segunda-feira, 28 de outubro de 2013

História de um naufrágio


É preciso olhar de frente e sem ilusões: a social-democracia e o socialismo europeus acabaram. Acabaram como utopia, como ideologia e como projeto político autônomo. De forma inglória, na Itália, Grécia, Portugal e Espanha, e de forma desastrosa, na França de Françoise Hollande, com sua xenofobia e seu “belicismo humanitário”; e na Alemanha, dos governos de coalisão e da submissão social-democrata, ao conservadorismo de Angela Merkel, com sua visão “germanocentrica” e hierárquica da União Europeia, e da sua relação com o mundo islâmico. Este espetáculo terminal, entretanto, inscreve-se numa longa história que começou no fim do século XIX, e atravessou várias “revisões” teóricas e estratégicas, e inúmeras experiências parlamentares e de governo, que foram alterando, progressivamente, através do século XX, os objetivos e a própria identidade do socialismo europeu, até chegar ao desastre atual.

Tudo começou em 1884, com a defesa de Eduard Bernstein, da necessidade de modificar ou reinterpretar algumas teses marxistas clássicas sobre a “luta de classes” e a “revolução socialista”, à luz das grandes transformações capitalistas das últimas décadas do século XIX, e das necessidades da luta eleitoral do partido social-democrata alemão, que era o mais importante da Europa, naquele momento.  Segundo Bernstein, o progresso tecnológico e a centralização e internacionalização do capital haviam mudado a natureza da classe operária e a própria dinâmica do sistema capitalista, cujo desenvolvimento histórico já não apontaria mais na direção  da “pauperização crescente”, da “crise final” e da “revolução socialista”.

Como consequência, Bernstein propunha que os social-democratas abandonassem a  “via revolucionária”, e optassem pela via eleitoral e parlamentar de transformação continua,  reformista e endógena do próprio capitalismo. As ideias e propostas de Bernstein privilegiavam incialmente a questão parlamentar, e foi só mais tarde que tiveram um peso importante na decisão dos social-democratas de participar dos governos de “união nacional’ ou de “frente popular”, junto com outras forças políticas mais conservadoras, para enfrentar os efeitos devastadores da I Guerra Mundial,  e da crise econômica da década de 30. 

sábado, 19 de outubro de 2013

Os 100 anos de Vinícius - O operário em construção

(Ricardo Alfieri/Wikimedia Commons)

Por Cléber Sérgio de Seixas

Se ainda estivesse entre nós, Vinícius de Moraes completaria hoje um século de vida. O poetinha, como era carinhosamente chamado, foi autor de vasta obra, e com desenvoltura transitava pela literatura, música, teatro e cinema. 

Famoso por seus poemas e sonetos, teve parceiros de peso no meio musical, como Tom Jobim, Toquinho, Baden Powel, João Gilberto e Chico Buarque. Fazendo jus aos versos de seu poema "Soneto de Fidelidade", seus amores foram infinitos enquanto duraram, como atestam seus nove casamentos. 

Replicamos abaixo um de seus mais célebres poemas, "O Operário em Construção".  



E o Diabo, levando-o a um alto monte,
 mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. 
E disse-lhe o Diabo: — Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, 
porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, 
se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: 
— Vai-te, Satanás; porque está escrito: 
adorarás o Senhor teu Deus 
e só a Ele servirás 
(Lucas, cap. IV, versículos 5-8).


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas 
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia 
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado 
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia 
Exercer a profissão.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Detesto aquele papo de que é possível educação de qualidade sem recursos

Por Leonardo Sakamoto em seu blog

Ai, como eu detesto aquele papinho-aranha de que é possível uma educação de qualidade com poucos recursos, usando apenas a imaginação. Aulas tipo MacGyver, sabe? “Agora eu pego essa ripa de madeira de demolição, junto com esses potes de azeitona usados, coloco esses dois pregadores de roupa, mais essa corda de sisal… Pronto! Eis um laboratório para o ensino de química para o ensino médio!”

É possível ter boas aula sem estrutura? Claro. Há professores que viajam o mundo com seus alunos embaixo da copa de uma mangueira, com uma lousa e pouco giz. Por vezes, isso faz parte do processo pedagógico. Em outras, contudo, é o que foi possível. Nesse caso, transformar o jeitinho provisório em padrão consolidado é o ó do borogodó. Pois, como sempre é bom lembrar, quem gosta da estética da miséria é intelectual, porque são preferíveis escolas que contem com um mínimo de estrutura. Para conectar o aluno ao conhecimento. Para guiá-lo além dos limites de sua comunidade.

“Ah, mas Sakamoto, seu chato! Eu achei linda a história da Ritinha, do Povoado Todecas Tigo, que passa a madrugada encadernando sacos de papel de pão, transformando-os em cadernos e apontando lascas de carvão, que servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para 176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha, deu um depoimento emocionante ao Globo Repórter, dia desses, dizendo que, apesar da parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um deve fazer sua parte.”

Para quem não se lembra, Joãozinho é velho personagem deste blog. Ele comia biscoitos de esterco com insetos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (às vezes, contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada com sentimento de culpa ou feeling para ganho de imagem institucional), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje, é presidente de uma multinacional.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O homem é aquilo que faz

Por Jeferson Malaguti Soares*

Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo, escritor e crítico francês, em um seu opúsculo sobre o existencialismo e o humanismo, define com uma clareza solar que ”o homem não é mais  que o que ele faz”. Este seria o primeiro princípio do existencialismo.  

Apesar de nossa tendência em não escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem para nós e,  nem sempre para o outro. Este é o homem moderno, neoliberal, burguês, capitalista, explorador, rentista. Um homem que não trabalha para o futuro. Um homem do aqui e agora. Um homem que teme desafios, não arrisca. Não é difícil desvendar suas fraquezas, suas contradições, seu oportunismo barato. Nada mais próximo do político hodierno. O terreno da vulgarização é o seu habitat. 

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), suíço, um dos maiores filósofos do iluminismo, nos fala da lei do mais forte: ”o mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o senhor, senão transformando sua força em direito e a obediência em dever”. Mais adiante, diz: ”a força é um poder físico; não imagino que moralidade possa resultar de seus efeitos”. 

Com efeito, acredito que ditadores de hoje e de ontem não tenham lido Rousseau e, se o fizeram ou fazem, é apenas para se certificarem que, apesar de estarem no caminho errado, vão permanecer nele. Cito ditadores não apenas aqueles que surrupiam o poder de outrem, mas também os donos do mundo de hoje, imperialistas impositivos. Não podemos isentar deste modelo os cidadãos de países imperialistas pois, a vocação imperial não pode ser realizada sem a ampla participação do povo nos negócios públicos. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Fotos e fatos - A paixão do Che


Por Cléber Sérgio de Seixas

No dia 9 de outubro de 1967, um guerrilheiro faminto, sujo e maltrapilho era capturado e assassinado aos pés dos Andes bolivianos, especificamente no povoado de La Higuera. Seus algozes - militares bolivianos financiados e treinados pela CIA e pelo exército norte-americano que haviam empreendido uma caçada de onze meses - fizeram questão de fotografar os instantes finais do prisioneiro, bem como seu cadáver crivado de balas. 

A foto acima foi tirada no dia 10 de outubro de 1967 pelo fotógrafo boliviano Freddy Alberto. O prisioneiro executado era Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como Che Guevara, médico que se tornou guerrilheiro, argentino que se fez cubano e cidadão do mundo e, morto, tornou-se lenda. A foto do corpo de Che estirado sobre a lavanderia de um hospital da cidade de Vallegrande, Bolívia, intitulada “A Paixão do Che” pelo autor, para alguns parece evocar a figura do Cristo morto. De fato, pode-se traçar como paralelo entre os dois o fato de ambos terem sido vítimas dos dois maiores impérios que a humanidade conheceu: Cristo foi assassinado pelo Império Romano e Che pelo norte-americano. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A judicialização da política



Por Cléber Sérgio de Seixas

A aceitação dos embargos infringentes pelo STF, num apertado placar de 6 a 5, com o voto de minerva sendo proferido pelo decano Celso de Mello, foi um balde de água fria sobre as expectativas daqueles que queriam ver os réus da Ação Penal 470 sumariamente condenados. Os ânimos dos que torciam pela condenação imediata foram insuflados pela mídia, por muitos considerada o quarto poder da República com prerrogativa sobre os demais poderes. Desde o início, ficou patente a pressão da mídia hegemônica sobre os ministros do STF para que estes julgassem com severidade desmedida os réus do assim chamado “mensalão”. 

É preciso sublinhar que, hoje, tais meios fazem as vezes de um partido de oposição, já que os partidos que se opõem aos governos progressistas de Lula e Dilma não têm propostas para o Brasil além daquelas de cunho neoliberal que aqui foram aplicadas nos anos 90, nos governos Collor e Itamar e durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, e que ora estão promovendo um processo de “américo-latinização” em países como Portugal, Espanha e Grécia. A oposição e seus asseclas na grande mídia prescrevem o já manjado receituário neoliberal: privatizações, desregulamentação da economia e cortes nos gastos sociais. 

De uns anos pra cá, os ministros do STF deixaram de ser apenas juízes da mais alta corte brasileira para se tornarem verdadeiras celebridades. A constante exposição de ministros na mídia oposicionista, suas manifestações fora dos autos, o seguir de seus passos como se fossem pop-stars, por vezes os levaram a decidir de forma política e não tecnicamente. Quem esperava que a Ação Penal 470, também chamada de “mensalão”, fosse julgada de forma estritamente técnica se decepcionou. Joaquim Barbosa liderou um julgamento no STF que tinha tudo para ser técnico, mas tornou-se político na pior acepção da palavra, perdendo a isenção que dele se esperava.

Matamos Amarildo



Quando o Capitão Nascimento, com o coturno na garganta do traficante “Baiano”, entregou a escopeta nas mãos do Soldado Mathias e determinou a execução do bandido com um balaço no rosto, as salas de cinema do Brasil vibraram como torcida em final de campeonato. Como em uma arquibancada, houve quem se levantasse e aplaudisse a cena de pé, algo inusitado para uma sessão de cinema. O Brasil que pedia direitos humanos para humanos direitos estava vingado.

José Padilha precisou praticamente desenhar, em Tropa de Elite 2, que aquela escopeta estava voltada, na verdade, para o rosto da plateia. Mas a plateia, em sua sanha punitiva, parecia incapaz de refletir e entender que a tortura, os sacos plásticos e a justiça por determinação própria eram a condenação, e não a redenção, de um país de tragédias cotidianas. Nos dois filmes, todos estavam de alguma forma envolvidos na criminalidade – corruptos e corruptores, produtores e consumidores, eleitos e eleitores – mas só alguns iam para o saco de tortura. As consequências dessa indignação seletiva estavam subentendidas, mas muitos não as captaram: nas camadas superficiais da opinião pública, o apelo a soluções simples é sempre tentador. (Em uma das cenas do segundo filme, Nascimento é aplaudido de pé ao chegar a um restaurante de bacanas após comandar o massacre em um presídio. Padilha mostrava ali que a que violência denunciada em Tropa de Elite não era só caso de policia, mas uma chaga aberta e diariamente cutucada por quem recorre, no discurso ou na ação, a soluções arbitrárias contra um caos legitimado).