sexta-feira, 2 de setembro de 2016

De canalhas e inocentes úteis

Dax (ao centro) e Mireau (à direita) numa das cenas de Paths of Glory

Existe um povo que a bandeira empresta 
Pr'a cobrir tanta infâmia e cobardia!
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!
Silêncio!... Musa! Chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!

Castro Alves - Navio Negreiro

Por Cléber Sérgio de Seixas

Em discurso histórico na tribuna do Senado nacional, proferido em 30 de agosto último por ocasião da votação do impedimento da Presidente Dilma naquela casa, o senador Roberto Requião (PMDB/PR), alude à reação de Tancredo Neves à declaração de vacância da Presidência da República proferida pelo senador Aldo de Moura Andrade na madrugada do fatídico 02 de abril de 1964. Naquele day after do golpe, Tancredo reagiu de forma incisiva àquela declaração e bradou: “canalha, canalha, canalha!”, referindo-se a Andrade. A alusão de Requião foi oportuna na medida em que o Brasil está, novamente, diante de um golpe de Estado. 

Paths of Glory (Stanley Kubrick, 1957) é destaque entre as películas anti-belicistas do cinema. A trama gira em torno de uma missão suicida a que são convocados soldados franceses, a qual consistia na tomada de uma posição dominada pelo exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Seduzido pela hipótese de ser condecorado e promovido caso seus subordinados realizem tal missão, o General Paul Mireau, vivido pelo ator George Macready, ordena a empreitada. Seu posicionamento em relação à missão, contudo, entra em choque com o do Coronel Dax, protagonista interpretado por Kirk Douglas. Enquanto Dax põe em relevo o custo em vidas da operação, Mireau, pragmático e maquiavélico, menospreza o sofrimento e as perdas humanas no campo de batalha, sem disfarçar sua ambição pelos louros da glória.  Um dos grandes momentos do filme fica por conta do diálogo entre Dax e Mireau, quando o primeiro faz alusão a uma célebre frase de Samuel Johnson, pensador inglês do século XVIII, qual seja: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. 

De fato, e tal como no longa de Kubrick, às vezes o patriotismo serve de guarida aos mais execráveis interesses, encobrindo com seu manto o individualismo, e confundindo projetos pessoais ou de uma classe em particular com causas coletivas. Deve-se aqui frisar que quem luta nos conflitos armados entre países não são os membros das classes abastadas e sim, e em maioria esmagadora, os representantes das subalternas, enviados ao matadouro em nome dos interesses das burguesias de suas respectivas nações, interesses aos quais é mais útil o conceito de pátria. Os trabalhadores, porém, não têm pátria, dizia o velho Marx, pelo menos não a pátria na acepção burguesa da palavra.