quinta-feira, 29 de julho de 2010

Primavera Sul-Americana

A liberdade guiando o povo, quadro de Delacroix


"Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira"
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Ernesto "Che" Guevara


Por Cléber Sérgio de Seixas

Um espectro ronda a América do Sul: o espectro do progressismo. A grande potência do norte se alia às burguesias conservadoras e entreguistas do continente numa “santa aliança” para erradicar o protagonismo político e social atualmente experimentado por algumas nações do cone sul. Que governante progressista sul-americano – Chávez, Correa, Morales, Lula, Lugo – nunca foi qualificado como demagogo, populista, extremista ou aliado do narcotráfico?

A paráfrase com as palavras do Manifesto do Partido Comunista de 1848 é oportuna nesses tempos em que as nações sul-americanas passam por profundas mudanças que podem resultar na quebra de um paradigma, qual seja, o de serem meros satélites orbitando em torno dos interesses de Washington.

Por muitos anos os rumos da política e da economia dos países sul-americanos foram impostos conforme as diretrizes estadunidenses. Nos anos 60, a Aliança para Progresso representava a reação de Washington frente aos avanços da influência da Revolução Cubana no continente. À assistência financeira e técnica seguiu-se o patrocínio a golpes de Estado. A Operação Condor tratou de garantir a permanência no poder dos militares golpistas, títeres da Casa Branca.

No Brasil, a bala que Getúlio Vargas meteu no peito adiou o golpe militar por dez anos. Assim, em abril de 1964, a participação popular nos rumos da política brasileira era violentamente refreada pelos militares: prevenção ao “esquerdismo” que tomava conta do governo Jango.

Quando o “milagre econômico” brasileiro chegou a seu fim, as justificativas para a truculência dos anos de chumbo não existiam mais. Uma détente fez-se necessária e uma transição “lenta, gradual e segura” foi posta em marcha. Nesse ínterim, as manifestações populares ganharam fôlego, tendo sido expoentes as greves do ABC e o movimento Diretas Já. Foi nesse contexto que um acordo das elites com os militares – do qual o povo foi alijado – resultou na condução indireta de Tancredo Neves à presidência da República.

No entanto, o Moisés mineiro não chegou a entrar na terra prometida. O vice, José Sarney, assumiu em meio a uma grave crise econômica. Em seguida, assolado por uma galopante inflação, o Brasil, 29 anos depois, elegia um presidente pelo voto direto. O governo de Fernando Collor de Mello introduziu o país no neoliberalismo, norteando-se pelos ditames preconizados pelo Consenso de Washington. Um impeachment retirou do poder aquele que fora o trunfo das elites contra a “ameaça comunista” que Lula supostamente encarnava.

Domada a inflação pelo Plano Real, o país mergulhou de vez no neoliberalismo, seguindo a risca sua cartilha. No final da era FHC, cuja gestão foi marcada pela repressão a movimentos sociais, por privatizações e pelo sucateamento do setor público, o Brasil estava quebrado e não eram poucos os que comparavam a situação financeira do país à grave crise econômica que assolava a Argentina.

Eis que em 2002 um paradigma é quebrado nas urnas. Pela primeira vez o povo brasileiro elegia um candidato a sua imagem e semelhança. A esperança venceu o medo tão propalado por Regina Duarte e pela mídia contrária a Lula.

Um operário na presidência, no entanto, não significa a classe operária no paraíso. Continuamos com um salário mínimo cujo valor ainda não cobre todas as necessidades de uma pequena família, com serviços de saúde e educação de qualidade ainda constituindo objetivos a serem alcançados e com a segurança pública permanecendo como um dos calcanhares de Aquiles da questão social brasileira.

Por outro lado, pode ser dito com toda segurança que nunca como agora os brasileiros pobres estiveram tão em condições de superar o estágio de pobreza e galgar degraus na escala sócio-econômica. Desde os tempos da ditadura militar não se via um crescimento econômico tão pujante. A diferença é que agora o bolo da riqueza tem sido repartido – de forma tímida ainda, diga-se de passagem - e não abocanhado por uns poucos gulosos como nos tempos da elite fardada. Do Prouni ao Bolsa Família, muitos são os programas sociais que tem possibilitado maior inserção social e fomento ao consumo. Os pobres agora também andam de carro, viajam de avião, se assentam em bancos de faculdade e adquirem eletrodomésticos como microondas e computadores - produtos cuja posse em tempos passados era proibitiva aos da classe C, D e E. Some-se a tudo isso a projeção que o governo Lula proporcionou ao país no exterior, sobretudo depois que a crise econômica passou pela terra brasilis feito uma “marolinha’.

Tal protagonismo, embora em graus e formas diferentes, também tem sido levado a cabo por outras nações sul americanas. O assim chamado socialismo do século XXI – teoricamente protagonizado pelos governos de Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa – pode ser melhor definido pelo que não é do que pelo que é. Em outras palavras, trata-se de um socialismo que procura nortear-se pelas lições resultantes dos erros do socialismo real, conforme as experiências soviética, chinesa, cubana e outras. É possível arriscar uma maior participação popular como um dos princípios basilares de tal socialismo, tal como já atestaram, por exemplo, a utilização de referendos revogatórios por parte de Chávez e Morales.

Preocupado com sua hegemonia na região, o império estadunidense se articula para deter a primavera dos povos que toma de assalto o sub continente. A recente reativação da Quarta Frota é um indício claro de tal rearticulação. Um ensaio já foi feito em Honduras. Enquanto este artigo era escrito, a Venezuela se precavia de um possível ataque de sua vizinha Colômbia – resultado de uma animosidade há muito instilada pela Casa Branca.

Os EUA sabem o quão importante é desestabilizar a região, pois quanto mais fizerem valer a máxima de “dividir para conquistar”, tanto mais sua hegemonia será garantida. Tentarão de todas as formas deter a primavera. Resta aos sul-americanos zelar pela soberania de suas nações e aperceberem-se dos ataques diretos e indiretos do império do norte.

Congresso Absolve MST


Por Frei Betto

O MST jamais desviou dinheiro público para realizar ocupações de terra – eis a conclusão da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), integrada por deputados federais e senadores, instaurada para apurar se havia fundamento nas acusações, orquestradas pelos senhores do latifúndio, de que os movimentos comprometidos com a reforma agrária se apoderaram de recursos oficiais.

Em oito meses, foram convocadas 13 audiências públicas. As contas de dezenas de cooperativas de agricultores e associações de apoio à reforma agrária foram exaustivamente vasculhadas. Nada foi apurado. Segundo o relator, o deputado federal Jilmar Tatto (PT/SP), “foi uma CPMI desnecessária”.

Não tão desnecessária assim, pois provou, oficialmente, que as denúncias da bancada ruralista no Congresso são infundadas. E constatou-se que entidades e movimentos voltados à reforma fundiária desenvolvem sério trabalho de aperfeiçoamento da agricultura familiar e qualificação técnica dos agricultores.

O que os denunciantes buscavam era reaquecer a velha política – descartada pelo governo Lula – de criminalizar os movimentos sociais brasileiros. Esse tipo de terrorismo tupiniquim a história de nosso país conhece bem: Monteiro Lobato foi preso por propagar que havia petróleo no Brasil (o que prejudicou os interesses usamericanos); foram chamados de comunistas os que defendiam a criação da Petrobras; e, de terroristas, os que lutavam contra a ditadura e pela redemocratização do país.

A Comissão Parlamentar significou, para quem insistiu em instaurá-la, um tiro saído pela culatra. Ficou claro para deputados e senadores bem-intencionados que é preciso votar, o quanto antes, o projeto de lei que prevê a desapropriação de propriedades rurais que utilizam trabalho escravo em suas terras. E resolver, o quanto antes, a questão dos índices de produtividade da terra.

A investigação trouxe à luz não a suposta bandidagem do MST e congêneres, como acusavam os senhores do latifúndio, e sim a importância desses movimentos no atendimento à população sem-terra. Eles cuidam da organização de acampamentos e assentamentos e, assim, evitam a migração, que reforça, nas cidades, o cinturão de favelas e o contingente de famílias e pessoas desamparadas, sujeitas ao trabalho informal, ao alcoolismo, às drogas, à criminalidade.

Segundo Jilmar Tatto, os inimigos da reforma agrária “fizeram toda uma carga, um discurso muito raivoso, colocaram dúvidas em relação ao desvio de recursos públicos e perceberam que a montanha tinha parido um rato. Porque não havia desvio nenhum. As entidades e o governo abriram todas as suas contas. Foram transparentes e, em nenhum momento, conseguiu-se identificar um centavo de desvio de recurso público. Foram desmoralizados (os denunciantes), e resolveram se ausentar dos trabalhos da CPMI.
(...) Foi um trabalho produtivo, no sentido de deixar claro que não houve desvio de recurso público para fazer ocupação de terras no Brasil. O que houve foi a oposição fazendo uma carga muito grande contra o governo e o MST.”

Os parlamentares sensíveis à questão social no Brasil se convenceram, graças ao trabalho da comissão, de que é preciso aumentar os recursos para a agricultura familiar; garantir que a legislação trabalhista seja aplicada na zona rural; e incentivar sempre mais os plantios alternativos e os alimentos orgânicos, sobre cuja qualidade nutricional não paira a desconfiança que pesa sobre os transgênicos. E, sobretudo, intensificar a reforma agrária no país, desapropriando, como exige a Constituição, as terras improdutivas.

Dados recentes mostram que, no Brasil, se ocupam 3 milhões de hectares (ha) com a lavoura de arroz e 4,3 milhões com feijão. Segundo o geógrafo Ricardo Alvarez, se compararmos com os 851 milhões de ha que formam este colosso chamado Brasil, veremos que as cifras são raquíticas. Apenas 0,85% do território nacional está ocupado com o cereal e a leguminosa. Um aumento de apenas 20% na área plantada significaria passar de 7,3 para 8,7 milhões de ha, com forte impacto na alimentação do povo brasileiro.

Para Alvarez, o aumento da produção levaria à queda de preços, ruim para o produtor, bom para os consumidores. Caberia, então, ao governo implantar uma política de ampliação da produção de alimentos, garantir preços mínimos, forçar a ocupação da terra, combater o latifúndio, gerar empregos no campo e atacar a fome. Ação muito mais eficiente, graças aos 20% de acréscimo na área plantada, do que o assistencialismo alimentar.

O latifúndio ocupa, hoje, mais de 20 milhões de ha com soja. No início dos anos 90, o número beirava os 11,5 milhões. A cana-de-açúcar foi de 4,2 para 6,5 milhões de ha no mesmo período. Arroz e feijão sofreram redução da área plantada. Hoje, o brasileiro consome mais massas do que a tradicional combinação de arroz e feijão, de grande valor nutritivo.

Alvarez conclui: “Não faltam terras no Brasil, faltam políticas de distribuição delas. Não faltam empregos, falta vontade de enfrentar a terra improdutiva. Não falta comida, falta direcionar a produção para atender as necessidades básicas de nossa população.”


Fonte: jornal Estado de Minas - 29/07/2010

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tese de participação dos EUA no golpe ganha força


Por Renato Godoy de Toledo

Os EUA tentam vender a imagem de que Honduras vive um governo de conciliação, onde não há violação aos direitos humanos e a resistência praticamente não existe. Essa é a visão de Carlos H. Reyes, sindicalista hondurenho e ex-candidato à presidência da República de Honduras, em 2009. Atendendo aos movimentos sociais, Reyes foi um dos candidatos que desistiu do pleito e engrossou o boicote ao processo eleitoral.

Para o sindicalista, o governo de Honduras, desde o golpe de junho de 2009, tem suas ações baseadas nos interesses de Washington, basicamente. “O embaixador dos EUA aqui [Hugo Llorens] é quem dirige o governo. Eles tentam unificar o Partido Liberal para dividir a resistência e continuam aumentando o poder das Forças Armadas, dando- lhes mais armas e dinheiro. Além disso, há dois meses instalaram a segunda base militar no país, em meio a uma zona indígena onde há petróleo e água”, aponta.

Sob essa constatação, Reyes afirma que o golpe em seu país é parte de uma estratégia dos EUA de retomar o controle sobre a América Central.

Zelaya acusa

No aniversário do golpe de Estado em Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya afirmou que as ações que o tiraram do poder foram orquestradas pelos EUA. O país administrado por Barack Obama, inicialmente, mostrou-se contrário ao golpe, mas foi uma das poucas nações a reconhecer as eleições de novembro de 2009. “Tudo indica que o golpe foi orquestrado na base militar de Palmerola, pelo Comando Sul dos EUA, e executado torpemente por maus hondurenhos. O tempo e o apoio público que os EUA terminaram dando ao golpe e àqueles que o executaram confirmam sua participação”, afirma a carta enviada por Zelaya, desde seu exílio na República Dominicana.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Mark Toner, limitou-se a dizer que a declaração do ex-presidente é “ridícula”.


Fonte: matéria publicada no site Brasil de Fato em 23/07/2010.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Novo Transcendente

Por Frei Betto

A história da humanidade é uma história de sujeições. No período pré-moderno, sujeição aos deuses do politeísmo, ao Deus do monoteísmo, ao Rei da monarquia e ao Povo (sujeito abstrato) da República. Havia sempre uma figura do Outro ao qual todos deveriam se reportar.

Esse Grande Outro prescrevia o certo e o errado, o bem e o mal, a graça e o pecado, a lei e o crime. O mundo se configurava de acordo com os preceitos do Grande Outro. As alternativas eram simples: sujeitar-se sob promessa de recompensa ou rebelar-se sob risco de punição.

Na modernidade, o Outro se multiplicou, adquiriu várias faces, descentralizou-se na diversidade de ideologias, sistemas de governo e crenças religiosas. Tanto a antiguidade quanto a modernidade nos remetiam à transcendência, ainda que fundada na razão. Se não era Deus, era o Partido, o líder supremo, as ideias inquestionáveis. Algo ou alguém nos precedia e determinava o nosso comportamento, incutindo-nos gratificação ou culpa.

A pós-modernidade, em cuja porta de entrada nos encontramos, promete fazer de nós sujeitos livres de toda sujeição. Seria a volta ao protagonismo exacerbado, em que cada indivíduo é a medida de todas as coisas. Já não se vive em tempos de cosmogonias e cosmologias, teogonias e ideologias. Agora, todos os tempos convergem simultaneamente ao espaço reduzido do aqui e agora. Graças às novas tecnologias de comunicação, tempo e espaço ganham dimensão holográfica: cabem em cada pequeno detalhe do aqui e agora.

Será que, de fato, a pós-modernidade nos emancipa do transcendente e da transcendência? Introduz-nos no “desencantamento do mundo” apontado por Max Weber?
A resposta é não.

Há um novo Grande Outro que nos é imposto como paradigma inquestionável: o Mercado. As sedutoras imagens deste deus implacável são disseminadas por seu principal oráculo: a publicidade. À semelhança de seu homólogo de Delfos, nos adverte: “Dize o que consomes e eu te direi quem és”.

O grande teólogo desse novo deus foi Adam Smith. Inspirado na física de Newton, em A riqueza das nações e A teoria dos sentimentos morais, Smith aplicou à economia a metáfora religiosa do Grande Relojoeiro que preside o Universo.

O relógio funciona graças à precisão mecânica fabricada por alguém fora dele e invisível a quem o porta: o relojoeiro. Assim, na opinião de Newton, seria o Universo. Na de Smith, a vida social regida por interesses econômicos. A diferença é que o Deus Relojoeiro de Newton é chamado de Mão Invisível por Smith. Segundo este, o egoísmo de cada um, guiado pela Mão Invisível, promoveria o bem de todos.

É exatamente o que afirma Milton Friedman, líder da Escola de Chicago: “Os preços que emergem das transações voluntárias entre compradores e vendedores são capazes de coordenar a atividade de milhões de pessoas, sendo que cada uma conhece apenas o próprio interesse.”

Esse o fundamento do pensamento liberal e do sistema capitalista. É o principio do laisser faire, deixar (deus) fazer. O que, traduzido em termos políticos, significa desregulamentar, não apenas as esferas econômicas e políticas, mas também a moral. Abaixo a ética de princípios e viva a ética de resultados! Nesse protagonismo pós-moderno, cada ego é a medida de todas as coisas. O que imprime ao sujeito (no sentido latino de sujeição, submissão) a impressão de autonomia e liberdade.

O resultado do novo paradigma centrado no deus Mercado todos conhecemos: degradação ambiental; guerras, gastos exorbitantes em armas, sistemas de defesa e segurança, narcotráfico e dependência química, esgarçamento dos vínculos familiares, depressão, frustração e infelicidade.

Ainda é tempo de professarmos o mais radical ateísmo frente ao deus Mercado e, iconoclastas, apelar à ética para introduzir, como paradigma, a generosidade, a partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho, a felicidade centrada nas condições dignas de vida e no aprofundamento espiritual da subjetividade.

Isso, contudo, só será possível se não ficarmos restritos à esfera da autoajuda, das terapias tranquilizadoras da alma para suportar o estresse da competitividade, e nos mobilizar comunitariamente para organizar a esperança em novo projeto político fundado na globalização da solidariedade.

Eis o desafio ético que, como assinalou José Martí, será capaz de articular emancipação política e emancipação espiritual.


Fonte: caderno de cultura do jornal Estado de Minas - 22 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Do Outro Lado da Linha, o Proletário


Por Leandro Uchoas

Nos Estados Unidos, o 4 de julho é uma data amplamente comemorada. O Dia da Independência do país é marcado por potentes marchas militares e outras celebrações. No Brasil, a data está destinada a ter pouca visibilidade e até gerar certa repulsa. É que o 4 de julho marca, no país, o Dia do Operador de Telemarketing. Em ampla expansão – cresce de 14% a 17% ao ano – a categoria é odiada por boa parte das pessoas em todo o mundo.

Tomado por chato, o operador é frequentemente maltratado pelas pessoas. O que poucos conseguem perceber é que, muitas vezes, essa é a alternativa de emprego que têm.

Surgida na carona dos avanços tecnológicos – que supostamente serviriam para melhorar a vida das pessoas –, a profissão revela indícios diversos de exploração do trabalho. Há alguns meses, foi lançado o livro Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual. A obra foi organizada pelos sociólogos Ricardo Antunes, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Ruy Braga, da Universidade de São Paulo (USP), e aborda o surgimento da profissão no contexto da reconfiguração do mundo do trabalho e das analogias entre a precarização do setor e a do universo industrial dos séculos XIX e XX.

A principal constatação dos estudos é a de que o operador de telemarketing, mesmo atuando no setor de serviços, é uma espécie de novo proletário. A partir do aumento do uso da tecnologia de informação e da permanência de relações de exploração do trabalho, surge um trabalhador contraditório. É moderno, mas convive com as condições de trabalho precárias do passado. “O trabalho é muito isolado – as pessoas trabalham em baias. O tempo para refeição e para ir ao banheiro é muito pequeno. E há a inexistência de tradição sindical”, afirma Ricardo.

A profissão surgiu nos anos de 1990. A partir da privatização das telecomunicações, empresas passaram a oferecer serviços por telefone. Com o tempo, as centrais de atendimento tornaram-se verdadeiros núcleos de comunicação e de verificação de satisfação de clientes. O fenômeno ocorre no mundo todo. Embora o Brasil tenha um número menor de centrais em relação a outros países – 4% do que têm os Estados Unidos –, apresenta maior índice de trabalhadores por local de trabalho – média de 1.103 por corporação, contra 172 na Alemanha. O crescimento do setor é significativo, também, em todo o mundo – no Reino Unido, avançou 250% em dez anos; na Alemanha, 100% em sete. Enquanto nos Estados Unidos 3% da população já trabalham no setor, no Brasil o índice é de 2% da população economicamente ativa com ensino superior incompleto.

Hipertaylorismo

A socióloga Selma Venco, da Unicamp e autora de um dos capítulos de Infoproletários, encontra na precarização da profissão elementos do chamado taylorismo. “São diversas características próprias do mundo industrial. Há a separação entre quem trabalha e quem planeja, a obediência a um tempo médio, o controle massivo da produtividade através da própria tecnologia. Mas há elementos novos, como a capacidade de pressão do cliente. Já não é mais só a máquina e o chefe”, diz. Escudado pela distância promovida pelo telefone, e com o poder de desejar e reclamar, o cliente seria elevado a uma “condição de rei”.

Alguns estudiosos criaram o conceito de hipertaylorismo à medida que as novas tecnologias permitem controle da produtividade dos operadores em tempo real. Segundo os dados, os trabalhadores do telemarketing não têm o tempo de preparação adequado. O treinamento, que deveria durar cerca de quatro meses, costuma ser oferecido por um período que varia de uma semana a um mês. O resultado é a incapacidade de cumprir as rigorosas metas que são estabelecidas. Em média, nos primeiros quatro meses, há um enorme desgaste do trabalhador, pela cobrança excessiva, pela ausência de resultados e pela individualização do fracasso. Depois, por aproximadamente dez meses ocorre uma relativa satisfação do trabalhador, porque ele passa a conseguir desempenhar seu papel. Após esse tempo, vem o período chamado de “rotinização”. O trabalhador passa a sofrer com o monitoramento constante, a incapacidade de progredir e as doenças que invariavelmente aparecem (LER, tendinite, surdez precoce, afetação nas cordas vocais, entre outras).

Mas o operador fica, de certa forma, preso ao emprego. “Num mercado como o brasileiro, em que dois em cada três postos pagam menos de dois salários mínimos, ele não tem para onde ir. Torna-se um operador ‘lateralizado’. Muda de emprego sem mudar sua forma de atuação”, diz Ruy Braga, que na última década se especializa no estudo do setor. Em poucos meses, o trabalhador considera sua atividade insuportável – e por vezes antiética –, mas não tem como sair. “O telemarketing resume as relações de trabalho nos anos 2000. Exemplos disso são o fechamento de postos, o aumento do setor de serviços e a precarização”, completa Ruy.

Home office

Outro questionamento trazido pelos pesquisadores diz respeito à suposta vantagem do “home office”. A capacidade que as novas tecnologias têm de permitir que se trabalhe em casa é, em geral, considerada positiva. As pessoas tendem a louvar a possibilidade de planejar seu horário e trabalhar perto da família. Entretanto, Ricardo Antunes denuncia a precarização embutida nesse processo. “Esse é o melhor dos mundos para o capital. Ele se desobriga de fornecer espaço ao trabalhador, de pagar custos, de arcar com as demandas de saúde. E, ao trabalhar em casa, a pessoa perde o controle da carga horária: o público e o privado se misturam. A jornada termina por se estender”, avalia.

Os dados do livro são peremptórios. O aclamado avanço tecnológico não tem gerado benefícios sociais e a exploração do trabalho segue, revestida por novos formatos. “O avanço tecnológico está a serviço das relações de exploração e da busca por lucro”, avalia Ruy. Ricardo concorda. “A tecnologia tal como conhecemos é plasmada por relações sociais de produção capitalista. Tem a cara, a forma e o conteúdo do capital. É moldada para a valorização do lucro.” Segundo ele, uma sociedade que não se deixe escravizar pelo produtivismo poderia usar a tecnologia para trabalhar apenas três horas por dia, quatro dias por semana.


Fonte: site Brasil de Fato.com.br

domingo, 18 de julho de 2010

Cuba: de Valladares a Yoani

Ex prisioneiros políticos concedem entrevista em Madri. Foto: Reuters.

Por Cléber Sérgio de Seixas

Após um acordo intermediado pela Igreja Católica e pela diplomacia espanhola, Cuba decidiu libertar, de forma gradual, 52 prisioneiros políticos. Tal libertação, que está sendo anunciada pela mídia com um sinal do enfraquecimento do regime cubano, trouxe novamente à baila a questão dos encarcerados por questões políticas naquele país. No entanto, por detrás das críticas da comunidade e imprensa internacionais se escondem outros interesses que não combinam com a temática dos direitos humanos.

Como explicar que a imprensa de uma forma quase homogênea condene o regime cubano qualificando-o como violador dos direitos humanos? Que interesses poderiam justificar um embargo econômico de 48 anos contra um país que não dispõe de grandes riquezas naturais e, do ponto de vista bélico, não representa ameaça aos Estados Unidos?

As respostas, obrigatoriamente, encontrarão seus antecedentes nos êxitos sociais alcançados depois que os guerrilheiros barbudos desceram a Sierra Maestra e tomaram o poder em Cuba – retirando do governo um ditador títere dos interesses dos EUA na ilha -, pela crise dos mísseis em 1962, pela conversão ao socialismo e, sobretudo, pelo que a Revolução Cubana legou à América Latina.

No Combinado do Leste, grande presídio localizado na periferia de Havana, se encontram presos cujo aprisionamento a maior parte da opinião pública mundial denuncia como um símbolo da falta de liberdade do regime cubano. Embora não se torturem prisioneiros políticos em Cuba, ao contrário do que ocorre em Guantánamo, a grande imprensa mundial insiste na tese de violação dos diretos humanos no que tange aos encarcerados.

É importante salientar que os Estados Unidos, auto proclamados lutadores contra o terrorismo e bastião da democracia, são os mesmos que promovem e apóiam atentados contra Cuba desde os tempos em que Fidel, Che e companhia libertaram-na do jugo de Fulgêncio Batista e, por extensão, da subserviência aos ditames norte-americanos.

Nos tempos atuais, os prisioneiros libertos protagonizam o papel de denunciantes das supostas arbitrariedades cometidas pelo governo cubano e anunciam uma cruzada em prol de mudanças democráticas. Porém, antes de elegê-los paladinos da liberdade, é necessário trazer à luz os motivos pelos quais foram aprisionados.

Desde os tempos de Ronald Reagan a suposta falta de liberdade na ilha serve de inspiração para propagandas anti-revolucionárias e para o surgimento de embustes como o da blogueira Yoani Sánchez (clique aqui para ler o elucidante texto de Frei Betto sobre Yoani).

Um exemplo marcante foi o de Armando Valladares, um suposto poeta inválido que ficou encarcerado em Cuba durante 20 anos por terrorismo. Valladares havia sido policial nos tempos da ditadura Batista e em 13 de dezembro de 1960 foi detido sob a acusação de ser um dos membros de uma organização terrorista apoiada pela CIA que atentava contra as mudanças políticas que ocorriam naqueles primeiros anos da revolução. Um dos expedientes do grupo terrorista consistia em ataques com explosivos. Na prisão, Valladares fingiu ser um paraplégico e conseguiu, assim, comover a comunidade internacional. Com a pressão do intelectual Régis Debray – que havia colaborado com Che na Bolívia – e pela intervenção de François Mitterrand, foi possível a libertação da Valladares. Contudo, as autoridades cubanas estabeleceram como condição para sua libertação que ele deixasse a prisão caminhando com as próprias pernas. Uma vez liberto, e uma vez descoberta a fraude de seus talentos literários e de sua invalidez, mudou-se para os EUA, onde foi contemplado com a cidadania estadunidense e nomeado representante do governo de Washington na Comissão dos Direitos Humanos da ONU. Neste cargo tentou várias vezes, sem sucesso, fazer com que Cuba fosse condenada por violação dos direitos humanos. Diante de seu insucesso, nos anos 90 o governo Clinton resolveu substituí-lo. Mais recentemente, em uma carta de renúncia endereçada à HRF (Human Rights Foundation), onde ocupava o cargo de chairman, manifestou-se a favor do golpe de Estado que apeou do governo o presidente de Honduras Manoel Zelaya. Resta saber se o mesmo empenho em prol dos direitos humanos que ele supostamente defende se manifestará em relação às barbaridades que estão sendo perpetradas contra o povo hondurenho pelo governo de Porfírio Lobo.

Tanto Valladares quanto Yoani Sánchez são instrumentos da propaganda que visa desestabilizar o regime cubano e tudo o que ele representou e representa para a América Latina. Escondidas sob as denúncias de maus tratos a prisioneiros e de violações dos direitos humanos estão os interesses imperialistas estadunidenses cuja capilaridade se estende à quase totalidade da imprensa mundial. Assim sendo, é necessário que os leitores e telespectadores não se deixem enganar pelos noticiários e pela superficialidade das abordagens jornalísticas da grande mídia.


Abaixo um vídeo que mostra o desmascaramento de Armando Valladares.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

VIOLÊNCIAS CONTRA A MULHER


Por Frei Betto

O hediondo crime que envolve o goleiro Bruno – a mulher, depois de ser assassinada, teve o corpo destroçado e devorado por cães, segundo denúncia – é a ponta do iceberg de um problema recorrente: a agressão masculina à mulher.
Entre 1997 e 2007, segundo o Mapa da violência no Brasil/2010, 41.532 mulheres foram assassinadas no país. Um índice de 4,2 vítimas por grupo de 100 mil habitantes, bem acima da média internacional. O Espírito Santo apresenta o quadro mais grave: 10,3 assassinatos de mulheres/100 mil habitantes.
O Núcleo de Violência da Universidade de São Paulo identifica como assassinos maridos, ex-maridos e namorados inconformados com o fim da relação. Ao forte componente de misoginia (aversão à mulher), acresce-se a prepotência machista de quem se julga dono da parceira e, portanto, senhor absoluto sobre o destino dela.

A Central de Atendimento à Mulher (telefone 180) recebeu, nos primeiros cinco meses deste ano, 95% mais denúncias do que no mesmo período do ano passado. Mais de 50 mil mulheres denunciaram agressões verbais e físicas. A maioria é de mulheres negras, casadas, entre 20 e 45 anos e nível médio de escolaridade. Os agressores são, em maioria, homens entre 20 e 55 anos e nível médio de escolaridade.

Acredita-se que o aumento de denúncias se deva à Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 pelo presidente Lula e que aumenta o rigor da punição aos agressores. Apesar desse avanço, tudo indica que muitos lares brasileiros são verdadeiras casas dos horrores. A mulher é humilhada, destratada, surrada, por vezes vive em regime de encarceramento virtual e de semiescravidão no trabalho doméstico. Sem contar os casos de pedofilia e agressão sexual de crianças e adolescentes por parte do próprio pai.

A violência contra a mulher decorre de vários fatores, a começar pela omissão das próprias vítimas, que, dependentes emocional e financeiramente do agressor, ou em nome da preservação do núcleo familiar, ficam caladas ou dominadas pelo pavor frente aos efeitos de uma denúncia. Soma-se a isso a impunidade. Eliza Samudio, ex-namorada do goleiro Bruno, teria recorrido à Delegacia de Defesa da Mulher, sem que sua queixa tivesse sido levada a sério. Raramente o poder público assegura proteção à vítima e é ágil na punição ao agressor.

A violência contra a mulher não ocorre apenas nas relações interpessoais. Ela é generalizada pela cultura mercantilizada em que vivemos. Basta observar a multiplicidade de anúncios televisivos que fazem da mulher isca pornográfica de consumo.

Pare diante de uma banca de revistas e confira a diversidade do “açougue” fotográfico! Preste atenção nos papéis femininos em programas humorísticos. Ora, se a mulher é reduzida às suas nádegas e atributos físicos, tratada como “gata” ou “avião”, exposta como mero objeto de uso masculino, como esperar que seja respeitada?

Nossas escolas, de uns anos para cá, introduziram no currículo aulas que abordam o tema da sexualidade. Em geral se restringem a noções de higiene corporal para evitar doenças sexualmente transmissíveis. Não tratam do afeto, do amor, da alteridade entre parceiros, da família como projeto de vida, da irredutível dignidade do outro, incluídos os/as homossexuais.

Nas famílias, ainda há pais que conservam o tabu de não falar de sexo e afeto com os filhos ou julgam melhor o extremo oposto, o “liberou geral”, a total falta de limites, o que favorece a erotização precoce de crianças e a promiscuidade de adolescentes, agravada pelos casos de gravidez inesperada e indesejada.
Onde andam os movimentos de mulheres? Onde a indignação frente às várias formas de violência contra elas?

Os clubes esportivos deveriam impor a seus atletas, como fazem empresas e denominações religiosas, um código de ética. Talvez assim a fama repentina e o dinheiro excessivo não virassem a cabeça de ídolos de pés de barro...


Fonte: caderno de cultura do jornal Estado de Minas - 15 de julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

CRIMES, MACHISMO E VINGANÇAS

A imprensa sensacionalista explora a desgraça alheia


Por Luiz Carlos Lopes*

As grandes mídias já esqueceram os crimes rumorosos de ontem e já escolheram um novo para continuar o espetáculo de sangue e de ódio. Afinal, o show não pode parar. A idéia é esta: juntar a oportunidade ao script de sempre. Os ingredientes são bem conhecidos, tornam-se ainda mais fortes quando se trata de pessoas que já haviam alcançado alguns degraus da fama e do dinheiro fácil.

Os grandes assuntos que perpassam estes acontecimentos funestos estão presentes nas palavras usadas para noticiar os fatos. Mas, esta presença não é interpretada, o que interessa é narrar o horror e ganhar audiência com os detalhes sórdidos. Estes atraem o grande público, já corrompido com a lógica irracionalista do mundo cão do cotidiano de suas vidas e o descrito no universo alucinado das reportagens.

Quando menos se esperava, o Brasil parou. Parece que agora só existe um crime e que aquele fato é o único assunto a ser consumido. A cobertura das emissoras de Tv e de rádio, dos jornais e das revistas impressas é cerrada. Tudo ecoa na Internet, repetindo-se interminavelmente até o cenário final do julgamento. Ninguém é poupado dos detalhes, por mais escabrosos que sejam. Os operadores da Justiça e da Polícia dão inúmeras entrevistas focando o drama deste último caso, como ocorreu nos anteriores. Tudo se repete melancolicamente, sem qualquer reflexão.

O crime escolhido agora para representar o Brasil nas mídias tem o poder aparente de se fazer esquecer de todo o resto. Não há mais uma eleição em curso. A tragédia do Golfo do México sumiu do mapa midiático. A Copa do Mundo acabou, porque o Brasil foi desclassificado. Os mil e um problemas do Brasil são reduzidos a um único episódio, com farta mobilização das pessoas que clamam por justiça e gritam xingamentos para os acusados que desfilam frente às câmeras. A catarse, obtida com muita emoção alienada, paralisa o pensamento, impedindo qualquer espaço para o advento de uma visão racional.

O grito arcaico de vingança é fortemente estimulado e as pessoas acreditam que haverá justiça unicamente com a necessária punição daqueles culpados. O contexto onde o crime brutal foi cometido desaparece do cenário. Ele é ocupado pelos arquétipos do mal e do bem, personalizados pela bela e a fera, esta última é, com razão, estigmatizada como fosse única e solitária. Com isto, os verdadeiros problemas sociais, econômicos, políticos e culturais que permitiram a barbárie deste fato, como a de muitos outros, são colocados para baixo do tapete.

A violência deste último crime foi radical e impressionante. Entretanto, infelizmente, tratar violentamente mulheres é um esporte nacional. Não casualmente, foi feita uma lei – Maria da Penha – para tentar coibir e punir fatos desta natureza. Não são poucas mulheres que são assassinadas pelo ‘crime’ de serem mulheres. Ainda há um contexto social que apóia e considera normal o sexismo de muitos homens que se acreditam como superiores às mulheres e com o direito de dispor delas como quiserem.

A solidariedade masculina vista no episódio é habitual, atingindo, igualmente, a um grande conjunto de mulheres que aceitam sem qualquer problema o machismo de seus parceiros. O sexismo é uma ideologia, não tem sexo, idade, cor ou classe social. Esta solidariedade explicaria a inação das autoridades que foram alertadas deste crime anunciado pela própria vítima, que registrou o problema em uma longa entrevista incriminadora dada à maior rede de Tv do país e deu queixa às autoridades. Tudo isto faz com que se compreenda sua ingenuidade relativa de vítima traída por quem poderia ajudá-la: as instituições de Estado.

Philippe Breton, falando dos episódios de violência terríveis conhecidos em casos como o do nazifascismo e das guerras dos últimos cem anos, desenvolveu a hipótese da lógica da vingança. Este se aplica a este caso, com as diferenças de não se tratar de um bando organizado de grandes proporções e de um massacre étnico ou político específico. Mas, nele pode se ver os ovos da serpente chocando sem maiores problemas.

A violência de indivíduos ou de bandos não sai de uma cartola mágica. Ela surge de um processo complexo, onde ela é disseminada, desde a mais tenra idade. Homens ou mulheres violentas não são necessariamente loucos. As pesquisas de Breton e de outros mostram que a loucura explicaria a violência de alguns indivíduos de um mesmo bando de facínoras. Seria incapaz de fazer compreender a violência extrema de todos.

A maioria dos violentos sofreria de uma espécie de divisão psíquica. Esta seria cultivada desde cedo no ambiente familiar, nas comunidades onde se vive, nas instituições que recolhem menores e adultos, nas escolas, nos grupos de camaradagem e, hoje, com grande força, na exposição diária às mídias que exploram a violência de modo sistemático e radical. As mídias isoladamente não transformariam ninguém em pessoa violenta, mas dariam uma boa ajuda. O ambiente econômico-político geral seria um outro fator facilitador da explosão de violência radical.

O primitivismo arquetípico da vingança contra uma pessoa simboliza, nesse caso, o ato de um pequeno grupo masculino que empunhou o ódio contra gênero feminino. Este visto como inferior e sem qualquer direito. As coisas saíram do controle e chegaram ao extremo. Todavia, os brasileiros mais atentos sabem que inúmeras mulheres apanham, algumas são torturadas, outras mortas e todas são desvalorizadas diariamente pelas grandes e pequenas mídias. Nestas, são tratadas como carne, bichos ou brinquedos masculinos.

Não deveria causar espanto a ninguém a possibilidade de acontecer o que aconteceu. Não é segredo que o machismo seduz a consciência feminina brasileira. É bastante comum que muitas mulheres, principalmente, mas não unicamente as mais pobres, achem que o comportamento masculino sexista e avesso ao amor sejam naturais e corretos. Infelizmente, a consciência crítica do problema é indigente, tanto para os homens, como para uma grande parte das mulheres. Como estas são as mais fracas, tendem a sofrer mais. Mas, há situações onde as coisas se invertem e a vingança feminina aparece com todo o seu furor.

Nas classes médias, onde elas têm mais poder, facilmente, a vingança feminina se materializa, com a ajuda das instituições de Estado, no fundo conservadoras e defensoras da ordem tradicional. O fenômeno da alienação parental afeta homens e mulheres. Entretanto, o mais comum que esta prática seja mais feminina do que masculina. A única solução para as relações de gênero equilibradas é que elas sejam pautadas pela real afetividade e não por interesses mesquinhos, como se viu no crime em tela.

O ódio de qualquer natureza é algo mortal e avesso a qualquer racionalidade. Só se justifica em situações de defesa de uma forte opressão. Ao adotá-lo de modo frívolo e inconseqüente, os personagens do crime em tela optaram por algo vazio e sem sentido. Deverão pagar exemplarmente pelos seus crimes, assim todos os brasileiros conscientes esperam. Todavia, este, bem como outros crimes, deveria também servir para que se compreendessem melhor vários aspectos problemáticos da sociedade brasileira.


* Luiz Carlos Lopes é professor e escritor

Fonte: Site Carta Maior

sábado, 10 de julho de 2010

DEMOCRACIA E CIDADANIA

Por enquanto nossa democracia se resume a voto


Por João Antônio de Paula*

Justificar
Desde que surgiu, ou pelo menos desde que foi fixado conceitualmente, no início do século 16, com Maquiavel, o Estado moderno tem sido objeto de controversas interpretações. Se com Thomas Hobbes ele é afirmado como um monstro necessário, capaz de conter a violência inata da condição humana, com Jacob Burckhardt ele é visto como “obra de arte”, como construção humana equivalente e contemporânea das grandes obras do Renascimento. Tanto essas visões divergentes quanto suas variantes explicitam algo essencial, que é o fato de o Estado estar longe de ser instrumento neutro ou universal. Com efeito, com exceção da visão de Hegel, que fez do Estado, não de qualquer Estado em particular, a realização da liberdade, todas as teses que buscam apreendê-lo não escapam de reconhecer nele aspectos coercitivos ou particularistas. Como se vê, por exemplo, na visão de Max Weber, que o define como “monopólio legítimo da violência”, ou na perspectiva de Marx e Engels, que, caracterizando o Estado burguês, viram-no como “comitê executivo dos negócios comuns da burguesia”.

Os acontecimentos recentes decorrentes da crise econômica instalada em 2008, a decisiva e pronta ação dos governos no salvamento do grande capital, a impressionante “socialização das perdas” praticada pelos governos de países capitalistas mundo afora têm algo de desmitificador ao denunciar a longa e monótona cantilena neoliberal, que dizia querer o Estado mínimo, a total liberdade dos mercados. Entregues a seu único e exclusivo critério, desregulamentados e imunes a todo controle, os mercados voltaram a levar o capitalismo para crise de grandes proporções, que está longe de estar encerrada e que seria ainda mais destrutiva, se não tivesse havido a gigantesca transferência de recursos públicos para o salvamento dos interesses do capital.

Instalada a crise, reconhecidos seus determinantes como decorrentes da farra neoliberal, das suas autopropaladas “milagrosas” inovações financeiras, que pareciam poder produzir riqueza pela simples manipulação de “capital fictício”, os ideólogos e gestores do capital falam, novamente, como foi no contexto da crise iniciada em 1929, em regulação, controle, presença do Estado.

De fato, todos os que compreendem, ainda que parcialmente, o funcionamento da economia capitalista sabem do papel central, insubstituível do Estado na constituição, desenvolvimento e sustentação do capitalismo em variados sentidos.

Nos séculos 17 e 18, momentos particularmente ricos na compreensão do Estado burguês, defrontaram-se duas perspectivas no referente ao papel e significado do Estado: a liberal e a democrática. No campo liberal, Locke disse que o papel do Estado, sua decisiva legitimidade, decorreria de sua capacidade de garantir os três direitos inalienáveis dos indivíduos: o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à propriedade. Apenas na medida em que garantisse esses direitos o Estado se justificaria, sendo legítimo o direito à rebelião todas as vezes que o Estado atentasse contra esses direitos, como foi o caso na Revolução Inglesa do século 17.

Em Thomas Jefferson, na Declaração de Independência dos Estados Unidos, a tríade de direitos de Locke é modificada, superando o liberalismo estrito, ao dizer que os direitos inalienáveis dos indivíduos são o direito à vida, o direito à liberdade e o direito à busca da felicidade, em chave inspirada em Rousseau, que foi o primeiro teórico do Estado a vê-lo como sendo legítimo na medida em que fosse a realização da vontade geral, a qual deveria se sobrepor às vontades individuais, particulares. O limite dessa posição encontra-se em Hegel, quando disse que a liberdade, a verdadeira e legítima liberdade, pressupõe a liberdade de todos, que não há efetiva liberdade, que não seja um direito de todos, que não há liberdade autêntica se prevalecem constrangimentos e coerções, violência e alienação.

É a partir desse ponto que se afirma a posição de Marx, ao dizer que a efetiva realização da liberdade passa pela superação das determinações histórico-materiais, que, sendo os alicerces do capitalismo, determinam-lhe sua organização social, suas formas de consciência e representação, suas estruturas de poder.

Todas as questões mencionadas aqui têm um inequívoco conteúdo histórico. São objetos de disputas permanentes, como está exemplarmente colocado na tese de T. H. Marshall sobre a cidadania. Em texto de 1965, Marshall reconheceu a existência de três dimensões da cidadania: a) a cidadania civil, que inclui os direitos e as liberdades individuais, de palavra, culto, propriedade, o direito de buscar a justiça, sempre que seus interesses tenham sido lesados; b) a cidadania política, referida aos direitos políticos e eleitorais; c) a cidadania social, que contempla o direito ao bem-estar social, o acesso aos bens culturais, à educação, à saúde, à habitação. A esses direitos, é preciso agregar, hoje, o direito ao meio ambiente saudável, a busca da sustentabilidade.

Trata-se, ao considerar essas dimensões da cidadania, de reconhecer as mutações da própria configuração do Estado, que, de estritamente liberal, foi demandado a se tornar democrático e, finalmente, de bem-estar social. Diga-se, desde logo, que estas mutações do Estado burguês não foram naturais, senão que resultado de pressões, de lutas, de mobilizações político-sociais. Uma comprovação disso está exemplarmente posta na frase do político britânico Arthur Balfour: “A legislação social, como a concebo, não deve ser apenas diferenciada da legislação socialista, mas é seu opositor mais direto e seu antídoto mais eficaz”.

De fato, são as lutas sociais que fazem ampliar os direitos sociais: foi a luta socialista, a partir do século 19, que obrigou os governos, a partir da Alemanha, na década de 1880, a instituírem políticas sociais, trabalhistas, previdenciárias, que foram chamadas de bem-estar social. Foi a Revolução Mexicana de 1910, que não só deu início a um massivo processo de reforma agrária, depois revertido, mas que, em 1917, está na base da Constituição Mexicana, a primeira do mundo a estabelecer direitos sociais.

Tem sido lenta, procrastinada, seletiva, contraditória a marcha da implantação e alargamento dos direitos sociais, dos direitos da cidadania no Brasil. A escravidão no Brasil prolongou-se até 1888 e não teve como seu desdobramento necessário a reforma agrária, que teria feito do ex-escravo cidadão de direitos efetivos. As liberdades previstas na Constituição de 1891 foram só as civis e políticas, e, mesmo assim, restringidas porque se vedou o voto aos analfabetos e às mulheres. O Código Civil, de 1916, foi, sobretudo, o instrumento de garantia dos direitos da propriedade. A legislação trabalhista dos anos 1930/40 abarcou apenas os trabalhadores urbanos, e se, efetivamente, significou o atendimento às lutas e demandas dos trabalhadores, a legislação trabalhista foi instrumento de controle e manipulação dos sindicatos.
De fato, Estado de bem-estar-social, no sentido próprio que este significa, nunca tivemos no Brasil: seguro e proteção aos trabalhadores, à infância, aos idosos e aos desempregados; assistência à saúde de qualidade, como também educação pública de qualidade, crítica e pluralista; assistência social e política habitacional digna e massiva.

Desde 1850, o Brasil vem experimentando significativas modificações políticas, econômicas e sociais-culturais, que resultaram no país moderno, majoritariamente urbano e significativamente industrializado de hoje, sem que isso tenha modificado a condição dependente, periférica do desenvolvimento capitalista no Brasil. A superação do subdesenvolvimento – use-se a tese de Amartya Sen, incorporada por Celso Furtado – pressupõe a distribuição primária da renda e esta significa tanto a distribuição da renda e da riqueza, quanto a universalização de habilitações que permitam a autônoma e criativa apropriação das novas tecnologias. Nesse sentido, trata-se de atualizar a agenda para o pleno desenvolvimento econômico, político, social e cultural brasileiro, a partir da compreensão da centralidade de reformas, como a agrária e a urbana, que incorporem o direito à moradia, ao transporte público e ao saneamento, mas que seja, também, a efetiva apropriação da cidade, o predomínio dos espaços públicos, das áreas verdes, dos espaços de lazer e convivência. Finalmente, constate-se que estes objetivos dependem da luta e da mobilização social, que são elas, e apenas elas, que garantem a plena emancipação social, como liberdade e solidariedade, que a democracia, como disse Claude Lefort, deve ser, sobretudo, “invenção permanente de direitos”.


*João Antônio de Paula é economista é pró-reitor de Extensão da UFMG.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 10 de julho de 2010.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A PRAÇA É DO POVO

Arena da "Copa-Cola" (clique para ampliar)

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor

É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor!


O Povo ao Poder - Castro Alves


Por Cléber Sérgio de Seixas

Na antiguidade, os cidadãos gregos discutiam sobre política, realizavam suas cerimônias religiosas, seus tribunais populares, enfim, exerciam sua cidadania em espaços públicos conhecidos como ágoras - vocábulo grego para designar uma espécie de praça, etimologicamente derivado do verbo agorien, que originalmente significava tomar decisões, deliberar, discutir. Se o cidadão grego queria participar da vida social mais ativamente, deveria deixar seu oikos (seu lar, sua casa) e dirigir-se à ágora, um ambiente de convívio mais abrangente. A maior parte das cidades gregas da antiguidade tinha a sua ágora, sendo que a mais famosa era a de Atenas.

Em espanhol diz-se plaza enquanto no italiano pronuncia-se piazza. Já na última flor do Lácio é simplesmente praça. Qualquer que seja a língua, é na praça que o povo se distrai, se descontrai, expande suas fronteiras culturais e traz à luz suas reivindicações. Praça também lembra greve, pois na Place de Grève trabalhadores franceses lutaram por seus direitos no século XVIII. Nem toda praça são flores, como atestam as velas deixadas na Praça da Candelária em memória dos meninos assassinados em julho de 1993. Nesta mesma praça, um milhão de cidadãos exigiu eleições diretas para presidente em 1984.

A praça é do povo. Castro Alves descreveu-a como um antro onde a liberdade cria suas águias. O poeta dos escravos, que tanto cantou a liberdade em sua obra, foi homenageado em uma praça com seu nome em Salvador. Em Belo Horizonte, a Avenida Afonso Pena é marcada em seu percurso por uma grande estátua que evoca o mártir da Inconfidência Mineira: Tiradentes. Outra praça famosa da capital mineira, a Praça Sete de Setembro, marca o centro da cidade e tem em seu centro um obelisco de granito.

Ainda na capital mineira, a Praça da Estação, na verdade Praça Rui Barbosa, é parte de um importante conjunto arquitetônico composto, ainda, pela Serraria Souza Pinto, pelos viadutos de Santa Tereza e da Floresta e pelo Museu de Artes e Ofícios. O conjunto arquitetônico da Praça da Estação passou por reformas e foi entregue à população em 2004 como mais um espaço multicultural.

Na contramão da vocação cultural da Praça da Estação, contrariando a motivação da reforma pela qual passou, um decreto (13.798) assinado no dia 10/12/2009 pelo prefeito Márcio Lacerda, proibiu a realização de eventos de qualquer natureza na praça. A alegação da prefeitura é que a medida foi tomada devido às constantes depredações do local durante os eventos, além das reclamações de vizinhos incomodados com o barulho. Foi criada uma comissão para regulamentar os eventos através do decreto 13.863. Em 05 de maio último a prefeitura estabeleceu, através dos decretos 13.960 e 13961 que a utilização da Praça da Estação para eventos culturais e de lazer está sujeita ao pagamento de uma taxa a partir de 9.600 reais. Tais medidas equivalem à privatização daquele espaço público.

Arena da "Copa-Cola" (clique para ampliar)

A mercantilização da Praça da Estação ficou patente com a instalação naquele espaço de uma das Arenas Coca-Cola Copa do Mundo FIFA. Trata-se de uma megaestrutura composta de palco com equipamentos de luz e som para shows, painel gigante para transmissão dos jogos da Copa, tendas diversas, banheiros químicos, campos de grama sintética, além de espaços destinados à Polícia Militar e ao Corpo de Bombeiros. A entrada está sujeita à doação de 1 Kg de alimento não-perecível porque, afinal de contas, toda megaempresa tem que fazer sua filantropia para ser reconhecida com empresa cidadã.

Tal evento inaugura uma nova era na história daquela praça: aquela na qual só terão acesso àquele espaço os que puderem pagar caro, e muito caro, diga-se de passagem.

O povo de Belo Horizonte, já com poucas opções de lazer e cultura, na prática, perde mais um espaço cultural e de entretenimento. Talvez seja um sinal dos tempos, já que vivemos numa era em que tudo tem seu preço, inclusive a cultura, cada vez mais confundida com entretenimento.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Como nascem os Dungas

Por Miguel Enrique Stédile*

As Copas do Mundo são momentos propícios para identificar valores e princípios difundidos pela Indústria Cultural. A cobertura jornalística enfatiza o indivíduo na livre iniciativa – num suposto “dom” que pode emergir a qualquer momento numa decisiva jogada individual – em analogia às promessas do capitalismo: individualmente, há margens para mobilidade e ascensão social. Entretanto, se esta é a regra para o sucesso – vide os casos de Romário em 94 e Ronaldo em 2002 – ela também é para o fracasso, como o inferno midiático que espera por Felipe Mello.

O volante expulso no último jogo viverá o mesmo tratamento sofrido por Dunga. Não este Dunga, o técnico, mas o volante que em 1990 foi responsabilizado pelo futebol burocrático e pouco competitivo da Copa na Itália. Ou ainda, como Cerezo em 82, Ronaldo em 98 e Roberto Carlos em 2006. Os três jogadores ainda puderam voltar a receber o tratamento típico da indústria cultural como “histórias de superação”.

Com um estilo medíocre e pouco técnico, Felipe Mello dificilmente terá a mesma sorte. Deverá se juntar ao purgatório aonde foram condenados o goleiro Barbosa e os zagueiros da Copa de 1950, todos negros, responsabilizados pela derrota para o Uruguai em pleno Maracanã.

Para além do que pautam os meios de comunicação, a derrota da seleção brasileira deveria servir como momento de reflexão. Em 50, a derrota em meio ao ufanismo que anunciava nosso suposto pertencimento à civilização branca ocidental pôs em cheque tanto a idéia de que havíamos assimilado os parâmetros da modernidade, quanto a harmônica democracia racial que supostamente nos unia. A idéia da “síndrome de vira-latas”, cunhada por Nelson Rodrigues, explicitava justamente este sentimento de incapacidade em nos unirmos às “melhores nações do mundo”, em termos de desenvolvimento. A busca por culpados negros no episódio escancarava a construção que justificava nossa debilidade pela mistura racial.

Em 1998, a gerência das empresas multinacionais de equipamento esportivo – notadamente a Nike – sob a seleção também foi questionada e apontada como provável responsável pela perda do pentacampeonato. Na época, torcedores recepcionaram a seleção derrotada com símbolos da empresa e a pergunta se esta era a nossa bandeira. Em 2006, perguntávamo-nos se aqueles jogadores que haviam enriquecido tanto no mercado mundial de mão-de-obra futebolística ainda poderiam possuir “patriotismo” necessário ou ganas de conquistar uma Copa do Mundo. O ambiente da concentração dominado pelas empresas patrocinadoras, exigindo treinos-espetáculos, e empresários em negociações individuais também foram apontados como causas da falta de vigor patriótico.

Talvez a reflexão que a derrota de 2010 nos ofereça seja questionarmos o suposto destino de sermos inevitavelmente campeões. Enquanto as seleções de Argentina e Japão, por exemplo, foram recepcionados por milhares de torcedores, mesmo com a derrota, a nossa seleção é recebida com hostilidade. O fracasso da nossa seleção será sempre justificado pela falha individual ou alguma ação externa que nos impediu de cumprir um destino inevitável: a conquista da Copa. Esta idéia – a histórica – busca na identidade nacional acionada pelo futebol e na construção de que somos os melhores do mundo neste esporte (e que talvez só nisso sejamos os melhores, segundo este pressuposto) para impulsionar o consumo desenfreado de TVs e bugigangas a cada Copa. Talvez reconhecer nossa humanidade – e logo, a possibilidade de não vencermos sempre – seja o melhor saldo desta derrota.


* Miguel Enrique Stédile é historiador.

Fonte: Agência Brasil de Fato

segunda-feira, 5 de julho de 2010

PARAGUAI, GROSSERIA E PRECONCEITO

Por Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa

Demitido por telefone, conforme anuncia a edição de segunda-feira (5/7) da Folha de S.Paulo, ou pela internet, segundo o Globo, o técnico Carlos Dunga segue de vez para a lata de lixo da história do futebol brasileiro.

Não há contemplação: assim como o goleiro Barbosa foi responsabilizado, durante décadas, pela derrota para o Uruguai na Copa de 1950, Dunga fica para a memória coletiva, juntamente com seu pupilo Felipe Melo, como o símbolo da incompetência em 2010.

Quem decide sobre mocinhos e vilões é a imprensa. E a imprensa decretou que os dois são os culpados pela desclassificação que o país do futebol considerou prematura.

Desde o final da partida de sexta-feira (2/7), contra a Holanda, os analistas vêm desancando o ex-técnico, o irritadiço volante Felipe Melo, que se tornou seu alter ego dentro do campo, e até o armador Kaká, que chegou à seleção como o queridinho da mídia. Sobram adjetivos pesados e o jornalismo se mistura aos mais baixos instintos das arquibancadas.

Mas nada supera, em termos de baixaria, a tentativa desastrada de humor que foi cometida pela equipe do canal SporTV, do Grupo Globo. A vítima não era Dunga e nossa seleção perdedora, mas o Paraguai. Não o time de futebol, mas o país Paraguai e o povo paraguaio. Veja aqui.

Antes do jogo no qual a seleção paraguaia foi derrotada pela Espanha, a emissora colocou no ar uma montagem na qual chama o Paraguai de "paraíso obscuro do mundo". Deprecia a economia, a gastronomia e os atributos físicos dos paraguaios e termina desqualificando sua música popular.

A cantora Ramonita Vera, citada de maneira desrespeitosa, respondeu com classe. "Se nota de longe que os brasileiros não têm humildade", afirmou. E acrescentou, referindo-se ao autor da brincadeira de mau gosto: "Não sei se se pode chamar essa pessoa de jornalista".

Depois do jogo contra a Espanha, a SporTV pediu desculpas, mas de maneira arrogante. Não conseguiu desfazer a impressão de que o jornalismo está sendo invadido pela praga do humor escrachado que grassa na televisão.

Faltou respeito, faltou bom senso, faltou qualidade e faltou humor. Um momento tão feio quanto o pisão de Felipe Melo no adversário holandês.


Abaixo o famigerado vídeo da SporTV.



sábado, 3 de julho de 2010

REPETINDO O MANTRA MIDIÁTICO


Por Cléber Sérgio de Seixas

A seleção perdeu, volta pra casa e aguarda 2014. Fazer o quê? Venceu o melhor. O gol do empate holandês desconcertou o selecionado brasileiro completamente, e a expulsão de Felipe Melo jogou a última pá de cal sobre o sonho do hexa na África do Sul.

Assisti ontem ao jogo na Sport TV e fiz questão de, após o término, mudar para a Globo para ouvir os comentários de Galvão Bueno – o torcedor travestido de comentarista. Ouvi dele o que já era previsto: um discurso que repetia o mantra da falta de peças de reposição no banco e do desequilíbrio emocional irradiado do técnico para os jogadores em campo. Já sabemos que no banco a mídia queria ver Neimar, Ganso e o improvável Ronaldinho Gaúcho. Quanto ao desequilíbrio emocional do técnico da seleção brasileira, ele já era apontado pelos psicólogos a soldo da imprensa logo após o desentendimento de Dunga com um repórter global.

Doravante, o massivo bombardeio de críticas à derrota apagará da memória do torcedor todos os feitos desde que o técnico com apelido de personagem de história infantil assumiu o comando do selecionado brasileiro. O bom futebol apresentado no penúltimo jogo será esquecido, bem como o domínio da seleção no primeiro tempo do último. O discurso do “eu já sabia” ou “era previsível” enterrará todas as glórias da seleção brasileira até então.

A imprensa faz o seu papel e defende seus interesses comerciais que se sobrepõem a quaisquer outros. O triste é ver os torcedores repetindo, com todas as letras, o mantra midiático, feito bonecos de ventríloquo. Dunga será fritado e seu destino será o ostracismo (leiam também "Seleção Brasileira: de João Sem-Medo ao Anão Dunga"). A assim chamada “era Dunga” já é considerada página virada no almanaque futebolístico nacional e o que virá pela frente até 2014 é pura especulação.

O concreto é que na pátria de chuteiras temos quase 180 milhões de técnicos que não aceitam facilmente derrotas e sempre sairão em busca de um bode expiatório para as mesmas.

De minha parte, parabenizo o técnico brasileiro e seu time pelo que apresentaram até aqui, sobretudo pelo primeiro ter “peitado” os interesses dos grandes oligopólios midiáticos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

FUTEBOL É ARTE E RELIGIÃO


Por Frei Betto

Sou um analfubola. Ou seja, nada entendo de futebol. Todas as vezes que me perguntam para qual time torço, fico tão constrangido como mineiro que não gosta de queijo.

Torci, na infância, pelo Fluminense, do Rio, e o América de Belo Horizonte. Influência materna. Mais tarde, fui atleticano por um detalhe geográfico: minha avó morava defronte do estádio, na Avenida Olegário Maciel, na capital mineira. E só. Sem contar a emoção de ter estado no Maracanã na noite de 14 de novembro de 1963 para assistir, misturado a 132 mil torcedores, àquele que é, por muitos, considerado o jogo dos jogos, a disputa entre Santos e Milan pelo Mundial Interclubes!

Hoje, me dou ao luxo de assistir, pela TV, às decisões de campeonato. Escolho para quem torcer. E não perco Copa do Mundo. Jogo do Brasil é missa obrigatória.

Eu disse missa? Sim, sem exagero. Porque, no Brasil, futebol é religião. E jogo, liturgia. O torcedor tem fé no seu time. Ainda que o time seja o lanterninha, o torcedor acredita piamente que dias melhores virão. Por isso, honra a camisa, vai ao estádio, mistura-se à multidão, grita, xinga, aplaude, chora de tristeza ou alegria, qual devoto que deposita todas as suas esperanças no santo de sua invocação.

O futebol nasceu na Inglaterra e virou arte no Brasil. Na verdade, virou balé. Aqui, tão importante quanto o gol são os dribles. Eles comprovam que nossos craques têm samba no pé e senso matemático na intuição. Observe a precisão de um passe de bola! No gramado, imenso palco ao ar livre, se desenha uma bela e estranha coreografia. Faça a experiência: desligue o som da TV e contemple os movimentos dos jogadores quando trombam. É uma sinfonia de corpos alados. Fosse eu cineasta, editaria as cenas mais expressivas em câmera lenta e as adequaria a uma trilha sonora, de preferência valsa, ritmando o flutuar dos corpos sobre o verde do gramado.

O Brasil conta com 190 milhões de técnicos de futebol. Todos dão palpite. E ninguém se envergonha de fazê-lo, como se cada um de nós tivesse, nessa matéria, autoridade intrínseca. Pode-se discordar da opinião alheia. Ninguém, no entanto, ousa ridicularizá-la.
Pena que a violência esteja contaminando as torcidas. Outrora, elas anabolizavam, com sua vibração, o desempenho dos jogadores.

Agora, disputam no grito a prevalência sobre as torcidas adversárias. E, se perdem no jogo, insistem em ganhar no braço. A continuar assim, em breve o campo será ocupado, não pelo time, e sim, como uma grande arena, pelas torcidas. Voltaremos ao tempo dos gladiadores, agora em versão coletiva.

Quando ouço a estridência de vuvuzelas, como um enxame de abelhas a nos picar os tímpanos, penso que os torcedores já não prestam atenção ao jogo. Querem transferir o espetáculo do gramado para as arquibancadas. O ruído da torcida passa a ser mais importante que o desempenho dos jogadores.

Nossa autoestima como nação se apoia, sobretudo, na bola. Não ganhamos nenhum Prêmio Nobel; nosso único santo, frei Galvão, ainda é pouco conhecido; e nossa maior invenção – o avião – é questionada pelos usamericanos. Porém, somos o único país do mundo pentacampeão de futebol. Se a história dos países europeus do século 20 se delimita por duas guerras mundiais, a nossa é demarcada pelas Copas. E nossos heróis mais populares eram ou são exímios jogadores de futebol. A ponto de o mais completo, Pelé, merecer o título de rei.

A Copa é um acontecimento tão importante para o Brasil que, no dia do jogo da nossa seleção, se faz feriado. Se vencemos, a nação entra em euforia. Se perdemos, somos tomados por uma triste estupefação. Como se todos se perguntassem: como é possível o melhor não ter vencido?

Gilberto Freyre bem percebeu que na arte futebolística brasileira mesclam-se Dionísio e Apolo: a emoção e a dança dos dribles são dionisíacos; a força da disputa e a razão das técnicas, apolíneos.
Criança, eu escutava futebol no rádio. Quanta emoção! Completava-se a imaginação com a descrição do narrador. Hoje, não há locutores na transmissão televisiva, apenas comentaristas. São lerdos, narram o óbvio e, palpiteiros, com frequência esquecem o que se passa no campo e ficam a tecer considerações sobre o jogo com seus assistentes.

“Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma”, poetou Carlos Drummond de Andrade. Com toda a razão.


Fonte: caderno de cultura do jornal Estado de Minas - edição de 01/07/2010.