sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Acordo em Honduras abre caminho para volta de Zelaya



Quatro meses após ser retirado do poder por um golpe de Estado, o presidente legítimo de Honduras Manuel Zelaya deverá, enfim, voltar ao cargo para o qual foi eleito democraticamente em 2005. Após a (tardia) interferência dos Estados Unidos, o governo golpista assinou um acordo que abre as portas para a restituição. Zelaya qualificou a medida como um “triunfo da democracia”. Logo após o anúncio, centenas de hondurenhos tomaram as ruas de Tegucigalpa para celebrar o que deve ser fim da crise.

Na madrugada desta sextta-feira, após reuniões com autoridades norte-americanas que pressionavam pelo fim da crise, Roberto Micheletti anunciou um recuo, concordando que o retorno de Zelaya à Presidência seja decidido pelo Congresso, como solicitava o presidente deposto. "Esse é um primeiro passo. Meu retorno é iminente, estou otimista", afirmou Zelaya.

O acordo estabelece ainda que ambos os lados reconheçam o resultado das eleições presidenciais previstas para 29 de novembro. O controle do Exército seria confiado ao Tribunal Superior Eleitoral. O anúncio foi feito pelo secretário de Assuntos Políticos da Organização dos Estados Americanos (OEA), Víctor Rico, em uma breve conferência à imprensa junto ao subsecretário de Estado americano para a América Latina, Thomas Shannon.

"O diálogo chegou a uma feliz conclusão. Há alguns minutos as delegações designadas para este diálogo assinaram a ata e os textos correspondentes. As duas comissões decidiram que a restituição de Zelaya será decidida pelo Congresso Nacional", disse, por sua vez, o chefe da comissão de Micheletti, Armando Aguilar.

O presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, anunciou momentos antes que autorizou a sua equipe de representantes a assinar o acordo. "Meu governo decidiu apoiar uma proposta que permite um voto no Congresso Nacional, com uma opinião prévia da Corte Suprema de Justiça, para retroceder todo o Poder Executivo de nossa nação para antes de 28 de junho de 2009", disse Micheletti em declaração lida para a imprensa na Casa Presidencial.

Em declarações à Rádio Globo de Honduras, Zelaya afirmou que reconhecer a necessidade de retroagir os poderes do Estado às condições estabelecidas em 28 de junho significa o "retorno à paz" no País. "Esta sexta será o dia da retomada da democracia no país. Dizemos ao povo hondurenho que, a despeito de todas as celebrações, devemos olhar esse acordo como um símbolo de paz. Vamos tomar o acordo com satisfação, com calma", afirmou Zelaya.

O líder deposto ressaltou que a missão americana liderada pelo subsecretário de Estado norte-americano Thomas Shannon “teve um papel fundamental”, da mesma forma que a OEA, a União Europeia e todos os países da América. Para Zelaya, o acordo tem que ser “uma garantia para que o sentido da interrupção democrática que significam os governos de fato sejam experiências” que não voltem a se repetir em Honduras.

O acordo põe fim a uma “via crucis”, segundo Zelaya, que foi retirado do poder e mandado por meio de um golpe de Estado no dia 28 de junho, mas conseguiu voltar escondido ao país no mês passado e desde então buscou abrigo na embaixada do Brasil.

Já Micheletti lembrou no seu pronunciamento que os outros pontos em negociação, como um governo de reconciliação, rejeição à anistia política, verificação internacional, uma comissão da verdade e reconhecimento das eleições de novembro, entre outros, já foram assinados pelas duas partes antes do diálogo desta quinta.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, elogiou o acordo e disse que era uma vitória para a democracia na América Latina. "Esse é um grande passo para o sistema interamericano e seu compromisso com a democracia. Nós estávamos claramente do lado da restauração da ordem constitucional, e isso inclui eleições", disse ela de Islamabad.

O secretário geral da OEA, José MIguel Insulza avaliou que, se cumprido de boa fé, o acordo assinado pelas duas partes em conflito encerrará a crise política em Honduras.

Menifestações

Dezenas de simpatizantes do hondurenho Manuel Zelaya se reuniram em frente à embaixada brasileira em Tegucigalpa para comemorar o acordo alcançado para que o Congresso decida sobre a restituição do presidente deposto ao poder. Com bandeiras de Honduras e do Partido Liberal, do presidente deposto, os seguidores daquele gritavam frases como "Mel (Zelaya), amigo, o povo está contigo" ou "Golpistas, vão à merda".

"Estamos felizes porque há um indício de que Manuel será restituído, apesar de isso ainda não ter acontecido e de Honduras nunca ter visto uma reversão ou uma restituição depois de um golpe de Estado, o que é algo histórico. Acho que neste ano aconteceram muitas coisas históricas em Honduras", afirmou Isabel Ortega, de 23 anos.

"Estou comemorando com as pessoas com as quais caminhei durante 123 dias, as pessoas com as quais lutei, gritei, corri fugindo dos gás lacrimogêneo, dos policiais e das forças repressoras deste país", acrescentou a jovem, que se identificou como comunicadora e uma "feminista da resistência".

Santos Luciano Núñez, um motorista de 60 anos, também estampava um grande sorriso no rosto pelo acordo alcançado, ao qual se referiu como uma "vitória". "Passamos meses muito críticos depois deste golpe de Estado e precisamos da restituição do presidente Manuel Zelaya para que a situação volte à normalidade", afirmou Gerson Flores, um estudante de Direito de 27 anos.

"O que fizeram com nosso presidente foi uma barbárie típica dos tempos antigos. Nós elegemos um presidente por quatro anos e o depuseram de forma ilegal (...)", acrescentou o universitário

Pressão

O acordo, decisivo para superar a crise política, foi assinado pelos membros das duas delegações ao fim de quase 12 horas de diálogo. As conversas foram reatadas nesta quinta-feira após praticamente uma semana estagnadas por desacordos sobre a restituição de Zelaya. O avanço foi obtido após a pressão de oficiais do alto escalão do governo americano, que viajaram para Honduras nesta semana para encerrar a crise política e poupar o presidente Obama de mais um problema na política externa.

Líderes dos Estados Unidos, da União Europeia e de países latino-americanos haviam insistido que Zelaya deveria ser autorizado a encerrar seu mandato presidencial, com término previsto para janeiro. Eles disseram que não poderia reconhecer o vencedor da eleição de novembro a menos que a democracia fosse restaurada.

Ontem, durante as negociações, o subsecretário de Estado americano para o Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, líder da delegação dos Estados Unidos enviada a Honduras, afirmou que estava acabando o tempo para um acordo que pudesse pôr fim à crise. O governo Obama cortou alguns programas de cooperação com Honduras após o golpe militar, mas líderes latino-americanos o criticaram por não fazer mais pela restauração da democracia no país.

Diversos grupos de direitos humanos denunciaram abusos cometidos pelo governo interino. Para os partidários de Manuel Zelaya, eleições livres e justas não seriam possíveis após Micheletti reprimir as liberdades civis e fechar temporariamente as empresas de comunicação favoráveis a Zelaya.


Veja a seguir o que já se sabe sobre o acordo:

1. Apoiar a proposta que permite uma votação no Congresso Nacional com uma opinião prévia da Suprema Corte de Justiça para retroagir todo o Poder Executivo prévio a 28 de junho de 2009, ou seja, a restituição de Zelaya ao governo.

2. Criação de um governo de unidade e reconciliação nacional.

3. Rejeição da anistia de crimes políticos e da moratória das ações penais

4. Renúncia à convocação de uma Constituinte ou a uma reforma da Constituição nas cláusulas pétreas.

5. Reconhecimento e apoio das eleições gerais de 29 de novembro e a transferência de governo.

6. Transferência da autoridade sobre o Supremo Tribunal Eleitoral, as Forças Armadas e a Polícia Nacional.

7. Criação de uma comissão de verificação para fazer cumprir os dispositivos do acordo.

8. Criação de uma comissão da verdade que investigue os fatos, antes durante e depois de 28 de junho de 2009.

9. Pedido à comunidade internacional para a normalização das relações com Honduras.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PASSEIO POR HAVANA


Por Frei Betto

Havana, nesta época do ano, é banhada por suave temperatura. O calor é amenizado pelo hálito de frescor que sopra das águas azuladas por trás do Malecón. A umidade reflui, embora a população se mantenha atenta à meteorologia: outubro e novembro são meses de furacões. Ano passado, ceifaram quase 20% do PIB, hoje calculado em US$ 50 bilhões.

Não há sinal de que o desastre se repita este ano. Impossível, contudo, prever as reações vingativas de Gaia, cruelmente estuprada por nossa ambição de lucro e solene desprezo à mãe ambiente.

A visita a Cuba, na penúltima semana de outubro, não tinha agenda de trabalho. Fui a convite do querido amigo José Alberto de Camargo, que, para comemorar aniversário, escolheu a cidade reencantada pela literatura de Lezama Lima, Alejo Carpentier e Nicolás Guillén.

A cormitiva (comitiva do coração) incluiu os jornalistas Chico Pinheiro e Ricardo Kotscho, este acompanhado de Mara, sua mulher. Alojados no octogenário Hotel Nacional, brindamos o desembarque com o daiquiri de La Floridita, onde Hemingway tomava seus porres. Visitamos a casa de praia em que ele morou e escreveu O velho e o mar, bem como o Hotel Ambos Mundos, no qual viveu seis anos e redigiu Por quem os sinos dobram.

Foram dias de boa culinária caribenha no El Templete, à beira do porto, e em El Oriente, frequentado por Saramago e García Márquez. Entre mojitos e o aroma perfumado dos charutos Cohiba, cuja fábrica percorremos, mantivemos proveitosas conversas com cidadãos anônimos e autoridades do país, como Ricardo Alarcón, presidente da Assembleia Nacional; Eusébio Leal, historiador da cidade (e responsável pela restauração da área colonial de Havana); Homero Acosta, secretário do Conselho de Estado (no qual se congregam ministros e dirigentes do país); Armando Hart, do Centro de Estudos Martianos; Abel Prieto, ministro da Cultura; e Caridad Diego, responsável pelo Gabinete de Assuntos Religiosos (que cuida da relação entre Estado e denominações confessionais).

Permaneci um dia a mais para encontrar-me com Raúl Castro, atual presidente, com quem almocei no sábado, 24, e Fidel, que, na tarde do mesmo dia, me recebeu em sua casa, com direito a jantar.

Cuba se encontra grávida de si mesma. Após 50 anos de Revolução, é hora de analisar erros e impasses. Mira-se o passado para enxergar melhor o futuro. Em 2010, o 9º congresso do Partido Comunista deverá submeter o país à verificação de suas contradições e elaboração de novas estratégias, sobretudo no que concerne à economia e à emulação ética.

Engana-se quem supõe Cuba retrocedendo ao capitalismo. Ainda que se multipliquem aberturas à economia de mercado, devido à globalização e ao mundo unipolar hegemonizado pelo neoliberalismo, não interessa à ilha priorizar a acumulação privada da riqueza em detrimento da maioria da população. A América Central é o espelho no qual Cuba não quer se ver: ali os índices de violência são, hoje, os mais altos do mundo, com 23 assassinatos/ano por grupo de 100 mil habitantes. No Brasil, o índice é de 31/100 mil e, em Cuba, 5,8/100 mil. Basta dizer que, no Rio, a polícia matou, em 2007, 1.330 pessoas. No ano anterior, nos EUA foram mortas pela polícia 347 pessoas.

Os cubanos são conscientes de as falhas do país não poderem ser todas atribuídas ao criminoso bloqueio imposto, há mais de 40 anos, pela Casa Branca (e, agora, em vias de distenção pela administração Obama).

A manutenção, por longo tempo, de medidas justificadas pela Guerra Fria começa a ser questionada. É o caso do caráter paternalista do Estado, que assegura a 11 milhões de habitantes, gratuitamente, cesta básica, saúde e educação de qualidade.

Por essa razão, a qualidade de vida em Cuba, onde o analfabetismo está erradicado, figura em 51º lugar, entre 182 países, no Índice de Desenvolvimento Humano 2009, da ONU. O Brasil mereceu a 75ª classificação. Não se cogita alterar o direito universal e gratuito à saúde e à educação. Porém, a redução dos subsídios à alimentação deverá coincidir com o aumento de salários e da produtividade agrícola, de modo a diminuir a importação de 80% dos alimentos consumidos.

Busca-se solução a curto prazo para a duplicidade de moedas: o CUC, adquirido pelos turistas (evita o câmbio paralelo e a evasão de divisas), e o peso, utilizado pelo cidadão cubano. O turismo, ao lado da exportação de níquel, é das principais fontes de arrecadação de Cuba, que, com tamanho 64 vezes inferior ao Brasil, recebe 2,5 milhões de turistas por ano, metade dos que desembarcam em nosso país no mesmo período.

Toda a América Latina se opõe, hoje, ao bloqueio e apoia a reintegração de Cuba nos organismos continentais. A questão política mais relevante nas relações internacionais é a urgente libertação dos cinco cubanos presos nos EUA desde 1998, condenados a penas elevadíssimas, acusados – acreditem! – de evitar atos terroristas. Os cinco lograram abortar 170 atentados planejados contra Cuba dentro da comunidade cubana de Miami.

Fernando Morais, com quem jantamos em Havana, promete lançar, em 2010, livro em que conta a esdrúxula história do processo movido pela Justiça usamericana contra os cinco cubanos.

P.S.: A quem possa interessar: Fidel goza de muito boa saúde e excelente bom humor.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 29/10/09

terça-feira, 27 de outubro de 2009

IRMÃ DE FIDEL FOI AGENTE DA CIA


Havana – Juanita Castro, de 76 anos, uma das irmãs de Fidel e Raúl Castro, colaborou com a Agência Central de Inteligência Americana (CIA) durante os anos 60, um período em que Washington fazia de tudo para sabotar a revolução comunista na ilha. E o contato com a agência foi intermediado pela esposa do então embaixador do Brasil em Havana, Vasco Leitão da Cunha. A revelação foi feita ontem, no lançamento do livro Meus irmão, a história secreta.

Juanita afirma que foi recrutada para trabalhar pela CIA por Virginia Leitão da Cunha, esposa do embaixador brasileiro em Cuba no período, que posteriormente foi ministro das Relações Exteriores, entre 1964 e 66. Juanita Castro disse que colaborou com a CIA enquanto estava em Cuba e também depois de sua partida. Ela vive exilada em Miami.

No livro, Juanita conta detalhes de seu entorno familiar em Cuba e como foi procurada pela CIA quando se transformou em severa crítica da revolução em 1964. Mais nova que Fidel e Raúl, ela é a quinta de sete irmãos. De acordo com a irmã de Fidel, Leitão da Cunha e sua mulher haviam abrigado muitos revolucionários durante a ditadura de Batista e simpatizaram inicialmente com o governo Fidel, mas posteriormente ficaram decepcionados. Então, ela e Virgínia viajaram separadamente para o México para se encontrar com Tony Sforza, um dos especialistas da CIA em Cuba. Juanita viajou com o pretexto de visitar uma irmã, a quem nunca mencionou o assunto. Sforza trabalhava infiltrado em Cuba, passando-se por jogador de cassino com o nome falso de Frank Stevens. Juanita recebeu o nome de "agente Donna" e teve como primeira missão enviar entregar dinheiro a homens da CIA na ilha. A CIA se comunicava com ela por mensagens cifradas em uma rádio de ondas curtas.

Antes da crise dos mísseis, Juanita passou informações à CIA de que foguetes soviéticos eram instalados em Cuba, e também sobre visitas dos russos à ilha. A agência decidiu afastá-la de Cuba depois que Raúl foi dizer à irmã que havia acusações contra ela por supostas atividades contrarrevolucionárias. Aparentemente, não haviam descoberto sua ligação com a CIA. Juanita afirma que foi Raúl quem lhe conseguiu um visto para viajar ao México. Chegando ao país, ela escreveu um texto rompendo com a revolução. "Comecei a me desencantar quando vi tanta injustiça", afirmou Juanita na entrevista, referindo-se às prisões, aos fuzilamentos e aos confiscos do governo revolucionário. "Tínhamos a tendência de botar a culpa nos subalternos, mas as ordens vinham de cima, de Fidel, de Che (Guevara), de Raúl." Ontem, Juanita lançou suas memórias: Fidel e Raúl, meus irmãos. A história secreta, pela editora Santillana. O livro foi escrito pela jornalista María Antonieta Collins a partir de uma entrevista.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 27 de outubro de 2009


Nota do Blog: Nâo sei quais são os critérios da senhora Juanita Castro quando afirma "começei a me desencantar quando vi tanta injustiça". Será que ela considera mais justo o sistema ditatorial que vigorava antes da revolução de 1959? Nunca é demais lembrar que, antes da revolução, Cuba era dominada por um ditador títere dos interesses de Washington e pela máfia norte-americana. Além disso, os estrangeiros que lá desembarcavam, buscavam, sobretudo, drogas, turismo sexual e jogatina nos vários cassinos espalhados pela ilha. Enquanto os gringos de olhos azuis faziam suas incursões naquela que era uma pequena república das bananas, o povo cubano chafurdava na miséria a ponto de existirem camponeses que sequer haviam enfiado seus pés dentro de sapatos.

Quanto aos fuzilamentos do início da revolução aos quais se refere a matéria, é bom salientar que foram decorrentes de julgamentos, em sua maioria, feitos em sessões públicas filmadas e sob a observação dos cubanos e da imprensa estrangeira, sendo grande parte dos condenados a penas capitais indivíduos acusados de atos terroristas e/ou torturadores notórios dos tempos da ditadura Batista.

Pode ser que a irmã de Fidel esteja mais para porta-voz dos contra-revolucionários de Miami, que desde a revolução acharam em solo estadunidense refúgio e base para suas ações de desestabilização do regime, do que para defensora dos direitos humanos da maioria do povo de Cuba. Por falar em direitos humanos, vale dizer que atualmente os cubanos vivem sob um regime que tem lhes garantido usufruir de condições de vida jamais imaginadas antes da revolução, dentre as quais destaco educação de qualidade e saúde, ambas totalmente gratuitas. Assim sendo, os direitos humanos em Cuba são mais humanos se comparados aos de outras nações latino-americanas, sobretudo se lembrarmos de Honduras sob a ditadura Micheletti.

Juanita também deveria se indignar com o bloqueio econômico que os Estados Unidos impõem à ilha caribenha desde os anos sessenta, sendo que tal sanção nunca fora aplicada a países que flagrantemente desrespeitaram direitos humanos de forma bárbara, tais como o Camboja e a Romênia. Também deveria comover-se com os resquícios da famigerada Emenda Platt que, até hoje, garantem aos Estados Unidos uma base militar em pleno território cubano, onde, inclusive, se torturam prisioneiros.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

VEJAM O QUE FIZERAM


Por Eduardo Guimarães


Este texto, dirijo àqueles que, à diferença de pessoas como eu, semearam o que agora toda esta sociedade colhe, mas que, hipócritas, tentam fazer crer que o que acontece hoje da Rocinha a Heliópolis, da Barra da Tijuca aos Jardins, começou agora.

Eu vos acuso de não terem sensibilidade social, de quererem se locupletar à custa da miséria de legiões de brasileiros que mal e porcamente sobrevivem nos guetos onde vós os segregastes, à custa dos que não têm escolas para que seus filhos tenham uma chance na vida, porque, quando governantes fazem boas escolas para o povo, dizeis que são “caras”.

Eu vos acuso de exigirem dos governantes que, em vez de a prisões que recuperem essa meninada perdida, mandem os infratores, ainda imberbes, para masmorras onde se tornarão profissionais do crime, feras enlouquecidas, e vos acuso de só prenderem os pobres, sobretudo os pobres e os pretos e, mais ainda, os pobres, pretos e nordestinos.

Eu vos acuso de sustentarem o tráfico de drogas deixando, por omissão, que vossos filhos e filhas, mimados e sem valores, passem pelas bordas das favelas e comprem o veneno que os levará até a agredir trabalhadoras pobres, a queimarem mendigos vivos, a desembestarem pelas ruas com as máquinas infernais que lhes foram doadas por seus papais e mamães tão amorosos.

Eu vos acuso de combaterem com unhas e dentes cada mínima tentativa de direcionar uma fração irrisória de vossas fortunas para o sustento (físico e espiritual) dos miseráveis, e de fazerem isso em um dos dez países de maior concentração de renda do mundo.

Eu vos acuso de pregarem o ódio racial chamando os nordestinos de “baianos” em São Paulo e de “paraíbas” no Rio, mesmo esse indivíduo não sendo da Bahia ou da Paraíba, contanto que tenha traços de negro mais acentuados. Eu vos acuso, pois, de racismo.

E eu vos acuso de negarem o racismo ao escreverem livros dizendo que vós não sois racistas, pois, como sabeis, são raros os negros e mestiços que admitem em vossos palácios e festas.

E vos acuso, por fim, de quererem calar os que vos acusam ao monopolizarem a comunicação de massas, e de terem conseguido fazê-lo completamente por toda a história até que surgisse a internet e não pudessem mais impor censura total.

Por todas essas acusações é que vos digo: vejam só o que fizeram com o Rio, com São Paulo, com Porto Alegre, com Recife, com o país todo ao negarem aos mais pobres a mais tênue esperança de vencer na vida apesar de condição social, cor da pele e região do país.

Agora, colheis o que plantastes. Não reclamai, portanto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

SEM MEDO DE OLHAR PARA TRÁS


O País da ditabranda parece mesmo querer manter-se na posição de mais omisso com os crimes praticados pelo regime militar, que vigorou no Brasil de 1964 a 1985. Se em 14 de outubro o Paraguai havia anunciado a abertura dos arquivos da ditadura, agora é o Uruguai que deixa o Brasil ainda mais exposto ao ridículo ao condenar na sexta-feira 23 o ditador Gregório “Goyo” Alvarez a 25 anos de prisão.

O general Alvarez, presidente do Uruguai entre 1981 e 1985 e integrante do alto escalão da ditadura uruguaia desde sua instauração em 1973, foi condenado como coautor em 37 homicídios “muito especialmente agravados” que ocorreram em 1978 contra militantes de esquerda. A condenação de Alvarez, à época comandante do exército uruguaio, foi confirmada sem a presença do militar no julgamento, que ausentou-se por alegar problemas de saúde.

Coincidentemente, a decisão do juiz Luis Charles aconteceu apenas três dias antes de um plebiscito que vai decidir sobre a continuação ou não da Lei de Caducidade –análoga à Lei da Anistia que ainda vigora no Brasil – que perdoou policiais e militares acusados de violar os direitos humanos durante a ditadura militar.

Ao menos nossos vizinhos banhados pelo Rio da Prata têm a possibilidade não só de ver condenados os responsáveis por assassinatos e torturas como também manifestar sua opinião sobre leis que protegem os executores da barbárie.

Fonte: revista Carta Capital

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

GLOBALIZAÇÃO E MIGRAÇÃO


Por Frei Betto

Ao que chamam globalização, prefiro denominar globocolonização, e resulta de avanços tecnológicos de interação dos meios de comunicação e informação, que permitem o deslocamento, em tempo real, do capital financeiro, com o objetivo de desestabilizar (e descapitalizar) governos que resistem à hegemonia capitalista neoliberal.

No biênio 1950-60, como reação à crise estrutural do capitalismo instaurada no pós-guerra, a globocolonização se impôs em função da reestruturação econômica da hegemonia capitalista. Teve como característica a substituição do modo de produção tecnológico mecanizado pela tecnologia informatizada.

Tal processo, facilitado pelo período conservador Reagan-Thatcher dos anos 80, e o fim da socialismno na Europa do Leste, permitiram a ampla expansão do capital financeiro. O processo globocolonizador legitimou a desconstrução do Estado-Nação, a hegemonização do planeta sob o controle das nações metropolitanas e a supremacia do mercado sobre o Estado.

A economia passou ser tratada como esfera distinta das esferas política e social. O governo Lula ratificou essa autonomia da esfera econômica ao entregar o Banco Central em mãos de um economista filiado ao PSDB, Henrique Meirelles. Criou-se uma interconexão entre as economias nacionais dos países do G8 e daqueles que, como o Brasil, são considerados em vias de desenvolvimento. A recente crise financeira nos EUA e seus reflexos internacionais o comprovam.

Embora a globocolonização favoreça a livre circulação do capital, ela restringe a livre circulação de pessoas. Impede-se a globalização da migração. Nos séculos passados, a migração representou um fator positivo que expandiu o comércio e a economia, permitiu a criação de nações, fortaleceu a urbanização, estimulou intercâmbios sociais e culturais. O sistema capitalista suportou a migração Norte-Sul, sobretudo nos períodos de desemprego pós-guerras (7 milhões de europeus chegaram à Argentina na virada dos séculos XIX e XX) mas, hoje, rechaça a migração Sul-Norte e teme a Leste-Oeste.

Por força do semicolonialismo, o processo migratório tende a crescer. Segundo a ONU, em 1965 os migrantes internacionais eram 75 milhões; 84 milhões em 1975; 105 milhões em 1985; e, em 2000, 150 milhões.

Os avanços tecnológicos das últimas décadas permitiram aos trabalhadores dos países ricos atividades menos exaustivas; houve melhora nas condições de trabalho; conquista de mais diretos trabalhistas. A classe trabalhadora dos países pobres, entretanto, que extrai e manufatura matéria-prima para os países ricos, se tornou muito mais explorada. O que provocou aumento da migração.

Se hoje existem mais de 4 milhões de brasileiros em busca de trabalho no exterior é por falta de esperança no mercado interno. E não há muro, lei ou polícia que reduza o fluxo migratório enquanto não se romper a dependência do mundo em relação ao G8. Este que se prepare para quando a muralha da China for transposta por hordas de migrantes…

terça-feira, 20 de outubro de 2009

CHÁVEZ VERSUS MÍDIA

Por Cléber Sérgio de Seixas

É difícil, para não dizer impossível, não se deparar, durante a programação diária da televisão gratuita, alguma menção negativa aos governos progressistas da América Latina. Nesse rol incluo Lula, Hugo Chávez, Evo Morales e os irmãos Raúl e Fidel Castro.

É mais que notório o lado que nossa grande mídia escolheu, apesar de arvorar-se como praticante de um jornalismo isento e imparcial. É consensual, no entanto, que a imprensa tupiniquim sempre posicionou-se de forma conservadora, pondo-se do lado de governantes cujas gestões sempre foram pautadas por satisfazer os interesses das classes privilegiadas.

A grande virada à esquerda da América Latina acirrou a tendência da mídia à direita. Um exemplo clássico e bem atual é o recente golpe em Honduras. Nossa imprensa teima em se referir a Roberto Micheletti como "interino" ou "de fato" quando a palavra correta é golpista. Paralelamente, vemos presidentes eleitos democraticamente como Hugo Chávez e Evo Morales, sendo acusados de demagógicos, populistas ou totalitários. No caso dos dois supracitados, por exemplo, é persistente a acusação de se perpetuarem no poder por intermédio de dispositivos como plebiscitos e referendos, mecanismos estes previstos na constituição desses países, tal como na brasileira. Ora, se a democracia prevê que tais mecanismos possam ser utilizados, por que não valer-se deles? É razoável taxar de totalitário o regime chavista e de "interino" o governo de um golpista como Micheletti? Se numa democracia o povo não pode ser consultado, como falar em "poder popular", tradução do vocábulo grego?

Enquanto se processa essa inversão de valores, o presidente colombiano Álvaro Uribe emplacou um projeto de referendo, já aprovado pelo congresso, que lhe possibilitaria concorrer a um terceiro mandato presidencial; tudo sob um silêncio ensurdecedor da grande imprensa latino-americana.

A bola da vez tem sido Hugo Chávez. Assistindo hoje ao Jornal da Band, me deparei com o primeiro episódio de uma série de reportagens intitulada "A Venezuela sob Chávez". Como era de se esperar, apenas uma das partes foi ouvida, qual seja, a burguesia de Caracas - cidade que foi classificada como a segunda mais violenta do mundo. O povão da capital, os moradores dos morros, enfim, aqueles que ameaçam a segurança da burguesia, não tiveram voz nem vez na reportagem de Sandro Barboza. Após assistir, não me contive e redigi este artigo.

Confiram o vídeo abaixo, vejam como é tendenciosa a matéria e prestem atenção ao final, quando um outdoor com a imagem de Che Guevara é exibida, alem das caras e bocas da jornalista. Amanhã gravarei a segunda parte e farei a análise da mesma aqui no blog.


domingo, 18 de outubro de 2009

PROJETO FICHA LIMPA DIRETO NO PLENÁRIO

Por Alessandra Mello

O projeto de lei de iniciativa popular que impede a candidatura de condenados em primeira instância pela Justiça, batizado de Ficha Limpa, vai tramitar apensado a uma proposta (PLC 168/1993) apresentada pelo então presidente da República, Itamar Franco (PPS), que já teve parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Com isso, o projeto Ficha Limpa, PLP 518/2009, teve seu prazo de tramitação encurtado na Câmara dos Deputados e pode tramitar com mais agilidade.

Para evitar questionamentos sobre a obtenção de 1,3 milhão de assinaturas necessárias para a tramitação da proposta, o PLP 518 também foi assinado por 32 parlamentares. Falta agora a indicação pelo presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), do nome do parlamentar que vai relatar a proposta para que ela seja apreciada em primeiro turno pelo plenário. A intenção do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) é de que o projeto seja aprovado o mais rápido possível para que possa valer nas eleições do ano que vem.

Para agilizar todo esse processo, o MCCE protocolou quinta-feira um ofício pedindo celeridade na tramitação do projeto Ficha Limpa. No documento, o movimento pede que seja dado andamento ao PLC 168/1993, ao qual o PLP 518/2009 foi apensado. Com essa tramitação conjunta, o projeto Ficha Limpa não precisará mais passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, cabendo ao presidente Michel Temer nomear o relator para que o plenário possa deliberar sobre o tema.

“Parecia que tudo ia muito bem com o apensamento, mas a demora da nomeação do relator nos preocupou”, afirmou o juiz maranhense Marlon Reis, um dos dirigentes do MCCE, que organizou junto a outras entidades a campanha para a arrecadação das assinaturas necessárias para a tramitação em forma de proposta de iniciativa popular do projeto Ficha Limpa. O projeto do ex-presidente Itamar dispensa o trânsito em julgado da sentença para diversos casos, entre eles para os interessados em disputar cargos eletivos. “O projeto do ex-presidente é muito bom e se parece com o nosso, mas andou bem devagar na Câmara”, comenta.

Preocupação O projeto de lei de iniciativa popular foi apresentado oficialmente em 29 de setembro, data em que as 43 entidades da sociedade civil que compõem o MCCE entregaram a Temer as assinaturas de eleitores e eleitoras brasileiros, mas ainda não recebeu nenhuma movimentação. “Isso preocupa o comitê nacional do MCCE”, revela Marlon Reis, que preside a Associação Brasileira dos Magistrados, Procuradores e Promotores Eleitorais (Abramppe).

Com o advogado e ex-procurador da República Aristides Junqueira, eles vão representar a sociedade quando o projeto for submetido a discussão parlamentar, conforme determina o regimento interno da Câmara dos Deputados. O movimento vai continuar recolhendo assinaturas até a data de votação da proposta.

A Pressão continua

Para pressionar os deputados a acelerar a votação, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral criou um link em seu site orientando os eleitores sobre como proceder para mandar mensagens para os parlamentares. Tem até uma modelo de texto já pronto para ser encaminhado por e-mail. O movimento também vai continuar recolhendo assinaturas para até a data de votação da proposta. O link do movimento é www.mcce.org.br.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 18 de outubro de 2009

Assista abaixo ao vídeo da campanha


Operação Manumissão: seis crimes foram identificados e dez pessoas foram indiciadas


Reportagem publicada na Folha de Guanhães em 16/10/2009

Após investigar, durante três meses, todo o material apreendido no Sindicato dos Trabalhadores Rurais nos municípios de Sabinopólis e Serro, a polícia chegou ao relatório final. O mandado de busca e apreensão dos documentos, computadores e até um cofre foi cumprido no dia 23 de junho.

Intitulada Manumissão, palavra que faz alusão a um tipo de alforria ou liberdade conquistada, a operação teve como objetivo desmantelar uma quadrilha que estaria utilizando do sindicato para enriquecimento ilícito a partir da apropriação indébita de parcelas de benefício previdenciário de trabalhadores rurais.

O diretor presidente do sindicato, Afonso da Aparecida dos Santos que há 20 anos está à frente da entidade, familiares e funcionários foram investigados. De acordo com o delegado, que comanda as investigações, Welbert de Souza Santos, o inquérito foi enviado à justiça no dia 21 de setembro. De acordo com a investigação, seis crimes foram identificados e dez pessoas foram indiciadas.

Entre os indiciados está toda a família do presidente do sindicato que trabalham na instituição, advogados e funcionários.

O sindicato atende ainda aos municípios de Materlãndia e Alvorada de Lima. Segundo Welbert de Souza, em cada um dos escritórios do sindicato, Afonso da Aparecida mantinha um funcionário de confiança que contribuía nas ações indevidas.

"O Sindicato conta com aproximadamente cinco mil associados. Pode-se considerar que todos sejam vítimas, mas agora procuram saber exatamente suas obrigações como contribuintes", comentou o delegado.

Foram seis crimes identificados: formação de quadrilha, peculato, estelionato, falsidade ideológica, extorsão e apropriação indébita. Mas para o delegado, o que facilitou a operação policial foi o amadorismo dos próprios suspeitos. "Eles deixaram provas muito claras do que estavam fazendo. Havia notas de compras de produtos que não eram utilizados no sindicato, mas sim de uso pessoal. Ainda notas em nome do sindicato para manutenção de veículos particulares. Entre contratos que davam ao sindicato e advogados, contribuições indevidas", explicou.

Através de uma ação da Vara do Trabalho, o sindicato deve passar por uma nova eleição, para que todos os indiciados não trabalhem mais na instituição. E ainda que as vítimas sejam indenizadas.

A investigação da Polícia Civil apurou os trabalhadores rurais eram induzidos a acreditarem que só conseguiriam o benefício do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) caso fossem sindicalizados e que, mesmo após conseguirem o benefício, era necessário a permanência da filiação para manter a aposentadoria.

Ainda de acordo com o delegado, os trabalhadores pagavam a contribuição diretamente no sindicato e o dinheiro não era repassado para a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg). "A própria Fetaemg era vítima da quadrilha", afirmou Welbert de Souza.

sábado, 17 de outubro de 2009

FIM DA HISTÓRIA - A QUEM INTERESSA?

Por Cléber Sérgio de Seixas

Tentar perenizar uma situação vigente foi, e sempre será, a atitude das nações hegemônicas para manter seu domínio econômico e cultural frente àquelas que lhe são adjacentes. Impérios vêm e vão nas bifurcações da história. O romano sucumbiu aos “bárbaros” após séculos de hegemonia, e hoje as ruínas da Cidade Eterna não fazem mais que evocar um passado glorioso. No século XVI a Igreja Católica perdeu espaço para os protestantes, mais afinados com os novos tempos. O nazismo presumia que seu III Reich duraria mil anos, e não passou de 12. Da mesma forma, os arautos do “fim da história” apregoam que o neoliberalismo e o american way of life perdurarão por séculos, presumindo que algum tipo de ideologia ou modus vivendi seja eterno.

Se podemos interpretar a história sob princípios hegelianos, enxergaremos uma constante luta entre tese e antítese, numa frenética busca por acomodação (síntese). Assim sendo, é inocente acreditar que daqui a 100 anos teremos shopping centers, ou padrões de consumo nos mesmos moldes que temos hoje. A própria natureza já está tratando de expor as fragilidades de um sistema econômico que, para garantir o consumismo e felicidade de uns poucos, destrói o meio ambiente e garante miséria e privação a uma esmagadora maioria.
Parafraseando Marx, digo que os elementos promotores da destruição de um sistema político-econômico são intrínsecos ao próprio sistema, ou seja, cada sistema carrega em seu bojo os germes de sua própria dissolução. Talvez uma das maiores contradições do sistema capitalista resida no fato de - não obstante a possibilidade de obtenção da riqueza estar aberta a todos - não haver lugares na roda da fortuna para todos, já que precisaríamos de mais de um planeta para garantir o abastecimento, caso cada terráqueo tivesse o mesmo padrão de consumo de um cidadão estadunidense. Se cada chinês fosse possuidor de um carro e resolvesse colocá-lo na rua, é provável que já não tivéssemos mais a camada de ozônio. Em outras palavras, para garantir que a raça humana subsista sob o sistema econômico atual, muitos deverão continuar consumindo pouco ou quase nada para que poucos prossigam consumindo muito, ou seja, o sistema é intrinsecamente excludente, pois pressupõe que nem todos devem ter níveis consideráveis de consumo.

O “fim da história” na concepção de Francis Fukuyama carrega em seu bojo a ideologia das grandes corporações norte-americanas, das quais o supracitado é guru. Pode-se falar em “fim da historia” enquanto existirem as variáveis mundo, tempo e homens? Pode-se falar em neoliberalismo, ou mesmo em capitalismo, como a mais alta expressão de desenvolvimento econômico e social, enquanto milhões padecem sob o manto negro do subdesenvolvimento e seus nefastos desdobramentos? A quem interessa o tão propalado "fim da história"? A quem interessa dizer que esse sistema econômico é o ápice do desenvolvimento econômico?

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

BRASIL BIPOLAR

Por Luiz Carlos Azenha

José Serra é o candidato da "competência". O projeto marqueteiro dele pretende fatiar o público feito salame e oferecer a cada grupo de eleitores algumas razões para não votar em Dilma e votar em Serra.

Há o voto ideológico. Nesse caso a questão é razoavelmente simples. Dilma é a terrorista, a mentirosa que não é capaz de assumir nem mesmo um encontro com uma subordinada.

Mas, obviamente, isso não basta. É onde entra José Serra, o gerente competente. O tocador de obras (herdando o voto dos malufistas). O político de pulso firme (reprime os grevistas na USP). O governador que em nome de uma boa causa não se exime de responsabilidade e nem tem medo de desagradar alguns (os fumantes).

E, importante também, é dizer o que Serra "não é". Não é incompetente para lidar com a saúde (gripe suína), não é incompetente para lidar com a Educação (ENEM), não é incompetente para lidar com a segurança (novas normas nas delegacias vão reduzir os boletins de ocorrência e, portanto, a criminalidade).

Nisso tudo José Serra conta com o apoio aberto ou velado de grande parte da mídia corporativa brasileira, que ora suprime informações desfavoráveis ao tucano, ora bomba a incompetência do governo Lula e ora simplesmente inventa fatos, boatos e versões.

O grande problema de Serra, nesse momento, não é nada desprezível: a economia.

O IPEA prevê crescimento de 1,2% em 2009, bem acima do que se imaginava anteriormente. O tráfego doméstico de passageiros aéreos teve aumento de quase 30% em setembro em relação ao mês anterior. O dólar em queda garante as viagens da classe média. Cálculos conservadores falam em crescimento de 5% em 2010. As notícias favoráveis ao Brasil na mídia internacional acabam repercutidas aqui dentro.

Ou seja, é provável que a gente vá viver cada vez mais em um país bipolar. Acordaremos atolados na lama da incompetência e da corrupção, à espera de um engenheiro racional e preparado para nos salvar da terrorista. E dormiremos considerando se não é o caso de dar, ainda que indiretamente, um terceiro mandato ao presidente Lula.

PS: A versão marqueteira de Serra dirá que ele sonhava com o Bolsa Família desde os tempos da Mooca.

Clique aqui para visitar o site do Azenha

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

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BRASIL, PAÍS DE VELHOS

Por Frei Betto

O Brasil está cada vez mais velho. Daqui a 20 anos a pirâmide da faixa etária brasileira vai virar de cabeça para baixo. O número de idosos com mais de 80 anos crescerá 6% ao ano (hoje, aumenta 4% ao ano), enquanto haverá queda de fecundidade e a população total começará a diminuir. Em 2010 começará a decrescer a faixa entre 15 e 29 anos. São dados da pesquisa de JustificarAna Amélia Camarano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Na década de 1980, acreditava-se que a população brasileira chegaria aos 200 milhões em 2000. Não chegou. Hoje, somos 190 milhões. Devido à queda de fecundidade – hoje, de 1,8 filho por mulher – só atingiremos aquele patamar em 2020. Em 2030 o Brasil terá 206,8 milhões de habitantes. Dez anos depois cairá para 204,7 milhões.

Tais mudanças terão impacto na previdência social, que hoje dá cobertura a 60% da força de trabalho do país, sem no entanto alcançar os 33,2% de trabalhadores informais.

Haverá também efeitos no mercado de trabalho. Para evitar um número excessivo de inativos, o país terá de investir em saúde ocupacional e derrubar os preconceitos contra o trabalho de idosos. Em alguns países, idosos têm preferência em certas ocupações profissionais.

As grandes famílias, como a minha – oito irmãos –, ficam para os álbuns de retrato. Hoje, a média nacional, tanto entre ricos quanto entre pobres, é de 2,2 filhos por família.

No Brasil, o número de idosos (21 milhões) já supera o de crianças (19,4 milhões). O Rio de Janeiro é o estado com o maior índice de pessoas com mais de 60 anos (14,9%).

A fecundidade entre jovens de 15 a 19 anos, crescente até 2000, devido à erotização da cultura consumista e à sexualidade precoce, hoje está em queda. Porém, aumenta o número de meninas mães que moram com os pais ou avós.

A média nacional de durabilidade conjugal é de sete anos. O número de mulheres se dilata no mercado de trabalho e, hoje, elas já são responsáveis por 40% da renda familiar e chefiam 43% das famílias brasileiras. Contudo, se por um lado elas têm menos filhos, mais renda e mais escolaridade, por outro continuam a assumir, diferentemente dos homens, dupla jornada de trabalho. A pesquisa constata que a mulher que trabalha gasta 20,9 horas semanais com o cuidado da casa, enquanto os homens dedicam apenas 9,2 horas.

Ficar velho virou tabu. Uma das causas é a desistorização do tempo provocada pela ideologia neoliberal, de modo a nos incutir a noção grega de tempo cíclico, que neutraliza os projetos históricos e nos incute a ideia de perenização do presente; leia-se: fora do capitalismo a humanidade não tem futuro. Assim, todos queremos morrer jovens e esbeltos. É o elixir da eterna juventude em frascos de virtualidade... Haja malhação e cirurgias plásticas!

Na minha infância, criança era a idade entre zero e 11 anos; adolescente, entre 11 e 18; jovem, entre 18 e 30; adulto, entre 30 e 50; velho, com mais de 50. Hoje, tem-se a impressão de que criança é de zero a 20 anos – quando se depende excessivamente dos cuidados paternos; adolescente, dos 20 aos 40, pela insegurança nas opções de vida; jovem, dos 40 em diante, ainda que se tenha 70 ou 90...

Ninguém quer ser chamado de velho. Criam-se eufemismos: a terceira idade, a dign/idade, a melhor idade (mentira, sou velho e tive a melhor idade entre 20 e 30 anos). Ora, se é para adotar um eufemismo realista, sugiro aos idosos se considerarem a turma da eterna idade – já que estamos próximos a ela.

A contradição é que, enquanto aumentam os direitos sociais dos velhos com mais de 65 anos – transporte coletivo gratuito, filas exclusivas, aposentadoria etc. –, se reduzem os hábitos de respeito a eles. Raro ver um jovem ceder lugar no ônibus ou metrô ao idoso ou mesmo ajudá-lo numa dificuldade na rua. Há dias, vi uma gerente de loja negar a uma senhora com mais de 80 anos o acesso ao banheiro.

Nada mais ridículo do que os idosos que se recusam a aceitar os sinais de velhice e buscam todo tipo de tratamento estético para encobri-los. Esquecem que jovialidade não é uma questão de aparência, e sim de cabeça. Conheço velhos gagás com apenas 30 anos e pessoas joviais com 92, como é o caso de minha mãe, que lê dois jornais por dia, acompanha o noticiário televisivo e participa de movimentos de reflexão e solidariedade.

É preciso saber envelhecer com sabedoria. E os antigos, como Aristóteles, já nos prescreviam a receita: amizades, exercícios físicos, alimentação saudável e cultivo da espiritualidade.

Envelhecemos irremediavelmente quando deixamos de sonhar de olhos abertos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

UMA NOVA IGUALDADE DEPOIS DA CRISE

Erick Hobsbawn

O "século breve", o XX, foi um período marcado por um conflito religioso entre ideologias laicas. Por razões mais históricas do que lógicas, ele foi dominado pela contraposição de dois modelos econômicos – e apenas dois modelos exclusivos entre si – o "Socialismo", identificado com economias de planejamento central de tipo soviético, e o "Capitalismo", que cobria todo o resto.

Essa contraposição aparentemente fundamental entre um sistema que ambiciona tirar do meio do caminho as empresas privadas interessadas nos lucros (o mercado, por exemplo) e um que pretendia libertar o mercado de toda restrição oficial ou de outro tipo nunca foi realista. Todas as economias modernas devem combinar público e privado de vários modos e em vários graus, e de fato fazem isso. Ambas as tentativas de viver à altura dessa lógica totalmente binária dessas definições de "capitalismo" e "socialismo" faliram. As economias de tipo soviético e as organizações e gestões estatais sobreviveram aos anos 80. O "fundamentalismo de mercado" anglo-americano quebrou em 2008, no momento do seu apogeu. O século XXI deverá reconsiderar, portanto, os seus próprios problemas em termos muito mais realistas.

Como tudo isso influi sobre países que no passado eram devotados ao modelo "socialista"? Sob o socialismo, haviam reencontrado a impossibilidade de reformar os seus sistemas administrativos de planejamento estatal, mesmo que os seus técnicos e os seus economistas estivessem plenamente conscientes das suas principais carências. Os sistemas – não competitivos em nível internacional – foram capazes de sobreviver até que pudessem continuar completamente isolados do resto da economia mundial.

Esse isolamento, porém, não pôde ser mantido no tempo, e, quando o socialismo foi abandonado – seja em seguida à queda dos regimes políticos como na Europa, seja pelo próprio regime, como na China ou no Vietnã – estes, sem nenhum pré-aviso, se encontraram imersos naquela que para muitos pareceu ser a única alternativa disponível: o capitalismo globalizado, na sua forma então predominante de capitalismo de livre mercado.

As consequências diretas na Europa foram catastróficas. Os países da ex-União Soviética ainda não superaram as suas repercussões. A China, para sua sorte, escolheu um modelo capitalista diferente do neoliberalismo anglo-americano, preferindo o modelo muito mais dirigista das "economias tigres" ou de assalto da Ásia oriental, mas abriu caminho para o seu "gigantesco salto econômico para frente" com muito pouca preocupação e consideração pelas implicações sociais e humanas.

Esse período está quase às nossas costas, assim como o predomínio global do liberalismo econômico extremo de matriz anglo-americana, mesmo que não saibamos ainda quais mudanças a crise econômica mundial em curso implicará – a mais grave desde os anos 30 –, quando os impressionantes acontecimentos dos últimos dois anos conseguirão se superar. Uma coisa, porém, é desde já muito clara: está em curso uma alternância de enormes proporções das velhas economias do Atlântico Norte ao Sul do planeta e principalmente à Ásia oriental.

Nessas circunstâncias, os ex-Estados soviéticos (incluindo aqueles ainda governados por partidos comunistas) estão tendo que enfrentar problemas e perspectivas muito diferentes. Excluindo de partida as divergências de alinhamento político, direi apenas que a maior parte deles continua relativamente frágil. Na Europa, alguns estão assimilando o modelo social-capitalista da Europa ocidental, mesmo que tenham um lucro médio per capita consideravelmente inferior. Na União Europeia, também é provável prever o aparecimento de uma dupla economia. A Rússia, recuperada em certa medida da catástrofe dos anos 90, está quase reduzida a um país exportador, poderoso mas vulnerável, de produtos primários e de energia e foi até agora incapaz de reconstruir uma base econômica mais bem balanceada.

As reações contra os excessos da era neoliberal levaram a um retorno, parcial, a formas de capitalismo estatal acompanhadas por uma espécie de regressão a alguns aspectos da herança soviética. Claramente, a simples "imitação do Ocidente" deixou de ser uma opção possível. Esse fenômeno ainda é mais evidente na China, que desenvolveu com considerável sucesso um capitalismo pós-comunista próprio, a tal ponto que, no futuro, pode também ocorrer que os historiadores possam ver nesse país o verdadeiro salvador da economia capitalista mundial na crise na qual nos encontramos atualmente. Em síntese, não é mais possível acreditar em uma única forma global de capitalismo ou de pós-capitalismo.

Em todo caso, delinear a economia do amanhã é talvez a parte menos relevante das nossas preocupações futuras. A diferença crucial entre os sistemas econômicos não reside na sua estrutura, mas sim na suas prioridades sociais e morais, e estas deveriam portanto ser o argumento principal do nosso debate. Permitam-me, por isso, a esse ilustrar dois de seus aspectos de fundamental importância a esse propósito.

O primeiro é que o fim do Comunismo comportou o desaparecimento repentino de valores, hábitos e práticas sociais que haviam marcado a vida de gerações inteiras, não apenas as dos regimes comunistas em estrito senso, mas também as do passado pré-comunista que, sob esses regimes, haviam em boa parte se protegido. Devemos reconhecer quanto foram profundos e graves o choque e a desgraça em termos humanos que foram verificados em consequência desse brusco e inesperado terremoto social. Inevitavelmente, serão necessárias diversas décadas antes de que as sociedades pós-comunistas encontrem uma estabilidade no seu "modus vivendi" na nova era, e algumas consequências dessa desagregação social, da corrupção e da criminalidade institucionalizadas poderiam exigir ainda muito mais tempo para serem combatidas.

O segundo aspecto é que tanto a política ocidental do neoliberalismo, quanto as políticas pós-comunistas que ela inspirou subordinaram propositalmente o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB, o Produto Interno Bruto: o maior crescimento econômico possível, deliberadamente inigualitário. Assim fazendo, eles minaram – e nos ex-países comunistas até destruíram – os sistemas da assistência social, do bem-estar, dos valores e das finalidades dos serviços públicos. Tudo isso não constitui uma premissa da qual partir, seja para o "capitalismo europeu de rosto humano" das décadas pós-1945, seja para satisfatórios sistemas mistos pós-comunistas.

O objetivo de uma economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Não importa como chamamos os regimes que buscam essa finalidade. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI.

Fonte: site Carta Maior

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

SALVEM A INFÂNCIA!



Por Cléber Sérgio de Seixas


A menina chega sonolenta à palestra sobre saúde e higiene. No intervalo confidencia à palestrante que o cansaço é decorrente de noites mal dormidas. A palestrante indaga sobre o motivo da insônia e a menina responde que tem sido molestada todas as noites pelo irmão de 17 anos. Este episódio seria apenas mais um caso de incesto se não tivesse sido cometido com o consentimento da própria mãe da criança, que permitia o abuso desde que o rapaz continuasse a manter financeiramente a família. A tragédia é maior pelo fato da menina ter apenas 11 anos de idade (*).
Salvem a infância antes que a matem! Querem transformar nossas crianças em adultos precoces, roubando-lhes o desfrute dos tenros anos, tirando-lhes o privilégio da fantasia e da inocência. Se o mercado precisa avidamente de consumidores, apela-se à erotização precoce para fazer com que os pequeninos consumam quase tanto ou como um adulto. Prestando atenção exagerada ao próprio corpo as crianças se tornarão alvo fácil do consumismo. Mas elas têm uma defesa contra isso: a fantasia. Uma criança é capaz de brincar sozinha e, no entanto, imaginar-se cercada de multidão; pode enxergar um aviãozinho em meros gravetos entrecruzados; pode fazer de uma simples boneca, uma criança que fala e chora. Sendo assim, que diferença faria a marca da calça ou do vestido? A fantasia e o sonho fazem parte da experiência infantil e devem ser estimuladas nesta fase, sobretudo pelo incentivo à leitura.
Como então anular os efeitos da fantasia infantil com vistas à formação de consumidores mirins? Um dos métodos é colocar as crianças diante da babá eletrônica. É hora de despedir o amiguinho imaginário pois vem aí a caixa mágica, que sonha pelas crianças e lhes oferece, com sua publicidade, a boneca Barbie e seu namoradinho Ken. Querem ser como aquela moçoila magérrima, rica, e como aquele garotão yuppie.
Pesquisas recentes informam que as crianças brasileiras passam de três a cinco horas por dia vendo TV, sendo que este tempo é tanto maior quanto mais baixo for o poder aquisitivo da família, visto que famílias mais pobres têm menos acesso a outros tipos de entretenimento. Como então a escola pode competir com a televisão na formação das crianças? É fato que aquela forma enquanto essa deforma. 
A televisão, fábrica de estereótipos inalcançáveis para a maioria dos pobres mortais, antecipa nas meninas as preocupações exageradas com a aparência física, contribuindo para que surjam as anoréxicas, bulímicas e deprimidas do amanhã. Nos meninos, dentre outras coisas, estimula a agressividade como resultado da exibição de desenhos animados de conteúdo violento. Além disso, o bordel é trazido para dentro de casa em pleno horário nobre da platéia pobre.
São apropriadas às crianças estas roupas que as tornam simulacros de adultos? Quão triste é ver meninas se vergando por trazer nos braços suas bonecas vivas e choronas! E que meninas e meninos são estes que já carregam sobre os ombros o peso da responsabilidade de cuidar da família, trocando o brincar pelo trabalhar? Quão triste é vê-los nas ruas das cidades grandes, vagantes e pedintes. Chegaram-lhes muito cedo as responsabilidades e ansiedades da vida. Muitas crianças saltam da infância à adolescência antes de passar pelas mudanças biológicas próprias da puberdade. Produz-se então um ser dúbio e anômalo, que é biologicamente infantil e psicologicamente adulto.
Dizia Casimiro de Abreu: ”Oh que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais!” Como os adultos do porvir lembrarão, saudosos, dos seus “oito anos” que não voltam mais, se hoje, como crianças adultas, desconhecem os prazeres da infância? Haverá salvação para a infância? Haverá dias melhores para nossos meninos e meninas? 
A resposta passa necessariamente por maior acesso à leitura, pela melhoria da qualidade da programação infantil na TV, pelo combate à pedofilia, à prostituição e trabalho infantis e por uma escola de qualidade e em tempo integral.
(*) O caso é verídico e a palestrante em questão era a minha esposa.

domingo, 11 de outubro de 2009

Globalização e homogeneização



Por Cléber Sérgio de Seixas*


Os primórdios da globalização podem ser encontrados nos grandes descobrimentos. Naquela ocasião, o homem deixou de lado as superstições e os temores do oceano maldito e se lançou numa grande aventura em busca de ouro, prata e riqueza fácil. O descobrimento da América é uma façanha considerada por muitos como sendo maior que a chegada do homem à lua. Ao chegarem aqui os descobridores encontraram cerca de 80 milhões de nativos. Um século depois, este número foi reduzido a 10 milhões, o que constitui um dos maiores genocídios da história. A globalização, portanto, deve ser vista não somente sob a ótica positivista. Há outras nuances que devem ser destacadas, a fim de que não sobressaia apenas o aspecto idílico desse processo que transformou culturas e hábitos, mas também dizimou tantas outras culturas e vidas.

A primeira globalização, também chamada de colonialismo, se caracterizou pela ocupação dos territórios, sobretudo nos continentes americano e africano. A segunda globalização começa no final do século XX e é caracterizada pela fragmentação dos territórios e pelo avanço da atuação das empresas transnacionais. Como conseqüência desse avanço ocorre o aumento do desemprego, da pobreza e da exclusão social.

O mundo está aí, mais integrado como nunca. A telefonia celular e a Internet tornaram possível a profecia de Marshal McLuhan de que o planeta se transformaria numa aldeia global. A revolução tecnológica transforma as novas conquistas em sonhos de um mundo melhor. Contudo, o que se vê em nossos dias é o desmonte dos Estados em nome da liberdade de comércio, liberdade que é, diga-se de passagem, sinônimo de condições que favoreçam o laissez-faire. Na esteira do fenômeno globalizatório, ocorre a difusão dos hábitos de certas culturas consideradas dominantes. Como conseqüência, tais hábitos e modismos são padronizados, o que promove uma homogeneização cultural.

EM TERRAS ESTRANGEIRAS


Por Dan M. Kraft - advogado especializado em comércio internacional

Estudo publicado recentemente mostra que diversas nações, com terra cultivável insuficiente, garantem a produção de alimentos e biocombustível pela compra de territórios estrangeiros. Como um dos grandes flagelos do futuro será a falta de água e de terra arável, diversos países ricos estão antecipando soluções para garantir a produção de combustível e sua segurança alimentar. Estudo da Organização da ONU para Alimento e Agricultura (FAO) e da ONG Grain revela que países como a África do Sul, China e países do Golfo Pérsico estão comprando vastas extensões de terra arável. Quem as vende são invariavelmente países do Terceiro Mundo, que em troca de um dinheiro imediato perderão controle sobre sua produção agrícola em médio prazo.

Dessa forma, 75% da terra arável do Laos, 33% das Filipinas, 25% da Mongólia, 21% de Madagascar e 15% do Congo já estão em mãos estrangeiras. Os países árabes do Golfo Pérsico são campeões em percentual de compra, tendo aumentado, com aquisições internacionais, 70% de suas terras aráveis, ou seja, já compraram 26 mil quilômetros quadrados. A África do Sul, mesmo com grande e fértil território, aumentou em 54% suas terras cultiváveis, tendo adquirido estarrecedores 80 mil quilômetros, sua grande maioria na República do Congo. A China vem comprando grandes extensões de terra na África também. A União Europeia e a Suécia fazem seu processo de compra de terras – em contraponto à antiga colonização – garantindo boas terras alheias para proteger seus interesses, geralmente de empresas sediadas em seus países.

As culturas em terras estrangeiras privatizadas são geralmente voltadas para geração de biocombustíveis, também sendo usadas para cultivo de grãos para fins alimentares. Tais aquisições podem suscitar um lembrete ao flagelo dos irlandeses mais de 200 anos atrás. Naquele tempo, a Inglaterra era a metrópole, tendo determinado que o cultivo em terras irlandesas seria 100% direcionado ao consumo inglês e à exportação. O resultado dessa política colonial foi a morte pela fome, imortalizada nos monumentos na Irlanda e nos Estados Unidos, em especial nas ruas de Boston, pois navios com levas de irlandeses famintos foram recepcionados por seus irmãos norte-americanos, o que acabou por fomentar o movimento de revolta ante a coroa inglesa. O resultado foi a Guerra da Independência norte-americana.

Em um momento no mundo em que os conceitos de soberania, mobilidade de pessoas e leis ambientais se colidem, o estudo divulgado gera preocupações sobre o que ocorrerá com as novas gerações desses países cujos recursos naturais de sobrevivência – terra arável – estão sendo vendidos. Como são países pobres, uma nova forma de domínio, não mais chamado de colonialismo, está surgindo, sendo perpetrado por economias emergentes. Ao final da história, a exploração da natureza e do homem pelo homem tem o mesmo padrão, mudando-se apenas o nome e o método. No Brasil, largas extensões de terras têm sido comercializadas, passando seu controle a mãos estrangeiras. Manter uma boa noção de soberania no que concerne a segurança alimentar é importante, ainda mais em vista do encantamento que o biocombustível traz.


Fonte: Jornal Estado de Minas - 11 de outubro de 2009

sábado, 10 de outubro de 2009

O RIO DEVE ESSA A LULA


Por Leandro Fortes

Lula poderia ter agido, como muitos de seus pares na política agiriam, com rancor e desprezo pelo Rio de Janeiro, seus políticos, sua mídia, todos alegremente colocados como caixa de ressonância dos piores e mais mesquinhos interesses oriundos de um claro ódio de classe, embora mal disfarçados de oposição política. Lula poderia ter destilado fel e ter feito corpo mole contra o Rio de Janeiro, em reação, demasiada humana, à vaia que recebeu – estranha vaia, puxada por uma tropa de canalhas, reverberada em efeito manada – na abertura dos Jogos Panamericanos, em 2007, talvez o maior e mais bem definido ato de incivilidade de uma cidade perdida em décadas de decadência.

Vaiou-se Lula, aplaudiu-se César Maia, o que basta como termo de entendimento sobre os rumos da política que se faz e se admira na antiga capital da República. Fosse um homem público qualquer, Lula faria o que mais desejavam seus adversários: deixaria o Rio à própria sorte, esmagado por uma classe política claudicante e tristemente medíocre, presa a um passado de cidade maravilhosa que só existe, nos dias de hoje, nas novelas da TV Globo ambientadas nas oníricas ruas do Leblon.

Lula poderia ter agido burocraticamente a favor do Rio, cumprido um papel formal de chefe de Estado, falado a favor da candidatura do Rio apenas porque não lhe caberia falar mal. Deixado a cidade ao gosto de seus notórios representantes da Zona Sul, esses seres apavorados que avançam sinais vermelhos para fugir da rotina de assaltos e sobressaltos sociais para, na segurança das grades de prédios e condomínios, maldizer a existência do Bolsa Família e do MST, antros simbólicos de pretos e pobres culpados, em primeira e última análise, do estado de coisas que tanto os aflige. Lula poderia ter feito do rancor um ato político, e não seria novidade, para dar uma lição a uma cidade que o expôs e ao país a um vexame internacional pensado e executado com extrema crueldade por seus piores e mais despreparados opositores.

Mas Lula não fez nada disso.

No discurso anterior à escolha do Comitê Olímpico Internacional, já visivelmente emocionado, Lula fez o que se esperava de um estadista: fez do Rio o Brasil todo, o porto belo e seguro de todos os brasileiros, a alma da nacionalidade. Foi um ato de generosidade política inesquecível e uma lição de patriotismo real com o qual, finalmente, podemos nos perfilar sem a mácula do adesismo partidário ou do fervor imbecil das patriotadas. Lula, esse mesmo Lula que setores da imprensa brasileira insistem em classificar de títere do poder chavista em Honduras, outra vez passou por cima da guerrilha editorial e da inveja pura e simples de seus adversários. Falou, como em seus melhores momentos, direto aos corações, sem concessões de linguagem e estilo, franco e direto, como líder não só da nação, mas do continente, que hoje o saúda e, certamente, o aplaude de pé.

Em 2016, o cidadão Luiz Inácio da Silva terá 71 anos. Que os cariocas desse futuro tão próximo consigam ser generosos o bastante para também aplaudi-lo na abertura das Olimpíadas do Rio, da qual, só posso imaginar, ele será convidado especial.


Leandro Fortes é colunista da revista Carta Capital

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O LEGADO DE CHE GUEVARA


João Pedro Stédile
*

Decididamente, a contribuição de Che, por suas idéias e exemplo, não se resume a teses de estratégias militares ou de tomada de poder político. Nem devemos vê-lo como um super-homem que defendia todos os injustiçados e tampouco exorcizá-lo, reduzindo-o a um mito.

Analisando sua obra falada, escrita e vivida, podemos identificar em toda a trajetória um profundo humanismo. O ser humano era o centro de todas as suas preocupações. Isso pode-se ver no jovem Che, retratado de forma brilhante por Walter Salles no filme Diários de Motocicleta, até seus últimos dias nas montanhas da Bolívia, com o cuidado que tinha com seus companheiros de guerrilha

A indignação contra qualquer injustiça social, em qualquer parte do mundo, escreveu ele a uma parente distante, seria o que mais o motivava a lutar. O espírito de sacrifício, não medindo esforços em quaisquer circunstâncias, não se resumiu às ações militares, mas também e sobretudo no exemplo prático. Mesmo como ministro de Estado, dirigente da Revolução Cubana, fazia trabalho solidário na construção de moradias populares, no corte da cana, como um cidadão comum.

Che praticou como ninguém a máxima de ser o primeiro no trabalho e o último no lazer. Defendia com suas teses e prática o princípio de que os problemas do povo somente se resolveriam se todo o povo se envolvesse, com trabalho e dedicação. Ou seja, uma revolução social se caracterizava fundamentalmente pelo fato de o povo assumir seu próprio destino, participar de todas as decisões políticas da sociedade.

Sempre defendeu a integração completa dos dirigentes com a população. Evitando populismos demagógicos. E assim mesclava a força das massas organizadas com o papel dos dirigentes, dos militantes, praticando aquilo que Gramsci já havia discorrido como a função do intelectual orgânico coletivo.

Teve uma vida simples e despojada. Nunca se apegou a bens materiais. Denunciava o fetiche do consumismo, defendia com ardor a necessidade de elevar permanentemente o nível de conhecimento e de cultura de todo o povo. Por isso, Cuba foi o primeiro país a eliminar o analfabetismo e, na América Latina, a alcançar o maior índice de ensino superior.

O conhecimento e a cultura eram para ele os principais valores e bens a serem cultivados. Daí também, dentro do processo revolucionário cubano, era quem mais ajudava a organizar a formação de militantes e quadros. Uma formação não apenas baseada em cursinhos de teoria clássica, mas mesclando sempre a teoria com a necessária prática cotidiana.

Acreditar no Che, reverenciar o Che hoje é acima de tudo cultivar esses valores da prática revolucionária que ele nos deixou como legado. A burguesia queria matar o Che. Levou seu corpo, mas imortalizou seu exemplo. Che vive! Viva o Che!


* João Pedro Stédile é membro da Coordenação Nacional do MST, da Via Campesina e do Movimento Consulta Popular.

OBS: Che Guevara foi capturado no dia 8 de outubro de 1967, mas foi executado apenas no dia seguinte.

Fonte: Portal Vermelho

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

DIA DA CRIANÇA: CIDADÃ OU CONSUMISTA?



Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade



Por Frei Betto



Na segunda-feira, 12 de outubro, comemora-se o Dia da Criança. Momento de refletir o que temos feito com as nossas. Estamos formando futuros cidadãos ou consumistas?



Pesquisas indicam que as crianças brasileiras costumam passar quatro horas por dia na escola e o dobro de olho na TV. Impressiona o número de peças publicitárias destinadas a crianças ou que as utilizam como isca de consumo.



A pesquisadora Susan Linn, da Universidade de Harvard, constatou que o excesso de publicidade causa nas crianças distúrbios comportamentais e nutricionais. De obesidade precoce, pela ingestão de alimentos ricos em açúcares ou gorduras saturadas, como refrigerantes e frituras, à anorexia provocada pela obsessão da magreza digna de passarela.



Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade. São menos felizes, constatou a pesquisadora, as crianças influenciadas pelas ideias de que sexo independe de amor, a estética do corpo predomina sobre os sentimentos, a felicidade reside na posse de bens materiais.



Impregnada desses falsos valores, tão divulgados como absolutos, a criança exacerba suas expectativas. Ora, sabemos todos que o tombo é proporcional ao tamanho da queda. Se uma criança associa a sua felicidade a propostas consumistas, tanto maior será sua frustração e infelicidade, seja pela impossibilidade de saciar o desejo, seja pela incapacidade de cultivar sua autoestima a partir de valores enraizados em sua subjetividade. Torna-se, assim, uma criança rebelde, geniosa, impositiva, indisciplinada em casa e na escola.



A praga do consumismo é, hoje, também uma questão ambiental e política. Montanhas de plástico se acumulam nos oceanos e a incontinência do desejo dificulta cada vez mais uma sociedade sustentável, na qual os bens da Terra e os frutos do trabalho humano sejam partilhados entre todos.



Um dos fatores de deformação infantil é a desagregação do núcleo familiar. No Dia dos Pais um garoto suplicou ao pai, em bilhete, que desse a ele tanta atenção quanto dedica à TV... Um filho de pais separados pediu para morar com os avós depois de presenciar a discussão dos pais de que um e outro queriam se ver livres dele no fim de semana.



Causa-me horror o orgulho de pais que exibem seus filhos em concursos de beleza. Uma criança instigada a, precocemente, prestar demasiada atenção ao próprio corpo tende à esquizofrenia de ser biologicamente infantil e psicologicamente “adulta”. Encurta-se, assim, seu tempo de infância. A fantasia, própria da idade, é transferida à TV e ao apelo de consumo. Não surpreende, pois, que, na adolescência, o vazio do coração busque compensação na ingestão de drogas.



Com frequência pais me indagam o que fazer frente à indiferença religiosa dos filhos adolescentes. Respondo que a questão é colocada com 10 anos de atraso. Se os filhos fossem crianças, eu saberia o que dizer: orem com eles antes das refeições; leiam em família textos bíblicos; evitem fazer das datas litúrgicas meros períodos de miniférias, como a semana santa e o Natal, e celebrem com eles o significado religioso dessas efemérides; incutam neles a certeza de que são profundamente amados por Deus e que Deus vive neles.



Crianças são seres miméticos por natureza. A melhor maneira de interessar um bebê em música é colocá-lo ao lado de outro que já tenha familiaridade com um instrumento musical. Ora, o que esperar de uma criança que presencia os pais humilharem a faxineira, tratarem garçons com prepotência, xingarem motoristas no trânsito, jogarem lixo na rua, passarem a noite se deliciando com futilidades televisivas?



Criança precisa de afeto, de sentir-se valorizada e acolhida, mas também de disciplina e, ao romper o código de conduta, de punição sem violência física ou oral. Só assim aprenderá a conhecer os próprios limites e respeitar os direitos do outro. Só assim evitará tornar-se um adulto invejoso, competitivo, rancoroso, pois saberá não confundir diferença com divergência e não fará da dessemelhança fator de preconceito e discriminação.



É preciso conversar com elas, por meio da linguagem adequada, sobre situações-limites da vida: dor, perda, ruptura afetiva, fracasso, morte. Incutir nelas o respeito aos mais pobres e a indignação frente à injustiça que causa pobreza; senso de responsabilidade social (há dias vi alunos de uma escola varrendo a rua), de preservação ambiental (como a economia de água), de protagonismo político (saber acatar decisão da maioria e inteirar-se do que significam os períodos eleitorais).



Se você adora passear com seu filho em shoppings, não estranhe se, no futuro, ele se tornar um adulto ressentido por não possuir tantos bens finitos. Se você, porém, incutir nele apreço aos bens infinitos – generosidade, solidariedade, espiritualidade –, ele se tornará uma pessoa feliz e, quando adulto, será seu companheiro de amizade, e não o eterno filho-problema a lhe causar tanta aflição.



Saber educar é saber amar.

domingo, 4 de outubro de 2009

NOVOS DESDOBRAMENTOS DA OPERAÇÃO MANUMISSÃO *

* Manumissão
[do lat.
manumissione]
Substantivo feminino.
1. Ato ou efeito de manumitir; alforria, libertação;

Fonte: Novo Dicionário Aurélio

Por Cléber Sérgio de Seixas

Ao contrário do que pensam aqueles que se aproveitam da ingenuidade e da pouca instrução dos trabalhadores rurais de Sabinópolis e adjacências, a Operação Manumissão continua de vento em popa e já produzindo seus frutos (para quem está lendo sobre este assunto pela primeira vez, convém ler o que já escrevi anteriormente aqui, aqui, aqui e aqui). Muitos podem ter julgado que a operação seria desarticulada em prol dos escusos interesses do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Sabinópolis, que é alvo das investigações. Ledo engano.


Segundo informações do delegado responsável pela operação, Sr Welbert de Souza Santos (foto acima), já foi proposta pelo Ministério Público do Trabalho uma ação civil pública que pede, a título de dano moral coletivo, uma indenização no valor de R$ 1.000.000, 00 (Hum milhão de reais). Além disso, a ação civil pública propõe que cada trabalhador rural que se sinta lesado pelo “sindicato” pode, futuramente, se habilitar no processo de cobrança contra aquela entidade ou contra seu presidente, postulando um valor indenizatório de até R$ 10.000,00 (Dez mil reais). Além disso, a ação do Ministério Público pede que sejam feitas novas eleições no “sindicato” e que a atual diretoria e seu conselho fiscal sejam destituídos.


No inquérito da Operação Manumissão, o delegado Welbert, indicia 10 membros do “sindicato” por crimes como formação de quadrilha, peculato, extorsão, estelionato, falsidade ideológica, apropriação indébita, entre outros.


É oportuno salientar que a ação civil proposta pelo Ministério Público do Trabalho tem como norte o inquérito policial construído pelo delegado Welbert e sua equipe. Baseando-se em farta documentação, o inquérito alcançou 830 laudas e o relatório final consumiu 75 laudas. Justiça seja feita, mesmo contando com parco cabedal de recursos de trabalho, quais sejam, poucos funcionários e infra-estrutura precária, o delegado Welbert e seus colaboradores levaram a cabo um trabalho digno de nota e que serve de referência a todos aqueles que pretendem seguir a difícil carreira de delegado de polícia civil. Assim sendo, parabenizo o delegado e auxiliares pelo excelente trabalho.


É importante que cada trabalhador rural que tenha sido prejudicado pelo sindicato - cuja denominação mais adequada é quadrilha - procure a justiça para fazer valer seus direitos. Da mesma forma, aqueles que puderem colaborar com novas informações a respeito das ações criminosas do “sindicato”, devem fazê-lo, contribuindo assim para que os membros desta organização criminosa sejam de uma vez por todas punidos.


Tão logo ocorram novos desdobramentos da Operação Manumissão, este blog os reportará.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

ORGANIZAÇÃO DE EXTREMA DIREITA UNOAMERICA RONDA O BRASIL

Por Adriano Andrade

No final de abril, ocorreu no Rio de Janeiro (RJ) a conferência “O Totalitarismo Bolivariano contra o Estado Democrático de Direito Latino-americano”. Organizada pela Academia Brasileira de Filosofia, pelo Instituto Millenium e pelo Farol da Democracia Representativa, recebia como principal visitante o venezuelano Alejandro Peña Esclusa. Ex-adversário de Hugo Chavez na disputa eleitoral de 1998 – a primeira a elegê-lo –, ele preside a entidade de extrema-direita União das Organizações Democráticas das Américas (UnoAmerica). Tratava-se do primeiro passo para a instalação do capítulo brasileiro do grupo, ainda sem sede no país, mas com enorme protagonismo de brasileiros.

A iniciativa de fundação da organização teria surgido no Brasil. Em 2006, Heitor de Paola, atualmente um dos delegados brasileiros da UnoAmerica, organizou em São Paulo (SP) o “Seminário sobre Democracia e o Império das Leis”. A partir de conversas informais entre ele e Esclusa, decidiu-se institucionalizar o combate ao que chamam de “eixo-do-mal latino-americano”, composto por todos os governos oriundos de lideranças que fizeram parte do Foro de São Paulo, nos anos 1990. Dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil) e Tabaré Vázquez (Uruguai), a Evo Morales (Bolívia) e Hugo Chavez (Venezuela), todos são considerados esquerdistas “aliados das Farc” a ser banidos do poder. Graça Salgueiro é a outra delegada. Junto a Paulo Uebel, diretor executivo do Instituto Millenium, e João Ricardo Moderno, presidente da Academia Brasileira de Filosofia, formam o principal time de defensores da organização.

A UnoAmerica nasceu em dezembro de 2008 na cidade colombiana de Santa Fé de Bogotá. O encontro que nela resultou era derivado de uma suposta “ameaça” vivida pela Ibero-América (como chamam a América Latina) com o advento de 14 “governos do Foro de São Paulo”. Segundo seu discurso, os “terroristas” teriam abandonado a luta armada para aproveitar-se dos mecanismos institucionais e implantar experiências comunistas na Ibero-América. Para eles, as principais lideranças seriam Lula e Fidel Castro (Cuba), sendo que Hugo Chavez não passaria “de bucha de canhão”. No evento de abril, o professor Moderno lançou o “Manifesto à Nação Brasileira contra o Totalitarismo Bolivariano”. No texto, descreve que o bolivarianismo “mantém estreitos vínculos carnais com o narcotráfico, o terrorismo e o fundamentalismo islâmico”.

Nas eleições venezuelanas de 1998, Peña Esclusa teria obtido parcos 0,04% dos votos. Seus compatriotas se perguntam agora como alguém pouco conhecido em suas terras circula com tanto prestígio pela Europa Ocidental e como apareceu em entrevista ao Washington Times, jornal ligado ao ex-presidente estadunidense Donald Rumsfeld. Seria porque defende abertamente golpes de Estado? Um influente político italiano admitiu que foi recomendado a Esclusa por integrantes do Vaticano. Provavelmente, trata-se do cardeal Renato Martino, presidente do Conselho de Justiça e Paz.

No Brasil, elogios a Peña Esclusa também apareceram em um dos blogues mais famosos. Ligado à revista Veja, o blogue de Reinaldo Azevedo é assumidamente um depositário de ideias de direita. Nele, o articulista escreveu: “A esquerda latino-americana, incluindo a brasileira, acusa Esclusa de golpismo, claro. Não soa familiar? Golpismo, como sabemos, é o outro nome que eles dão à pluralidade democrática”. Os simpatizantes da UnoAmerica não consideram golpe o que ocorreu em Honduras, com a deposição de Manuel Zelaya. Ao contrário, dizem que as perspectivas de reversão da “ameaça” vivida pela Ibero-América residem no país centro-americano.

Embora aparentemente não conte com fartos recursos, a UnoAmerica dá inúmeros sinais de representar enorme ameaça ao subcontinente. A Marcha Mundial contra Hugo Chavez, organizada neste mês por meio do site Facebook pela Um Milhão de Vozes, teria sido fortemente estimulada pela UnoAmerica. A Um Milhão de Vozes firmou, recentemente, parceria documentada com a UnoAmerica. Nos textos que escrevem, integrantes da organização deixam escapar sinais de que teriam apresentado seus projetos a setores das Forças Armadas. Na Bolívia, a UnoAmerica acusou Evo Morales de promover o massacre de Porvenir (Pando), onde 20 camponeses foram assassinados. Entregaram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denúncias contra o que chamam de crime de lesa-humanidade. A denúncia foi negada por organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o Alto Comissariado das Nações Unidas (ONU).

Fonte: Brasil de Fato