segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O réveillon das togas iluminadas

A ministra Eliane Calmon (Foto: Agência Brasil)

Por Alberto Dines


Se 2011 entrou para a história carimbado com o nome de Dilma Rousseff, o ano seguinte, 2012, deverá repetir a dose com outra mulher, Eliana Calmon Alves. De qualquer forma, o cidadão brasileiro já garantiu sua quota na magnífica prenda de Natal oferecida pelo imbróglio entre a destemida corregedora nacional de Justiça e as entidades que representam os magistrados.

A bateria de holofotes acesa pela juíza desde setembro, quando assumiu o cargo, é tão luminosa e promissora como a galáxia de esperanças acesa pelos fogos de artifício nos festejos do início de cada ano novo. Pela primeira vez em seus 511 anos de história e 189 de vida institucional, a nação brasileira tem a oportunidade de assistir à espetacular tomografia do edifício de privilégios e regalias no qual vivemos, construído em grande parte com a argamassa da injustiça.

Observação crítica

O confronto de Eliana Calmon com a AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), a Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) e a Anamatra (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho) transcende às questões clássicas identificadas por antropólogos e sociólogos do “sabe com quem está falando?” e “quem manda aqui sou eu”. Sua quixotesca investida é contra o corporativismo e o clientelismo que tanto desfiguram o conceito prevalecente do Estado de Direito.

A guerreira baiana não está apenas enfrentando o autoritarismo enrustido em instituições e entidades anquilosadas pelo tempo, está garantindo a produção e sobrevivência dos indispensáveis contrapoderes (caso do CNJ, Conselho Nacional de Justiça) sem os quais nossa democracia será formal, retórica e claudicante.

Sua desassombrada cruzada dirige-se na realidade contra um sistema de abafamentos e silêncios herdados da colonização ibérica e o surpreendente apoio que vem recebendo de setores expressivos da nossa imprensa recoloca esta imprensa em posições de vanguarda que há muito não frequenta.

Este talvez seja o grande mérito da polêmica acionada pela corregedora nacional de Justiça. Ao retirar da penumbra dos tribunais e do hermetismo das sentenças questões fundamentais da vivência democrática é possível alterá-las sem necessariamente recorrer a intervenções drásticas.

Em outras palavras: a mera observação – ou exposição – de um fenômeno constitui uma forma de atuar sobre ele. A humanidade só avança quando percebe que há avanços a fazer. A consumação do processo é consequente, natural, mesmo quando não imediata.

Para as retrospectivas

Eliana Calmon tirou o trombone da estante, tocou-o e, magicamente, do ruído fez-se a luz. Mesmo solitária, sua indignação espalhou-se porque ao examinar posturas e procedimentos de alguns magistrados, movimentou os desconfortos engolidos e tormentos camuflados na alma de milhões de brasileiros que o dia inteiro resmungam e remoem queixas contra a impunidade de malfeitores e prevaricadores.

As retrospectivas do ano não contemplaram a façanha da ouvidora das nossa mágoas, ombudsman do judiciário. Ainda há tempo.


Fonte: Observatório da Imprensa
.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um sentido para o Natal


Por Cléber Sérgio de Seixas

Chegou o Natal e com ele os festejos que fazem a alegria dos comerciantes. Os grandes centros urbanos enchem-se de consumidores que se acotovelam para adquirir mercadorias que nas mãos de seus entes queridos se transformarão em presentes.

A luz de árvores nevadas decoradas com inúmeras bolas coloridas e luzes piscantes, e a presença constante do misterioso personagem de roupa vermelho-acetinada ofuscam valores bem mais nobres. Sobressai mais o bom velhinho que o aniversariante, esquecido em meio ao consumismo exacerbado.

Poucos se preocupam com o verdadeiro sentido do Natal, se é que há algum sentido numa em data em que, como é sabido tanto por clérigos quanto por alguns leigos, Jesus Cristo não nasceu. Mas, que importa, diriam os pragmáticos, o não protagonismo do Nazareno ante a prevalência de Papai Noel, se os shopping centers estão cheios, se a roda do consumo está girando e se as crianças estão satisfeitas – pelo menos por enquanto - com seus presentes? Se o Natal de Jesus é tradição, no Natal de resultados de Santa Claus o pragmatismo e a aparência sobrepujam a essência.

Não à toa, o bônus de Natal, a gratificação natalina, também conhecida como 13º Salário, tem sua segunda parcela liberada cinco dias antes dos festejos de Noel. Embevecidos com o plus natalino, não são poucos os que, em lugar de saldarem suas dívidas, endividam-se ainda mais por conta dos presentes doados. Assim, o regozijo natalino se transforma em frustração e arrependimento no primeiro mês do ano seguinte.

Vão-se os anos e com eles a lembrança dos tempos em que as famílias se ajuntavam não apenas para comer e beber, mas para lembrar daquele que se humilhara ao nascer numa manjedoura. Aliás, há muito a árvore de natal sobrepujou o presépio.

Se há alguma exortação a ser feita, que seja no tocante a tornar tal data o ápice de uma trajetória que se estende por todo o ano. Que as boas ações, a preocupação com o bem-estar do próximo, a prática da caridade, o bom convívio com os semelhantes sejam atitudes que se distribuam por todo o período que denominamos ano. O contrário faz do 25 de dezembro a mais hipócrita das datas.

Neste Natal – e o que é melhor, em todos os dias de sua vida - faça da sua luz a claridade que ilumina o desamparado. De sua fartura, colha o pão e distribua às bocas famintas. Que da sua caridade brotem a alegria da criança, o sorriso de esperança no rosto do jovem que se desviou pelos caminhos do infortúnio, a alegria nos olhos do adulto desvalido e o endireitar dos lombos daqueles cujo peso dos anos os obrigaram a olhar para baixo. Cuide, no entanto, que sua caridade não conduza a uma eterna dependência. Dê o peixe, mas também ensine o ofício de pescador e distribua caniços e anzóis sem cobrar por eles. Nessa senda, torça para que nos próximos anos não haja mãos desejosas do seu óbolo.

Semeie, regue, torça por chuva, sol, florescer e frutificar. Mas não seja apressado. Pode ser que a colheita seja algo para o porvir, para a sua descendência. Aprenda com as sequóias e jatobás a paciência dos anos e do cedro libanês aprenda e apreenda a resistência e a insistência.

Faça do seu Natal algo incomum, saltando da vala comum em que são atirados os que, nessa época, só se preocupam em comer, beber, dar e receber presentes.

Um bom Natal de Jesus são os votos do Observadores Sociais.
.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O debate dos debates

Por Cléber Sérgio de Seixas

O centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé promoveu ontem um debate sobre o livro "A Privataria Tucana". O debate histórico contou com a participação do autor do livro, o jornalista Amaury Ribeiro Jr., do Deputado Federal Protógenes Queiroz e do jornalista Paulo Henrique Amorim.

O evento marca o início do fim de uma era em que o PSDB se arvorou como o bastião da moralidade, em que o processo de privatização foi louvado pelos meios tradicionais de comunicação e em que o PIG (Partido da Imprensa Golpista) ditou os rumos políticos do país.

Enquanto isso, a CPI da privataria se prepara para sair do forno. Tremei tucanos corruptos e mídia golpista!

Reproduzo abaixo o vídeo da gravação do debate.



.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Os honoráveis bandidos e o Holocausto brasileiro


Por Cláudio Ribeiro *

Frase tantas vezes dita e repetida, o tempo que passa é o tempo que nos resta. O levantamento histórico e documentado do período ditatorial deve ser efetivado sem mais demora.

Se a anistia destina-se à pacificação de ânimos de pessoas atingidas em certo momento histórico por atos ilegais, perseguições, prisões arbitrárias, torturas generalizadas, assassinatos e desaparecimentos, hoje a luta contra a repetição de violências semelhantes e a busca da verdade e da justiça devem andar de mãos dadas.

A importância de esquecer impõe a necessidade de lembrar. Ninguém pode apagar o que não foi escrito, nem se esquece daquilo que não é lembrado. O esquecimento exige o confronto com o passado.

Por essa razão, a revisita à memória dos anos vividos sob a batuta dos tacões militares (e da concepção de segurança nacional ainda decantada em certos espaços institucionais e meios sociais) possibilita recordar e detectar seus fins e seus meios: A ditadura militar não foi implantada no Brasil (e nos demais países da América do Sul) para derrotar o comunismo ou comunistas. Como Hitler na Alemanha, que içou bandeiras contra judeus e comunistas, no Brasil a bandeira do anticomunismo foi erguida apenas para esconder o verdadeiro holocausto brasileiro, a implementação de uma política econômica de subtração de rendas (e riquezas) das classes trabalhadoras através do confisco salarial e da modernização conservadora do campo para transferi-las à elite patrimonialista brasileira.

Se a ditadura veio para isso, como é possível alguém dizer que ela acabou? A política econômica continua, e agora mais protegida, não mais pelos quartéis, mas pelo Banco Central.

Durante o governo Lula, as rendas da classe média foram em grande parte confiscadas para minimizar o sofrimento dos excluídos, mas não teve forças para por o dedo na ferida, o bolso dos ricos e poderosos.

A dívida pública brasileira beira o abismo dos 3 trilhões de reais e neste ano, com a taxa Selic, alçada aos fantásticos 12%, vai custar ao nosso povo algo no entorno dos 300 bilhões. Os juros afundarão a curto prazo todas as possibilidades de crescimento sustentável e aprofundarão as intoleráveis desigualdades em que naufragamos nossas esperanças.

O Erário está a serviço do banquete de banqueiros e rentistas. O controle de informações é tão brutal que, como povo, não sabemos sequer a origem da dívida pública, quem são os credores, se estamos pagando algo que devemos ou alguma coisa cujo pagamento já se multiplicou.
Enquanto não for desvendado o arquivo deste misterioso saque, não saberemos como enfrentá-lo, nem reconstruiremos um caminho de desenvolvimento nacional se não punirmos, e com rigor, esses honoráveis bandidos que assaltam nossos recursos públicos.

Não há dúvidas, a ditadura militar entregou a essa elite usurária todo o poder de comandar o Estado brasileiro e as burras nacionais. Além da concentração de rendas e riquezas, a essência doutrinária apregoada pela mídia abriu o coração do Brasil para o transplante das novas condições necessárias às transformações do capitalismo para colocar nossa sociedade sob o jugo dos interesses internacionais concentrados do grande capital, mais tarde regulamentados pelo Consenso de Washington.

Os fins impuseram os mecanismos e instrumentos de dominação (novas formas de colonização), demolindo-se, no limiar, os elementos culturais de raízes populares, desde a música e os cânticos, a literatura como um todo, até a degradação da qualidade dos bancos escolares e acadêmicos para impor uma nova escala de valores éticos (?) e morais (?), como a exacerbação do individualismo, a glorificação da competitividade econômica (para reerguer um dos pilares do regime nazista, o indivíduo produtivo), acarretando, como resultado pedagógico, o incentivo às disputas pessoais.

A perseguição feroz, sanguinária em vários exemplos (o caso Rubens Paiva é paradigmático), as prisões, torturas e assassinatos dos opositores (como se todos integrassem organizações comunistas), a imensa maioria dos quais discordava da barbárie cometida em subterrâneos policiais (como os saudosos Sobral Pinto, Alceu Amoroso Lima, Hélio Pelegrino, Frei Tito de Alencar e corajosos, como Cardeal Arns, fervorosos católicos, além de outros), deve ser investigada a fundo; todavia, isto não basta, porque a sádica brutalidade macarthista dos torturadores e seus mandantes serviu submissamente ao enriquecimento dessa elite ultrajante que tomou conta dos cofres da União.

Este quadro deu início e adubou a violência, a impunidade, a marginalização de amplas camadas da população atingidas pelo desemprego e pela brutal redução da remuneração do trabalho.

A censura e a mordaça (sobre o Judiciário inclusive) foram empregadas com todo vigor e, em alguns e raros casos, com prisões e cassações. O levantamento apurado de todos esses acontecimentos e a punição dos responsáveis (sem sanhas marcadas pela vingança ou revanchismo) são indispensáveis para estabelecimento de um alicerce sólido à construção de um Estado Democrático de Direito, onde as pessoas possam conviver com afeto e solidariedade e não, como hoje, com desconfianças recíprocas, um Estado, onde os crimes sejam punidos sem distinguir as classes sociais dos criminosos, onde os Poderes inerentes à Democracia ajam com absoluta transparência em benefício do Povo e não, de privilégios e privilegiados.

Países como a Argentina e o Uruguai, mergulhados em ditaduras brutais já vivem uma realidade menos violenta porque a História está sendo revista e escrita, os responsáveis, os cabeças e os torturadores mais doentios, punidos. Se os ladrões ainda continuam, quase todos, desfrutando dos bens saqueados.

Nós ainda não conseguimos a prestação de contas do passado recente e, por este motivo fundamental, a anistia com todas as suas repercussões deve ser examinada com os olhos presos nesse dever de contribuir para construir a sociedade programada principalmente pelo artigo 3º da Constituição Federal.

Quem barra a apuração desse violento período histórico? Apenas a cúpula das Forças Armadas? Ou, ao contrário, são os honoráveis bandidos brasileiros que se fartaram de enriquecer durante o regime exercido por militares a serviço dessa elite usurária?

A mais recente e triste decisão do Supremo Tribunal Federal não deve sufocar os que defendem um verdadeiro Estado Democrático de Direito. O Brasil e as razões que impuseram a tristeza daquele julgamento foram condenados pela Corte Interamericana de Justiça. A luta contra o velho regime ditatorial deve continuar, para que este País vença a violência e a impunidade que o assolam, sabendo que ambas são heranças do período de concentração de rendas e riquezas, dos ricos que empobrecem nossa nação escondidos no subsolo das sociedades ainda anônimas, comerciais, industriais, usurárias, nacionais e estrangeiras, que se valeram à farta de torturadores, fardados ou não, para saciar a infinita voracidade dos valores criados no entorno do Capital.

Apurar os crimes de prisões ilegais, sequestros, torturas, assassinatos e ocultação de cadáveres cometidos pelos governos militares contra integrantes da oposição democrática e popular e, com mais força ainda, investigar a vida daqueles que se enriqueceram ilicitamente às custas do sacrifico do povo e do Estado brasileiros.

Uma investigação rigorosa levará inevitavelmente à outra. Chega de violência. Chega de impunidade. Por uma auditoria real e transparente da dívida pública. Pela punição dos algozes da sociedade brasileira, dos torturadores e seus mandantes e dessa turba de assaltantes dos recursos públicos da Nação.


* Cláudio Ribeiro é advogado.

Fonte: Caros Amigos
.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Paulo Henrique Amorim entrevista Amaury Ribeiro

Por Cléber Sérgio de Seixas

Ontem no programa Entrevista Record o jornalista Paulo Henrique Amorim entrevistou o também jornalista Amaury Ribeiro Júnior sobre seu livro A Privataria Tucana, obra que aborda um suposto esquema de corrupção no processo de privatização de empresas estatais durante o governo FHC. O enredo do livro tem como personagem principal o senhor José Serra, que à época ocupava a pasta do Planejamento.

Reproduzo abaixo o vídeo.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Heródoto Barbeiro entrevista Amaury Ribeiro

Por Cléber Sérgio

No Jornal da Record News que foi ao ar ontem, o respeitado jornalista Heródoto Barbeiro entrevistou o jornalista Amaury Ribeiro Júnior sobre seu livro A Privataria Tucana. Confira abaixo a entrevista em sua íntegra.



.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Bate papo com Amaury Júnior


Por Cléber Sérgio de Seixas

Tem causado e ainda vai causar muito rebuliço o livro Privataria Tucana, de autoria do premiado jornalista Amaury Ribeiro Júnior. Se depender da grande imprensa, o livro não será conhecido e, se possível, será retirado de circulação.

Lançado na semana passada, no Dia Internacional de Combate à Corrupção, o livro mostra que o gigantesco processo de privatizações nos tempos em que Fernando Henrique Cardoso ocupava a Presidência da República e tinha como seu ministro do Planejamento o senhor José Serra não beneficiou o povo brasileiro e sim a alguns ricos que com o esquema se tornaram milionários. Tal processo envolvia lavagem de dinheiro em paraísos fiscais das Ilhas Virgens e do Caribe e pode ser chamado de "privataria", expressão que Amaury tomou emprestado do jornalista Hélio Gaspari.

Na última sexta-feira (09/12), Amaury participou de uma twitcam com os jornalistas Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna, Altamiro Borges, Luiz Nassif, Renato Rovai, Gilberto Maringoni, Conceição Oliveira e outros. Acompanha o debate no vídeo abaixo.


.

PRIVATARIA TUCANA: LIVRO-DENÚNCIA TRAZ BASTIDORES DE UMA ERA DE ESCÂNDALOS E CORRUPÇÃO


Com 200 páginas e 16 capítulos que jamais deixam cair seu contundente interesse, PRIVATARIA TUCANA é o resultado final de anos de investigações do repórter Amaury Ribeiro Jr. na senda da chamada Era das Privatizações, promovida pelo governo Fernando Henrique Cardoso, por intermédio de seu ministro do Planejamento, ex-governador de São Paulo, José Serra. A expressão “privataria”, cunhada pelo jornalista Elio Gaspari e utilizada por Ribeiro Jr., faz um resumo feliz e engenhoso do que foi a verdadeira pirataria praticada com o dinheiro público em benefício de fortunas privadas, por meio das chamadas “offshores”, empresas de fachada do Caribe, região tradicional e historicamente dominada pela pirataria.

Essa “privataria” toda foi descoberta num vasto novelo cujo fio inicial foi puxado pelo repórter quando ele esteve a serviço de uma reportagem investigativa, encomendada pelo jornal “Estado de Minas”, sobre uma rede de espionagem estimulada pelo ex-governador paulista José Serra para levantar um dossiê contra o ex-governador mineiro Aécio Neves, que estaria tendo romances discretos no Rio de Janeiro. O dossiê teria a finalidade de desacreditar o ex-governador mineiro na disputa interna do PSDB pela indicação ao candidato à Presidência da República, e levou Ribeiro Jr. a uma série de investigações muito mais amplas, envolvendo Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro das campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, o próprio Serra e três de seus parentes: Verônica Serra, sua filha, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marín Preciado. Serra e seu clã são o assunto central do livro, mas as ramificações e consequências sociais e políticas das práticas que eles adotam são vastas e fazem com que o leitor comum fique, no mínimo, estupefato.

Sem dúvida, o brasileiro padrão, mediano, que paga seus impostos, trabalha dignamente e luta pela vida com dificuldades imensas estará longe de compreender o complexo mundo de aparências e essências, fachadas e bastidores da corrupção política e empresarial, e toda a sofisticação desses crimes públicos que passam por “lavanderias” no Caribe, e, neste caso, o estilo objetivo e jornalístico de Amaury Ribeiro Jr. é de grande ajuda para que as ações pareçam inteligíveis para qualquer pessoa mais instruída.

Um dos principais méritos do livro é descrever toda a trajetória que o dinheiro ilícito faz, das “offshores” a empresas de fachadas no Brasil, e da subsequente “internação” desse dinheiro nas fortunas pessoais dos envolvidos. Neste ponto, o livro de Ribeiro Jr., embora não tenha nada de fictício, segue a trilha de livros policiais e thrillers sobre corrupção e bastidores da política, já que o leitor pode acompanhar o emaranhado e sentir-se recompensado pelo entendimento. O livro, aliás, tem um início que de cara convida o leitor a uma grande jornada de leitura informativa e empolgante, revelando como Ribeiro Jr., ao fazer uma reportagem sobre o narcotráfico na periferia de Brasília, a serviço do “Correio Braziliense”, sofreu um atentado que quase o matou e, descansando desse atentado, voltou tempos depois a um jornal do mesmo grupo, “O Estado de Minas”, para ser incumbido de investigar a rede de espionagem estimulada por Serra, mencionada no início. É o ponto de partida para tudo.

O que este PRIVATARIA TUCANA nos traz é uma visão contundente e realista como poucas dos bastidores do Brasil político/empresarial. O desencanto popular com a classe política, nas últimas décadas, acentua-se dia após dia, e um livro como este só faz reforçá-lo. Para isso, oferece todo um manancial de informações e revelações para que o leitor perceba onde foi iludido e onde pode ainda crer na humanidade, pois, se a classe política sai muito mal, respingando lama, dessas páginas, ao menos o jornalismo investigativo, honesto e necessário, prova que os crimes de homens públicos e notórios não ficam para sempre convenientemente obscurecidos. Há quem os desvende. E quem tenha coragem de revelá-los.


Fonte: Blog da editora Geração Editorial


Nota do Observadores: corra e adquira o seu exemplar antes que tucanos de alta plumagem mandem tirar o livro de circulação.
.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O Euro salvou o FMI ou o neoliberalismo salvou o FMI... por enquanto!


Por Jeferson Malaguti Soares *

Terminando 2006, o FMI começou a agonizar. Seu fluxo de caixa reproduzia, melancolicamente, a diminuição de sua importância. O aumento da liquidez dos países em desenvolvimento garantia acesso rápido a dinheiro abundante e barato. Os empréstimos solicitados ao fundo até então, despencaram. Começou a haver dinheiro de sobra. Os pagamentos de países devedores ao Fundo cresceram em progressão geométrica, e em muitos casos foram antecipados.

Veja, por exemplo, no nosso caso. Lula, logo no inicio de seu primeiro governo, despachou o FMI, não resgatando parcela do empréstimo feito no governo anterior e quitando o restante que devíamos. A Argentina foi pelo mesmo caminho. Brasil e Argentina, os maiores devedores da América Latina, devolveram 25 bilhões de dólares aos cofres do FMI.

Durante décadas, desde que foi criado logo após a Segunda Guerra, o Fundo Monetário Internacional foi o inferno dos países em desenvolvimento. Emprestava, mas o preço cobrado era alto. Praticamente geria os países devedores com receitas recessivas e a obrigação deles abandonarem o próprio mercado interno, obrigados a adotar a globalização em beneficio das grandes economias, EUA à frente.

Desde o inicio deste século o Fundo vem sendo cada vez menos procurado. Os contumazes devedores aprenderam com seus erros, fizeram crescer seus PIBs e reservas, de tal modo que hoje emprestam ao invés de pedir emprestado. O Fundo passou então a correr sérios riscos, haja vista que para se manter funcionando, depende do pagamento dos juros de seus empréstimos.

O FMI foi criado em fins de 1944, inicio de 45, nos EUA, com o fim precípuo de “organizar” a economia de mercado, dentro do modelo neoliberal capitalista, em contraponto ao regime soviético. Seu principal papel foi o de controlar e exercer influência sobre as taxas de câmbio dos países, de modo a garantir a hegemonia do dólar americano.

Mesmo assim, o papel de “bombeiro” nas eventuais crises financeiras localizadas, nem sempre foi eficiente. Aliás, na maioria das vezes os países endividados viram a inflação disparar, sua moeda desvalorizar, seu mercado interno deteriorar, o desemprego crescer assustadoramente e o parque industrial ser sucatado. Tudo que o imperialismo estadunidense mais apreciava.

Aí veio a tendência atual de crescimento de governos populistas de esquerda, mormente na América Latina e em outros emergentes, os quais foram prescindindo dos serviços do Fundo. Iniciou-se então o inferno astral do FMI.

Sem empréstimos os juros das dívidas caíram, a importância do Fundo começou a “fazer água”. E, por mais paradoxal que possa parecer, salvou-o o neoliberalismo capitalista de direita. Países antes tidos como grandes economias de mercado vivenciam uma crise que não acreditavam ser possível acontecer. Investiram pesados na especulação financeira e se esqueceram de investir na produção, que gera emprego e, por tabela, mais consumo. Não se come dinheiro ou juros.

Veio a bancarrota, EUA à frente. O FMI volta aos seus dias de glória, agora emprestando aos que emprestavam e pedindo empréstimos aos que os solicitavam. Os grandes se tornam pequenos. O capitalismo entra nos seus estertores, ferido de morte. O síndico da ordem financeira mundial tem agora a difícil tarefa de atuar sobre os antigos algozes. Por ironia do destino, o capitalismo vai se canibalizando. Nem o FMI vai salva-lo. Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, como a música de Roberto Carlos, nos anos 60.

No entanto, não será pela derrocada do capitalismo que o socialismo democrático se imporá, mas, principalmente, pelos seus valores humanísticos, sociais e de respeito à autodeterminação dos povos. O socialismo vai dominar a economia mundial pela união das nações, sem explorá-las, exatamente em decorrência da criação do FMI e do Banco Mundial, responsáveis pelo neoliberalismo. No frigir dos ovos, os capitalistas selvagens criaram cobras para serem picados. Bem feito!


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG e colaborador deste blog.
.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Agenda - Direitos humanos e cidade

Vista aérea do centro de Ribeirão das Neves

Por Cléber Sérgio de Seixas

No dia 10 de dezembro de 1948, a Assembléia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O documento foi criado no calor dos eventos que marcaram a Segunda Guerra Mundial, tais como o Holocausto e as hecatombes que se abateram sobre a população civil durante o conflito, com o intuito de fomentar novos paradigmas civilizacionais. Trata-se do documento traduzido no maior número de línguas, aproximadamente 360.

Passadas mais de seis décadas, no entanto, o que se vê são flagrantes desrespeitos aos direitos mais elementares, como comer, beber, vestir, abrigar-se. Em pleno século XXI, ainda há indivíduos que não fazem três refeições diárias, que não têm acesso a água potável, que não possuem vestuário adequado para se aquecer ou apresentar-se de forma digna, e que não têm um teto sob o qual abrigarem-se. Esses direitos, na verdade, nem são específicos dos seres humanos. Tratam-se de direitos que temos em comum com os animais. Se um grande número de seres humanos não está tendo acesso nem aos mais básicos direitos biológicos, que dizer dos direitos propriamente humanos?

Assim sendo, faz-se premente a luta pela ampliação dos direitos humanos e a denúncia contra o desrespeito dos mesmos. Nesse contexto, e para marcar os 63 anos da Declaração e o aniversário de 58 anos do município de Ribeirão das Neves/MG, a Rede Nós Amamos Neves e os movimentos sociais promoverão no dia 10 de dezembro próximo uma passeata seguida de um debate na região central da cidade.

A concentração inicial será às 14:30 em frente à prefeitura de Ribeirão das Neves. De lá os manifestantes se dirigirão à Escola Estadual José Pedro Pereira, onde terão início o debate e as demais atividades do evento.

Pela vida, por direitos e por uma Ribeirão das Neves mais inclusiva, mais justa e mais humana para todos, participe!


Concentração – em frente à prefeitura de Ribeirão das Neves (Rua Ari Teixeira da Costa, 1100) às 14:30.
Debate - E. E. José Pedro Pereira (Rua Ari Teixeira da Costa, 21 – Centro).


Realização: Rede Nós Amamos Neves

.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Globo e Collor, tudo a ver

Por Cléber Sérgio de Seixas

Como sempre afirma o nobre jornalista Mino Carta, é de conhecimento até do mundo mineral que a Globo favoreceu o então candidato Fernando Collor de Mello durante a campanha eleitoral à Presidência da República em 1989. No entanto, o que até agora não se havia visto ou ouvido foi alguém do establishment global admitir publicamente tal favorecimento.

Isso perdurou até que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vulgo Boni, ex alto executivo da Globo, declarasse em entrevista ao jornalista Geneton de Moraes Neto no programa Dossiê Globo News que a emissora dos Marinho assessorou Collor durante o famigerado debate do segundo turno das primeiras eleições diretas para presidente depois do período militar. Durante a entrevista, Boni admitiu que foi procurado pela assessoria de Collor e que a equipe da Globo manipulou o debate entre ele e Lula em 1989, com direito a suor cenográfico de glicerina no candidato do PRN e pastas vazias que conteriam documentos que incriminariam o candidato petista.

A reportagem sobre o assunto exibida ontem pelo programa Domingo Espetacular da Record é oportuna na medida em que refresca a memória daqueles que viveram aqueles tempos, bem como escancara às novas gerações o passado de triste memória das Organizações Globo.

Reproduzo abaixo a reportagem em sua íntegra.


domingo, 4 de dezembro de 2011

Alguns sonham, outros não

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (1954-2011)


Por Sócrates *

“Eu tenho um sonho.” Essa frase praticamente define a ação do grande líder Martin Luther King (o rei da causa negra, eu diria), que passou a vida lutando pela igualdade de direitos entre brancos e negros nos Estados Unidos, em um tempo que privilegiava o homem branco no transporte, nas escolas, na cidadania. Foi assassinado em 1968 exatamente por lutar pelas conquistas que ele ajudou a serem alcançadas. Com destemor e liderança, enfrentou os maiores obstáculos, insurgiu-se contra a guerra e a discriminação. Marcou época em um período de grandes transformações sociais.

O mesmo ano de 1968 ficou marcado pelas manifestações dos estudantes na Sorbonne parisiense, que ergueram barricadas em sua luta por mudanças. “Nós somos judeo-alemães”, era o grito que ecoava; queriam demonstrar que todos somos iguais, sejamos negros, sejamos árabes ou brancos. Esse era o slogan daquela juventude que lutava por liberdade, autonomia e independência. Provocaram muitas mudanças, colocaram de cabeça para baixo qualquer tradição ou vício social. Antes, as mulheres eram tratadas como menores e as opções sexuais como fantoches. Daniel Cohn-Bendit simbolizou aquele movimento. Dani,como todos os outros, também tinha um sonho.

Ellen Sirleaf, a primeira mulher a ser eleita presidente da Libéria; Leymah Gbowee, também liberiana e que liderou a chamada greve de sexo de suas compatriotas; e Tawakul Karman, ativista iemenita, figura fundamental no país onde praticamente se iniciou a Primavera Árabe, que derrubou boa parte dos antigos regimes de várias nações árabes neste ano, foram agraciadas pelo Nobel da Paz de 2011 por suas lutas pelos direitos das mulheres africanas, pela paz e pela democracia. Essas fortes mulheres também têm um sonho.

Nelson Mandela lutou a vida toda contra o apartheid, termo que explicita a segregação racial então vigente na África do Sul, onde a população negra não possuía os mesmos direitos políticos, sociais e econômicos que a minoria branca. Por isso permaneceu preso durante 26 anos. Nelson é autor de frases definitivas como: “Sonho com o dia em que todas as pessoas se levantarão e compreenderão que foram feitos para viver como irmãos” ou “não há caminho fácil para a liberdade”. Ou ainda “a queda da opressão foi sancionada pela humanidade e é a maior aspiração de cada homem livre” e “uma boa cabeça e um bom coração formam uma formidável combinação”. Mandela até hoje corre atrás dos seus sonhos e aspirações de liberdade, igualdade e fraternidade entre os homens. Um belo exemplo de compromisso com seu povo e com a humanidade.

Entre os brasileiros também encontramos idealistas natos, como Luiz Carlos Prestes, que doou sua vida e até acompanhou a morte da mulher Olga, assassinada em um campo de concentração nazista, por uma causa onde a justiça e a igualdade eram os valores proeminentes. Ou Antonio Conselheiro, líder de Canudos, cuja guerra foi tão bem relatada por Euclides da Cunha em Os Sertões. Com a gente paupérrima e sofrida pela fome, seca e falta de perspectiva econômica e social, ele criou uma comunidade de pura sobrevivência e que foi esmagada pelo Exército brasileiro. Como se perigosos fossem. O único perigo,como sempre, era o do exemplo que poderiam dar a gente com os mesmos problemas. Eles também sonharam.

Inversamente, há poucos dias, o presidente da Fifa veio a público para dizer que não há racismo no futebol e que as agressões que ocorrem dentro de campo poderiam ser resolvidas com um simples aperto de mãos. Uma visão cega e fascista da realidade. Os negros estão expostos na sociedade ocidental desde sempre e isso não desapareceu. A reação foi imediata e o fez recuar, mas um pensamento não desaparece por causa do que provoca. Tentar esconder algo tão incrivelmente absurdo é de uma ingenuidade que um ser de 70 anos não tem o direito de possuir. Pior, utilizar análises simplistas como essa, para encobrir a realidade daquilo que comanda, é pura perversão de caráter.

Nada mais endêmico (junto com a corrupção) entre aqueles que comandam o futebol. Certamente os negros de todo o planeta se sentiram agredidos, menos um: Pelé. Que de preto parece ter somente a cor da pele. Ele não só corroborou com a tese de Blatter como acrescentou outras bobagens nascidas de seu pseudointelecto. De uma coisa sabemos de há muito: Pelé jamais sonhou com o que quer que seja.


* Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira foi um dos maiores jogadores do futebol brasileiro. Foi também comentarista esportivo, médico e articulista da revista Carta Capital.

Fonte: site Carta Capital
.