O banho do cidadão não é o culpado


A tragédia do Mar de Aral deve servir de alerta

Por Cléber Sérgio de Seixas

A racionalidade no consumo de água deve ser uma realidade no cotidiano de qualquer cidadão, não importa em que parte do Globo se encontre ou qual seja sua condição socioeconômica, e deve levar em conta tanto a finitude do “ouro azul” quanto sua importância para a sobrevivência dos seres vivos. Se o surgimento de água e o aumento dos oceanos forneceram o ambiente para que a vida proliferasse em nosso planeta, a diminuição desse bem precioso pode anunciar o início do fim das espécies.

Ultimamente, a parcimônia no consumo da água tem sido estimulada em função de premissas que revelar-se-ão falsas se postas sob a lupa de análises honestas. No contexto da estiagem, aqui e acolá, os brasileiros, sobretudo os do sudeste, têm sido instados a serem ligeiros no banho, a deixarem abertas as torneiras por menos tempo e, se possível, a reutilizarem suas águas. Súbito, uma preocupação que inexistiu no imaginário popular por décadas floresce como que no ritmo do crescimento dos cogumelos, a ponto de quase tornar-se um lugar-comum. 

Recentemente, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) pediu aos mineiros que economizem 30% de água, sob pena de uma possível instauração de racionamentos, rodízio no fornecimento de água ou pagamento de multas pelo excesso de consumo, caso a cifra supracitada não seja alcançada. 

Antes de se abraçar uma campanha que ponha a culpa da escassez de água no consumo hídrico do cidadão médio, algumas perguntas simples deveriam ser feitas, tais como: 
- Qual ou quais as causas da estiagem que assola, sobretudo, as regiões sudeste e centro-oeste?
- Até que ponto a estiagem decorre das ações do homem sobre o meio ambiente?
- Quais são os maiores consumidores (desperdiçadores) de água?
- Os que mais consomem água estão sendo taxados da mesma forma que aqueles que gastam menos?
- A economia de água potável levada a cabo pela população resolverá o problema da escassez?

À luz dessas perguntas, deve-se buscar fora do país exemplos de otimização da utilização dos recursos hídricos que resultem em economia do consumo de água. Além disso, experiências negativas de outros países devem alertar para os efeitos predatórios da ação humana sobre a natureza.

A devastação da Amazônia e a tragédia do Mar de Aral 

Pesquisas recentes, como a do cientista do INPE Antônio Donato Nobre, apontam que o desmatamento da Amazônia afeta o clima de outras regiões. Assim sendo, é possível afirmar que a seca que assola algumas regiões do Brasil, sobretudo a Sudeste, é consequência direta de atividades econômicas predatórias sobre amplas áreas da floresta amazônica.

Há décadas a Amazônia tem sido devastada pela extração madeireira e pela agropecuária – o que, em outros tempos, foi incentivado pelo Governo Federal, principalmente quando da abertura da Rodovia Transamazônica. Da noite para o dia, através de motosserras, tratores com correntes e queimadas, com a derrubada ocasional de árvores centenárias, amplas áreas são transformadas em pasto para gado bovino ou em plantações de soja. No entanto, a atividade econômica que está destruindo a Amazônia tem suas demandas fora daquele bioma, tendo sua produção escoada para outras regiões do Brasil e para o exterior. Nos bastidores da derrubada de cada árvore na Amazônia encontra-se, sobretudo, o mercado exportador. 

Guardadas as devidas proporções, a mão do homem que está flagelando a região amazônica é a mesma que, praticamente, transformou o Mar de Aral num deserto. Aquele mar - na verdade um lago -, localizado nos territórios do Cazaquistão e do Uzbequistão, já foi o quarto maior lago do mundo. Desde o fim da Primeira Guerra Mundial o Aral vinha diminuindo em decorrência de projetos de irrigação que utilizavam as águas de seus afluentes para a produção de alimentos e, sobretudo, algodão.  Em 2007, o que restava do Aral correspondia a 10% de seu tamanho original. Foram necessários apenas 40 anos para que os 60 mil quilômetros quadrados de água do Aral desaparecessem. 

A monocultura é protagonista em ambas as catástrofes: o algodão, no caso do Aral, e a soja, no caso da Amazônia. 

O agronegócio, os pivôs centrais e o exemplo que vem de Israel

Estudo recente da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Embrapa apontou a existência de 18 mil pivôs centrais no Brasil. Mais de 90% dos pivôs centrais no país estão concentrados nos estados de Minas Gerais, Goiás, Bahia e São Paulo. Minas Gerais é o estado que apresenta a maior quantidade (31%) de áreas irrigadas por pivôs. 

Sabe-se, hoje, que a agricultura irrigada é responsável por cerca de 72% do consumo de água no Brasil, e que a maior parte deste consumo não é paga. 

Segundo o engenheiro agrônomo Antônio Pascoaleto, professor de engenharia ambiental do Instituto Federal Goiano (IFG) e coordenador do mestrado em Desenvolvimento e Planejamento Territorial da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), um pivô central trabalhando 10 horas tem um consumo de água equivalente ao gasto diário de uma cidade de 13 mil habitantes. Em outras palavras, enquanto uma pessoa consome, em média, 200 litros de água por dia, um pivô central demanda 2,6 milhões de litros por hora. 

Enquanto, no Brasil, o agronegócio faz uso desmedido dos recursos hídricos em processos de irrigação, há países que sofrem com a escassez de água e, no entanto, alcançam patamares elevados de produtividade agrícola. É o caso de Israel, nação cuja extensão territorial é menor que a do estado de Sergipe e, no entanto, apresenta uma agricultura cujos índices produtivos impressionam. Os excelentes resultados alcançados pela agricultura israelense decorrem da estreita parceria entre agricultores, governo e cientistas que remonta aos anos 60 do século passado. Tal parceria tem raízes mais profundas nos Kibutz, fazendas coletivas criadas pelos primeiros colonizadores de Israel. 

Para superar a aridez do território, a agricultura israelense se vale de técnicas como dessalinização da água do mar, reciclagem da água de esgoto doméstico, bombardeio de nuvens para provocar chuvas e irrigação por gotejamento. 

Os minerodutos

Em 2014 foi inaugurado o maior mineroduto do mundo, o Minas-Rio, cujos 529 quilômetros de extensão ligam Conceição do Mato Dentro (MG) ao porto de Açu (RJ). Em seu curso, atravessando 33 municípios, o mineroduto de propriedade da empresa Anglo American, causa danos ambientais como poluição de rios e eliminação de nascentes. Prevê-se que, por ano, o Minas-Rio transporte 26,5 milhões de toneladas de minério de ferro. 

Basicamente, o mineroduto é uma tubulação utilizada para transportar minério com um custo mais baixo. A mistura que é transportada - chamada de polpa - consiste em 35% de água e 65% de minério. O custo mais baixo do transporte do minério é relativo a outros modais de transporte, como o rodoviário e o ferroviário. É mais barato liquefazer o minério de ferro e transportá-lo em dutos rumo aos portos do que fazer o transporte a seco do produto em vagões de trem ou em carrocerias de caminhões. Enquanto o custo para transportar minério via ferrovias é de cerca de 18 dólares por tonelada, via minerodutos o curso cai para, aproximadamente, 2 dólares por tonelada. 

Os defensores da construção de dutos para transporte de minérios destacam as vantagens ambientais desse meio de transporte sobre os demais. Apontam que o transporte de minério por caminhões geraria emissões de poluentes e acidentes nas rodovias. Sublinham, também, que a construção de um mineroduto geraria menos impacto ambiental que construir uma ferrovia ou rodovia. 

No entanto, o maior ônus dessa opção é o altíssimo consumo de água envolvido no processo. Só para ficar no exemplo da Anglo American, a mina e o mineroduto desta empresa consomem juntos 2.500 metros cúbicos de água por hora, o que daria para abastecer uma cidade de 220 mil habitantes. O consumo de água dos quatro complexos de minerodutos ativos em Minas Gerais (Minas-Rio, Mineroduto Samarco, Mineroduto Ferrous e Mineroduto Manabi) seria suficiente para abastecer 1,6 milhão de pessoas. 

Conclusão

Enquanto estados da federação como Minas Gerais e São Paulo sofrem com a falta de chuvas, o consumo de água de setores empresariais não são alvo de debates ou campanhas, sabendo-se que o agronegócio, a mineração e a indústria são os maiores consumidores de água e predadores do meio ambiente. Os números gritam aos ouvidos. Contudo, não se tem visto campanhas educativas dedicadas a disciplinar o consumo hídrico dos setores supramencionados, nem ações mais efetivas no sentido de puní-los pelos danos ambientais decorrentes de suas atividades.

Assim sendo, qualquer campanha que vise recuperar a capacidade de nossos reservatórios também deve incluir em seu escopo ações que visem à proteção ao meio ambiente e à redução do consumo de água dos setores agrícola, industrial e minerador. Jogar a culpa da escassez de água apenas no banho do cidadão é, para dizer o mínimo, desonestidade intelectual. 

Nunca, como agora, a atividade humana alterou tão rapidamente o clima do planeta. Se é necessário educar para alterar hábitos, com vistas à preservação do meio ambiente e à manutenção do mineral mais precioso em níveis seguros, que essa conscientização não se circunscreva apenas à população, mas alcance outros setores econômicos, que são, verdadeiramente, os maiores vilões dessa história. 

Comentários

Anônimo disse…
JESUS CRISTO; EIS O QUE PRECISAMOS. O OURO JÁ ERA...DESMATA AMAZÔNIA,DESTRÓI PAÍSES... SÓ O EVANGELHO MESMO. SE TODOS OS PODEROSOS SEGUISSEM CARTILHA DE JESUS CRISTO E DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS, O MUNDO SERIA OUTRO!