segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O fusca, a surra e o fascismo


Foto: Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo



Há um exagero evidente quando se afirma que os tais “black blocks” são um agrupamento “fascista”. Fascismo, meus amigos, é outra coisa. Fascismo requer um líder autoritário, que fale em nome da pátria, com um discurso unificador. Os “black blocks” não possuem esse discurso, e aparentemente não há líderes a unificar a ação.

Prefiro ver os “black blocks” de outa forma: são um sintoma de que algo não vai bem na sociedade brasileira. Assim como os rolezinhos nos shopping centers. São dois fenômenos muito diferentes, mas os dois indicam que o sistema político brasileiro vive um impasse e precisa ser reformado. Doze anos de lulismo criaram um novo Brasil (na economia e no consumo). E esse novo país não se reflete na institucionalidade política – carcomida pelo peemedebismo e pelo autoritarismo secular. Os curto-circuitos começam a surgir.

O “black blocks” são fascistas? Mas e os policiais que encurralaram os manifestantes dentro de um hotel em São Paulo? São representantes do que?

Além do mais, é preciso compreender que os rapazes de preto são apenas parte (a mais barulhenta, talvez) dessa turma que foi pras ruas em 2013 e que agora deu início à temporada de protestos versão 2014: também há o pessoal do PSOL, do PSTU, sem falar na classe média “apartidária” (mas que de apartidária não tem nada) - sobre o tema, confira o excelente texto do professor Wagner Iglecias.

Ainda não surgiu uma liderança construtiva que consiga canalizar essa energia das ruas. Qual o programa dessa turma?  Se for apenas o “fora PT!”, esperemos a resposta nas urnas de outubro. Mas parece-me que há mais do que isso. Dilma fez a a leitura correta em junho de 2013: propôs a Reforma Política. Bloqueada pelos conservadores do PMDB, preferiu recuar. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Rolés, consumo e repressão

Por Cléber Sérgio de Seixas

Quando o Boulevard Shopping foi inaugurado na região dos bairros Santa Tereza, Floresta e Santa Efigênia, em Belo Horizonte, eu trabalhava nas proximidades. Alguns colegas de trabalho, gente de classe média, foram visitar o novo empreendimento comercial em seus primeiros dias de funcionamento. De lá voltaram afirmando que o shopping era amplo, bonito, tinha muitas lojas, mas era muito mal freqüentado, pois, nas palavras deles, “só tinha favelado”.

Para quem não conhece, o Boulevard Shopping fica próximo às Torres Gêmeas, condomínio de dois edifícios do residencial Saint Martin cujos apartamentos foram invadidos por 170 famílias de sem-casa. Um parêntese: a política higienista que hora grassa em Belo Horizonte vai por abaixo as Torres Gêmeas e em seu lugar construirá o maior arranha-céu de Minas Gerais. Naqueles dias, muitos moradores das Torres Gêmeas foram dar um rolé no shopping recém-inaugurado.

Os da periferia já conhecem de longa data a gíria rolé. É comum ouvir um jovem perguntar a outro: “vamo dá um rolé ali, Zé?”. É como dizer: “vamos sair por ai!”, “vamos nos divertir!”.  Todos sabem que os jovens de periferia não têm muitas opções de lazer nas regiões onde moram. Também é sabido que uma perversa magia associou lazer e consumo, tornando-os gêmeos siameses. O paradigma dessa associação é o shopping center. Assim, para muitos, a opção da hora é ir ao shopping.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Joaquim Barbosa: pragmático ou relativista?

Por Jeferson Malaguti Soares *

Não sou sociólogo, psicólogo nem psiquiatra, mas aqui me arrisco comentar a conduta de Joaquim Barbosa, Presidente do STF, frente às suas recentes e questionáveis decisões.

Nicolau Maquiavel (1469-1527), o criador da ciência política, sugere como deve agir o soberano para alcançar e preservar o poder, como manipular a vontade popular e como usufruir seus poderes e seus aliados. Faz uma análise clara das bases em que se assenta o poder político: como conseguir aliados, como castigar opositores, como recompensar partidários, como destruir, na memória do povo, a imagem de outros líderes. Considerando as atitudes recentes de Joaquim Barbosa, Maquiavel tem feito história por aqui.

Joaquim Barbosa escolheu duvidar em vez de acreditar. Escolheu sufocar os que o cercam em vez de acolhê-los. Escolheu constranger seus pares em vez de honrá-los. Talvez nunca tenha olhado as coisas com muito prazer. Talvez falte-lhe fé. Talvez tenha aprendido muito mais da mágoa do que do amor e da misericórdia. Talvez alimente sentimentos transversos. Provavelmente sofra de delírios oníricos causados pelas experiências vividas, de pobreza e de possíveis maus-tratos quando criança e adolescente. Sofrimentos que podem não ter cicatrizado, apesar de sua vitória contra as intempéries da vida. Isto pode explicar seu comportamento que deságua na falta de compaixão, apesar de, aparentemente, ter tido formação humanitária.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Dica cultural - Klein e a doutrina do choque capitalista



Por Cléber Sérgio de Seixas

Acabo de ler "A Doutrina do Choque - Ascensão do Capitalismo de Desastre", uma longa e elucidativa explanação da jornalista e ativista canadense Naomi Klein, onde a autora afirma e prova que as melhores oportunidades para a implantação de práticas neoliberais sempre estão presentes depois de grandes choques propiciados por catástrofes naturais, econômicas, golpes de Estado, guerras, ataques terroristas, etc. 

Dessa forma, é possível entender como o neoliberalismo grassou nos respectivos países após eventos como o golpe de Pinochet em 1973, o 11 de setembro de 2001, o colapso da União Soviética nos anos 90, a guerra contra o Iraque em 2003 e o tsunami que devastou países asiáticos em 2004. É minha sugestão para esse Dia do Leitor.

Recomendo também o documentário baseado no livro.


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A quem interessa “melar” a Copa?

Por Caio Botelho*

Já se afirma que em 2014 duas coisas certamente irão acontecer: a Copa do Mundo de futebol e manifestações. Como uma vai influenciar a outra, se essas mobilizações serão maiores ou menores do que as do ano passado ou quais serão os seus resultados objetivos ainda são incógnitas que apenas o tempo e as movimentações que serão feitas irão responder.

Mas pelo menos de uma coisa podemos ter certeza: tal como em 2013, esses protestos estarão sob intensa disputa. Os setores conservadores mais uma vez tentarão dar o tom e direcionar as justas inquietações do nosso povo - em especial da juventude - para cumprir com seus objetivos. É uma disputa desigual: eles têm o controle da mídia e ainda contam com uma bela ajuda de correntes que se reivindicam de esquerda mas que, na prática, comportam-se como forças satélites da direita.

Uma das mais claras demonstrações de que a “disputa de rumos” já começou é pela palavra de ordem “não vai ter Copa!”, repercutida aos quatro cantos e que, se vacilar, corre um sério risco de se tornar o mote principal das jornadas que virão. Se alguém tem dúvidas sobre quem tem interesse nessa bandeira, basta dar uma olhada na edição do jornal “Folha de São Paulo” do dia 5 de janeiro: um dos principais artigos publicados tinha como título - adivinhem! - “Não vai ter Copa!”.