segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Da democracia delegativa à participativa - 2ª parte

Um dos vários comícios da campanha Diretas Já

Por Cléber Sérgio de Seixas

Considerando a realidade brasileira e levando em conta a crise de representatividade que permeia o cenário político-eleitoral de nosso país, é razoável intuir que é necessário avançar mais passos rumo a outro tipo de democracia: a participativa. Contudo, antes da busca por um novo tipo de democracia deve-se perguntar se as ferramentas para trazê-la à realidade existem ou não. Nas últimas duas décadas ocorreu a ampliação da democracia, tanto em países europeis quanto em nações latino-americanas. Se a cidadania deita suas raízes na Grécia antiga, tal qual a democracia, conclui-se que a cidadania passou por várias mudanças antes de chegar ao que é hoje e é possível que passará por tantas outras transformações no decorrer dos anos.

A atuação dos cidadãos se faz premente, exigindo o aprofundamento do debate acerca da participação dos mesmos nos assuntos de interesse coletivo, o que abre espaço para a atuação dos movimentos sociais, cada qual com sua vertente. Sob a batuta dos movimentos sociais a democracia participativa ganha um novo significado. Apesar da diversidade das bandeiras de cada movimento, as demandas de cada um podem ser assimiladas pela sociedade civil. Com a ampliação da cidadania, princípios até então relegados a segundo plano, tais como comunidade, solidariedade e igualdade são revalorizados e reeditados, passando a sociedade civil a protagonizar iniciativas até então circunscritas ao poder público.

Com base nessas considerações pode-se concluir que há uma clara redefinição tanto no conceito de democracia participativa quanto no de cidadania. Se antes a cidadania contentava-se com o sufrágio universal, hoje este não é mais suficiente, pois as demandas sociais se avolumaram e a ânsia por participação nas decisões é bem mais abrangente do que nos últimos quarenta anos. Nesse cenário, os movimentos sociais entram em cena como porta-vozes das demandas dos setores que representam e como canais por onde fluem de forma mais organizada os anseios de uma sociedade civil cada vez mais ávida de meios que lhe concedam voz e vez. Assim sendo, esses movimentos são de suma importância para que se avance do atual estágio de democracia representativa para um estágio superior que se identifique com a democracia participativa.

É inegável que no Brasil atual vivemos tempos de relativa democracia – recém saídos que estamos de 21 anos de ditadura militar. Contudo, é necessário galgar mais degraus buscando um patamar superior em que os atores sociais anteriormente relegados às margens das decisões sejam ouvidos e tenham suas demandas sócio-políticas consideradas, analisadas, levadas ao trâmite jurídico e legislativo e, se possível, aprovadas. A isto chamamos democracia participativa ou deliberativa, etapa superior da democracia delegativa, que se esgota no voto. Assim sendo, é necessário estar em sintonia com as demandas dos movimentos sociais e, se possível, se articular com os mesmos em prol do desenvolvimento da cidadania e da democracia.


Ler também: Da democracia delegativa à participativa - 1ª parte

José Serra e seu descompasso com o mundo


Por Idelber Avelar

As declarações feitas por José Serra sobre política externa ao longo da campanha impressionam por sua irresponsabilidade, truculência, ignorância, xenofobia, belicismo, leviandade, provincianismo, estreiteza de visão e isolacionismo. Postas em prática como política de Estado, seriam receita certa para que o Brasil jogasse no lixo boa parte do prestígio internacional que acumulou durante os últimos anos. Com levianas referências ao Irã, aos vizinhos-irmãos do Mercosul e à vizinha-irmã Bolívia, o Sr. José Serra demonstrou seu total despreparo para suceder o presidente Lula como porta-voz do Brasil no mundo. As recentes acusações ao PT, de manter “relações” com as Farc, mostram que o candidato do PSDB optou por tentar mobilizar o ódio como cabo eleitoral. Não costuma dar certo.

Na RBS, no dia 6 de maio, em meio a uma das vitórias mais expressivas da história da diplomacia brasileira, José Serra saiu-se com a pérola de que “Eu não receberia nem visitaria o presidente Ahmadinejad. Mas manteria com o Irã relações normais, comerciais”. O gênio José Serra quer inventar jabuticaba jamais vista na história da diplomacia: relações “normais” nas quais um dos lados se permite estabelecer de antemão que não recebe nem visita o outro. Com que autoridade ele vem dizer que não recebe nem visita um chefe de nação importante, reconhecido como legítimo por toda a comunidade internacional? Será pura tentativa de mobilizar o ódio e a xenofobia para dividendos eleitorais, esse alinhamento com uma posição que só o estado de Israel e as piores forças políticas dos EUA continuam mantendo? Se ainda restasse a Serra um mínimo de humildade e disposição de ouvir e aprender – coisa que não tem faltado ao presidente Lula –, ele teria se lembrado de que há mais história em um milímetro cúbico de cultura persa que em toda a pobre coalizão que o sustenta, formada pelo rancor de uma pequena parcela da classe média brasileira, algumas oligarquias anacrônicas e o intelectualmente indigente e eticamente enlameado pseudo-jornalismo das Globos, Vejas e Folhas.

O Brasil é um país jovem, de importância crescente, e os melhores momentos de sua excepcional diplomacia se deveram sempre à opção por paz, autodeterminação dos povos e disposição ao diálogo. E vem esse senhor dizer que não conversa com o chefe político da milenar civilização persa? Com que direito? O presidente brasileiro recebe e visita até mesmo o chefe do estado israelense, que mantém há 43 anos a mais longa e brutal ocupação militar estrangeira da era moderna, marcada por violações a dezenas de resoluções da ONU. E José Serra quer ganhar votinhos às custas da demonização do presidente do Irã, país que nunca invadiu ninguém e onde o Brasil é visto como nação amiga?

Os insultos aos países vizinhos são, a curto prazo, de consequências ainda mais graves. Em declaração à FIEMG, José Serra qualificou o Mercosul como uma “farsa”, para depois tentar consertar o desastre dizendo que era necessário “flexibilizá-lo”. O candidato ainda não explicou como se procede para flexibilizar uma farsa, mas é nítida sua hostilidade aos pilares da integração política pacífica da América do Sul. Exímia desmontagem dessa verdadeira farsa que é a sequência de declarações de Serra sobre o Mercosul já foi feita por Martín Granovsky, analista internacional argentino, com fatos, números e argumentos (em texto disponível também em português, em tradução de Katarina Peixoto, para a Agência Carta Maior). Com elegância, Granovsky lembra a José Serra o óbvio: “a chave da estabilidade sul-americana é a sólida relação entre a Argentina e o Brasil”; com as políticas de integração do Mercosul, ambos cresceram e fizeram a pobreza diminuir, sendo pouco afetados pela crise que vem devastando países como a Grécia, a quem se impõe agora o mesmo “remédio” do FMI, de tão nítida lembrança para brasileiros e argentinos que viveram sob FHC e Menem. Na América Latina, quem mais sofreu a crise recente foi o México, justamente o país que optou por não diversificar seu comércio exterior e atrelar-se aos EUA.

A acusação de José Serra ao governo boliviano, de cumplicidade com o tráfico de cocaína, é episódio gravíssimo, sobre o qual o governador deve desculpas e/ou explicações. A declaração é desprovida de qualquer tipo de provas, aposta na confusão ignorante entre folha de coca e cocaína, e estimula a xenofobia e o racismo. Seja qual for a política que você defenda para as drogas ou seu grau de apoio à integração e à colaboração sul-americanas, a acusação feita por José Serra é um desastre de relações internacionais. Estudando um pouquinho de história da Bolívia, o senhor Serra teria uma dimensão do ineditismo que é a existência de um governo democrático estável, que combina crescimento e redução da desigualdade no país.

O mais recente episódio foi a desastrada acusação de seu vice, Índio da Costa (DEM), ao PT, segundo a qual o partido estaria “ligado” às Farc e ao narcotráfico. Tentando depois corrigir o desastre, José Serra limitou a acusação à suposta relação do PT com as Farc, salientando que estas, sim, traficam drogas. O fato mais óbvio sobre o conflito colombiano é que o dinheiro da droga financia todos os atores políticos, incluídos os paramilitares e setores do próprio aparato estatal. Até mesmo setores da direita latino-americana reconhecem que não há solução possível para o conflito colombiano sem que todos os atores políticos se sentem à mesa de negociações. Com José Serra no comando do país, poderíamos renunciar a qualquer protagonismo brasileiro na resolução do problema. Podemos, inclusive, esperar que a posição brasileira seja a de piorar ainda mais a situação de conflito. Seria uma ruptura com as melhores tradições da nossa diplomacia.

José Serra tem todo o direito de defender a política externa que seu partido executou nos anos 90, de alinhamento automático e subordinado com os Estados Unidos. Que ele tenha a coragem de colocá-la ao veredito do eleitorado brasileiro. Mas que tenha um mínimo de responsabilidade. Nossa condição de país pacificamente integrado com seus vizinhos, solidário com seu crescimento, e bem quisto nos quatro cantos do mundo é um tesouro por demais precioso para que se brinque com ele em nome de um mero, e passageiro, desespero eleitoral.


Fonte: Revista Fórum - edição 89

sábado, 28 de agosto de 2010

Da democracia delegativa à participativa - 1ª parte

A democracia ateniense excluia mulheres, escravos e estrangeiros

Por Cléber Sérgio de Seixas

Não se pode dissociar o conceito de democracia do de cidadania, pois ambos estão intrinsecamente ligados na medida em que o conceito cidadania admite ser entendido como o exercício pleno da democracia. A indagação que deve ser feita é a seguinte: de que forma pode ser experienciada plenamente a democracia e, conseqüentemente, exercida a cidadania? Ou então: que tipo de democracia existe no Brasil? Temos aqui uma democracia meramente delegativa ou, o que é melhor, uma democracia participativa, deliberativa? Democracia se resume ao sufrágio direto?

O conceito de democracia remonta à Grécia antiga, em cujo solo é lugar-comum considerar que floresceram as primeiras experiências democráticas. Se a Grécia é considerada o berço da democracia, então lá se deve buscar as origens etimológicas do vocábulo. Em sua obra A Mosca Azul, Frei Betto apresenta a origem etimológica do termo: "O substantivo foi-nos legado por uma obra de arte - a peça Suplicantes, de Ésquilo, encenada por volta de 468 a.C. A população de Argos - a 'demo' - decide conceder asilo ('kratos', o poder de decidir) às Danaides, que haviam assassinado seus maridos na noite de núpcias. Ali, pela primeira vez, os dois termos apareceram unidos. Já no fim do século V a.C., o vocábulo definia o regime ateniense". Portanto, democracia pode ser definida como um regime de governo onde o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos, ou seja, com o povo, de forma direta ou indireta, por meio de representantes eleitos.

Já o sentido de cidadania está diretamente ligado ao conceito de cidadão. É difícil datar com precisão o surgimento do termo de cidadania, no entanto, sabe-se que seu significado clássico se liga à participação política. O vocábulo ‘político’ remete à idéia de pólis (cidade-estado da Grécia Antiga). Já o vocábulo 'cidadania' (do latim civitas, cidade) está atrelado à noção de direitos políticos, que permitem ao indivíduo participar das decisões do Estado, intervindo de forma direta ou indireta. Porém, a noção de cidadania também pressupõe deveres, já que os direitos de um indivíduo só serão possíveis caso os demais cumpram seus deveres. O exercício da cidadania, portanto, está ancorado tanto na busca dos direitos civis quanto na submissão às regras tidas como aceitáveis numa determinada sociedade. Para ilustrar, cidadania tanto é votar consciente, quanto é colaborar com a coleta seletiva de lixo ou ceder o assento aos mais velhos no transporte coletivo.

Alguns autores têm posições divergentes com respeito ao exercício da cidadania na democracia. Considerando o voto como uma forma de exercício da cidadania na democracia, pode-se afirmar que a maior característica desta é o poder que as pessoas têm de decidir no processo eleitoral. Assim, pode ser dito que a democracia no conceito atual se resume à oportunidade que é apresentada ao povo de escolher, via sufrágio, aqueles que o governarão. Em outras palavras, a democracia que conhecemos se esgota no processo eleitoral, ou seja, o processo eleitoral não é apenas um meio para se atingir a democracia, mas é um resumo da própria democracia.

Em sua obra O Estado e a Revolução, Lênin apresenta a questão da seguinte forma: "Decidir periodicamente, para um certo número de anos, qual o membro da classe dominante que há de oprimir e esmagar o povo no parlamento, eis a própria essência do parlamentarismo burguês, não somente nas monarquias parlamentares constitucionais, como também nas repúblicas mais democráticas". De fato, no modelo de democracia representativa há reiterados casos de indivíduos que passam por um processo eleitoral e, após eleitos, dão as costas aos interesses de seus eleitores, em nome de quem foram alçados à categoria de representantes da sociedade.

Assim sendo, pode-se intuir que a democracia se resume ao processo eleitoral via sufrágio universal, se confundindo com o mesmo. Pode-se também ousar dizer que o modelo de democracia representativa é insuficiente para as realidades políticas atuais, sobretudo no Brasil. A democracia representativa não tem mais condições de responder aos anseios de uma sociedade cada vez mais inserida no contexto da cidadania. Após cada eleição, poucos são os que se lembram em quem votaram, sobretudo se tratar-se de um candidato ao poder legislativo. Nesse contexto, os eleitores se identificam cada vez menos com aqueles que elegeram.


(continua em outro post)

Espiritualidade e política


Por João Paulo

Houve um tempo em que a Igreja Católica ocupava a ponta de lança da modernidade: preocupação social, busca de diálogo ampliado com todos, aliança estendida ao ecumenismo, participação no debate político, postura corajosa de enfrentamento às ameaças contra a liberdade. Era uma Igreja que queria a felicidade na Terra e, para isso, se esforçava em entender o pó de que somos feitos, em vez de ficar teorizando sobre o sopro que lhe deu vida. Esse movimento, hoje em baixa, mas nem por isso estancado, gerou o maior debate do catolicismo moderno, que deu no Vaticano II e em sua diretivas. Não se trata apenas da chamada Teologia da Libertação, mas de uma nuvem mais ampla de espiritualidade que envolvia a todos. Chovia esperança.

Hoje, a situação mudou muito. E para pior. Não se trata apenas da Igreja Católica, mas da mudança de clima pelo esvaziamento de sentido daquele sinal que vinha do céu. A religião encaretou, endireitou, perdeu potencial estético, epistemológico, filosófico e político. Curiosamente, essa sensação começa a dar sinais de descontentamento, com pessoas cada vez mais preocupadas com espiritulidade, mas sem paciência para dogmas e ritos. Homens e mulheres de boa vontade estão descobrindo que os valores do espírito não são necessariamente religiosos. Assim, cada vez mais, o sentimento de que o mundo está desviado dos valores não encaminha ninguém para a fé. Puseram Deus em má situação com a ciência e a moral. Um deus que nega a razão e cria obrigações inviáveis.

Esta semana, um debate com candidatos a presidente, realizado pelo canal de TV católico Canção Nova, mostrou como o divórcio da realidade pode chegar perto do incrível. Jornalistas da emissora, quando convocados a fazer perguntas aos políticos, defendiam, por exemplo, que a melhor campanha contra a Aids é a castidade. Não estão errados, mas devem estar loucos. Um dos mais brilhantes pensadores católicos do século 20, Gilbert Keith Chesterton (ele morreu em 1936), podia ser conservador, mas não era burro. Em seu livro Ortodoxia, afirmou que louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão. É claro que sem sexo não há doença sexualmente transmissível. Mas sem sexo não há humanidade. Só padres, monges e ascetas acham que reduzir a vitalidade do homem pode fazê-lo melhor. Quem não faz sexo não pode ser integralmente feliz. E Deus nos livre de um paraíso de tristes.

Chesterton era um escritor sensacional. Dono de estilo sublime, cheio de humor e paradoxo, conseguiu ser ao mesmo tempo conservador ao extremo e criativo, defendendo suas ideias antimodernas com graça. Ele gostava da palavra graça, que tinha ecos religiosos inequívocos e também apelo à gratuidade da existência. Chesterton era um dos autores mais queridos de Borges, que louvava nele a inteligência e a poesia. Além de obras de pensamento, o inglês foi polemista admirável, autor de biografias, poeta épico, ensaísta e autor de histórias policiais. Criou um dos mais interessantes personagens do mundo das novelas de crime, o padre Brown, dono de um bom senso que anda fazendo falta aos católicos de hoje.

Padre Brown solucionava crimes pelo conhecimento do coração humano. Sabia que o maior assassino e o santo mais dedicado são carne da mesma carne. Com isso, ele via o que ninguém parecia enxergar: o mal que habita a alma do bom e, ao mesmo tempo, a bondade inequívoca do facínora. Bonachão, resolvia seus enigmas com o apelo ao mistério: não há nada mais misterioso que os homens de verdade. Ele abria os olhos ao fantástico que perpassa os dias de todas as pessoas.

Chesterton é um exemplo de que é possível ser um escritor excelente mesmo quando discordamos dele. Se esforçou muito para nos convencer de sua verdade, que hoje parece pueril; mas acabou nos ganhando por sua arte. Ele não queria ser artista, mas um pedagogo dos novos tempos. Seu fracasso é ter dado certo como criador literário e espadachim de ideias, não como filósofo. Quem quiser conhecer um pouco de Chesterton pode ler O tempero da vida, reunião de ensaios recentemente traduzido no Brasil e editado pela Graphia. Lá não está o Chesterton autor policial nem teólogo, mas o cronista da vida e o literato dedicado em ler seus autores favoritos. É um livro gracioso.

Deixando Chesterton e seu bom senso de lado, outra onda que tem chamado a atenção no campo da busca da espiritualidade é a corrente herdeira de Chico Xavier, o espiritismo kardecista. No Brasil, misturado com um senso ingênuo de caridade, se tornou fé de eleição de milhões de pessoas. Sua doutrina, que combina solidariedade, catolicismo, assistencialismo e metempsicose, é complexa o suficiente para ficar restrita a seus seguidores, que apreciam, ainda, defender uma base científica que não se sustenta. Mesmo com todas as boas intenções, padece de visão estreita do jogo social e tem indigente visão política da realidade.

Recentemente, chegou às telas o filme dirigido por Daniel Filho sobre Chico Xavier, que popularizou a figura humana admirável. Ao mesmo tempo, deixou entrever, nos limites de uma fita superficial, que há uma tendência a ver na religiosidade espírita matriz da espiritualidade popular das pessoas simples. Outros filmes têm sido anunciados, sempre com a mesma visão caricatural de um pretenso universo além mundo. O espiritismo, o neopentecostalismo e catolicismo oficial da Igreja conservadora de Roma não são bons guias para o mundo de hoje. E, até prova em contrário, não existe outro.

A única saída honrada para a espiritualidade, hoje, é levar o mundo a sério, considerar as pessoas com respeito e não aduzir da fé e de seus dogmas normas que atentem contra a vida, a ciência e a dignidade. Qulaquer candidato sério deveria fazer o jornalista da Canção Nova engolir suas palavras. O papel da política deve ser defender a vida, não julgar o comportamento moral em questões de sexualidade. Como todos fugiram do enfrentamento, podemos concluir que se candidatam a governar um mundo de anjos.

Chesterton faz falta. Em O homem eterno ele foi capaz de se contrapor ao darwinismo e obrigar muito cientista a fazer seu dever de casa para convencer de suas certezas. As armas do inglês eram deste mundo: inteligência no conteúdo e beleza na forma. Nossos religiosos reacionários e políticos tíbios não têm nem uma coisa nem outra.


Fonte: jornal Estado de Minas - 28/08/2010.

Esfera pública x esfera mercantil

Com a palavra o emérito professor Sader

Por Emir Sader

O neoliberalismo é a realização máxima do capitalismo: transformar tudo em mercadoria. Foi assim que o capitalismo nasceu: transformando a força de trabalho (com o fim da escravidão) e as terras em mercadorias. Sua história foi a crescente mercantilização do mundo.

A crise de 1929 - de que o liberalismo foi unanimemente considerado o responsável - gerou contratendências, todas antineoliberais: o fascismo (com forte capitalismo de Estado), o modelo soviético (com eliminação da propriedade privada dos meios de produção) e o keynesianismo (com o Estado assumindo responsabilidades fundamentais na economia e nos direitos sociais).

O capitalismo viveu seu ciclo longo mais importante do segundo pós-guerra até os anos 70. Quando foi menos liberal, foi menos injusto. Vários países – europeus, mas também a Argentina – tiveram pleno emprego, os direitos sociais foram gradualmente estendidos no que se convencionou chamar de Estado de bem-estar-social.

Esgotado esse ciclo, o diagnóstico neoliberal triunfou, voltando de longo refluxo: dizia que o que tinha levado a economia à recessão era a excessiva regulamentação. O neoliberalismo se propôs a desregulamentar, isto é, a deixar circular livremente o capital. Privatizações, abertura de mercados, “flexibilização laboral” – tudo se resume a desregulamentações.

Promoveu-se o maior processo de mercantilização que a história conheceu. Zonas do mundo não atingidas ainda pela economia de mercado (como o ex-campo socialista e a China) e objetos de que ainda usávamos como exemplos de coisas com valor de uso e sem valor de troca (como a água, agora tornada mercadoria) – foram incorporadas à economia de mercado.

A hegemonia neoliberal se traduziu, no campo teórico, na imposição da polarização estatal/privado como o eixo das alternativas. Como se sabe, quem parte e reparte fica com a melhor parte – privado – e esconde o que lhe interessa abolir – a esfera pública. Porque o eixo real que preside o período neoliberal se articula em torno de outro eixo: esfera pública/esfera mercantil.

Porque a esfera do neoliberalismo não é a privada. A esfera privada é a esfera da vida individual, da família, das opções de cada um – clube de futebol, música, religião, casa, família, etc.. Quando se privatiza uma empresa, não se colocam as ações nas mãos dos indivíduos – os trabalhadores da empresa, por exemplo -, se jogam no mercado, para quem possa comprar. Se mercantiliza o que era um patrimônio público.

O ideal neoliberal é construir uma sociedade em que tudo se vende, tudo se compra, tudo sem preço. Ao estilo shopping center. Ou do modo de vida norteamericano, em que a ambição de todos seria ascender como consumidor, competindo no mercado, uns contra os outros.

O neoliberalismo mercantilizou e concentrou renda, excluiu de direitos a milhões de pessoas – a começar os trabalhadores, a maioria dos quais deixou de ter carteira de trabalho, de ser cidadão, sujeito de direitos -, promoveu a educação privada em detrimento da publica, a saúde privada em detrimento da pública, a imprensa privada em detrimento da pública.

O próprio Estado se deixou mercantilizar. Passou a arrecadar para, prioritariamente, pagar suas dívidas, transferindo recursos do setor produtivo ao especulativo. O capital especulativo, com a desregulamentação, passou a ser o hegemônico na sociedade. Sem regras, o capital – que não é feito para produzir, mas para acumular – se transferiu maciçamente do setor produtivo ao financeiro, sob a forma especulativa, isto é, não para financiar a produção, a pesquisa, o consumo, mas para viver de vender e comprar papéis – de Estados endividados ou de grandes empresas -, sem produzir nem bens, nem empregos. É o pior tipo de capital. O próprio Estado se financeirizou.

O neoliberalismo destruiu as funções sociais do Estado e depois nos jogou como alternativa ao mercado: se quiserem, defendam o Estado que eu destruí, tornando-o indefensável; ou venham somar-se à esfera privada, na verdade o mercado disfarçado.

Mas se a esfera neoliberal é a esfera mercantil, a esfera alternativa não é a estatal. Porque há Estados privatizados, isto é, mercantilizados, financeirizados; e há Estados centrados na esfera pública. A esfera pública é centrada na universalização dos direitos. Democratizar, diante da obra neoliberal, é desmercantilizar, colocar na esfera dos direitos o que o neoliberalismo colocou na esfera do mercado. Uma sociedade democrática, posneoliberal, é uma sociedade fundada nos direitos, na igualdade dos cidadãos. Um cidadão é sujeito de direitos. O mercado não reconhece direitos, só poder de comprar, é composta por consumidores.

Na esfera da informação, houve até aqui predomínio absoluto da esfera mercantil. Para emitir noticias era necessário dispor de recursos suficientes para instalar condições de ter um jornal, um rádio, uma TV. A internet abriu espaços inéditos para a democratização da informação.

A democratização da mídia, isto é, sua desmercantilização, a afirmação do direito a expressar e receber informações pluralistas, tem que combinar diferentes formas de expressão e de mídia. A velha mídia é uma mídia mercantil, composta de empresas financiadas pela publicidade, hoje aderida ao pensamento único. Uma mídia composta por empresas dirigidas por oligarquias familiares, sem democracia nem sequer nas redações e nas pautas dos meios que a compõem.

A nova mídia, por sua vez, é uma mídia barata nos seus custos, pluralista, crítica. O novo espaço criado pelos blogueiros progressistas faz parte da esfera pública, promove os direitos de todos, a democracia econômica, política, social e cultural. A esfera pública tem expressões estatais, não- estatais, comunitárias. Todas comprometidas com os direitos de todos e não com a seletividade e a exclusão mercantil.

São definições a ser discutidas, precisadas, de forma democrática, aberta, pluralista, de um fenômeno novo, que prenuncia uma sociedade justa, solidária, soberana. A possibilidade com que estão comprometidos Dilma e Lula de uma Constituinte autônoma permite que se possa discutir e levar adiante processos de democratização do Estado, de sua reforma em torno das distintas formas de esfera pública, desmercantilizando e desfinanceirizando o Estado brasileiro.


Fonte: Blog do Emir

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Não há emoção no Estado


Por Frei Betto

Época de eleição é época de desvarios. A razão costuma entrar em férias e a sensibilidade fica à flor da pele. Em família e no trabalho, no clube e na igreja, todos manifestam opiniões sobre articulações políticas e candidatos.

O tom varia do palavrão a desqualificar toda a árvore genealógica do candidato à veneração acrítica de quem o julga perfeito. A língua se espicha em sete léguas para difamar ou louvar políticos. Marido briga com a mulher, pai com o filho, amigo com amigo, cada um convencido de que tem a melhor análise sobre os candidatos... e todos parecem ignorar que vivemos numa relativa democracia em que reina a diversidade de forças políticas, embora impere a ideologia das elites dominantes.

Há um terceiro grupo que insiste em se manter indiferente ao período eleitoral, embora não o consiga em relação aos candidatos, todos eles considerados corruptos, mentirosos, aproveitadores e/ou demagogos.

Haja coração!

O problema é que não há saída: estamos todos sujeitos ao Estado. E este é governado pelo partido vitorioso nas eleições. Portanto, ficar indiferente é uma forma de passar cheque em branco, assinado e de valor ilimitado, a quem governa. E tanto o governo quanto o Estado, com o perdão da redundância, são absolutamente indiferentes à nossa indiferença e aos nossos protestos individuais.
É compreensível uma pessoa não gostar de ópera, jiló, viagem de avião ou da cor marrom. E mesmo de política. Impossível é ignorar que todos os aspectos de nossa existência, do primeiro respiro ao último suspiro, têm a ver com política.

Já a classe social em que cada um de nós nasceu decorre da política vigente no país. Houvesse menos injustiça e mais partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano, ninguém nasceria entre a miséria e a pobreza. Como nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que veio a este mundo, somos todos filhos da loteria biológica. Nossa condição social de origem resulta de mero acaso. E não deveria ser considerado privilégio por quem nasceu nas classes média e rica, e sim dívida social para com aqueles que não tiveram a mesma sorte.

Somos ministeriados do nascimento à morte. Ao nascer, o registro vai parar no Ministério da Justiça. Vacinados, vamos ao Ministério da Saúde; ao ingressar na escola, ao da Educação; ao arranjar emprego, ao do Trabalho; ao tirar carteira de motorista, ao das Cidades; ao aposentar-se, ao da Previdência Social; ao morrer, retornamos ao Ministério da Justiça. E nossas condições de vida, como renda e alimentação, dependem dos ministérios da Fazenda e do Planejamento, e do modo como o Banco Central administra a moeda nacional e o sistema financeiro.

Em tudo há política. Para o bem ou para o mal. Posso não saber o que a política tem a ver com a conta do supermercado ou o valor da matrícula escolar. Muitos ignoram que a política se faz presente até no calendário. Não que determine as estações do ano, embora tenha tudo a ver com os efeitos, como inundações, secas e desabamentos. Já reparou que dezembro, o último mês do ano, deriva de dez? Novembro de nove, outubro de oito, setembro de sete?

Outrora o ano era de 10 meses. O imperador Júlio César decidiu acrescentar um mês em sua homenagem. Assim nasceu julho. Seu sucessor, Augusto, não quis ficar atrás. Criou agosto. Como os meses se sucedem na alternância 31/30, Augusto não admitiu que seu mês tivesse menos dias que o do antecessor. Obrigou os astrônomos da corte a equipararem agosto e julho em 31 dias. Eles não se fizeram de rogados: arrancaram um dia de fevereiro e resolveram a questão.

O Brasil será, a partir de 1º de janeiro de 2011, o resultado das eleições de outubro. Para melhor ou para pior. E os que irão governá-lo serão escolhidos pelo voto de cada um de nós. E graças aos impostos que pagamos eles irão administrar – bem ou mal – os bilhões arrecadados pelo fisco, incluídos os salários dos políticos e o custo de seus gabinetes e respectivas mordomias.

Faça como o Estado: deixe de lado a emoção e pense com a razão. As instituições públicas não têm vida própria. São movidas por políticos e pessoas indicadas por eles. Todos esses funcionários públicos, a começar do presidente da República, são nossos empregados. A nós devem prestar contas. Temos o direito de cobrar, exigir, pressionar, reivindicar, e eles o dever de comprovar como respondem às nossas expectativas.

Convença-se disto: a autoridade é a sociedade civil. Exerça-a. Não dê seu voto a corruptos nem se deixe enganar pela propaganda eleitoral. Vote no seu futuro. Vote na justiça social, no direito dos pobres à dignidade, na soberania nacional.


Fonte: jornal Estado de Minas - 26 de agosto de 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Paralelos entre Getúlio e Lula

Por Cléber Sérgio de Seixas

É possível traçar alguns paralelos entre a era Vargas e a era Lula. Um dos maiores nexos reside no tratamento que a mídia dispensou a ambos. Capitaneada pelo corvo Carlos Lacerda, a imprensa, dia a dia, tratava de minar as forças do governo Vargas, sobretudo depois que seu ministro do trabalho, João Goulart, dobrou o valor do salário mínimo e após a criação da Petrobrás.

O atentado da Rua Tonelero, ocorrido no dia 5 de agosto, que vitimou fatalmente o major Rubens Vaz e feriu Lacerda, foi o estopim para o acirramento das críticas da imprensa golpista ao governo do "pai dos pobres", e um dos marcos do processo que culminaria no fim trágico do presidente da República mais popular até então. O tiro que Vargas deu no próprio peito há exatos 56 anos adiou o golpe militar por uma década. Abaixo, reproduzo o parágrafo final da Carta Testamento redigida por Vargas horas antes de seu suicídio (cliquem aqui para lê-la na íntegra).

"E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História".

Os ataques da imprensa a Lula tem sido tão ou mais veementes que aqueles feitos a Vargas. As críticas vão desde um suposto aparelhamento do Estado promovido pelo partido do presidente, o PT, passando por denúncias sem fim sobre corrupção, a avaliações negativas das políticas sociais promovidas pelo governo, políticas que segundo os críticos seriam demagógicas e assistencialistas.

Outro paralelo importante é quanto ao crescimento econômico alcançado pela nação sob as gestões de Vargas e de Lula. Em ambas o país deu um salto enorme. No caso de Vargas, sua chegada ao poder sepultou a hegemonia das oligarquias agrárias, introduziu o país na senda da industrialização e urbanização, via política de substituições de importações, e legou-nos a Petrobrás. Já sob Lula o Estado tomou novamente as rédeas do desenvolvimento econômico, deu lugar de destaque ao Brasil no cenário econômico internacional e nos prepara para beber na fonte do pré-sal.

A diferença principal entre Lula e Vargas, além da origem humilde do primeiro, é que Lula projetou-se além das nossas fronteiras e tornou-se notório e respeitado mundialmente, algo jamais sonhado pelo presidente gaúcho.

No entanto, os inimigos de Vargas são os mesmos que hoje combatem Lula e seu governo. Os entreguistas da nação - aqueles que nunca se fartam do suor e do sangue do povo e, tais como um certo ex-presidente, preferem cheiro de cavalo a cheiro de povo - ainda estão a espreita, prontos para dar de bandeja, ou a custa de umas poucas 30 moedas, as riquezas desta grande nação. As constantes infâmias e mentiras não tem abatido o ânimo de Lula e, ao que tudo indica, o ex-metalúrgico fará sua sucessora em 3 de outubro. Caso isso ocorra, é possível que Lula volte em 2014 nos braços do povo e dê um fôlego de mais 8 anos à atual dinâmica.

Lula e Vargas entrarão para a História como os maiores presidentes que o Brasil já teve. As críticas que fizeram a Vargas e hoje fazem a Lula não serão suficientes para apagar da memória dos brasileiros o que eles significam para a nação.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Record joga luz sobre os porões da tortura - 3ª e 4ª partes

Por Cléber Sérgio de Seixas

Dando sequência ao post anterior, publico abaixo os vídeos da 3ª e 4ª partes da excelente série que a rede Record produziu sobre as torturas perpetradas pela ditadura militar nos anos 60 e 70.

3ª Parte




4ª Parte

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Record joga luz sobre os porões da tortura

Por Cléber Sérgio de Seixas

O Jornal da Record está apresentando nesta semana uma série de reportagens sobre a tortura na época da ditadura militar que vigorou no Brasil durante 21 anos. Considero a veiculação da série extremamente oportuna num momento em que sequer os arquivos das forças da repressão foram abertos, ao contrário do que já ocorreu em vários países do cone-sul, onde torturadores foram condenados, os arquivos da repressão foram abertos e os locais de tortura e extermínio identificados e abertos à visitação pública.

Abaixo a primeira e segunda partes da matéria.


1ª Parte



2ª Parte


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Cura da Miopia Midiática

Globo e você, nada a ver


Por Cléber Sérgio de Seixas

A edição de número 639 da Revista Época é quase toda ela um libelo contra a pessoa de Dilma Rousseff e aquilo que sua candidatura representa. Quem acha que a campanha contra a escolhida de Lula se encerra na capa da revista e nas 14 páginas da tendenciosa matéria de capa se enganou.

Na página 50 ainda encontramos um tal Guilherme Fiúza a desancar Lula e seu governo, e a rebater o mantra da suposta insignificância de Dilma. No início do artigo ele afirma: “Lula não tem culpa do poder político sobre-humano que adquiriu. A culpa é do Brasil”. Depois de algumas considerações, Fiúza continua se arvorando no direito de questionar a escolha do povo brasileiro, conforme deixa claro neste trecho: “Lula era um presidente normal até estourar o mensalão, o maior escândalo de corrupção da história da República. Pela primeira vez, o grupo político de um presidente criava um duto sistemático entre os cofres do Estado e seu partido. O enredo foi descoberto, seus protagonistas denunciados, e o país passou a mão na cabeça de Lula – não apenas preservando-o, mas passando a conferir-lhe taxas históricas de popularidade”.

Perceba o leitor que o nobre jornalista não titubeia ao afirmar que o país, ou seja, os brasileiros, passaram a mão na cabeça de um presidente que estaria envolvido num esquema de corrupção. Além disso, diz com todas as letras que o mensalão é o maior escândalo de corrupção da história republicana. A miopia que vitima o jornalista – e o faz confundir denúncia com condenação, além de não deixá-lo enxergar um outro mensalão (o do DEM) mais patente e mais grave, inclusive motivador do afastamento de um governador até então cotado para ser vice de Serra – foi adquirida pelo contato com meia dúzia de donos de meios de comunicação que dão um tiro no pé ao se levantarem contra aquilo que é o ponto de vista da maioria esmagadora dos brasileiros.

Na última página da referida publicação, Ruth de Aquino, diretora da sucursal da revista no Rio de Janeiro, afirma em seu artigo que o eleitor fanático, contra ou a favor, não é o problema nesta eleição, pois já decidiu e nem precisa ver seu candidato ou sua candidata entrar em campo. Ela questiona, assim, o juízo de milhares de brasileiros que, conforme apontam as últimas pesquisas, darão seu voto de confiança a Dilma como se votassem pela continuidade do que até agora tem sido feito sob a batuta de Lula. A articulista atira-os numa vala comum e os qualifica como fanáticos.

A grande mídia teima em trafegar na contramão da ótica do povo brasileiro. Não percebeu ainda que o que o povo vê são as melhorias substanciais na sua qualidade de vida ocorridas desde o início do primeiro mandato de Lula. Mensalões, dossiês e toda sorte de denúncias não constituem mais um discurso palatável à grande massa, sobretudo depois que esta passou a não mais acreditar piamente no que dizem os oráculos midiáticos. O povo brasileiro aprendeu a ser tão pragmático quanto seu presidente, e está mais preocupado com comida na mesa, com os filhos na faculdade, com o carro na garagem para o passeio do fim de semana, e com outras coisas com as quais nunca sonhara durante os oito anos da gestão FHC.

Portanto, resta uma esperança de cura para os grandes meios de comunicação. Seu tratamento passará obrigatoriamente por um retorno a seu mister original: informar. E informação não pode ser confundida com opinião. Informar significa ler os fatos da forma mais fidedigna possível, sem acrescentar à leitura as idiossincrasias de quem escreve. O restabelecimento da saúde da grande mídia passará também pela cura de um sintoma cuja manifestação a faz arvorar-se em bastião da democracia e a faz confundir liberdade de imprensa e liberdade de empresa. A história recente do Brasil, no entanto, mostra de que lado esteve a grande imprensa e demonstra que seu modus operandi passa ao largo da democracia.

Quando a grande imprensa tiver sido curada de sua miopia, quem sabe o povo deixe de, diariamente, escutá-la sem ouvi-la.

Carta dos Blogueiros Progressistas


Publicado originalmente no Cidadania.com

Está pronta a redação inicial do documento final do 1º Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas. Será reproduzida também em outros blogs e sites ligados à organização do Evento.

Para fazer sugestões – acrescentar, suprimir ou modificar o documento – o internauta deve enviar e-mail para contato@baraodeitarare.org.br

Há, também, duas outras boas notícias que transmito a pedido de Altamiro Borges, membro da Comissão Organizadora que está coordenando a logística do Evento.

1 – Conseguiremos transmitir o Encontro AO VIVO por WebTV (maiores informações serão fornecidas pela jornalista Conceição Lemes no blog Viomundo, mais adiante)

2 – Ao fim do Encontro, será fornecido um certificado de participação a cada convidado, firmado pelos apoiadores institucionais do Evento – Altercom, Barão de Itararé e Movimento dos Sem Mídia

Leiam, abaixo, a Carta dos Blogueiros Progressistas.

*****

Carta dos Blogueiros Progressistas

A liberdade da internet é ainda maior que a liberdade de imprensa, na medida em que a imprensa compreensiva do rádio e da televisão se define como serviço público sob regime de concessão ou permissão, ao passo que a internet se define como instância de comunicação inteiramente privada”

MinistroAyresBritto

Em 21 e 22 de agosto de 2010, homens e mulheres de várias partes do país se reuniram em São Paulo, no Sindicato dos Engenheiros, com a finalidade de materializarem uma entidade, inicialmente abstrata, dita Blogosfera, a qual vem ganhando importância no transcurso desta década devido à influência progressiva que passou a exercer na comunicação e nos grandes debates públicos.

A Blogosfera é produto dos esforços de pessoas independentes das corporações de mídia, os blogueiros progressistas, designação que alude àqueles que, além de seus ideais humanistas, ousaram produzir o que já se tornou o primeiro meio de comunicação de massas autônomo. Contudo, produzir um blog independente, no Brasil, ainda é um ato de heroísmo porque não existem meios sólidos de financiamento para exercer a atividade profissionalmente, ou seja, obtendo remuneração.

Em busca de soluções para as dificuldades que persistem para que a Blogosfera Progressista siga crescendo e ganhando influencia em uma comunicação de massas dominada por um oligopólio poderoso, influente e, muitas vezes, antidemocrático, os blogueiros progressistas se unem para formularem aspirações e propostas de políticas públicas e pelo estabelecimento de um marco legal regulatório que contemple as transformações pelas quais a comunicação está passando no Brasil e no mundo.

Com base nesse espírito que permeou o 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, os participantes deliberaram em favor dos seguintes pontos:

I – Apoiamos o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), de iniciativa do governo federal, como forma de inclusão digital de expressiva parcela do povo brasileiro extemporaneamente alijada de um meio de comunicação de massas como a internet no limiar da segunda década do século XXI, o que é inaceitável e incompatível com os direitos fundamentais do homem à comunicação em um momento histórico em que os avanços tecnológicos nessa área já são acessíveis a qualquer cidadão de qualquer classe social nos países em estágio civilizatório mais avançado.

Apesar do apoio ao PNBL, os Blogueiros Progressistas declaram que, mesmo entendendo a iniciativa governamental como positiva, julgam que precisa de aprimoramento, pois da forma como está ainda oferece pouco para que a internet possa ser explorada em todas as suas potencialidades. A velocidade de processamento a ser oferecida à sociedade sem cobrança dos custos exorbitantes da iniciativa privada, por exemplo, precisa ser ampliada ou não realizará aquilo a que se propõe.

2 – Defendemos a regulamentação dos Artigos 220, 221 e 223da Constituição Federal, que legislam sobre a comunicação no Brasil e, entre outras coisas, proíbem a concentração abusiva dos meios de comunicação de massa e que dispõem sobre os sistemas público, estatal e privado.

Por omissão dos Poderes Executivo e Legislativo na regulamentação da matéria e sob sugestão do eminente professor Fabio Konder Comparato, os Blogueiros Progressistas decidem mover na Justiça brasileira uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) com vistas à regulamentação das leis que determinam profundas alterações na realidade da comunicação no Brasil supra descrita e que vêm sendo solenemente ignoradas.

3 – Combatemos iniciativas que tramitam no Poder Legislativo tais como o Projeto de Lei de autoria do senador mineiro Eduardo Azeredo, iniciativa que se notabilizou pela alcunha de “AI-5 digital” e que pretende impor restrições policialescas à liberdade de expressão na rede mundial de computadores, bem como as especulações sobre o que se convencionou chamar de “pedágio na rede”, ou seja, a possibilidade de os grandes grupos de mídia poderem veicular seus conteúdos na internet com vantagens tecnológicas como capacidade e velocidade de processamento em detrimento do que for produzido pelos cidadãos comuns e pelas pequenas empresas de comunicação.

4 – Reivindicamos a elaboração de políticas públicas que incentivem a veiculação de publicidade privada e oficial remuneradas nos blogs, bem como outras formas de financiamento que efetivamente viabilizem essa forma de comunicação representada pela Blogosfera Progressista, de maneira que possa ser produzida por qualquer cidadão que disponha de competência para explorar seu potencial econômico e comercial, exatamente como fazem os meios de comunicação de massas tradicionais com amplo apoio do Estado por meio de fartas verbas públicas que, com freqüência, são repassadas sob critérios meramente políticos e que ignoram a orientação constitucional que determina pluralidade na comunicação do país.

5 – Cobramos dos Poderes Executivo e Legislativo que examinem com seriedade deliberações da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) como a da criação do imprescindível Conselho Nacional de Comunicação.

6 – Deliberamos pela instituição de um Encontro Anual dos Blogueiros progressistas, que deve ocorrer, sempre que possível, em diferentes capitais para que um número maior de unidades da Federação tenha contato com esse evento e, em algum momento, com o universo da blogosfera.

7 – Lutaremos para instituir núcleos de Apoio Jurídico aos Blogueiros Progressistas, no âmbito das tentativas de censura que vêm sofrendo sobretudo por parte da classe política e de grandes meios de comunicação de massas.

São Paulo, 22 de agosto de 2010

Altamiro Borges

Conceição Lemes

Conceição Oliveira

Diego Casaes

Eduardo Guimarães

Luis Nassif

Luiz Carlos Azenha

Paulo Henrique Amorim

Renato Rovai

Rodrigo Vianna

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O aniversário dos impossíveis


Por Gilson Caroni Filho

Fidel Castro e Cuba se entrelaçam em uma metáfora perfeita. Como impossibilidades que se reinventam, desafiam analistas e inimigos políticos. Ao completar 84 anos, na sexta-feira passada, o líder cubano voltou a se dedicar ao que parece ser seu passatempo predileto: desenganar os que o desenganam. Há quatro anos quando, por motivos de saúde, teve que se afastar do poder, não foram poucos os que o davam como um homem morto.

Neste agosto de 2010, Fidel reapareceu em público, retomando a real e vigorosa crítica da política internacional, ao advertir sobre o grave perigo para a paz, caso Estados Unidos e Israel lancem ataques a instalações iranianas. Analisando o Oriente Médio, o Comandante volta a propugnar por mudanças radicais que permitam ao homem entrar na posse de sua dignidade. É na práxis, e não no isolamento de conspiratas, que o verdadeiro humanismo se reafirma. Sua estatura histórica é universalista por excelência.

Em 1991, com o colapso da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a gigantesca máquina de propaganda estadunidense prognosticou o fim do regime cubano. Passados 19 anos, Cuba, apesar do bloqueio econômico e comercial mantido pela potência imperialista, apresenta o menor índice de mortalidade infantil até o primeiro ano de vida, na América Latina. Além disso, registrou, em plena crise econômica mundial de 2009, aumento do PIB per capita.

Somando-se a estes índices a vantagem de um modelo societário que reconhece legal e concretamente o direito à educação e saúde para todos de maneira gratuita, estará descortinada a mais bela obra que uma sociedade pode desejar: uma nação independente e soberana.

Compreende-se a dificuldade de uma crítica individualista ao lidar com formação política em que o “dar-se à sociedade" ocupa o lugar mais alto em uma escala de valores morais. A tomada do poder em 1959, pelos guerrilheiros de Sierra Maestra, foi o meio para revolucionar as estruturas cubanas. Não foi um golpe de Estado para troca de guarda; para troca de grupos privilegiados, tão comuns na América Latina. Aqueles homens estavam dispostos a mudar as condições de vida da maioria absoluta da população, do amplo contingente desprovido de direitos.

É claro que modificar um país, organizado para servir aos interesses estrangeiros e a uma exígua minoria da sociedade nativa, acarreta toda sorte de problemas e um grande descontentamento nos que perdem privilégios atávicos. A execução dessas transformações – já difícil em circunstâncias normais – sob o bloqueio econômico tornou-se árdua e dependente de uma grande dose de sacrifícios.

Com Fidel aniversariaram as adolescentes que em 1961, ano em que a revolução se declarou socialista, subiram à serra para alfabetizar camponeses. Entoando versos como “Somos la Brigada Conrado Benítez, somos la vanguardia de la Revolución..." lembravam um mártir e, talvez sem entender muito bem tudo o que estava acontecendo, deslancharam o processo educativo da nova Cuba. Além delas, outros homens e mulheres, que viveram a história como fé apaixonada na capacidade do homem de lutar contra a injustiça, também festejaram a sexta-feira.

Aos que lutam pelo respeito aos direitos humanos, é bom recordar que a cultura é o que humaniza o homem. E nós só o humanizamos quando o colocamos no centro dos debates fundamentais, elevando sua qualidade de vida. As crianças reunidas no Parque Lênin, em Havana, não cantaram parabéns apenas para o líder cubano. Pessoas que viveram os tempos capitalistas e outras que nasceram após a revolução têm consciência das dificuldades a serem enfrentadas. Mas continuam acreditando no legado revolucionário por se sentirem participantes ativas do processo.

Como povo esclarecido, bem informado e politizado, o cubano é o verdadeiro crítico do seu regime. Critica e aponta saídas. Sabe que é preciso lutar para ampliar a esfera pública, mas tem consciência de que a propaganda orquestrada contra o governo socialista acaba por criar, como subproduto previsto e planejado, uma imagem distorcida de sua realidade. A volta ao capitalismo é impensável. Por isso cantam parabéns para a vontade férrea de não esquecer o significado de cada conquista. Na estreita vinculação, que deve existir entre os interesses do indivíduo e os da sociedade, permanece atual o que vinha escrito nas boinas dos pequenos “pioneros”: “seremos como el Che”. Uma promessa de renascimento permanente.

Fonte: publicado originalmente no site Carta Maior

domingo, 15 de agosto de 2010

Lula agradece aos internautas

Lula agradece apoio e pede que os internautas e blogueiros ajudem a eleger Dilma Presidente. Veja o vídeo.

sábado, 14 de agosto de 2010

A tática do medo está de volta


Por Cléber Sérgio de Seixas

Quem ainda considera que a Rede Globo e seus tentáculos midiáticos são imparciais e praticam um jornalismo isento, tem agora um motivo a menos para sustentar tal convicção. A capa da revista Época, edição nº 639, joga por terra a suposta neutralidade das Organizações Globo no processo eleitoral.

É curioso o fato de a revista publicar uma matéria de capa cujo teor tenta passar a idéia de uma Dilma perigosa e supostamente envergonhada de seu passado de luta contra a ditadura militar, exatamente agora, pouco depois de o Jornal Nacional ter sabatinado os três principais candidatos à presidência da República, o que não passou de uma campanha disfarçada contra a candidata petista. Não se trata de nenhum expediente novo. É mais do mesmo, ou seja, é a tática do medo.

Contra o argumento da Dilma terrorista, acho oportuno reproduzir um trecho do artigo de Jorge Furtado cujo título é Dez falsos motivos para não votar na Dilma: "Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações “terroristas”. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha". Tendo como base o apurado raciocínio de Furtado, deveríamos esperar que, na capa de futuras edições, Época fosse suficientemente honesta para estampar matérias semelhantes sobre Fernando Gabeira ou José Serra, destacando-os como terroristas ou utilizando adjetivos afins. Mas acho que é esperar demais daqueles que sempre remaram contra a maré da verdade factual.

A imprensa, hoje o único trunfo da candidatura Serra, tentará de todos os modos fazer com que seu candidato decole nas pesquisas. Não é tarefa fácil, sobretudo porque o principal cabo eleitoral de Dilma é ninguém mais ninguém menos que o mais popular presidente da "história deste país".

Mas não pensem que doravante as investidas da mídia marrom serão amenas. Pelo contrário, à medida que outubro se aproximar, intensificar-se-ão os ataques à candidata a sucessora de Lula.
Até lá, requentarão denúncias vazias tal como a da ficha falsa de Dilma e do dossiê contra os tucanos. É pouco provável que tais expedientes surtam efeito, mas é prudente estarmos atentos, sobretudo se lembrarmos que táticas midiáticas semelhantes levaram as eleições presidenciais de 2006 para o segundo turno.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Plebiscito pelo limite da terra

Por Frei Betto

Entre 1º e 7 de setembro o Fórum Nacional da Reforma Agrária e Justiça no Campo promoverá, em todo o Brasil, o plebiscito pelo limite da propriedade rural. Mais de 50 entidades que integram o fórum farão da Semana da Pátria e do Grito dos Excluídos, celebrado todo 7 de setembro, um momento de clamor pela reforma fundiária em nosso país.

Vivem hoje na zona rural brasileira cerca de 30 milhões de pessoas, pouco mais de 16% da população do país. O Brasil apresenta um dos maiores índices de concentração fundiária do mundo: quase 50% das propriedades rurais têm menos de 10 hectares (ha) e ocupam apenas 2,36% da área do país. E menos de 1% das propriedades rurais (46.911) têm área acima de 1 mil ha cada e ocupam 44% do território (IBGE 2006).

As propriedades com mais de 2.500 ha são apenas 15.012 e ocupam 98,5 milhões de ha: 28 milhões de hectares a mais do que quase 4,5 milhões de propriedades rurais com menos de 100 ha.
Diante deste quadro de grave desigualdade, não se pode admitir que imensas propriedades rurais possam pertencer a um único dono, impedindo o acesso democrático à terra, que é um bem natural, coletivo, porém limitado.

O objetivo do plebiscito é demonstrar ao Congresso Nacional que o povo brasileiro deseja que se inclua na Constituição um novo inciso limitando a propriedade da terra – princípio adotado por vários países capitalistas – a 35 módulos fiscais. Áreas acima disso seriam incorporadas ao patrimônio público e destinadas à reforma agrária.
O módulo fiscal serve de parâmetro para classificar o tamanho de uma propriedade rural, segundo a Lei 8.629, de 25/02/93. Um módulo fiscal pode variar de 5ha 110 ha, dependendo do município e das condições de solo, relevo, acesso etc. É considerada pequena propriedade o imóvel com o máximo de quatro módulos fiscais; média, 15; e grande, acima de 15 módulos fiscais.

Um limite de 35 módulos fiscais equivale a uma área entre 175 ha (caso de imóveis próximos a capitais) e 3.500 ha (como na região amazônica). Apenas 50 mil entre os cinco milhões de propriedades rurais existentes no Brasil se enquadram neste limite. Ou seja, 4,950 milhões de propriedades têm menos de 35 módulos fiscais.
O tema foi enfatizado pela Campanha da Fraternidade 2010, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Todos os dados indicam que a concentração fundiária expulsa famílias do campo, multiplica o número de favelas e a violência nos centros urbanos. Mais de 11 milhões de famílias vivem, hoje, em favelas, cortiços ou áreas de risco.

Nos últimos 25 anos, 1.546 trabalhadores rurais foram assassinados no Brasil; 422 presos; 2.709 famílias expulsas de suas terras; 13.815 famílias despejadas; e 92.290 famílias envolvidas em conflitos por terra! Foram registradas ainda 2.438 ocorrências de trabalho escravo, com 163 mil trabalhadores escravizados.
Desde 1993, o Grupo Móvel do Ministério do Trabalho libertou 33.789 escravos. De 1.163 ocorrências de assassinatos, apenas 85 foram a julgamento, com a condenação de 20 mandantes e 71 executores. Dos mandantes, somente um se encontra preso, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, um dos mandantes da eliminação da irmã Dorothy Stang, em 2005.

Tanto o plebiscito quanto o abaixo-assinado visam a aprovar a proposta de emenda constitucional (PEC 438) que determina o confisco de propriedades onde se pratica trabalho escravo, bem como limites à propriedade rural. As propriedades confiscadas seriam destinadas à reforma agrária.

Embora o lobby do latifúndio apregoe as “maravilhas” do agronegócio, quase todo voltado à exportação e não ao mercado interno, a maior parte dos alimentos da mesa do brasileiro provém da agricultura familiar. Ela é responsável por toda a produção de verduras; 87% da mandioca; 70% do feijão; 59% dos suínos; 58% do leite; 50% das aves; 46% do milho; 38% do café; 21% do trigo.
A pequena propriedade rural emprega 74,4% das pessoas que trabalham no campo. O agronegócio, apenas 25,6%. Enquanto a pequena propriedade ocupa 15 pessoas por cada 100 ha, o agronegócio, que dispõe de tecnologia avançada, somente 1,7 pessoa. Mais informações e para assinar o abaixo-assinado: www.limitedaterra.org.br.


Fonte: jornal Estado de Minas - 12/08/2010.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Serra e Globo: uma história de amor


Por Cléber Sérgio de Seixas

A trilogia das entrevistas com os candidatos à presidência não poderia terminar de forma mais ridícula. Depois de Dilma e Marina, José Serra foi o entrevistado do Jornal Nacional.

A sabatina já começa de forma tendenciosa, com Bonner afirmando que José Serra tem evitado críticas a Lula e, logo em seguida, perguntando ao presidenciável se esta seria uma postura esperada de um candidato de oposição.

Candidato, desde o início desta campanha, o senhor tem procurado evitar críticas ao presidente Lula. O senhor acha que... E em alguns casos fez até elogios a ele... o senhor acha que essa é a postura que o eleitor espera de um candidato da oposição?
Antes de se prosseguir analizando a afirmação de Bonner, é necessário distinguir uma crítica à pessoa de Lula de uma crítica ao governo Lula. De fato, não tenho notícias de críticas à pessoa de Lula por parte de Serra, o que seria um tiro no pé. Por outro lado, as críticas do tucano à gestão de Lula são uma constante há anos. Só para ficar nas mais recentes - e no site da Globo - o leitor pode encontrar uma amostra das críticas aqui, aqui e aqui. Assim sendo, Bonner mente na afirmação que antecedeu a primeira pergunta.

O senhor tem insistido muito na tecla de que o eleitor deve procurar comparar as biografias dos candidatos que estarão concorrendo, que estão concorrendo nesta eleição. O senhor evita uma comparação de governos. Por exemplo, por quê, entre o governo atual e o governo anterior?
Depois das considerações do tucano, Fátima Bernardes dá uma deixa para Serra ao dizer que ele evita a comparação do governo atual com “governos anteriores”. Desta feita, a entrevistadora concede ao ex-governador a oportunidade de reiterar a tese de que tudo de bom que o governo Lula colheu foi plantado na era FHC. Fátima insiste na questão da comparação entre os dois últimos governos (FHC e Lula) para que Serra tenha mais tempo para discorrer sobre seus feitos, o que ele faz com maestria, mesmo que entre uma verdade e outra diga algumas mentiras.

Uma questão política. Nesta eleição, existem contradições muito claras nas alianças formadas pelos dois partidos que têm polarizado as eleições presidenciais brasileiras aí nos últimos 16 anos, né? O PT se aliou a desafetos históricos. O seu partido, o PSDB, está ao lado do PTB, um partido envolvido no escândalo do mensalão petista, no escândalo que inclusive foi investigado e foi condenado de forma muito veemente pelo seu partido, o PSDB. Então, a pergunta é a seguinte: o PSDB errou lá atrás quando condenou o PTB ou está errando agora quando se alia a esse partido?
Em seguida, Bonner toca na questão das alianças entre os dois partidos que têm polarizado a disputa à presidência, e afirma que o PT se aliou a adversários históricos e o PSDB se aliou ao PTB, partido envolvido no "mensalão" petista. Percebam que o entrevistador faz questão de dizer “mensalão petista". A estratégia foi clara: citar a aliança do PSDB com o PTB para chegar ao "mensalão" do PT. Porque Bonner não citou a aliança entre o PSDB e o DEM, partido que teve membros envolvidos num esquema que foi visto em vídeo e em cores por todo os brasileiros? É sabido que o "mensalão" do PT ainda é algo a ser provado, enquanto o "mensalão" do DEM tornou-se visível e notório.

Candidato, nesta eleição, quer dizer, o senhor destaca muito a sua experiência política. Mas na hora da escolha do seu vice, houve um certo, um certo conflito com o DEM exatamente porque houve uma demora para o aparecimento desse nome. Muitos dos seus críticos atribuem essa demora ao seu perfil centralizador. O nome do deputado Índio da Costa apareceu 18 dias depois da sua oficialização, da convenção que oficializou a sua candidatura. É... O senhor considera que o deputado, em primeiro mandato, está pronto para ser o vice-presidente, uma função tão importante?
Na sequência, a pergunta de Fátima sobre a escolha do vice pouco depois do anúncio da candidatura Serra, o que seria um indicativo do perfil centralizador do governador de São Paulo, possibilita que ele tente exorcizar aquela que é uma das maiores marcas de sua gestão, ou seja, o centralismo, ou o despotismo, como queiram. De quebra, a pergunta também dá chance de o tucano traçar o perfil de seu vice (um desconhecido dos brasileiros até pouco tempo). Fátima auxilia o entrevistado na empreitada ao afirmar que seu vice passou por três mandatos de vereador (Mas a experiência dele é municipal, na verdade, não é? Ele teve três mandatos de vereador, o senhor acha que isso o qualifica?). Vale lembrar aqui que o vice de Serra é aquele que há menos de um mês acusou, sem provas, o PT de ter ligações com as FARC.

Candidato, eu gostaria de abordar um pouquinho também da sua passagem pelo governo de São Paulo. O senhor foi governo em São Paulo durante quatro anos, seu partido está no poder em São Paulo há 16 anos. Então é razoável que a gente avalie aqui algumas dessas ações. A primeira que eu colocaria em questão aqui é um hábito que o senhor mesmo tem de criticar o modelo de concessão das estradas federais. De outro lado, os usuários, muitos usuários das estradas estaduais de São Paulo que estão sob regime de concessão, se queixam muito do preço e da frequência com que são obrigados a parar para pedágio, quer dizer, uma quantidade de praças de pedágio que eles consideram excessiva. Pergunta: o senhor pretende levar para o Brasil inteiro esse modelo de concessão de estradas estaduais de São Paulo?
A pergunta de Bonner sobre a questão dos pedágios foi feita com o cuidado de contrapor o modelo de concessão paulista com o modelo federal. Na resposta, Serra embromou, embromou, e só falou mal das más condições das rodovias federais sem responder a pergunta, justificando o alto preço dos pedágios.

Nessa entrevista, faltaram perguntas sobre o “mensalão” do DEM, sobre o tratamento truculento dado pelo governo de São Paulo aos professores grevistas, sobre o caso Alstom, sobre a cratera do metrô paulista, sobre o enfrentamento campal das polícias civil e militar de São Paulo, sobre o diploma de Serra, sobre as ações criminosas do PCC, etc.

Concluo que a sabatina transcorreu feito um chazinho entre comadres; como uma paixão antiga, com direito a mil pedidos de perdão. Todos, entrevistado e entrevistadores, eram só sorrisos.

Após as três entrevistas (Dilma, Marina e Serra), arrisco inferir que o objetivo final não foi fazer conhecidas as propostas dos entrevistados, mas “queimar o filme” do PT, do governo Lula e, por conseguinte, de Dilma Rousseff. O “casal 20” global foi duríssimo com Dilma, moderado com Marina e light com Serra. Se partirmos do pressuposto que Willian Bonner compara o telespectador ao personagem Homer Simpson, entenderemos que a Globo só confirmou sua vocação golpista e tendenciosa.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

JN mira em Marina para acertar Dilma




Por Cléber Sérgio de Seixas

A sabatinada de hoje no JN foi a candidata do PV à presidência da República, Marina Silva. Não vou me alongar muito. Pretendo tocar apenas em poucos pontos que julguei relevantes.

O "Casal 20" da Vênus Platinada começou a entrevista com a clássica tentativa de apresentar a candidata ao telespectador como alguém despreparado para o cargo, tal como fizeram ontem com Dilma.

A certa altura, Fátima Bernardes indagou se o PV teria quadros para compor o governo numa suposta vitória da entrevistada. Marina marcou um tento questionando a afirmação de que para governar é necessário fazê-lo contando somente com quadros do próprio partido.

Na sequência, Bonner tentou demonstrar que Marina fora conivente com o escândalo do mensalão do PT. Foi a partir desse momento que a entrevista tomou os rumos desejados pela Globo. A alça de mira foi direcionada para Marina para acertar o PT e, por extensão, Dilma Rousseff. Marina frisou que nem todos no PT são maçãs podres.

Em mais uma interrupção, Bonner arvorou-se como representante dos telespectadores e "em nome do público" repisou a questão da suposta conivência de Marina com o escândalo do mensalão. Nâo se fez de rogado e pediu que Marina esclarecesse para ele (e não para os telespectadores desta vez) de que forma ela viu a saída de vários integrantes do PT por conta do suposto mensalão.

Em seguida, Fátima dá uma guinada e aborda a questão da morosidade na liberação das licenças ambientais durante a gestão de Marina no Ministério do Meio Ambiente. Bonner, aparentemente satisfeito, não interrompe mais. É claro, já tinha alcançado seu objetivo e acertado o alvo. Missão cumprida.

Dilma no Massacre do JN

Por Cléber Sérgio de Seixas

Acabo de assistir à entrevista de Dilma Rousseff no Jornal Nacional. A conclusão a que cheguei foi que o "Casal 20" global tentou a exaustão colar a pecha de autoritária e de títere de Lula na candidata do PT.

Logo na primeira pergunta a tentativa de desqualificar Dilma: "Candidata, o seu nome como candidata do PT à Presidência foi indicado diretamente pelo presidente Lula, ele não esconde isso de ninguém. Algumas pessoas criticaram, disseram que foi uma medida autoritária, por não ter ouvido as bases do PT. Por outro lado, a senhora não tem experiência eleitoral nenhuma até este momento. A senhora se considera preparada para governar o Brasil longe do presidente Lula?". Notem não se dá nome aos bois, apenas se diz "algumas pessoas...".

Em seguida, fizeram com Dilma o inverso que fizeram com Lula até 2002, ou seja, acusaram-na de não ter experiência eleitoral (com Lula o problema era a ausência de experiência no executivo). Em resposta, Dilma apresentou seu extenso currículo.

Na sequência, Bonner insiste na tese da tutoria de Lula sobre Dilma, como se isso aos olhos dos eleitores fosse algo negativo, sobretudo se forem considerados os altíssimos índices de aprovação do governo. Em resposta, Dilma reafirma seu orgulho em ter atuado no governo: "Eu quero te dizer o seguinte: a minha relação política com o presidente Lula, eu tenho imenso orgulho dela. Eu participei diretamente com o presidente, fui braço direito e esquerdo dele nesse processo de transformar o Brasil num país diferente, num país que cresce, distribui renda, em que as pessoas têm primeira vez, depois de muitos anos, a possibilidade de subir na vida. Então, não vejo problema nenhum na minha relação com o presidente Lula. Pelo contrário, eu vejo que até é um fator muito positivo, porque ele é um grande líder, e é reconhecido isso no mundo inteiro."

Posteriormente, Bonner - sempre ele - requenta a tese de Dilma como uma mulher dura e inflexível. O curioso é que após vários atropelos por parte do mauricinho global, a coisa se inverte e o partido ao qual Dilma pertence é acusado de fazer alianças heterodoxas com personagens políticos polêmicos com a família Sarney e Fernando Collor. O telespectador não deve ter entendido nada. Afinal de contas ter jogo de cintura é algo positivo, como se intuia das primeiras perguntas, ou é algo ruim e inescrupuloso, como pretendiam as últimas?

Dilma foi sempre firme nas respostas e, no meu julgamento, saiu-se bem no massacre promovido pelo JN.

Ridículo foi ver Fátima Bernardes pedindo para Bonner "dar um tempo" nas interrupções. Na verdade quem saiu massacrado foi o casal global.

Acho que estou sendo otimista demais, mas espero que amanhã com Marina, e com os demais entrevistados nos dias seguintes, haja o mesmo rigor, ou o mesmo massacre, com queiram.

Abaixo o vídeo da entrevista.

domingo, 8 de agosto de 2010

TSE ensina jornalismo a Veja

Por Luis Nassif em seu Blog


Foi necessário a Justiça Eleitoral atender a um pedido do maior partido político brasileiro, para o estado de direito e o jornalismo começarem a ganhar algum espaço na Veja.

Ao longo dos últimos anos, a revista praticou toda sorte de abusos, de acusações falsas ou não comprovadas, assassinou e fabricou reputações, de acordo com suas conveniências de ordem comercial e/ou política.

Há muito tempo deveria ter sido enquadrada. Não para impedir o exercício da liberdade de imprensa, mas para impor um mínimo de responsabilidade à máquina de assassinar reputações em que ela se converteu.

A facilidade de mentir, acusar, achincalhar, adquiriu níveis epidêmicos na revista. Especialmente devido à blindagem da Primeira Instância na Vara de Pinheiros, atrasando por anos a condenação da revista, impedindo o direito de resposta imediato - a rapidez do direito de resposta é diretamente proporcional à sua eficácia.

Agora, condenada a publicar o Direito de Resposta do PT, confira-se a matéria da revista sobre os fundos de pensão: é evidente que os advogados passaram a ler as matérias, antes de sair, para evitar mais condenações.

Duas edições antes, a revista afirmava peremptoriamente que havia um grupo de inteligência da campanha de Dilma montando dossiês contra adversários. Esse grupo teria sido o responsável pelo suposto vazamento da declaração de Eduardo Jorge.

Nesta semana, depois da decisão do TSE, a matéria não fala mais em dossiês preparados pela campanha de Dilma, mas em "grupo do partido ligado à campanha de Dilma", suficientemente vago para impedir uma nova ação.

Mas adianta, diz que Eduardo Jorge "teve seu sigilo fiscal quebrado, mas até hoje não se sabe quem são os autores do crime". Eduardo Jorge "suspeita também que o sigilo de uma de suas contas no Banco do Brasil também foi quebrado". Tudo no condicional, sem afirmações peremptórias, sem acusações gratuitas, antes de dispor de provas.


Acima, o direito de resposta dado ao PT na página 80 da edição de 11 de agosto/10 da Veja

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O maior atentado terrorista da História



Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica

Rosa de Hiroshima - Vinícius de Moraes

Por Cléber Sérgio de Seixas


Na manhã de 6 de agosto de 1945, um bombardeiro B-29 sobrevoava o Japão acompanhado de mais duas aeronaves. Como havia uma orientação para não interceptar pequenas formações, nenhuma medida foi adotada pela força aérea japonesa para deter os três aviões. Na fuselagem do B-29 estava escrito Enola Gay, o nome da mãe do piloto, o jovem coronel Paul Tibbets.

Ás 8:15 da manhã, nos céus da cidade japonesa de Hiroshima, o B-29 abandonava em queda livre uma bomba de gravidade armada com 60 kg de urânio-235. Quando o artefato apelidado de Litlle Boy atingiu a altitude de 600 metros acima do centro de Hiroshima, ocorreu uma explosão que, instantaneamente, pulverizou cerca de 80.000 pessoas e destruiu praticamente toda a cidade. Posteriormente, o número de vítimas seria aumentado para cerca de 240.000 devido aos efeitos da radiação. Pouquíssimas edificações ficaram de pé. Uma das exceções foi a Cúpula Genbaku, hoje Memorial da Paz de Hiroshima. Três dias depois, às 08:30 da manhã do dia 09 de agosto, a bomba apelidada de Fat Man, carregada com 6,4 kg de plutônio-239, dizimava a cidade de Nagasaki, deixando um saldo de aproximadamente 40.000 mortos.

Os alvos foram escolhidos devido à grande área urbana e à alta concentração de civis, de forma que a hecatombe pudesse vergar o ânimo combativo dos japoneses. É importante lembrar que japoneses e norte-americanos travavam uma feroz guerra no Pacífico. O caminho para Tóquio foi palmilhado pelos norte-americanos ilha a ilha e uma invasão do Japão por terra enfrentaria resistência ainda mais feroz. Hiroshima e Nagasaki eram objetivos mais civis que militares. Assim sendo, tanto o número de vítimas quanto os efeitos da devastação atestam que o lançamento das duas bombas sobre as duas cidades japonesas no fim da Segunda Guerra Mundial pode ser considerado o maior atentado terrorista da história.

Os norte-americanos argumentarão que estavam em confronto declarado contra o Japão e que o ataque seria uma forma de apressar o fim da guerra evitando, assim, mais mortes. Mas tal argumento não se justifica, visto que antes mesmo do lançamento das bombas, o Japão já se preparava para a rendição. Não havia, portanto, necessidade de um ato tão bárbaro contra civis desarmados. Nos anos 60, o general Douglas MacArthur deu a seguinte declaração: “Não havia nenhuma necessidade militar de empregar a bomba atômica em 1945”. De qualquer forma, o efeito desejado pelas tropas estadunidenses foi alcançado e em 2 de setembro de 1945 o Japão se rendia incondicionalmente.

Alguns analistas apontam que as explosões das bombas atômicas sobre o Japão consistem num dos marcos iniciais de uma época marcada por conflitos indiretos e disputas estratégicas entre as duas maiores potências nucleares do planeta. Tal período ficou conhecido como Guerra Fria.

Os norte-americanos teimam em dizer, também, que o maior atentado terrorista da história foi aquele perpetrado contra as Torres Gêmeas em Manhattan, no início do século XXI. Tal afirmativa está calcada nos pressupostos de que os Estados Unidos representam a humanidade, são o bastião da liberdade e o maior expoente da democracia. Assim, um ataque aos Estados Unidos seria um ataque contra a humanidade, contra a democracia e contra a liberdade. Tal pretensão, no entanto, só se justificaria se os terroristas islâmicos tivessem detonado ogivas nucleares nos ataques, mandando, assim, toda a ilha de Manhattan para os ares, e não somente as Torres Gêmeas.

O terrorismo de que foi alvo o Japão não tem paralelos na História e serve de lição para as grandes potências que insistem em manter e produzir arsenais nucleares.