segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Fotos e Fatos - o grito de um corpo silencioso


Foto: Nilufer Demir - DHA


Por Cléber Sérgio de Seixas

A foto do menino sírio Aylan Kurdi morto e de bruços numa praia turca expôs de forma contundente não somente o drama dos refugiados sírios, fugitivos da guerra que assola seu país, como também de todos os imigrantes que deixam suas pátrias fugindo da fome, das guerras e dos genocídios, em busca de abrigo em países europeus mais desenvolvidos. Aqueles que conseguem romper as fronteiras dessas nações, nem sempre encontram boa guarida, haja vista que uma nova onda de xenofobia, intensificada pela crise econômica e por ataques terroristas em solo europeu, atinge a Zona do Euro. 

Enquanto o capital transnacional prossegue tornando as fronteiras mais porosas a seus interesses, moldando a política e a economia dos países que se rendem às suas investidas, ergue muros para deter o avanço de refugiados, sobretudo os oriundos da África e do Oriente Médio. Em síntese: dólares são bem-vindos, estrangeiros não; pode-se exaurir as riquezas minerais de uma nação africana, mas se uma catástrofe humana obrigar seus cidadãos a buscar refúgio num país europeu, as fronteiras serão logo fechadas em nome da segurança nacional.

A impossibilidade de se entrar legalmente obriga muitos a se lançarem nas águas do Mare Nostrum e adjacentes, viagens que produzem mais náufragos que navegantes. Foi o que aconteceu com a família de Abdullah Kurdi. No dia 02 de setembro de 2015, o barco em que navegavam a família de Kurdi e mais 08 pessoas rumo à Grécia afundou no Mar Egeu, próximo às praias de Bodrum, Turquia. No acidente, Abdullah perdeu os dois filhos e a esposa.

No mesmo dia, a lente da fotógrafa turca Nilufer Demir (DHA) captava a imagem da criança síria, morta aos 03 anos. Em entrevista à CNN, Nilufer afirmou que hesitou em registrar as imagens ao chegar à praia de Bodrum, mas mudou de ideia ao ver o cadáver de Aylan Kurdi estendido na praia. Segundo ela, fotografar aquilo seria a única forma de expressar o grito daquele corpo silencioso. 

Apesar da comoção oriunda da divulgação da foto, a tragédia dos refugiados continua.

Aylan Kurdi se foi, mas seu grito ainda ecoa, aguardando ser ouvido por parte da humanidade que é surda às tragédias dos povos da periferia do mundo.