domingo, 21 de setembro de 2014

A questão família



Por Cléber Sérgio de Seixas

Sempre que a hegemonia dos donos do capital é ameaçada, um dos primeiros brados que sai das bocas dos nobres burgueses e seus lacaios é aquele que associa a dissolução da família ao avanço do comunismo. Foi assim nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, nos idos de março a junho de 1964, como também foi nas eleições de 2010 e tem sido em 2014. A diferença é que agora a ameaça à família não é atribuída apenas aos comunistas, mas também aos homossexuais.

Poucas vezes numa campanha política se ouviu falar tanto em salvar, fortalecer, defender e manter a família como agora. Tal como no pleito de 2010, a moral judaico-cristã vem pautando o discurso eleitoral de muitos candidatos a cargos eletivos. Deve-se ter claro a que tipo de família se referem os que a tal discurso recorrem. 

O modelo de família que vemos nas telenovelas, por exemplo, com pobres tendo um estilo de vida próprio de pessoas pertencentes à classe média alta, não reflete a realidade dos que estão às margens do sistema capitalista. A TV impõe um padrão de família que não é o observado entre maioria esmagadora da população. Uma família harmoniosa, com filhos bem educados, que fazem aula de piano, que ganham mesada e fazem intercâmbio no exterior, que tem à disposição uma farta mesa de café da manhã, e na qual os cônjuges podem se dar ao luxo de ficar a maior parte do dia numa academia de ginástica não é a família média brasileira. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A nova Guerra Fria


Por Serge Halimi*

Em 1980, para resumir sua visão das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, Ronald Reagan proferiu esta fórmula: “Nós ganhamos; eles perdem”. Doze anos depois, seu sucessor imediato na Casa Branca, George Bush, felicitava-se pelo caminho percorrido: “Um mundo outrora dividido entre dois campos armados reconhece que existe apenas uma superpotência preeminente: os Estados Unidos da América”. Esse foi o fim oficial da Guerra Fria.

Esse período acabou agora. Sua sentença de morte soou no dia em que a Rússia se cansou de “perder” e na medida em que seu rebaixamento programado nunca tocará o fundo, com cada um de seus vizinhos se vendo um de cada vez atraído – ou subornado – para uma aliança econômica e militar dirigida contra ela. “Os aviões da Otan patrulham os céus acima do Báltico, nós reforçamos nossa presença na Polônia e estamos prontos a fazer ainda mais”, relembrou Barack Obama em março em Bruxelas (1). Diante do Parlamento russo, Vladimir Putin denunciou a “política infame de confinamento” que, segundo ele, as potências ocidentais impõem a seu país desde... o século XVIII (2).

A nova Guerra Fria será, no entanto, diferente da antiga, pois, como revelou o presidente dos Estados Unidos, “contrariamente à União Soviética, a Rússia não dirige nenhum bloco de nações, não inspira nenhuma ideologia global”. O confronto que se instala também deixou de opor uma superpotência norte-americana que desenhava na sua fé religiosa a confiança imperial em um “destino manifesto” contra um “Império do Mal”, que Reagan amaldiçoava também por causa de seu ateísmo. Putin corteja, ao contrário, não sem sucesso, os cruzados do fundamentalismo cristão. E quando ele anexou a Crimeia, relembrou imediatamente que é o local “onde São Vladimir foi batizado [...]; um batismo ortodoxo que determina as noções de base da cultura, dos valores e da civilização dos povos russos, ucranianos e bielorrussos”.

É o mesmo que dizer que Moscou não admitirá que a Ucrânia se torne a base de seus adversários. Aquecido por uma propaganda nacionalista que excede até mesmo a lavagem cerebral ocidental, o povo russo se oporia a isso. Ou seja, nos Estados Unidos e na Europa, os partidários do grande rearmamento aumentam suas apostas: proclamações marciais e avalanche de sanções heteróclitas que só fazem aumentar a determinação do campo adversário. “A nova Guerra Fria será talvez mais perigosa ainda que a precedente”, já advertiu um dos maiores especialistas norte-americanos sobre a Rússia, Stephen F. Cohen, “porque, contrariamente à anterior, ela não encontra nenhuma oposição – nem na administração, nem no Congresso, nem nas mídias, nas universidades, nos think tanks” (3). É a receita conhecida de todas as derrapagens...

1 - Discurso de Barack Obama em Bruxelas, 26 mar. 2014.

2 - Discurso de Putin diante do Parlamento russo, 18 mar. 2014.

3 - Pronunciamento na Conferência Anual Rússia-Estados Unidos, Washington, 16 jun. 2014. Retomado em The Nation, Nova York, 12 ago. 2014.

* Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).