domingo, 15 de maio de 2016

Um discurso temerário



Por Cléber Sérgio de Seixas

O ambiente do primeiro discurso de Michel Temer como presidente interino deu a tônica do que serão os próximos 02 anos caso o impeachment de Dilma se confirme. A julgar pelo que se viu e ouviu na última quinta-feira, depreende-se que a gestão Temer será de um governo de ricos para ricos, que privilegiará as classes mais abastadas e o rentismo, e onde as minorias não terão vez nem voz. O mise-en-scène bem que procurou transmitir austeridade ao evento, mas não conseguiu esconder o caráter conservador e elitista do novo governo. Não se viu ali nenhuma ministra mulher ou negra, pelo contrário, o staff do presidente provisório é exclusivamente composto de brancos e ricos. 

Sem trocadilhos, mas tratou-se de um discurso, para dizer o mínimo, temerário. Temer citou a crise atual por três vezes em seu pronunciamento à nação: 
- “Partidos políticos, lideranças e entidades organizadas e o povo brasileiro hão de emprestar sua colaboração para tirar o país dessa grave crise em que nos encontramos”. 
- “O Brasil, meus amigos, vive hoje sua pior crise econômica”.
Na terceira vez em que o vocábulo crise foi utilizado, Temer o fez dando a entender que durante seu governo o termo será varrido do léxico:
- “Dizia aos senhores que a partir de agora nós não podemos mais falar em crise. Trabalharemos. Aliás, há pouco tempo, eu passava por um posto de gasolina, na Castelo Branco, e o sujeito botou uma placa lá: ‘Não fale em crise, trabalhe’. Eu quero ver até se consigo espalhar essa frase em 10, 20 milhões de outdoors por todo o Brasil, porque isso cria também um clima de harmonia, de interesse, de otimismo, não é verdade? Então, não vamos falar em crise, vamos trabalhar”. 

O novo presidente não precisa se preocupar, pois a responsabilidade de banir o termo crise do vocabulário do brasileiro pelos próximos dois anos ficará a cargo do maior aliado do governo interino: a grande mídia comercial, o parceiro de todas as horas dos governos burgueses e conservadores. Doravante, a abordagem em relação à inflação, ao desemprego, aos problemas em saúde, segurança e educação far-se-á sob nova roupagem, instando os trabalhadores brasileiros a arcar com o ônus da resolução da crise à moda neoliberal. 

“A crise é de caráter”, bradava o vereador mineiro Wilson Tropia nos idos de 90. Naquele tempo, era comum ouvir: “em momentos de crise, retire o ‘s’ ”.  Ambas as frases denunciam a metodologia neoliberal de remeter a resolução de problemas sociais ao âmbito pessoal, isentando o poder público de responsabilidades e ao mesmo tempo atomizando os indivíduos, assim afastados de causas coletivas. É como se dissessem: “a sociedade não está em crise; você, sim, está em crise”, ou “ não há problemas a sua volta, o problema está em você, bem como a solução só depende de você mesmo”. Talvez isso explique o porquê de a literatura de auto-ajuda ter se popularizado tanto no Brasil a partir dos fatídicos anos 1990. Naquela década, por exemplo, o desemprego era tratado como “oportunidade” para “repensar” a carreira e dar à mesma novos rumos. Só esqueceram de combinar com os suecos como um trabalhador desempregado daria novos rumos à carreira enquanto as dívidas aumentavam e os filhos clamavam pelo pão de cada dia. A crise existia – e por conta da má gestão pública, diga-se de passagem – mas o governo, assessorado pelos meios de comunicação, induziam ao pensamento de que bastava esforço e criatividade para que o trabalhador superasse as dificuldades e alcançasse patamares superiores. 

Um parêntese: a alusão de Temer ao trabalho enquanto panaceia para a crise traz à lembrança uma frase famosa que os nazistas utilizaram durante o Holocausto. Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”) emoldurava a entrada de vários campos de concentração e extermínio. Tal como os nazistas queriam enganar os judeus que adentravam nos campos de concentração, bem como toda a sociedade, em relação ao que realmente ocorria dentro daqueles lugares, a mídia nacional, sumindo com a crise do noticiário, tenciona ludibriar a opinião pública induzindo-a à crença de que basta trabalhar para se contornar a crise, bem como alcançar todos os objetivos. Sabe-se, hoje, que o trabalho não salvou um grande número de judeus da morte. Da mesma forma, o trabalho, apenas, não livrará o trabalhador brasileiro das agruras econômicas que se avizinham. Fecha parêntese.

Sumindo com a palavra crise do noticiário e, por extensão, do imaginário popular, Temer e seus asseclas pretendem pacificar a nação obtendo, assim uma pax burguesa: “Reitero, como tenho dito ao longo do tempo, que é urgente pacificar a Nação e unificar o Brasil”. Em outro trecho, asseverou: “Muito bem, nesta Constituição, a independência nacional, a defesa da paz e da solução pacífica de conflitos”. Temer continuou: “E traça uma imagem de um País pacífico e ciente dos direitos e deveres estabelecidos pela nossa Constituição”. Por fim, um apelo à ordem, com base na frase estampada na bandeira: “O nosso lema - que não é um lema de hoje -, o nosso lema é Ordem e Progresso”. Diante das falas do presidente interino deve-se indagar quem no país lucrará com a paz e a ordem em tais moldes.

Antes de finalizar, uma pequena constatação: o local onde se encontra a frase avistada e citada por Temer em seu temerário discurso fica no Km 68 da Rodovia Castelo Branco, a 70 Km de São Paulo. Segundo reportagem recente da Folha de São Paulo, trata-se de um posto de gasolina desativado, onde também funcionam uma loja de móveis rústicos e uma série de pequenos negócios que parecem estar às moscas. De acordo com matéria do Jornal Extra, o dono do local, o senhor João Mauro de Toledo Piza, o Joca, que mandou instalar a placa com os dizeres, estaria preso cumprindo pena de 08 anos em regime fechado por homicídio. 

Um comentário:

José Ribamar disse...

Parabéns pelo belo texto. Sempre acompanho seus textos, pois são muito esclarecedores e dao uma visão sobre os momentos tão difíceis em que nosso povo está passando. Sabemos que quando este cruel e sujo golpe se consolidar, nosso povo sofrido irá novamente se recolher nos tristes bolsões da indigencia e da dor.
Por isso peço encarecidamente ao amigo Cleber que nunca deixe de ser a voz do nosso povo sofrido, que no frigir dos ovos sempre paga o pato.