sábado, 30 de abril de 2011

População organizada exige embargo do complexo penitenciário em Neves



Por Rachel Córdova


A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais aprovou requerimentos a serem encaminhados ao Governo do Estado para embargar a construção do Complexo Penitenciário em Neves. A exigência partiu de lideranças comunitárias e sociedade civil organizada, que lotou salão paroquial na noite desta terça-feira (26) em audiência pública realizada no município. Cerca de 400 pessoas participaram do debate, entre elas: integrantes da Rede Nós Amamos Neves; estudantes da rede municipal e estadual; associações e sindicatos; entidades religiosas de várias regiões da cidade.


A população denuncia irregularidades no processo da obra. Decisões de forma autoritária por parte do Governo do Estado, posicionamento tímido dos representantes do município, o descumprimento da Lei Municipal de preservação ambiental do município, o modelo de Parceria Público Privada do projeto e a falta de estrutura do Poder Judiciário local foram alguns dos argumentos apresentados no debate pelas autoridades e representantes da sociedade civil durante a audiência.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Durval Ângelo (PT) fez a abertura do debate relatando alguns trabalhos da comissão em relação ao sistema prisional no Estado, estimulando a população a não desanimar na luta contra mais cadeias no município. “Essa audiência ajuda muito, mas o povo precisa exercer uma atuação firme e efetiva. Pois a meta do Governo é construir uma estrutura muito maior”, alertou o deputado. O responsável pelo requerimento da audiência foi o deputado Rogério Correia (PT) que ficou impressionado com a mobilização do povo, afirmando que a força da população ainda pode mudar a história da cidade. “O Governador tem que dá ouvido à população de Ribeirão das Neves”, cobrou Rogério.

Outros requerimentos

Além do requerimento para embargar a obra, também foram aprovados requerimentos: à Secretaria de Defesa Social para a desativação da Penitenciária José Maria Alkimin e sua transformação em patrimônio cultural do município; à Prefeitura Municipal e Secretaria de Meio Ambiente para criação do Parque Ecológico na área da Fazenda Mato Grosso, local previsto para o novo presídio; requerimento para revisão do processo de licenciamento ambiental para a construção do presídio; requerimento para um encontro da comissão da Rede com o governador e requerimentos aos responsáveis pelo Ministério Público, Poder Judiciário Estadual e Defensoria Pública para que sejam feitas melhorias nas instituições em Ribeirão das Neves.

Para o Pe. José Geraldo de Sousa, articulador nas comunidades nas questões sociais na cidade, o debate demonstrou a força do povo e serviu também de alerta para as autoridades rever a posição sobre esse projeto. “Essa audiência pública é um verdadeiro exercício da cidadania”, ressaltou o pároco.

Segundo integrantes da Rede, o Prefeito Municipal, Walace Ventura (PSB) e o presidente da Câmara Municipal, Juninho Martins (PSC) perderam a oportunidade de somar com a população e foram muito criticados por mandarem representantes.

A assinatura de um Termo de Conformidade assinado pelo prefeito e o seu posicionamento cauteloso tem desagradado à população. No entanto, o assessor de comunicação, Leonardo de Oliveira, que participou da audiência, disse que o prefeito tem se manifestado ao Estado e à população contra a vinda do Complexo Penitenciário e estudado todas as medidas com responsabilidade e inteligência para que o município não seja mais prejudicado. A cautela do prefeito tenta assegurar o município que depende de investimentos do Estado, principalmente na área da saúde. Já em relação às críticas que recebeu por ter assinado um termo de conformidade ao Estado, Leonardo foi incisivo negando a autorização do prefeito para o inicio das obras, que deu início em dezembro do ano passado. “O Estado fez uma consulta e a prefeitura assinou o documento declarando que o espaço era passível de análise, mas não autorizou nada”, explicou o representante do prefeito.

Para o vereador Fábio Caballero (PV), que fez o uso da palavra na audiência, o termo assinado pelo prefeito no ano passado é viciado, pois está baseado numa Lei de 2006, que foi alterada em 2009, transformando a região da Fazenda Mato Grosso numa Área de Preservação Ambiental (APA), sancionada pelo prefeito. “A assinatura desse documento, por si só não autorizou o início das obras, mas eu entendo que foi essa a declaração que subsídio de alguma maneira”, ressaltou o vereador. Segundo Fábio, a Câmara está juntando documentos para mover uma Ação Civil Pública e aguarda retorno da prefeitura das solicitações encaminhadas desde o final de março.

Justificativas

O assessor de comunicação justificou que o prefeito não compareceu na audiência pois estava trabalhando em um projeto a ser encaminhado ainda esta semana para conseguir recurso para obra do PAC 2 na região de Justinópolis. Já o presidente da Câmara não compareceu, justificando que não foi convidado formalmente. Antes ainda de terminar os debates participantes da audiência encontraram o vereador em um restaurante no Centro da cidade.

Estudantes entram na luta contra cadeias

O estudante Marcelo Henrique, que cursa o 2º ano do ensino médio na Escola Estadual Pedro de Alcântara, disse que o debate foi esclarecedor, e que muitas vezes a juventude e os moradores são desmotivados em relação às questões sociais. “Acho importante à participação dos jovens, pois um vai passando para o outro e amplia a discussão. Acredito que esse envolvimento nos dá argumentos para discutir sobre o assunto e aumenta a chance de impedir a construção de mais um presido na cidade”, afirmou o jovem. O estudante também comentou que a juventude sente-se excluída no município. “A postura dos governantes tem privado a juventude da realidade política do nosso município ao impor projetos sem consultar a população”, avaliou Marcelo Henrique.

Já para a professora de história Maruáia de Castro, 26 anos, que leciona na Escola João Correia Armond, a audiência mostrou que a cidade está agindo e não aceita a imposição das autoridades. A educadora revela que fica triste ao perceber que a juventude de Neves sente vergonha e não reconhece o município como um lugar de referência para se viver. “Hoje estamos construindo uma nova história. Vou trabalhar ainda mais para conscientizar os meus alunos de que Neves tem memória e que a nossa cidade é feita de lutas com pessoas que acreditam na mudança. Espero que os nossos jovens possam ser escutados e que eles possam ter mais oportunidade de emprego e lazer”, desabafou a professora.

Também participaram na mesa: a deputada Lisa Prado (PSB); Mirtes Lima, representando o presidente da Câmara Municipal, vereador Juninho Martins; o defensor público, Gustavo Corgosinho; Rafael Lima Ribeiro, representando o doutor Virgílio de Mattos; o presidente da 137ª subseção da OAB/MG do município, José Alexandre da Costa; o professor, Michel Marie Le Vem; a presidente da Associação Ambientalista Naturae Vox, Márcia Silva.


Fonte: site Ribeirão das Neves.net

________________________________

Nota do blog:
Abaixo é reproduzido um vídeo com algumas imagens do evento. A qualidade não está lá essas coisas em função da modestíssima câmera digital à disposição dos mantenedores deste blog.



Ler também:
- Dos que amam Ribeirão das Neves;
.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Casamento real

Por Frei Betto*

Em Cambridge, onde morei em 1987, descobri porque a BBC não produz telenovelas. País coroado por lendária família real, como a Inglaterra, dispensa contos de fadas. Basta ligar a TV. A telinha, ao focar a monarquia, exibe cenas tão exuberantes que a realidade parece superar a fantasia.

Aristóteles, mestre em teoria literária, ensina que a ficção não precisa ser verdadeira, precisa ser verossímil. O espectador ou leitor tem que ficar convencido de que toda aquela fantasia brotada da imaginação tem certa coerência. Júlio Verne e Monteiro Lobato que o digam.

Ora, e se eu dissesse a você, leitor(a), que acabo de ler um romance no qual uma princesa, Anne, depois de 20 anos de casada, decide se divorciar de seu marido, Mark, por suspeita de adultério? Como narrativas centradas na nobreza requerem temperos de romantismo e intriga, sedução e traição, o irmão da princesa, Charles, herdeiro do trono, também se separa de sua bela mulher, Diana, mãe de seus dois filhos, para se juntar a uma mulher divorciada, a inexpressiva Camilla.

Indignada com a atitude do filho, a rainha se recusa a abdicar, impedindo-o de ascender ao trono. A princesa Diana cai nos braços de um miliardário árabe, sob o risco de dar à luz, na nobre linhagem da Casa de Windsor, cabeça da Igreja Anglicana, o primeiro rebento muçulmano...

Mais eis que o destino a conduz à morte num trágico acidente automobilístico num túnel de Paris. Destronada da nobreza e da vida, Lady Di passa a merecer veneração mundial por sua beleza e dedicação a causas sociais.

Andrew, outro filho da rainha, se casa com uma tal Sarah. Seis anos depois, o casamento fracassa. Sarah perde as regalias nobiliárquicas e, desesperada, é flagrada negociando com empresários, por quantia superior a R$ 1 milhão, acesso ao ex-marido, representante comercial da Grã-Bretanha.

São todas histórias reais – no duplo sentido do adjetivo. Que autor de novela ou romance bolaria trama tão instigante e apimentada?

Agora, o mundo parece esquecer guerras e dores, trabalhos e dificuldades, para se deliciar com o casamento do príncipe William, filho de Charles e Diana, com a plebéia Kate Middleton. O sonho em forma de realidade! O verdadeiro reality show!

Não apenas os noivos expressam felicidade. A combalida economia britânica afetada pela crise do capitalismo iniciada em 2008, também se rejubila. Como isca de turismo e venda de suvenires, a família real britânica garante aos cofres do país cerca de R$ 1,2 bilhão por ano. Nesses poucos dias, prevê-se um faturamento de R$ 4,8 bilhões, graças aos milhares de turistas que afluem a Londres pelo prazer de repetir o resto da vida: “Naquele dia eu estava lá”.

A UK Gift Company, especializada na venda de penduricalhos reais (chaveiros, isqueiros, louças com foto dos noivos, bolsas estampadas etc) calcula um aumento de 40% nas vendas.
Mundo afora, mais de 2 bilhões de pessoas, de olho nas bodas reais via TV ou internet, fazem a festa das agências de publicidade e das empresas anunciantes.

Acima de toda essa nobre parafernália paira uma pergunta: vale a pena os súditos britânicos sustentarem a família real? Ora, a Casa de Windsor custa, a cada súdito, a bagatela de R$ 1,66 por ano. E tem em propriedades algo em torno de R$ 16 bilhões. A maior parte desse patrimônio está alugada, e a renda vai direto para os cofres públicos. Caso a monarquia fosse abolida, a família teria direito de apropriar-se da renda.

E nós, pobres plebeus, que admiramos extasiados bodas reais e já não temos monarquia? Elementar, meu caro Watson: revestimos os nossos ídolos de majestade – o rei Pelé; Roberto Carlos, o rei; misses coroadas e escolas de samba em pompas principescas.

Ainda bem que o nosso príncipe destronado, dom João Henrique de Orléans e Bragança, bisneto da princesa Isabel, assume tranqüilo sua condição de feliz plebeu. Fotógrafo e hoteleiro, vive numa bucólica casa em Paraty e não perde a oportunidade de oferecer aos amigo uma deliciosa cachaça.


* Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, de Conversa sobre a fé e a ciência (Agir), entre outros livros.

Fonte: jornal Estado de Minas – 28/04/2011.
.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Agenda - contra a privatização do sistema penitenciário em MG

Centro de Ribeirão das Neves - foto de 2004

Convido todos os cidadãos de Ribeirão das Neves a participar da audiência pública convocada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) a realizar-se às 19 horas do dia 26 de abril de 2011. No evento, serão debatidos a privatização do sistema penitenciário ora promovida pelo Governo do Estado e a instalação de mais prisões em Ribeirão das Neves.

Local: salão paroquial da Igreja Nossa Senhora das Neves
Endereço: Centro - Ribeirão das Neves/MG

Contra a privatização do sistema penitenciário.
Minas não quer choque, quer terra, trabalho e educação.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Para Julian Assange, Guantánamo é “monstruosidade”


Por Natalia Viana

“Os Arquivos de Guantánamo, que o WikiLeaks começou a publicar, jogam luz sobre essa monstruosidade da era Bush que a administração Obama decidiu continuar”, afirmou Julian Assange com exclusividade para a Pública nesta segunda-feira.

A declaração de Assange resume a importância do vazamento mais recente da organização, que começou a ser publicado ontem à noite. São milhares de fichas de prisioneiros ou ex-prisioneiros de Guantánamo, em Cuba, e outros documentos relacionados, emitidos pela JFT-GTM (Força-Tarefa de Guantánamo) e enviados na forma de memorandos ao US Southern Command (Comando Sul dos Estados Unidos).

As fichas relatam o estado de saúde dos atuais presos, refazem a teia investigativa que os levou à prisão e revelam que boa parte dos acusados foram incriminados com base em depoimentos de outros presos obtidos sob tortura dentro e fora de Guantánamo – nas prisões secretas da CIA. Uma revisão cuidadosa dso documentos revela que o mercado de recompensas promovido pelos Estados Unidos levou à detenção de inocentes por acusações formuladas por informantes interessados em prêmios em dinheiro.

Também revelam como são feitos os “pareceres”, que recomendam a permanência ou não dos presos em Guantánamo, não apenas pela força-tarefa mas também pelos responsáveis pela investigação criminal e psicólogos encarregados de avaliar a maneira que devem ser utilizadas as informações obtidas em outros interrogatórios.

“A publicação dessas informações é importante para o público, para os prisioneiros e ex-prisioneiros, e para os juízes que se ocupam desses casos. Muitos estão presos há anos sem acusação formal e com base em testemunhos falsos”, disse Assange.

“Está na hora de reacender a discussão pública sobre a prisão de Guantánamo, na esperança que finalmente se possa fazer alguma coisa para trazer justiça para esse estabelecimento”, afirmou o fundador do WikiLeaks, que qualificou Guantánamo de “estabelecimento de ‘lavagem de pessoas’.

A comparação com a lavagem de dinheiro, em que bancos internacionais “escondem” recursos suspeitos, é empregada por Assange pelo fato de Guantánamo esconder da sociedade a verdadeira história dessas prisões para justificar a política criminosa de prisão sem julgamento e os meios ilícitos empregados para prendê-los.

Na conversa com a Pública, Assange fez questão de destacar que os veículos parceiros nesse lançamento são o Washington Post, dos EUA, o El Pais, da Espanha, o Telegraph, do Reino Unido, a revista Der Spiegel , da Alemanha, o francês Le Monde, da Franca, o Aftonbladet, da Suecia e o italiano La Repubblica.

Isso por que, apesar de não estarem entre os parceiros oficiais, os jornais New York Times, dos Estados Unidos, e Guardian, do Reino Unido, publicaram ontem reportagens baseadas nos mesmos documentos secretos, entregues por uma outra fonte, que preferiu permanecer anônima. Segundo a Pública apurou, por causa disso, o vazamento foi adiantado porque os dois jornais pretendiam “furar” o WikiLeaks.

É o capítulo mais recente da novela que envolve o WikiLeaks e esses dois jornais.

No início do ano passado, o Guardian contratou uma jornalista inglesa que obteve os documentos relativos às embaixadas americanas de um colaborador do WikiLeaks. Naquele momento, o jornal desistiu de publicá-los antes da organização, porque Assange ameaçou processá-lo com base em um contrato assinado pelas duas partes.

Depois disso, Julian rompeu com o Guardian, que publicou um livro sobre o Wikileaks considerado tendencioso pelo fundador da organização. Assange também se irritou com a publicação do processo contra ele movido na Suécia, incluindo detalhes sobre as relações que manteve com as mulheres que o acusam de delitos sexuais. “Transparência é para governos e não para pessoas”, disse ele na época.

Também com o New York Times, as relações têm sido conturbadas. Em janeiro, o editor Bill Keller escreveu um artigo em que chamava Julian de “arrogante, cabeça-dura, conspiracional e estranhamento crédulo”, alem de dizer que ele “cheirava mal”. Não foi o primeiro problema: depois da publicação dos documentos das embaixadas americanas, Keller passou a chamar Assange e o WikiLeaks de “fonte” em vez de uma organização jornalística. A diferenciação tem consequências legais, pois os jornalistas são protegidos pela quarta emenda constitucional americana.

No início de abril, durante um congresso de jornalismo na Universidade de Berkeley, na California, Keller e Assange – este por skype já que está sob prisão domiciliar – , participaram de um debate em que o fundador do WikiLeaks acusou o jornal de trabalhar a favor do governo americano. “O papel da imprensa é obrigar as organizações poderosas a prestar contas, e não encobrir seus erros”, disse.

Keller continuou chamando o WikiLeaks de “fonte” durante todo o debate. Mas brincou: “A grande vingança de Julian e que eu terei que passar anos da minha vida participando de debates sobre o WikiLeaks”.


Fonte: Pública - Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo
.

domingo, 24 de abril de 2011

Observadores Sociais - há dois anos enxergando além do lugar-comum


Por Cléber Sérgio de Seixas

Há alguns anos, assisti a um vídeo institucional cujo tema era responsabilidade social. O material fazia parte de uma estratégia motivacional para conscientizar os funcionários da empresa onde eu trabalhava a respeito da importância da responsabilidade social corporativa. Num dos trechos, foram mostradas imagens de pessoas famintas ou em situação de extrema pobreza em diferentes países. Foi neste momento que um dos presentes afirmou que ver tais imagens lhe causava mal estar. Em outras palavras, era como se aquela pessoa dissesse que as questões relativas à pobreza e à fome extrema eram temas cuja abordagem não deveria ser feita de forma tão ostensiva para não ferir suscetibilidades.

Assim como tal pessoa, muitos hoje não têm olhos para ver o que se passa a sua volta ou tiveram sua sensibilidade embotada pelo entretenimento que hoje grassa na sociedade. Em seu Discurso da Servidão Voluntária, Etienne de La Boétie narra a estratégia de Ciro II para subjugar os habitantes de Sardes, principal cidade da Lídia. Para evitar um confronto militar, o monarca persa instalou na cidade bordéis, tavernas e jogos públicos para distrair o povo lídio. Tal estratégia mostrou-se tão eficaz que Ciro nunca teve necessidade de utilizar a espada para dominá-los. A experiência lídia legou à Última Flor do Lácio a palavra lúdico, sinônimo de jogos e atividades de passatempo e distração. Na atualidade a estratégia é a mesma: distrair para despolitizar, entreter para dominar e, porque não, dividir para conquistar. No pani et circences moderno, o entretenimento que toma forma no folhetim televisivo, nos programas de auditório, no cinema despolitizante e depolitizado, nos jornais sensacionalistas, etc, é mais eficiente do que foram os jogos de gladiadores na Roma antiga.

Se há quem não se sensibilize com o espetáculo da injustiça social, há também quem se escandalize e se engaje na luta pela sua diminuição. Nós, os Observadores Sociais, estaremos sempre dispostos a observar a sociedade, nos indignar com suas injustiças e nos solidarizar com aqueles que foram postos à margem dos direitos sociais, dando nossa pequena contribuição para um país mais justo. Nossa observação, assim, irá além da contemplação passiva.

Não pretendemos nos arvorar em conscientizadores ou condutores de outros, pois sabemos no que deram os duces e os timoneiros. Apenas lançamos sementes que, acreditamos, germinarão nos corações e mentes dos que se indignam ao ver a miséria alheia. Não pretendemos ser os do contra, mas já o somos na medida em que remamos contra a maré do senso comum e lutamos contra a ditadura do pensamento único. Daí a proposta estampada no subtítulo deste blog: enxergar além do lugar-comum.

Nós, os Observadores Sociais, enxergamos no processo globalizatório capitalista – chamado por muitos intelectuais de “globocolonização” – uma estratégia de homogeneização. No zeitgeist atual, loas são entoadas à individualidade. No entanto, como falar em individualidade se todos se vestem da mesma forma, lêem os mesmos livros, curtem as mesmas músicas ou apreciam os mesmos filmes? Individualidade implica analisar e ponderar sobre uma determinada proposição antes de introjetá-la. Individualidade não combina com aceitação acéfala do que é apresentado. Se, por exemplo, todos estão por aí dizendo que Fidel e Chávez são ditadores, vamos primeiro analisar o contexto sócio-histórico-econômico cubano e venezuelano, tentando buscar nele as raízes do que hoje se descortina diante de nossos olhos. Nessa busca pode ser que cheguemos a conclusões diferentes das que nos são oferecidas pela grande mídia, a salvo dos maniqueísmos.

Este blog completa hoje dois anos e ainda caminha para sua maioridade. Até agora temos tido força suficiente para seguir modestamente em nossa missão de servir de contraponto à grande imprensa, fomentar a cidadania, a consciência de classe e a politização por meio da difusão de informações que julgamos ser de utilidade pública e mais próximas da verdade factual.

Percalços até aqui não faltaram: cuidados com a família, oito horas diárias no trabalho, três horas diárias no transporte público e os estudos da faculdade. Contudo, seguimos impelidos pela utopia, pelo apoio dos 92 leitores que nos seguem visivelmente – há um ano eram apenas 16 - e também daqueles que, anonimamente, prestigiam este blog. A todos agradecemos muitíssima e cordialmente.

Há um ano nos colocávamos como andarilhos em uma quixotesca jornada. Pois bem, tal jornada continua e volto a citar a frase do cineasta Fernando Birri: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Talvez não cheguemos nunca ao ponto onde desejaríamos hoje estar: o socialismo. Mas é tal esperança de futuro que continuará a nos nortear nessa árdua jornada.

Para finalizar, gostaria de citar uma frase do dramaturgo George Bernard Shaw: “Você vê as coisas como elas são e pergunta: por quê? Mas eu sonho com coisas que nunca foram e pergunto: por que não?”
.

sábado, 23 de abril de 2011

Agenda: um escrevinhador na capital mineira

O jornalista Rodrigo Vianna estará em Belo Horizonte para um debate cujo tema é "O papel político do jornalista e as redes sociais". O evento faz parte do Fórum de Debates promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais.

Rodrigo é jornalista há 22 anos, tendo passado por veículos como Rede Globo e Folha de São Paulo. Atualmente trabalha na Rede Record e há 3 anos mantém o blog Escrevinhador. É um dos expoentes do que tem sido denominado "blogosfera progressista", ou seja, um conjunto de blogueiros não-alinhados com a grande mídia, e que luta pela democratização do direito à comunicação.

O debate ocorrerá às 19 hs na Sala Multimídia do Instituto Izabela Hendrix - Campus Praça da Liberdade, localizado à Rua da Bahia, 2020. A entrada é gratuita.
.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Sem tréguas

Reproduzo artigo de Wladimir Pomar* pulicado no site Brasil de Fato.

Nem bem passaram cem dias de governo Dilma e já assistimos a uma campanha orquestrada para demonstrar a sua incompetência. Essa campanha começou com a unção do senador Aécio Neves como nova liderança nacional do PSDB, aparentemente com o apoio de Serra. Aécio atacou desabridamente o PT, comparando-o negativamente ao PSDB.

Depois disso, surgiu o estudo de um pesquisador de um organismo estatal, apontando que as obras dos aeroportos, para atender ao crescimento da demanda de transporte aéreo, seja pelo aumento do poder de compra da população de baixa renda, seja pelo afluxo de visitantes para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, não ficariam prontas a tempo para a Copa. Coincidentemente, no dia seguinte, apareceu ao vivo a propaganda política do PSDB, acusando o governo de incompetência nas obras e insinuando que há algo de errado (não chegou a dizer de podre) nesses projetos.

No mesmo período, um grande órgão da imprensa noticiou que o governo não tratará mais da inflação, com base na leitura transversa da declaração de alguma autoridade ou pesquisador. Coincidentemente, logo depois, a propaganda política do PSDB acusou o governo de incompetente no controle inflacionário, algo que, segundo ela, estaria resolvido desde 1994 (a memória curta impede a oposição de reconhecer o estouro inflacionário do final de governo FHC), e que haveria algo de errado (ou de podre?) nessa questão.

Essas dobradinhas coincidentes estão ocorrendo em relação a diversos outros assuntos, como o enfrentamento da crise econômica global, iniciada em 2008, o baixo crescimento das taxas de investimento, a desindustrialização, a queda na balança comercial e qualquer outro assunto que possa servir para atacar a suposta incompetência do governo e insinuar que existe algo de podre no reino petista. Algum especialista, do governo ou não, ingenuamente ou não, planta um estudo crítico. Isso, ou algum ponto tirado do contexto, logo se torna manchete num dos órgãos da grande imprensa. E, imediatamente ou mais tarde, se torna peça de propagando do PSDB, DEM ou algum de seus aliados.

Em outras palavras, a idéia de que a oposição continuaria desarticulada, dividida e inativa por um longo período já não tem mais sentido. Seus componentes chegaram a um acordo tácito para a guerra publicitária contra o PT e a pressuposta incompetência do governo Dilma. É lógico que essa campanha se choca com a realidade, mas ela pode ser acompanhada de sabotagens e trabalhos de sapa no interior do Estado. E alguns de seus argumentos jogam com interesses díspares, podendo encontrar ressonância em setores sociais e políticos que, neste momento, fazem parte do campo aliado. Portanto, não se pode deixar que apenas o tempo demonstre que a oposição reacionária está assacando mentiras e inverdades.

Tomemos o caso das taxas de investimento. Em termos percentuais, o governo Lula não conseguiu ultrapassar os 19% do PIB, quase a mesma taxa anual de investimento do período FHC. A direita tem se aproveitado do discurso da ultra-esquerda, que acusa Lula de haver mantido uma taxa de investimento semelhante à de FHC, o que comprovaria que Lula e FHC teriam sido idênticos.

É verdade que essa taxa é relativamente baixa para alavancar um crescimento econômico sustentável. No entanto, tanto a direita quanto a ultra-esquerda escondem que a natureza dos investimentos no governo Lula foi radicalmente diferente dos investimentos no governo FHC. Neste, os investimentos foram realizados principalmente para a compra de empresas estatais e privadas brasileiras e para o jogo especulativo na bolsa de valores. No governo Lula, embora não tenha sido fechado o cassino da especulação financeira, a privatização dos bens públicos foi paralisada e os investimentos diretos foram direcionados para a instalação de novas plantas industriais.

Nesse sentido, a acusação de Dilma continuar pondo em prática uma política de desindustrialização é, na melhor das hipóteses, propaganda enganosa, que mereceria sanções do Conar. Na verdade, por trás dela há uma intrincada teia de interesses de corporações estrangeiras e empresas mistas e brasileiras, que se sentem ameaçadas pela concorrência chinesa. Bobagens como a acusação de que o governo só se preocupa com investimentos no agronegócio, na mineração e no pré-sal, na perspectiva de vender soja, minérios e petróleo para o dragão China, são repetidas à exaustão, às vezes por economistas e politólogos de certo renome.

Tanto no governo Lula, quanto nos primeiros meses de governo Dilma, a preocupação com o processo de industrialização se expressou no PAC; na decisão política de sediar a Copa, as Olimpíadas e vários outros eventos internacionais, indutores de modernização da infra-estrutura (totalmente sucateada durante os 12 anos de governo neoliberais); e, agora, na decisão de visitar a China para dar um novo salto nas relações comerciais, econômicas, científicas, tecnológicas, sociais, culturais e políticas com aquele país.

Assim, não é por acaso, ignorância ou ingenuidade que o PAC, as commodities agrícolas e minerais, as obras para a Copa e as Olimpíadas, e as relações com a China, se tornaram um emaranhado intrincado de acusações, desinformações e desqualificações. Esse emaranhado engloba a suposta comprovação de que o PAC não teve ualquer efeito real sobre o desenvolvimento econômico. Engloba também a acusação de que a exportação de commodities agrícolas e minerais representa um retorno à condição do país como produtor exclusivo de produtos primários, o que alguns economistas chamam de re-primarização.

O governo Dilma, além disso, não teria competência para entregar as obras comprometidas com a FIFA e o COI no tempo aprazado. E, quanto à China, esta pretenderia usar no Brasil a mesma estratégia que estaria utilizando em outros países da América do Sul, da África e da Ásia, para controlar as fontes de matérias-primas e criar mercados para seus bens e serviços de alto valor agregado. O governo Lula, assim como o governo Dilma, estariam entregando o Brasil à China.

Com base nessa tese, não foram poucos os comentaristas econômicos e políticos que tentaram pautar os temas que a presidenta deveria tratar com os chineses, estimulando-a a interferir nos assuntos internos daquele país, com a mesma naturalidade com que apóiam a interferência dos Estados Unidos e outras potências estrangeiras nos assuntos internos do Líbia, Egito etc etc, e do próprio Brasil.

Portanto, mal começou na presidência, Dilma já se vê sob o fogo cruzado da oposição reacionária e de setores múltiplos, que pretendem traçar o rumo do desenvolvimento econômico e social brasileiro segundo seus próprios interesses. O que impõe, tanto aos petistas, quanto à esquerda em geral, aprofundar-se mais nesses assuntos, porque a tendência não é de trégua ou amainamento. Afinal, os Estados Unidos e a Europa não conseguiram sair da crise e pretendem descarregar o ônus dela sobre os outros. Quem pensa que o Brasil vive uma trégua generalizada, e está fora dos objetivos daquelas potências, certamente será apanhado de surpresa.

* Wladimir Pomar é analista político e escritor.
.

domingo, 17 de abril de 2011

A banda larga e o Custo-Brasil de conexão


Por Sérgio Amadeu da Silveira *

O sociólogo Manuel Castells escreveu que “a tecnologia da informação é hoje o que a eletricidade foi para a Era Industrial”. Assim como não foi possível construir grandes plantas industriais sem resolver o problema da geração, transmissão e distribuição de energia, não será possível inserir nenhum país na sociedade da informação sem enfrentar o problema da conexão do conjunto das suas localidades às redes digitais.

Já não é possível pensar em uma empresa competitiva sem que ela esteja conectada à Internet. As escolas cada vez mais necessitam das redes para ultrapassar os métodos conservadores de ensino-aprendizado. Muitos segmentos do comércio e dos serviços estão dependendo de modo crescente das redes para se estruturarem e para atingirem seus objetivos. Do mesmo modo que é impossível pensar no sistema financeiro, nos bancos e no mercado de capitais sem redes de alta velocidade.

Apesar dos apelos bombásticos de alguns pensadores conservadores contra a expansão da comunicação em redes informacionais, não há nada em um futuro próximo que indique que este gigantesco processo de digitalização das atividades humanas irá arrefecer. Ao contrário, os indicadores apontam que estamos no início deste processo. As tecnologias da informação mal começaram a penetrar em nosso cotidiano e no ano de 2009 constatamos que 67 % dos internautas brasileiros utilizaram redes de relacionamento online, também denominadas de redes sociais, 53% assistiram vídeos ou filmes na Internet e 39% fizeram download de músicas e de softwares. Estes números são da pesquisa sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação no Brasil, organizada pelo Comitê Gestor da Internet e estão disponíveis no seu site (HTTP://www.cgi.br).

Podemos notar que as pessoas já utilizam as redes digitais como meio básico não só para o seu trabalho, mas também para a organização de sua vida, seus estudos, sua comunicação e seu entretenimento. Por isso, alguns países já consideram formalmente que o acesso a Internet é um direito humano fundamental. Como usamos cada vez mais os recursos multimídia precisamos que nossa conexão acompanhe as possibilidades que se abrem na Internet. Países como a Coréia, Finlândia, Austrália, Dinamarca, Nova Zelândia têm planos de conectar mais de 70% de seus territórios com 100 Mb de conexão residencial. A Alemanha busca levar às suas residências o mínimo de 50 Mb. E o Brasil? Aqui as operadores de telecomunicação oferecem banda de ¼ de 1 Mb, pelo preço 4 vezes maior do que em qualquer país na Europa Ocidental que dá o mínimo de 2 Mb. O pior é que as operadores garantem apenas 10% do que pagamos no contrato e conexão. Isto quer dizer que se pagamos mais de R$ 100,00 por 2 Mb, na maioria das vezes temos apenas 200 Kbps (kilobit-por-segundo, ou seja, mil bits por segundo).

A velocidade de conexão é muito importante na era informacional. Uma banda larga é como uma estrada com muitas pistas. Nela é possível passar mais carros por segundo do que em vielas estreitas. Quanto maior a largura de banda mais rapidamente podemos navegar, trocar os arquivos digitais e realizar os serviços que queremos na Internet. Por exemplo, quem não tem banda larga no Brasil tem que fazer uma conexão discada, em geral, de 56 Kbps. Uma página de entrada chamada de home page de um portal de notícias tem aproximadamente 750 Kb de informação. Um brasileiro de periferia de São Paulo possui uma conexão de 56 Kbps leva em torno de 107 segundos para abrí-la em seu computador. Já na Alemanha leva-se para carregar a mesma home page apenas 0,15 segundos e na Coréia, não mais que 0,06 segundos.

Uma empresa que precisa receber um CD repleto de informações ou um jovem que quer baixar um álbum de músicas do site Jamendo terão que fazer o download de 700 Mb de informação. Com uma conexão de 56 Kbps levamos 28 horas para baixar este CD. Com a conexão de 2 Mb levamos 47 minutos e com 100 Mb apenas 56 segundos. Um vídeo educativo ou de entretenimento embutido em um DVD de 4 Gb levaria uma semana para ser baixado no computadores de quem tem 56 Kbps, mas apenas 5 minutos para quem já usufrui de uma conexão de 100 Mb. As diferenças são gigantescas. Por isso, precisamos enfrentar rapidamente a ausência de uma infraestrutura que conecte todas as cidades do país com uma velocidade de conexão que seja a mínima aceitável para o mundo em que vivemos.

As operadoras privadas de telecomunicação fracassaram em oferecer banda larga em todo território nacional. Elas quiseram levar conexão de alta velocidade para áreas ricas do país, pois seu objetivo era e é cobrar caro pelo bit transportado em suas redes. Enquanto a O2 na Inglaterra vende 20 Mb por apenas 6 pounds (equivale a R$ 21,00). No Brasil, uma operadora lançou a banda larga popular de até 1 Mb (ou seja, pode ser bem menos que 1 mega) por R$ 29,90. Para isto, conseguiu isenção total de ICMS sobre as atividades de serviços de telecomunicações.

O governo do presidente Lula para enfrentar o enorme “Custo Brasil das Telecomunicações” acertadamente lançou o Plano Nacional de Banda Larga. Entre suas medidas estratégicas, o Plano conta com a recomposição da Telebrás para montar uma grande via de altíssima velocidade que ligaria as diversas cidades brasileiras, também conhecida como backbone ou espinha dorsal da Internet. Para isso, a Telebrás usaria as diversas fibras óticas apagadas que estão à disposição de várias empresas federais. Com tal incremento, a ideia é levar competição ao setor, baixar o preço do custo do Mb para os provedores locais e exigir uma conexão estável e que entregue ao usuário final efetivamente a velocidade que ele está pagando.

O problema é que as operadoras têm outro plano. Querem continuar cobrando caro pelo bit que passa por suas redes e com isto manter seu elevado nível de remuneração, além de não ter que se comprometer em entregar integralmente a velocidade que oferecem. Ao serem questionadas, as operadoras têm um mantra: não levaram banda larga para todo o país devido aos elevados impostos. Sem dúvida, é possível reduzir impostos desde que estas corporações equiparem seus preços com a realidade socioeconômica de nossa população. Mesmo retirando muitos impostos, o preço que as operadoras praticam no Brasil são abusivos e estão entre os mais caros do planeta.


* Sérgio Amadeu da Silveira é doutor em Ciência Política, membro co Comitê Gestor da Internet, professor da UFABC.

Fonte: edição especial da revista Caros Amigos - Mídia: a grande batalha para a democracia.
.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Revólveres, pistolas e fuzis: as verdadeiras armas de destruição em massa

Por João Paulo Charleaux *

Hoje, 94 brasileiros morrerão depois de receber um disparo de arma de fogo. É como se a tragédia ocorrida há uma semana na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, se repetisse oito vezes por dia. Todos os dias.

Por não compor um enredo comovente, esta hecatombe a granel passa para os registros sorrateiramente – não há cartas de psicopatas suicidas, nem há vídeos no Youtube mostrando parentes gritando na rua e estudantes fugindo. Não é notícia. E, por isso, os 60 milhões de brasileiros que foram contra a proibição do comércio de armas no Brasil, no referendo de 2005, não se sentem responsáveis por nada disso.

Agora, uma nova iniciativa parlamentar pretende convocar mais um referendo sobre o tema, provavelmente, para o dia 2 de outubro. A proposta, apresentada pelo senador José Sarney depois da tragédia de Realengo, já está na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado e deve ir a plenário na sequência. Com sorte, os brasileiros terão uma segunda chance de decidir sobre um assunto vital e negligenciado.

Em todo o mundo, a produção, o comércio e o tráfico de pequenas armas de fogo e munição constituem um dos aspectos mais obscuros, menos regulados e mais cinicamente ignorados pela opinião pública.

O Brasil é um grande produtor de armas. Três empresas privadas continuam produzindo a cluster bomb, um tipo de munição altamente letal e imprecisa, proibida pela Convenção sobre Munições em Cacho, da qual o Estado brasileiro não é signatário.

O país é também um grande produtor de revólveres e pistolas. Por dia, são produzidas aqui 2.800 armas de cano curto, das quais 320 ficam no País e o restante é exportado. De cada dez armas apreendidas pela polícia no Brasil, oito são de fabricação nacional. E 70% das mortes por armas de fogo registradas aqui em 2010 foram provocadas pelo uso de armas que entraram legalmente no mercado, ou seja, entraram nas ruas pelas mãos de “pessoas de bem”.

Os assassinos, aliás, também são, na maioria dos casos, “pessoas de bem”. Pesquisadores norte-americanos e australianos realizaram uma pesquisa sobre o perfil dos crimes com armas de fogo em seus países e chegaram à conclusão de que em apenas 15% dos casos as vítimas não conheciam os assassinos. Na maioria das cidades brasileiras, os homicídios também ocorrem entre pessoas que se conheciam, em finais de semana, em brigas de bar ou de família e por motivos fúteis.

Um dos entraves para frear esse massacre é o lobby das empresas produtoras de armas. No referendo brasileiro de 2005, a Taurus doou 2,8 milhões de reais para a campanha do “não” e a CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos) doou outros 2,7 milhões de reais. A soma corresponde quase à totalidade do custo da vitoriosa campanha do “não”.

No plano internacional, não é diferente. Grandes empresas e governos poderosos lucram com o comércio de armas – principalmente de fuzis baratos e outras armas menores. O documento que deveria regular o setor, o ATT (Arms Trade Treaty) usa termos como “deveria, quando apropriado e levar em consideração” para referir-se às obrigações dos Estados de não vender armas para beligerantes de contextos onde sabidamente cometem-se crimes de guerra. As exigência de respeitar a lei são cênicas, frouxas e escassas. O comércio e o tráfico proliferam nas brechas.

Frequentemente, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprova resoluções impondo embargo de armas a ditadores e autorizando o uso da força para proteger a população civil, mas não pode fazer nada por essas vítimas cotidianas de baixo perfil. Os EUA movem sua máquina militar contra o Iraque, alegando combater a ameaça de “armas de destruição em massa”, mas nenhum arsenal tem provocado mais mortes do que estas pequenas armas espalhadas pelo mundo. Neste caso, nem o Exército mais poderoso de todos tem o poder que um voto pode ter num novo referendo.


* João Paulo Charleaux é correspondente do Opera Mundi no Chile

Fonte: site Opera Mundi
.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

OAB defende acesso amplo a dados do passado e quer Comissão da Verdade

Brasília, 14/04/2011 - "Não se pode ter na democracia documentos eternamente sigilosos. É necessário que a sociedade conheça a sua história e, a partir dela, possa corrigi-la e reescrevê-la melhor". A afirmação foi feita hoje (14) pelo presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, ao comentar a determinação feita pela presidente Dilma Rousseff, de que a base governo acelere a aprovação do projeto de lei que trata do direito ao acesso a informações públicas, já aprovado na Câmara. "Não se trata de querer fazer perseguição a quem quer que seja O objetivo deve ser o de resgate da nossa história", afirmou Ophir.

O presidente nacional da OAB afirmou que é necessário contar com critérios para disciplinar o acesso a documentos considerados sigilosos. Como hoje não existe qualquer critério, a divulgação ou não de determinado documento fica ao sabor de cada governante. "Acabamos todos nós, sociedade, ficando reféns da ausência de uma política de resgate da nossa história. Projetos como esse tem o apoio da OAB, que sempre primou pela garantia das instituições, pela Constituição e, sobretudo, pela defesa da verdade e transparência".

Nessa discussão sobre o acesso a documentos públicos, Ophir afirmou que faz-se necessário que se volte a debater urgentemente a instalação da Comissão da Verdade, em tramitação na Câmara e que tem como objetivo esclarecer fatos da nossa história e exemplos mal sucedidos de endurecimento do regime e de perseguição política no passado. "Essa postura da presidente Dilma indica que há total espaço para que essa questão possa ser debatida, de forma franca e ampla, com o governo e o Parlamento. Precisamos avançar e ter coragem para instalar essa Comissão", finalizou Ophir Cavalcante.

O presidente da OAB do Rio de Janeiro (OAB-RJ), Wadih Damous, também tem a mesma opinião do presidente nacional da entidade, Ophir Cavalcante. Segundo Damous, "é descabido o manto do segredo sobre os documentos históricos". E acrescentou: "o povo tem o direito de conhecer fatos relevantes da História do país e o Estado, o dever de revela-los. Deveria caber tão somente ao Presidente da Republica classificar os documentos".

Recentemente, o presidente da OAB do Espírito Santo (OAB-ES), Homero Junger Mafra, manifestou ao presidente nacional da entidade, Ophir Cavalcante, o seu irrestrito apoio na criação da Comissão da Verdade na forma do projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional. Segundo Homero Mafra, "trata-se de iniciativa de profunda repercussão na seara dos direitos humanos e que possibilitará a discussão sobre a questão dos desaparecidos políticos, ainda hoje uma nódoa na vida brasileira".


Publicado originalmente no site da OAB.
.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dos que amam Ribeirão das Neves

Vista aérea do centro de Ribeirão das Neves (foto de 2005)

Por Cléber Sérgio de Seixas


Nas vésperas de se completarem 15 anos do massacre de Eldorado dos Carajás (PA), é necessário fazer uma reflexão sobre a postura do poder público e das forças de segurança a ele subordinadas frente aos movimentos sociais. Antes de partir para tal reflexão, gostaria de tecer algumas considerações.

Neste artigo vou da orbi para a urbi a fim de mostrar aos leitores deste blog que em Ribeirão das Neves, cidade onde resido, existem indivíduos preocupados com os rumos sociais, econômicos e políticos da cidade, e que têm capacidade de influir nas decisões que afetam a municipalidade. Um exemplo são os que fazem parte da Rede ‘Nós Amamos Neves’, entidade que congrega vários grupos e movimentos sociais. Antes de passar às reivindicações de tal entidade, é necessário fazer uma breve contextualização histórica, social e econômica do município.

Ribeirão das Neves torna-se cidade em 1953, mas seu surgimento como povoado e distrito remonta ao século XVIII. Seu crescimento se confunde com a instalação em seu território de vários presídios, sendo o mais antigo deles o José Maria Alckmin, inaugurado em 1938. É uma das cidades mais populosas de Minas Gerais, com uma população que já ultrapassou os 300 mil habitantes, distribuída numa área de 154,67 km². Um dos fatores que contribuiu para a explosão demográfica de Neves nas duas últimas décadas foi o desordenado uso e ocupação do solo através da venda de lotes cujos valores não condiziam com a falta de infra-estrutura dos loteamentos.

Fonte: IBGE

A despeito do grande número de moradores, a cidade detém um dos mais baixos IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de Minas Gerais, e convive com a precariedade de serviços públicos como os de saúde, infra-estrutura, educação, cultura e lazer. Neves é considerado um município dormitório, visto que a maioria de seus habitantes trabalha na capital mineira ou em municípios vizinhos. O arremedo de centro industrial da cidade, denominado CIRIN (Centro Industrial de Ribeirão das Neves), concentra poucas indústrias e absorve pouca mão-de-obra local.

Outra característica marcante é a corrupção envolvendo membros do legislativo e executivo municipal, responsável por verdadeira sangria nos cofres públicos. Os exemplos são abundantes:
- Em 2006, todos os políticos do primeiro escalão da cidade (prefeito, vice e os 14 vereadores) tiveram seus bens bloqueados pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) por conta de improbidade administrativa;
- Recentemente, Gracinha Barbosa, prefeita no período de 1989 a 1993, foi condenada por irregularidades na construção de escolas e obrigada a devolver ao caixa do município a quantia de R$ 1.800.000;
- Outro ex-prefeito, Ailton de Oliveira, foi condenado em última instância a devolver R$ 26 milhões aos cofres municipais (leia o artigo "Ex-prefeito foi condenado");
- O atual prefeito Walace Ventura Andrade responde a vários processos no TJMG.
Como se vê, o que Ribeirão das Neves tem sobejamente são políticos corruptos e unidades prisionais, o que lhe valeu a alcunha de ‘cidade dos presídios’ - ao todo são cinco.

A farra dos vereadores (matéria publicada no Jornal Estado de Minas em 19/06/2006)

Sob intensos protestos da sociedade civil nevense, em 2005 o governo do estado instalou mais um presídio na cidade. Enquanto são questionados na justiça a instalação e o funcionamento do presídio Inspetor José Martinho Drummond, o governo estadual fechou uma PPP (Parceria Público Privada) para a implantação de mais um complexo prisional no município. Será o primeiro presídio construído neste modelo de parceria no Brasil. O empreendimento está sendo construído na Fazenda Mato Grosso – supostamente uma área de proteção ambiental -, e terá capacidade para 3.040 presos, o que aumentará a população carcerária municipal para 7.200 detentos, aproximadamente. Trata-se de um empreendimento lucrativo para o consórcio que toca o "negócio" e extremamente prejudicial à municipalidade. O aumento da população carcerária trará mais conseqüências negativas ao município. Uma delas é a migração dos familiares dos presos para a cidade com o intuito de facilitar as visitações semanais. Outra conseqüência negativa é a estigmatização por conta da idéia de que uma cidade com tantos presídios deve, obrigatoriamente, ser violenta, o que espanta investimentos que poderiam mudar a realidade social do município.

É este o cenário sobre o qual incidem as preocupações dos membros da Rede ‘Nós Amamos Neves’. O movimento entende – e este blogueiro concorda – que a implantação de mais um complexo prisional agravará ainda mais a questão social do município.

Por conta disso, no dia 13 de fevereiro último, lideranças comunitárias e militantes da ‘Rede’ fecharam a BR-040, na altura da região do Bairro Veneza, em protesto contra a construção do complexo prisional supracitado. Por alguns minutos a rodovia foi totalmente bloqueada, sendo liberada em seguida sem nenhum incidente. Na ocasião foram distribuídos panfletos e exibidas faixas com mensagens de protesto.

No dia 10 de abril, integrantes da ‘Rede’ e lideranças comunitárias promoveram a ‘I Caminhada Ecológica Nós Amamos Neves’. O objetivo principal da caminhada era a sensibilização quanto à degradação ambiental levada a cabo pelas obras da construção do novo cadeião. O trajeto seria até o local onde está sendo construído o novo complexo prisional. As autoridades competentes (Polícia Militar, direção do presídio José Maria Alckmin e Transneves) foram previamente avisadas de forma documental, a fim de evitar incidentes. Este que vos escreve foi convidado e lá esteve registrando o evento.

A concentração

A marcha

Já na estrada que dá acesso ao canteiro de obras, a caminhada foi barrada por agentes do GIT (Grupo de Intervenções Táticas) armados com escopetas, lançadores de bombas, e acompanhados de um ameaçador cão pastor belga. Para surpresa dos caminhantes, alguns agentes do GIT usavam balaclava e não portavam nenhuma identificação. A estranheza da intervenção também correu por conta de que ali a maioria era constituída de mulheres, crianças, idosos e pessoas sem nenhum potencial ofensivo.

O bloqueio

Após momentos tensos, quebrados por discursos enfáticos e protestos dos presentes, um documento foi apresentado pela segurança do presídio informando que os manifestantes não poderiam dar seqüência à caminhada. Em meio a muita polêmica com as autoridades prisionais e com oficiais da PM, a caminhada foi abortada. Os integrantes da ‘Rede’ fizeram um boletim de ocorrência e prometeram fazer novas manifestações no futuro contra a construção do complexo prisional.

O que fica de lição é que os movimentos sociais, embora em grau bem inferior que na era FHC, são sempre demonizados e proscritos. Não fosse o bom senso dos agentes de segurança, da PM e dos manifestantes, quem sabe um novo Eldorado dos Carajás não teria ocorrido em Ribeirão das Neves no dia 10 de abril, haja vista que nos rincões se atira primeiro e se pergunta depois.

Apesar do episódio desagradável, como dizia um certo ex-presidente, a luta continua. Uma batalha perdida não necessariamente significa a derrota numa guerra. A ‘Rede’ continuará sua luta contra um legado cujo teor visa transformar o município numa cidade presídio. Que todos os que amam Ribeirão das Neves se unam contra esta aberração promovida pelo governo do estado e se engajem na luta. Nossa cidade precisa é de emprego, infra-estrutura básica, lazer e cultura. Essa causa contará sempre com o apoio deste blog.

Abaixo reproduzo vídeo com imagens da manifestação.



.

sábado, 9 de abril de 2011

Os anos de chumbo versão SBT - parte 2



Que de muitos se lembre a história
Das torturas, martírios, degredos
Que não haja mais nenhum segredo
Que das trevas nos surja a memória

Trecho do poema Memória



Por Cléber Sérgio de Seixas


“Infeliz o país que precisa de heróis”, disse certa vez o dramaturgo Bertold Brecht. Infelizmente, muitos homens e mulheres tiveram suas vidas imoladas no holocausto de uma ditadura que dominou o Brasil durante mais de duas décadas. Outros tantos foram mutilados e exilados, e os ainda vivos trazem no corpo e na alma as marcas da covardia que os carrascos cobriam com o manto da defesa da pátria e da doutrina de segurança nacional, que nem nacional era.

Quando todas as vias democráticas foram obstruídas pelo arbítrio castrense – eleições diretas, garantia de liberdades individuais, direito de greve, direito de protestar e de opinar -, não restaram muitas alternativas pacíficas àqueles que discordavam do regime, pois o lema passou a ser “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Muitos deixaram o país por força da violência que aqui imperava, enquanto outros optaram pela luta armada. A verdadeira revolução ficou por conta destes – luta de Davi contra um Golias treinado e apoiado pelo império mais poderoso que o mundo conheceu. Contudo, diferentemente do relato bíblico, Golias sai vencedor, pelo menos por enquanto.

A história destes tempos sombrios é contada pelo folhetim Amor e Revolução do SBT. O autor Tiago Santiago e o diretor Reynaldo Boury fazem um grande favor à nação contando às novas gerações o que muitos dramaturgos não ousaram ou não puderam contar.

Não sou fã de novelas, muito menos daquelas que começam às 22:30, haja vista que tenho que estar de pé às 05 da manhã. No entanto, ontem não pude deixar de assistir a um capítulo de Amor e Revolução. Fiquei impressionado com o realismo da trama no que se refere às cenas de violência e tortura e ao didatismo dos diálogos, tecidos como que na intenção de explicar ao telespectador o contexto sócio-político-histórico daqueles tempos. Numa cena do capítulo de ontem, por exemplo, um militar explicava a seus subordinados que o golpe fora apoiado por empresários e por políticos, tais como os então governadores Carlos Lacerda (Rio de Janeiro), Ademar de Barros (São Paulo) e Magalhães Pinto (Minas Gerais).

Mal começou, o folhetim do SBT já desperta a ira de setores interessados em manter o passado sob as sombras, talvez por temerem que nele seja encontrado algo que possa envergonhá-los. O site www.militar.com.br, por exemplo, propôs um abaixo-assinado contra a exibição da novela.

Enquanto a Comissão Nacional da Verdade não vira realidade, é oportuno conferir, capítulo a capítulo, a trama do SBT. Não se trata de uma produção chapa-branca cujo enredo gira em torno de um romance mamão com açúcar. Assim sendo, faço um convite àqueles que ainda não assistiram.

Os depoimentos que são exibidos no final de cada capítulo são um dos pontos fortes da novela. Reproduzo abaixo dois depoimentos bombásticos de pessoas que foram torturadas durante a ditadura. Em um deles, o da jornalista Rose Nogueira, companheira de Dilma Rousseff na prisão, fica provado que o sadismo era lugar-comum durante as sevícias aplicadas aos subversivos segundo o regime.

Depoimento de Jarbas Marques


Depoimento de Rose Nogueira


______________________________

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Grande e feliz corruptor

Reproduzo artigo de Mino Carta* publicado no site Carta Capital

Na festa de Carta-Capital do ano passado, realizada entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial para celebrar o aniversário da revista e entregar os troféus das Empresas Mais Admiradas no Brasil, na minha fala de boas-vindas aos convidados me atrevi a confrontar os governos Lula e FHC. E me coube constatar a verdade factual: o mensalão, como propina mensal a parlamentares variados, não foi provado. Um murmúrio estrondoso de desaprovação elevou-se da plateia e algumas pessoas deixaram precipitadamente o recinto.

Leitores, telespectadores e ouvintes da mídia nativa acreditam cegamente no mensalão na versão apresentada por editorialistas, colunistas e perdigueiros da informação. Não percebem que o crime cometido no episódio por larga porção do PT é tão grave quanto o seria o mensalão conforme a pretensa denúncia de Roberto Jef-ferson. Não é que este enredo chamusque apenas o partido, ustiona-o no grau mais elevado e deixa uma cicatriz irreversível.

Quem se entrega às fantasias do jornalismo pátrio não se dá conta de outro logro, sem falar de má-fé de muitos, inclusive alguns que se dizem de esquerda: o mensalão é um biombo desdobrado para encobrir a ação, continuada e infelizmente eficaz, do grande corruptor, o banqueiro Daniel Dantas.

Pergunto aos meus céticos botões por que a revista Época decidiu dissertar a respeito do relatório da Polícia Federal sobre o valerioduto e suas consequências. Gargalham sinistramente ao registrar o esforço insano da semanal da Globo para colocar na ribalta o chamado mensalão pretendido por seis anos a fio e para relegar a um brumoso bastidor a figura do banqueiro orelhudo do Opportunity.

Com quanta desfaçatez a mídia nativa manipule o noticiário é do conhecimento até do mundo mineral. A verdade factual é outra (e CartaCapital em vão a apresenta desde 2005) e soletra a seguinte situação: o dinheiro do Opportunity irriga a horta petista por intermédio do valerioduto sem que isto implique pagamentos mensais a parlamentares.

Dantas sempre soube quais as hortas a serem regadas, daí ter começado pela tucana à sombra de FHC, para ser premiado na hora das privatizações. Ao se concluir, o enredo encena um jantar com o presidente e príncipe dos sociólogos em 2002, destinado a traçar os caminhos do futuro. O banqueiro acabava de regressar de Cayman, onde guarda e põe a fermentar as contas secretas de inúmeros graúdos. No dia seguinte, FHC trocou as diretorias dos fundos de pensão, que até então eram entrave poderoso aos negócios dantescos.

O tucanato foi bom parceiro também no plano regional. O ensaio do caso nacional levantado pelas acusações de Jefferson deu-se, como se sabe, em Minas Gerais, quando do governo Azeredo. A bandalheira foi provinciana, contudo opulenta. De todo modo, há jantares e jantares. Significativo aquele de cardápio árabe servido na residência brasiliense do então senador do DEM Heráclito Fortes, em plena crise do mensalão. Confraternizaram no quibe e no charuto de uva Daniel Dantas, grande amigo do anfitrião, e o ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, acompanhado pelos organizadores da tertúlia, os deputados José Eduardo Cardozo e Sigmaringa Seixas.

Mas quem se incomoda com isso? Quem se aventura a ilações aparentemente obrigatórias? E quem abre os olhos diante de uma estranha operação que levou Marcos Valério e, em oportunidades distintas, outras figuras do PT e do PTB, inclusive Delúbio Soares, a Lisboa quando Dantas quis vender a Telemig à Portugal Telecom? E quem se indigna se Gilmar Mendes solta no espaço de 24 horas dois habeas corpus para pôr em liberdade o banqueiro preso por obra da Satiagraha, e logo secundado pelo ministro Nelson Jobim, exige do presidente Lula, “chamado às falas”, o afastamento imediato do delegado Paulo Lacerda- da direção da Abin? Réu por ter colaborado com o delegado Protógenes para suprir a falta de apoio da própria PF entregue ao seu sucessor, Luiz Fernando Corrêa. E quem se surpreendeu ao saber que o atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi à Itália como advogado de Dantas ainda no seu tempo de parlamentar para contribuir à tentativa, fracassada, de provar que quem iniciou a guerra dos grampos foi a Telecom Italia?

Intermináveis perguntas se escancaram em busca de esclarecimentos a respeito de outras tantas situações suspeitas, para usar um adjetivo brando. Mas, se há jantares e jantares, há ministros e ministros. O da Justiça à época da Satiagraha, Tarso Genro, telefonou no dia da primeira prisão de Dantas, logo de manhã para me dizer eufórico: “Viu o que a gente fez, prendemos o Dantas”. Aquela ligação até hoje me deixa boquiaberto. Talvez Genro estivesse a navegar na névoa, como um barco escocês ao largo de Aberdeen, em uma madrugada invernal, e sem apito. Sobra a evidência clamorosa: Dantas conhece a fundo os podres da República, e isso o torna, por ora pelo menos, invulnerável.


* Mino Carta é diretor de redação de CartaCapital. Fundou as revistas Quatro Rodas, Veja e CartaCapital. Foi diretor de Redação das revistas Senhor e IstoÉ. Criou a Edição de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, criou e dirigiu o Jornal da Tarde.
.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Crianças, entre livros e TV

Por Frei Betto *

Foi o psicanalista José Ângelo Gaiarsa, um dos mestres de meu irmão Léo, também terapeuta, quem me despertou para as obras de Glenn e Janet Doman, do Instituto de Desenvolvimento Humano de Filadélfia. O casal é especialista no aprimoramento do cérebro humano.

Os bichos homem e mulher nascem com cérebros incompletos. Graças ao aleitamento, em três meses as proteínas dão acabamento a esse órgão que controla os nossos mínimos movimentos e faz nosso organismo secretar substâncias químicas que asseguram o nosso bem-estar. Ele é a base de nossa mente e dele emana a nossa consciência. Todo o nosso conhecimento, consciente e insconsciente, fica arquivado no cérebro.

Ao nascer, nossa malha cerebral é tecida por cerca de 100 bilhões de neurônios. Aos 6 anos, metade desses neurônios desaparecem como folhas que, no outono, se desprendem dos galhos. Por isso, a fase até 6 anos é chamada de “idade do gênio”. Não há exagero na expressão, basta constatar que 90% de tudo que sabemos de importante à nossa condição humana foi aprendido até os 6 anos: andar, falar, discernir relações de parentesco, distância e proporção; intuir situações de conforto ou risco, distinguir sabores etc.

Ninguém precisa insistir para que seu bebê se torne um novo Mozart que, aos 5 anos, já compunha. Mas é bom saber que a inteligência de uma pessoa pode ser ampliada desde a vida intrauterina. Alimentos que a mãe ingere ou rejeita na fase da gestação tendem a influir, mais tarde, na preferência nutricional do filho. O mais importante, contudo, é suscitar as sinapses cerebrais. E um excelente recurso chama-se leitura.

Ler para o bebê acelera seu desenvolvimento cognitivo, ainda que se tenha a sensação de perda de tempo. Mas é importante fazê-lo interagindo com a criança: deixar que manipule o livro, desenhe e colora as figuras, complete a história e responda a indagações. Uma criança familiarizada desde cedo com os livros terá, sem dúvida, linguagem mais enriquecida, mais facilidade de alfabetização e melhor desempenho escolar.

A vantagem da leitura sobre a TV é que, frente ao monitor, a criança permanece inteiramente receptiva, sem condições de interagir com o filme ou o desenho animado. De certa forma, a TV “rouba” a capacidade onírica dela, como se sonhasse por ela.

A leitura suscita a participação da criança, obedece ao ritmo dela e, sobretudo, fortalece os vínculos afetivos entre o leitor adulto e a criança ouvinte. Quem de nós não guarda afetuosa recordação de avós, pais e babás que nos contavam fantásticas histórias.

Enquanto a família e a escola querem fazer da criança uma cidadã, a TV tende a domesticá-la como consumista. O Instituto Alana, de São Paulo, do qual sou conselheiro, constatou que num período de 10 horas, das 8h às 18h de 1º de outubro de 2010, foram exibidos 1.077 comerciais voltados ao público infantil, média de 60 por hora ou 1 por minuto!

Foram anunciados 390 produtos, dos quais 395 brinquedos, 30 de vestuário, 25 de alimentos e 40 de mercadorias diversas. Média de preço: R$ 160! Ora, a criança é visada pelo mercado como consumista prioritária, seja por não ter discernimento de valor e qualidade do produto, como também por ser capaz de envolver afetivamente o adulto na aquisição do objeto cobiçado.

Há no congresso mais de 200 projetos de lei propondo restrições e até proibições de propaganda ao público infantil. Nada avança, pois o lobby do Lobo Mau insiste em não poupar Chapeuzinho Vermelho. E quando se fala em restrição ao uso da criança em anúncios (observe como se multiplica!), logo os atingidos em seus lucros fazem coro: “Censura!”

Concordo com Gabriel Priolli: só há um caminho razoável e democrático a seguir, o da regulação legal, aprovada pelo Legislativo, fiscalizada pelo Executivo e arbitrada pelo Judiciário. E isso nada tem a ver com censura, trata-se de proteger a saúde psíquica de nossas crianças.

O mais importante, contudo, é que pais e responsáveis iniciem a regulação dentro da própria casa. De que adianta reduzir publicidade se as crianças ficam expostas a programas de adultos nocivos à sua formação?

Erotização precoce, ambição consumista, obesidade excessiva e mais tempo frente à TV e ao computador que na escola, nos estudos e em brincadeiras com amigos são sintomas de que seu ou sua querido(a) filho(a) pode se tornar, amanhã, um amargo problema.


* Frei Betto é escritor, autor de A Mosca Azul (Rocco), entre outros livros.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 07 de abril de 2011.
.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

De Eduardo para Tas

Causaram e ainda estão causando polêmica as infelizes declarações racistas e homofóbicas do deputado Jair Bolsonaro em entrevista ao programa CQC. Hoje, a corregedoria da Câmara notificou Bolsonaro (PP-RJ) por quatro representações feitas contra ele por suas declarações durante a entrevista.

Enquanto isso, um grupo de radicais de direita se prepara para fazer um ato em apoio ao deputado pepista na Av. Paulista, centro de São Paulo, no próximo sábado.

É importante frisar que a cada 36 horas um homossexual é morto no Brasil, o que atesta que a homofobia entre os brasileiros é alta, apesar de enrustida.

A respeito do "bolsonarogate", o sempre atento e lúcido blogueiro Eduardo Guimarães escreveu uma mensagem ao apresentador do CQC, o pseudointelectual Marcelo Tas. Reproduzo abaixo a mensagem na íntegra.

Prezado Marcelo Tas,

Ouvi, preocupado, entrevista que a sua filha, Luiza, concedeu ontem ao Estadão por conta de você ter mostrado a foto dela e citado o seu nome em seu programa, o CQC, após entrevistar o deputado Jair Bolsonaro pela segunda vez. Então, você revelou que a menina é homossexual e afirmou ter orgulho dela.

Antes de explicar por que fiquei preocupado, porém, quero cumprimentá-lo pela iniciativa de expor seu orgulho. Quantos homossexuais devem ter sofrido com declarações de Bolsonaro como a de que “pai nenhum quer ter um filho gay” ou de que haveria que surrar filhos com tal orientação sexual.

Pena que a exposição de sua filha foi acidental, por controvérsias sobre o seu programa ter dado voz a um energúmeno como Bolsonaro. É preciso que mais celebridades que tenham filhos homossexuais digam que têm orgulho deles, de forma a levantar o estigma injusto, desumano que os fustiga.

Apesar de, politicamente, estarmos em campos opostos, não posso deixar de elogiar a sua serenidade e profissionalismo por ouvir Bolsonaro insultar tanto os gays tendo você uma filha que se enquadra entre os alvos desse infeliz. Jornalista tem mesmo que separar suas idiossincrasias da notícia.

Contudo – e há um porém, como já deve ter intuído –, preocupa-me a forma como você e a sua menina encaram a manifestação pública de barbaridades como as proferidas pelo deputado do PP fluminense na semana passada. É como pai de três meninas (28, 24 e 12 anos) que peço que reconsidere tal opinião.

Tanto ela, na entrevista, quanto você, têm dito em toda parte que não se pode cassar um deputado, retirar um mandato concedido pelo povo, por conta de declarações como as que ele deu sobre negros e homossexuais, sendo as que se referem a negros passíveis de desencadear processo criminal por infração da lei 7716/89, que tipifica crime de racismo.

Mesmo que dos meus quatro filhos (tenho um rapaz de 23 anos), três (os adultos, porque uma é criança) sejam heterossexuais, vivo alarmado com o nível de violência que grassa neste país e que atinge, preferencialmente, os mais jovens. No caso de sua filha, porém, o caso é mais grave, pois os gays são mais vitimados pela violência.

Mas o que desencadeia a violência contra os homossexuais? Não são justamente declarações como a de Bolsonaro que concedem toda uma “lógica” moralista a atos de violência que, para quem pratica, estariam sendo praticados “em defesa” de “valores” como os que o deputado em tela manifestou?

Posso lhe garantir, Marcelo – e qualquer especialista dirá o mesmo, pode consultar –, que muitos desses psicopatas que espancam, torturam ou assassinam homossexuais podem cruzar com a sua filha em alguma festa, em alguma casa noturna ou na própria via pública, sobretudo se ela estiver manifestando carinho por alguém do mesmo sexo.

É assim, meu caro, que, de pai para pai, quero lhe pedir que se convença – e que convença a sua filha – de que as idéias que Bolsonaro está vendendo à sociedade estimulam não só o preconceito, o cerceamento de oportunidades e as agressões verbais, mas, também, a violência física contra os que têm forma de amar diferente da maioria.

Um abraço fraterno, Marcelo. De pai para pai.

Eduardo Guimarães
.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O bom jornalismo está morrendo

Por Aurélio Munhoz *

Tenho três ícones no Jornalismo: Cláudio Abramo (o homem que revolucionou estilo e conteúdo dos dois maiores jornalões nacionais), Mino Carta (diretor de Redação da Carta Capital e criador de algumas das melhores revistas brasileiras) e Ricardo Kotscho (o mais brasileiro dos grandes repórteres do País).

Do primeiro, guardo a lição de que a “ética dos jornalistas” é uma falácia; a ética, afinal, é uma só para todos os profissionais. Do segundo, a recomendação de que todo jornalista alie um aguçado espírito crítico a uma fidelidade espartana aos fatos. Do terceiro, o ensinamento de que “lugar de repórter é na rua” – e não nas refrigeradas Redações dos veículos de imprensa.

Por absoluta ignorância, por abjeta canalhice ou pela somatória destes defeitos, um assustador contingente de jornalistas nativos parece desconhecer os ensinamentos acima. Prefere agir como estelionatários da realidade, espetacularizando a notícia, manipulando informações e pessoas em troca de audiência, fama e, claro, dinheiro.

Faço esta introdução a propósito de dois fatos ocorridos na semana passada: a entrevista do deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ) ao programa CQC, da TV Bandeirantes, na qual o parlamentar radicalizou na defesa das suas conhecidas posições medievais contra os negros e os homossexuais; e a veiculação da revista Caras, que estampou manchete com as pesadas acusações da falecida atriz Cibele Dosa contra seu ex-marido, Doda Miranda.

Já se falou praticamente tudo sobre estes dois exemplos de péssimo Jornalismo, que simbolizam o problema crônico de boa parte da grande mídia nacional: sua miopia em relação ao significado da expressão “liberdade de imprensa”, esta peça de ficção invocada sempre que setores da mídia brasileira sentem a necessidade de se safar da irresponsabilidade, superficialidade e sensacionalismo que muitas vezes imprimem ao seu trabalho.

O que trago de novo ao debate sobre o tema é um desafio: exatamente devido a exemplos como estes, intensificarmos a discussão conduzida pelo Congresso Nacional, pelo movimento popular e pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) sobre o modelo de Comunicação que os grandes veículos de imprensa exercem.

O momento não poderia ser mais oportuno, inclusive por conta da criação da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular, que objetiva discutir a democratização da comunicação e o novo marco regulatório da mídia.

Não podemos mais admitir que a sociedade continue sendo bombardeada pelo macartismo reeditado pelos arautos dos grandes veículos de imprensa, que, além de todas as mazelas apontadas acima, vetam a exigência da formação universitária para o exercício do Jornalismo, repudiam a criação do Conselho Federal de Jornalistas e ainda precarizam as condições de trabalho até o limite de tolerância dos jornalistas. Pobres profissionais de imprensa, que não têm grandes motivos para comemorar, nesta quinta-feira (7), o Dia do Jornalista.

Esta tigrada – barões da grande mídia e seus áulicos – está matando a imprensa de verdade e substituindo-a por uma aberração capitalista chamada de “Jornalismo Industrial” – mera linha de produção de notícias descartáveis, servíveis apenas aos seus mesquinhos interesses. Despreza o fato de que Jornalismo de verdade só é aquele que tem compromisso com o efetivo interesse da maioria e que, escorado na verdade, exerce sua função social visando o bem comum. O resto é conversa fiada.

* Aurélio Munhoz é jornalista, sociólogo, consultor em Comunicação e presidente da oscip Pense Bicho. Pós-graduado em Sociologia Política e em Gestão da Comunicação, foi repórter, editor e colunista na imprensa do Paraná.

Fonte: site Carta Capital
.

sábado, 2 de abril de 2011

Diálogo entre pais e filhos

Por Vivina Rios Balbino *

A importância da família na educação dos filhos é fundamental. Pesquisa recente realizada na Universidade de San Diego, Califórnia (EUA) confirma, mais uma vez, esse grande impacto positivo. Crianças e adolescentes que têm uma refeição diária ou um momento diário para diálogos e interação familiar amistosa podem ter diminuídas em até 80% a chance de se envolverem em atos de violência, agressões, drogas e prostituição. Isso é fantástico e precisa ser cultivado. A família é o primeiro grupo social da criança e atitudes de carinho, atenção e estimulação sensorial e motora são fundamentais para o desenvolvimento infantil saudável em todos os aspectos: afetivo, psicomotor, sentimentos, comunicação, fala e o cognitivo. É exatamente nessa primeira fase do desenvolvimento infantil até a pré-escola que se processam as maiores e decisivas transformações no cérebro e no comportamento. Grandes traumas ou grandes problemas de saúde podem originar graves problemas na vida adulta. É importante que os pais saibam da importância que eles têm na criação desse repertório comportamental básico dos seus filhos.

Desde o nascimento e certamente por toda a vida, os pais são elementos de suma importância para os filhos: exemplo, compromisso e atenção constante são fundamentais para a formação de qualidade dos filhos. A velha e verdadeira educação de berço ainda é atual e importante. Dessa forma, assumir com responsabilidade compromisso a educação dos filhos deve ser uma prioridade para os pais. Acho até que deveria existir um pequeno curso para ser pai e mãe. Talvez seja essa a nossa tarefa mais complexa na vida – educar bem os nossos filhos! Será que todos os pais estão preparados para essa missão, principalmente na sociedade atual com graves problemas sociais e uma verdadeira revolução nos costumes, valores e atitudes? Consumismo exacerbado, alta competitividade profissional, inclusão cada vez maior da mulher no mercado de trabalho, luta da mulher pela divisão do trabalho doméstico, revolução tecnológica com tantos atrativos, que podem induzir a equívocos e desvios, a precoce escolarização da criança e as tantas atividades extracurriculares a que são submetidas. É um tema abordado pelos psicólogos mundo afora. Até que ponto o excesso de cobrança da criança, principalmente na pré-escola e escolarização precoce podem afetar negativamente o seu desenvolvimento?

Faz sucesso nos Estados Unidos um importante documentário feito por uma mãe e advogada Vicki Abeles intitulado Race to Nowhere (Corrida para lugar nenhum), que questiona e faz fortes críticas à cultura da “alta performance” que impera nos subúrbios de classe média alta norte-americana. Segundo o trabalho, ao longo das últimas décadas, a corrida da população endinheirada para por os seus filhos numa universidade de elite cresceu mais do que a oferta de vagas e o resultado é uma competição acirrada com altas cobranças de excelência em notas e múltiplas atividades extracurriculares para entrar, por exemplo, em Harvard. Ela chama atenção para os riscos de doenças psicossomáticas, evasão escolar, envolvimento com drogas, agressões, depressão e até suicídio. Com certeza, é importante alertar para todos os pais e, embora seja uma realidade nos EUA, sentimos que esta tendência de “alta performance” existe também no Brasil e no mundo todo, principalmente a precoce escolarização e múltiplas atividades extracurriculares. Diante de tantas cobranças, ainda há espaço para as crianças brincarem livremente? Será que não estamos impondo uma agenda muito apertada aos nossos filhos e que essa escolarização precoce também não “esconderia” certo comodismo dos pais ao transferir a responsabilidade da educação dos filhos à escola? Uma excelente reflexão para esse início de ano letivo. Educação de qualidade na família e na escola, mas dentro dos limites.


* Psicóloga, mestre em educação, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Fonte: Jornal Estado de Minas - 15/02/2011
______________________

Nota do blog: reproduzo abaixo o trailler do documentário Corrida para lugar nenhum.



.