quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O reacionário está na moda


Não foi surpresa que logo após o comentário em que deu status de legítima defesa a justiceiros, a jornalista Rachel Sheherazade tenha tido a oportunidade de escrever artigo no espaço mais nobre de um grande jornal.

Foi vociferando a altos brados, contra todas as formas de ‘esquerdismo’, sem sutilezas nem decoros, que Reinaldo Azevedo ganhou o status de colunista nesse mesmo diário. 

Lobão foi guindado a uma revista semanal depois que minimizou a tortura dos anos de chumbo, desprezando quem se disse vítima por ter tido “umas unhazinhas arrancadas”. 

Diogo Mainardi pulou da revista para a TV a cabo, apelidando semanalmente o presidente de anta.

Até humoristas que se orgulham de ser politicamente incorretos, sobretudo com o mais vulnerável, vêm emplacando programas próprios na telinha.

Se alguém ainda tinha dúvidas, elas estão sendo dissipadas: o reacionário está definitivamente na moda.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pronto: Santiago Ilídio está morto


Por Gilberto Maringoni*

Foi vítima da estupidez de arruaceiros infiltrados entre manifestantes, no Rio de Janeiro. Foi vítima dos marginais que se autointitulam black blocs. Estes nada têm a ver com democracia, com luta por direitos e muito menos com jovens da periferia que querem um lugar ao sol.

Diante da provocação montada por Eduardo Paes - que brincou com gasolina ao aumentar as passagens de ônibus de um sistema sucateado – os black blocs entraram no jogo pesado que a direita quer impor ao país.

O jogo do caos.

A ação policial foi brutal e estúpida. O ministro da Justiça, de maneira covarde, mantém-se calado diante da escalada da violência das PMs.

O assassinato de Santiago – o mesmo nome do pescador de ‘O velho e o mar’, de Hemingway – deve ficar como um marco para o movimento popular.

O marco de que não é mais possível à esquerda e aos ativistas sociais serem condescendentes com quem cobre o rosto, nega a política e depreda a cidade em nome sabe-se lá do quê.

As grandes mobilizações de massa do século XX foram vitoriosas, sem que os setores populares recorressem à violência suicida.

A grande greve de 1917, que parou São Paulo por quase duas semanas, foi fundamentalmente um movimento pacífico. E vitorioso.

A greve dos 300 mil, em 1953, também foi realizada sem loucuras estilo kamikaze.

Todas as jornadas de lutas que envolveram milhões de pessoas entre o final dos anos 1970 e início da década seguinte – movimento estudantil, greves do ABC e Diretas Já – não se valeram de recursos violentos. E derrubaram a ditadura.

O Fora Collor, em 1992 seguiu igual. Milhões nas ruas forçaram a saída de um presidente corrupto. Sem enveredar pelo caminho da brutalidade inútil.

Em todos esses casos, a violência estava do outro lado. Mas não a razão e a vitória.

A democracia imperfeita, elitista e problemática que temos hoje é muito melhor que as melhores ditaduras brasileiras do século XX. Se lá não escondíamos o rosto, qual a finalidade de fazer isso agora?

Há na praça um livro primoroso. Chama-se “O alfaiate de Ulm” (Boitempo). Seu autor é Lucio Magri, um dirigente do extinto Partido Comunista Italiano, morto em 2011.

A obra, escrita em 2009, é uma história minuciosa daquele que já foi o maior partido comunista do Ocidente e exemplo de organização para várias agremiações de esquerda ao redor do mundo.

A dada altura, Magri diz o seguinte:

“Basta a simples reconstrução dessa fase fundadora [do movimento operário organizado] para dizer algo importante sobre as muitas tolices que atormentam as discussões nos dias atuais, sobretudo no que diz respeito à contribuição fundamental do movimento operário marxista para o nascimento da democracia moderna, em suas feições essenciais e distintivas – soberania popular, nexo entre liberdade política e condições materiais que o tornem exercível -, e à importância do nexo entre organização, pensamento estruturado, participação de massa para transformar uma plebe ou uma multidão de indivíduos em protagonista coletivo da História real, mas igualmente, por fim, sobre o absurdo que é preencher hoje o vazio de análises e teorias com ideias já desgastadas e derrotadas há um século, como o anarquismo, ou usar palavras antigas, como social-democracia, para indicar ideias e escolhas completamente diferentes daquelas para as quais nasceram”.

Black bloc é a tentativa atual de se preencher um vazio teórico com uma ação direta irresponsável e tremendamente funcional à direita.

Fora provocadores mascarados!

Viva Santiago Ilídio Andrade!

Como o personagem de Hemingway, ele também enfrentou tubarões.


Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, cartunista e militante do Psol.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Carta aberta ao ministro Aldo Rebelo

Belo Horizonte, 29 de janeiro de 2014.

Caríssimo Ministro do Esporte e camarada Aldo Rebelo. Quero primeiramente cumprimentá-lo pelo belíssimo trabalho que vem realizando a frente do Ministério dos Esportes. Uma GESTÃO que dá continuidade a quase doze anos de trabalho eficiente dos comunistas no comando da pasta. É preciso destacar que tanto o Presidente Lula, quanto a Presidenta Dilma vem ampliando ano a ano os recursos do esporte no orçamento público federal. É claro que precisaríamos de muito mais recursos, mas o que importa é que o esporte passou a ser política de Estado e nesse sentido tomou novas proporções.

O povo brasileiro demonstrou ao longo dos tempos que é um apaixonado pela prática e o acompanhamento das várias modalidades esportivas. Somos uma torcida apaixonada pelas cores verde e amarela, seja com Guga nas quadras de Roland Garros, seja com as meninas do handebol no campeonato mundial da categoria. No futebol nem te falo. Assim a torcida brasileira torce, vibra, chora, canta. Neste ambiente positivo, o Brasil avançou nos últimos anos, em competições de esportes coletivos e esportes individuais de alto rendimento. Como você sabe, precisamos avançar e avançaremos muito mais. 

Avançar mais significa política pública, comprometimento com o esporte, com os atletas, com o Brasil e, fundamentalmente, com o povo brasileiro. Aldo Rebelo, conheço sua trajetória e seus compromissos. Do menino pobre, filho de vaqueiro no interior de Alagoas, a Ministro de Estado. Uma trajetória política inigualável. Político de fala mansa e posições firmes, ocupou os principais postos do Congresso Nacional, chegando à sua Presidência. Por falar em nacional, um profundo e autêntico nacionalista. Aldo, sei que sua trajetória política sempre se pautou pela questão nacional e isso o diferencia dos demais políticos de sua geração.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Fotos e Fatos - A controversa pacificação das favelas



Por Cléber Sérgio de Seixas

As favelas do Rio de Janeiro ficam muito próximas dos bairros ricos. Apesar disso, há décadas têm sido deixadas à margem das políticas públicas. A ausência estatal deixou espaço para serem “governadas” por traficantes e milícias. Com a aproximação da Copa do Mundo e das Olimpíadas de 2016, as autoridades têm feito um esforço concentrado para pacificar as favelas. 

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s) foram criadas em 2009 para isso. O processo é feito em dois tempos. Numa primeira etapa, tropas de elite atacam a favela e estabelecem uma presença policial permanente. À implantação da UPP segue-se a melhoria da rede de serviços e infra-estrutura, como educação e fornecimento de eletricidade.

No entanto, o sucesso das UPP é parcial. Alguns críticos afirmam que elas têm sido implantadas apenas em favelas próximas de áreas ricas, que o acompanhamento social não tem sido eficaz, e que um verdadeiro combate dos problemas em favelas precisa de uma abordagem mais ampla para a redução da pobreza. Recentemente, o Brasil e o mundo ficaram chocados com o desaparecimento do pedreiro Amarildo, supostamente torturado e morto por policiais da UPP da Rocinha.

A foto, intitulada “Favela pacificada”, é de autoria do fotógrafo belga Frederik Buyckx, e foi tirada em uma favela carioca no dia 25 de maio de 2012.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ribeirão das Neves e a privatização dos presídios


O CPPP de Ribeirão das Neves (Foto: Brasil de Fato)

Por Cléber Sérgio de Seixas

O Brasil possui a 4ª maior população carcerária do mundo, perdendo apenas para a Rússia, a China e os EUA. São cerca de 580 mil presos, enquanto há apenas 300 mil vagas, o que leva a uma superlotação de aproximadamente 280 mil pessoas.

Os recentes e trágicos episódios ocorridos dentro e fora do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, São Luís (MA), trouxeram novamente à baila a ineficiência do modelo prisional brasileiro. Trata-se, sem dúvida, de um sistema falido, que ao invés de recuperar o detento, devolve-o à sociedade pior do que quando ingressou no cárcere. Há quem defenda um sistema correcional o mais animalesco possível para purgar os presos de todos os seus males. Considerando isto, algumas observações se fazem necessárias.

“Marginal tem que sofrer”, “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos são para humanos direitos”, são frases ditas pelos mais afoitos. Uma discussão a respeito de direitos humanos também deveria por em relevo os daqueles que estão fora das grades, ou seja, o direito dos cidadãos de receber de volta ao seio societário um ser humano recuperado, não uma besta-fera disposta a cometer crimes piores do que aqueles que motivaram seu encarceramento. Em outras palavras, o desrespeito aos direitos humanos dos encarcerados redundará na devolução à sociedade de um indivíduo que não hesitará em desrespeitar os direitos humanos alheios. O ódio que for gestado no detento durante o período de “ressocialização” será levado para além dos muros da prisão quando do retorno ao convívio social. Tudo o que de ruim se aprender dentro das grades será posto em prática nas ruas. Deve-se considerar, também, que a privação de liberdade é uma das piores punições a que se pode submeter um ser humano. 

Outro aspecto a ser considerado é que a violência desmedida contra detentos pode levá-los a criar mecanismos de defesa paralelos ao arcabouço jurídico-legal, como foi a criação da organização criminosa PCC, para muitos uma resposta às condições do cárcere no Carandiru.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Pearl Harbor e Mariel


Por Mauro Santayana

A inauguração, na semana passada, da primeira fase da expansão do Porto de Mariel, em Cuba, e da Zona Especial de Desenvolvimento do mesmo nome, com a presença da Presidente da República, serviu de pretexto, para o lançamento, pelos anticomunistas de plantão, de  nova campanha na internet.

Alguns deles se comportam como se a obra fosse uma surpresa e tivesse sido feita sob o mais rigoroso sigilo, quando  trata-se do maior projeto em execução na região - a duplicação do canal do Panamá está parada porque as empreiteiras espanholas e italianas contratadas querem receber mais do que foi combinado - envolveu, até agora, centenas de  empresas brasileiras e gerou mais de 150 mil empregos no Brasil.

Para os hitlernautas, e os “inocentes” úteis que os seguem, o Brasil estaria dando um “presente” para Cuba, e o BNDES sendo usado para apoiar governos esquerdistas na América Latina quando deveria estar aplicando seus recursos exclusivamente dentro do Brasil.

Ora, essa política de estado - até mesmo FHC fazia isso - vem desde o governo militar, com obras na Mauritânia e no Iraque, por exemplo.