quinta-feira, 30 de abril de 2009

Termos jurídicos

alvará - tipo de autorização escrita (do árabe al-baraa, 'documento').

crime doloso - crime em que se quis o resultado (o segundo elemento vem do latim dolosus, formado de dolus, -i, 'astúcia, manha').

mandado - ordem do juiz.

mandato - procuração.

averbação - anotação à margem de registro (na raiz remota latina, verbum, -i, 'palavra; o termo é recente em português - séc. XIX - e sem equivalente em latim).

decisão monocrática - sentença proferida por um só juiz (propriamente, pelo poder [-crático] de apenas uma[-mono] pessoa).

deferir - acolher um pedido (do latim deferre, 'conceder').

liminar - decisão do início do processo (do latim liminaris, -e, 'inicial', formado de limen, -inis, 'soleira da porta, entrada'; cf eliminare, propriamente, 'expulsar de casa').

O Supremo


Frei Betto

O bate-boca entre Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), teve o mérito de nos recordar que o regime republicano é um corpo de três membros, conforme a tripartição de poder delineada por Montesquieu: Executivo, Legislativo e Judiciário.


Os três exercem funções políticas, com a ressalva de que o Judiciário deveria primar-se pelo apartidarismo. Vira e mexe um dos três é entronizado no purgatório de Dante. O Executivo teve o seu, em 2005, devido ao “mensalão”, cujos bastidores e procedência o PT deveria apurar antes que a Justiça o faça.


O presidente Lula teve a hombridade de, a 12 de agosto de 2005, pronunciar-se nestes termos à nação: “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia e que chocam o país. O PT foi criado justamente para fortalecer a ética na política e lutar ao lado do povo pobre e das camadas médias do nosso país. Não mudei e, tenho certeza, a mesma indignação que sinto é compartilhada pela grande maioria de todos aqueles que nos acompanharam nesta trajetória”.


O presidente concluiu por afirmar que, se estivesse a seu alcance, “já teria identificado e punido exemplarmente os responsáveis por esta situação".


Agora, o Legislativo, sob o comando do PMDB, encontra-se em plena caldeira do diabo. No Senado, abusos e mordomias, multiplicidade de cargos comissionados, uso indevido de recursos públicos. Na Câmara dos Deputados, a farra das passagens aéreas. Como se o eleitor delegasse poderes também à mulher do deputado, ao filho do deputado, à cozinheira do deputado.


Ora, o eleito é ele, e não a família. Só a falta de ética e decoro público leva um político a supor que seus direitos são privilégios extensivos a quem lhe aprouver.


O Judiciário vive, agora, o seu inferno astral. Os processos são morosos; os recursos, infindáveis; o número de juízes, insuficiente. O direito de advogados e juízes estenderem prazos, apelações, convocação de testemunhas e perícia de provas transforma um simples processo num cipoal jurídico no qual se movem, lépidos, os réus mais ricos. Os pobres padecem as consequências de uma Justiça que traz os olhos vendados…


A lei é imparcial; sua aplicação, nem sempre. Presume-se, até última instância, a inocência de endinheirados, politicos e ex-políticos. Mas não a de pobres coitados que, muitas vezes, induzidos pela miséria, o desamparo, a falta de escolaridade e de trabalho, praticam delitos, como furtar um pote de margarina, e são torturados por policiais, explorados por advogados, ignorados por juízes, enquanto padecem nas prisões.


Como ensinar às novas gerações que a lei não faz distinção de classes e a Justiça é imparcial (daí a venda nos olhos) se quem rouba tostão é ladrão e quem rouba milhão é barão? Se a desigualdade social impede que réus de baixa renda contratem bons advogados, não deveria residir no juiz a garantia da imparcialidade, fazendo o peso da lei recair indistintamente sobre todos que a infringem?


O STF deveria ser o indutor da reforma do Judiciário e dar o exemplo de que, em última instância, a lei prevalece sobre o crime, o direito sobre a força, a defesa do bem público sobre interesses privados abusivos.


Sou filho de magistrado e bem sei que toda categoria profissional articula, em vocabulário próprio, seu dialeto identificador. Padres preferem exortações adjetivas, sindicalistas usam a língua como esgrima, artistas recorrem a metáforas.


Os juízes de nossa Suprema Corte primam, salvo exceções, por expressões gongóricas, raras no linguajar do comum dos mortais. No entrevero entre Gilmar Mendes, o supremo, e Joaquim Barbosa, o guerreiro, chamou a atenção o vocábulo lhaneza. “Vossa Excelência veio com a sua tradicional gentileza e lhaneza”, ironizou Barbosa. Mendes reagiu: “É Vossa Excelência que dá lição de lhaneza ao tribunal”.


O vocábulo, derivado do espanhol llano e do latim planus, significa candura. Quem dera que, no futuro, as decisões do STF fossem cândidas com os empobrecidos e duras com aqueles que teriam a obrigação moral de servir de exemplo à coletividade, devido à proeminência de suas posses e funções.


P.S.: 1º de maio é Dia do Trabalhador, data histórica marcada por sangue, suor e lágrimas. Lamento a sua progressiva despolitização, transformada em showmícios animados por bandas e sorteios. A classe operária jamais chegou ao Paraíso, mas alguns de seus líderes sim, apegados ao poder e às mordomias. O desemprego se amplia à sombra da crise do capitalismo. Onde as mobilizações para reverter essa conjuntura?


Frei Betto é escritor, autor de A mosca azul – reflexão sobre o poder (Rocco), entre outros livros.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 30 de abril de 2009

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O ESPELHO DE NARCISO

Por Cléber Sérgio de Seixas

O recurso à mitologia grega tem sido prática constante de escritores de várias áreas, seja para endossar alguma idéia ou ilustrar algum conceito. Freud, por exemplo, celebrizou o personagem Édipo, da tragédia de Sófocles, ao usá-lo para explicar sua teoria psicanalítica conhecida como Complexo de Édipo. Já o filósofo Nietzsche utilizou-se do dualismo entre Apolo e Dionísio em sua obra A Origem da Tragédia. Seguindo-lhes o exemplo, gostaria de recorrer ao mito de Eco e Narciso para tentar entender o fenômeno que faz com que tantas pessoas considerem demais a si próprias, numa demonstração de egocentrismo, ao passo que outras não se consideram tanto quanto deveriam.

Segundo a lenda, Eco era uma ninfa famosa por sua tagarelice. Certa vez ela tentou desviar a atenção de Hera, esposa de Zeus, para que a mesma não descobrisse que ele, verdadeiro atleta de alcova, estava entre as ninfas em mais uma de suas muitas aventuras extraconjugais. Porém a deusa descobriu o estratagema de Eco e, por vingança, condenou-a a nunca iniciar um diálogo, apenas repetir as últimas palavras de seu interlocutor. Ocorre que Eco se apaixonou por Narciso, belo jovem que vivia sendo assediado pelas ninfas sem nunca comprometer-se com nenhuma delas. Perdido dos amigos numa caçada, Narciso se viu sozinho num bosque. Foi quando Eco surgiu, sempre a repetir-lhe as últimas palavras. Na tentativa de aproximar-se de Narciso, foi rejeitada por ele. Diante do desdém do jovem, ela se refugiou nas rochas e nas cavernas, onde seu corpo se decompôs e se transformou em rocha, restando apenas sua voz, que repetia sempre as últimas palavras de alguém. Iradas, as ninfas pediram à deusa da vingança, Nêmesis, que condenasse o belo moço a algum tipo de amor impossível. Então, certo dia, Narciso debruçou-se sobre um lago para matar a sede, no que fora flechado por Eros, acabando por se apaixonar pela própria imagem refletida nas águas. Cada gesto seu era repetido pela bela criatura que habitava as águas e suas palavras finais eram repetidas pela voz de Eco, que já habitava os rochedos. Ficou ali até definhar completamente. No lugar onde perecera surgiu uma flor que leva seu nome. Dizem que no Hades a alma de Narciso procura ver sua imagem refletida nas escuras águas do Estige.

Diante da trágica e bela narrativa grega devemos perguntar quem somos cotidianamente: Eco ou Narciso? De que forma temos nos comportado uns para com os outros? Temos apenas refletido as opiniões alheias ou transformamos os outros, do topo do nosso egocentrismo, em meros espelhos refletores da nossa própria figura? Quando nos defrontamos com outro, quem vemos, nós mesmos ou o rosto do outro? Nos embates diários sempre recuamos diante das negativas ou somos intransigentes demais?

Eco habita nosso subconsciente e está sempre nos orientando a nunca arriscar a primeira palavra e a nos contentar em ficar por último na emissão de opiniões, por vezes até endossando a opinião daquele(s) que consideramos superior(es) a nós em algum aspecto, em detrimento da nossa própria. Não que nossas opiniões tenham que ser sempre acatadas, mas devemos, pelo menos, emiti-las. Há indivíduos que passam boa parte de suas vidas apenas cumprindo o papel de coadjuvantes, deixando sempre o protagonismo para outros, pelo simples medo de se manifestarem. É possível afirmar que Ecos poderão se converter em indivíduos hipócritas e frustrados, visto que poucas vezes conseguem abrir suas bocas, exteriorizando o que pensam, mostrando quem são. O exemplo de Eco serve de alerta para aqueles que não se consideram como deveriam, cuja auto-estima está em baixa. Estarão sempre a ressoar a opinião alheia, em detrimento da própria. Nunca terão a primeira palavra e, quando se manifestarem, apenas o farão em concordância com outros. Em suma, sempre “ecoarão” o dizer de outrem. O definhamento de Eco não começa no momento em que Narciso a rejeita, mas quando ela perde sua capacidade de expressão.

Nesses tempos em que tanto se fala de aceitar o outro apesar das diferenças, em inclusividade, ainda há indivíduos que enxergam apenas a si próprios. O Narciso da lenda nunca conseguiu se apaixonar por ninguém, exceto por si mesmo. Qualifica-se como narcisista o indivíduo que ama a si mesmo de forma excessiva. Quando tal tipo de indivíduo se aproxima do outro, espera ver não o outro, mas a si mesmo refletido. O indivíduo narcisista faz do rosto alheio apenas o reflexo do seu eu. O que o narcisista espera na relação dialógica é apenas seu reflexo, sua imagem e semelhança refletida no espelho em que converte seus interlocutores. Assim sendo, proposições e idéias que se lhe chegarem só serão recebidas se estiverem em total consonância com suas concepções, sempre subordinando os interesses alheios aos seus próprios. O narcisismo ou, caso queiram, egolatria, é o primeiro passo para o isolamento do indíviduo detentor de tal característica, tal como o Narciso mitológico que se isolou na auto contemplação até que seu corpo se desfizesse junto às águas. Narciso não procura portadores de antíteses para suas teses, e sim, e tão somente, espelhos nos quais possa ver sua imagem e semelhança refletida. Narciso pretende para si a divina capacidade de moldar indivíduos à sua imagem e semelhança.

Quando Narciso pergunta ao vazio “quem é você?”, Eco, das rochas, responde: “você...você...você...” Portanto, de certa forma, Narciso e Eco se complementam, são faces diferentes da mesma moeda. Para que Narciso exista, é necessário que existam também vários Ecos, pois Eco é apenas a reflexão da voz de Narciso; Eco é o espelho de Narciso. Contudo, o caminho sempre será o equilíbrio. Não podemos ser nem um nem outro, mas ambos ao mesmo tempo, com doses adequadas tanto de orgulho quanto de humildade.

Enfim, Che!




Demorou mas estreiou nos cinemas de Belo Horizonte o filme Che (The Argentine), depois de praticamente um mês de atraso com relação a São Paulo. O filme conta a história do médico e guerrilheiro argentino Ernesto Guevara de La Serna, apelidado Che, um dos heróis da Revolução Cubana ao lado de Fidel Castro e Raúl Castro. Trata-se da primeira parte de uma produção dupla de Steven Soderbergh, já que foi filmado conjuntamente com outra produção (Che - Guerrilla), que deve estrear nos cinemas em breve. A rede Cineart boicotou completamente o filme e não o está exibindo em nenhum de seus cinemas espalhados pelo país. Está em cartaz nos seguintes cinemas de BH: Belas Artes, Belas Artes 1, Diamond 5, Ponteio 2 e no Usina 1.

Creio que o filme não deve ficar muito tempo em cartaz, já que não é um blockbuster, e a metragem do filme acaba por prejudicar a exibição de outros filmes mais "populares". É uma pena, pois seria uma oportunidade de ouro para as novas gerações conhecerem melhor um dos personagens mais marcantes da história do século XX, cuja biografia sempre foi pautada pela coerência.

Assistirei ao filme e em um futuro post farei minha crítica do mesmo.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Amanhã eu faço!

Que fazer? Estudar para prova ou ir à praia? Interrogações como essas nos assolam todos os dias. Sempre estamos diante de escolhas que, a princípio podem parecer simples, mas podem redundar em situações complicadas caso sejam procrastinadas.

O termo procrastinar vem do latim procrastinare, que é a junção do prefixo pro (encaminhar) e castinos (amanhã). Em outras palavras: deixar para depois, enrolar, empurrar com a barriga. O termo não é novo. Em Roma, Cícero já criticava Marco Antônio por gastar tempo em festas e deixar seu trabalho de imperador em segundo plano. Dizia: "In rebus gerendis tarditas et procrastinatio odiosa est". Traduzindo seria algo como: "Na conduta de quase todo relacionamento, lerdeza e procrastinação são coisas odiosas".

E você? Tem o hábito de deixar tudo para depois? Cuidado para não pegar "procrastinite aguda". Não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje.

SUPER INTERESSANTE, Depois eu faço. Eduardo Fernandes, ed 257, pg 87,out/2008

DO DIREITO DE PENSAR

O neoliberalismo, empenhado em preparar o funeral da história, insiste em que deixemos de pensar. Melhor redizer as palavras, submeter o pensamento ao pragmatismo tão em moda, como a arte da prosperidade, ou ao realismo cético de quem se dobra ao pensamento único ao delegar ao sistema o direito de pensar por ele.

Quem acata tão insólita sugestão afasta-se de Platão, mestre em tornar o ato de pensar uma forma de dialogar. Ou vice-versa. Quem se deixa dominar pelo medo de pensar, evita contradições e opiniões divergentes, assimila o pensamento de quem o proíbe de pensar e se alheia da busca da verdade, confundindo-a com a autoridade. Ou pior: julga o seu pobre pensar refletir a verdade lapidar e olvida que há a sua verdade, a minha verdade e a verdade verdadeira, ensinavam antigos sábios chineses. O desafio é buscarmos, juntos, a verdade verdadeira.

Toda verdade humana é relativa; e o nosso juízo crítico, dotado de bom humor, deve sempre persegui-la, peneirando-a na dúvida. Apear-se do bom humor e do senso crítico é pisar no alçapão dos dogmas e, lá dentro, congelado, abraçar-se à verdade aparente. Ora prefiro inscrever-me na maratona de Descartes, submeter o pensamento ao crivo da dúvida, de modo a construir, por uma sequência de operações, uma representação mental da realidade.

Pensar é calcular, diz Hobbes, e não se refere à sua conta bancária. Pensar é unificar representações numa consciência, afirma Kant, mestre na lapidação de conceitos. Wittgenstein enfatiza que pensar é elaborar proposições dotadas de sentido. Pensar não é abraçar o que concebe a minha mente. A mente mente. Convém desmascarar o saber travestido de pensamento. Como lembra Marx, se toda essência e aparência coincidissem, as ciências seriam supérfluas. Quem pensa enxerga além das aparências. Mas as aparências seduzem a ciência. Por isto esta tende a rejeitar sua irmã gêmea, a filosofia. Destituída de pressupostos filosóficos, a parafernália tecnocientífica foge da ética e cai na gandaia. Não é à toa que Hanna Arendt desconfia do juízo político dos cientistas. Não pela falta de caráter ao aceitarem fabricar armas atômicas, nem pela ingenuidade (foram os últimos a saber de que modo as armas seriam empregadas), mas porque se auto-exilaram numa esfera onde "a linguagem perdeu o seu poder".

(...)

Pensar dói. É tão mais confortável tudo estar previsto. Então, a verdade nos é servida à boca como sopa quente em noite de inverno.

(...)

O sistema, entretanto, recomeda: demita-se de pensar. Atrofie a sua imaginação política. Não queira modificar a realidade. Reajo: quero ser livre! Ele me responde: liberdade não é pensar, é desfrutar. E isto não depende de sua cabeça, mas de seu bolso. Não perca tempo sendo voz discordante ou fazendo eco às opiniões divergentes. Não vê que a filosofia e a ética foram banidas das escolas? Estreitam-se sempre mais os vínculos entre bens culturais e bens de consumo. Um e outro passam a ser monitorados por um princípio único: satisfação do consumidor. Portanto, nada de produções culturais críticas, propositivas, emblemáticas, subversivas. Tudo deve ser muto clean, comportado, sentimental, melodramático e conformista. Ou ruidoso e inócuo, como a música dos metaleiros.

A minha sina, entretanto, é pensar. Tornar possível o desejável - desbancar a hegemonia dos valores econômicos, livrar a cultura da condição de refém do mero entretenimento, reduzir significativamente a exclusão social.

Penso, logo resisto. E considero ridículos os arautos do fim das ideologias. Ora, ninguém é capaz de arrancar os "óculos" atrás dos olhos pelos quais enxergamos a realidade. Não ignoro minhas ignorâncias. Por isso, dilato a minha fome de conhecimento. Exerço a minha atividade crítica. Desmascaro o consensual. Ponho em questão as representações coletivas e as idéias estabelecidas.

Seria o idealismo político, como suspeita Weber, uma prerrogativa dos que não são proprietários de bens?

BETTO, Frei. A Mosca Azul. Editora Rocco, pg 231 a 235, 2006. Rio de Janeiro

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O PRESENTE DE CHÁVEZ


Chávez presenteando Obama e o pensativo Galeano


Por Cléber Sérgio de Seixas

Lá pelos idos de 90, especificamente na primeira metade daquela década, tive a oportunidade de ler uma obra que passou a ser meu livro de cabeçeira. Frequentador assíduo de bibliotecas, certa vez peguei um livro de título estranho. Pensei tratar-se de alguma ficção, mas quando começei a lê-lo percebi que realidade vai muito além da ficção. As Veias Abertas da América Latina. O livro discorria sobre a história da América Latina e, num estilo jornalístico, deslizava pelos fatos que marcaram a história do continente que certa vez Simón Bolívar sonhou tornar um só. Logo na introdução lia-se: "CENTO E VINTE MILHÕES DE CRIANÇAS NO CENTRO DA TORMENTA". No primeiro capítulo, um choque: "O SIGNO DA CRUZ NO CABO DAS ESPADAS", ou seja, aqueles que vieram d'além mar trazendo as boas novas e a conversão à religão do nazareno, ou melhor, do Papa, traziam também a cobiça escondida sob o manto da cristandade; a cruz pode se tornar espada dependendo de como utilizada; febre de ouro, febre de prata.

Daí por diante só sangue, ouro, pilhagens, heróis tombados, índios escravizados, presidentes democraticamente eleitos depostos, e toda sorte de rapina por parte das nações hegemônicas, às vezes indiretamente levada a cabo pelo colaboracionismo local. De Tupac Amaru a Guevara, de Jacobo Arbenz a Allende, de Potosí a Ouro Preto, da guerra da Tríplice Aliança até a invasão de Granada - um passeio, uma aula. A lição maior? É difícil extrair só uma deste magistral livro, mas creio que posso citar uma como idéia norteadora de toda a obra, usando as palavras do próprio autor, o jornalista uruguaio Eduardo Galeano: "Nestas terras, o que temos assistido não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É sua consequência". Em outras palavras, somos pobres, subdesenvolvidos, não porque somos indolentes ou ignorantes, mas porque somos ricos demais, porque nosso subsolo está coalhado de minerais preciosos, porque nossas matas estão repletas de princípios ativos que podem curar da dengue ao câncer, porque nossas terras são extremamente férteis e, sobretudo, porque nossas burguesias são entreguistas, fazendo das nações abaixo do Rio Bravo meros apêndices das nações hegemônicas de plantão.

A desgraça das nações latino americanas é decorrente de sua extrema riqueza natural. Revoltas populares, como a que aconteceu recentemente em Cochabamba, Bolívia, na qual o povo saiu às ruas para impedir a privatização da água (até da chuva), foram e sempre serão reprimidas com violência. Terminada a leitura, se é que um dia vou terminá-la, é impossível não tomar partido, é impossível permanecer neutro, como não procura fazê-lo o próprio autor.

No penúltimo sábado, dia 18/04/09, a 5ª Cúpula das Américas poderia ter sido resumida a apenas uma cena: Chávez presenteando Obama com um livro após dizer as seguintes palavras: "para que o senhor conheça melhor a América Latina". O presente de Chávez pode converter-se num presente de grego a partir do momento em que os estadunidenses seguirem o exemplo de seu presidente, tomando o livro às mãos. Não preciso dizer o nome do livro.

A inusitada cena trouxe novamente à baila uma das literaturas mais inspiradoras para a esquerda latino-americana, posicionando-a no ranking das mais vendidas a partir de então. Alguns já estão dizendo que o episódio está servindo para desempoeirar a obra e livrá-la das teias de aranha. Perdôo tais críticas pois elas podem estar vindo de quem não leu o livro ou então de quem o leu mas fingiu não entendê-lo. Basta uma atualização de cifras e estatísticas, acrescentando alguns fatos aqui e acolá - o Haiti dos Duvalier, a Nicarágua de Somoza aos Sandinistas, o Peru de Fujimori, o golpe midiático na Venezuela em 2002 e outros - para termos um livro novinho em folha.

Um espectro paira sobre a América do Sul, o espectro das chegadas de governantes de esquerda ao poder, forças obscuras se ajuntam numa aliança para exconjurá-lo. A paráfrase com as longínquas palavras do Manifesto Comunista são propositais. Fernando Lugo no Paraguai, Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Lula, Noriega na Nicarágua, Kirchner na Argentina, Chávez na Venezuela, podem ser, todos, elos da mesma corrente. De esquerda? Nem tanto. No entanto, a nação representada por uma ave de rapina afia suas garras para quebrar os elos desta corrente. Teorias da conspiração? Pode ser que sim, pode ser que não. Nos subsolos do poder talvez estejam sendo articuladas ações para erradicar novamente a suposta ameaça aos interesses estadunidenses representada pelos governos populares ascendendo ao poder na América Latina, um após outro. Enquanto isto a Quarta Frota é reativada, cujos navios trazem à lembrança as vésperas do golpe que depôs Allende e o nosso fatídico 64.

Não podemos esquecer que pesam sobre nossos ombros a Doutrina Monroe, o Destino Manifesto - velhas ameaças ocultas em neologismos. Assim, urge novamente a leitura da obra de Galeano, endossada pela frase de George Santayana: "quem não conheçe o passado está condenado a repeti-lo".





domingo, 26 de abril de 2009

Ex-prefeito foi condenado

Por Cléber Sérgio

Nesse país onde a justiça quase sempre tarda e falha - principalmente quando o réu é algum mega empresário, banqueiro ou figurão do colarinho branco - certas notícias funcionam como um lenitivo para aqueles estão para jogar a toalha quando o assunto é a confiança na justiça.

Matéria do MG TV de 26/01/2009 informa que o ex-prefeito de Ribeirão das Neves, Aílton de Oliveira, foi condenado por enriquecimento ilícito em última instância, ou seja, sem chance para apelação. A sentença é devolver ao erário público cerca de 21 milhões de reais e a perda dos direitos políticos. Só para refrescar a memória, no ano 2000, quando a prefeitura estava sob a gestão do supracitado prefeito, alguns funcionários chegaram a ficar com os salários atrasados por até 6 meses. Os funcionários de salários mais baixos, garis por exemplo, entraram até em greve para exigir o pagamento. Não fosse a ação de algumas entidades sindicais, os pagamentos teriam demorado ainda mais. Enquanto parte do funcionalismo público nevense era privado de seus direitos, os cofres de Neves eram saqueados pelo prefeito. Ao assumir o cargo o prefeito declarou um patrimônio no valor de R$ 76 mil. Ao deixar o cargo, no entanto, o patrimônio dele subiu para extratosféricos R$ 21 milhões, divididos em duas contas bancárias, abastecidas por depósitos feitos entre 1997 e 2000.

A história política de Ribeirão das Neves é permeada de roubos, casos de favorecimento, "nepotismo esclarecido", improbidade administrativa e tantas outras malandragens de membros do executivo e legislativo. É necessário que a população nevense fique vigilante e exerça sua cidadania. Uma das formas mais eficientes é através do Ministério Público, sobretudo através da Promotoria de Defesa dos Direitos do Cidadão, cuja ação combativa dos promotores que hoje atuam na cidade merece destaque. Abordarei este tema em futuros posts.

Templo do consumo


Por Cléber Sérgio de Seixas

Certo dia, diante do causticante calor e da ameaça de chuva, procurei abrigo num desses lugares que as pessoas costumam chamar de templos do consumo. Ao adentrar naquele oásis iluminado fui aliviado do calor pela deliciosa brisa soprada por uma gigantesca abertura de ar condicionado posicionada no teto, junto à entrada. Fiquei ali por alguns minutos refrescando-me. Ao olhar para trás pude perceber a diferença do mundo além daquela porta que eu acabara de cruzar – mundo conturbado, com pessoas transitando apressadas, desconfiadas e preocupadas com suas bolsas e bolsos – com o mundo belo, fresco, seguro e limpo no qual eu adentrara. Ali dentro as pessoas haveriam de ter descanso e segurança, pelo menos no que dependesse dos guardiões de terno escuro junto à porta, que me lembraram anjos guardando a entrada do paraíso, e que portavam, no lugar de espadas flamejantes, modernos walkie-talkies. Notei a diferença gritante entre aquele lugar e o que ficara após as portas que se abriam e fechavam em resposta à aproximação dos passantes.

Olhei em derredor e vi linhas arquitetônicas que me lembraram catedrais, porém não consegui especificar somente um estilo arquitetônico, pois naquele lugar poder-se-ia atestar a convivência de várias tendências. Nessa profusão de estilos, notei que o sincretismo era imposto pelo pragmatismo inerente ao local, pois cada um atraía o seu público com a decoração que mais lhe conviesse.

Com as pernas em frangalhos, corri os olhos em busca de lugares para assentar, mas notei que naquela gigantesca catedral quase não havia cadeiras. Mas se a palavra catedral guarda semelhanças etimológicas com cadeira (do latim catedra), onde estão os assentos? Aos poucos entendi o porquê de haver poucos assentos: as pessoas deveriam transitar pelos corredores graníticos a fim de contemplarem através do vidro translúcido as sacrossantas mercadorias e serem abordadas por sacerdotisas belíssimas ou por sacerdotes de cabelos lustrosos. Aliás, notei que a maioria ali se apresentava mais bem vestida e mais bem aparentada. Era como se uma mensagem subliminar dissesse que toda feiúra, pobreza, sujeira e mal-vestir deveriam ficar além das portas deslizantes daquela fortaleza climatizada, e que naquele lugar, feios, gordos e pobres só poluem a paisagem.

As pessoas adentravam no majestoso templo vestindo seus melhores trajes, como quem reserva à missa de domingo o melhor que possui no guarda-roupa, em outras palavras, sua “roupa de ver Deus”. Não avistei maltrapilhos nem gente de pés no chão, apesar de saber que muitos ali não eram gente de posse ou bem nascida.

Alguns passos depois, olhei para o alto e lá estava uma abóbada vitrificada a clarear o pátio central, mas no vítreo céu não encontrei anjos, nuvens ou estrelas, vi apenas um cartaz que cruzava diametralmente por baixo daquela cúpula, anunciando ofertas de uma loja de departamentos.

Concluí então que o lugar era de fato um templo, mas de um tipo onde as divindades assumiam formas variadas conforme o gosto e condição financeira de cada fiel. Era um reduto de objetos veneráveis cuja posse conferiria aos portadores a oportunidade de serem contados no rol dos possuidores de bens. Assim, para um, o belo e caro vestido traria consigo a garantia de chamar a atenção alheia, enquanto para outro, aquele sofisticado TV de plasma dependurado na parede da sala seria a garantia de status ao receber os amigos em casa para assistir a um bom filme ou partida de futebol, mesmo que no quarto não houvesse cama para todos ou a despensa se encontrasse desguarnecida.

As divindades também respondiam pelo nome de mercadorias. Fiquei confuso e não consegui absorver bem o conceito de mercadoria. O que é mercadoria afinal? Aquilo que está além da vitrine ou quem está a observar? Recordei a célebre frase de Marx: “O consumo consome o consumidor”. Nesse palácio iluminado e estupendamente decorado, as pessoas de fato consomem e são consumidas pelo consumismo.

Triste, recordei de quando se gozava o lazer andando pelas praças e parques públicos e, para tal, não necessariamente tinha que se ter dinheiro no bolso. Era um tempo em que lazer não era sinônimo de consumo. Ali, naquele lugar, porém, o único objetivo era gastar, senão não faria sentido transitar por aqueles iluminados corredores. Obedecendo a essa premissa, de parque de diversões a cinemas, tudo está sendo deslocado para dentro dessas fortalezas modernas. Nem os restaurantes escaparam da triste sina, pois passaram de lugares onde se pode comer um bom repasto, relaxar e bater um papo, a ruidosas praças de alimentação, nada intimistas, confortáveis ou silenciosas.

“Consumo, logo existo“, me veio também à cabeça, numa paródia a Descartes. Quem não tem dinheiro não existe nesse templo feito em honra a Mamon. Todos são iguais perante esse deus - negros, brancos, fidalgos ou plebeus - desde que tenham proventos suficientes. As diferenças caem por terra quando se registra o débito no cartão ou quando se saca do bolso o papel moeda. O sentimento é de se estar no céu, mas se trata de um céu despovoado de anjos e repleto de coisas supérfluas. O portador passa a acreditar que a posse do objeto adquirido o transporta para o mundo dos socialmente valorizados. Assim, parafraseando o velho Marx novamente, não apenas se outorga um objeto ao sujeito, mas também um sujeito ao objeto. Nessa relação fetichista, a posse do produto confere status a seu possuidor, fazendo-o crer que ter vale mais do que ser.

Aquele lugar bem que poderia ser algum tipo de mercado – ‘Mercado’ bem que poderia ser o nome do deus que domina o panteão consumista -, mas no mercado em sua versão mais prosaica encontramos geralmente coisas das quais realmente precisamos, itens necessários à nossa subsistência que costumamos chamar de gêneros de primeira necessidade. O que vi naquele gigantesco centro de compras, no entanto, foi toda sorte de bibelôs e souvenirs pouco necessários. Caminhei diante deles, contemplei-os em suas câmaras iluminadas mas nenhum deles me seduziu ou entusiasmou.

Avistei uma peça de vestuário que me pareceu familiar. Devo tê-la visto em outra loja fora daquele suntuoso lugar, mas ali a roupa me pareceu mais bonita, mais fashion. Porém bastou um exame mais minucioso para concluir que a miragem era produzida pela iluminação indireta, pelo brilho do piso, pelo luxo da vitrina enfeitada e pelos funcionários bem-apessoados. Era a mesma peça, mas, envolta pela aura do ambiente, aparentava ser mais nobre do que realmente era, de forma que o preço mais elevado se justificasse.

Enfadado de tudo aquilo, resolvi abandonar a fortaleza. Digo fortaleza, pois me lembro daqueles castelos medievais que foram construídos para abrigar os nobres em tempos de guerra e, em tempos de paz, para separá-los e diferenciá-los da sujeira e pobreza da plebe. De fato, hoje estamos em guerra civil não declarada, conflito cujo front é composto, de um lado, por aqueles que consomem e, de outro, por aqueles que não consomem, mas sonham em consumir. Os shoppings centers cumprem bem a função de fortalezas, garantindo àqueles que possuem recursos a proteção do tenebroso mundo exterior, onde todos são alvos potenciais da pobreza e da violência. Enquanto deixava o local avistei uma criança maltrapilha ser retirada do shopping pelos seguranças, ao mesmo tempo em que uma jovem e seu cãozinho poodle caminhavam sem ser importunados.

Avistei novamente a porta, que se abriu automaticamente ante a minha aproximação. Cruzei-a e percebi que já anoitecia, o calor aumentara e, do céu carregado, a chuva caia torrencialmente. Poucos metros depois as mãos sujas de um pedinte se estenderam a mim na esperança de que eu as preenchesse com algumas moedas de pouco valor. Não entendi as palavras balbuciadas, mas aliviei minha consciência depositando alguns centavos naquelas mãos. Este é o mundo real, a dura realidade que supera a ficção do shopping center.

As pessoas ainda caminhavam apressadamente, desconfiadas umas das outras, protegendo seus pertences, ansiosas para chegar em suas casas a fim de se protegerem da chuva e do caos reinante na rua. Mas este caos é a regra, não a exceção. Aquele Shangri-La consumista do qual eu saíra era uma terra muito longínqua para muitos, realidade para os bem integrados na sociedade do consumo e uma utopia para os menos favorecidos, um reino de opulência acessível aos primeiros e apenas um sonho de consumo para os últimos, enfim, uma ilha de riqueza cercada por um oceano de privações.

sábado, 25 de abril de 2009

Bambá Di C'Ove





Por Cléber Sérgio de Seixas

Em meus tempos de infância e adolescência, lá em casa, quando as coisas não iam muito bem no aspecto financeiro, com seus imediatos reflexos na qualidade da alimentação, entravam em cena os famigerados pés de frango, os mal aparentados pescoços de peru, os suãs, os práticos discos voadores - que as galinhas produzem em profusão - e outros, todos bem recebidos à mesa naqueles tempos de vacas magras. Meu pai, gozador que só ele, gostava de atribuir nomes jocosos a alguns pratos típicos da culinária mineira. Assim, quando minha mãe fez uma receita com fubá, couve rasgada, cebolinha e um pouco de boi-ralado, meu pai logo batizou o prato de “péla-égua” - talvez pelo fato de os respingos quentes do fubá em ebulição espirrassem, feito lava de vulcão, queimando a mão da cozinheira desavisada. O “péla-égua” na verdade era o popular e democrático mingau de fubá – ao qual a imaginação e criatividade dos cozinheiros e cozinheiras mineiros acompanha de algum coadjuvante como carne moída, lingüiça e outros.

Recentemente, assisti na TV uma matéria cobrindo um festival gastronômico na cidade de Tiradentes. Dentre os mais variados pratos da culinária mineira lá estava ele, o bom e velho “péla-égua” - só que rebatizado com o pomposo nome de Bambá de Couve - sendo degustado por gente endinheirada e bem aparentada, que elogiava a qualidade do prato e se dispunha a pagar preços exorbitantes pelo mesmo. A receita até que era conveniente aos comensais pela sofisticação do evento e pelo frio que fazia, mas não a mim, que aprendi a associar tal tipo de alimento a tempos de renda minguada. Noutra ocasião ouvi falar de um tal Festival do Ora-pro-nobis numa cidade da região metropolitana de BH. Ora, esta planta não é aquela que se espalha feito praga pelas cercas de arame farpado? Quem diria, virou estrela de festival!

O que pretendo neste artigo é tentar entender o porquê das pessoas se disporem a sair de suas casas e se deslocarem para estes lugares, sejam botequins ou festivais gastronômicos, a fim de degustarem iguarias que podiam muito bem ser preparadas por eles mesmos em suas casas, sem pagar quantias elevadas para tal. Tal fenômeno, creio eu, deve ser analisado mais à luz da sociologia ou da antropologia do que da gastronomia. Vejamos então.

A partir dos anos 60 o movimento feminista, dentre outras tantas conquistas, tirou as mulheres de seus lares e as inseriu no mundo do trabalho. De lá para cá postos de trabalho que eram predominantemente ocupados por homens, passaram a sê-los também pelas representantes do sexo feminino. Isto criou novos paradigmas para o mundo varonil. As responsabilidades da casa passaram a ser divididas pelos casais. Homens foram para a cozinha lavar a louça e cozinhar e passaram a ajudar no cuidado dos filhos, nas compras, enquanto as mulheres saíam à luta. Tal mudança de status teve reflexos na repartição mais popular de qualquer casa: a cozinha.

Sem a esposa, ou a mãe, para fazer aquelas deliciosas iguarias, passadas de mãe para filha, a saída foi recorrer à fast food, aquele tipo de comida que te fod... bem fast, que bem poderia ser rebatizada para fat food. Observe o leitor que até as embalagens dos alimentos são super práticas, de forma a facilitar a vida do consumidor, poupando-lhe energia, que ficará armazenada em estado adiposo. O leite, por exemplo, pode permanecer acondicionado na própria embalagem, mesmo depois de aberta, ao contrário daqueles saquinhos plásticos que tínhamos que descartar após despejar o precioso líquido branco em algum vasilhame. E veja, nem é necessário mais ferver! Assim, com a mulher fora do lar, receitas e macetes à cozinha foram se perdendo. Como conseqüência, as pessoas vão aos restaurantes degustar pratos como feijão tropeiro, canjiquinha com costelinha, pé de porco, feijoada, além, é claro, do famoso bambá.

A estratégia muito utilizada nos torneios culinários é bem conhecida: dar uma incrementada no prato, acrescentar-lhe algum novo ingrediente, caprichar no visual etc. Caso seu bar não tenha assentos para todo mundo, transforme caixotes de madeira em bancos e espalhe aos quatro cantos que é algo exótico sentar-se nos mesmos e degustar os petiscos ali, apoiados no chão. Se seu boteco se chama Bar do João, mude o nome para John’s Bar e use isto como desculpa para aumentar os preços. Se tudo isto falhar, faça investimentos na aparência do restaurante, pois vale a máxima “beleza põe mesa”. Exemplo disso foi quando estive em 2007 na Serra do Cipó. Passei em frente a um restaurante de uma pousada renomada da Serra e resolvi entrar. O lugar, referenciado até pelo Guia 4 Rodas, até que era bonitinho, mas quando vi o cardápio passei a achá-lo ordinário, e quase caí para trás ao deparar-me com um franguinho com quiabo sendo oferecido pela bagatela de 36 reais. Desse dia para cá fiz um juramento: jamais entrar num restaurante para comer algo que eu ou minha esposa possamos preparar em casa. Diante de tudo isto, então, gostaria de atribuir uma nova raiz etimológica à palavra gastronômico, qual seja: fusão das palavras gasto e astronômico.

Outro aspecto importante é que com o desenvolvimento industrial das cidades brasileiras, ocorrido, sobretudo, dos anos 50 aos 80, o conseqüente êxodo rural vomitou homens nas grandes cidades. Sabe-se que a vida bucólica é conhecida por sua tranqüilidade. A fala arrastada é característica atribuída ao homem do campo, para quem o tempo parece passar mais devagar. Na roça cozinha-se à lenha, tem-se tempo para retirar a fuligem que fica acumulada nas panelas, trabalha-se perto de casa. Assim sendo, comer é um ato solene, ao contrário da vida moderna, onde cada um pega seu prato, vai para o quarto, onde geralmente há uma televisão – especialistas dizem que as pessoas comem muito mais quando o fazem diante da TV. Come-se rápido, no cada um por si, sem diálogo, só mastigação. O setor de convívio social de uma casa, que antes era a sala, a copa ou a cozinha, onde se comia e conversava e onde geralmente havia uma mesa, desaparece – lembre-se que Sir Arthur e seus cavaleiros se reuniam em torno de uma mesa redonda. As salas das casas de hoje deixaram de ser espaços de convívio social e é raro encontrar aquelas que são conjugadas com copas. Se o ato de comer é rápido, o preparo também dever ser. Tempo na cozinha então, só no domingo. Como o campo rapidamente vai se transformar em um deserto verde - sem homens e dominado pela monocultura - tal modus vivendi, e o estilo alimentar que o acompanha, tendem a desaparecer. Contribuem também para o fenômeno a penetração que os alimentos industrializados têm no mercado e a falta de tempo decorrente do excesso de horas que passamos no trabalho e a distância casa/trabalho.

Iniciou-se a temporada de festivais gastronômicos em Minas Gerais. Nosso estado será palco de vários eventos culinários, que primarão para agradar aos paladares alheios com os mais variados pratos, originais ou não, reinventados ou não, caros ou não. Talvez o mais famoso seja o Comida Di Buteco - olha o estrangeirismo aí gente! O festival completa 10 anos com um corpinho de 100, já que boteco é a coisa mais manjada em Minas. O evento traz, todos os anos, um novo fôlego ao hábito mais popular entre os mineiros: ir aos bares da vida, jogar conversa fora, tomar cerveja e comer tira-gosto. Contudo, quero deixar aqui um conselho: depois do concurso, não vá aos bares participantes, pois o certificado de participação pendurado na parede do bar vai deixar o preço da cerveja e do tira-gosto mais salgados. Para finalizar, lembro-me da fala de minha mãe: “mais vale um gosto do que dois vinténs”. Em oposição, crio meu próprio adágio: “mais valem dois vinténs no bolso do que gastá-los com comida ruim”.

Se após toda esta leitura você ficou com fome, aí vai uma receitinha bem básica.

Bambá Di C’Ove
(gostaram do “Di”? É que o prato é italiano. Já o “C’Ove” tem origem francesa)

Autor: Monsieur Clebér

Ingredientes:
- 2 colheres (sopa) de fubá;
- 250 g de lingüiça cortada em cubinhos;
- 4 a 5 folhas grandes de couve (já não são plantadas nos quintais);
- ½ xícara de água fria;
- 1 litro de caldo de carne;
- 1 ovo inteiro (se for fazer meia porção, corte-o ao meio)

Preparo:
- Coloque o fubá numa frigideira de ferro grossa e torre rapidamente;
- Reserve;
- Aproveite a frigideira e frite as lingüiças;
- Tire o talo das couves (pique e jogue para as galinhas), rasque as folhas em pedaços médios e refogue também na frigideira, aproveitando parte da gordura da lingüiça;
- Dissolva o fubá na meia xícara de água e junto ao caldo de carne fervente, mexendo para não encaroçar.
- Bata ligeiramente o ovo e junte ao fubá, mexendo sempre até talhar (cuidado com os respingos assassinos, principalmente se estiver sem camisa);
- Por último, adicione a lingüiça e a couve (c’ove, faça biquinho para pronunciar);
- Sirva bem quente para dar jus ao nome popular: péla-égua.

Bom apetite!
PERIFERIA – MUNDO DE DIVERSIDADE OU DE GLOBALIZAÇÃO?

Por Míriam Pacheco da Silva Seixas - professora e psicopedagoga

Vivo num mundo conturbado. Me consideram uma criança ou, por vezes, um adolescente desmiolado, e quando querem me reprimir me chamam de menor abandonado. De abandono familiar não sofro não, sofro do abandono social. Há quem me veja como um fantasma urbano ou pedinte marginal; na feirinha as madames me chamam garoto carregador, nas ruas que trabalho, tenho nomes diferentes: o garoto do jornal, o engraxate. Pros malandros moleque, e os “gambé” me chamam de cheira pó. Na escola os professores me chamam de o número 32 da turma D ou então o magricela de boné da turma D. Sou anônimo quando convém. Já os colegas de escola me deram o apelido de fuinha, pelo meu tamanho e por ficar sempre pelos cantos – é que não me enquadro na galera.

Moro na periferia, numa cidade grande em extensão e maior ainda em desigualdade, onde tem mais gente que emprego. É conhecida como cidade dormitório - quase todo mundo sai daqui pra capital a fim de arrumar um trampo. Também começam a chamar a cidade onde moro de cidade presídio; os políticos vêem as terras daqui como um lugar pra marginal ficar. Quando falo onde moro as pessoas têm medo ou fazem piadas. Além de a cidade ter má fama, ainda moro em bairro pequeno. Para a TV sempre que morador de periferia faz algo digno e tenta honestamente superar o caos e a penúria, ajudando ao próximo e sendo um ser de caráter, os telejornais anunciam o lugar como comunidade ou vila. Quando acontece algo errado, quando a chapa esquenta, o lugar será chamado de favela ou aglomerado.

Pra sobreviver tenho muita coisa pra fazer, atividades são o que não me faltam. Sou engraxate, jornaleiro, vendo balas, faço malabarismos pelas ruas da capital, carrego sacolinhas das madames na feira e, pra aumentar a renda da família, vou à escola, pois tenho que estar sempre presente, mesmo que com pensamento ausente, a fim de garantir o bolsa-família, renda extra para o pão da cesta.

É a escola o lugar que mais gosto. Dizem que escola dá futuro. Ainda espero ter retorno deste lugar. A escola é meu único lugar de descontração e diversão. Lá tem grupo de alunos que mandam mais que qualquer adulto, professores que andam sempre acuados perante alguns alunos; e eu, no meu canto, fico ali sempre calado, matutando e vendo tudo o que se passa ao meu redor. Toca o sinal e entra um professor - aula de história sobre um mundo diversificado e também globalizado. Mas que coisa mais maluca, ser um mundo de diversidade e também global? Global pra quem? Diversificado pra quem? Diz o professor que somos uma mistura de raças - somos brancos, negros e índios, e nossa cultura tem herança das três. Chega a professora de Língua Portuguesa com a nova regra ortográfica. Dizem que com isso o Brasil e países de língua portuguesa vão ficar mais próximos, padronizados, mas eu nem sei onde fica Portugal, nem no mapa. Êta, língua chata! Cheia de regras para escrever! Mas pra falar vai de qualquer jeito “mermo”, ainda mais pra quem vive da rua. No fundo da sala acontece uma confusão: o Mané e o Zé Borracha discutem sobre uma palavra escrita no quadro. A professora intervém no assunto pra dizer que o Mané entende o significado de forma diferente porque é do norte, enquanto o Zé Borracha é daqui da comunidade. Ela diz que isso é diversidade cultural. Ora, a nova ortografia é global ou diversificada? Tempo curto é o do intervalo. Mau dá pra comer a regrada merenda, correr no banheiro e, se for bem esperto, tirar sarro com a cara de alguém, essa é uma diversão geral. Só que às vezes a galera da geral pega pesado e ai muita gente se dá mal.

Escola é bom demais, vou sendo empurrado pra frente sem aprender quase nada, bem dizer nada, escrevo mau, em todas as provas e redações minha nota é fraca. É sempre a mesma história. E na matemática sou um fracasso - cálculos complicados e prova zerada. O professor me disse pra prestar atenção e exercitar os fatos, mas quando tô no trampo ninguém fica me devendo os trocados, desse cálculo eu entendo. Os do professor é que não dá pra entender, tem regras demais pra decorar.

Vou pra casa cansado e mamulengo, e ainda pensando no que vale mais: diversidade ou globalização?

Chego em casa pro rango. Nas panelas o de sempre: arroz, feijão e ovo. Rapo o prato em frente à televisão. Mudo de canal e não encontro novidade nenhuma, todos os canais têm as mesmas coisas, isso sim é globalização! Mas também achei diversidade nas novelas. Passa uma cena de periferia, diferente da minha comunidade. O povo na novela toma café da manhã na mesa com a família toda em volta. Tem prato, xícara e muitas frutas, pão, bolo, leite, suco e café, e todos usam o talher pra comer. Aqui em casa minha mãe acorda cedo e côa o café - uma água rala - e deixa na garrafa. Leite é raridade, é produto consumido só pelos pequeninos. O pão sou eu quem compra, deixo-o sempre em cima da mesa ou do armário, e é comido a seco, sem manteiga ou margarina. É festa às vezes ter um pão com ovo no lanche de sábado à tarde, dia de faxina no barraco, dia da mãe na correria e pai na bebedeira. No domingo tem frango, pagode, forró e confusão, mas na novela todo capítulo tem comida de montão. Coisa que a gente da periferia come em dia de festa, na TV todos comem diariamente, cheios de frescuras, usando garfo e faca, e a cada bebida num tipo de copo ou taça. Que coisa mais chata! Bom mesmo é comer de colher, meter a mão no frango e tomar limonada em copo americano, que por estas bandas chamam de copo lagoinha.

Vem a segunda-feira, e com ela um desespero danado. Acaba o sossego e os sonhos. Volto à realidade dos pobres e dos coitados. Pego o lotação, espremido feito sardinha em lata, e vou à capital começar minha labuta. Quem sou, não importa. A cidade onde moro tem nome, Ribeirão das Neves. Fica na grande BH, mas pra mim moro nos rincões do Brasil, sou um pobre púbere, que ainda se lembra que na sua cidade nasceu Henfil.

HOMO DAVOS EM EXTINÇÃO



Por Cléber Sérgio de Seixas

Em 2007 participei de um seminário no qual um palestrante dissertou sobre o papel do empreendedorismo, apresentado como solução paliativa para a escassez de empregos no futuro. A inexistência de postos de trabalho, tal qual os conhecemos hoje, seria a premissa para o empreendedorismo. Não tenho nada contra quem é ou pretende ser empreendedor, nem tampouco contra quem fomenta o empreendedorismo, mas tenho, por força de consciência, tudo contra o vaticínio que apresenta o desemprego como um dogma inelutável ou algo indissociável da dinâmica econômica. O mais honesto seria confessar que a precarização ou eliminação de postos de trabalho não passa de um artifício para tornar a mão-de-obra cada vez mais barata, majorando, assim, os lucros.

No celebrado O Fim da História e o Último Homem, Francis Fukuyama propõe o "fim da História" como sinônimo do apogeu do sistema neoliberal, grau mais elevado a que a humanidade teria chegado em se tratando de desenvolvimento econômico e social. Partindo das idéias de Hegel, mas distorcendo-as, Fukuyama coroa o capitalismo, e sua variante neoliberal, como sistema econômico mais avançado e capaz de gerar riquezas, distribuindo-as para suprir as necessidades dos terráqueos. Mas que eficiência é esta que garante a uma minoria a maior parte das riquezas, enquanto a maioria esmagadora chafurda na privação? Se a renda dos quinhentos indivíduos mais ricos do mundo é superior à dos quatrocentos e dezesseis milhões mais pobres, e se um norte-americano ganha sessenta vezes mais que um tanzano, como falar em neoliberalismo, etapa "superior" do capitalismo, como “fim da História”? A desculpa que apresentam é sempre a mesma: “o subdesenvolvimento nada mais é que a ausência ou pouca presença do capitalismo”. Porém, particularmente na América Latina, “o que temos assistido nessas terras não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É sua consequência”, palavras do jornalista uruguaio Eduardo Galeano. De fato, nessas terras que Colombo e Vespúcio descobriram, conhecemos e temos conhecido o capitalismo em forma de rapina e exploração.

Numa reunião organizada pelo Instituto Internacional de Economia, em 1989, na cidade de Washington, foram propostas reformas para que os países subdesenvolvidos e em vias de desenvolvimento retomassem a trilha do crescimento. Foi a gênese do que ficou conhecido como Consenso de Washington, espécie de bula que prescrevia consensualmente, dentre tantos remédios, austeridade fiscal, elevação de impostos, aplicação de juros altos para atrair investimentos estrangeiros, privatizações, estas últimas receitadas como antídoto contra uma suposta ineficiência do setor estatal. No Brasil, os remédios amargos receitados pelo Consenso nos foram empurrados goela a baixo nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, o príncipe dos sociólogos, eufemismo de sociólogo dos príncipes. Exemplos notórios do que deve ser rebatizado como privataria foram a privatização da Vale do Rio Doce e das telecomunicações. O resultado da farra foi o país quebrado no fim década de 90, com o ponteiro do risco Brasil chegando ao vermelho.

Em visita à terra brasilis, Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia em 2001 e economista chefe do Banco Mundial entre 1997 e 2000, afirmou o seguinte: “O Consenso de Washington não foi necessário nem suficiente para o crescimento. Países, como a Bolívia, seguiram os mandamentos do Consenso de Washington e disseram: ‘Passamos pelo pior, quando teremos os lucros?’. E esperaram, esperaram, e ainda seguem esperando. Outros países, como a China, não seguiram o Consenso e cresceram, cresceram e cresceram”. Recentemente a bolha especulatória estourou e quem vai pagar a conta dos equívocos das políticas macroeconômicas neoliberais, novamente, serão os contribuintes, já que neste sistema os lucros são sempre privatizados enquanto os prejuízos são socializados, numa espécie de socialismo às avessas.

Em função da crise, o Estado porá novamente as mãos nas rédeas controladoras do mercado trazendo de volta à cena o espectro do welfare state, para desespero dos defensores do “livre mercado”. Mercado cuja mão é invisível para os pobres e bem visível para banqueiros, grandes empresários e especuladores, sobretudo após o governo americano injetar mais de 700 bilhões de dólares no mercado para tentar salvar a economia americana.

Hayek e Friedman revirarão nos túmulos quando os estandartes da mudança tremularem com a efígie de Keynes. Os Chicago Boys ficarão órfãos e perderão o emprego.

Todos os anos, desde o início da década de 70, a cidade suíça de Davos sedia o Fórum Econômico Mundial, reunião onde é discutida a globalização como caminho para o paraíso. Paraíso de quem e para quem? Eis a questão. A antropologia moderna bem que poderia falar em homo davos, aquela categoria de ser humano que enxerga possibilidades de lucro até mesmo na desgraça alheia. O homo davos quer transformar em mercadoria o ar que respiramos e a água que bebemos. Nos EUA hoje, até mesmo os genes são patenteados.

No entanto, essa categoria de ser humano será extinta pela crise que se avizinha. Dos escombros da era neoliberal não se sabe que tipo de homem surgirá. Quem sabe o homo solidarius ou o homo altruisticus? O fato é que os restos mortais do homo davos repousarão, em cova profunda, aos pés do touro de bronze de Wall Street. Por falar em muro, pode-se concluir que vivemos num período entre-muros, e estão dizendo por aí que esta crise está para o neoliberalismo assim como a queda do muro de Berlim está para o socialismo real. É esperar para ver.

Manifesto dos Observadores


Uma parte de Ribeirão das Neves vista de nossa janela

Por Cléber Sérgio de Seixas e Míriam Pacheco da Silva Seixas


Somos casados há 10 anos. Durante este tempo temos compartilhado concepções e idéias sobre diversos assuntos, e um dos que mais nos inquietam é a questão da desigualdade social. Consideramos que a sociedade está imersa numa espécie de caos. É em meio a este caos social que temos dividido nossas angústias, nossas indignações, nossas frustrações e também nossa sede e ansiedade por mudança. Essa mudança pode começar de dentro para fora, ou seja, partindo das idéias para a prática. Mas isso não é tão simples, pois leva-se tempo para assimilarmos idéias e costumamos dizer que aprender dói e ensinar cansa.

Somos de periferia. Moramos numa cidade dormitório de grandes proporções territoriais, densamente povoada, espoliada por políticos inescrupulosos há anos, notória no quesito desigualdade, assídua frequentadora das páginas de jornais sensacionalistas - que transformam a desgraça alheia em espetáculo -, protagonista constante de notícias em telejornais, enfim, prolífera quando o assunto são mazelas sociais. Por vivermos em meio a essa desigualdade social desde nossa infância é que lutamos para que o ciclo de miséria que antes nos assolava não se perpetue e não seja deixado como um legado sombrio a outros. 

Por isso é que estudamos, por isso é que nos embrenhamos nas matas vicejantes do conhecimento, cujos caminhos, muitas vezes estreitos, levarão à compreensão adequada do mundo. No meio do caminho lançamos sementes. Pretendemos que este blog seja uma delas.

No túmulo de Marx, em Londres, lê-se uma de suas célebres Teses Sobre Feuerbach: "Os filósofos só interpretaram o mundo de várias maneiras. Trata-se de transformá-lo”. Nós, os Observadores, não somos filósofos, apenas olhamos a nossa volta e ficamos estupefatos. Somos tomados de perplexidade quando olhamos pela nossa janela e vemos uma humanidade dividida em dois grupos: "o grupo dos que não comem e o grupo dos que não dormem, com receio da revolta dos que não comem", conforme disse certa vez Josué de Castro. Queremos apenas fazer da estupefação um combustível para a mudança, contagiando outros. Como? Incentivando uma mudança de paradigmas; apresentando o alcançe da justiça social como ele deve ser, ou seja, não como um óbulo que parte das mãos de poderosos para descansar nas mãos calejadas dos estropiados sociais, mas como algo a ser conquistado.

Admoestamos também contra o consumismo - conhecemos indivíduos que têm carro do ano, mas batem nas portas alheias em busca do pão que eles mesmos transformam em gasolina, pessoas para quem ter é mais importante que ser

Advertimos, ainda, que nem sempre informação redunda em conhecimento - a Internet é um terreno onde há excesso de informação e pouquíssima formação de conhecimento; águas onde as viagens produzem mais náufragos que navegantes.

Assim sendo, eis-nos aqui e que Deus nos ajude nessa árdua empreitada de manter este blog e induzir outros a também serem Observadores.

Até o próximo post.