segunda-feira, 31 de agosto de 2009

UMA IMPRENSA ANTIDEMOCRÁTICA

Por Maurício Dias

"A imprensa brasileira tem sido adversária histórica das instituições representativas do País".
Essa frase, um dos mais duros veredictos já feitos sobre a imprensa brasileira, é de Wanderley Guilherme dos Santos, professor aposentado de teoria política da UFRJ, fundador do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj) da Universidade Candido Mendes, e consagrado pela Universidade Autônoma do México, em 2005, um dos cinco mais importantes cientistas políticos da América Latina.

Ela é parte do começo de uma conversa em torno da histórica tendência golpista da imprensa brasileira, que começa assim: “Com o fim da Segunda Guerra Mundial terminou também o Estado Novo brasileiro, ditadura civil que se iniciara em 1937. No mundo todo, mas em particular no Brasil, as elites políticas tradicionais se viram acompanhadas por um eleitorado em torno de 7 milhões, mais de dez vezes superior ao da Primeira República, e um movimento sindical legalizado e participante de algumas estruturas estatais, como os institutos de pensões e aposentadorias dos trabalhadores urbanos”.

Segundo ele, a imprensa brasileira “sem embargo da retórica democrática”, tornou-se a principal adversária das instituições representativas.

“A exemplo de toda a imprensa, denominada grande, latino-americana, “jamais hesitou em apoiar todas as tentativas de golpe de Estado, quando estas significavam a derrubada de presidentes populares ou o fechamento de congressos de inclinação mais democrática”, denuncia Wanderley Guilherme.

“No Brasil – prossegue –, não existe um só jornal de grande circulação que se posicione a favor dos respectivos congressos nacionais, nas esparsas ocasiões em que estes parecem funcionar.”

Por outro lado, ele anota que “toda vez que a direita recrudesce nas urnas, sempre encontra a simpatia midiática”.

“No Brasil, o único período em que o governo contou com o respaldo de algum jornal de certa respeitabilidade foi durante o segundo governo Vargas, com a Última Hora. Não houve um único jornal popular, de grande circulação no Brasil, durante esse período”, diz Wanderley Guilherme.

Última Hora também foi o único reduto jornalístico contra o golpe de 1964, que toda a mídia apoiou. Sem qualquer constrangimento.

Conceitualmente, ele lembra, a imprensa, além de ser um instrumento de difusão de informação e análise, é um ator político “na medida em que forma opinião, agenda demandas e que, eventualmente, beneficia ou cria obstáculos para governos”.

Wanderley Guilherme comenta: “A imprensa brasileira exerce, e tem todo o direito, de ter opinião e preferências políticas. No Brasil, no entanto, ela diz que apenas retrata a realidade. É falso. Há muito da realidade que não está na imprensa e há muito do que está na imprensa que não está na realidade”.

Não é novidade no mundo democrático. Novidade, como explica Wanderley Guilherme, é presumir e passar a impressão de que isso não acontece.

“A imprensa brasileira não tolera a ideia de governos independentes, autônomos em relação às suas campanhas. Isso implica um caminho de duas mãos. Significa que ela terá de sobreviver sem os governos. Então, é preciso que os governos precisem dela”, conclui.

É um retrato do momento que o Brasil atravessa no alvorecer do século XXI.


Maurício Dias é colunista da revista Carta Capital

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

OS MIDIOTAS


Por Luiz Carlos Azenha

Ler os jornais brasileiros, hoje em dia, equivale a se expor a uma exibição despudorada de preconceitos vindos daqueles que, por ilustração, deveriam ser os primeiros a reconhecê-los. Mas o ódio de classe cega. Cega a ponto de fazer com que gente "bem" se exponha de maneira abertamente pornográfica. Há, subjacente ao preconceito, um motivo comercial a incentivar esse strip-tease ideológico: em um ambiente cada vez mais competitivo, marca quem chamar mais a atenção.

Não importa que o striper nos ofereça um corpo surrado, barrigudo, salpicado de celulites e estrias. Importa é que prestemos atenção nele, ainda que fortuitamente. Semana que vem, ele promete, tem mais. Dispensa-se o convencimento embasado em conhecimento e na razão. Importa é causar debate, atrair tráfego e leitores, "brilhar". Na sociedade midiatizada, inauguramos a era dos "midiotas". Assim como temos os famosos que são famosos por serem famosos, temos os comentaristas que são lidos pela capacidade de chocar. São as "moscas" da Folha de S. Paulo, jornal marqueteiro que quer nos vender o supra sumo do elitismo e do preconceito como algo revolucionário, "in your face", ousado. Que o espírito de Raul Seixas tenha piedade deles.

Um caso em particular me chamou a atenção recentemente. A coluna "O Petróleo é Dela", de um dos editores do jornal. Ele inicia sua argumentação desqualificando a maior parte do eleitorado brasileiro, que descreve como "semi-analfabeta". Depois de opinar sobre a tática eleitoral de uma das candidatas ao Planalto, Dilma Rousseff, diz que em nome da campanha dela os projetos de exploração do pré-sal "serão enviados em regime de urgência para o cada vez mais combalido Congresso Nacional, por onde, do jeito certo, tudo passa". Ou seja, além de desqualificar o eleitorado, desqualifica todos os que foram eleitos.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

APEGO AO PODER E O ESPECTRO DA MORTE

Por Frei Betto

Uma das características do poder é imantar em muitos que o ocupam a pretensão de nele se perpetuar. Nada mais trágico para tais pessoas do que sua perda: ficam com baixa autoestima, sentem-se abandonadas pelos antigos correligionários, lamentam já não usufruírem dos privilégios e das mordomias de outrora. Daí o empenho de tantos políticos para se perpetuar no poder. Ao se defender no Senado, Sarney gabou-se de estar nele há 55 anos!

A questão do poder desponta com o surgimento da cidade-Estado, no início do 4º milênio a.C. É quando o ser humano se desprende do ciclo da natureza. Já não funda sua identidade nos vínculos comunitários da sociedade agrária. Sua consciência se personaliza, ele se torna senhor do próprio destino, livre das mutações ecológicas que antes criavam nele a sensação de fatalidade.

A vida, como fenômeno biológico, adquire progressivamente contornos históricos. O ser humano percebe-se como sujeito, ator social, dotado de consciência da responsabilidade e capacidade de interferir nos rumos da natureza. As provisões já não dependem apenas da coleta e da extração; surge a atividade produtiva. O mundo deixa de ser uma realidade dada; passa a ser transformado e construído.

A fundação da cidade-Estado, ao inverter a relação do ser humano com a natureza, o faz perceber que não é mais ele que deve se adaptar a ela; ela é que deve se submeter à vontade dele. A invenção do tijolo, como o comprova o episódio da Torre de Babel (Gênesis, 11), permite ao ser humano fabricar a base material do mundo. A produção em série o livra dos condicionamentos ambientais e climáticos.

Assim, altera-se a função da divindade, à qual natureza e humanidade estavam implacavelmente sujeitas. Antes, os deuses atuavam movidos por forças obscuras que escapavam do controle humano. Agora, são vistos como fundamento e reflexo da hierarquia que caracteriza a cidade-Estado. O rei é tido como mediador entre as ordens celestial e terrena. Ele interfere, não apenas na natureza, mas também na história.

Embora ele seja revestido de sacralidade, as leis que promulga já não decorrem da imposição dos deuses. São obra humana, suscetível de limitações e erros, interpretações e questionamentos. E a morte, até então encarada como inevitável degradação ou acidente ditado pelo ciclo da natureza, passa a ser encarada pela ótica da tragédia.

A história do rei sumério Gilgamesh ilustra esse atávico apego de muitos ao poder. Ela chegou até nós através da Epopeia, redigida em idioma acádio numa tábua de argila do século 8 a.C. Governante da cidade-Estado de Uruk, na Mesopotâmia (atual Iraque), Gilgamesh teria vivido em 2650 a.C. A lista sumeriana dos reis o aponta como o quinto da primeira dinastia. Sua função mítica associa-se ao novo olhar sobre o poder: o supremo grau a que pode ascender uma pessoa, comparada aos deuses, e a morte passa a ser considerada inaceitável, pois deuses não morrem...

Gilgamesh se queixa de que, ao criar os seres humanos, os deuses os fizeram mortais e reservaram para si o privilégio da imortalidade. Revolta-se ao descobrir que as funções de poder são perenes, os homens que as ocupam, não.

Por sua vez, os cidadãos de Uruk reclamam da tirania de Gilgamesh. Criticado por seus súditos, ele sente a solidão do poder. Necessita de um amigo, um alter-ego, o que não encontra em Uruk. Fica sabendo, por um caçador, da existência de Enkidu, que vive no deserto e comparte a vida dos animais selvagens. É o homem que procurava. Confrontam-se as duas violências: a da natureza (Enkidu) e a da cidade-Estado (Gilgamesh). Este envia uma comitiva a Enkidu com a missão de trazê-lo do mundo rural ao mundo urbano.

Depois de Enkidu transar com uma prostituta, os animais do deserto já não identificam nele um igual e passam a temê-lo. Como em muitos mitos, inclusive no Gênesis, é a mulher que introduz o homem no discernimento e na vida civilizada. Enkidu encontra Gilgamesh ao entrar na cidade; surge entre os dois uma profunda amizade. Unidos, sentem-se tão fortes que desafiam os deuses. A aliança entre eles reforça o apego ao poder. À perenidade soma-se a onipotência. Porém, Enkidu se enferma e morre. O imprevisto acontece.

Gilgamesh, solitário, se revolta. Recusa-se a aceitar a morte. Ele se torna “o grande homem que não quer morrer”, diz o texto. Decide partir e aprender com Uta-napishti – único sobrevivente do dilúvio – a receita da vida sem fim. O poderoso não admite que a morte o destrone do poder.

Shamash, o deus-Sol, o adverte: “Você jamais encontrará a vida sem fim que procura”. Gilgamesh não se conforma de, depois da morte, em ficar apenas num estado de inanição e sono sem fim. Uta-napishti insiste com Gilgamesh para que ele admita não merecer dos deuses o privilégio da imortalidade.

O poder pode tudo, exceto evitar que os poderosos sejam “derrubados de seus tronos e, pela morte, despedidos com as mãos vazias”, como canta Maria no Magnificat (Lucas 1, 46-55).

Fonte: Jornal Estado de Minas - 27/08/2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O CHOQUE DE INDIGESTÃO DE AÉCIO


Por Cléber Sérgio de Seixas


O vídeo acima ilustra parte da "operação cala boca" que setores da mídia mineira levam a cabo com o intuito de manterem intacta a imagem da gestão Aécio Neves à frente do governo de Minas. Tal como é narrado no vídeo, o objetivo é projetar a imagem de Aécio de forma a torná-lo presidenciável em 2010.

A idéia do choque de gestão tucano é repetida feito mantra pela grande mídia, interessada que está nas benesses de uma possível candidatura e vitória do mineiro à Presidência. O tal déficit zero é questionável, tal qual o assim chamado "enxugamento da máquina". Na verdade o estilo Aécio de governar está mais para uma versão queijo minas com goiabada do jeito de governar de Covas, Serra, FHC e outros espécimes do tucanato.

O que a grande mídia não diz, capitaneada, como sempre, pela Vênus Platinada, é que o tal choque de gestão se ancora em medidas que retiram direitos de servidores públicos ou se vale de medidas inconstitucionais para se manter. O jeito tucano de governar, passa, por exemplo, pelo fim do pagamento do quinquênio e pela maracutaia que o governo mineiro fez para efetivar, sem concurso público, cerca de 98 mil servidores que há anos vinham trabalhando em regime de contrato nas escolas estaduais. Neste último assunto, gostaria de aprofundar-me mais.

A famigerada lei 100/2007 é assunto proibido na imprensa marrom. Para quem ainda não está a par do caso, o resumo da ópera é o seguinte: o governo mineiro precisava de um empréstimo junto a entidades financeiras internacionais, de forma a levar a cabo obras públicas que, prontas, redundariam na projeção da imagem de Aécio Neves no cenário político mineiro e nacional. Para efetuar tais empréstimos, era necessário obter um documento expedido pelo Governo Federal que funciona como se fosse uma certidão negativa. Nesse contexto, vários funcionários do setor de educação - de cantineiros a diretores - vinham, há anos, prestando serviços ao Estado de Minas Gerais, tendo descontados em seus contra-cheques valores referentes a contribuições previdenciárias sem que, no entanto, tais contribuições fossem repassadas à União. Para conseguir a certidão negativa de débitos com o INSS, foi aprovada a Lei 100/2007, cujo teor autorizou a efetivação dos cerca de 98 mil servidores. A ALMG assinou embaixo e o governador sancionou o projeto de lei. Assim, como num passe de mágica, uma multidão de servidores se tornaram efetivos sem nunca terem prestado concurso, passando na frente, inclusive, de vários concursados que há anos aguardavam nomeação.


Trocando em miúdos, a estratégia, basicamente, constou de "sumir" uma dívida com o INSS para que empréstimos junto a organismos internacionais pudessem ser feitos. Como o governo mineiro conseguiu o que queria, ou seja, o dinheiro para as obras, que se danem os destinos daqueles que foram "beneficiados" pela lei - o abacaxi será deixado para próximo governador descascar. Ao sancionar a lei, o Executivo de Minas Gerais estava ciente do conteúdo inconstitucional da mesma.

No entanto, já existem ADINs (Ações Diretas de Inconstitucionalidade) questionando a lei que viola o inciso 9º do artigo 37 da Constituição Federal, segundo o qual o poder público só poderá contratar pessoal em caráter temporário em situação de excepcional interesse público e com prazo determinado. Fica então a seguinte dúvida: qual será o destino daqueles que, nesse ínterim, se aposentarem como servidores sob o regime de previdência do Estado de Minas Gerais, caso o Supremo Tribunal Federal anule a lei que lhes "beneficiou"? Imagine o leitor o impacto social que sofrerá um servidor que se aposentar nos anos de vigência desta lei ao receber a notícia de que sua aposentadoria é nula e que, portanto, deveria voltar ao trabalho?


O jornal OTempo, em reportagem de Ezequiel Fagundes de 20 de julho de 2009 (clique aqui para ler a matéria na íntegra), afirma que uma nova lei, a 18.185/09 tenta abrir caminho para a efetivação, segundo o documento, de "milhares de servidores públicos contratados em caráter temporário". Esta nova lei repete o modus operandi da 100/2007. Se for aprovada, fará com que servidores efetivados via concurso sejam exceção e não regra. Contudo, a nova lei também é alvo de ADINs.

Diante de tais circunstâncias deveríamos nos perguntar se o tal choque de gestão, bastião da suposta competência gerencial tucana, não deveria ser rebatizado para "choque de indigestão" pelos seus efeitos na vida dos servidores públicos e do cidadãos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

CARTA TESTAMENTO DO PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS

"Mais uma vez, a forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.

E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História".

domingo, 23 de agosto de 2009

OS GRAMPOS SEM ÁUDIO - EPÍLOGO

Capa de Veja sobre os grampos sem áudio

PF não acha escuta no STF
Perícias realizadas pela Polícia Federal excluem possibilidade de grampos contra o presidente do Supremo e o senador de Goiás. Resultado será divulgado esta semana

Reportagem de Edson Luiz

Brasília – A Polícia Federal vai encerrar nos próximos dias o inquérito que apura os grampos em torno do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e do senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Depois de um ano de investigações, a PF tirou suas conclusões: não houve grampo. O inquérito, aberto em agosto do ano passado, está correndo em segredo de Justiça, mas fontes oficiais confirmam que nenhuma das perícias detectou a existência de escutas telefônicas no STF, nem no Senado. Porém, a apuração deve mostrar o autor de uma suposta transcrição — cuja origem não estaria em escutas telefônicas — divulgada pela imprensa.

O episódio por pouco não causou uma ruptura entre o Executivo e o Judiciário. “O próprio presidente Lula deve ser chamado às falas”, disse Mendes, à época. O grampo foi atribuído à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), na época dirigida pelo delegado Paulo Lacerda, que também havia sido diretor-geral da PF. Lacerda foi afastado do cargo e em dezembro do ano passado foi nomeado adido policial em Portugal. O caso também causou mal-estar entre os ministros da Defesa, Nelson Jobim, e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Felix. Jobim fez declarações contrárias à Abin, subordinada ao GSI, revelando que a corporação tinha equipamentos para esse tipo de grampo.

A Abin chegou a abrir uma investigação interna, mas também constatou que não foram seus os equipamentos que fizeram os supostos grampos. A PF, então, decidiu abrir inquérito, cabendo a apuração aos delegados William Mourad e Rômulo Berredo, que hoje é adido policial na Itália. Durante a investigação foram ouvidos servidores da Abin, da segurança do STF e do Senado. Além disso, foram realizadas perícias nas duas instituições e em equipamentos da agência, sem indícios de que os supostos grampos tenham sido montados de lá.

Além da Abin, outro suspeito pelo grampo seria o delegado Protógenes Queiroz, que coordenou a Operação Satiagraha, desencadeada em julho do ano passado. O objetivo era investigar Daniel Dantas, controlador do Banco Opportunity. Porém, o inquérito da PF, que deverá ter seu relatório finalizado até a sexta-feira, vai revelar que o suposto diálogo entre Gilmar e Demóstenes não partiu de ação policial. Os agentes da Abin usados por Protógenes na fase de inteligência da operação foram interrogados pela PF, mas nada de novo foi revelado.

Legislação Apesar de o inquérito não ter achado nada, a suspeita de grampo em torno de Gilmar e Demóstenes deu outros resultados, como o envio pelo governo para o Congresso de uma lei que regulamenta o vazamento de documentos sigilosos. A proposta pune com sanções rígidas os servidores que tornarem públicas informações de ações policiais. Nessa situação já está Protógenes Queiroz, que foi indiciado pela PF por vazar documentos relacionados à Operação Satiagraha.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 23 de agosto de 2009


Nota do blog: Agora que está cabalmente comprovada a inexistência do grampo ilegal organizado pela Polícia Federal que teria como alvos o senador Demóstenes Torres e o supremo presidente do Supremo, Gilmar Mendes, devemos fazer algumas reflexões.

A primeira delas pode ser feita tomando emprestado um termo latino: cui prodest, ou seja, a quem interessou? Em outras palavras, qual ou quais foram os beneficiários da operação que a mídia levou a cabo, repercutindo o suposto grampo, e que redundou no afastamento de Paulo Lacerda da direção da Abin (um exílio forçado para a terra de Camões para ocupar um cargo criado sob medida para ele) e na demonização do delegado Protógenes Queiroz? Uma possível resposta poderia ser obtida se considerarmos que a data do suposto grampo foi exatamente um dia após o Supremo conceder o primeiro Habeas Corpus ao banqueiro bandido Daniel Dantas, livrando-o da detenção por conta das investigações da Operação Satiagraha.

Outra questão: se não houve escuta coisíssima nenhuma, a direção da ABIN não deveria ser devolvida a Paulo Lacerda? Protógenes, que fora alvo de uma das maiores campanhas de assassinato de reputação por parte da grande imprensa golpista, não deveria ter direito de resposta em cada um dos meios que repercutiram a hipótese de que ele estaria montando um estado policial por intermédio de grampos ilegais? Por último, deveriam ser pedidas explicações a Gilmar Mendes, pois se ele afirmou a existência do grampo e as investigações da PF provam o contrário, ele, então, mentiu.

A revista Veja de 13 de agosto de 2008 teve como matéria de capa uma reportagem que era taxativa em afirmar que Gilmar Mendes foram vítima de um grampo, juntamente com Demóstenes Torres, senador pelo DEM.

Sobrou para Lula e Lacerda. Este último seria afastado da direção da ABIN

Na reportagem, a revista apresenta um relatório da secretaria de segurança do Supremo Tribunal Federal onde se conclui que "foi encontrado um sinal de RF na faixa de 285.0550 MHz, com intensidade forte, fazendo o equipamento registrar o alerta máximo de uma provável escuta".

"documento" obtido pela Veja

Num dos trechos da matéria, assinada por Diego Escosteguy e Policarpo Júnior, chega-se às raias do absurdo ao afirmar que "o relatório faz referência a uma 'provável escuta' e a um 'possível monitoramento'. Os peritos só não afirmam que o grampo efetivamente aconteceu porque, tecnicamente, seria preciso modular a transmissão, o que significa decifrar o que estava sendo transmitido naquele instante. Ou seja, precisavam escutar no próprio aparelho as conversas de dentro do tribunal - o que seria a prova definitiva. Como isso não aconteceu, o sinal de rádio encontrado, mesmo sendo característico de uma ação de espionagem, foi classificado como 'provável escuta'. Mas os peritos não têm dúvida de que o presidente do STF foi mesmo vítima de escuta clandestina". Tendo como base o trecho acima, como combinar "provável escuta" com "o presidente do STF foi mesmo vítima de escuta"?

Um ano depois, comprovada a inexistência do grampo, devemos também questionar a autenticidade do documento que a Veja apresentou como prova do grampo. Se o documento é falso, não caberia um processo sobre falsificação ou falsidade ideológica?

Sabemos que o PIG (Partido da Imprensa Golpista) não irá dar a devida repercussão a esta notícia. Assim sendo este blog dá sua modesta contribuição para que a verdade factual venha à tona e a real face de nossa grande imprensa seja mostrada.

sábado, 22 de agosto de 2009

À FICÇÃO, SEMPRE

Por Mino Carta

A bem de razoável sossego entre o fígado e a alma, há muitos anos evito a leitura da imprensa nativa. Há, porém, quem me informe a respeito dos fatos, bem como das peças de humorismo semeadas ao longo das páginas dos jornalões, algumas representadas pelos editoriais. Estas não deixo escapar.

Terça 18 coube ao primeiro editorial da Folha de S.Paulo precipitar minha diversão. Assunto: a situação dos pré-candidatos às eleições de 2010 na pesquisa Datafolha, a registrar que Dilma Rousseff, “a aspirante inventada por Lula”, estacionou em 16%. E veio o momento da hilaridade com as linhas finais, quando o editorialista vaticina “a retomada da frenética fanfarra eleitoral em torno da ministra Dilma Rousseff, sob os mais variados pretextos”.

Ouço os trombones, as tubas, os tambores, e encaro as manchetes das primeiras páginas dos jornalões de quarta 19. Fanfarras eleitorais são sempre a favor ou contra. A ex-secretária da Receita Federal dona Lina Vieira ganhou fotos rasgadas e a concorde glorificação de seu desafio à ministra da Casa Civil e ao próprio presidente da República, que a convidara a exibir sua agenda para provar o célebre encontro. Segundo Folha e Globo, diante da Comissão de Constituição e Justiça do Senado dona Lina disse ter sido submetida a “ingerência desnecessária e descabida”, enquanto, segundo o Estado, o pedido de dona Dilma para “agilizar” o processo Sarney foi simplesmente “incabível”.

O depoimento da ex-secretária foi oferecido à visão do Brasil pela televisão. As manchetes e respectivas chamadas das primeiras páginas não correspondem, no entanto, ao que se viu, para o pasmo dos telespectadores, entre os quais nos colocamos. Resta o esforço patético de transformar dona Lina em misto de diva e heroína, e de construir para dona Dilma a fama de mentirosa. Ao clamor da fanfarra, tal é o edito da mídia nativa, o decreto, na óbvia, desbragada demonstração das manhas midiáticas e do pentagrama de quem, de fato, dirige a banda. Ao menos, a do contra.

Não cabe aqui entrar em pormenores, reservados a texto específico na seção Seu País. Limito-me a buscar incentivos, impulsos, patrocínios ao bom humor, proporcionados de graça por algumas passagens dos nossos jornalões. Por exemplo, pela campanha do Estadão contra certas façanhas imobiliárias do senador José Sarney.

O Zé nacional, como diriam os franceses, é figura muito simpática. Falo do indivíduo, o bom contador de histórias e seresteiro inspirado. Isto vale para quem o conhece bem, na intimidade. Parece, contudo, que somente agora os barões midiáticos descobriram o senhor feudal e o político oportunista, o serviçal da ditadura e o tíbio presidente que ganhou o quinto ano de mandato no grito. O então ministro do Exército, o inolvidável general Leônidas, tinha voz de barítono.

Pois é, o general Leônidas, grande amigo dos senhores globais, como também o era, naquele tempo, o próprio presidente, cujo ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, empenhava-se a fundo para embelezar, digamos assim, a Vênus Platinada.

Já o Estadão, que compartilhou com Sarney a fé udenista, encasqueta nestes dias com certas propriedades do ex-presidente, entre elas um apartamento paulistano em outros tempos habitado por um filho, então estudante universitário em São Paulo. Sarney declara em plenário que o apartamento tem 85 metros quadrados de área útil, o jornal clama: mentira! Pois o imóvel tem 112 metros quadrados. Há limites para tamanho espanto? Quanto a mim, padeço de outros espantos.

Aos meus perplexos botões, pergunto: que passa entre o fígado e a alma (a eterna área miasmática) de um titular de carteirinha de jornalista na hora de sujeitar-se ao ridículo para obedecer à vontade do patrão? Ou de esquecer a verdade factual para dedicar-se à ficção, imaginosa, porém daninha, e conformada aos desígnios dos predadores? Ora, daninha... Por duas razões. Primeira, pois nega a profissão de fé jornalística. Segunda, porque não aproveita ao gênero humano e à cidadania nacional. Ou não seria o caso de preocupar-se com o gênero humano e a cidadania nacional?

Penso naqueles que se prestam ao jogo destes mesmos barões, prontos outrora, por exemplo, a implorar a intervenção dos seus gendarmes para desfechar o golpe de 1964. E também naqueles que chamaram de revolução um regime disposto às mais hediondas violências em nome dos interesses da exígua minoria privilegiada e que tranquilamente aceitaram, quando não celebraram, a derrota das Diretas Já. E ainda naqueles que desde 1989 manobram, cada qual dentro do seu espaço, contra representante autorizado e convincente da maioria acuada, aturdida, basicamente infeliz.

Que vai pelas entranhas destas figuras? Até onde chega o servilismo? Até onde se dobra a genuflexão? Só mesmo a escrita dos grandes pesquisadores d’alma para expor tanta vileza. E noutro dia recordei Nelson Rodrigues, foi quando me deparei com o olhar de Fernando Collor, a invectivar contra Pedro Simon. Eis aí, murmurei aos costumeiros, inevitáveis botões, ao descrever os olhos rútilos (rútilo, adjetivo perfeito) do cafajeste Palhares enquanto observava o andar da cunhada, Nelson Rodrigues já profetizava o caçador de marajás.

A miséria moral dos sabujos da mídia está escrita em algum canto, e tenho a definitiva certeza de que Dante não os omitiu da lista dos condenados. Só resta investigar qual seria, exatamente, a bolgia a eles destinada. A dos mentirosos, onde aliás estaciona Ulisses, o Odisseu, por causa do inesquecível cavalo de madeira, é recanto aprazível demais para a turma.

Cidadãos comuns imaginam o óbvio para explicar quem se curva, a partir da crença de que, na origem, havia uma fé. Um sonho, ou uma ambição, a sombra de um propósito respeitável, de um desenho ético. Quem sabe não houvesse. Digamos, porém, que sim: havia. E se for, por que foi traído? Daí o óbvio: esmigalha-se o sonho em nome do alpinismo carreirístico. E se, de supetão, você se convencesse, até a medula, que o patrão é irretorquível dono da verdade?

Não excluo a possibilidade de que haja entre os meus colegas convictos, sinceros partícipes das visões patronais. Antes estavam na contramão do empregador, de súbito, ou aos poucos, soçobraram diante da luz que os cegava, como Saulo a caminho de Damasco. Creio que para descrever situações deste alcance seria preciso convocar Dostoievski. Donde, abstenho-me de prosseguir. Admito, entretanto, a chance da simbiose. Por exemplo: o doutor Roberto (Marinho, e quem mais?) acreditou cegamente na funcionária Miriam Leitão quando, à sombra da campanha eleitoral de Fernando Henrique Cardoso em 1998, afirmava em sua coluna que o Real era intocável por direito divino e, portanto, fernandista.

Trata-se de um episódio antigo. Agora o assunto é outro, na praça se estabelece a fanfarra. Nem por isso nos livramos da mesmice. Ela mesma, no entanto, perde peso e valor. De comédia se tornou farsa, agora é ópera-bufa, alcançará a bolha de sabão, e sem razão para o mais pálido sorriso. A mídia, tadinha, por mais óbvia, não consegue entender a obviedade. Ela já não chega onde pretende, é arquiteta de factoides.

Não me canso de repetir: o Brasil é o único país do mundo que conheço onde os jornalistas chamam o patrão de colega e o sindicato até se prontifica a entregar-lhe a carteirinha.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

ANISTIA - 30 ANOS

Por Frei Betto

Várias manifestações programadas para o dia 22 comemorarão (fazer memória) os 30 anos da Lei de Anistia. A Lei 6.683 foi sancionada pelo general João Figueiredo, então presidente da República, em 28 de agosto de 1979. Teve por objetivo atender, prioritariamente, os interesses das Forças Armadas.

Peça de aberração jurídica, a lei diz, em seu primeiro artigo, que “é concedida anistia a todos quantos (...) cometeram crimes políticos ou conexos com estes”. No parágrafo 1º, afirma-se: “Consideram-se conexos (...) os crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política”.

O adjetivo “conexo” é o guarda-chuva sob o qual se abrigam todos aqueles que, em nome da lei e acobertados pelo governo militar, torturaram, assassinaram e deram sumiço nos corpos de suas vítimas. Ora, como se pode anistiar quem jamais foi considerado culpado ou condenado? Anistia significa perdão. Perdoa-se quem cometeu uma falta ou pecado. Se jamais os algozes assumiram os hediondos atos praticados por eles, por que beneficiá-los com a anistia?

Anistia, em sua etimologia, procede da mesma raiz latina de amnésia, perda da memória, esquecimento. É humanamente possível pedir a todos nós, que padecemos nas salas de tortura e nos cárceres, esquecer os sofrimentos? Pode-se esperar que a família de Frei Tito ou de Vladimir Herzog esqueça do ente querido assassinado pela ditadura? É justo nutrir a expectativa de que a mãe de Heleny Guariba ou os filhos de José Porfírio esqueçam que eles desapareceram? Onde estão seus corpos? Por que não entregá-los às famílias para sepultamento condigno?

O “conexo” encerra o reconhecimento, por parte da ditadura, de que seus agentes “cometeram crimes”. Se os “subversivos” foram duramente castigados pelos “crimes” cometidos, por que os crimes “conexos” praticados em nome do Estado devem permanecer impunes? Não se trata de revanchismo, e sim de justiça. O papel do Estado é preservar a integridade física e a vida de todos os cidadãos e cidadãs. Se ele, que tem o monopólio da violência, a pratica de forma arbitrária, perde a sua legitimidade e mina os princípios elementares do direito.

A tortura não é um crime comum, é um crime de lesa-humanidade, imprescritível. Como disse Sartre, a tortura não é desumana, é humana. Nenhum animal submete outro à tortura. Os animais se eliminam na cadeia predatória. Só o ser humano comete a atrocidade de fazer o semelhante conflitar-se entre a dor e os princípios que abraçou.

A anistia, embora seja uma vitória parcial, não foi “ampla, geral e irrestrita”, como queriam as vítimas da ditadura. Reza o parágrafo 2 do artigo 1º: “Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal”. Tudo isso foi praticado pelos agentes da repressão.

As vítimas de ontem são os vitoriosos de hoje. Elas não se envergonham de mostrar a cara e manter viva a memória nacional, ao contrário dos torturadores, que trafegam pelas sombras e insistem em negar o que fizeram.

O Brasil se redemocratizou, embora setores de nossas forças armadas e do Poder Judiciário ainda não tenham se dado conta disso. Por isso, mantêm arquivos secretos, recusam-se a apontar o destino dos desaparecidos e devolver seus restos mortais às suas famílias. E, por vezes, ressuscitam a censura à imprensa para defender interesses escusos de políticos oligarcas.

Para que a ditadura não se repita no Brasil – e Honduras demonstra que nem sempre o passado passou –, é preciso que as novas gerações saibam o que aqui ocorreu entre 1964 e 1985. Daí a importância do Memorial da Resistência em São Paulo, instalado no mesmo prédio que abrigou, entre 1940 e 1983, o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) – órgão de repressão. Ali, até 18 de outubro, há uma exposição do que significou a resistência ao regime militar. E os interessados podem consultar banco de dados, fotos, objetos, dossiês e prontuários encontrados nos arquivos da polícia política.

É preciso lembrar: segundo a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a ditadura brasileira produziu 474 mortos e desaparecidos; 4.877 políticos tiveram seus mandatos cassados; 10 mil pessoas foram exiladas; cerca de 20 mil condenadas por auditorias militares.

Livros como Brasil: Nunca Mais e Direito à Memória e à Verdade retratam a verdadeira face da ditadura. À memória e à verdade falta acrescer a justiça, para que anistia não seja um termo conexo a amnésia.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 20 de agosto de 2009

ERA DAS UTOPIAS - IMPERDÍVEL

A minissérie "Era das Utopias", idealizada e dirigida pelo cineasta Silvio Tendler, estreia dia 31 de agosto na TV Brasil. Dividida em seis capítulos, a obra retrata as principais transformações sociais, econômicas, culturais e artísticas após a Segunda Guerra Mundial. O programa é um dos destaques do projeto de renovação da programação da emissora.

Utopia. O substantivo vem das palavras gregas ou e topos, que significam sem lugar. Refere-se a um lugar ou posição ideal, ainda não atingido. Sonho impossível de realizar. Ideal inatingível.

A utopia pela igualdade entre os homens inspirou gerações. O mundo soviético inspirou os sonhadores. Com o fim da II Guerra Mundial, os Estados Unidos são a potência emergente. O american way of life passa a ser o modelo de civilização, quase uma norma. O mundo assiste a um confronto cultural, social, religioso, político e ideológico.

"Eu sempre trabalhei muito na questão das ideologias. São vinte anos de pesquisa em torno destas questões ideológicas que pautaram minha geração", conta Silvio Tendler. Foi nessa época, há vinte anos, que Tendler começou a catalogar e organizar as utopias de sua geração.

Para ele, utopia é a palavra mais utilizada nesses últimos tempos e é um assunto que sempre o fascinou. “Eu sempre trabalhei muito na questão das ideologias, na questão da história, e corri atrás desta construção pelo mundo afora”. A construção à qual Tendler se refere é Era das Utopias - a nova minissérie da TV Brasil.

A série pretende retratar, além das principais transformações após a Segunda Guerra Mundial, as utopias que foram criadas neste período e as barbáries que o pontuaram. A série descreve o desmantelamento das utopias vigentes em 1968 e a criação das novas utopias que se consolidaram no mundo contemporâneo.

Os primeiros capítulos tratam do surgimento da utopia socialista e todas as suas consequências durante o século XX. Já os capítulos referentes à utopia capitalista mostrarão a derrocada do Socialismo com a queda do muro de Berlim, em 1989; os desdobramentos gerados e, tantos outros fatos que levaram às novas utopias, derivadas do conflito entre novas tecnologias e velhas mazelas. Para Tendler, a luta das atuais gerações é a preservação do planeta.

Era das Utopias mostrará algumas imagens de arquivo, além de imagens e entrevistas inéditas de intelectuais, artistas e personagens do período, como: Apolônio de Carvalho, Albert Jacquard, Eduardo Galeano, Ferreira Gullar, Gillo Pontecorvo, Jacob Gorender, Noam Chomsky, Jaguar, Augusto Boal, Edgar Morin, Sérgio Cabral, Susan Sontag, Tom Zé, Amos Gitai, entre outros.

Dono de um jeito de fazer cinema denominado de “câmera cidadã” por colegas de profissão, Silvio conta que até começar a produzir o longa “Utopia e Barbárie” - que é a ancora da minissérie - percebeu que não se falava muito em utopia, até então.

Eu acho que a ideologia e a utopia têm uma relação íntima. É uma relação promíscua. Quando você está falando de utopia, você está defendendo ideias, quando você está falando em ideologia, você está defendendo utopias, então eu acho que é este casamento que é fundamental e que eu estou tentando trabalhar na Era das Utopias”.

Fonte: Portal Vermelho

Vejam o trailler abaixo:



Nota do Blog: Sou fã incondicional da obra de Tendler. Quem quiser se aprofundar mais no trabalho dele pode conferir os excelentes documentários Jango - Como se Depõe um Presidente, Os Anos JK, Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro. Sobre o tema da globalização, convém conferir também Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

MÉDICI CONSPIROU COM NIXON PARA DERRUBAR ALLENDE

Allende se defende dos golpistas no palácio de La Moneda em 11/09/73

Washington
– Documentos da Casa Branca sobre o período da administração de Richard Nixon (1969-1974) mostram que o presidente americano e o general brasileiro Emílio Garrastazu Médicim discutiram formas de cooperação para derrubar o presidente eleito do Chile Salvador JustificarAllende. Os documentos se referem a conversas mantidas em dezembro de 1971, quando o Brasil estava na fase mais dura da repressão sob a ditadura militar. Allende foi morto no golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet em 11 de setembro de 1973.

Os textos eram confidenciais e foram disponibilizados ontem no site dos Arquivos de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), instituição ligada à Universidade George Washington. Os documentos revelam também que o governo militar brasileiro participou, com apoio dos EUA, da fraude eleitoral no Uruguai, em 1971. Na época, a tumultuada apuração deu vitória a Juan María Bordaberry, que, menos de dois anos depois, fechou o Parlamento, ilegalizou partidos políticos e sindicatos e iniciou uma ditadura que duraria 12 anos.

De acordo com um memorando, em um encontro na Casa Branca em 9 de dezembro de 1971, Nixou perguntou ao presidente brasileiro se os militares chilenos eram capazes de derrubar Allende. O documento diz: "Nixon perguntou se Médici pensava que as Forças Armadas chilenas eram capazes de derrubar Allende, e Médici respondeu que achava que sim, que eram capazes, e acrescentou que o Brasil estava trocando muitos oficiais com os chilenos, e deixou claro que o Brasil trabalhava com esse fim".

DESESTABILIZAR Nixon deu seu consentimento à suposta desestabilização política brasileira no Chile, onde Allende assumira o poder pouco mais de um ano antes. "O presidente (Nixon) disse que era muito importante que Brasil e Estados Unidos trabalhassem estreitamente neste campo", acrescenta o documento.

O presidente americano pediu a Médici, general presidente da ditadura militar brasileira desde 1969, que contasse como poderia ajudar. "Se precisa de dinheiro ou outra ajuda discreta, talvez possamos colocar a sua disposição", disse Nixon. Estados Unidos e Brasil, afirmou Nixon ao convidado brasileiro, "devem tentar e prevenir novos Allendes e Castros e tentar, onde for possível, inverter estas tendências". "O Brasil, como país sul-americano, pode fazer muitas coisas que os Estados Unidos não podem na região", comentou Nixon durante o encontro.

O golpe de Pinochet contra Allende acabou com o primeiro governo de tendência marxista que chegou ao poder pelas urnas na América Latina e deu início a uma ditadura que deixou, oficialmente, mais de 3 mil vítimas, entre executados e desaparecidos (1973-1990). Nixon renunciou em 1974 para evitar um impeachment iminente por parte do Congresso, em meio ao escândalo de Watergate.

CUBA Médici também perguntou ao presidente americano se o Brasil deveria apoiar os exiliados cubanos no país. "Deveríamos, desde que não os empurremos a fazer algo que não possamos ajudar, e desde que nossa mão não apareça por trás", respondeu Nixon.

Ambos também examinaram como desestabilizar o presidente e general peruano Velasco Alvarado, considerado populista, supostamente com a informação de que tinha um filho ilegítimo. Nixon valorizava tanto a relação com a ditadura militar brasileira que chegou a propor um "canal direto" de comunicação com Médici, fora da diplomacia habitual.

O ministro das Relações Exteriores da época, Mário Gibson Barbosa, foi nomeado representante especial de Médici, enquanto Nixon atribuiu a missão ao então conselheiro de Segurança Nacional (mais tarde secretário de Estado) Henry Kissinger. As comunicações secretas entre Nixon e o ditador brasileiro permanecem secretas, segundo a NSA, especializada na busca e publicação dos documentos confidenciais do governo americano durante a Guerra Fria. "Os arquivos sobre o Brasil são um elo perdido na ampla documentação que atesta a intervenção estrangeira no Cone Sul durante aqueles anos", explica Peter Kornbluh, pesquisador do NSA especializado em Chile e Brasil.

Em recente entrevista ao New York Times, Kornbluh afirmou que pediu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a liberação dos documentos do período da ditadura militar no país. "A história completa da intervenção na América do Sul nos anos 1970 não pode ser explicada sem acesso aos documentos brasileiros".

Fonte: Jornal Estado de Minas - 18 de agosto de 2009

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

SOB O OLHAR DO REDENTOR

Por Cléber Sérgio de Seixas

De braços abertos no Corcovado, o redentor pétreo, recém-eleito uma das maravilhas da engenharia moderna, observa o horizonte atlântico. Sob seus pés convivem dois mundos diferentes: o mundo dos visíveis e bem integrados socialmente e o mundo dos invisíveis, para quem o Estado praticamente inexiste, a não ser no momento em que lhes envia seus elementos armados para cumprir missões punitivas e repressivas.

No início do século passado, ao retornar da campanha de Canudos - ou melhor, massacre de Canudos - alguns ex-combatentes se alojaram num dos morros cariocas, em habitações extremamente precárias. Ali encontraram um mesmo tipo de planta que crescia abundantemente no arraial do Conselheiro: a Favela. Batizaram o local então como Morro da Favela, em homenagem à planta urticante. Posteriormente, o nome do lugar foi mudado para Morro da Providência, quem sabe para trazer mais esperança aos desvalidos moradores. No entanto, o termo favela ficou para a posteridade para designar todo aglomerado habitacional de pouca infra-estrutura, habitado por população de baixa renda.

Atualmente as favelas deixaram de ser simplesmente conjuntos de barracos e habitações toscas para se tornarem, também, bases para o crime organizado. Se a planta que emprestou o nome a esses lugares pouco assistidos pelos governantes causa desconforto em quem a toca, também as favelas, sobretudo as cariocas, são como uma chaga desconfortante com a qual teremos que aprender a conviver. Recentemente, o órgão da ONU para assentamentos habitacionais, o Un-Habitat, se reuniu em Bellagio, Itália. Na reunião previu-se que daqui a 30 anos um em cada três habitantes do planeta, cerca de 2 bilhões de pessoas, estarão morando em favelas e cortiços. Esse processo de favelização, conseqüência direta da concentração de renda, ocorrerá com mais intensidade nos grandes centros urbanos de crescimento desordenado da América Latina, África e Ásia. Assim sendo, nossos governantes terão que adotar medidas para levar o Estado para dentro desses lugares pouco favorecidos, sob pena de o Estado legalmente constituído ser engolido por um Estado paralelo representado pelo poder do crime organizado. Governantes já despertam para a necessidade de implantação de medidas de inclusão social em tais ambientes.

Contudo, alguns políticos e cidadãos ainda mantêm o tradicional preconceito para com os moradores de favelas, preconceito este que consiste na pressuposição de que todo morador de favela é um marginal em potencial. Sob tal preconceito, se justificariam violentas ações militares, como as que constantemente vemos a polícia levar a cabo em algum subúrbio carioca. É a tática do “atire primeiro e pergunte depois”, muito utilizada pelas nossas polícias. Esse tipo de preconceito pode também ajudar a explicar o sucesso do capitão Nascimento no filme Tropa de Elite. O personagem vivido por Wagner Moura é um policial truculento que obtém confissões sob tortura e executa sumariamente; é o estereótipo do indivíduo que é parte do braço armado de um Estado que prefere lidar ineficazmente com os efeitos a examinar criticamente e combater as causas. Sob este prisma, é mais simples para os governantes enviar os “heróis do BOPE” para invadir o morro em missões de busca, apreensão e extermínio, do que fazer o mapeamento e monitoramento do tráfico de drogas e de armas; mais fácil executar ou prender um traficante qualquer do que impedir, através de medidas promotoras de inclusão social, que tantos outros jovens lhe sigam o exemplo.

Todo sistema social traz em si suas contradições, que virão à tona mais cedo ou mais tarde, com conseqüências imprevisíveis para as classes conflitantes. Tal como o Cangaço foi um subproduto da violência do Coronelismo nordestino, da miséria e da seca, assim também o surgimento e crescimento das favelas é conseqüência direta da desigualdade social que amontoa pessoas de baixa renda, negras em sua maioria, em guetos miseráveis, sob condições subumanas.

Combater o crime apenas nos moldes de Tropa de Elite é criminalizar a pobreza. Os belicosos de plantão certamente bradarão: “direitos humanos são para os cidadãos de bem”! Concordo, na medida em que ações sócio-educativas e punitivas devem visar afastar os indivíduos infratores ou potencialmente infratores do ingresso ou re-ingresso no crime. Ações que promovem os direitos humanos são aquelas que nos garantem usufruir de nossos direitos de cidadãos, ou seja, ir e vir tranquilamente, sem ameaça à nossa integridade física nem à dos nossos semelhantes. A repressão armada sem a devida contrapartida em investimentos sociais tais como urbanização, lazer, educação e cultura, só aguçará a violência. Em outras palavras, é necessário arranjar as coisas de forma a prover oportunidades aos menos favorecidos, proporcionando-lhes alternativas àquelas que o crime oferece e, por outro lado, punir eficazmente os infratores, impedindo reincidências nos delitos.

O Rio de Janeiro continua lindo? Enquanto a estátua de concreto foi alçada à categoria de maravilha do mundo, a cidade de natureza exuberante que a abriga está se tornando cada vez menos maravilhosa sob o ponto de vista social.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

MOBILIZAÇÕES POPULARES

Por Frei Betto

Desde 10 de agosto, mais de 3 mil trabalhadores sem-terra se encontram acampados em Brasília para, de novo, alertar o governo federal sobre uma questão que, outrora, foi considerada prioritária pelo PT: a reforma agrária.
O mundo gira, a Lusitana roda, e hoje muita coisa parece virada de cabeça para baixo: quem fazia oposição a Sarney o defende; quem gritava “fora Collor” o elogia; quem exigia reforma agrária exalta o agronegócio. E, apesar das políticas sociais, 31 milhões de brasileiros (as) continuam a sobreviver na miséria. E a violência dissemina o medo por nossas cidades.

A manifestação dos sem-terra reivindica do governo muito pouco, sobretudo se comparado aos incentivos oficiais concedidos a empresas que degradam a Amazônia e usineiros, que, em latifúndios, mantêm trabalhadores em regime de semiescravidão.

É urgente assentar mais de 100 mil famílias sem-terra acampadas pelo país afora, sobrevivendo em barracas de plástico preto à beira de estradas. E cuidar das 40 mil famílias assentadas virtualmente, apenas no papel, pois aguardam, há tempo, recursos para investir em habitação, infraestrutura e produção. Nos últimos seis anos foram financiadas apenas 40 mil casas no meio rural. Também as escolas rurais necessitam, urgente, de recursos.
O Brasil não tem futuro sem mudar sua estrutura fundiária. Nas três Américas, apenas Brasil e Argentina jamais fizeram reforma agrária. O detalhe é que somos um país de dimensões continentais, com 600 milhões de hectares cultiváveis.

Dois problemas crônicos encontrariam solução se nosso país não tivesse tanta terra ociosa, como se constata ao viajar por nossas estradas ou sobrevoar nosso território: o desemprego e a violência urbana. Os países desenvolvidos, como os EUA e a Europa Ocidental, com territórios bem menores que o nosso, conseguem obter alta produtividade no campo, sem que haja latifúndio. Há, sim, grande incentivo à agricultura familiar.

O governo federal deve à nação a atualização dos índices de produtividade das propriedades rurais, intocados desde 1975. Por exigência constitucional, tais índices deveriam ser revistos a cada 10 anos. Eles são utilizados para classificar como produtivo ou improdutivo um imóvel rural e agilizar, com transparência, a desapropriação das terras para efeito de reforma agrária.
O Ministério do Planejamento deve às famílias sem terra o descontingenciamento de R$ 800 milhões do orçamento do Incra previsto no orçamento deste ano. Esse recurso permitirá a obtenção de terras e aplicação no passivo dos assentamentos.

Durante o período de acampamento, que se encerra no dia 21, estão previstos também debates sobre conjuntura agrária, clima e meio ambiente, energia, Previdência Social, juventude, comunicação, gênero e raça, além de atividades culturais e ato em comemoração aos 25 anos do MST.

Está marcada para amanhã a jornada nacional de lutas contra a crise, uma mobilização de trabalhadores e desempregados, em todo o país, para assegurar manutenção do emprego, melhores salários, ampliação dos direitos, redução das taxas de juros e investimentos em políticas sociais.
Dia 19, movimentos sociais, estudantis e sindicais se reunirão, em Brasília, em defesa do petróleo, para reivindicar novo marco regulatório para a produção energética do país.

E no dia 7 de setembro, em todo o Brasil, o 15º Grito dos Excluídos, promovido por várias entidades, inclusive a CNBB, terá como tema “Vida em primeiro lugar – a força da transformação está na organização popular”.
A manifestação, que imprime caráter cívico à data da independência do Brasil, tem por objetivo arrancar a população do imobilismo e ressaltar a importância de se fortalecerem os movimentos sociais para consolidar nossa democracia e conquistar soberania.

A democracia não pode se restringir a eleições periódicas, que, por enquanto, permitem inclusive a candidatura de corruptos e réus de processos comuns. À democracia política é preciso aliar a econômica, de modo a reduzir a desigualdade social que envergonha o Brasil. Só assim conquistaremos o direito de ser um povo feliz.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 13 de agosto de 2009

BRIGA DE CACHORRO GRANDE - QUEM GANHA É O TELESPECTADOR

Por Cléber Sérgio de Seixas

Está deflagrada a guerra entre as duas maiores emissoras do país. Ontem assisti ao final do Jornal da Record e pude ver a resposta da emissora aos ataques que sua maior rival, a Rede Globo, lhe desferira um dia antes no Jornal Nacional.

Ao se defender, a Record teve a coragem de colocar o dedo na ferida aberta que é o passado da vênus platinada. Foi a primeira vez que ví na TV a caixa de Pandora sendo aberta e revelando os fatos vergonhosos que permeiam a história da Globo. Creio que foi de grande valia, já que os fatos apresentados pela matéria da Record só estão acessíveis em meia-dúzia de livros e documentários.

Por exemplo, no livro Plim-Plim - A Peleja de Brizola contra a Fraude Eleitoral, de autoria do jornalista Paulo Henrique Amorim, é feita uma explanação sobre as atitudes da Globo no escândalo Proconsult. Neste episódio as eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982 foram manipuladas pela empresa homônima, em associação com a emissora de Roberto Marinho, de forma a evitar a vitória do candidato de esquerda Leonel Brizola. As eleições só foram ganhas por Brizola, no "peito e na raça", após um embate jurídico.

Outro episódio fartamente documentado e pouco divulgado é o famoso debate Collor versus Lula em 1989. O famigerado debate não seria transmitido ao vivo e fora editado pela Globo de forma que fossem levados ao ar só os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Em consequência, Collor, o candidato das elites, venceu Lula no segundo turno, tornando-se o primeiro presidente do Brasil eleito pelo voto direto após 21 anos de ditadura.

É oportuno lembrar que uma verdadeira aula sobre a podridão que sempre permeou a história da rede Globo, desde sua fundação, é o excelente documentário Muito Além do Cidadão kane, produzido por Simon Hartog em 1993. Vale ressaltar que este documentário não é encontrado em nenhuma locadora e sua divulgação corre pela internet de forma não oficial ou em um ou outro site de e-comerce, já que fora censurado pela Globo.

Quanto às acusações da Globo contra a Record e vice-versa, acredito que são todas verossímeis. Contudo um detalhe deve ser levado em consideração nessa história toda. Enquanto a Record tem contra sí somente os bastidores do processo de ter ascendido - e estar ascendendo - graças às doações dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, a qual pratica o que chamo de "evangelho da prosperidade"- espécie de lavagem cerebral que induz os fiéis a acreditarem que suas ofertas vão lhes resolver toda espécie de problemas, dos financeiros aos sentimentais - , a Globo apresenta em seu processo de formação toda sorte de ilicitudes e também toda uma história de jornalismo a serviço dos interesses da burguesia tupiniquim, inclusive bons serviços prestados à ditadura militar, que lhe fora mecenas. Atualmente a Globo encabeça uma campanha para que o governador paulista, José Serra, vença as eleições para presidente em 2010. Em outras palavras afirmo que a Globo tem contra sí seu processo de formação e seu jornalismo tendencioso. Já contra a Record só pesam os bastidores de seu estrondoso crescimento, claramente financiado pelas doações de fiéis da Igreja Universal, apesar de o jornalismo da Record ser hoje, na minha opinião, o mais isento e o de maior qualidade da TV aberta.

Eduardo Guimarães, no excelente Cidadania.com, apresenta a questão da seguinte forma: "O mais importante, para mim, foram as acusações de partidarismo global em prol de Serra (a foto dele apareceu sob locução que aludiu aos favorecidos pela emissora carioca contra Lula). Pela primeira vez, foi dito claramente que a Globo trabalha para o tucano. A porcaria foi jogada no ventilador. E atingiu as duas emissoras que a arremessaram, porque ambas estão cobertas de razão no que dizem uma sobre a outra. E quem ganha com essa “razão” delas somos todos nós, incluindo os fãs de cada uma" (clique aqui para ler o artigo do Eduardo na íntegra).

Nessa briga de cachorro grande, conforme salientam as lúcidas palavras do Eduardo Guimarães no artigo acima, quem vai sair ganhando são os telespectadores de ambas as emissoras. Contudo acho que esta peleja está mais para a Record, que tem a seu lado uma "igreja" que arrasta uma multidão que pode ser mobilizada para servir de tropa de choque a seu favor.

Abaixo reproduzo o vídeo da reportagem da Record. Imperdível!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O INCERTO FAVOR DOS GRANDES

Por Mino Carta

Pergunto aos meus botões se não seria o caso de Fernando Collor, o senador ex-presidente da República, reconsiderar suas apreciações negativas a respeito da mídia nativa. Advogado da causa de um colega da nossa Câmara dos Lordes, também ex-primeiro mandatário, o nunca assaz falado José Sarney de quem já foi desafeto, tem razões contingentes para suas atuais manifestações.

Não lhe caberia recordar, contudo, que a mídia nativa tanto se empenhou para guindá-lo ao trono vinte anos atrás? E quem cunhou, então, a definição “caçador de marajás”? A revista Veja, algo assim como a vanguarda de um sistema de comunicações que chegaria ao clímax com a manipulação do debate final entre Collor e Lula no estúdio global pelas mãos sagradas do nosso colega Roberto Marinho, hoje nome de um conjunto viá-rio de São Paulo batizado pela ex-prefeita Marta Suplicy, petista da gema.

À época, a mídia foi muito além de generosa com Fernando Collor. Ou, diria ele, justa? Haverá quem se apresse a lembrar que em 1992 o abandonaria ao seu destino em nome de mazelas inomináveis. Aí a rapaziada excitada pela emissora do doutor Roberto sairia às ruas de cara pintada para exigir o impeachment. Assim se escreve a história do Brasil, pobre Brasil e fajuta história.

Se houver marajás, sabemos perfeitamente onde encontrá-los. São sultões, emires, xeques. A raia miúda, dos serviçais, está em outro nível, muito distante. Mas é nesta que mira a mídia, nunca seus patrões. Já os meus botões são dados a citações em latim, e soletram repetita juvant, as repetições ajudam.

Em novembro de 1990, sete meses depois da posse de Fernando Collor, a IstoÉ que eu então dirigia publicou uma vasta reportagem de capa assinada pelo redator-chefe Bob Fernandes, sobre as aventuras de PC Farias, o Richelieu do presidente. Bob passara dois meses na tocaia do cardeal, e alinhavava em várias páginas tudo aquilo, absolutamente tudo, que um ano e meio após o irmão de Collor, Pedro, diria em entrevista à Veja.

Os leitores não padecerão de espantos agudos ao saber, se já não imaginam, que ninguém repercutiu a reportagem de IstoÉ, bem ao contrário do que se deu com a entrevista de Pedro Collor. Insisto, um ano e meio depois. A única novidade ali eram os supositórios de cocaína. Na opinião dos graúdos, é evidente, em fins de 1990 o caçador de marajás ainda não passara da conta.

Recordemos, entretanto, que, a despeito do irmão recalcado e loquaz, a mídia se conformava, na proximidade do segundo semestre de 1992, com o definitivo enterro do episódio. Pedro não tinha provas e a CPI montada a partir das suas denúncias não conseguira encontrá-las. Em compensação, a sucursal de Brasília de IstoÉ, chefiada por João Santana, havia localizado o motorista Eriberto França e os documentos que provavam a ligação entre a Casa da Dinda e PC Farias.

Santana e eu entrevistamos Collor no Planalto em uma manhã de fim de junho. Sabíamos o que o esperava, levamos a situa-ção como se não soubéssemos. Pois é, jornalistas às vezes são inconfiáveis. Deu-se, porém, que no sábado seguinte, quando IstoÉ foi às bancas, tanto com a entrevista presidencial quanto com as provas apresentadas por Eriberto, a mídia foi forçada a ir atrás. Deu no que deu, como se diz.

Hoje Fernando Collor está ao lado de José Sarney e, portanto, de Lula. Coisas da realpolitik. Como de hábito a mídia nativa empenha-se até o último sangue contra o ex-metalúrgico que se tornou o presidente em todos os tempos mais popular do Brasil. Donde, contra quem ela aprovou e apoiou, em outras situações, de Sarney a Collor. A nossa mídia não pratica o jornalismo, porta-se de verdade como facção política. Patéticos são os seus donos e apaniguados – sabujos, jagunços, escravos – a afirmar terem independência, equidistância, pluralismo etc. etc.

A realpolitik obriga a alianças daninhas em um país de outra forma ingovernável, onde em lugar de partidos há clubes recrea-tivos voltados a interesses de casta. Mesmo assim, a mídia vende a ideia de que varões de Plutarco existem sim, sobretudo os dotados de asas inúteis, incompetentes para o voo. Talvez fosse da sua conveniência deter-se na observação do semblante hodierno do senador Arthur Virgílio.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O CALVÁRIO DE TITO

Por Cléber Sérgio de Seixas

No dia 17 de fevereiro de 1970, em plena vigência dos assim chamados “anos de chumbo”, militares se dirigiram ao presídio Tiradentes, na capital paulista, em busca de um prisioneiro político. Logo na abordagem, o capitão Maurício, se dirigindo ao prisioneiro em questão, afirmou o seguinte: “Você agora vai conhecer a sucursal do inferno.” A cena do prisioneiro sendo levado em direção ao veículo que o transportaria era assistida por um grupo de presos que gritava palavras como “assassinos, assassinos!” ou “firme, companheiro!”. A afirmação do militar do exército não era mera retórica. A filial do inferno a que se referia o capitão era nada menos que a sede da temida OBAN (Operação Bandeirantes), a mais notória casa de torturas e assassinatos da ditadura militar que se instalou no Brasil a partir de 1964.

Na sede da OBAN o prisioneiro, que já havia sido barbaramente torturado pelos agentes do DEOPS, chefiados pelo famigerado delegado Sérgio Paranhos Fleury, seria supliciado das formas mais atrozes possíveis. O nome do prisioneiro era Tito de Alencar Lima, frade dominicano mais conhecido como Frei Tito.

Tito nasceu em Fortaleza, Ceará, em 14 de setembro de 1945. Era o caçula entre onze irmãos. Ingressou na JEC (Juventude Estudantil Católica), tendo se tornado dirigente da regional Maranhão-Bahia desta organização em 1963. Em 1964, participa de manifestações em repúdio ao golpe militar. Em 1966, ingressa na ordem dos dominicanos. Em 1968, obtém para a UNE um sítio na cidade paulista de Ibiúna para que aquela entidade estudantil pudesse fazer seu 30º Congresso. É preso durante este evento junto com aproximadamente novecentos outros estudantes, mas é liberado logo em seguida. Na madrugada de 3 para 4 de novembro de 1969 é preso pelo delegado Fleury no convento dos dominicanos da Rua Caiubi, 126. Nas dependências do DEOPS, o próprio Fleury o torturou com choques, palmatória e pancadas. Três meses depois retornaria ao suplício nas dependências da OBAN.

Estudantes presos em 1968, durante o 30º Congresso da UNE

No livro Batismo de Sangue, Frei Betto relata as indizíveis sevícias a que foi submetido Frei Tito nas dependências da Operação Bandeirantes. Eis alguns trechos: “Ao chegar à Oban, fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiram para que eu ‘confessasse’. Pouco depois, levaram-me para o pau-de-arara. Dependurado, nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício (...) Ao sair da sala, tinha o corpo marcado por hematomas, o rosto inchado, a cabeça pesada e dolorida (...) Um soldado carregou-me até a cela 3 (...) Era uma cela de 3x2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo (...) Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios (...) Sentaram-me na cadeira do dragão, com chapas metálicas e fios, descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça (...) Da sessão de choques passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas (...) Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala (...) Voltaram às perguntas, bateriam em minhas mãos com palmatórias. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não poder fechá-las. Novas pauladas (...) Isso durou até as dez da manhã, quando chegou o capitão Albernaz. ’Nosso assunto agora é especial’, disse o capitão Albernaz, ligando os fios em meus membros (...) recebi uma descarga tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas (...) levei choques durante quarenta minutos. (...) Diante de minhas negativas, aplicaram-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. Revestidos de paramentos litúrgicos, os policiais fizeram-me abrir a boca ‘para receber a hóstia sagrada’. Introduziram um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritavam difamações contra a Igreja, e berravam que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas, encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela, e fiquei estirado no chão”.
Em dezembro de 1970, integrantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) seqüestram, no Rio de Janeiro, o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher. Em troca do embaixador, o grupo exigia a libertação de setenta prisioneiros políticos. Dentre eles figurava o nome de Frei Tito. Em 1971, libertado e banido, sai do Brasil, passa por Santiago, no Chile, Roma e, em Paris, é acolhido no convento Saint Jacques.

Mesmo a milhares de quilômetros distante do Brasil, Frei Tito era atormentado pelos fantasmas de seus torturadores e do delegado Fleury. Os suplícios que sofrera, tanto físicos quanto morais, introjetaram nele a figura daqueles que o torturaram. Tito via Fleury dentro de carros, atrás de árvores, escondido dentro do seu quarto e em tantos outros lugares. Em junho de 1973, em busca de um lugar mais tranqüilo para viver e estudar, transfere-se para o convento de Eveux, na cidade francesa de Lyon. Em 10 de agosto de 1974 o corpo de Tito é encontrado dependurado em uma corda amarrada a uma árvore nos arredores do convento de Lyon. O suicídio talvez fora a forma que Tito encontrou de calar as vozes dos algozes que falavam em seu interior.

Sobre os fantasmas que rondavam a mente de Tito, e o teriam levado a um fim trágico, o livro Batismo de Sangue registra o seguinte: “De modo exemplar, Frei Tito encarnou todos os horrores do regime militar brasileiro. Este é, para sempre, um cadáver insepulto. Seu testemunho sobreviverá à noite que nos abate, aos tempos que nos obrigam a sonhar, à historiografia oficial que insiste em ignorá-lo. Permanecerá como símbolo das atrocidades infindáveis do poder ilimitado, prepotente, arbitrário. Ficará, sobretudo, como exemplo a todos que resistem à opressão, lutam por justiça e liberdade, aprendendo, na difícil escola da esperança, que é preferível ‘morrer do que perder a vida’ (...) Dentro dele alojaram-se torturadores, cujas vozes infernais ecoavam pela boca da legião de fantasmas. Sua consciência derreteu-se sob a pressão do delírio que, emergindo dos corredores profundos do inconsciente, reboava terríveis ameaças. Sua interioridade foi devassada como o lar sem portas e janelas exposto à ventania que traz a tempestade, a neblina e, por fim , a noite implacável. (...) A morte foi seu último ato de coragem e protesto. (...) Ao morrer, Tito matou seus algozes e recuperou a paz duradoura que lhe haviam seqüestrado.”

A história de Frei Tito foi levada às telas no filme Batismo de Sangue, dirigido pelo cineasta Helvécio Ratton e baseado no livro homônimo de Frei Betto.

Nesses tempos por que passamos, 35 anos após a morte de Frei Tito, quando muitos tentam reescrever nosso passado recente, removendo dele os momentos vergonhosos nos quais nossas elites colaboraram com um regime de exceção, quando assassinos são convertidos em vitimas e vice-versa, quando neologismos são criados para encobrir o verdadeiro caráter assassino de um regime, tal qual a tentativa de rebatizar ditura para “ditabranda”, é oportuno lembrarmos e ecoarmos o exemplo de Frei Tito. Eduardo Galeano diz que a história é um profeta com o olhar voltado para trás, anunciando o que será pelo que é e pelo que foi. Assim sendo, é necessário que voltemos nosso olhar para os eventos que se foram - sobretudo aqueles relacionados ao período em que vivemos sob as botas de uma ditadura militar –, de forma a exorcizar nossos fantasmas, questionar paradigmas ultrapassados, rever conceitos errôneos, desenraizando-os, de forma que o futuro seja menos nebuloso para o sofrido povo desta imensa e sofrida nação chamada Brasil.

sábado, 8 de agosto de 2009

PROJETO FICHA LIMPA

Reportagem de Alessandra Mello

Minas Gerais é o estado recordista na coleta de assinaturas para o projeto de lei de iniciativa popular que barra a candidatura de políticos condenados ou que respondem a processos criminais ou de improbidade administrativa. Batizado de Ficha limpa, o projeto já conseguiu a adesão de 1 milhão de pessoas, conforme antecipou o Estado de Minas na edição de 20 de julho, e tem agora até 7 de setembro para atingir a marca de 1,3 milhão de assinaturas, o que representa 1% do eleitorado brasileiro.

Esse é o número necessário para que a proposta comece a tramitar no Congresso Nacional e, caso seja aprovada, passe a valer para as eleições de 2010. Mais de 1% do eleitorado de Minas Gerais (14,07 milhões) já aderiu à campanha, que somente no estado já arrecadou 162.463 assinaturas. A adesão dos mineiros é maior do que a registrada em São Paulo, estado que tem o maior eleitorado do país (29,1 milhões), mas ocupa o terceiro lugar no ranking, atrás do Paraná, que também já ultrapassou a marca de 1% do eleitorado. O projeto precisa obter pelo menos 1% do eleitorado em três estados. O recordista até agora de coleta em relação ao número de eleitores é o Paraná, que já bateu a marca de 2,1%. Esse índice está próximo de ser alcançado pelo Distrito Federal , onde o projeto já conta com o apoio de 1,9% do eleitorado.

O projeto Ficha limpa pretende alterar a Lei complementar n.º 67/90, a chamada Lei de Inelegibilidades, para impedir a candidatura de condenados a partir da 1ª instância ou, no caso de quem possui foro privilegiado, que tenham processos em andamento ou ainda que tenham renunciado para fugir de cassações. Caso seja aprovada a proposta, cerca de um terço do Congresso Nacional estará impedido de concorrer.

Reta final Ontem, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), uma das entidades que coordena a campanha de arrecadação, realizou em parceria com a Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), um ato público na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) para lançar a campanha 300 em 30. O objetivo é arrecadar as assinaturas restantes dentro de 30 dias e quem sabe ultrapassar essa marca para dar mais força para a tramitação da proposta.

A campanha Ficha limpa foi lançada em abril do ano passado durante a Assembleia Geral da CNBB, nos moldes da mobilização ocorrida em 1990 para a aprovação da Lei 9.840, a primeira de iniciativa popular do país, que determina a cassação dos candidatos acusados de compra de votos e uso eleitoral da máquina administrativa. Até hoje cerca de 700 políticos já perderam os cargos com base nessa lei, de acordo com o último levantamento feito pelo MCCE, com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de março deste ano. Para obter cópia da ficha de coleta do abaixo-assinado da campanha basta acessar o site do MCCE (www.mcce.org.br) e imprimir o documento. Todos os eleitores podem participar. Para isso, precisam apenas assinar e registrar o número do título de eleitor no documento.


Entenda o projeto Ficha Limpa

O que é?
O projeto é uma campanha desenvolvida por diversas entidades, entre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, para recolher assinaturas para encaminhar ao Congresso Nacional um projeto de lei de iniciativa popular para impedir que candidatos condenados em primeira instância disputem as eleições antes que os processos sejam julgados em todas as instâncias.

O que ele pretende?
Altera a Lei Complementar 64, de 18 de maio de 1990, que estabelece, de acordo com a Constituição Federal, casos de inelegibilidade, prazos de cassação e determina outras providências, para incluir hipóteses de inelegibilidade que visam proteger a probidade administrativa e a moralidade no exercício do mandato.

Quem será impedido de disputar?
n Pela proposta serão impedidos de se candidatar todos os que forem condenados em primeira instância e, no caso de quem tem foro privilegiado, todos os que tiverem denúncia recebida nos tribunais pelos crimes contra a fé pública ou a economia popular, tráfico de entorpecentes e drogas e crimes dolosos.

Como será a tramitação?
Para que esse projeto comece a tramitar no Congresso são necessárias pelo menos 1,3 milhão de assinaturas. Para assinar a lista é preciso ter título de eleitor. O prazo estipulado para o recolhimento das assinaturas termina em setembro. As fichas para coleta de assinaturas podem ser impressas via internet e entregues em qualquer paróquia de Belo Horizonte ou do interior do estado ou na Ordem dos Advogados do Brasil.

Para obter mais informações ou imprimir cópia das fichas de coleta de assinatura basta acessar os seguintes endereços:
www.mcce.org.br
www.oab.org.br

Fonte: Jornal Estado de Minas - 08 de agosto de 2009

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

VOCAÇÃO OU IMPOSIÇÃO DO MERCADO?

Por Cléber Sérgio de Seixas

Há alguns meses abandonei a faculdade de Economia, área pela qual tenho um certo interesse - sobretudo por Macroeconomia e Economia Política -, porém não o suficiente para me entusiasmar a atuar como economista, cercado de estatísticas e cifras, mas distante do que mais me atrai: o contato com questões sociais. Cheguei a cursar meio semestre e tal escolha não foi fácil para mim, já que redundou na perda da bolsa do PROUNI, com a qual eu dispunha de um desconto de 50% na mensalidade. Confesso que meu sonho é ser sociólogo, porém, é lugar-comum que o mercado para o profissional de sociologia é muito restrito. Assim sendo, por enquanto, optei por outra carreira que, acredito, me dará condições de inserção no mercado de trabalho e ao mesmo tempo me trará mais satisfação pessoal. Inicio o curso de Serviço Social neste semestre, é o mais próximo que consigo chegar da Sociologia.

Trabalho com informática há cerca de dez anos. Já fui office boy, auxiliar de serviços gerais, auxiliar de escritório, auxiliar de almoxarifado, técnico em eletrônica, técnico em processamento de dados, técnico de suporte e atualmente exerço a função de tutor de cursos à distância. A empresa onde trabalho desenvolve softwares para o segmento acadêmico, ou seja, para gestão e controle de faculdades, escolas, cursos livres e afins. Para que os clientes possam utilizar de forma produtiva os softwares oferecidos pela empresa, há a necessidade de treinamento. Os treinamentos se dão da forma presencial e à distância (via internet). É aí que eu entro desempenhando a função de tutor nos cursos à distância, ou seja, acompanhando os alunos no decorrer do curso, corrigindo-lhes as tarefas, incentivando a participação nos fóruns, preparando os ambientes para os cursos etc. Seguindo esta lógica, o convencional seria eu optar por uma carreira ligada às atividades que atualmente desempenho - quem sabe fazendo um curso de Comunicação Social, Pedagogia, Letras etc. Mas se tal fosse a decisão, onde ficaria minha vocação?

Cinco anos após terminar meu segundo-grau, optei por fazer um curso técnico em eletrônica. Hoje reconheço que foi um passo errado, visto que entrei num mercado saturado, no qual os salários não são lá grande coisa e, o que é pior, reneguei minha vocação, que sempre foi mais voltada para as ciências humanas. Acabei caindo no segmento de informática no qual permaneço até hoje.

Talvez quem acompanha este blog há mais tempo não esteja entendendo onde quero chegar com este post no qual abordo minhas frustrações profissionais. Na verdade o ponto nevrálgico da questão é o equilíbrio que, acredito, deve haver entre a vocação e o mercado de trabalho, e que deve ser levado em conta na escolha de uma profissão.

Todo jovem ao terminar o ensino médio se vê diante de múltiplas possibilidades no que tange à escolha da carreira. Indagações surgem aos milhares tais como: “o que é melhor, um curso técnico ou uma faculdade?”. “O que deve ser levado em conta na escolha de uma determinada profissão, o mercado ou as habilidades e vocações?”. O dilema envolve quaisquer jovens, carentes ou não. Contudo, jovens carentes não têm o privilégio de que dispõem aqueles de famílias mais abastadas, qual seja, o direito de errar na escolha profissional. Explico: se um jovem pobre optar por determinado curso em faculdade particular e daqui a 2 anos se arrepender da escolha, terá deixado para trás várias mensalidades já pagas com muito sacrifício, ao passo que um jovem bem nascido sempre terá à sua retaguarda o “paitrocínio”, sempre pronto a dar-lhe suporte nas horas difíceis. Trocando em miúdos, serão muito mais drásticas as conseqüências de uma escolha errada para um estudante pobre do que para um rico. Em suma, o pobre tem menos tempo, dinheiro e direito de errar.

Pensando nas consequências de erros na escolha da carreira, acredito que devem pesar mais na hora de optar por determinado curso/profissão, o dom e a vocação, não as tendências de um mercado em constante mutação. Se o mercado for o norte das decisões profissionais em detrimento da vocação, pode ocorrer, por exemplo, que alguém já estabelecido numa profissão não se sinta mais realizado no que faz e conclua tarde demais que não era aquela a função que queria exercer e nem era aquele o salário que queria ganhar. Assim, foram perdidos tempo e dinheiro e deixados para trás satisfação e realização profissional.

Acredito que uma pessoa que gosta do que faz, mesmo não sendo bem remunerada, estará mais realizada profissionalmente. Abordando a temática de outra forma, alguém que se realize nas atividades que exerce tem maiores condições de se destacar no ofício, o que, automaticamente, redundará em melhores salários. Um indivíduo satisfeito com o que faz será feliz, produtivo e terá maiores condições de ser um dos melhores no que realiza, trazendo benefícios para si, para a empresa onde trabalha e para o meio social onde está inserido. Por outro lado, um profissional insatisfeito não será produtivo, não levará a cabo suas atividades a contento, viverá a reclamar do que faz, irradiando sua insatisfação para os que estão a sua volta. Voltará para casa frustrado, apoiará a cabeça no travesseiro e remoerá os erros do passado. Ruim para si e para os outros. Infelizmente, na atual conjuntura sócio-econômica do Brasil, poucos são os que fazem o que realmente gostam. Quantos talentos o país e as empresas perdem por não haver oportunidades de colocação das pessoas certas nos lugares certos, ou seja, nas funções que elas nasceram para desempenhar?

Gosto de ilustrar a questão da seguinte forma: um macaco pode ser ensinado a nadar, mergulhar, enfim, a ser hábil no meio aquático. Contudo um macaco nunca nadará ou mergulhará tão naturalmente quanto um peixe ou mamífero aquático. O macaco nasceu para se aventurar por entre as árvores, para se dependurar e balouçar de galho em galho, pois este é seu dom, é para isto que ele nasceu. Talvez seja por isso que criaram o adágio “cada macaco no seu galho”. Deixando de lado os trocadilhos, eu, apesar de não ser espírita, creio que cada indivíduo veio a esta terra com uma missão. Cada um tem, no mínimo, um dom, que é seu talento. Os evangelhos bíblicos nos apresentam a parábola dos talentos. Houve um servo que recebeu de seu senhor um talento (moeda) e o enterrou, ou seja, não o multiplicou. No mundo do trabalho não multiplicar o talento equivale a tomar a decisão errada na hora de escolher uma profissão, corresponde a ser improdutivo na atividade que exerce – ser improdutivo é também permanecer estagnado, numa condição em que o profissional sempre vem a reboque dos ditames do patrão. Estagnar-se é tornar-se reativo, numa época em que é pré-requisito curricular a proatividade.

Num tempo em que abrir faculdades é negócio extremamente lucrativo, muitos jovens estão perdidos em suas escolhas acadêmicas, mais interessados na obtenção de um “canudo” do em angariar conhecimentos necessários ao exercício de uma determinada atividade. Tornam-se, assim, presas fáceis de escolas de baixo nível. Algumas profissões estão saturadas no mercado, mas a pergunta que deve ser feita é a seguinte: o mercado está saturado de bons profissionais?

Infelizmente os testes vocacionais pouco ajudam na orientação das escolhas profissionais, haja visto que eles, em sua maioria, analisam a inteligência dos jovens apenas no que tange às habilidades lingüísticas e lógico-matemáticas. Testes de QI, por exemplo, costumam levar em conta somente as duas habilidades supracitadas. Melhor seria – porém não sei se já existe tal método – testar a vocação com base em testes que levassem em consideração as múltiplas inteligências, conforme as teorias de Howard Gardner. Portanto, considerando o que foi dito até agora neste artigo, na escolha de uma profissão devem ser dosados paixão e pé no chão, contrabalançados idealismo e pragmatismo, levados em conta vocação e tendências do mercado de trabalho, sendo que paixão e vocação devem vir sempre em primeiro lugar.