado, têm assento mais de 20% de suplentes, ou seja, senadores que, de fato, nunca disputaram eleições e que, portanto, não receberam nenhum voto. A maioria deles é absolutamente ignorada ou desconhecida pelos eleitores do estado que representam.

Outra distorção está no uso das Medidas Provisórias. Concebidas pela Constituição Federal para que, em caso de urgência e relevância, o Executivo pudesse enfrentar situações em circunstâncias excepcionais, lamentavelmente elas se tornaram “Medidas Permanentes”, que permitem ao Executivo verdadeiros atos legislativos.

A estabilidade dos que são eleitos é outro ponto que merece reflexão. Ela é saudável, pois permite a continuidade de um processo de governança. No entanto, não raro escandaliza a morosidade na apuração e punição de delitos cometidos por representantes do povo, o que comprova a necessidade e urgência de uma reforma também do Judiciário, além da importância de fortalecer os grupos, já em atividade, de acompanhamento dos poderes Legislativo e Executivo.

É necessário ir além da Democracia Representativa e ampliar cada vez mais os sujeitos políticos capazes de tomar em suas mãos o processo de construir a sociedade e o Estado. Tudo isso introduz um novo adjetivo ao conceito de Democracia: a Democracia Participativa, como um necessário complemento à Democracia Representativa. É direito das pessoas mais interessadas nas ações do Estado poder decidir sobre elas. Tais pessoas, para além do voto, assumem-se como sujeitos e agentes políticos quando, nos movimentos ou estruturas constituídas legalmente, têm vez e voz determinantes nos encaminhamentos do Estado.

A Constituição Federal já acena com inúmeras formas de participação popular. O artigo 14, por exemplo, estabelece que “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I - plebiscito; II - referendo; III – iniciativa popular”. No entanto, esse artigo, passados 22 anos, ainda aguarda sua regulamentação. Sua aplicação é muito complicada na prática. Basta lembrar que tanto a Lei 9.840, de 1999, que combate a corrupção eleitoral, quanto a recente lei chamada Ficha Limpa nasceram da iniciativa popular. No entanto, dada a complexidade das exigências legais (conferência de assinaturas, por exemplo), foi necessário que um grupo de parlamentares as assumisse como suas, para que pudessem tramitar no Congresso Nacional.

Muito importante foi a criação, em 2001, da Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados, à qual cabe receber propostas apresentadas de forma pessoal, por entidades ou mesmo por fóruns e eventos, que passam a tramitar no Congresso, como todos os demais projetos. Essa Comissão insere a sociedade civil no cerne do Parlamento. No Senado, também funciona a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. Cerca de 90 propostas chegam anualmente ao Parlamento por essa via e quase 150 delas foram transformadas em lei.

Os conselhos paritários também formam um campo privilegiado de participação popular. Usados adequadamente, são espaços de formação de uma consciência política e de nova expertise em áreas específicas (do orçamento, da saúde, do meio ambiente etc.). O seu aprimoramento e a formação de lideranças são um caminho a ser trilhado, uma vez que é comum vermos o cerceamento de suas atividades pelo Executivo, que deles quer prescindir, quando não cooptar para uso de seus interesses políticos. Outra prática que conduz a excelentes resultados é o Orçamento Participativo. Bem aplicado, afeta a própria estrutura do Estado, porque obriga o corpo técnico administrativo a avançar com a população organizada. Não pode fazer o que quer, mas sempre tem de consultar os grupos organizados, ao mesmo tempo que tem de dar respostas sobre a execução ou não daquilo que foi aprovado.

Em todo esse processo, a informação cumpre um papel de relevância ímpar. Ela está entre os principais instrumentos de participação democrática e é um direito de cidadania; por isso, deve ser assegurada a todos e por todos os meios possíveis. A informação é o caminho que nos haverá de levar à cidadania plena e à democracia verdadeiramente participativa que sonhamos para o nosso País.


*Bispo auxiliar do Rio de Janeiro e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)


Fonte: revista Carta Capital - Edição 600

sábado, 19 de junho de 2010

A DEUS, SARAMAGO!


Por Cléber Sérgio de Seixas

Apesar de já avançado o horário, eu não poderia deixar de registrar aqui a minha tristeza diante do falecimento de José Saramago, escritor de quem sou admirador há algum tempo. Mesmo se tratando de um ateu visceral não posso deixar de dizer: "que Deus o tenha". Não diria "adeus, Saramago", mas "a Deus, Saramago"!

Saramago foi quem projetou a literatura portuguesa contemporânea no mundo, tendo merecido o prêmio Nobel de Literatura em 1998. Posso arriscar três nomes que resumem bem a literatura portuguesa: Camões, Fernando Pessoa e Saramago. Escreveu vários livros, sendo que um deles, O Ensaio Sobre a Cegueira, acabou se convertendo num filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles.

Desde sua conversão ao comunismo e filiação ao Partido Comunista Português, Saramago foi um militante incansável das causas sociais. Não vou me alongar aqui em detalhes sobre a biografia deste tão grande escritor que, a partir de agora, é de saudosa memória. Quero apenas salientar a falta que ele fará no campo da intelectualidade e, por que não dizer, da filosofia.

No último post de seu blog, intitulado Pensar, pensar, na verdade uma transcrição de uma entrevista sua à revista Expresso, o escritor assim se manifestou: “Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Nesses tempos em que o pensamento único campea, quando existe uma tendência de equalizar os gostos, quando alguns intelectuais se maculam ao emudecerem diante das mazelas sociais - irresponsabilidade disfarçada de silêncio -, quando o fatalismo conduz à aceitação do triunfo do sistema capitalista e sua perversa variante neoliberal, enfim, quando o exercício do pensar crítico e não alinhado torna-se atitude de poucos, homens como Saramago são extremamente necessários, para não dizer imprescindíveis.

Portanto, fará falta um pensador de tão grande calibre. Deixa-nos órfãos, mas não desamparados, visto que sua vasta obra literária ecoará pelos tempos, semeando nos corações e mentes os germes da insatisfação e da busca pela utopia.

Para finalizar, apresento um dos melhores momentos de Saramago. Foi no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2005. Saramago fala sobre a democracia numa das mais claras dissertações que já ouvi sobre o sistema político tido por muitos como o ideal para a humanidade. Abaixo o vídeo.



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ordem e desordem mundiais

Por Frei Betto

O mundo no qual vivemos é movido por relações internacionais nas quais se destacam estadistas, ministros, organismos supranacionais e, sobretudo, o capital. O fluxo e o refluxo do dinheiro determinam o destino das nações. Com frequência se olvida o protagonismo dos povos no cenário mundial. São eles, sempre, as grandes vítimas.
Na fase pré-monopolista do capital, entre os séculos 15 e 19, a ordem mundial era comandada por potências coloniais como Espanha, Inglaterra e França. Calcula-se que apenas na América Latina e no Caribe a presença colonial deixou um lastro de pelo menos 18 milhões de indígenas mortos. Outras fontes calculam 100 milhões (Población originaria, 1500, de Eric Toussaint)

Em busca de mão de obra necessária ao acúmulo do capital, estima-se que cerca de 12 milhões de africanos foram sequestrados em suas terras e escravizados no Sul dos EUA, no Caribe e na América Latina.

Os que sobreviveram ao genocídio colonial e se reproduziram no território americano assumiram o protagonismo das lutas anticoloniais que propiciaram, a partir de 1810, a independência da América Latina e do Caribe. No entanto, não se tornaram beneficiários das lutas emancipatórias que implantaram, em nosso continente, a república e a democracia, salvo alguns ensaios de poder popular como ocorreu no Haiti governado por ex-escravos; no Paraguai antes da guerra movida pela Tríplice Aliança; em Cuba, a partir de 1959, e, agora, nas constituições que incorporam os direitos dos povos originários e afrodescendentes, como ocorre na Venezuela, no Equador e na Bolívia.

Em sua fase imperialista, o capitalismo, em luta por mercados, promoveu duas guerras mundiais. A primeira criou as condições para a ascensão do fascismo e do nazismo e levou os EUA à bancarrota em 1929. A segunda forçou a migração de 60 milhões de pessoas e causou a morte de 72 milhões – 2% da população mundial da época. A tudo isso somam-se os traumas físicos e psicológicos produzidos pelas guerras, as sequelas dos campos de concentração, a desorganização familiar e os esforços de adaptação à vida civil dos soldados sobreviventes.

As vítimas que escaparam do holocausto, os comunistas europeus e os guerrilheiros dos países ocupados foram os protagonistas da derrota do nazifascismo e os sujeitos da ordem mundial bipolar do pós-guerra, com o surgimento da União Soviética.
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, voltamos a um mundo unipolar sob hegemonia do capitalismo, que, com seu caráter neoliberal, anulou importantes conquistas sociais, introduziu o Estado mínimo e a privatização do patrimônio público, promoveu a flexibilização dos direitos trabalhistas e fez a especulação financeira sobrepor-se à produção agroindustrial.

Iraque e Afeganistão revelam hoje a face mais cruel desse mundo unipolar no qual os EUA se empenham em assegurar para si uma preciosa mercadoria em fase de escassez: o petróleo. Morreram, naqueles países, mais de 1 milhão de pessoas, a maioria civis, e, do lado do agressor, 75 mil soldados usamericanos, mortos ou feridos.

Na América Latina, a principal vítima da hegemonia unipolar é Cuba, submetida ao bloqueio econômico pelos EUA, o que já lhe causou prejuízo superior a US$ 50 bilhões.
O povo mexicano sabe-se, hoje, vítima do engodo que foi o Tratado de Livre Comércio assinado com os EUA, cujo fracasso abortou a proposta usamericana da Alca. Dizia-se que os mexicanos alcançariam a mesma renda per capita dos estadunidenses. Hoje, a renda per capita dos mexicanos equivale a apenas 0,32% da renda dos canadenses e a 0,25% dos estadunidenses. A economia mexicana encontra-se inteiramente desnacionalizada e, a cada ano, cerca de 750 mil mexicanos emigram para os EUA à procura de trabalho.
Segundo a Cepal, a pobreza no México era de 39% da população antes do Tratado. Hoje, é de 50,9%. Outras fontes estimam em 70% da população em condição de pobreza (Ulloa Bonilla, 2007).

Apesar do amplo espectro de pobreza no mundo, o monopólio midiático do capitalismo dissemina no imaginário popular a inquestionável superioridade do sistema de apropriação privada dos bens e da riqueza e sua plena consonância com a democracia e a liberdade. Na falta de pão, o circo provoca uma espécie de anestesia na mente daqueles que são as maiores vítimas do sistema.

Basta olhar em volta para se dar conta dos efeitos do sistema: a degradação ambiental; a crise energética; a alta dos alimentos; a escassez de água; os fluxos migratórios; o terrorismo; o tráfico de drogas, de pessoas e de armas; a manipulação dos medicamentos e das patentes genéticas; e, agora, a crise econômica iniciada em setembro de 2008 e que afeta duramente a área do euro.

As eleições deste ano no Brasil não podem ignorar o protagonismo de nosso país nessa conflitiva conjuntura mundial. E o direito à soberania e autodeterminação dos países da América Latina e do Caribe.


Fonte: jornal Estado de Minas - 17 de junho de 2010.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas será em Brasília

Por Conceição Lemes no Viomundo

A ideia do Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas nasceu em maio. Sugerida por Luiz Carlos Azenha, foi aprovada durante o lançamento, em São Paulo, do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

No final de maio, tivemos uma primeira conversa, da qual participaram o próprio Azenha, Altamiro Borges, Eduardo Guimarães, Rodrigo Vianna e eu. Azenha lançou a ideia no Viomundo. A receptividade foi excelente. Tivemos, aqui, mais de 400 comentários. Fora a acolhida calorosa em vários outros blogs.

Resultado: o Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas é indispensável, imperioso e vai sair, sim.

Tivemos, ontem, a segunda reunião. Foi na sede do Conversa Afiada. Participaram Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Altamiro Borges (do Barão de Itararé e do blog do Miro), Conceição Oliveira (Maria-Fro), Eduardo Guimarães (Blog da Cidadania), Diego Casaes (Global Voices) e eu (do Viomundo, representando também o Azenha, derrubado por uma tremenda gripe).

Avançamos alguns pontos. Ficou decidido que:

1) O Encontro Nacional de Blogueiros será em Brasília. A opção se deveu a dois motivos: fugir do eixo Rio-São Paulo; os vôos de todas as regiões do Brasil passam por lá, o que facilitará a vida dos blogueiros.

2) Ocorrerá, provavelmente, nos dias 20 (abertura à noite), 21 e 22 de agosto. Como ainda estamos estudando a viabilidade de oferecer ao menos acomodações e passagens, até o início de julho bateremos o martelo sobre a data definitiva.

3)A organização ficará a cargo do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

4) Na programação, haverá mesas redondas com palestras de grandes blogueiros do país. Algumas já propostas: os rumos da internet no Brasil; marco regulatório (mesa na qual serão discutidas a legislação atual, a necessidade de aprimorá-la e as tentativas de amordaçar alguns espaços críticos); e experiências de blogueiros de vários estados do Brasil.

5) Haverá, também, oficinas para ensinar blogueiros a otimizarem os recursos da internet. Por exemplo, twitter, produção de vídeos e de rádio web.

6) Realização de painéis, para que blogueiros possam se conhecer, conversar e trocar experiências.

7)Transmissão do evento pela internet. Como há possibilidade de as oficinas ocorrerem simultaneamente, a ideia é gravar todas para que depois possam ser acessadas por todos os participantes e blogueiros de qualquer parte do país. O objetivo é o de que as oficinas se transformem em conteúdo, mesmo.

8) A necessidade de buscar patrocínios, para tornar viável o encontro e ter maior número de participantes.

9) Abertura de uma lista para troca de ideias — por exemplo, sugestão de convidados, programação, oficinas, viabilização financeira, entre outras.

Esses são os primeiros passos, elaborados com ajuda de vocês. A intenção é a de que o encontro não olhe para o próprio umbigo, mas reflita preocupações de blogueiros com os vários sotaques do Brasil. Também pedimos a cada um que nos ajude a aperfeiçoar instrumentos que atendam às necessidades dos blogueiros e dos próprios brasileiros.

Sugestões serão muito bem-vindas. Afinal, o objetivo de todos nós é contribuir para a democratização dos meios de comunicação e fortalecer as mídias alternativas no país.

terça-feira, 15 de junho de 2010

NEM NA 'ERA DUNGA' O BRASIL JOGAVA TÃO MAL...

Reproduzo abaixo um artigo de Celso Lungaretti publicado em seu blog

Estavam certos os críticos e errado o técnico Dunga:

1) falta mesmo criatividade na armação dos ataques brasileiros, pois ninguém que está lá é capaz de fazer o que faria Ronaldinho Gaúcho ou Paulo Henrique Ganso;

2) jogadores em má fase, como Kaká e Luís Fabiano, dificilmente se recuperam em pleno Mundial (Ronaldo Fenômeno, em 2002, foi uma rara exceção desta regra);

3) é simplesmente inacreditável que Roberto Carlos tenha sido trocado... por zero à esquerda; e
4) Ramires e Daniel Alves, sem serem nenhum assombro, não podem ficar de fora.

O certo é que o 1º tempo do Brasil foi simplesmente constrangedor, sem criar uma única chance nítida de gol contra um adversário tão bisonho que nem matar a bola sabia.

E, no 2º, foi beneficiado pela ingenuidade da Seleção da Galeria Pagé... digo, da Coréia do Norte, cujo goleiro deixou todo o espaço que Maicon poderia querer para chutar direto, no 1º gol; e cujos mal colocados zagueiros ficaram rendidos quando Robinho enfiou uma bola na medida para Elano, como teriam ficado várias outras vezes se nosso serviço fosse melhor.

O certo é que, repetindo esse futebol apático e mecânico, o Brasil correrá sério risco de não passar da 1ª fase, como Sócrates advertiu.

Vencer por mísero 2x1 o pior de nossos adversários, que mais parecia um selecionado amador, é motivo mais do que suficiente para colocarmos as barbas de molho.

Afinal, Costa do Marfim e Portugal são infinitamente superiores à Coréia do Norte.


PERSPECTIVAS

Pelo que jogaram hoje, Costa do Marfim e Portugal deverão derrotar a frágil Coréia do Norte por placares elásticos.

Isto acontecendo, o Brasil não poderá empatar os dois próximos jogos, sob pena de perder a vaga pelo saldo de gols.

A Costa do Marfim é o adversário a ser vencido.

Caso contrário, o jogo contra Portugal ficará perigosíssimo e cercado pelos piores presságios.

Em 1966, ficamos na dependência do último jogo das oitavas de final e, no tudo ou nada contra Portugal, deu nada.

Tratemos de evitar que a História se repita.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Copa como grande evento da "indústria" do futebol


Reproduzo abaixo um artigo de Carlos Castilho publicado em 11/06/10 no Observatório da Imprensa


Não há brasileiro que não esteja próxima, ou remotamente, interessado no que está acontecendo na África do Sul, no início de mais uma Copa do Mundo de futebol. O espetáculo é fascinante , mas existe um tema que foi mantido na sombra e que provavelmente só virá à tona, se vier, quando terminar a festa de encerramento do campeonato. São os negócios, ou melhor dizendo, a chamada "indústria" do futebol.


Esta indústria é talvez a face oculta do esporte que explica tudo aquilo que aparece nas manchetes da imprensa e que nós, geralmente, ficamos sem entender. Por que a polêmica em torno da bola Jabulani de repente sumiu do noticiário? Por que para o goleiro Julio Cesar e para o atacante Luis Fabiano a bola é horrível e sobrenatural, enquanto para Kaká e o zagueiro Lúcio ela é ótima?


A explicação está fora dos campos de futebol, mais especialmente nos escritórios das multinacionais Adidas e Nike. A bola Jabulani foi produzida pela Adidas e será a única a ser usada nos jogos da Copa do Mundo na África do Sul. Julio Cesar e Luis Fabiano são contratados da Nike, por isto criticaram a bola da multinacional concorrente. Kaká, junto com Lúcio, tem o patrocínio da Adidas, e foram os encarregados de fazer a defesa do seu patrocinador.


A marca alemã de equipamentos esportivos patrocina os mundiais desde 1954 num contrato que terminará em 2014, na Copa brasileira. E a guerra por posições estratégicas na renovação do contrato já começou. O carro chefe da campanha é o lançamento do chuteira F 50 Adizero, que pesa mínimas 160 gramas e é considerada a mais leve e flexível já criada pela indústria esportiva.


Enquanto os torcedores do mundo inteiro alimentam a expectativa de participar de um megaevento onde o esporte é a atração principal, nos bastidores toda a emoção é administrada por executivos de olho exclusivamente nos cifrões. Segundo a empresa de consultoria Grant Thornton, instalada em 100 países, a Copa da África do Sul vai produzir um impacto econômico da ordem de quase 12 bilhões de dólares, em todo o mundo.


Só a FIFA, a promotora do torneio, vai faturar o equivalente a 3,2 bilhões de dólares, dois dos quais com a cessão dos direitos de transmissão pela TV, um bilhão de dólares em marketing e 200 milhões com outras receitas. Isto significa um lucro líquido da ordem de 2,1 bilhões de dólares americanos, já que os investimentos da entidade foram estimados em 1,02 bilhão de dólares, segundo cálculos da revista Soccer Business reproduzidos pela Deportes y Negócios.


Quem menos vai lucrar com a Copa são os sul-africanos, que gastaram o equivalente a 7,8 bilhões de dólares, desde 2005, na preparação do torneio. Esta soma equivale a pouco menos de 2% do PIB nacional. Dificilmente as receitas superarão esses gastos — o que significa dizer que, financeiramente, só o país anfitrião terá prejuízo com a Copa de 2010. Mas para a África do Sul o investimento também é político e social.


Entre os atletas, o orgulho nacional também deixou de ser um motivador para suar a camiseta. Para eles, o mundial tornou-se uma vitrine de craques onde os clubes europeus fazem apostas e investimentos. Os astros já consagrados como Kaká, Messi, Drogba e outros apenas administram a carreira, mas para os reservas e os não tão famosos o desempenho é fundamental para novos contratos tanto com clubes como com empresas patrocinadoras multinacionais.


Entre os jogadores, a grande estrela dos negócios nesta Copa é o lateral direito Maicon, que é disputado por pelo menos três grandes clubes europeus. O jogador anunciou que só vai tomar uma decisão depois do campeonato, o que deixa claro que ele estará com os olhos voltados mais para os investidores europeus do que para a torcida brasileira. O mesmo acontece com Elano, Luiz Fabiano e Michel Bastos, todos à espera de que suas atuações na África do Sul possam alavancar contratos novos e mais generosos.


Futebol deixou, faz tempo, de ser apenas um esporte. Na verdade tornou-se uma indústria bilionária, na qual os torcedores não passam de consumidores. As torcidas dão a alma por clubes e seleções cujos interesses não estão nas arquibancadas, mas em contas bancárias.


E o que impressiona é também o silêncio da imprensa sobre o que acontece na indústria do futebol. É claro que os fabricantes de equipamentos esportivos que patrocinam de eventos e atletas são também anunciantes de peso em jornais, revistas, emissoras de rádio e TV.


A imprensa se tornou parte da indústria esportiva ao organizar concursos, patrocinar torneios e impor seus interesses sobre os dos clubes e atletas. No Brasil, a TV Globo está presente em todos os grandes eventos esportivos como participante ativa, onde os interesses comerciais superam os jornalísticos por larga margem.


Isto nos obriga a ter que fazer uma leitura crítica da cobertura esportiva para poder separar os interesses comerciais da verdadeira natureza do esporte e evitar que nos tornemos protagonistas involuntários de negócios bilionários.

Testando um novo layout

Cléber Sérgio de Seixas

Pessoal

Estou testando um novo layout para o blog. Ainda não conclui as configurações, assim sendo, alguns ítens da tela podem não estar bem configurados. Espero que gostem do novo visual.

domingo, 13 de junho de 2010

DICA CULTURAL - A BATALHA DO CHILE


Por Cléber Sérgio de Seixas

South of Border de Oliver Stone acaba de chegar aos cinemas mineiros. O documentário tem como tema a escalada ao poder de governos progressistas na América do Sul. É um momento oportuno para voltar no tempo, mais precisamente ao Chile de inícios dos anos 70, e resgatar a memória daqueles tempos obscuros, de forma a deles extrairmos importantes lições para o presente. Era um tempo de efervescência política, quando o geograficamente estreito país sul americano experimentou algo jamais sonhado na America Latina: a chegada ao poder de um governante marxista pela via pacífica, ou seja, pelo voto. Era a chamada “via chilena para o socialismo”.

Salvador Allende, médico e maçom, eleito presidente em 1970, inicia intensa campanha de nacionalização de setores estratégicos da economia chilena, promove a reforma agrária, nacionaliza os bancos, fazendo com que mais de 60% da economia chilena ficasse sob o controle do Estado. Insatisfeitos com os rumos da política interna chilena e francamente opostos ao interesses econômicos norte-americanos, os EUA, capitaneados por Richard Nixon, patrocinam várias investidas de sabotagem contra o governo Allende. Como nenhuma das investidas “desarmadas” surtiu o efeito desejado, partiu-se então para o golpe direto.

Em 11 de setembro de 1973 a “via pacífica para o socialismo” ruía sob as botas dos militares chefiados pelo general Augusto Pinochet. O Palácio de La Moneda, sede do governo, fora violentamente bombardeado. Acuado dentro do palácio e em companhia de alguns partidários, Allende fez seu último discurso: "Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. [...] Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo.[...] Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão". Horas depois, Allende dava cabo à própria vida ainda nas dependências do palácio.

Este é o tema de um dos documentários mais impressionantes que já tive a oportunidade de assistir. Trata-se de A Batalha do Chile, filme de Patrício Guzmán, considerado um dos melhores e mais completos documentários políticos do mundo, verdadeiro “cult" nas terras latino-americanas. O box da Vídeofilmes consiste em 4 DVD’s (se não estou enganado, já se encontra fora de catálogo). O primeiro (A Insurreição da Burguesia) trata da forma como a burguesia chilena, secretamente apoiada e financiada pelo governo norte-americano e pela CIA, se insurgiu contra a política de Salvador Allende, procurando de todas as formas sabotar seu governo, e mostra com detalhes a mobilização do povo em defesa de Allende. O segundo disco (O Golpe de Estado) narra o golpe cujo momento culminante é o bombardeio ao Palácio de La Moneda, sede do governo. O terceiro disco (O Poder Popular) relata como os cidadãos chilenos experimentaram algo que muito se aproximou do conceito marxista clássico de ditadura do proletariado. Há ainda um DVD de extras que contém os documentários Patrício Guzmán – uma história chilena, que relata os bastidores da produção do documentário, e A resistência final de Salvador Allende, que narra os momentos finais de Allende antes do golpe.

Com a subida ao poder de uma junta militar capitaneada pelo general Pinochet, o Chile, anteriormente um país tranquilo, cuja história até então não havia sido abalada por golpes de Estado, passa a ser dominado por uma das ditaduras mais sangrentas do cone sul. Em sete de janeiro de 2001 o exército chileno reconheceu ter eliminado mais de 180 partidários de Allende, muitos deles atirados ao mar. Era a primeira vez, após quase 30 anos, que os militares chilenos admitiam um crime.

Sobre o golpe de Estado no Chile, o escritor Pablo Neruda escreveu o seguinte poema:

Vitória

Honra à vitória apetecida,
honra ao povo que chegou à hora
de estabelecer seu direito à vida!

Porém o rato acostumado ao queijo,
Nixon, entristecido de perder,
despediu-se de Eduardo com um beijo.

Mudou de embaixador, mudou de espias
e decidiu cercar-nos com arame:
não nos venderam mais mercadorias

para que o Chile morresse de fome.

Quando a Braden lhes abanou o rabo
as múmias ajudaram na tarefa

Gritando “Liberdade e Caçarolas”,
enquanto os patrões fingindo-se de vítimas
pintavam de bondade suas caras feias

e se disfarçando de proletários
decretavam a greve de senhores
recebendo de Nixon os dinheiros:

trinta moedas para os traidores.

Portanto, A Batalha do Chile é um documentário obrigatório para aqueles que querem conhecer os antecedentes do golpe de Estado chileno e para aqueles que querem conhecer mais sobre a história recente da América Latina.

Abaixo um trecho de A Batalha do Chile no Youtube.

PRA FRENTE, BRASIL!

O ditador Médici cumprimentando os heróis do tri

Por Lucilia de Almeida Neves Delgado

Junho de 2010: uma euforia coletiva, nas cores verde, amarela e azul, toma conta dos brasileiros em diferentes cidades e regiões do país. Milhares de crianças brasileiras dedicam o melhor do seu tempo de lazer a preencher álbum de figurinhas sobre as Copas do Mundo e as Seleções Brasileiras. Como dizem os pais, virou uma cachaça. Nas ruas, camelôs, lojas de brinquedos, roupas e artigos esportivos exibem para os consumidores, em simples balcões improvisados ou em sofisticadas vitrines, uma quantidade enorme de itens referentes à Seleção Brasileira: camisas, bolas, copos, perucas, bandeiras, bonés, apitos e cornetas, como ímãs, atraem os olhares e os desejos de jovens, adultos, idosos e crianças. Todos cativos do sonho comum à maioria dos brasileiros de que o Brasil possa, uma vez mais, vencer uma Copa do Mundo.

Em meio a um clima de crescente expectativa festiva, o técnico Dunga, há poucas semanas, anunciou a convocação do time que defenderá as cores nacionais na África do Sul. Bastou tal fato para que milhares de brasileiros se transformassem em técnicos de futebol, o que, de certa forma, o são na realidade. Uma chuva de palpites futebolísticos sobre a composição da seleção passou a incrementar conversas nas mesas de bares, internet, estações de rádio e de televisão, pátios de escolas, universidades, portas de fábricas, redações de jornais e revistas e recintos de repartições públicas.

Assim também aconteceu há quatro décadas, quando o Brasil conquistou o tricampeonato de futebol no México. A Seleção Brasileira de 1970 foi a primeira a alcançar tal façanha. Trouxe como prêmio, de forma definitiva, a Taça Jules Rimet para o Brasil.

Naqueles idos de 1970, no dourado dos meus 18 anos, acompanhei, com o coração tomado por sentimentos ambíguos, o início do desenrolar de uma Copa do Mundo que, hoje sei, foi para mim a melhor das que pude acompanhar. Os sentimentos contraditórios, que doíam na minha alma, não eram somente meus. Muitos jovens da minha geração compartilharam o dilema, que hoje pode parecer absurdo, de torcer pela seleção, ou então de fazer um enorme esforço para ficar alheio ao feitiço da ginga, criatividade e espantosa competência estratégica do futebol brasileiro de então. Na verdade, os tempos, como se diz, eram “bicudos”, e a confusão entre futebol e política, uma realidade. Nosso temor era o de que, ao torcer pelo Brasil no futebol, estivéssemos tomando uma atitude de legitimação do regime autoritário que, em 1964, fora implantado no Brasil.

Mas a força da emoção positiva falou mais forte e, em poucos dias, a maioria de nós estava plenamente envolvida pelo futebol praticado pela Seleção Brasileira de 1970, por muitos considerada a melhor de todos os tempos. E não havia mesmo como fugir daquela realidade fascinante, pois os jogos transmitidos pela televisão enfeitiçavam e comoviam a alma nacional. Ao fim do torneio, quando o Brasil derrotou os italianos, em êxtase coletivo, festejamos nas ruas de todo o Brasil a vitória que nos fez a todos, inclusive os brasileiros filhos de outras gerações, ainda por nascer, para sempre, tricampeões mundiais.

A seleção de 1970, ao conquistar, em apoteose, a taça Jules Rimet, tornou-se um mito responsável pelo feito heroico de uma vez mais coroar o futebol brasileiro como o melhor do mundo. Mas seu grande feito, com forte cobertura da mídia, foi, de fato, apropriado pelo governo federal e utilizado como propaganda do regime militar. Nunca o futebol foi tão bem explorado em termos políticos como nos idos de 1970. A taça Jules Rimet, quando da chegada festiva dos jogadores ao Brasil, foi erguida pelo próprio presidente de então, Emílio Garrastazu Médici. A realidade da política se encarregou de demonstrar, sem qualquer disfarce, que nossos temores não eram infundados.

A estratégia de publicidade e busca da legitimação por um governo ditatorial não deixou de captar a emoção coletiva nacional e divulgá-la como propaganda oficial. Mas, apesar da confirmação de nossas apreensões, o sabor da vitória visita-nos com especial alegria. Sabemos que acima dos governos de ocasião, mesmo que ditatoriais, existe uma identidade brasileira que, a despeito das dificuldades peculiares a um país tatuado por contradições e desigualdades, tem no gosto pelo futebol um de seus fundamentos.

O ano de 1970 foi um dos mais tensos da nossa história. Sucedeu a edição do Ato Institucional número 5, o AI-5, que em dezembro de 1968 consolidou o autoritarismo do ciclo militar caracterizado por desmandos políticos e desrespeito aos direitos humanos. Os cinco primeiros anos da década de 1970, não sem razão, ficaram para sempre registrados na História brasileira como “anos de chumbo”.

Uma profunda tensão política contaminou o Brasil naquele tempo. Inúmeros jovens, impedidos de fazer oposição pública ao regime autoritário, migraram da política estudantil para a luta armada. Acreditavam que, com seu voluntarismo revolucionário, poderiam vencer ou ao menos desestabilizar um regime político que lhes tirara, e a todo o povo brasileiro, o direito à liberdade de organização e expressão.

Naquele tempo, perseguições e prisões tornaram-se rotineiras. Sem direito a habeas corpus, a maioria dos presos era submetida a torturas. Um círculo vicioso tomou conta do cotidiano político do Brasil. O governo prendia e torturava. Militantes de organizações de esquerda, ainda em liberdade, desenvolviam estratégias para libertar seus companheiros que, presos, estavam à mercê da violência institucionalizada.

Ocorreram então os famosos sequestros políticos de diplomatas. O objetivo era trocar o sequestrado por presos políticos. Em 1969, foi sequestrado o embaixador americano, Charles Burke Elbrick. Sua liberdade correspondeu à libertação de 15 presos políticos, que, ao deixarem o Brasil, foram imediatamente banidos, perdendo, portanto, sua cidadania. O ano de 1970 começou com outro seqüestro, o do cônsul do Japão Nobuo Okushi, que, após negociações que levaram à sua libertação, propiciou a libertação de cinco presos políticos. De fato, aquele tempo não era só de alegria futebolística. Na sequência dos sequestros, exílios e banimentos, a propaganda governamental divulgou, com grande estardalhaço, uma frase que diz muito sobre a polarização política de então. Em letras garrafais estampadas em lugares públicos, especialmente rodoviárias, estações de trens e aeroportos, uma frase conclamava: “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

A lógica governamental era a seguinte: quem quisesse colaborar com o progresso do país, que vivia a fase do milagre brasileiro, e se somar ao esforço desenvolvimentista que presidia a política econômica do governo teria chances, oportunidades e benefícios. Já os que discordavam do governo e lhe faziam oposição ilegal não mereciam ficar no Brasil.

O jornalista João Saldanha, que classificara o Brasil para a Copa do Mundo, era conhecido como competente técnico de futebol e como cidadão adepto da ideologia comunista. Faltava pouco tempo para o início do certame, apenas 60 dias, quando a notícia de seu afastamento da seleção, depois de um entrevero com o general presidente Garrastazu Médici, correu como um rastilho por todo o território nacional e ganhou repercussão internacional. Foi, então, substituído pelo ex-jogador Mário Jorge Lobo Zagallo, que depois de alterações estratégicas, como a de um adequado aproveitamento de Wilson Piazza, comandou o time vitorioso, formado e treinado por Saldanha.

Para o governo federal, o problema político de ter um técnico de esquerda à frente do time que vestia o uniforme canarinho estava resolvido. Para os brasileiros ficou evidente que uma injustiça histórica fora cometida.

As feras do Saldanha, como ficou conhecida a seleção de 1970, foram para o México sem seu mentor. O grupo formado por Félix, Ado, Leão, Carlos Alberto, Zé Maria, Brito, Baldochi, Fontana, Wilson Piazza, Everaldo, Marco Antônio, Clodoaldo, Joel, Rivelino, Gérson, Jairzinho, Paulo César, Pelé, Dario, Tostão, Roberto e Edu alcançou a vitória final. Para os brasileiros, aquele feito em verde e amarelo teve sabor de festa. O regime militar, por sua vez, o transmudou em ganho político. A propaganda oficial imputou a conquista do tricampeonato de futebol ao propalado milagre econômico brasileiro. Difundiu que o título alcançado representava antes de tudo um prenúncio: o de que o Brasil, com ordem, segurança e desenvolvimento, como preconizava a Doutrina de Segurança Nacional, caminhava a passos largos para se tornar uma potência mundial.

O “milagre brasileiro” não teve longa duração, nem mesmo média, mas seu impacto foi efetivo. Proporcionou o aumento do PIB, que alcançou 11,2%, estabilizou a inflação em 18%, aumentou a produção industrial, gerou empregos, aumentou a arrecadação de impostos e investiu em obras faraônicas, que simbolizavam o Brasil potência. As duas mais importantes foram a Ponte Rio-Niterói e a inconclusa Rodovia Transamazônica.

Mas o milagre tinha também seu avesso, caracterizado por concentração da renda, arrocho salarial, endividamento externo e pouca atenção para com programas sociais. Além disso, dependia em demasia do petróleo internacional. Quando da crise do petróleo, que teve seu apogeu em 1974, o breve ciclo de otimismo econômico entrou em desaceleração e os jingles publicitários, como Pra frente, Brasil, já não correspondiam à realidade, pois a economia brasileira passara da euforia à incerteza e ao endividamento.

No final do governo Médici, os presídios e prisões estavam abarrotados de presos políticos e milhares de brasileiros viviam no exílio. Faltava ainda percorrer um longo e tortuoso caminho para que o Brasil voltasse a reconstruir uma democracia política. Muitos dos jovens que, como eu, frequentaram cursos universitários naqueles anos, apesar de não terem perdido a esperança, aprenderam lições de desconfiança, silêncio, medo, perdas de amigos, saudades e injustiças.

Uma das injustiças daqueles anos de arbítrio que muito me impressionou foi a demissão de João Saldanha do comando da seleção. Muitas vezes me perguntei qual teria sido seu sentimento mais profundo quando da vitória brasileira no tricampeonato. Gosto de pensar que, no fundo da alma, sentiu-se também vitorioso. Tão vitorioso como todos os brasileiros que torceram por sua seleção, pelo nosso time. Tão vitorioso como todos os brasileiros que cultivaram esperança em um tempo de ilusões perdidas. A ele, botafoguense como eu, dedico este breve relembrar reflexivo.

E que venha mais uma vitória neste ano de 2010!


Lucilia de Almeida Neves Delgado é historiadora, professora da PUC Minas, professora da UFMG e pesquisadora sênior da UnB


Fonte: jornal Estado de Minas - 12 de junho de 2010.

sábado, 12 de junho de 2010

A ESCOLHA DE MARINA SILVA

Reproduzo abaixo um artigo de Eduardo Guimarães publicado em seu blog no dia 11 de junho de 2010.


Ontem à noite, os telejornais – com destaque para o Jornal Nacional – deram talvez mais destaque à convenção do PV, na qual a ex-ministra Marina Silva foi sagrada candidata do partido à Presidência, do que têm dado ao candidato da grande mídia, ao tucano José Serra, apresentando um seu discurso de tom pretensamente apoteótico.

O discurso de Marina foi a quintessência do excludente conservadorismo da direita brasileira, mentalidade de classe e de raça que manteve a candidata verde analfabeta até os 16 anos. Pregou contra o “Estado Provedor que dá tudo”, ou seja, contra programas sociais como o Bolsa Família, no fim das contas.

Mas não é esse o maior drama que representa o desnudamento daquela que poderia ser um Lula, se quisesse, mas que optou por ser linha auxiliar de José Serra, pois é esse o papel de Marina nesta campanha, o de tirar votos de Dilma, de angariar simpatias à esquerda do espectro político para despejá-las no tucano no segundo turno.

Foi um erro de cálculo. Marina, nas pesquisas Sensus sobre a sucessão presidencial, aparece com a maior rejeição entre os candidatos a presidente. Mais de 34% do eleitorado disseram, em maio, que não votariam nela sob hipótese alguma. Isso se deu porque, para a esquerda, fica cada vez mais claro o papel que ela aceitou desempenhar.

Seus discursos pretensamente enaltecedores aos governos FHC e Lula tentam esconder apoio à versão da direita para a história brasileira dos últimos 15 anos ao conceder ao ex-presidente tucano méritos que ele não teve e ao endossar, de forma velada, a tese de que ele teria construído a base do sucesso de hoje do Brasil.

Marina é uma farsa por inteiro. Não tem pretensões de vencer, não tem base ou apoios políticos para vencer. Se vencesse por um desses fenômenos inexplicáveis da política, seu governo seria um governo do PSDB, do DEM, do PPS e, quem sabe, até do PV, partido pelo qual ela se candidatou.

O único objetivo da candidatura Marina Silva é o de enfraquecer a candidatura Dilma Rousseff com o bordão que a candidata “verde” entoou ao concluir sua fala na convenção partidária que a escolheu para disputar a Presidência da República, alguma coisa sobre pretender ser “a primeira mulher NEGRA a se eleger presidente”.

É uma enorme aposta da direita na qual está sendo investido muito dinheiro. A campanha, por um partido nanico, conta com um dos maiores e mais ricos empresários do Brasil como vice e com um investimento que beira os cem milhões de reais. Para se ter uma idéia, a campanha de Marina deverá custar quase tanto quanto as de Dilma e de Serra.

Só resta lamentar. Essa mulher destruiu a própria biografia aceitando o papel de mercenária a serviço do candidato daqueles que mais maltrataram o povo dela desde o descobrimento até hoje. Poderia ser um Lula, mas escolheu ser um FHC, ou melhor, no máximo um Alckmin, ou, no fim das contas, uma farsa.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

SERRA, O CÍNICO



Reproduzo abaixo um artigo do deputado Brizola Neto publicado
em seu blog no dia 11/06/10


Peço aos leitores que me perdoem a dureza da linguagem, mas sou um ser humano que possui estômago. E ele embrulha.

Qualquer pessoa tem o direito de ser conservadora. Qualquer pessoa tem o direito de ser elitista, direitista, tem o direito de desprezar a idéia de que o Brasil tenha um destino próprio e de acreditar que o nosso país deva seguir, mansamente, as regras do “mercado”.

É da democracia conviver com isso. E a crítica a isso se situa no campo das idéias, da política, do debate.

Outra coisa, bem diferente, é ser cínico, mentiroso, dissimulado.

Esta questão está no campo do caráter, não no da política.

José Serra é um personagem politicamente inadequado para presidir o Brasil, na minha opinião. Mas isso é só uma opinião.

Mas José Serra é um homem moralmente inadequado para ser presidente dos brasileiros. E isso não é uma opinião, é um fato.

Ele não quer se qualificar por suas idéias. Quis fazê-lo pela simulação de um “lulismo” que não resitiu por mais do que alguns dias.

Agora, quer fazê-lo pela detratação dos adversários, à custa de golpes de esperteza.

Hoje, nos jornais, José Serra, ataca a campanha de Dilma pelo suposto “dossiê que ninguém vê”. como já tinha feito antes.

Mas agora diz, cinicamente, que o Presidente Lula “tem o direito” de fazer campanha por Dilma, “desde que seus atos estejam dentro da legalidade”.

Ora, sr. José Serra, o senhor não tem a menor condição moral de falar em legalidade.

O senhor é um infrator contumaz da lei porque feriu ontem, pela segunda vez, a letra expressa da lei.

A lei 9.096, que diz, literalmente:

§ 1º Fica vedada, nos programas de que trata este Título:

I - a participação de pessoa filiada a partido que não o responsável pelo programa;

O senhor sabe ler, senhor José Serra? O senhor também não sabia disso? O senhor vai se esconder sob a desculpa cínica de que não sabia também que o PPS ia colocá-lo como estrela de seu programa, como alegou, com a mais completa caradura, quando ocupou o programa do DEM, 15 dias atrás?? Não sabe que o PTB fará o mesmo daqui a outros 15 dias? Está nos jornais, senhor José Serra, e o senhor sabe e vai fazer, ciente de que viola a lei e contando com a impunidade.

O fato de o senhor contar, até agora, com a incrível inação do Ministério Público Eleitoral ante suas transgressões pode eximi-lo do julgamento legal, mas não afasta o julgamento moral sobre suas atitudes.

O senhor age como ums espertalhão, acobertado por uma mídia que buzina de segundo em segundo contra qualquer menção, mesmo indireta, de Lula a Dilma mas que não dá um pio diante do que o senhor deliberada e escandalosamente faz.

O senhor é um dissimulado, é um mau exemplo para qualquer homem público, porque não apenas é um transgressor, mas sobretudo porque é um covarde, que nem sequer assume seus atos.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

PPS incensa Serra

Por Cléber Sérgio de Seixas

Não vou me alongar muito neste post. Só queria que os leitores me ajudassem a descobrir qual foi o objetivo do programa político do PPS exibido hoje. A intenção foi mostrar as propostas do partido ou simplesmente incensar José Serra?

Outra questão: resta algo de socialista no PPS a não ser o que está implícito na última letra da sigla do partido, sobretudo depois de aliançar-se com os bastiões direitistas do país?

Abaixo o vídeo do Youtube com o programa exibido hoje às 20:10.

CARTA A UM AMIGO PETISTA

Reproduzo abaixo um artigo de Frei Betto publicado no dia 10/06/2010 no jornal Estado de Minas


Meu caro: sua carta me chegou com sabor de velhos tempos, pelo correio, em envelope selado e papel sem pauta, no qual você descreve, em boa caligrafia, a confusão política que o atormenta. Pressinto quão sofrido é para você ver o seu partido refém de velhas raposas da política brasileira, com o risco de ser definitivamente tragado, como Jonas, pela baleia... sem a sorte de sair vivo do outro lado. A política é a arte do improviso e do imprevisto. E como ensina Maquiavel, trafega na esfera do possível. O sábio italiano foi mais longe: eximiu a política de qualquer virtude e livrou-a de preceitos religiosos e princípios éticos. Deslocou-a do conceito tomista de promoção do bem comum para o pragmatismo que rege seus atores – a luta pelo poder.

Você deve ter visto o célebre filme O anjo azul (1930), que imortalizou a atriz Marlene Dietrich e foi dirigido por Joseph von Stemberg e baseado no livro de Heinrich Mann, irmão de Thomas Mann. É a história de uma louca paixão, a do severo professor Unrat (Emil Jannings) por Lola-Lola, dançarina de cabaré. Ele tanta aspira ao amor dela, que acaba por submeter-se às mais ridículas e degradantes situações. Torna-se o bobo da corte. Nem a cortesã o respeita. Então, cai em si e procura voltar a ser o que já não é. Em vão.

Pergunto-me se o PT voltará, algum dia, a ser fiel a seus princípios e documentos de origem. Hoje, ele luta por governabilidade ou empregabilidade de seus correligionários? É movido pela ânsia de construir um novo Brasil ou pelo projeto de poder? Como o professor de O anjo azul, a paixão pelo poder não teria lhe turvado a visão? Você se pergunta em sua carta “onde o socialismo apregoado nos primórdios do PT? Onde os núcleos de base que o legitimavam como autorizado porta-voz dos pobres? Onde o orgulho de não contar, entre seus quadros, com ninguém suspeito de corrupção, maracutaias ou nepotismo?”

Nunca fui filiado a nenhum partido, como você bem sabe e muitos ignoram. É verdade que ajudei a construir o PT, mobilizei Brasil afora as comunidades eclesiais de Base e a Pastoral Operária, participei de seus cursos de formação no Instituto Cajamar e de seus anteparos, como a Anampos e o Movimento Fé e Política. Prefeitos e governadores eleitos pelo PT me acenaram com convites para ocupar cargos voltados às políticas sociais. Tapei os ouvidos ao canto das sereias. Até que Lula, eleito presidente, me convocou para o Fome Zero. Aceitei por se destinar aos mais pobres entre os pobres: os famintos.

O governo que criou o Fome Zero decidiu por sua morte prematura e deu lugar ao Bolsa-Família. Trocou-se um programa emancipatório por outro compensatório. Peguei meu boné e voltei a ser um feliz ING, Indivíduo Não Governamental. Tudo isso narrei em detalhes em dois livros da Editora Rocco, A mosca azul e Calendário do poder.

Amigo, não o aconselho a deixar o PT. Não se muda um país vivendo fora dele. O mesmo vale para igreja ou partido. Há no PT muitos militantes íntegros, fiéis a seus princípios fundadores e dispostos a lutar por uma nova hegemonia na direção do partido.
Ainda que você não engula essas alianças que qualifica de “espúrias”, sugiro que prossiga no partido e vote em seus candidatos ou nos candidatos da coligação. Mas exija deles compromissos públicos. Lute, expresse sua opinião, faça o seu protesto, revele sua indignação. Não se sujeite à condição de vaca de presépio ou peça de rebanho.

Se sua consciência o exigir, se insiste, como diz, em preservar sua “coerência ideológica”, então busque outro caminho. Nenhum ser humano deve trair a si próprio. Quando o faz, perde o respeito a si mesmo, como o professor de O anjo azul. Mas lembre-se de que uma esquerda fragmentada só favorece o fortalecimento da direita. A história não tem donos. Muito menos os processos libertadores. Tem, sim, protagonistas que não se deixam seduzir pelas benesses do inimigo, cooptar por mordomias, corromper-se por dinheiro ou função. Nunca confunda alianças táticas com as estratégicas. Ajude o PT a recuperar sua credibilidade ética e a voltar a ser expressão política dos movimentos sociais que congregam os mais pobres e as bandeiras que exigem reformas estruturais no Brasil. Lembre-se: para fazer a omelete é preciso quebrar os ovos. Mas não se exige sujar as mãos.