Globalização e homogeneização



Por Cléber Sérgio de Seixas*


Os primórdios da globalização podem ser encontrados nos grandes descobrimentos. Naquela ocasião, o homem deixou de lado as superstições e os temores do oceano maldito e se lançou numa grande aventura em busca de ouro, prata e riqueza fácil. O descobrimento da América é uma façanha considerada por muitos como sendo maior que a chegada do homem à lua. Ao chegarem aqui os descobridores encontraram cerca de 80 milhões de nativos. Um século depois, este número foi reduzido a 10 milhões, o que constitui um dos maiores genocídios da história. A globalização, portanto, deve ser vista não somente sob a ótica positivista. Há outras nuances que devem ser destacadas, a fim de que não sobressaia apenas o aspecto idílico desse processo que transformou culturas e hábitos, mas também dizimou tantas outras culturas e vidas.

A primeira globalização, também chamada de colonialismo, se caracterizou pela ocupação dos territórios, sobretudo nos continentes americano e africano. A segunda globalização começa no final do século XX e é caracterizada pela fragmentação dos territórios e pelo avanço da atuação das empresas transnacionais. Como conseqüência desse avanço ocorre o aumento do desemprego, da pobreza e da exclusão social.

O mundo está aí, mais integrado como nunca. A telefonia celular e a Internet tornaram possível a profecia de Marshal McLuhan de que o planeta se transformaria numa aldeia global. A revolução tecnológica transforma as novas conquistas em sonhos de um mundo melhor. Contudo, o que se vê em nossos dias é o desmonte dos Estados em nome da liberdade de comércio, liberdade que é, diga-se de passagem, sinônimo de condições que favoreçam o laissez-faire. Na esteira do fenômeno globalizatório, ocorre a difusão dos hábitos de certas culturas consideradas dominantes. Como conseqüência, tais hábitos e modismos são padronizados, o que promove uma homogeneização cultural.


Muito se fala em diversidade, mas o que vemos são indivíduos cada vez mais parecidos em se tratando de preferências e hábitos. Gostam das mesmas músicas, vão aos mesmos eventos, vestem as mesmas roupas, assistem aos mesmos filmes, compram os mesmos produtos nas mesmas lojas, enfim, adquirem um comportamento psicossocial ditado pelo marketing das grandes empresas.
McLuhan dizia que a aldeia global seria possível pela difusão dos aparelhos televisores. Contudo os dispositivos que realmente garante uma comunicação bidirecional são os celulares e a Internet, ficando a televisão com o velho modelo mono direcional. A globalização propicia a padronização de opiniões e a sincronização de emoções e afetos tal como afirmou o filósofo Paul Virilio. Assim, é possível compreender o porquê de nos entristecermos com a morte de João Paulo II, nos emocionarmos com a eleição de Barack Obama e nos chocarmos com os atentados do World Trade Center e, paralelamente, sermos emocionalmente refratários em relação às mazelas sociais da região onde vivemos.

Ao mesmo tempo em que entoa loas à diversidade, o fenômeno da globalização traz em seu bojo o individualismo e o isolacionismo. Enquanto declara que as fronteiras econômicas devem ser abertas ao capital transnacional, fecha suas fronteiras humanitárias. Algumas nações economicamente hegemônicas exigem a abertura dos mercados de outras nações a seu capital e a seus produtos, ao mesmo tempo em que fecham suas fronteiras físicas para evitar o afluxo de imigrantes que tentam adentrar seus territórios a procura de emprego e melhores condições de vida. Como exemplo, podemos citar os Estados Unidos que apregoam o livre mercado, mas fecham suas fronteiras aos vizinhos mexicanos. O mundo assistiu e aplaudiu a queda do muro de Berlim, mas silencia sobre o muro que os israelenses construíram para se separarem dos palestinos. Enquanto avançam as transações comerciais entre países, capitaneadas pelas grandes empresas transnacionais, aumenta a xenofobia e o preconceito contra outras culturas e povos.

Apesar de estarmos numa sociedade onde o consumo e os hábitos são massificados, assistimos também à massificação do individualismo. Mesmo tendo certos hábitos em comum, os indivíduos são cada vez mais individualistas (desculpem o pleonasmo). Podemos observar isso nas crianças. Antigamente as víamos facilmente dividindo seus brinquedos. Agora as vemos esbravejando e dizendo que “é meu, só meu!”.

A globalização revela-se um processo brutal e exclusivo. A fábula de que os Estados nacionais estão diminuindo de importância é vendida pelas nações hegemônicas às nações mais pobres como se fosse algo factível. Se o Estado devesse realmente diminuir de tamanho e ceder lugar à iniciativa privada, nos Estados Unidos da América, por exemplo, os gastos do governo americano com armamentos não estariam sendo feitos e não seriam cada vez maiores, da mesma forma que não haveria uma disposição crescente dos agentes do governo dos EUA em proteger os interesses das empresas transnacionais norte-americanas. Tampouco seria aplicado dinheiro do contribuinte norte-americano no salvamento de empresas que foram afetadas pela recente crise econômica mundial.

Outra globalização deve ser buscada, não essa baseada na divisão internacional do trabalho, na qual a dinâmica das grandes corporações garante a distribuição de mais pobreza para os pobres e concentração de mais riquezas nas mãos dos ricos. Não é possível afirmar que o processo globalizatório seja algo bom para a maioria das nações, se a renda dos 500 indivíduos mais ricos do mundo é superior à dos 416 milhões mais pobres. No documentário The Corporation é dado o exemplo de um paletó que é vendido nos EUA por 178 dólares, enquanto o filipino que o fabricou recebe apenas alguns centavos de dólar pelo trabalho. Tal política das grandes empresas multinacionais redunda em desemprego nas nações de que são oriundas e distribui migalhas mundo afora, baseando sua produção, muitas vezes, em trabalho semi-escravo. Todo esse processo pode ser considerado uma privatização dos lucros e uma socialização dos sonhos e da miséria: uma espécie de socialismo às avessas.

Portanto, é necessário que se busque uma globalização que seja justa para todos e garanta liberdade, diversidade, pluralidade não só para as nações ricas, mas também para todo o mundo dito subdesenvolvido.

* Este artigo se baseia no documentário "Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá" do cineasta Silvio Tendler.

Comentários

Trivial disse…
Creio que o senhores esqueceram de mencionar Milton Santos no documentário o mundo global visto do lado de cá,postado no youtube,é exatamente o que os senhores publicaram no blog,parabéns!
sam breno disse…
Artigo de extrema importância para uma mentalidade crítica. Valeu.