terça-feira, 31 de julho de 2012

Mensalão: julgamento do século?



Por Jeferson Malaguti Soares *

Os capitalistas neoliberais e seus representantes na política nacional (leia-se políticos do PSDB, DEM e PPS), estão morrendo de rir da esquerda e, entre eles, o comentário único e carregado de ironia é que os petistas são “amadores”.

Verdade é que aqueles senhores conhecem como ninguém a arte de se apropriar de recursos públicos. Como exemplos mais recentes cito as privatizações das estatais; os títulos cambiais; os juros da divida pública; bilhões de reais para financiamento de suas campanhas políticas através de Caixa 2. Todos sabem, mas a imprensa finge ignorar, que o DNA do valerioduto é tucano, criado na campanha de reeleição do governador de Minas Eduardo Azeredo, em 1995. Todos conhecem os inúmeros escândalos do governo Fernando Henrique que foram abafados tanto pela imprensa quanto pelo parlamento corrupto e vassalo da época. No entanto, publicamente, esses senhores se tornaram paladinos da moralidade com o apoio decisivo da mídia nacional, partidária, aética, que forja noticias e deturpa fatos, e é dependente de grupos de poder.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O julgamento de agosto


Por Mauro Santayana *

O mundo não acabará neste agosto, nem o Brasil entrará em crise, qualquer que venha a ser o resultado do julgamento a que se dedicará o STF no mês que se inicia quarta-feira. Tampouco se esperam grandes surpresas. Ainda que mantenham a necessária discrição – e se registre, que neste caso, não conhecemos ainda manifestações intempestivas de alguns julgadores – é plausível supor que os magistrados já estejam com seu veredicto em mente. O relatório é deles conhecido, e o texto do revisor foi distribuído, houve bastante tempo, até mesmo para redigir os votos. O que vai ocorrer, nas demoradas sessões do julgamento, é o necessário rito, para que se cumpra o devido processo legal. Apesar disso, não é de se desprezar a hipótese de que surjam novas provas e contraprovas, em benefício, ou desfavor, dos réus.

A importância maior desse julgamento está nas reflexões políticas e jurídicas que ele provocará. Admitamos, como é provável, que os argumentos maiores da defesa – de que se tratava de um financiamento, a posteriori de campanha eleitoral – venham a ser admitidos pela alta corte, o que reduziria bastante a punição dos responsáveis. O sistema eleitoral nas democracias modernas – e não só no Brasil, mas no mundo inteiro – é deformado pela influência notória do poder econômico. Há um mercado do voto, como há um mercado da fé, e um mercado da informação. Uma campanha eleitoral é empreendimento complexo, que exige a presença de ideólogos e profissionais de propaganda; de ativistas pagos; de impressos e da produção de programas de rádio e televisão; de logística de transporte e de distribuição de recursos e de pessoal. Em resumo: é preciso dinheiro, e muito dinheiro.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Guerrilha urbana no cinema

Marighella, um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura militar, é tema de filme e livro.

“Para mim, ele era o tio Carlos, brincalhão, que fazia paródias das músicas de Roberto Carlos com os nomes dos nossos colegas. Ele sempre se escondia lá em casa. Uma vez, para explicar as ausências, inventou que tinha ido à África e trazido várias cobras dentro de caixas de sapato, para o Butantan, em São Paulo”, lembra a cineasta Isa Grinspum Ferraz. O tio de Isa era Carlos Marighella (1911-1969), um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Em agosto, chegará pela primeira vez aos cinemas um filme sobre ele, dirigido pela sobrinha. No segundo semestre, será lançada uma biografia, após anos de pesquisa do jornalista Mário Magalhães, consultor do filme.

A produção de “Marighella” enfrentou alguns desafios logo de cara. A equipe pesquisou em Cuba, Moscou, Pequim e em vários arquivos do Brasil, mas não achou nenhuma imagem em movimento do militante. E as fotos – pouco mais de 20 – são todas do acervo da família. “Ele não podia deixar rastro. Queimavam coisas dele depois que ele saía lá de casa. Muitas pessoas que o conheceram mantiveram segredo sobre isso e só agora estão falando. Talvez por eu ser sobrinha, consegui que se abrissem comigo”, conta a diretora, que entrevistou ex-guerrilheiros e alguns parentes, como a viúva do ativista, Clara Charf, e o filho, Carlinhos Marighella.

A pesquisa, que incluiu documentos da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e gravações feitas em Cuba nos anos 1960, rendeu descobertas interessantes. “Os documentos da CIA confirmam como a agência estava envolvida na formação de torturadores na época. Mas em outros arquivos descobrimos coisas que não conhecíamos, como um movimento de apoio na Europa. Artistas como Joan Miró e Jean-Luc Godard enviaram dinheiro para Marighella”, revela Isa.

Segundo Daniel Aarão Reis Filho, historiador da Universidade Federal Fluminense, Marighella ganhou respeito mundo afora, em grande parte pela militância na clandestinidade e pela experiência no Partido Comunista Brasileiro. “Ele representava uma espécie de síntese das virtudes então mais consideradas entre as esquerdas radicais. Tinha audácia, decisão de partir para o enfrentamento, capacidade de trabalho prático e comunicação fácil e fluente, inclusive com os jovens. Tudo isso misturado a muita irreverência, um bom humor permanente e uma ironia cortante na crítica às velhas tendências hegemônicas. Tais virtudes fizeram com que Marighella fosse ao mesmo tempo respeitado, admirado e querido”, explica.

Esse documentário não é o primeiro sobre o militante. Silvio Tendler já havia lançado na televisão, em 2010, “Marighella – Retrato falado do guerrilheiro”. Mas Isa pretende mostrar um recorte diferente: “Perguntaram se eu não ia ouvir o outro lado dessa história, a direita política. Eu não vou gastar tempo do meu filme para falar do ponto de vista que todo mundo sabe. Estou mostrando o ponto de vista de quem conviveu com ele”.

Fonte: Revista de História - edição nº 1, junho de 2012.

Nota do blog: reproduzimos abaixo o trailer do filme "Marighella".


segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Paraguai de Solano a Lugo

 Prisioneiros paraguaios durante a ocupação de Assunção

Por Cléber Sérgio de Seixas

Em relação à América Latina, os EUA sempre procuraram fazer valer a máxima de dividir para conquistar. Enquanto ALBA e a UNASUL dão sinais de fortalecimento, a grande potência do norte trata de desestabilizar toda e qualquer experiência de integração política, econômica e social ao sul do Rio Bravo que considere uma ameaça a seus objetivos imperialistas.

Do Destino Manifesto ao Projeto para o Novo Século Americano, os EUA sempre procuraram garantir sua supremacia sobre o continente, principalmente sobre aquele que considera seu quintal: as Américas Central e do Sul.

A integração sul-americana representa hoje para os Estados Unidos o mesmo que a experiência paraguaia representava para a Inglaterra há cerca de 130 anos. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os trens e o Brasil

Por Cléber Sérgio de Seixas

Este blog já publicou vários artigos sobre o tema dos transportes ferroviários, por acreditar que tal modal é o mais eficiente, seguro e econômico e que, mais que qualquer outro, pode promover a integração e o desenvolvimento de uma nação.

Os vários artigos aqui veiculados sobre o assunto procuraram ressaltar o processo que resultou no desmantelamento das ferrovias no Brasil - algo inédito em se tratando de um país de dimensões continentais como o nosso -, a superioridade do transporte ferroviário sobre o rodoviário, tanto de cargas como de passageiros, além dos impactos sobre o meio ambiente decorrentes do transporte rodoviário. Para saber mais, sugiro ler os artigos seguintes:

Muito do que já foi apresentado aqui sobre transporte sobre trilhos, seja em artigos autorais ou não, foi abordado pelo programa “Caminhos da Reportagem - Trens do Brasil”, atração exibida pelo canal TV Brasil que foi ao ar na última semana.  Trata-se de uma verdadeira aula sobre o assunto. Reproduzo abaixo dois vídeos que compõem o programa.

domingo, 15 de julho de 2012

Dona Europa e suas filhas



Por Frei Betto

Dona Europa livrou-se, há séculos, da tutela do Senhor Feudal, ao qual esteve submetida ao longo de mil anos. Cabeça feita por Copérnico, Galileu e Descartes, casou-se com o Senhor Moderno Liberal e montou casa no bairro da Democracia.

Dona Europa puxou o tapete dos nobres, deu um chega pra lá no papa e elegeu governos constitucionais que trocaram a permuta pela moeda, evitaram fazer uso de mão de obra escrava, transformaram antigos camponeses em operários merecedores de salários.

Dona Europa passou a nutrir ambições desmedidas. Fitou com olho gordo o imenso mapa-múndi que enfeitava a sala de sua casa. Quantas riquezas naquelas terras habitadas por nativos ignorantes! Quantas áreas cultiváveis cobertas pela exuberância paradisíaca da natureza!

Dona Europa lançou ao mar sua frota em busca de ricas prendas situadas em terras alheias. Os navegantes invadiram territórios, saquearam aldeias, disseminaram epidemias, extraíram minerais preciosos, estenderam cercas onde tudo, até então, era de uso comum.

terça-feira, 10 de julho de 2012

EUA: Um recorde raro e cruel

Foto: Wikicommons

Por Jimmy Carter *

Revelações de que altos funcionários do governo dos Estados Unidos decidem quem será assassinado em países distantes, inclusive cidadãos norte-americanos, são a prova apenas mais recente, e muito perturbadora, de como se ampliou a lista das violações de direitos humanos cometidas pelos EUA. Esse desenvolvimento começou depois dos ataques terroristas de 11/9/2001; e tem sido autorizado, em escala crescente, por atos do executivo e do legislativo norte-americanos, dos dois partidos, sem que se ouça protesto popular. Resultado disso, os EUA já não podem falar, com autoridade moral, sobre esses temas cruciais.

Por mais que os EUA tenham cometido erros no passado, o crescente abuso contra direitos humanos na última década é dramaticamente diferente de tudo que algum dia se viu. Sob liderança dos EUA, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi adotada em 1948, como “fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo”. Foi compromisso claro e firme, com a ideia de que o poder não mais serviria para acobertar a opressão ou a agressão a seres humanos. Aquele compromisso fixava direitos iguais para todos, à vida, à liberdade, à segurança pessoal, igual proteção legal e liberdade para todos, com o fim da tortura, da detenção arbitrária e do exílio forçado.

O que é bom dura pouco?

Por Cléber Sérgio de Seixas

O espetáculo de samba e choro a que assisti nesse fim de semana me trouxe à lembrança os grandes compositores e as grandes vozes que esse país já perdeu. Elis Regina, Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Francisco Alves, Pixinguinha, Sílvio Caldas, Ataulfo Alves, Mario Lago, Ary Barroso, Vicente Celestino, Adoniran Barbosa, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Noel Rosa, Zé Kéti, Dorival Caymmi, Cartola, etc, são autores e intérpretes pouco ou quase nunca lembrados.

Infelizmente, o povo brasileiro não tem memória musical e se contenta com a efemeridade e a superficialidade dos "hits" comerciais que lhes são impostos pelas rádios e gravadoras, mais interessados em lucrar que semear cultura.

No capitalismo tudo é transformado em mercadoria. Na atualidade, as “ondas” musicais oscilam ao sabor dos ditames do lucro, sob a égide da lógica capitalista que impõe um curto ciclo de vida ao produto, algo que alguns autores chamam de obsolescência programada. Explico: se, no passado, uma música ficava meses e até anos nas assim chamadas paradas de sucesso, hoje bastam poucos meses para que uma unanimidade passe rapidamente ao ostracismo, caindo no esquecimento do público.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

LMG 806 - a rodovia do embuste


Enquanto a LMG 806 não é duplicada, muitos ficam pelo caminho (Foto: NevesNews)

Por Jeferson Malaguti Soares *

Não são raros os acidentes ocorridos na LMG 806, rodovia que liga a região de Justinópolis, em Ribeirão das Neves, ao centro da cidade, e deste até a rodovia BR 040, no extremo oposto do município. Também não foram raras as vezes em que os governos ligados ao PSDB fizeram campanha na cidade prometendo duplicar tal estrada.  Eduardo Azeredo, Aécio duas vezes e, agora, Anastasia, prometeram e não cumpriram.

O cinismo em 2010 alcançou seu ápice quando os tucanos começaram as obras e, no dia seguinte às eleições de outubro daquele ano, dia 03, retiraram as máquinas do canteiro de obras. Culparam o período chuvoso, que começou  só em fins de novembro. Desde então, de 1995 até hoje, foram cinco campanhas prometendo duplicar a rodovia caso fossem eleitos. Foram embora, nada fizeram e os acidentes continuam frequentes.

Na última quinta-feira, dia 05 de julho, mais um acidente grave entre uma moto, uma Kombi e um carro de passeio, paralisou o transito na rodovia por uma hora e meia, causando um engarrafamento de mais de 10 km.Pessoas com exames médicos marcados no centro de Neves - já é difícil a marcação desses exames pelo SUS – tiveram sérios problemas, outras que trabalham em outras cidades da Região Metropolitana chegaram atrasadas ao trabalho, caminhoneiros que fazem entrega foram prejudicados mais uma vez, sem contar os danos físicos e materiais daqueles diretamente envolvidos no acidente. Felizmente, dessa vez não houve vítimas fatais.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Foi golpe, o resto é eufemismo

 No Paraguai, é mais fácil derrubar um presidente que recorrer de uma multa de trânsito

Por Pedro Estevam Serrano *

Normas jurídicas não se interpretam isoladamente. Eis uma lição que se aprende no primeiro ano da graduação em Direito. Como todo texto, o normativo tem um contexto sem o qual é impossível compreender seu sentido. Do mesmo modo que frases destacadas de uma página ou de um pronunciamento muitas vezes subvertem seu sentido original, normas jurídicas interpretadas isoladamente resultam na subversão de seu sentido.

No Brasil, a maioria dos analistas, mesmo os que questionam a legitimidade do ato contra Fernando Lugo, atribui um caráter de legalidade  ao golpe. Erram nesse aspecto.

Por quê? Porque interpretam isoladamente o artigo 225 da Constituição do Paraguai sem levar em conta outros dispositivos da referida Carta que também deveriam ter incidido na análise do impedimento de Lugo. Tal dispositivo estabelece o julgamento político do presidente. Como o próprio nome diz, antes de ser “político”, é um julgamento, ou seja, um processo, mesmo que não judicial. A decisão de impedimento do presidente por “mal desempenho de suas funções” só deve, portanto, ser tomada após o devido processo.