Primavera Sul-Americana

A liberdade guiando o povo, quadro de Delacroix


"Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira"
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Ernesto "Che" Guevara


Por Cléber Sérgio de Seixas

Um espectro ronda a América do Sul: o espectro do progressismo. A grande potência do norte se alia às burguesias conservadoras e entreguistas do continente numa “santa aliança” para erradicar o protagonismo político e social atualmente experimentado por algumas nações do cone sul. Que governante progressista sul-americano – Chávez, Correa, Morales, Lula, Lugo – nunca foi qualificado como demagogo, populista, extremista ou aliado do narcotráfico?

A paráfrase com as palavras do Manifesto do Partido Comunista de 1848 é oportuna nesses tempos em que as nações sul-americanas passam por profundas mudanças que podem resultar na quebra de um paradigma, qual seja, o de serem meros satélites orbitando em torno dos interesses de Washington.

Por muitos anos os rumos da política e da economia dos países sul-americanos foram impostos conforme as diretrizes estadunidenses. Nos anos 60, a Aliança para Progresso representava a reação de Washington frente aos avanços da influência da Revolução Cubana no continente. À assistência financeira e técnica seguiu-se o patrocínio a golpes de Estado. A Operação Condor tratou de garantir a permanência no poder dos militares golpistas, títeres da Casa Branca.

No Brasil, a bala que Getúlio Vargas meteu no peito adiou o golpe militar por dez anos. Assim, em abril de 1964, a participação popular nos rumos da política brasileira era violentamente refreada pelos militares: prevenção ao “esquerdismo” que tomava conta do governo Jango.

Quando o “milagre econômico” brasileiro chegou a seu fim, as justificativas para a truculência dos anos de chumbo não existiam mais. Uma détente fez-se necessária e uma transição “lenta, gradual e segura” foi posta em marcha. Nesse ínterim, as manifestações populares ganharam fôlego, tendo sido expoentes as greves do ABC e o movimento Diretas Já. Foi nesse contexto que um acordo das elites com os militares – do qual o povo foi alijado – resultou na condução indireta de Tancredo Neves à presidência da República.

No entanto, o Moisés mineiro não chegou a entrar na terra prometida. O vice, José Sarney, assumiu em meio a uma grave crise econômica. Em seguida, assolado por uma galopante inflação, o Brasil, 29 anos depois, elegia um presidente pelo voto direto. O governo de Fernando Collor de Mello introduziu o país no neoliberalismo, norteando-se pelos ditames preconizados pelo Consenso de Washington. Um impeachment retirou do poder aquele que fora o trunfo das elites contra a “ameaça comunista” que Lula supostamente encarnava.

Domada a inflação pelo Plano Real, o país mergulhou de vez no neoliberalismo, seguindo a risca sua cartilha. No final da era FHC, cuja gestão foi marcada pela repressão a movimentos sociais, por privatizações e pelo sucateamento do setor público, o Brasil estava quebrado e não eram poucos os que comparavam a situação financeira do país à grave crise econômica que assolava a Argentina.

Eis que em 2002 um paradigma é quebrado nas urnas. Pela primeira vez o povo brasileiro elegia um candidato a sua imagem e semelhança. A esperança venceu o medo tão propalado por Regina Duarte e pela mídia contrária a Lula.

Um operário na presidência, no entanto, não significa a classe operária no paraíso. Continuamos com um salário mínimo cujo valor ainda não cobre todas as necessidades de uma pequena família, com serviços de saúde e educação de qualidade ainda constituindo objetivos a serem alcançados e com a segurança pública permanecendo como um dos calcanhares de Aquiles da questão social brasileira.

Por outro lado, pode ser dito com toda segurança que nunca como agora os brasileiros pobres estiveram tão em condições de superar o estágio de pobreza e galgar degraus na escala sócio-econômica. Desde os tempos da ditadura militar não se via um crescimento econômico tão pujante. A diferença é que agora o bolo da riqueza tem sido repartido – de forma tímida ainda, diga-se de passagem - e não abocanhado por uns poucos gulosos como nos tempos da elite fardada. Do Prouni ao Bolsa Família, muitos são os programas sociais que tem possibilitado maior inserção social e fomento ao consumo. Os pobres agora também andam de carro, viajam de avião, se assentam em bancos de faculdade e adquirem eletrodomésticos como microondas e computadores - produtos cuja posse em tempos passados era proibitiva aos da classe C, D e E. Some-se a tudo isso a projeção que o governo Lula proporcionou ao país no exterior, sobretudo depois que a crise econômica passou pela terra brasilis feito uma “marolinha’.

Tal protagonismo, embora em graus e formas diferentes, também tem sido levado a cabo por outras nações sul americanas. O assim chamado socialismo do século XXI – teoricamente protagonizado pelos governos de Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa – pode ser melhor definido pelo que não é do que pelo que é. Em outras palavras, trata-se de um socialismo que procura nortear-se pelas lições resultantes dos erros do socialismo real, conforme as experiências soviética, chinesa, cubana e outras. É possível arriscar uma maior participação popular como um dos princípios basilares de tal socialismo, tal como já atestaram, por exemplo, a utilização de referendos revogatórios por parte de Chávez e Morales.

Preocupado com sua hegemonia na região, o império estadunidense se articula para deter a primavera dos povos que toma de assalto o sub continente. A recente reativação da Quarta Frota é um indício claro de tal rearticulação. Um ensaio já foi feito em Honduras. Enquanto este artigo era escrito, a Venezuela se precavia de um possível ataque de sua vizinha Colômbia – resultado de uma animosidade há muito instilada pela Casa Branca.

Os EUA sabem o quão importante é desestabilizar a região, pois quanto mais fizerem valer a máxima de “dividir para conquistar”, tanto mais sua hegemonia será garantida. Tentarão de todas as formas deter a primavera. Resta aos sul-americanos zelar pela soberania de suas nações e aperceberem-se dos ataques diretos e indiretos do império do norte.

Comentários

Daryl Steel disse…
Eu acho que na América Latina, não haverá um movimento de indignados como na Europa porque nossos países têm economias estáveis. Eu sou um empregado em sul américa saúde e de fato que os salários de empresas como estes são muito bons.