A História em vermelho *


Por Cléber Sérgio de Seixas **

Sobre um fundo vermelho descansam uma foice e um martelo entrecruzados. O rubro fundo é a cor da aurora, promessa de um novo dia, esperança que se renova. Para que esse novo tempo se instaure faz-se premente a cooperação dos que vertem seu suor no campo e dos que labutam na cidade; de camponeses e de operários. A opressão irmana os que com ela sofrem e a busca por um porvir mais justo a todos, e não para alguns apenas, torna imprescindível a luta contínua contra as condições de exploração.

A cor que domina o estandarte comunista também alude ao sacrifício daqueles que sangraram para que a justiça social se implante. E não foram poucos os que tombaram na luta. Tantos os comunardos parisienses do século XIX como os bravos companheiros assassinados na Guerrilha do Araguaia são tributários da mesma bandeira.

Um clamor convocou: “Trabalhadores de todos os países, uni-vos!”, e em muitas plagas foi ouvido. Na terra dos czares, operários marcharam ao lado de camponeses e, sob a batuta de Lênin, a utopia de Saint-Simon, Fourier e Robert Owen aliou-se à ciência de Marx e Engels. Era a revolução.

Os ecos desse brado e os ventos da Revolução de 1917 chegam à nação brasileira. Nos idos de 22 um grupo de nove militantes comunistas formam o primeiro partido comunista do Brasil. Em sua maior parte, eram trabalhadores cujos ofícios iam de vassoureiro a jornalista. A chama do fogo que batiza os comunistas é soprada pelos ventos que varrem o mundo.

Tempos difíceis, mas de mudança. Os tenentes se rebelam. A Semana de Arte Moderna fornece novos moldes às artes e à cultura. Prestes corta o país numa gloriosa coluna, jamais derrotada, e depois ingressa nas fileiras do Partidão, como ficaria conhecido o Partido Comunista no Brasil.

Nos conturbados anos 30, uma revolução liderada por Vargas joga a última pá de cal sobre a República Velha e introduz o país na senda da industrialização. No Estado Novo, Vargas mostra sua face autoritária e coloca o Partido Comunista na clandestinidade. Militantes e partidários são detidos e torturados. Luís Carlos Prestes é preso e permanece nove anos na prisão. Sua esposa Olga é deportada para a Alemanha, onde é assassinada num campo de concentração nazista.

Finda a ditadura varguista, o Partido Comunista respira por pouco tempo a legalidade. Em 1948, o governo de Eurico Dutra novamente decreta a clandestinidade do partido.

Nos anos 50, sob o governo democrático de Getúlio Vargas, os comunistas se destacam em vários movimentos populares, greves e, sobretudo, na defesa da campanha “O Petróleo é Nosso”. Em 1954, o suicídio de Vargas promove grande comoção popular que obriga o partido, até então crítico ao governo, a rever suas posições.

Denunciando o abandono pelo PCB das autênticas posições proletárias e revolucionárias, em fevereiro de 1962 é organizada a Conferência Nacional Extraordinária, da qual participam importantes nomes como João Amazonas, Maurício Grabois, Joaquim Câmara Ferreira, Mário Alves, Jacob Gorender, Miguel Batista e Apolônio de Carvalho. Durante a conferência o partido é reorganizado e passa a se chamar PCdoB.

O golpe militar de 1º de abril de 1964 mergulha o país numa noite que dura 21 anos. Nesse período o sangue de muitos militantes do partido é derramado. A menção de nomes como os de Carlos Marighella, Joaquim Câmara, Maurício Grabois, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho não permite que tal período seja esquecido. A despeito da dura repressão, que se intensifica em 1968 com o Ato Institucional nº 5, o PCdoB é uma das organizações que mais contribui para a resistência ao arbítrio e violência castrenses.

Nos idos de 70, o PCdoB organiza a Guerrilha do Araguaia como um foco de luta contra a ditadura militar que calca o país com sua bota. Os guerrilheiros, ou melhor, os heróis do Araguaia, são exterminados pela maior força militar brasileira reunida desde a Segunda Guerra Mundial, numa luta de Davi contra Golias. Nomes como Osvaldo Orlando da Costa (Osvaldão), Maurício Grabois, André Grabois, Dina Teixeira, Jaime Peti, Lucio Petit e outros que tombaram no Araguaia reclamam seu lugar na historiografia oficial, mas encontrarão sempre lugar na história do PCdoB. A tragédia do Araguaia precisa ser recontada, pois muitos cadáveres de inocentes ainda jazem insepultos.

A assim chamada transição “lenta, gradual e segura” não impede que o jornalista Wladimir Herzog seja assassinado, supostamente, por integrantes do DOI-CODI, e que dirigentes do PCdoB sejam mortos naquela que ficou conhecida como A Chacina da Lapa.

Com a Lei da Anistia, o regime militar, já em seus estertores, permite que presos políticos e exilados sejam libertos e retornem ao país. É nesse contexto que são libertados alguns dirigentes do PCdoB como Elza Monnerat, Haroldo Lima e Aldo Arantes. João Amazonas e Renato Rabelo retornam do exílio.

A primeira metade dos anos 80 é marcada pela Campanha das Diretas, a maior mobilização de massas de nossa história. Exigindo eleições diretas para presidente, mais de 8 milhões saem às ruas em todo o país. O PCdoB é um dos protagonistas da campanha. Rejeitada a Emenda Constitucional Dante de Oliveira, o partido presta seu apoio a Tancredo Neves.

O fim dos anos 80 é marcado pela promulgação da Constituição de 1988, apelida de Constituição Cidadã. Os cinco deputados da bancada do PCdoB participam ativamente da Assembléia Nacional Constituinte. A Carta de 88 é uma das mais avançadas constituições brasileiras, em cujo bojo se encontram várias conquistas sociais tão reclamadas pelos brasileiros.

A dissolução da União Soviética no alvorecer da década de 90 torna urgente a reflexão sobre os rumos do Socialismo em nível mundial. Nesse contexto, o PCdoB organiza seu 8º Congresso, cujo tema “O Socialismo Vive!” reitera sua opção pelo Socialismo e refuta o discurso do pensamento único e do “fim da história”.

O Brasil atravessa a década de 90 sob a égide neoliberal. No fim da mesma o ponteiro do Risco Brasil está no vermelho. Não faltam desemprego, repressão a movimentos sociais, apagões, tudo em decorrência das desastradas políticas postas em movimento pelo governo FHC.

Nos anos 2000, especificamente a partir de 2003, a esperança vence o medo com a eleição de Luís Inácio da Silva, o Lula, à Presidência da República. O PCdoB sempre foi base de apoio da gestão Lula e contribuiu ativamente para as conquistas sociais que o país ora desfruta.

Apesar de todo o progresso social da era Lula/Dilma, o PCdoB, fazendo jus às cores de sua bandeira, ainda busca o alvorecer. Assim sendo, para que o país avance mais, propõe um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento como ferramenta para se chegar ao Socialismo. O desenvolvimento é o caminho e o socialismo é o objetivo.

Em seus 90 anos, o PCdoB inscreve seu nome na história brasileira de forma indelével. Não passou em branco pela história, mas tingiu-a de vermelho, pois noventa anos não são noventa dias.


* Texto lido durante o evento de comemoração dos 90 anos do PCdoB no dia 31/03/12 em Ribeirão das Neves

** Cléber Sérgio de Seixas é Secretário de Formação e Propaganda do Comitê Municipal do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG.

Fonte: PC do B Ribeirão das Neves
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