Capitalismo indomável


Por Jeferson Malaguti Soares*

Não é mais capitalismo selvagem. Tornou-se indomável, indomesticável, incontrolável, indecente e mais quantos “ins” quiserem. O capitalismo não se transformou em ideologia. Ele é a própria ideologia voltada  a mascarar as realidades do cotidiano. Há muito deixou de ser uma ideia para se transformar numa relação covarde de dominação. 

Na verdade o capitalismo é, e sempre foi, uma falsa consciência que gera inversão de valores, um verdadeiro simulacro da realidade, voltado aos interesses de uma pequena, porém obstinada, classe dominante, que não mede as conseqüências de seus atos, por mais ignominiosos que sejam.

Desse ponto de vista, o capitalismo, para se manter no domínio da realidade alheia, incentiva o racismo, o machismo, a homofobia, o anticomunismo, o fascismo e todo tipo de preconceitos de classe. Além disto, o principal combustível que o capitalismo lança mão para se manter vivo são as crises. Políticas, econômicas e sociais, essas crises são o prato preferido do capitalismo. Quando não invadem um país em nome de uma pseudo-democracia - foram 139 desde o término da segunda guerra -, lançam mão da desagregação da população - como fizeram na Argentina, Paraguai, Honduras e aqui no Brasil - a fim de dominar através de vendilhões da pátria.

Em 1964, João Goulart era apresentado como corrupto e “comunista”, quando, na verdade, Jango era um fazendeiro com inclinações progressistas. Caiu. Agora, temos um presidente corrupto, sobre o qual pesam provas contundentes, neoliberal, entreguista, perdulário, e as Forças Armadas fingem que nada vêm. O que mudou desde então? 

Ao mesmo tempo temos um Poder Judiciário em cuja cúpula praticamente todos são corruptos corruptos, e nada acontece. No Parlamento, então, nem se fala. São mais de 70% de parlamentares corruptos. No Executivo uma quadrilha assalta o País diariamente. O quarto poder da república, a mídia, principal incentivadora do golpe, segue tranquila com todas as dívidas perdoadas. 

Assim funciona o capitalismo. Nenhum direito a quem trabalha e todos os direitos a quem lucra com a força de trabalho alheia.

E o povo brasileiro a tudo assiste, calado. Cansou de lutar ou sabe que sua luta é inglória e de nada vai adiantar? Enquanto calamos, os bandidos avançam cada dia. É como o capitalismo funciona.

O que acontece no Brasil é uma afronta à soberania nacional e, curiosamente, as Forças Armadas, cuja tarefa principal é exatamente a de defender nossa soberania, se calam. Trata-se de um acinte ao povo brasileiro, que em sua maioria é honesto e cumpridor de suas obrigações legais. É uma desfeita à moralidade pública, uma despudorada atitude contra os mais incipientes princípios da democracia. É um achincalhe à probidade, à ética e à decência.

Somos hoje alvo do deboche e da zombaria mundial. Voltamos ao que éramos de 1500 a 2002: um povo de estatura moral e ética insignificante na visão daqueles que se acham superiores. A mais perfeita projeção de uma verdadeira República das Bananas.

Optei pelo socialismo desde 1969, aos 22 anos, quando, então, havia acabado de deixar uma carreira militar e me filiado ao MDB. Hoje, aos 70 não me arrependo absolutamente. Foi minha opção de como encarar a vida. 

Não consigo vislumbrar outra solução para a humanidade, que não passe pelo socialismo. Ao mesmo tempo, não podemos encarar os esforços de Karl Marx para criar uma nova ciência econômica, apenas como uma alternativa ao capitalismo. Seu pensamento tem um contexto social e cultural muito mais abrangente. Nesse contexto podemos vislumbrar claramente as experiências sociais reais da relação entre o capital e o trabalho. Aí começam os estudos sobre o socialismo, onde está o capital e onde fica o trabalho nessa relação espúria a que nos remete o capitalismo.

A grande diferença entre o capitalismo e o socialismo, é que o primeiro prima pelo individualismo, enquanto o segundo pelo coletivismo. A cultura capitalista ocidental não conhece o poder do pensamento, mas o pensamento do poder. Não existem valores morais quando está em jogo o poder político. O capitalista mantém viva a distância entre senhores e escravos, operários e patrões, exploradores e explorados, classe fina e pessoas rudes. Essa cultura separatista de gente tem que ser mantida para se evitar uma caótica mistura de pessoas, máquinas, instituições, pensamentos e ideias. A regra básica é ignorar a consciência e sepultar de vez a forma soberana da filosofia democrática, onde todos são iguais.

O poema de Bertolt Brecht (1898-1956), dramaturgo, romancista e poeta alemão, intitulado “Perguntas de um operário que lê”, mostrou-me de que lado fica o meu coração. Percebi que era do lado esquerdo, e é lá que me habito até hoje.


* Jeferson Malaguti Soares é administrador, consultor de empresas, Secretário de Formação do PCdoB Ribeirão das Neves e colaborador deste blog.

Comentários