terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2014 e suas raízes em 2013


Por Cléber Sérgio de Seixas

Chega o fim do ano e com ele renovam-se os votos de um ano vindouro cheio de felicidades e realizações. Repetem-se velhos mantras, simpatias e toda sorte de sortilégios que supostamente trarão sorte em 2014. “Que tudo se realize...”, bradam de forma imperativa os mais otimistas, à semelhança de um mago que profere a palavra mágica “abracadabra”. O novo período de 365 dias que se iniciará amanhã pode ser tudo, menos o resultado de simpatias, feitiçarias, orações, otimismo, pessimismo ou palavras mágicas. 

Poucos se dão conta de que os rebentos do amanhã são as sementes do presente. As atitudes pregressas sempre deixarão marcas no porvir. Os erros cometidos em 2013 serão parte dos desacertos de 2014. Uma das leis férreas da humanidade é tributária da física newtoniana: a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e sentido contrário. A agricultura também explica: colhe-se conforme se semeou. 

O ser humano é o único animal capaz de relacionar, de forma quase perfeita, passado, presente e futuro.  Tal capacidade o habilita a traçar planos e, com tal planejamento, alterar a realidade que o cerca. Os animais também podem planejar, diga-se de passagem. Fazem-no, contudo, exclusivamente pelo instinto de sobrevivência e perpetuação da espécie, estando o nível de consciência do planejamento em proporção direta ao do desenvolvimento do sistema nervoso da espécie. 

É pacífico que o homem, de todos os seres, é o que apresenta o sistema nervoso central mais desenvolvido. Conforme afirma Engels em O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem, “nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pôde fazê-lo.” A evolução do homem colocou-o no topo da cadeia alimentar, subordinando a ele todas as demais espécies e dotando-o da capacidade de se adaptar a todo tipo de ambiente, do gélido Pólo Norte ao cáustico Deserto do Atacama. Contudo, tal nível de sofisticação biológica não torna o ser humano imune a erros. As ações humanas incidentes sobre a natureza, por exemplo, desencadeiam um desequilíbrio ambiental que potencializa a transformação do homem de algoz em vítima. O planeta, assim, vai gradativamente convertendo-se num lugar inóspito devido às ações dos seres humanos.

O mesmo raciocínio válido para a espécie humana se aplica a seus indivíduos. Quantos se comportam de forma predatória e recebem como recompensa o salário da própria violência? E quantos foram aqueles que espalharam vento e estão, agora, colhendo tempestade? Todas as coisas estão relacionadas: yin e yang, luz e escuridão, ação e reação, presente e futuro. 

Errar, no entanto, é uma consequência do viver. A falibilidade humana imprime ao futuro de cada indivíduo um caráter de aventura, de confrontação ao desconhecido, de incompletude em busca de plenitude. Tão ruim quanto estar preso ao passado é ser consumido pela ansiedade decorrente de expectativas quanto ao futuro. O amanhã não pertence a Deus, mas ao acaso. Contudo, é possível estabelecer uma previsibilidade com base em atitudes pregressas. 

Por outro lado, a chave do sucesso não resulta tão somente da conduta individual, tal qual asseveram os manuais de auto-ajuda. As atitudes de um têm implicações profundas sobre a vida de outrem. Aplicando a Teoria do Caos, pode-se afirmar que o ruflar das asas de uma borboleta no Brasil poderia desencadear uma tempestade na Indonésia. Em outras palavras, o que um indivíduo fizer terá implicações sobre a vida de outro com o qual, não necessariamente, mantém relações diretas. O que é sorte para uns é azar para outros. O pé de coelho que supostamente dá sorte ao portador também significa o azar do animal cuja pata fora arrancada.

As origens etimológicas do nome do primeiro mês do ano encontram-se no nome do deus grego Jano (ou Januarius para os romanos), divindade em cuja cabeça se encontravam duas faces diametralmente opostas, uma para olhar para frente e outra para trás, uma para vislumbrar o futuro e outra para fitar o passado. Janeiro é tanto o patrono dos finais quanto o arauto dos inícios. 

O ano que se inicia, de certa forma, é também o ano que finda. Assim sendo, pouco ou nada adiantarão exortações, promessas e simpatias se os germes de um futuro nada auspicioso estiverem presentes no tempo hodierno. 2014 é, de certa forma, a extensão de 2013. 2014 será um ano novo ou feliz? Depende de 2013.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

E aí? Teremos grandes protestos de rua em 2014?


Quem vai ganhar a final no Maracanã em julho de 2014? Dilma se reelegerá ou outro postulante ficará com a faixa presidencial? Não, a pergunta que mais ouvi em conversas com colegas jornalistas de redações de São Paulo, Rio e Brasília nos últimos meses não foram essas, mas sim qual será o tamanho e o impacto das manifestações que devem acontecer aproveitando a Copa do Mundo e as eleições gerais?

O tamanho de alguns dos grandes protestos de junho, como o que juntou mais de 250 mil pessoas na segunda (17), em São Paulo, é resultado de uma catarse, fomentada por uma série de fatores – das demandas por mobilidade urbana, passando pela insatisfação com a violência policial, a exigência de liberdade de expressão em espaços públicos, o desejo de participação política dos mais jovens e a crítica às autoridades políticas, econômicas e midiáticas, sejam eles quem forem, como já discutimos à exaustão neste espaço.

Mas como um mesmo rio não passa duas vezes pelo mesmo lugar, é difícil reproduzir os mesmos elementos que trouxeram uma enxurrada de gente para as ruas de cidades em todo o país. E, mesmo reproduzidos, imaginar que eles irão influenciar da mesma forma um tecido social que não tem as mesmas características exatamente porque já passou por junho e todo o seu rescaldo também é complicado.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A cidade e o ribeirão

Por Maria do Carmo Freitas *

                               “Se sou o Ribeirão, não sei
                                                             Sei que ele ecoa em mim.”
                                                                                      (Danilo Horta)

O escritor Roland Barthes em “A Aventura Semiológica”, afirma que a cidade é um discurso, e esse discurso é verdadeiramente uma linguagem: “a cidade fala aos seus habitantes, nós falamos à nossa cidade.”

Para a pesquisadora Valéria Aparecida S. Machado, a Literatura pela capacidade de promover o descolamento de elementos para a construção de novos significados opera como uma leitura que confere “um sentido e uma função” aos cenários da cidade, ordenando o real e lhe dando um valor.

Também a ensaísta Lucrécia D' Aléssio Ferrara, no livro “Olhar Periférico”, pontua: “por sobre as causas e consequências do fenômeno urbano estão as imagens da cidade: ruas avenidas, praças, coretos”, apontando para o fato de que a cidade se dá a ler nessas imagens e signos que a constituem, podendo ser transfigurada e reconstruída numa diversidade de significados.

Dessa forma, a literatura, na tentativa de suscitar uma reflexão sobre os modos como o homem se relaciona com o meio urbano, pontua que é neste espaço que se pode construir significados novos, mas sempre referenciando o passado. 

No contexto da modernidade, como situar Ribeirão das Neves baseado nos conceitos literários e antropológicos? Como seus habitantes a vivenciam? Que imagens são guardadas na memória de seus habitantes. Que olhar dar ao município?

As explicações do arquiteto e artista plástico, Almandrade, sobre “cidade”, apontam caminhos para um melhor entendimento. Segundo Almandrade, estamos sempre a falar da paisagem urbana a partir de nossas relações com as contradições sociais, com o passado que a memória não esqueceu ou com os conflitos e harmonias que fazem o presente. E é sobre esse ângulo que se encontra uma causa, uma explicação para as imagens onde a cidade se deixa perceber.

Ainda segundo Almandrade, é na forma de imagens que a cidade ganha uma existência concreta na memória de seus habitantes, e que também documenta as mensagens do tempo. Isso porque sem as imagens que habitam a sua própria memória, a cidade estaria perdida num fragmento do tempo. Sem recordações o presente não teria continuidade.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Fotos e Fatos - Carter e a menina sudanesa




Por Cléber Sérgio de Seixas

Há décadas uma guerra civil devasta o Sudão, o maior país do continente africano. Os grupos SPLA (Exército de Libertação do Povo Sudanês) e JEM (Movimento para Justiça e Igualdade) lutam contra milícias pró-governo, acusado pelos rebeldes de promover uma faxina étnica contra a população negra. Em 1991, o país adotou um código penal baseado na lei islâmica Sharia, o que acirrou os combates dos rebeldes do SPLA e JEM contra o governo de maioria árabe-muçulmana. Em 1993, em decorrência do conflito, mais de 600 mil refugiados morreram de fome. 

Naquele ano, mais precisamente no dia 11 de março, o fotógrafo Kevin Carter acompanhava a Organização das Nações Unidas (ONU) na Operação Lifeline Sudan quando avistou uma criança tentando chegar a um centro de distribuição de alimentos da ONU, localizado nas proximidades da aldeia Ayoud, sudeste do Sudão. Próximo à criança faminta estava um abutre-de-capuz. O fotógrafo sul-africano registrou a cena, o que lhe valeu o Prêmio Pulitzer de fotografia de 1994. 

Muito se especulou sobre o destino da menina que aparece na foto, mas nunca se soube o que aconteceu com ela. Quanto ao fotógrafo, quatro meses depois do registro da imagem do garoto faminto espreitado pelo abutre, Carter cometeu suicídio. Deixou uma nota na qual dizia: “Estou deprimido... sem telefone... dinheiro para o aluguel... dinheiro para sustentar as crianças... dinheiro para dívidas... dinheiro! ... Estou assombrado pelas vívidas memórias de mortes e cadáveres e raiva e dor... de morrer de fome ou de crianças feridas, de loucos com dedos no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos assassinos...”. 

Parte da história de Kevin Carter é contada no filme The Bang Bang Club.  


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O capitalismo agoniza

Por Jeferson Malaguti Soares *

Antes de a crise financeira mundial atingir as proporções que tomou, as bolsas de valores dominavam as manchetes na mídia. O rentismo surfava absoluto nas águas até então calmas do capitalismo neoliberal. Foi necessária coragem para que os vilões fossem detectados, quando da derrocada. Wall Street esperneava para escapar da turma dos especuladores. Não adiantou, caiu. Tempos aqueles muito propícios aos que buscavam lucro fácil. O deus do mercado tinha sacerdotes influentes e poderosos. Mesmo quando a economia mundial crescia a 5% ao ano, a crise explodiu, o desemprego acelerou até os níveis absurdos que vemos hoje nos EUA e Europa. Ficou claro que aquele crescimento era fictício e frágil.

Importante reservar capítulo à parte para a mídia nacional que, desde então, deita falação sobre economia, profetizando maus augúrios para a nossa. Ultimamente, atingiram tal nível de retórica que quem nunca esteve por aqui acredita estar o Brasil se afundando num buraco sem fim. Verdadeiros contos do vigário. E há quem caia neles, por ingenuidade, ignorância ou a eles se atrele, por má-fé mesmo. O Brasil da Era FHC era só “prosperidade” para nossa comprometida imprensa, apesar das desigualdades terem crescido assustadoramente em vista da política cruel do neoliberalismo cultuada pelos tucanos. O desemprego batia às portas dos 20%. E a mídia aplaudia.

Depois do Muro de Berlim mais um muro ruiu, o de Wall (muro em inglês) Street. Por ocasião da derrubada do muro que dividia as Alemanhas, profetas do acontecido proclamaram o fracasso do socialismo. Agora cai o wall nova-iorquino depois das especulações financeiras desbragadas, num ritmo alucinante de privatizações irresponsáveis (vide o caso da Vale aqui no Brasil). Quem na verdade fracassou? O socialismo permanece firme e crescendo em todo o planeta, apesar das gralhas neoliberais. Fracassa, sim, o capitalismo neoliberal e a sua elitizada estrutura de poder.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Os movimentos sociais no contexto da democracia

Por Cléber Sérgio de Seixas

Nossa democracia é ainda recente. Para conquistá-la, muitos pagaram um preço altíssimo. No pós-64, Os que ousaram combater oa tirania pela única via que restou após a supressão de todas as alternativas democráticas e pacíficas, sofreram nas mãos de verdugos fardados a serviço dos interesses do capital transnacional e da burguesia tupiniquim, ciosa em defender seu status quo de classe social dominante. Os que sobreviveram, carregaram e carregam no corpo as marcas resultantes das barbáries contra si cometidas. Os que morreram, ainda hoje não têm o reconhecimento que merecem por terem oferecido suas vidas no altar da luta pela justiça social e pela redemocratização, o que se atesta facilmente ao verificar que nossos monumentos, praças, ruas, viadutos, pontes e estádios de futebol ainda hoje levam os nomes daqueles que contribuíram para que uma noite de 21 anos se abatesse sobre a tão claudicante democracia brasileira. 

Quando os desdobramentos de uma transição lenta, gradual e segura aos interesses dos golpistas de 64 se transformaram numa torrente que não mais se poderia deter, uma negociação foi feita “por cima”, uma transição foi orquestrada de forma que a volta da democracia não punisse aqueles que a suprimiram. A Lei da Anistia permitiu a volta dos degredados e a devolução de seus direitos políticos, da mesma forma que garantiu e garante a impunidade dos agentes da ditadura. Assim, o povo brasileiro recebeu das mãos dos militares uma democracia pela metade, maculada por resquícios da ditadura. Recebeu-a, diga-se de passagem, das mãos de um presidente que dizia preferir cheiro de cavalos a cheiro de povo. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mandela e a força de seu exemplo



Por Cléber Sérgio de Seixas

Nesse triste momento da morte de Nelson Mandela, não esqueçamos que ele só foi bem aceito pelas potências ocidentais porque não "bateu de frente" com os interesses do capital transnacional em seu país, o que poderia acarretar um novo Moçambique no sul da África. Isso, porém, não ofusca o brilho de sua trajetória, pois entre os grandes líderes da história há também aqueles que souberam recuar taticamente nos momentos certos em prol de uma estratégia de maior amplitude. 

Antes de qualquer coisa, Mandela era um líder de esquerda, o que tentam e tentarão varrer para debaixo do tapete da História canonizando-o, nos moldes do que fizeram e fazem com Che Guevara ao torná-lo uma simples efígie estampada em camisetas. 

Para ilustrar esse processo, aproveito para lembrar as sábias palavras de Lênin em "O Estado e a Revolução", um de meus livros de cabeceira: 

"Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois de sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para ‘consolo’ das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o”

Lembrar de Mandela apenas no pós-libertação – o Mandela conciliador, apaziguador, “paz e amor” - é castrar a essência de seu pensamento. Há que se lembrar também do Mandela que optou pela luta armada no início da década de 60 e do Mandela que passou quase três décadas na prisão, tempo no qual a força de seu exemplo inspirou a luta de um povo contra um dos regimes mais racistas do mundo. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Barbosa e o viés autoritário

Por Marcos Coimbra na Carta Capital

A figura de Joaquim Barbosa faz mal à cultura política brasileira. Muito já se falou a respeito de como o atual presidente do Supremo conduziu o julgamento da Ação Penal 470, a que trata do “mensalão”. Salvo os antipetistas radicais, que ficaram encantados com seu comportamento e o endeusaram, a maioria dos comentaristas o criticou.

Ao longo do processo, Barbosa nunca foi julgador, mas acusador. Desde a fase inicial, parecia considerar-se imbuído da missão de condenar e castigar os envolvidos a penas “exemplares”, como se estivesse no cumprimento de um desígnio de Deus. Nunca mostrou ter a dúvida necessária à aplicação equilibrada da lei. Ao contrário, revelou-se um homem de certezas inabaláveis, o pior tipo de magistrado.     

Passou dos limites em seu desejo de vingança. Legitimou evidências tênues e admitiu provas amplamente questionáveis contra os acusados, inovou em matéria jurídica para prejudicá-los, foi criativo no estabelecimento de uma processualística que inibisse a defesa, usou as prerrogativas de relator do processo para constranger seus pares, aproveitou-se dos vínculos com grande parte da mídia para acuar quem o confrontasse.