sábado, 14 de novembro de 2015

O que está em jogo



Por Boaventura de Sousa Santos

O fenômeno não é só português. É global, embora em cada país assuma uma manifestação específica. Consiste na agressividade inusitada com que a direita enfrenta qualquer desafio a sua dominação, agressividade expressada em uma linguagem abusiva e recorrendo a táticas que beiram os limites do jogo democrático: manipulação do medo para eliminar a esperança, falsidades proclamadas como verdades sociológicas, destempero emocional na confrontação de ideias, etc. Por direita entendo o conjunto das forças sociais, econômicas e políticas que se identificam com os desígnios globais do capitalismo neoliberal e com o que isto implica em termos de políticas nacionais, do aumento das desigualdades sociais, da destruição do Estado de bem-estar, do controle dos meios de comunicação e do estreitamento da pluralidade do espectro político. De onde vem este radicalismo exercido pelos políticos e comentaristas que até a pouco pareciam moderados, pragmáticos, realistas com ideias ou idealistas sem ilusões? Em Portugal estamos entrando na segunda fase de implementação global do neoliberalismo. A escala mundial deste modelo econômico, social e político apresenta as seguintes características: priorização da lógica do mercado na regulação não só da economia, mas também da sociedade em seu conjunto; privatização da economia e liberalização do comércio internacional; demonização do Estado como regulador da economia e promotor de políticas sociais; concentração da regulação econômica global em duas instituições multilaterais, ambas dominadas pelo capitalismo euro-norteamericano (o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional) em detrimento das agências da ONU que anteriormente supervisionavam a situação global; desregulação dos mercados financeiros, substituição da regulação econômica estatal (hard law) pela auto-regulação controlada pelas empresas multinacionais (soft law). 

A partir da queda do muro de Berlim, este modelo foi assumido como a única alternativa possível de regulação social e econômica. Desde então, o objetivo foi transformar a dominação em hegemonia, ou seja, fazer com que inclusive os grupos sociais prejudicados por este modelo sejam induzidos a pensar que era o melhor para eles. E, de fato, nos últimos 30 anos este modelo tem conseguido grandes êxitos, um dos quais foi haver sido adotado na Europa por dois importantes partidos social-democratas (o Trabalhista britânico de Tony Blair e o Social Democrata alemão de Gerhard Schroder) e ter conseguido dominar a lógica das instituições europeias (Comissão e BCE).