quinta-feira, 17 de abril de 2014

Ética na política

Por Jeferson Malaguti Soares *

Nos últimos meses falou-se em ética na política mais do que em toda nossa história republicana.
Além dos notáveis guardiães dos princípios da honorabilidade, brotaram do recente e doloroso processo político vivenciado por nós ultimamente, figuras absolutamente estranhas aos conceitos a ele inerentes.
Vemos os contumazes fisiologistas e os eternos convivas da direita, alardeando conceitos moralizantes de postura política que, diga-se de passagem, nunca fizeram uso no exercício da vida pública.
A capacidade de adaptação camaleônica de alguns personagens da nossa historiografia política é suficiente para ruborizar os mais vetustos safardanas saídos da horda de Ali Babá.
A invulgar aptidão de alguns políticos para a sabujice perante o poder os leva a sepultarem hoje a conduta de ontem e aplaudirem agora o que apupavam num passado recente. Os áulicos dos governos tucanos de FHC são mestres nisso.
Impera a impostura, o favorecimento prospera e a ética, apesar de cantada em versos, mergulha a largas braçadas no mar de lama e desonra, por onde navegamos nestes tempos de mentiras e leviandade de nossa mídia golpista.
Assim, usam o termo “ética” sem cerimônia, desaforadamente. E por quê? Porque essa gente não conhece a etiologia do comportamento humano, que deveria ser, e não é, regido, exclusivamente, pelos ditames de uma consciência sadia e limpa. Não tiveram acesso à educação de berço na qual se prioriza e privilegia o respeito às individualidades, à defesa da honra e ao exercício do brio.
Tão cedo nos livraremos desses pustulentos parasitas do poder público. A prática da democracia precisa nos alimentar com doses cada dia maiores de sabedoria, para que aprendamos a escolher nossos representantes.
Que não sejamos, contudo, visionários a ponto de acreditarmos ser possível expungir do cenário político atitudes venais, devassas e veleidades, soberba ou empáfia dos demagogos e oportunistas de plantão.
No passado, a cada dia, novas denúncias de corrupção, nepotismo, favorecimentos, prevaricação, superfaturamentos, desvio de recursos ou de qualquer outra forma de mau uso dos recursos públicos, apareciam sem que nada ou quase nada fosse feito a respeito. Inclusive, cada novo escândalo favorecia o esquecimento do anterior. Naquela época a Polícia Federal, além de mal equipada, era proibida de investigar os amigos do poder, leia-se de FHC e seus áulicos. Hoje, a corrupção não fica embaixo do tapete e a PF tem autonomia para trabalhar. Por isto se tem a impressão de que a corrupção está aumentando. A mídia golpista e a oposição oportunista quer nos fazer crer nisso. Atuam no que têm de melhor, na mentira, na invenção, nos factoides.
Lamentavelmente, assistimos juristas da nossa maior corte agredirem a Carta Magna, agindo com pesos e medidas diferenciadas a quem lhes são ou não palatáveis. Falta-lhes ética. Falta-lhes pudor. Falta-lhes postura digna de magistrados. Os casos das ações penais ditas “mensalão” do PT e do PSDB tiveram focos diferenciados a fim de favorecer os tucanos e prejudicar os petistas. Juízes venais. Magistrados dissolutos.
Por último, mas não por fim, estamos vendo a nota do governo de Minas na mídia corrompida das gerais sobre o aumento nas tarifas da Cemig. Nota mentirosa. Nota velhaca. Nota promíscua e imoral. Os tucanos de Minas realmente perderam o pundonor, a decência. O marombeiro senador Aécio Neves e seus lacaios, definitivamente entraram, descaradamente, na imoralidade política. Um bom exemplo da falta de ética na política.
Ética na política seria melhor respeitada se desenvolvêssemos uma política da ética.


* Jeferson Malaguti Soares é administrador, consultor de empresas e colaborador deste blog.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

A sociedade em defesa da criança


Por Renato Godoy *

A resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), publicada no Diário Oficial no dia 4 de abril considera como abusiva toda a comunicação mercadológica voltada à criança.

O texto diz que “a prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço” é abusiva e, portanto, ilegal, segundo o Código de Defesa do Consumidor.

A aprovação do texto é uma vitória da sociedade civil e um avanço significativo para a proteção integral da infância. O direcionamento de publicidade à infância reforça a noção da criança como consumidora e promotora de vendas. Segundo pesquisa do Interscience (2003), as crianças participam do processo decisório de 80% das compras da casa.

No entanto, a ideia da criança como consumidora e promotora de vendas tende a confrontar importante conquista da sociedade brasileira: a noção da criança como um sujeito de direitos, previstos na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente. O direcionamento de comunicação mercadológica à criança é uma forma de tirar proveito de um indivíduo em desenvolvimento físico, social e psíquico que, portanto, ainda não atingiu a plenitude de seu senso crítico para compreender o caráter persuasivo da mensagem publicitária.

O mercado publicitário, editorial e radiodifusor ignorou a resolução do órgão e continua incorrendo nesse direcionamento ilegal às crianças. Em uma nota assinada pelas nove maiores entidades do setor, deslegitimam a atuação do Conselho Nacional.


Cabe, agora, à sociedade fiscalizar. No site prioridadeabsoluta.org.br, do Instituto Alana, há modelos para denunciar a publicidade infantil.


* Renato Godoy é jornalista, sociólogo e pesquisador do Instituto Alana.

Fonte: Brasil de Fato, edição MG, nº 33.

Dica do blog: para saber mais, recomendo assistir ao documentário "Criança - A alma do negócio" (abaixo).

Fotos e fatos - as cicatrizes de um genocídio

(Créditos: James Nachtwey/Magnum Photos)

Por Cléber Sérgio de Seixas

Desde os tempos coloniais as etnias hutu e tutsi são rivais em Ruanda. Depois que o país se tornou independente da Bélgica os tutsis, ou watusis, sempre governaram aquele país africano. Uma guerra civil entre as duas etnias irrompeu em 1990, quando a Frente Patriótica Ruandesa, formada por combatentes tutsis, invadiu o país vindo da vizinha Uganda. O conflito durou até agosto de 1993, quando uma trégua foi negociada. A paz foi interrompida com um atentado que resultou na morte do presidente Juvenal Habyarimana, cujo avião foi derrubado por um míssil. 

A maioria hutu, cerca de 85% da população ruandense, acusou os tutsis pela morte do presidente e iniciou um massacre que deixaria mais de 500 mil mortos, em sua maioria mutilados por golpes de facão. Estima-se que em apenas um mês tenha-se matado mais em Ruanda que em dois anos da guerra da Bósnia. 

O genocídio de Ruanda, um dos maiores do último século, só pode ser entendido se analisado enquanto efeito da colonização europeia da África. Antes da chegada dos colonizadores alemães e belgas, hutus e tutsis falavam a mesma língua e viviam harmoniosamente num território que na época também compreendia o vizinho Burundi. Os tutsis, vindos da Etiópia, eram pastores, tinham pele mais clara, feições mais finas e eram mais altos. Os hutus eram agricultores, tinham pele mais escura e menor estatura. A discórdia entre as duas etnias se instalou quando os colonizadores escolheram os tutsis como intermediários no domínio colonial. Assim, enquanto os tutsis eram recrutados para trabalhar no governo e tinham acesso às escolas e ao Exército, os hutus eram relegados a um estado de sub-cidadania.

Vinte anos depois do massacre, as feridas ainda não cicatrizaram em Ruanda.

Nessa foto, tirada em junho de 1994, o fotógrafo norte-americano James Nachtwey retrata um homem hutu, em cujo rosto se vêem as marcas do genocídio, num hospital da Cruz Vermelha. O homem, suspeito de simpatizar com os tutsis, foi atacado por integrantes da milícia hutu Interahamwe.

Uma narrativa do genocídio de Ruanda pode ser conferida no filme Hotel Ruanda (Terry George, 2004).

terça-feira, 1 de abril de 2014

Ditadura civil-militar - desmistificar para que não se repita



Por Cléber Sérgio de Seixas

Nesse 1º de abril, muitos de brasileiros vão “descomemorar” os 50 anos do golpe civil-militar de 1964. Há quem diga que é desnecessário escavar o passado, ato que revelaria um espírito de vingança e um revanchismo desnecessários. Os que assim se manifestam justificam tal assertiva dizendo que o país retomou a democracia, e a anistia já foi concedida a ambos os lados que cometeram excessos, estando, portanto, quites. 

Por dever de consciência e obediência à verdade histórica e factual deve-se discordar, haja vista que atos e fatos ocorridos nos 21 anos nos quais o Brasil viveu sob a ditadura ainda permanecem envoltos pela névoa da dúvida e da impunidade. Por exemplo: nenhum militar responsável por tortura, assassinato ou seqüestro foi punido por seus atos durante o período ditatorial. 

À medida que se acumulam tentativas aqui e ali de reescrever a História - de tentar cobrir os golpistas de 64 com uma aura de patriotismo, como se estes tivessem desferido um contra-golpe ao invés de golpe, preocupados que estariam com o perigo da instalação do comunismo no Brasil via Jango; de renomear uma sangrenta ditadura, rebatizando-a de “ditabranda”; de enaltecer os prodígios do assim chamado milagre econômico e ocultar seus retumbantes fracassos; de criminalizar os que lutaram contra um regime de exceção que suprimiu todos os canais democráticos de luta -,  urge lutar para que esse tempo, essa página infeliz de nossa História, não se torne uma passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, como diria Chico Buarque. 

Desanuviar esse passado é, portanto, impedir que ele se repita. Tal tarefa passa por desfazer mitos que se acumularam no imaginário popular desde a redemocratização, há 29 anos.