domingo, 19 de fevereiro de 2017

Fotos e fatos - a imagem que marcou 2016



Por Cléber Sérgio de Seixas

A contemporaneidade tem acompanhado o crescimento vertiginoso do radicalismo, seja o de matiz político, seja o de orientação religiosa. Se o Estado Islâmico recruta pessoas capazes de cometer assassinatos em quase todos os cantos do globo, os EUA de Trump, com sua política ultra nacionalista e xenófoba, pode tornar o mundo um lugar mais perigoso para se viver. Há extremistas de ambos os lados dispostos a matar em nome de Deus ou de uma ideologia.

Num país do Oriente Médio chamado Síria hora se ensaia um recomeço daquilo que outrora foi chamado de Guerra Fria. Por trás do conflito entre as tropas de Bashar al-Assad e os rebeldes financiados e, quem sabe, municiados pela OTAN, digladiam Estados Unidos, de um lado, e Rússia e China, de outro. Constatada a capacidade bélico-nuclear dos dois lados, tanto no âmbito tático quanto no estratégico, não é temerário supor que tratar-se-á de um conflito caracterizado por embates indiretos entre os contendores.

No dia 19 de dezembro último o conflito sírio fez, indiretamente, mais uma vítima. Naquela fatídica segunda-feira as lentes do fotógrafo turco Burhan Ozbilici registraram momentos do assassinato de Andrei Karlov, embaixador russo na Turquia. Karlov inaugurava uma exposição de fotos numa galeria de artes de Ancara quando Mevlüt Mert Altintas, um policial turco de 22 anos, efetuou oito disparos contra ele. Antes de ser abatido por outros policiais, Altintas bradou: “Deus é grande! Deus é grande! Nós morremos em Aleppo, vocês morrem aqui! Matam gente inocente em Aleppo e na Síria!”. 

Sublinhe-se que conflitos de grande envergadura por vezes têm início com assassinatos de líderes políticos. Lembre-se que o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, pelo sérvio Gavrilo Princip foi o gatilho da Primeira Guerra Mundial.

A foto de Mevlüt Mert Altintas com o braço esquerdo levantando e com o dedo em riste, portando na mão direita a arma do crime e tendo a seu lado o cadáver do embaixador russo, correu o mundo e foi capa do New York Times. Recentemente, foi eleita a melhor foto de 2016 no concurso World Press Photo.

Burhan Ozbilici trabalha para a Associated Press há 27 anos e já cobriu conflitos na Arábia Saudita, Egito e Síria.