domingo, 28 de fevereiro de 2010

VOLUNTARIADO CORPORATIVO E UTOPIA - primeira parte


Por Cléber Sérgio de Seixas

No ano 2000 definiram-se os assim chamados 8 Objetivos do Milênio, que alguns, romanticamente, chamam de ‘Oito Jeitos de Mudar o Mundo’, ou seja, um conjunto de metas que visam, senão resolver, minorar problemas como a fome, a pobreza, a mortalidade infantil, a proliferação da AIDS e outras doenças. Tais metas seriam levadas a cabo através da parceria governos, sociedade civil e empresas. Falando especificamente das empresas, muitas delas tem sido vistas empenhadas em ações de responsabilidade social, e uma das formas de levar a cabo estas ações seria através da promoção do voluntariado corporativo.

Ser voluntário está na moda. Empresários têm colocado em voga esta prática, alguns visando diminuir-lhes o peso das consciências talvez assombradas pelos lucros estratosféricos das empresas por eles encabeçadas, os quais contrastam violentamente com a minguada renda da maioria da população. Outros, porém, almejando a obtenção de lucro pura e simplesmente, visto que uma empresa socialmente responsável, caridosa com a comunidade que a circunda, projeta no mercado uma boa imagem de si, o que pode redundar-lhe em espaço na mídia e notoriedade, o que em outras palavras é o mesmo que amplas possibilidades de investimentos futuros. Em outras palavras pode-se dizer que os fins são menos nobres e altruístas que os meios. Na verdade, se fosse possível aos empresários chegar diretamente ao lucro sem passar pela senda da pseudo-generosidade, certamente optariam pelo atalho.

A questão do voluntariado empresarial encerra em si paradoxos. Um deles é que muitas vezes os próprios voluntários envolvidos em atividades diversas, são pertencentes à mesma classe social ou camada sócio-econômica daqueles que são alvos da filantropia. Além disso, muitas das empresas envolvidas na promoção de eventos de responsabilidade social, via voluntariado, são totalmente irresponsáveis no que tange às condições de trabalho às quais submetem seus funcionários. Assim, a responsabilidade social seria apenas “extra-muros”, enquanto “intra-muros” os empregados convivem com sobrecarga de atividades, ambiente de trabalho hostil, cobranças por melhoria de desempenho constantes e parcos benefícios trabalhistas.

Para algumas empresas o valor da variável responsabilidade social é nulo, já que a negatividade dos danos sócio-ambientais decorrentes de suas atuações no mercado anula os efeitos da positividade de suas ações filantrópicas. Podemos ilustrar isso com o caso da rede mundial de supermercados Wall Mart, que tinha como fornecedores de algumas de suas mercadorias empresas localizadas em países de terceiro mundo que pagavam salários de fome a seus funcionários, além de utilizar mão-de-obra de menores de idade no fabrico de seus produtos. Apesar disso, etiquetas com a foto da executiva do Wall Mart, Kathy Lee Gifford, vinham anexadas a estes produtos com os seguintes dizeres: “Parte da receita da venda será doada a abrigos infantis”.

Da doação de donativos até ações como alfabetização e “ações globais”, as corporações podem contar com a intrínseca benevolência de seus funcionários - cuja base, em grande parte dos casos, é a religiosidade - para levar a cabo sua filantropia. As empresas, assim, valem-se do engajamento dos próprios funcionários, que em tempos modernos são eufemisticamente chamados de colaboradores, para tornar possíveis suas campanhas filantrópicas, obtendo assim mão de obra acessível, dócil e barata, ou melhor, gratuita, já que o funcionário nada recebe, a não ser, talvez, um tapinha nas costas dado pelo chefe. Não poderia ser diferente senão teríamos de alterar o termo de voluntário para coagido.

Pretende-se com estas medidas pontuais, esporádicas e assistencialistas, resolver o problema da desigualdade e pobreza no mundo. Esse fenômeno não é novo. Já em seu tempo, Marx e Engels, pais do socialismo científico, denunciavam as inócuas ações dos assim chamados socialistas utópicos. Portanto, diante do cenário atual que tem apontado as ações voluntárias capitaneadas pelas empresas como algumas das possíveis alternativas para a diminuição da desigualdade social mundial, é oportuna uma releitura de trechos do clássico Manifesto do Partido Comunista de 1848, uma das obras que marcaram o pensamento marxista. Leiamos o trecho seguinte:

“Os fundadores desses sistemas compreendem bem o antagonismo das classes, assim como a ação dos elementos dissolventes na própria sociedade dominante. Mas não percebem no proletariado nenhuma iniciativa histórica, nenhum movimento político que lhe seja próprio... À atividade social substituem sua própria imaginação pessoal; às condições históricas da emancipação, condições fantasiosas; à organização gradual e espontânea do proletariado em classe, uma organização da sociedade pré-fabricada por eles.. Repelem, portanto, toda ação política e, sobretudo, toda ação revolucionária, procuram atingir seus fins por meios pacíficos e tentam abrir um caminho ao novo evangelho social pela força do exemplo, por experiências em pequena escala que, naturalmente, sempre fracassam...”

No trecho citado, Marx e Engels estão se referindo aos socialistas utópicos, os quais buscavam a solução dos problemas do mundo de seu tempo valendo-se de ações que mantinham intactas as bases de exploração do sistema capitalista, ações estas que sempre eram o estender da mão do burguês em auxílio aos desfavorecidos, nunca uma iniciativa destes últimos em busca de sua afirmação como classe. Prosseguem assim, Marx e Engels:

“Continuam a sonhar com a realização experimental de suas utopias sociais: estabelecimento de falanstérios isolados, criação de colônias no interior, fundação de uma pequena Icária, duodécima edição da Nova Jerusalém, e para dar realidade a todos esses castelos no ar, vêem-se obrigados a apelar para os bons sentimentos e os cofres de filântropos burgueses”.

Exemplos tais como os projetos de Charles Fourier e Robert Owen são notórias experiências que fracassaram por contar apenas com a hipotética boa vontade dos empresários.


(continua em outro post)

HIPOCRISIA E GREVE DE FOME


Por Max Altman

A greve de fome de pessoa que cumpre pena em presídio é uma arma de desobediência e um desafio às determinações do Estado que pode assumir caráter político ou de reivindicação por melhores condições carcerárias. Manifestação de vontade individual ou coletiva, deve ser respeitada e criteriosamente avaliada. Ao tomar, conscientemente, a grave decisão de iniciar a greve de fome o preso sabe – e é informado – que a conseqüência pode ser fatal. Alguns entregam sua vida por um ideal mais nobre. Esses contam com defensores de fora da prisão que pressionam as autoridades a fim de que o objetivo da greve de fome seja alcançado. Outros priorizam sua própria vida e ainda assim esperam ver acatadas suas exigências. Quando ocorre a morte, os verdadeiros humanistas se condoem.

Contudo, a reação que se leu, viu e ouviu nesses dias a respeito do caso do cubano Orlando Zapata Tamayo passa longe da natural comiseração. O cadáver de Zapata é agora exibido como um troféu coletivo. Os grandes meios de comunicação já vinham antecipando o desenlace com intenções pouco dissimuladas de utilização com premeditados fins políticos. Zapata não fazia parte dos chamados dissidentes que foram julgados em março de 2003, não era um dos 75. Tinha um longo histórico delitivo comum, nada vinculado à política. Transformado depois de muitas idas e vindas à prisão em ativista político, era um homem prescindível para os opositores da Revolução. Cumpria uma sentença de privação de liberdade de 25 anos depois de ter sido inicialmente sentenciado em 2004 a três anos por desordem pública, desacato e resistência. Vinculou-se aos dissidentes após contactos com Oswaldo Payá e Marta Beatriz Roque. Declarou-se em greve de fome em 18 de dezembro. Apesar de se negar a tanto, recebeu, de acordo com o que estabelece o Tratado de Malta, a assistência médica necessária, inclusive terapia intermédia e intensiva e alimentação voluntária por via parenteral endovenosa e enteral. Transferido para um hospital geral foi-lhe diagnosticado pneumonia, tratada com os procedimentos mais avançados. Ao ter comprometido ambos os pulmões, foi assistido com respiração artificial até que ocorreu o óbito.


Vou à história, curioso em saber como a grande imprensa cobriu greves de fome de presos que terminaram ou não em morte e como selecionam os direitos humanos.


Ao assumir o governo inglês em 1979, Margareth Thatcher deflagrou uma ofensiva militar e política contra os movimentos pela libertação da Irlanda do Norte. A virulenta tentativa de criminalização do republicanismo irlandês passava pela supressão de qualquer diferença entre o tratamento dispensado, nos cárceres, aos soldados do Exército Republicano Irlandês (IRA), do Exército de Libertação Nacional Irlandês (INLA) e a criminosos comuns. Em resposta, combatentes irlandeses encerrados nos blocos H da prisão de Maze, deflagram em 1º de março de 81 uma greve de fome. Suas reivindicações: não usar uniformes de presidiário; não realizar trabalhos forçados; liberdade de associação e organização de atividades culturais e educativas; direito a uma carta, uma visita e um pacote por semana; e que os dias de protesto não fossem descontados quando do cômputo do cumprimento da pena. Recusando-se a ser tratados como criminosos, defendiam, a um só tempo, sua dignidade pessoal e a legitimidade da luta pela libertação de seu país. A um custo inimaginavelmente alto – onze homens morreram de inanição após longa agonia de 63 dias – os grevistas conseguiram uma vitória moral, ao fazer com que os ingleses retrocedessem quanto ao regime carcerário poucos meses após o fim do movimento; e uma vitória política, ao frustrar os planos de Thatcher de expor os que lutavam pela liberdade da Irlanda como criminosos aos olhos do mundo. O funeral de Bobby Sands, o líder do movimento, foi assistido por mais de 100 mil pessoas.

Thatcher, insensível, fez ouvidos moucos aos apelos. Teria o Estadão, a Folha ou o Globo ou El Pais, The New York Times, Die Welt, Le Fígaro, Clarin, estampado em sua manchete principal acusando Thatcher de homicida? Evidentemente, não!

Em meio século, nada mudou na Turquia, onde os presos políticos continuam fazendo greve de fome, não pela liberdade, como Nazim Hikmet, mas para recuperar a dignidade. Nazim Hikmet, o grande poeta turco, a quem a escritora Charlotte |Kan chamou de “o comunista romântico”Condenado a uma pena pesada, Nazim Hikmet estava preso em Bursa há doze anos quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade. condenado a uma pena pesada, em um longo processo construído nos mínimos detalhes, estava preso em Bursa, fazia doze anos, quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade. E ainda teve forças suficientes para escrever o poema “O quinto dia de uma greve de fome”, dedicado a seus amigos franceses que lutavam por sua libertação. Acaso os editoriais da nossa imprensa acusaram os governantes turcos de perpetradores de um crime continuado? Nem pensar.

Na base militar de Guantanamo, aqueles que as autoridades norte-americanas chamam de “combatentes inimigos” fizeram, entre fevereiro de 2002 e fim de setembro de 2005, seis tentativas conhecidas – e talvez centenas ignoradas – de desafiar seus carcereiros do Pentágono com greves de fome. Alguém leu ou ouviu acusações a Obama de violador dos direitos humanos elementares por não ter cumprido a promessa de encerrar esse centro de tortura e humilhação?

Recentemente, a aviação norte-americana dizimou, no espaço de dias, famílias de cidadãos afegãos, a maioria mulheres e crianças. A mídia abriu espaço para o pedido de desculpas dos generais e nem um milímetro para acusá-los e a Washington de estar perpetrando uma política de terrorismo de Estado e de violação da Convenção de Genebra.

Passaportes britânicos de cidadãos israelenses de dupla nacionalidade foram utilizados pelo serviço secreto do Mossad para executar extrajudicialmente em Dubai o líder do Hamas, Mahmoud AL-Mabhouh. Por acaso, a mídia abriu suas colunas para acusar o governo Netanyhau de criminoso e fora-de-lei?

Na confrontação dos Estados Unidos e Cuba, ao largo de mais de meio século, milhares de cubanos foram vítimas de atos de terrorismo arquitetados em solo norte-americano com pleno conhecimento da Casa Branca, incluindo diplomatas assassinados no exterior. Quando Havana se dispôs a tomar medidas de inteligência para prevenir esses ataques, cinco de seus concidadãos foram presos e condenados, em processo totalmente viciado levado a cabo em Miami, a penas draconianas que chegaram a duas prisões perpétuas mais 15 anos para um deles. Jamais a mídia internacional e a nossa mídia trataram do assunto.


Os ataques virulentos a Cuba por parte da direita, das oligarquias, dos setores reacionários e dos segmentos conservadores e seus porta-vozes não são novidade. Não se conformam de a Revolução Cubana ter resistido sozinha, graças à firmeza de sua liderança e apoio valente de seu povo, à opressão e aos desígnios do Império. Nenhum outro governo da região a apoiou. Hoje diversos governos da região a apóiam. A solidariedade, simpatia e defesa da gente simples e dos progressistas em todo o mundo nunca faltou.


A visita de Lula a Havana coincidiu com a morte de Zapata. Nossa mídia rebaixou a assinatura de 10 acordos de cooperação entre os quais se destaca a modernização do porto de Mariel. No entanto, o criticou furiosamente pretendendo vinculá-lo ao desrespeito a direitos humanos. No fundo querem destruir sua imagem de grande líder nacional e internacional em proveito de seus interesses ideológicos permanentes e eleitorais de agora.


Lula soube se comportar como chefe de Estado. E pessoalmente foi leal aqueles que ao longo de décadas se constituiram numa referência de soberania, independência, auto-determinação mas também de dignidade, heroismo e solidariedade.

Fonte: site Página 13

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

VALORES NA ECONOMIA PÓS-CRISE


Por Frei Betto

A crise financeira desencadeada a partir de setembro de 2008 exige, de todos, profunda reflexão e mudança de atitudes. Ela encerra uma crise mais profunda: a do modelo civilizatório. O que se quer: um mundo de consumistas ou um mundo de cidadãos?

Frente às oscilações do mercado agiram os governos. A mão invisível foi amputada pelos fatos. A destrambelhada desregulamentação da economia requereu a ação regulamentadora dos governos. O mercado, entregue a si mesmo, entrou em parafuso e perdeu de vista os valores éticos para se fixar apenas nos valores monetários. Foi vítima de sua própria ambição desmedida.

A crise nos impõe, hoje, mudanças de paradigmas. O que significa a robustez dos bancos diante da figura esquálida de 1 bilhão de famintos crônicos? Por que, nos primeiros meses, os governos do G8 destinaram cerca de US$ 1,5 trilhão (até hoje, já são US$ 18 trilhões) para evitar o colapso do sistema financeiro capitalista e apenas (prometeram em L’Aquila, ainda não cumpriram) US$ 20 bilhões para amenizar a fome no mundo?

O que se quer salvar: o sistema financeiro ou a humanidade?

Uma economia centrada em valores éticos tem por objetivo, em primeiro lugar, a redução das desigualdades sociais e o bem-estar de todas as pessoas. Sabemos que, hoje, mais de 3 bilhões – quase metade da humanidade – vivem abaixo da linha da pobreza. E 1,3 bilhão abaixo da linha da miséria. A falta de alimentação suficiente ceifa, por dia, a vida de 23 mil pessoas. E 80% da riqueza mundial encontram-se concentrados em mãos de apenas 20% da população do planeta.

Sem alterar esse panorama a humanidade caminhará para a barbárie. Os governos deveriam estar mais preocupados com o crescimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do que com o aumento do Produto Interno Bruto (PIB). O que importa, hoje, é a Felicidade Interna Bruta (FIB). As pessoas, em sua maioria, não querem ser ricas, querem ser felizes.

A crise nos faz perguntar: que projeto de sociedade legaremos às futuras gerações? Para que servem tantos avanços científicos e tecnológicos se a população não conta com serviços de saúde acessíveis e eficazes; educação gratuita e de qualidade; transporte público ágil; saneamento básico; moradia decente; direito ao lazer?

Não é ético e, portanto, humano um sistema que privilegia o lucro privado acima dos direitos comunitários; a especulação à frente da produção; o acesso ao crédito sem o respaldo da poupança. Não é ético um sistema que cria ilhas de opulência cercadas de miséria por todos os lados.

Uma ética para o mundo pós-crise tem como fundamento o bem comum acima das ambições individuais; o direito de o Estado regular a economia e assegurar a toda a população os serviços básicos; o cultivo dos bens infinitos, espirituais, mais importante que o consumo de bens finitos, materiais.

A ética de um novo projeto civilizatório incorpora a preservação ambiental ao conceito de desenvolvimento sustentável; valoriza as redes de economia solidária e de comércio justo; fortalece a sociedade civil organizada como normatizadora da ação do poder público.

O velho Aristóteles já ensinava que o bem maior que todos buscamos – até ao praticar o mal – não se encontra à venda no mercado: a própria felicidade. Ora, o mercado, não tendo como transformar este bem num produto comercializável, procura nos incutir a convicção de que a felicidade resulta da soma dos prazeres. Ilusão que provoca frustração e dilata o contingente de fracassados espirituais reféns de medicamentos antidepressivos e drogas oferecidas pelo narcotráfico.

O pior de uma crise é nada aprender com ela. E, no esforço de amenizar seus efeitos, não se preocupar em suprimir suas causas. Talvez as religiões não tenham respostas que nos ajudem a encontrar novos valores para o mundo pós-crise. Mas com certeza a tradição espiritual da humanidade tem muito a dizer, pois é na espiritualidade que a pessoa se enxerga e se mede. Ou, na falta dela, se cega e se atola. O ser humano tem sede de Absoluto.

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Faço apenas um passeio socrático”. Diante de olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Apenas observo quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”.

P.S.: Texto escrito a pedido do Fórum Econômico Mundial, 2010, de Davos.


Fonte: caderno de cultura do jornal Estado de Minas, edição de 25/02/2010.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O SENTIMENTO ELEITORAL POPULAR

Por Eduardo Guimarães no Cidadania.com

A paulada que a Advocacia Geral da União deu na manchete principal de primeira página da Folha de São Paulo de ontem me fez pensar sobre como o povo enxerga esses escândalos e pseudo escândalos e se os levará em conta nas eleições deste ano, sobretudo na eleição presidencial.

A blogosfera repercutiu furiosamente o desmonte do ataque, mas a mídia, como se viu, não aceitou as declarações da AGU e persistirá por mais alguns dias em uma tática que, com poucas variações importantes, já ultrapassa cinco anos ininterruptos.

Até agora, contudo, o que há de concreto, o que se pode ver e ouvir que realmente criminalize alguém é a coleção de imagens dos corruptos de Brasília efetivamente se corrompendo e a prisão de José Roberto Arruda.

O resto, penso que cai na vala comum da percepção popular sobre o fato óbvio de que há uma guerra política no país e que é impossível fazer julgamentos que valham alguma coisa tomando por base as artilharias dos contendores.

Quem quiser vislumbrar um futuro mais provável, portanto, deveria levar mais em conta o fato de que acusaram Lula e o PT durante dois anos e tais acusações não impediram que ele se reelegesse. E note-se que também apareceram imagens como a do Waldomiro “um por cento” Diniz ou a da pilha de dinheiro dos “aloprados”.

Talvez isso tenha acontecido porque são fatos complicados que duvido que o cidadão médio entenda. Além disso, duvido de que exista um só brasileiro que não saiba que “a Globo não gosta do Lula”. E explico que “a Globo”, para o povo, quer dizer a mídia.

Pensem bem: isso vem desde 1989. Foram cinco eleições presidenciais repletas de acusações de todo tipo contra o atual ocupante do Palácio do Planalto, às quais “a Globo” deu amplo apoio. Será muito dizer que o povo parou de acreditar nela em 2002?

Desta maneira, acho difícil que essa entidade amorfa (o povo) vá dar bola a acusações em manchetes de jornal, de telejornal, de rádio ou de internet. Se der, não sobra ninguém para votar.

Num momento como este que vive o Brasil, penso que as pessoas se deixarão guiar pelo que sentem em relação à própria vida. E, nesse aspecto, a teoria de que foi FHC que fez “tudo isso que está aí” me parece pouco convincente. Aliás, em 2006 ela não colou.

Há, porém, os argumentos não desprezíveis de que, desta vez, não será Lula que disputará com o anti-Lula de plantão e o de que o presidente não conseguiu eleger Marta Suplicy. Mas será que o povo do resto do país é igual ao de São Paulo e as condições políticas hoje são as mesmas de 2004, sobretudo depois de o Estado ter mergulhado no caos?

Lula estará de um lado e Serra, do outro. Sobretudo no segundo turno. Ficará muito claro quem é quem. O brasileiro, assim, terá que decidir se se aventura com uma promessa ou se fica com o que já conhece. Além disso, subestimar Dilma Rousseff, como a oposição e a mídia estão fazendo, parece-me imprudência e/ou burrice.

Quem sabe o mínimo sobre este povo, sabe também que ele não gosta de aventuras. Se se aventurou em 2002, é porque estava extremamente insatisfeito com Fernando Henrique Cardoso. Não consigo pensar em uma única razão lógica para ele se aventurar de novo agora.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

AO PLANALTO, DILMA!

Dilma e Lula no IV Congresso do PT. Foto: O Globo


Por Cléber Sérgio de Seixas

Finalmente, foi confirmada a candidatura de Dilma Rousseff à presidência da república. A sorte está lançada. O PT e aliados podem esperar uma campanha acirrada, em cujo processo os ânimos prometem estar exaltados.

Está em jogo a continuidade das realizações de um governo com altíssima aprovação popular. Muitos já consideram essa uma eleição plebiscitária, ou seja, na qual os eleitores optarão pela continuidade de um governo para a maioria, com todos os seus defeitos, que não são poucos, diga-se de passagem, ou pela volta de um neoliberalismo à moda tupiniquim, que tantos males trouxe à nação nos anos 90, ressalvando inquestionáveis feitos tais como o controle da inflação sob o Plano Real. O aspecto plebiscitário das eleições 2010 também se revela na escolha popular entre a continuidade do crescimento da nação, e a conseqüente ascensão rumo ao clube das nações mais desenvolvidas do planeta, ou a regressão a patamares onde o Brasil não passava de uma nação cujas decisões econômicas e políticas se revelavam sempre em subordinação a interesses estrangeiros, sobretudo de organizações como FMI e Banco Mundial; a reboque da vontade das grandes potências de plantão.

Assim sendo, já definido quem é a candidata de Lula, pode-se esperar ataques dos mais diversos naipes, com golpes abaixo da cintura, ou seja, uma campanha eleitoral na qual a oposição, acuada que está por diversos escândalos - (do “panetonegate” de Arruda à recente condenação em primeira instância pela justiça eleitoral do, também demo, prefeito paulista Gilberto Kassab) e pela queda constante nas pesquisas eleitorais do principal adversário de Dilma, José Serra, - se valerá de todos os meios para manter-se no páreo. Democratas e tucanos jogarão todas as suas cartas na mesa e não hesitarão em utilizar meios lícitos e ilícitos para impedir a vitória da candidata de Lula. Para tal, contarão com a ajuda do Partido da Imprensa Golpista (PIG) que, a essa altura, não disfarça mais de que lado está. Os eleitores podem esperar a produção em escala industrial de toda sorte de factóides e pseudo-escândalos destinados a minar a candidatura de Dilma. Nesse processo, não pode ser descartada a ação, nos bastidores, de organizações estrangeiras, tais como a CIA, para não deixar a tradição latino-americana fenecer.

Enquanto o PT e aliados apresentam sua candidata, a oposição, sobretudo o maior adversário do governo, o PSDB, se mantém num silêncio ensurdecedor. Dilma sobe nas pesquisas ao passo que Serra cai. Nesse contexto cogitou-se até a possibilidade de uma chapa “puro sangue” encabeçada por Aécio Neves e tendo Serra como vice.

Portanto, é hora de aqueles que sempre foram afligidos pela desigualdade social que por anos a fio vigeu neste país - e que nos últimos oito anos se viram contemplados por políticas públicas que lhes favoreceram (bolsa família, PROUNI, cotas raciais em universidades públicas, Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida, aumento do poder aquisitivo do salário mínimo, etc) e serviriam para diminuir tal desigualdade - se unirem em torno do nome de Dilma, um nome que significa a continuidade da era Lula. Neste rol eu me incluo e já manifesto meu voto na candidata petista.

Estejamos, pois, atentos aos ataques da grande mídia golpista e de seus asseclas: meia dúzia de burgueses que não gosta do cheiro do povo e quer manter seus status quo em detrimento do bem estar da maioria.

BONDES - O TRANSPORTE DO FUTURO

Um bonde subindo a Rua da Bahia


Reportagem de Pedro Rocha Franco

Imagine sair da Rua Grão Mogol, no Bairro Carmo-Sion, e percorrer 14 quilômetros em transporte público, em via exclusiva, até as margens da Lagoa da Pampulha, com apenas uma troca de veículo na Praça 7, no Centro. Ou cruzar a cidade de Leste a Oeste, passando pelos pontos mais importantes, sem precisar de dar intermináveis voltas pelos bairros. Os percursos são concretos e não saíram das pranchetas de urbanistas preocupados em projetar a Belo Horizonte do futuro ou o transporte de massa que a capital sonha em ter na Copa do Mundo de 2014. Muito pelo contrário. Essas eram apenas duas das muitas possibilidades que tinham os belo-horizontinos há 60 anos, com um modelo de transporte que somava 73 quilômetros de linhas, mais que o dobro dos atuais 28 quilômetros do metrô.

Ramais dos bondes em Belo Horizonte no auge do sistema

No auge de sua eficiência, o sistema de bondes de Belo Horizonte chegou a transportar 73 milhões de passageiros por ano num dos 75 veículos – um sexto do total de pessoas levadas pelos 2.854 ônibus municipais no ano passado ou pouco mais da metade das passagens vendidas para o metrô –, com tamanha articulação que possibilitava a locomoção pelos quatro cantos da cidade. Em pleno terceiro milênio, ver um mapa semelhante ao do percurso dos bondes na década de 1950 – seja para o metrô, seja para os corredores exclusivos de ônibus, seja para o veículo leve sobre trilhos, o parente mais próximo do antigo sistema – só é possível no papel, em um dos projetos do poder público que ainda não conseguiram romper a fase de promessa.

Desde a implantação dos primeiros trilhos na nova capital de Minas, no começo do século passado, o sistema de bondes teve duas fases distintas: nas duas primeiras décadas era visto, muitas vezes, como transporte para grã-fino e a partir da proliferação de linhas, tendo como destinação atender aos trabalhadores e à parcela da população que não dispunha de automóveis – objeto raro e de luxo no Brasil até meados da segunda metade do século 20.

Bonde trafegando na região da Gameleira nos anos 50

UM TOSTÃO Apenas 10 anos depois da primeira viagem, em 1912, a extensão da malha de bondes ultrapassaria o atual traçado do metrô, com 30 quilômetros de trilhos ante os 28 quilômetros. E diferentemente do único sentido do ramal Eldorado-Vilarinho aos poucos eram costuradas linhas para possibilitar o deslocamento. Da Gameleira, Santo Antônio, Carmo, Serra, Cachoeirinha, Renascença, Carlos Prates... e até da Pampulha partiriam bondes tendo como parada obrigatória os abrigos da Praça Sete de Setembro. Dali, bastava o passageiro descer e escolher o próximo destino por apenas um tostão – valor da passagem, equivalente a 80 réis, moeda da época.

A Praça Sete nos tempos dos bondes

Os ramais podiam ter destinação específica, como o criado para ligar a Lagoinha à vila Santo André, atual Região Nordeste. Como da Pedreira Prado Lopes – primeiro aglomerado da capital – eram extraídas as pedras usadas nas construções de ruas e casas, era preciso garantir o transporte dos operários para o Centro e, na década de 1940, a Rua Pedro Lessa foi prolongada, o que obrigou a demolição de parte da imensa rocha, e dali e para ali seguiria a linha Santo André, com 1.350 metros de extensão.

Na mesma época, com a inauguração do conjunto arquitetônico da Pampulha, era possível cruzar toda a Avenida Antônio Carlos para chegar ao Iate Tênis Clube ou a um dos atrativos às margens da Lagoa da Pampulha. Com uma vara de pescar na mão, o garoto Zulu – apelido de José Eloy Pereira da Rocha –, então com seus 15 anos, pegava o bonde Renascença, na Rua Jacuí, até a Praça Sete e, de lá, descia, sem pagar na maioria das vezes, apanhava outro bonde. Desta vez, era o Pampulha. A brincadeira rendia o domingo até tarde. Depois de horas à beira da lagoa, na volta para casa, os passageiros ainda eram obrigados a conviver com o cheiro dos três ou quatro piaus na sacola do moleque. “Mas até passava rápido. Não tinha trânsito. Carro dava para apontar. A maioria era bicicleta e carroça”, recorda, aos 76 anos.

Bondes nos anos 30 circulando a Praça Sete

TRÓLEBUS Dos anos 1940 até os 1970, o transporte elétrico teve um período de abandono em todo o mundo. Em BH, a partir de 1950, com a entrada em circulação dos trólebus e a ascensão dos ônibus, os bondes foram aposentados aos poucos. Até a parada definitiva do transporte em 1963. Obsoleto, o modal passou a ser deixado de lado, mas, segundo o historiador e jornalista norte-americano Allen Morrison, um dos principais pesquisadores dos bondes no mundo e responsável pela elaboração do mapa ao lado baseando-se em plantas do Arquivo Público de Belo Horizonte e trabalhos sobre o tema, "no fim da década de 1970, as cidades voltam a investir no modelo, bem mais moderno.

Atualmente, 136 cidades têm o sistema e outras 50 estão em construção. Mas a América Latina resiste, exceto Buenos Aires, que conta com duas linhas", explica o autor dos livros Os bondes no Brasil, Os bondes no Chile e Na América Latina de Automóvel e desde 1998 responsável por um site com mais de 1,5 mil páginas e 3,5 mil fotografias sobre o transporte sobre trilhos no mundo.


UM SISTEMA IDEAL PARA BH


Em 30 de junho de 1963, as seis linhas remanescentes de bondes em Belo Horizonte fazem sua última viagem e os trilhos são retirados das ruas. Simbolicamente, significava o ponto final do modal de transporte, considerado obsoleto. Em contrapartida, a chegada do progresso com a propagação dos automóveis era sinônimo de status, desde já e para sempre. Apesar das reclamações a respeito da lotação e de problemas corriqueiros, os belo-horizontinos mal sabiam que, quase cinco décadas depois, o sistema articulado e longe dos engarrafamentos monstruosos da metrópole de mais de 1,2 milhão de veículos poderia ser modelo para um novo sistema de transporte na capital.

Um dos motivos para a falência dos bondes e sua substituição foi a falta de investimento público, diz a pesquisadora e diretora do Arquivo Público de Belo Horizonte, Maria do Carmo Andrade Gomes. "BH já foi moderna. Existia uma política pública apropriada", afirma a autora do livro Omnibus: Uma história dos transportes coletivos em BH. Em 1947, os trilhos somavam 73 quilômetros e os veículos carregavam 73 milhões de passageiros/ano, mas, a data representa também o início da decadência do transporte, pouco a pouco substituído pelos ônibus, trólebus e o trem metropolitano.

Nas décadas de 1940, 1950 e 1960, o sistema de bondes era o principal modal, mas os ônibus e os trólebus, a partir de 1953, tinham coparticipação no transporte público. Cada um atendia a determinada demanda. E, reafirmando o entendimento dos principais conhecedores de engenharia de tráfego e transportes, a pesquisadora considera o formato intermodal o ideal para desafogar o trânsito. "A alternativa é aliar todos os modelos", diz ao citar o exemplo de Paris: "Lá ainda tem bonde. E as mulheres chiquérrimas andam de metrô", afirma.


OS ANOS DE OURO

Bonde trafegando na Av. Antônio Carlos em 1958

1902 Em 7 de setembro, são inauguradas as primeiras linhas de bonde elétrico pela Companhia Ferro-Carril de Belo Horizonte, seguindo quatro trajetos: Quartel, Mercado, Rua Ceará e Rua Pernambuco.

1903 É inaugurado o primeiro abrigo de passageiros na Avenida Afonso Pena, esquina com Rua Ceará.

1907 Cinco anos depois da abertas as primeiras linhas, BH tem 24 quilômetros de trilhos, divididos em sete linhas. No mesmo ano, é inaugurado o abrigo na Praça 13 de Maio (atual Praça Diogo de Vasconcelos, na Savassi), que, a partir de 1908, receberia o bonde fechado, construído em peroba e canela e reservado a autoridades.

1912 O sistema tem 30 quilômetros de extensão para atender os 38.822 habitantes da capital. No ano, os 39 veículos transportariam mais de 5 milhões de passageiros.

1923 BH ganha a primeira linha de auto-ônibus, para suprir a carência do atendimento de bondes, que percorria poucos bairros.

1928 Por causa de uma forte seca, o número de bondes em operação é reduzido. Em contrapartida, a prefeitura implanta novas linhas de auto-ônibus, com tarifa de 300 réis. O serviço é extinto em dezembro com a temporada de chuvas e a normalização do fornecimento de energia.

1937 Inauguração de mais dois abrigos na Praça 7, ponto obrigatório para os bondes de todas as linhas. Com as novas paradas, é demolido o prédio da Agência de Bondes, no cruzamento da Avenida Afonso Pena com Rua da Bahia, e o “centro nervoso” passa a ser Afonso Pena esquina com Amazonas.

1942 Em plena Segunda Guerra Mundial, é proibida a circulação de veículos particulares, por causa da escassez de combustível.

1947 Inauguração do ramal da Pampulha. Na década de 1940, são construídos três novos ramais: Carmo, Pedro II e Cachoeirinha. O ano é considerado auge do fluxo de pessoas, com 73 milhões de passageiros, 75 bondes e 73 quilômetros de trilhos.

1949 Por causa do sucateamento dos bondes, a prefeitura investe pouco a pouco nos ônibus.

1950 Os bondes param de circular na Avenida Afonso Pena e são retirados os pontos da Praça 7. Tem início a circulação de uma linha própria para bagagem.

1951 O prefeito Américo Renné Giannetti assume o cargo defendendo a troca do sistema de bondes pelos trólebus.

1957 Mais da metade da frota está em oficinas esperando a compra de peças para reparos. Apenas 25 bondes operam.

1963 Fim da linha para os bondes em BH. As últimas linhas (Cachoeirinha, Gameleira, Bom Jesus, Horto, Padre Eustáquio e Cidade Ozanam) são desativadas.

2005 A prefeitura apresenta projeto para uma linha turística de bonde, ligando a Praça Raul Soares ao Museu Histórico Abílio Barreto, mas o projeto não sai do papel.


CAOS COM CARROS É INEVITÁVEL


Caso não seja tomada medida para diminuir o número de automóveis em circulação em Belo Horizonte e outras metrópoles brasileiras, como Brasília e São Paulo, o alardeado colapso será inevitável. A manutenção no ritmo de crescimento da frota de carros e de motocicletas pelos próximos 10 anos resultará no dobro e quadruplo de cada um dos tipos de veículo, respectivamente.

O mestre em engenharia de transportes e assessor técnico da Agência de Desenvolvimento Metropolitano de Minas Gerais, Paulo Rogério Monteiro, aponta como solução “óbvia” para evitar o caos do trânsito de BH e das cidades vizinhas a elaboração de planejamento para crescimento ordenado da região. “A mobilidade tem que ser pensada como uma grande e complexa engrenagem em que uma pequena peça pode emperrar as demais”, diz em referência à necessidade de se ter um sistema intermodal.

“O metrô, por exemplo, tem função de atender aos eixos com maior demanda, mas não consegue alcançar os cantos dos bairros. Esse é dever dos ônibus e em áreas planas pode ser feito o uso de bicicletas, por meio de ciclovias”, explica. E adverte que, mesmo se o poder público der continuidade aos megainvestimentos em infraestrutura e ampliação de vias, o espaço físico não cresce na mesma proporção.


O FUTURO SOBRE OS TRILHOS


O exemplo da construção de sistemas intermodais em cidades mundo afora mostra que até nas metrópoles mais contemporâneas os bondes podem ter uso mais eficiente que o simples aparato turístico, como no Rio de Janeiro ou pretendido na gestão do prefeito Fernando Pimentel (PT), em BH, há cinco anos. Em Paris, Dallas, Helsink e outras mais de 100 cidades, o transporte elétrico sobre trilhos é usado como alternativa ao metrô e, principalmente aos ônibus, como planeja fazer nos principais corredores da capital o prefeito Marcio Lacerda (PSB) implantando o Veículo Leves sobre Trilhos (VLT).

VLT de Dublin, Irlanda

O modelo usa o mesmo sistema dos charmosos bondes nos primeiros anos do século passado. “O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) é simplesmente um nome moderno para um formato de bonde mais complexo. Hoje os bondes são usualmente articulados, correm sobre trilhos e tem o piso rebaixado, próximo ao chão”, explica o pesquisador norte-americano Allen Morrison, especialista no estudo de bondes. “Quase todas as grandes metrópoles do mundo possuem sistemas de bondes, exceto na América Latina. O sucesso do transporte é extraordinário. Cidades como Dallas, Denver, Saint Louis e Los Angeles, todas nos Estados Unidos, não conseguiriam construir novas linhas com eficiência semelhante”.

Autor de três livros sobre o tema, ele estudou os meios de locomoção em grandes cidades europeias, asiáticas, norte-americanas e, principalmente, sul-americanas. A implantação do sistema sobre trilhos é apontado como necessário para que as pessoas troquem o egoísmo dos automóveis pelo transporte público, mas explica as condições para que isso ocorra. “Inicialmente, os transportes sobre trilhos são mais caros para serem implantados. Mas, ao longo do tempo, eles são econômicos, além de não poluírem. Há também o fator psicológico. O transporte elétrico sobre trilhos transmite sentimento de estabilidade e proteção. O público prefere o trajeto mais calmo. Em todo o mundo, tem sido demonstrado que os passageiros abandonam seus carros para usar trens, metrôs e bondes. Mas eles não fazem a troca para andar de ônibus – sempre mais lentos e uma forma menos glamourosa de transporte público.”


Fonte: jornal Estado de Minas - 21/02/2010
Fotos: Acervo de Allen Morrison

Leia também:
- Se o metrô não vem, Bh vai de VLT;
- O Ocaso das Ferrovias - do Apagão Rodoviário à Copa 2014;

sábado, 20 de fevereiro de 2010

DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA...

foto de alguns dos sobreviventes do Massacre do Caldeirão


Nota do Blog: Foi postado neste blog um comentário ao texto Jobim, Vanuchi e a Memória Brasileira, de autoria de Frei Betto. Achei de extrema importância o que é relatado no comentário e julguei oportuno transformá-lo num post neste blog. Tenho ciência das truculências cometidas pela ditadura de Vargas, mas confesso que desconhecia este fato de tão triste memória, cuja violência tem paralelos com outro massacre, o de Canudos. É interessante que o leitor conheça o episódio com mais detalhes clicando aqui. Abaixo reproduzo o comentário de Otoniel Ajala Dourado, presidente da ONG SOS - Direitos Humanos.



"As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão têm direito inalienável à Verdade, Memória, História e Justiça!"
Otoniel Ajala Dourado



O MASSACRE APAGADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA


No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi o MASSACRE praticado pelo Exército e Polícia Militar do Ceará em 10.05.1937, contra a comunidade de camponeses católicos do SÍTIO DA SANTA CRUZ DO DESERTO ou SÍTIO CALDEIRÃO, cujo líder religioso era o beato "JOSÉ LOURENÇO GOMES DA SILVA", paraibano de Pilões de Dentro, seguidor do padre CÍCERO ROMÃO BATISTA, encarados como “socialistas periculosos”.



O CRIME DE LESA HUMANIDADE


O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte/CE, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.


A AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA PELA SOS DIREITOS HUMANOS


Como o crime praticado pelo Exército e pela Polícia Militar do Ceará é de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é considerado IMPRESCRITÍVEL pela legislação brasileira e Acordos e Convenções internacionais, por isto a SOS DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza - CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo: a) que seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) a exumação dos restos mortais, sua identificação através de DNA e enterro digno para as vítimas, c) liberação dos documentos sobre a chacina e sua inclusão na história oficial brasileira, d) indenização aos descendentes das vítimas e sobreviventes no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos



A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO


A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá em 16.09.2009, extinta sem julgamento do mérito, a pedido do MPF.



AS RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5


A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do SÍTIO CALDEIRÃO é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;



A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA


A SOS DIREITOS HUMANOS, igualmente aos familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo DESAPARECIMENTO FORÇADO de 1000 pessoas do SÍTIO CALDEIRÃO.


QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA


A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem localizar a cova coletiva, e por que não a procuram? Serão os fósseis de peixes do "GEOPARK ARARIPE" mais importantes que os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO?



A COMISSÃO DA VERDADE


A SOS DIREITOS HUMANOS busca apoio técnico para encontrar a COVA COLETIVA, e que o internauta divulgue a notícia em seu blog/site, bem como a envie para seus representantes no Legislativo, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal a localização da COVA COLETIVA das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO.


Paz e Solidariedade,



Dr. Otoniel Ajala Dourado
OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197
Presidente da SOS - DIREITOS HUMANOS
Membro da CDAA da OAB/CE
www.sosdireitoshumanos.org.br
sosdireitoshumanos@ig.com.br

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

JOBIM, VANNUCHI E A MEMÓRIA BRASILEIRA

Monumento Tortura Nunca Mais - rua da Aurora, Recife - PE

Por Frei Betto

Indignados com o Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado em solenidade oficial presidida por Lula, em dezembro, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os comandantes das Forças Armadas teriam apresentado suas renúncias, recusadas pelo presidente da República.

Lula teria prometido rever três ou quatro pontos do programa, como os que exigem a instalação de uma Comissão da Verdade, a abertura dos arquivos militares e a retirada, de vias públicas, de nomes de pessoas notoriamente coniventes com a repressão da ditadura.

O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, cumpre honradamente seu dever de cidadão e autoridade pública: empenha-se para que a verdade venha à tona. O Brasil é o único país da América Latina, assolado no passado por ditadura militar, que prefere manter debaixo do tapete crimes cometidos por agentes públicos.

A lei da anistia, aprovada pelo governo do general Figueiredo, é uma aberração jurídica. Anistia se aplica a quem foi investigado, julgado e punido. O que jamais ocorreu, no Brasil, com os responsáveis por torturas, assassinatos e desaparecimentos. Aqueles que lutaram contra o regime militar e pela redemocratização do país foram, sim, severamente castigados. Que o digam Vladimir Herzog e Frei Tito de Alencar Lima.

Tortura é crime hediondo, inafiançável e imprescritível. Ao exigir que se apure a verdade sobre o período ditatorial, o ministro Vannuchi e todos nós que o apoiamos não somos movidos por revanchismo. Jamais pretendemos fazer a eles o que eles fizeram a nós. Trata-se de justiça: descobrir o paradeiro dos desaparecidos; entregar às suas famílias os restos mortais dos que foram assassinados e enterrados clandestinamente; comprovar que nem todos os militares foram coniventes com as atrocidades cometidas pelo regime, em nome da Segurança Nacional; livrar as Forças Armadas da influência de figuras antidemocráticas que exaltam a ditadura e acobertam a memória de seus criminosos.

O presidente Lula não merece tornar-se refém dos saudosistas da ditadura. É a impunidade que favorece, hoje, a prática de torturas por parte de policiais civis e militares, como ocorre em blitzen, delegacias e cadeias Brasil afora.

Inútil os militares tentarem encobrir a verdade sobre o nosso passado. Até no filme de Fábio Barreto, "Lula, o filho do Brasil", a truculência da ditadura é exposta em cenas reais e fictícias. "Batismo de Sangue", de Helvécio Ratton - o filme mais realista sobre o período militar - revela como jovens estudantes idealistas eram tratados com uma crueldade de fazer inveja aos nazistas.

Participei, junto com Paulo Vannuchi, do projeto que resultou no livro "Brasil, Nunca Mais" (Vozes), assinado por Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright. Todas as informações contidas na obra foram obtidas na documentação encontrada no Superior Tribunal Militar. E, em data recente, o major Curió, que comandou a repressão à guerrilha do Araguaia, abriu uma mala de documentos.

Anistia não é amnésia. O Brasil tem o direito de conhecer a verdade sobre a guerra do Paraguai, Canudos e a ditadura instalada em 1964. Bisneto e neto de militares, sobrinho de general e filho de juiz de tribunal militar (anterior ao golpe de 64), gostaria que os nossos Exército, Marinha e Aeronáutica fossem forças mais amadas que armadas.


Fonte: jornal Estado de Minas - 18/02/2010


Leia também:

- Meu poema Memória;

- A Longa Despedida da Ditadura, de Leandro Fortes;

- Da Enormidade de Defender os Torturadores, de Luiz Carlos Azenha;

- Meu texto Do Direito à Memória.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Petkovic faz golaço em Ana Maria Braga

Do Blog do Altamiro Borges

A apresentadora global Ana Maria Braga adora o consumismo capitalista e nunca escondeu a sua rejeição às idéias de esquerda. Mas, geralmente, ela exagera nas suas paixões. No seu programa da TV Globo da semana passada, ela entrevistou o jogador sérvio Dejan Petkovic, atual campeão pelo Flamengo e craque reconhecido por todos os apreciadores do futebol. A entrevista até que ia bem, quando ela não se conteve e disparou: “Como foi nascer num país com tanta dificuldade?”.

Petkovic, que é bom de bola e de cabeça, não vacilou e marcou mais um golaço: “Quando nasci não tinha dificuldade nenhuma. Era um país maravilhoso, vivíamos um regime socialista, todo mundo bem, todos tinham salário, todos tinham emprego. Os problemas aconteceram depois dos anos 80”. A apresentadora engoliu a seco e prosseguiu a matéria. Sua assessoria devia, ao menos, ter pesquisado as posições progressistas do jogador para evitar mais esta pisada de bola.

“Musas” direitistas do Cansei

Ana Maria Braga já se meteu em várias outras frias – tanto que o corrosivo colunista José Simão já a apelidou de “Ana Ameba Brega”. Em meados de 2007, ela foi umas das “musas” do movimento “Cansei”, organizado por ricos empresários e notórios direitistas para desgastar o governo Lula. Ela surgiu em outdoors ao lado da malufista Hebe Camargo, da “medrosa” Regina Duarte e da “festeira” Ivete Sangalo. Apesar da participação “gratuita” destas estrelas midiáticas, a patética iniciativa não conseguiu seduzir a sociedade e sucumbiu rapidamente.

Eis o vídeo:

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CÂMARA DO DF CASSARÁ 3 PARA EVITAR INTERVENÇÃO

Arruda: o rei do panetone


Reportagem de Eugênia Lopes

Para tentar evitar a intervenção federal no governo do Distrito Federal, a Câmara Legislativa está decidida a cassar o mandato de pelo menos três dos oito deputados distritais envolvidos no escândalo do "mensalão do DEM". A tendência é que o corregedor da Câmara, Raimundo Ribeiro (PSDB), recomende a abertura de processo por falta de decoro parlamentar contra os três deputados - Leonardo Prudente (ex-DEM, sem partido), Eurídes Brito (PMDB) e Júnior Brunelli (PSC) - filmados recebendo maços de dinheiro do ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal Durval Barbosa.

Ao mesmo tempo, os deputados distritais decidiram aprovar a abertura de processo de impeachment contra o governador afastado José Roberto Arruda (sem partido, ex-DEM). Preso desde quinta-feira na Polícia Federal, Arruda perdeu a base de apoio na Câmara, que deverá aprovar amanhã, na Comissão de Constituição e Justiça, o andamento de um dos três pedidos de cassação de seu mandato.

Fiel aliado de Arruda, o deputado Batista das Cooperativas (PRP), relator dos pedidos de impeachment na CCJ, já anunciou que seu parecer é pela admissibilidade da abertura do processo. A decisão de entregar a cabeça de Arruda foi tomada pelos distritais na sexta-feira, também como uma tentativa de evitar a intervenção federal.

RELATÓRIO

O corregedor Raimundo Ribeiro pretende apresentar seu relatório com os pedidos de cassação do mandato dos envolvidos no escândalo revelado pela Operação Caixa de Pandora no início da próxima semana. Amanhã, ele vai discutir com os colegas de Câmara a situação de cada um dos envolvidos. "O que posso dizer é que são situações diferentes entre quem aparece nos vídeos e quem é citado. Mas não posso dizer se são situações mais graves porque aí estaria entrando no mérito", disse.

Prudente, Eurídes e Brunelli foram filmados por Barbosa recebendo maços de dinheiro. Prudente aparece nos vídeos guardando as notas nos bolsos do paletó e até nas meias. Eurídes joga para dentro da bolsa vários pacotes de dinheiro, enquanto Brunelli ficou conhecido como o autor da "oração da propina", em que aparece abraçado com Prudente e Barbosa agradecendo e rezando pela vida do ex-secretário. Os outros cinco parlamentares são citados em conversas como beneficiários do suposto esquema de pagamento de propina. "Agora, com a prisão do Arruda, não sinto mais clima de pizza", resumiu ontem o deputado Chico Leite (PT).

O motivo para a mudança de posição da base aliada de Arruda, que tinha 19 do total de 24 deputados distritais, é a ameaça de intervenção federal no governo de Brasília. "Os parlamentares sabem que, se não cortarem na própria carne, haverá essa intervenção", argumentou o líder do PT na Câmara, Paulo Tadeu. "A Câmara não terá moral para discutir o impeachment do Arruda se não cassar o mandato dos distritais envolvidos no escândalo."

Depois de aprovar a abertura de impeachment contra Arruda, os deputados se reúnem amanhã para discutir também o futuro de Paulo Octávio. Parte da base é a favor da abertura de processo contra ele simultaneamente ao de Arruda, e parte é contra.

Paulo Octávio deve ser recebido hoje pelo presidente Luiz Inácio da Silva no Centro Cultural do Banco do Brasil, a sede provisória do governo federal durante a reforma do Palácio do Planalto.

PRISÃO

Após receber a visita da sua mulher Flávia Arruda, que deixou a Superintendência da PF por volta das 20 horas, o governador afastado do Distrito Federal foi homenageado por um grupo de cinco amigos que usava um megafone.

Ao ouvir gritos de apoio e solidariedade, Arruda abriu uma fresta da persiana para ver os amigos quando cantavam Segura na Mão de Deus e, depois, quando Vicente de Paulo, que trabalha na Secretaria de Governo do GDF, avisou pelo megafone que estava ali para apoiá-lo. "Tudo passará" e "estamos lhe esperando em 2014", gritou. O advogado Thiago Bouza também visitou Arruda ontem.


Fonte: jornal O Estado de São Paulo - 17/02/2010

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

VOCAÇÃO PARA SER MAIS



Por João Paulo

Paulo Freire (1921-1997) se tornou um nome conhecido mundialmente pelo trabalho com alfabetização de adultos. O chamado método Paulo Freire foi aplicado no Brasil e em outros contextos e culturas, tendo se constituído num dos mais significativos instrumentos pedagógicos contemporâneos. O educador pernambucano foi também autor de importante obra teórica, tendo lançado os marcos da pedagogia do oprimido, título de seu livro mais conhecido, traduzido em mais de 30 idiomas. Além da prática e teoria (separação que ele detestaria), Paulo Freire foi ator político em diversas experiências no Brasil e no exterior, tendo exercido, entre outros, o cargo de secretário municipal de Educação de São Paulo na gestão de Luiza Erundina.

Obras publicadas, ação pedagógica e ocupações públicas e independentes são apenas balizas externas de uma construção que muitos teimam em descaracterizar, como se tratasse de algo datado, no mínimo, ou equivocadamente ideológico. São esses erros de análise que cobram sempre um exercício de boa-fé intelectual na avaliação do legado do educador. Paulo Freire não é apenas o maior pensador educacional brasileiro, mas um instrumento útil na construção da educação no Brasil e no mundo. Se há uma concordância generalizada de que nossa maior dívida se dá no campo da educação (algo que a esquerda e a direita assinam embaixo), tanto como resgate do passado como em termos de perspectivas futuras, descartar Paulo Freire deixa de ser um ato de má-fé para ser uma atitude irresponsável. O que não significa que o trabalho do educador tenha de ser tomado como dogma, pelo contrário, merece, até para honrar sua inspiração, a crítica dialética de seus fundamentos e o exercício rigoroso da análise política de seus resultados.

O primeiro aspecto mencionado, a elaboração do método de alfabetização de adultos, deve ser entendido em toda a sua dimensão. O primeiro equívoco está em separar o método do conjunto da teoria pedagógica freiriana. A sustentação é filosófica e política. Filosófica, no sentido de defender uma antropologia e uma teoria do conhecimento que propõem uma nova visão do homem e um novo papel para a construção e uso do saber. Há, de acordo com o educador, em todo ser humano, uma vocação ontológica para ser mais, que se concretiza no ato de ler o mundo. Assim, não se pode considerar que Paulo Freire seja um “metodólogo”, um criador de instrumentos pragmáticos de incorporação de símbolos, mas sim um pensador que busca o desenvolvimento da consciência crítica. A palavra conscientização foi disseminada por ele como síntese de um processo que é ao mesmo tempo individual, pedagógico, filosófico e político.

O segundo ponto, a teoria sintetizada em sua obra maior, Pedagogia do oprimido, traz já na epígrafe sua divisa ética: “Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim, descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”. Não se trata de teoria separada da prática. É exatamente porque articula a pedagogia com transformação do mundo que ele parte de uma teoria do homem (antropologia), de uma teoria do conhecimento (epistemologia) e de uma teoria política, para alcançar então a pedagogia com sua força libertadora. Não se trata de qualquer homem, mas de um ser com vocação a ser mais; não se aceitam concepções acabadas de conhecimento, apenas aquela construída em diálogo com o mundo, visando a transformá-lo; e, por fim, não se concebe a pedagogia como soma de saberes técnicos voltados ao adestramento, mas como prática dialógica, comprometida com a liberdade.

O terceiro elemento de avaliação, o da participação de Paulo Freire em várias experiências pedagógicas em todo o mundo, tem como destaque a presença em países do continente africano. Nesse contexto, o trabalho pedagógico se deu em momentos de recuperação da autonomia nacional, depois de séculos de presença colonial. Neste sentido, a questão do resgate cultural implicava a política linguística. Ou seja, a alfabetização levava necessariamente à questão da superação colonial. Mais proximamente, chamou atenção o trabalho de Paulo Freire à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, entre 1989 e 1991. O educador resumiu sua atuação em torno de quatro diretrizes: direito de acesso à escola, gestão democrática, qualidade de ensino e alfabetização de jovens e adultos, com as quais pretendia mudar a cara da escola pública na cidade.

Sempre que se falar em educação no Brasil, tendo como desafio ao mesmo tempo a qualidade e a democratização, a presença de Paulo Freire será necessária. As críticas, por exemplo, à Escola Plural de Belo Horizonte, com a incompreensível onda moralista do retorno das bombas e do elitismo dos conteúdos, é exemplo de uma amnésia pedagógica que não é apenas conservadora, mas francamente reacionária. A crítica ao autoritarismo, a busca de ligação cultural com as comunidades, a perspectiva libertadora do ato educativo, o horizonte da escola como lugar de proteção social, a participação dos agentes pedagógicos nos processos de gestão, a busca de crescimento humano por meio do diálogo tolerante – tudo isso faz parte de um repertório que é patrimônio universal. E que ganhou sua melhor formulação na vida e obra do brasileiro Paulo Freire.


Fonte: jornal Estado de Minas - 13/02/2010


Nota do blog: clique aqui para ler o que escrevi sobre Paulo Freire em setembro de 2009.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

PECADO CAPITAL

FHC: vaidoso e invejoso


Por Mino Carta

É do conhecimento até do mundo mineral que Fernando Henrique é vaidoso. Mesmo os amigos mais chegados lhe apontam o pecado desde os tempos em que iam às calçadas paulistanas na noite da corrida de São Silvestre para torcer pelo tcheco Emil Zatopek, a “locomotiva humana”, por enxergar nele o perfeito representante do império soviético.

Pecado capital, a vaidade, segundo os católicos. Se esse aspecto da personalidade do ex-presidente não passa despercebido aos olhos do Pão de Açúcar e da Pedra do Baú, imaginem o que se dá com Lula, um expert em FHC. As mais recentes reações do príncipe dos sociólogos às comparações promovidas na área petista entre seu governo e o de Lula servem somente para demonstrar que FHC é pecador contumaz, de sorte a alegrar seus adversários e, assim me parece, inquietar José Serra.

Se a vaidade de FHC se estabelece, Lula vence, pois é exatamente a vitória que procura. O presidente montou o ardil, o ex-presidente caiu na esparrela. Adaptou-se ao esquema do plebiscito convocado peremptoriamente pelo atual titular sem perceber o erro pueril que estava a cometer. Vanitas vanitatum, diriam os antigos romanos. Dona Dilma esfrega as mãos de puro contentamento.

Interessantes as repercussões na mídia nativa. O Estadão, por exemplo, com patética insistência, orgulha-se por ter publicado no domingo 7 o artigo de FHC que abre fogo e que teria seguimento na segunda com novos, comovedores esforços do ex-presidente para levar lenha à lareira petista. Já a Folha de S.Paulo na terça levanta claras dúvidas quanto à conveniência das atitudes fernandistas a contrariar a estratégia do governador Serra. O qual, anote-se, fecha-se em copas.

O jornal tem sido bom intérprete do pensamento serrista, de sorte a induzir a impressão de que expõe, de fato, o desconforto do pré-candidato. E chega ao ponto de colocar em papel impresso aquilo que FHC não disse e deveria ter dito a bem da verdade factual. No caso da taxa de pobreza, ela permaneceu estável de 1996 a 2002, caiu “de forma aguda” somente sob Lula. A Folha lembra também que o salário mínimo cresceu mais no governo atual e que as dívidas interna e externa fermentaram à desmesura à sombra do tucanato.

Apesar de tudo, a Folha foi generosa com o ex-presidente, aquele que o mundo nos invejou, não é mesmo? Aliás, Lula atingiu uma popularidade mundial com que FHC nunca sonhou, graças também a uma política exterior conduzida com extrema competência, enquanto o antecessor, protegido de Clinton, atrelou-se passivamente à vontade americana e professou a religião neoliberal. Quem sabe, no caso dê o ar de sua graça outro pecado capital: a inveja, ótima aliada da vaidade.

Há, entretanto, comparações mais preocupantes, digamos assim. Fernando Henrique quebrou o Brasil três vezes e sua obra-prima em matéria foi realizada para garantir o segundo mandato, quando, em campanha, prometeu a estabilidade do real para desvalorizá-lo doze dias depois de empossado. Antes, votos de parlamentares haviam sido comprados para assegurar a alteração constitucional.

E nem se fale das privatizações, colossal bandalheira sem precedentes na história pátria, tormentosa época em que a turma da equipe econômica se referia a FHC como a “bomba atômica”. E também evitemos referências à chacina de Eldorado dos Carajás, perpetrada pela polícia de um governador tucano pronta a atirar em lavradores do MST. Dezenove morreram diante do descaso do presidente da República.

E por que não evocar a figura onipresente de Daniel Dantas, o banqueiro do Opportunity, favorecido pelas privatizações e pela condescendência de FHC, que mais de uma vez lhe fez as vontades? Ou não seria mais verdadeira a recíproca? Ou, por outra, a condescendência de Dantas em relação ao presidente da República e ao tucanato em geral?

Certo é que FHC fortalece a ideia do plebiscito, tão cara e pacientemente cultivada pelo adversário.


Fonte: revista Carta Capital - edição 11/02/2010

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Memória



Por Cléber Sérgio de Seixas

Na boca o lamento da alma
No peito reside a tormenta
Calar-se, esquecer, quem aguenta
Se a memória atroz é quem clama?

Melhor o grito e a palavra dita
A manter o travo na garganta
O desabafo afasta a dor, que é tanta,
Que falar da dor é dor que já não fica

Querem emudecer os sofridos
Congelar, sufocar amarguras
Mas há chagas que o tempo não cura
Tantos foram os pesares vividos

Quem perdeu, quem chorou, não esquece
Quem sofreu, quem sangrou, não olvida
Do suplício e da dor mais profunda
Um pesar que não vai, não fenece

Tinha rosto e nome o algoz
Mas mantinha meu rosto encoberto
“Me tire o capuz, chegue mais perto,
Pra que eu o veja e ouça tua voz!”

D'um cadáver que jaz insepulto
Dele a história e o que fez não se esquece
Que não fiquem em vão tantas preces
Que o carrasco não ganhe indulto

Por juízes passou a sentença
Mas a História produz seu ensejo
No Brasil condenados não vejo
Mas a dor não me sai da lembrança

Que de muitos se lembre a História
Das torturas, martírios, degredos
Que não haja mais nenhum segredo
Que das trevas desponte a memória

.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

CARNAVAL ESPIRITUAL

Por Frei Betto

Neste carnaval anseio por folias interiores, de maravilhas indescritíveis, de sinuosos alaridos, de magnificências a dispensar ruídos e palavras. Quero toda a avenida regida por inequívoco silêncio, o baile imponderável em gestos rituais, a euforia estampada em cada sorriso.

Rasgarei a fantasia de minhas pretensões e, despido de hipocrisias, deixarei meu eu mais solidário desfilar alegre pelas recônditas passarelas de minha alma.

Fecharei os ouvidos à estridência dos apitos e, mente alerta, escutarei o ressoar melódico do mais íntimo de mim mesmo. Deixarei cair as máscaras do ego e, nas alamedas da transparência, farei desfilar, soberba, a penúria de minha condição humana.

Aplaudirei os sambistas com fogo nos pés e as mulatas eletrizadas pelo ritmo da batucada. Mas não me deixarei arrastar pelo bloco da concupiscência. Inebriado pelo ritmo agônico da cuíca, serei o mais iconoclasta dos discípulos de Momo, recolhido ao vazio de minha própria imaginação.

Neste carnaval serei figurante na escola da irreverência e desfilarei pelas ruas meu incontido solipsismo, até cessar a bateria que faz dançar os fantasmas que me povoam. Envolto na desfantasia do real, atirarei confetes aos foliões e perseguirei os voos das serpentinas para que impregnem de colorido as diatribes de meu ceticismo.

No estertor da madrugada, farei ébrias confidências à Colombina e, Arlequim apaixonado, ofertarei as pétalas que me recobrem o coração. Não porei olhos no desfile da insensatez, nem abrirei alas à luxúria do moralismo. Quando a porta-bandeira desfraldar encantos, ficarei ajoelhado na ala das baianas para reverenciar o Almirante Negro.

Ao eco dos tamborins, esperarei baixar a sofreguidão que me assalta, buscarei a euforia do espírito no avesso de todas as minhas crenças, exibirei em carros alegóricos as íngremes ladeiras da montanha dos sete patamares.

Darei vivas à vida severina, riscarei Pasárgada de meu mapa e, ainda que não me chame Raimundo, farei da rima solução de tantos impasses neste devasso mundo. Expulsarei de meu camarote todos os incrédulos do Pai Nosso cegos aos direitos do pão deles.

Revestido de inconclusas alegorias, sairei no cordão das premonições equivocadas e, vestido de Pierrô, aguardarei sentado na esquina que a noite se dissolva em epifânica aurora.

Ao passar o corso da incompletude, abrirei as gaiolas da compaixão para ver o céu coberto pela revoada de anjos. Trocarei as marchinhas por aleluias e encharcarei de perfume os monges voláteis incrustados em minhas imprudências.

Olhos fixos no esplendor das batucadas siderais, contemplarei o desfile fulgurante dos astros na Via Láctea. Verei o sol, mestre-sala, inflamar-se rubro à dança elíptica da cabrocha Terra. Se Deus der as caras, festejarei a beatífica apoteose.

No cortejo dos Filhos de Gandhy, evocarei os orixás de todas as crenças para que a paz se irradie sobeja. Do alto do trio elétrico, puxarei o canto devocional de quem faz da vida a arte de semear estrelas.

Entoado o alusivo, darei o grito da paz, pronto a fazer da comissão de frente o prenúncio do inefável. No reverso do verso, cunharei promissoras notícias e, no quesito harmonia, farei a víbora e o cordeiro beberem da mesma fonte.

Meu enredo terá a simplicidade de um haicai, a imponência de um poema épico, a beleza das histórias recontadas às crianças. De adereços, o mínimo: a felicidade de quem pisa os astros distraído.

Farei da nudez a mais pura revelação de todas as virtudes; assim, ninguém terá vergonha de mostrar o que Deus não teve de criar, e a culpa será redimida pelo amor infindo. A rainha da bateria virá tão bela quanto uma vitória-régia pousada numa lagoa despudoramente límpida. Sua beleza interior suscitará assombro.

A evolução da escola culminará em revolução: a fantasia se fará realidade assim como o sertão há de vir amar e o mar de ser tão pellegrinamente pão do espírito.

Neste carnaval não haverei de me embriagar de etílicos prazeres nem me deixarei arrastar pelos clóvis a disseminar o medo entre alegrias. Irei aos bailes rituais e me submeterei às libações subjetivas, ofertarei ao Mistério cálices de clarividências e iluminuras gravadas em hóstias.

Enclausurado na comunhão trinitária, ingressarei na festa que se faz de fé e na qual toda esperança extravasa no amor que não conhece dor. Então a palavra se fará verbo, o verbo, carne, e a carne será transubstanciada em festival perene – carnaval.

Fonte: jornal Estado de Minas - 11/02/2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O REINADO DE MOMO TERMINA NO ALTAR





Carnaval, desengano

Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Chico Buarque


Por Cléber Sérgio de Seixas

Quem vê o rei Momo, com toda a sua simpatia e farta adiposidade - apesar de nos dias atuais nem todos os reis momos serem gordos -, não supõe que esta imagem, já consagrada no imaginário da cultura carnavalesca, pouco tem a ver com a imagem do deus Momo da mitologia grega, representante da irreverência e da galhofa, expulso do Olimpo por seu comportamento sarcástico e zombeteiro. Nas Saturnálias, festas em homenagem a Saturno, era escolhido o mais belo soldado romano para ser coroado rei Momo. Em meio à orgia era tratado com toda a pompa, comendo e bebendo até à exaustão. No fim da festa, que durava dias, era violentamente sacrificado no altar de Saturno. Seu reinado durava assim apenas alguns dias, porém, como dizia Vinícius de Moraes, era infinito enquanto durava, pois não conhecia limites de nenhuma espécie. Terminava, então, sobre altar a glória e a folia de momo. Podemos dizer que era a sua quarta-feira de cinzas, sua trágica apoteose.

O Carnaval sempre apresentou como características a inversão de papéis e a irreverência: vemos homens vestidos de mulheres e vice-versa, pessoas comuns travestidas de celebridades e uma disposição de satirizar e zombar das mais variadas situações e pessoas. É, sobretudo, um tempo em que se procura esquecer os problemas quotidianos para mergulhar na folia. É provável que esta comemoração tenha raízes nas festas Dionisíacas e nas Saturnálias, oriundas da Grécia e Roma antigas. Nessas festas, além da folia, ocorria uma teatralização da inversão dos papéis sociais, de forma que o pobretão vestia-se de nobre, o libertino de casto e a prostituta de donzela. Durante as Saturnálias os escravos tomavam o lugar dos senhores e saíam às ruas para comemorar a igualdade entre os homens, cantando e se divertindo em meio a grande desordem, sendo-lhes permitido até mesmo ridicularizar seus senhores em público. O período que antecede a quarta-feira de cinzas foi denominado Carnelevarium (“abandonar a carne”) devido à proibição Católica do consumo de carne na Quaresma.

Muitos artistas já cantaram as tragédias e glórias do Carnaval. Na belíssima canção Retalhos de Cetim, Benito di Paula apresenta a desilusão de um homem que gastou tudo para fazer uma fantasia para a mulher amada desfilar e na hora h a mesma dá o cano: "Mas chegou o Carnaval/ E ela não desfilou/ Eu chorei na avenida, eu chorei/Não pensei que mentia/A cabrocha que eu tanto amei". Já Chico Buarque canta uma desilusão amorosa momesca da seguinte forma: "Carnaval, desengano/Essa morena me deixou sonhando/Mão na mão, pé no chão/E hoje nem lembra não". Na arte como na vida as paixões desses dias de folia são, em sua maioria, passageiras.

O Carnaval é, talvez, a festa que mais caracteriza a cultura nacional. Pena que nos últimos anos a festa tem tido um caráter majoritariamente comercial, o que pode ser ilustrado pelas escolas de samba cariocas onde os destaques são artistas de televisão que tomam o lugar de pessoas comuns das comunidades. Uma festa que era para ser participativa, se transforma num espetáculo para se contemplar.

Se a farra momesca termina no altar, a efêmera alegria carnavalesca do brasileiro termina na quarta-feira de cinzas, mais precisamente após o meio-dia, quando o êxtase dionisíaco perde seu efeito e vai-se embora a alegria artificial, muitas vezes proporcionada por generosas doses etílicas. Tira-se a fantasia e veste-se novamente o uniforme de trabalho. Há quem diga, inclusive, que este país só começa a funcionar, de fato, após o Carnaval.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

COMBATE AOS FICHAS-SUJAS


Editorial

É muito bem-vinda e merece apoio a iniciativa do presidente recém-eleito da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, de mobilizar todas as seções regionais da entidade para participar da Campanha Nacional de Combate à Corrupção, que a instituição está patrocinando. O primeiro trabalho será a coleta em todos os escaninhos da Justiça brasileira dos processos em tramitação envolvendo denúncias de corrupção e de desvio de recursos públicos. Identificados esses casos e seus protagonistas, o material ficará exposto no site da OAB, de modo a facilitar o acesso gratuito a todo cidadão interessado em saber se quem lhe pede o voto, ou já dirige algum órgão público, está envolvido em casos que o tornem menos recomendável à carreira política. Está cada vez mais claro que separar o joio do trigo terá de ser também papel do eleitor. Mas ele não terá como exercê-lo sem contar com informações fornecidas com a credibilidade de uma entidade livre do engajamento partidário, como é o caso da OAB.

A importância e a urgência dessa campanha tornam-se ainda mais evidentes quando se registram a lentidão e a má vontade com que vem sendo tocado na Câmara dos Deputados o projeto de iniciativa popular conhecido como Ficha Limpa. Organizado pela ONG Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE) e tendo o apoio da Igreja Católica, que mobilizou paróquias em todo o país, principalmente em Minas, o projeto chegou a Brasília em 29 de setembro, sustentado por impressionante 1,5 milhão de assinaturas, número muito superior ao mínimo exigido por lei para garantir a sua aceitação e tramitação pelo Congresso Nacional. Basicamente, o projeto, que recebeu o número 518/009, veda a concessão de registro, pela Justiça Eleitoral, de às candidaturas de políticos condenados em primeira instância por crimes contra a vida ou que atentam contra a administração e patrimônio públicos. Para evitar que adversários políticos movam processos sem justificativa apenas para inviabilizar a campanha do opositor, o projeto somente considera as ações de autoria do Ministério Público.

Mas nem essa cautela, nem o comprovado apoio popular têm conseguido vencer resistências de deputados de praticamente todos os partidos. O ritmo que a Casa tem dado ao projeto é o de passo de tartaruga. Há desculpas mais ou menos fundamentadas, como a do líder do PT na Câmara, deputado Fernando Ferro (PE), que levanta a necessidade de alterar o projeto antes de pô-lo em votação, sob pena de condená-lo à rejeição por ferir o direito de defesa e promover o prejulgamento dos denunciados. A alteração seria no sentido de somente negar o registro aos candidatos que tenham sido condenados em segunda instância. Ele teme que, na primeira, fisicamente mais perto dos envolvidos, os julgamentos sofram forte pressão das disputas eleitorais. A preocupação é razoável. O que não se justifica é engavetar o projeto, criar empecilhos à sua tramitação. Que se façam as modificações necessárias a tornar o projeto mais justo e mais eficaz. Nem mesmo o ano eleitoral pode ser invocado como obstáculo para a discussão e votação do Ficha Limpa, já que é exatamente para fazer efeito sobre as eleições que ele foi concebido e conquistou a simpatia, a adesão e a esperança de tantos eleitores. Frustrá-los será mais um golpe na já abalada confiança da sociedade na representação política.

Fonte: jornal Estado de Minas - 09/02/2010