domingo, 24 de novembro de 2013

Consciência negra e humana

Gustavo Menon*

Em um país onde o paladino do humor, Danilo Gentili, oferece bananas aos seus críticos, o dia da consciência negra serve de reflexão. O discurso do humorista segue a mesma lógica racista dos senhores de engenho: Gentili fala grosso (ou faz piada) com quem é subalterno e, por outro lado, fica manso quando está diante de coronéis, generais e gente graúda. Há muito preconceito entre nós. A explicação pra isso só nos remete a formação histórico-política na terra brasilis.

Lembremos que nosso querido país foi uma das últimas nações do mundo a extinguir oficialmente a escravidão, somente no final do século XIX, em 1888. Com uma velocidade digna de Rubens Barrichello (do Braziiuuu!), a inserção do negro na sociedade tupiniquim nunca foi uma prioridade. Na transição de Monarquia para República, por exemplo, não houve mudanças significativas nas estruturas de poder. Juntamente a isso, a abolição da escravatura se deu sem indenizações, reforma agrária e direitos elementares.

Sob o cenário do tronco e do açoite, para o negro, apenas, marginalização e a máxima exclusão.  Dizia-se, naquela época, que os negros deviam ser tratados com os três "P": pão, pano e pau.Por isso, apesar da “obrigação” de vestir e alimentar os escravos, seus proprietários tinham pleno direito de castigá-los.

domingo, 17 de novembro de 2013

A imprensa livre para se calar

Por Jeferson Malaguti Soares *

Estados Unidos e União Europeia controlam 90% da informação do planeta. Das 300 principais agencias noticiosas de imprensa, 144 têm sua sede nos EUA, 80 na Europa e 49 no Japão. Os países pobres e os em desenvolvimento, onde vivem 75% da humanidade, possuem apenas 30% dos jornais do mundo.
Outro dado importante: os EUA têm 5% da população do planeta, mas detém 50% de todo o seu aparato militar. 

Não faltam denúncias sobre a natureza e extensão do terrorismo de Estado que desde há muitas décadas faz estragos pelo mundo, um terrorismo instado no âmbito da política adotada na Casa Branca. 
Os grandes meios de comunicação não são apenas cúmplices do terrorismo de Estado que EUA e seus aliados de primeira hora – Reino Unido, Israel, França e Alemanha – praticam, fazem parte dele. O silêncio da mídia é também uma forma de terrorismo. 

Como acontece por aqui, a imprensa é livre para se calar sobre as mazelas da direita. Livres para deitarem falação sobre a Ação Penal 470, apelidada de “mensalão”. Todos sabem que não existiu mensalão, mas o filão encontrado caiu sobre medida para os falastrões de plantão. Calam-se, no entanto, sobre o mesmo assunto protagonizado pelo PSDB de Minas. Será que a mídia nativa vai ter coragem de se referir a Eduardo Azeredo, ex-governador tucano, como “mensaleiro” ? Certamente que não. Aí está a liberdade para se calar. 

sábado, 16 de novembro de 2013

Dossiê Jango

Por Cléber Sérgio de Seixas


Suspeita-se que a morte de João Goulart tenha sido por envenenamento, e não motivada por um infarto, como é consensual atualmente. Jango teria sido mais uma vítima da famigerada Operação Condor, aliança político-militar firmada entre as várias ditaduras sul-americanas cujos objetivos principais eram reprimir e exterminar os opositores destas ditaduras, sobretudo os líderes de esquerda contrários às mesmas.

Nesta quinta-feira (14), os restos mortais de Jango, recentemente exumados, foram recebidos em Brasília com honras militares fúnebres, já que o ex-presidente, que foi deposto por um golpe militar em 01 de abril de 1964, não as teve quando morreu há 37 anos.

Enquanto a causa mortis de Goulart não é esclarecida, convém fazer um mergulho na trajetória de um presidente que tentou mudar o Brasil, mas foi impedido pelo conservadorismo das elites desse país, que se valeram dos militares para apeá-lo do poder.

O documentário “Dossiê Jango” faz esse mergulho. Confiram-no, na íntegra, abaixo.


sexta-feira, 15 de novembro de 2013

José Dirceu - Carta aberta ao povo brasileiro



O julgamento da AP 470 caminha para o fim como começou: inovando - e violando - garantias individuais asseguradas pela Constituição e pela Convenção Americana dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário.

A Suprema Corte do meu país mandou fatiar o cumprimento das penas. O julgamento começou sob o signo da exceção e assim permanece. No início, não desmembraram o processo para a primeira instância, violando o direito ao duplo grau de jurisdição, garantia expressa no artigo 8 do Pacto de San Jose. Ficamos nós, os réus, com um suposto foro privilegiado, direito que eu não tinha, o que fez do caso um julgamento de exceção e político.

Como sempre, vou cumprir o que manda a Constituição e a lei, mas não sem protestar e denunciar o caráter injusto da condenação que recebi. A pior das injustiças é aquela cometida pela própria Justiça.

É público e consta dos autos que fui condenado sem provas. Sou inocente e fui apenado a 10 anos e 10 meses por corrupção ativa e formação de quadrilha - contra a qual ainda cabe recurso - com base na teoria do domínio do fato, aplicada erroneamente pelo STF.

Fui condenado sem ato de oficio ou provas, num julgamento transmitido dia e noite pela TV, sob pressão da grande imprensa, que durante esses oito anos me submeteu a um pré-julgamento e linchamento.

Ignoraram-se provas categóricas de que não houve qualquer desvio de dinheiro público. Provas que ratificavam que os pagamentos realizados pela Visanet, via Banco do Brasil, tiveram a devida contrapartida em serviços prestados por agência de publicidade contratada.

Chancelou-se a acusação de que votos foram comprados em votações parlamentares sem quaisquer evidências concretas, estabelecendo essa interpretação para atos que guardam relação apenas com o pagamento de despesas ou acordos eleitorais.

Durante o julgamento inédito que paralisou a Suprema Corte por mais de um ano, a cobertura da imprensa foi estimulada e estimulou votos e condenações, acobertou violações dos direitos e garantais individuais, do direito de defesa e das prerrogativas dos advogados - violadas mais uma vez na sessão de quarta-feira, quando lhes foi negado o contraditório ao pedido da Procuradoria-Geral da República.

Não me condenaram pelos meus atos nos quase 50 anos de vida política dedicada integralmente ao Brasil, à democracia e ao povo brasileiro. Nunca fui sequer investigado em minha vida pública, como deputado, como militante social e dirigente político, como profissional e cidadão, como ministro de Estado do governo Lula. Minha condenação foi e é uma tentativa de julgar nossa luta e nossa história, da esquerda e do PT, nossos governos e nosso projeto político.

Esta é a segunda vez em minha vida que pagarei com a prisão por cumprir meu papel no combate por uma sociedade mais justa e fraterna. Fui preso político durante a ditadura militar. Serei preso político de uma democracia sob pressão das elites.

Mesmo nas piores circunstâncias, minha geração sempre demonstrou que não se verga e não se quebra. Peço aos amigos e companheiros que mantenham a serenidade e a firmeza. O povo brasileiro segue apoiando as mudanças iniciadas pelo presidente Lula e incrementadas pela presidente Dilma.

Ainda que preso, permanecerei lutando para provar minha inocência e anular esta sentença espúria, através da revisão criminal e do apelo às cortes internacionais. Não importa que me tenham roubado a liberdade: continuarei a defender por todos os meios ao meu alcance as grandes causas da nossa gente, ao lado do povo brasileiro, combatendo por sua emancipação e soberania.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A ilusão das redes sociais

Por Dulce Critelli

É indiscutível o importante papel que as redes sociais desempenham hoje nos rumos de nossa vida política e privada. São indiscutíveis também os avanços que introduziram nas comunicações, favorecendo o reencontro e a aproximação entre as pessoas e, se forem redes profissionais, facilitando a visibilidade e a circulação de pessoas e produtos no mercado de trabalho. A velocidade com que elas veiculam notícias, a extensão territorial alcançada e a imensa quantidade de pessoas que atingem simultaneamente não eram presumíveis cerca de uma década atrás, nem mesmo pelos seus criadores. Temos sido testemunhas, e também alvo, do seu poder de convocação e mobilização, assim como da sua eficiência em estabelecer interesses comuns rapidamente, a ponto de atuarem como disparadoras das várias manifestações e movimentos populares em todo o mundo atual.

Portanto, não podemos sequer supor que elas tragam somente meras mudanças de costumes, porque seu peso, associado ao desenvolvimento da informática, é semelhante à introdução da imprensa, da máquina a vapor ou da industrialização na dinâmica do nosso mundo. As redes sociais provocam mudanças de fundo no modo como as nossas relações ocorrem, intervindo significativamente no nosso comportamento social e político. Isso merece a nossa atenção, pois acredito que uma característica das redes sociais é, por mais contraditório que pareça, a implantação do isolamento como padrão para as relações humanas.

domingo, 10 de novembro de 2013

Parem de nos espionar!

Por Cléber Sérgio de Seixas

Em seu livro 1984, George Orwell relata um futuro distópico onde todos os cidadãos são vigiados e monitorados por uma entidade chamada Grande Irmão, o que se efetiva por meio de um dispositivo onipresente chamado Teletela, capaz de capturar imagens e sons, bem como emiti-los. Nesse ambiente, nada passa despercebido à vigilância de um Estado autoritário - das palavras ditas durante o sono ao ato sexual. É proibido ler ou escrever o que não coadune com a ideologia e política vigentes. Toda informação é censurada pelo partido dominante. Ao cidadão é proibido contestar, criticar ou mesmo raciocinar. 

Infelizmente, às vezes a vida imita a arte. Recentemente, o analista de inteligência e ex-funcionário da CIA (Central de Inteligência Americana) e da NSA (Agência de Segurança Nacional), Edward Snowden, revelou aos jornais The Guardian e The Washington Post a existência programas de vigilância da Agência de Segurança. Trata-se de um sistema de vigilância em massa, de amplitude mundial, capaz de interceptar chamadas telefônicas e todo tipo de comunicação que utilize a rede mundial de computadores. Tal como o famigerado Ato Patriótico, em nome da segurança nacional, havia sido justificado pelos ataques do 11 de Setembro, a justificativa dos EUA para perda da privacidade de cidadãos e governos é, novamente, a segurança. 

No entanto, governos e cidadãos de todo o mundo já se mobilizam para deter a espionagem e invasão de privacidade irrestritas promovidas pelos EUA. Uma dessas iniciativas é o Stop Watching Us (Parem de nos Vigiar), uma campanha que congrega organizações, ativistas, celebridades, juristas e cidadãos contrários à vigilância da NSA.

Abaixo o vídeo da campanha.


domingo, 3 de novembro de 2013

Responsabilidades da família e da escola



Por Cléber Sérgio de Seixas

Fim de semana marcado pelo feriado de Finados, fim de tarde de domingo, nihil novi sub sole. No entanto, o sol mal se põe no horizonte e escuto a seguinte frase: “ainda bem que amanhã é segunda-feira e os meninos vão para a escola”. A afirmação, ouvida de minha janela, seria apenas um desabafo de uma mãe ciosa da frequência escolar de seus filhos ou uma frase qualquer jogada ao vento, não fosse o imenso conteúdo sociológico oculto nos bastidores.

Movimento feminista à frente, muitos paradigmas foram quebrados pelo sexo feminino. Dentre as conquistas femininas das últimas quatro décadas, sublinhe-se a liberalização sexual proporcionada pela invenção da pílula anticoncepcional e a maior inclusão das mulheres no mercado de trabalho. Quero nesse breve artigo dar ênfase a essa última. Se as mulheres procuraram inserir-se no mercado de trabalho por conta das teses feministas ou em decorrência da necessidade de complementar a renda familiar - corroída pela falência do Estado Providência nos primórdios dos anos 70 -, pouco importa. O fato é que uma reconfiguração nos parâmetros familiares ocorreu quando dessa saída das mulheres de casa.

Quando as mulheres deixaram de ser apenas “do lar” para aventurarem-se no mercado de trabalho, e pressupondo concomitante ocupação laboral de seus companheiros, surgiu a seguinte questão: com quem deixar os filhos? Não se pretende aqui culpabilizar as mulheres por tal processo. Pelo contrário, abro aqui um parêntese para aludir à roqueira Rita Lee dizendo que toda mulher deve ser meio Leila Diniz, ou seja, despojada de toda restrição e preconceitos impostos ao sexo feminino por uma sociedade machista. 

A hipocrisia da mídia

Por Jeferson Malaguti Soares *

O que vale para o PSDB não vale para o PT. O que é permitido aos tucanos é negado aos petistas. O que castiga o PT premia os tucanos. Só petistas têm vicissitudes. Virtudes, apenas os tucanos. Um mesmo fato é publicado de forma diversa se praticado por petistas ou tucanos. Matreira vulgaridade, vocação predadora, absoluta falta de escrúpulos. Nossa mídia carece de pudor, tergiversa ante o principal, valoriza o secundário. 

O PIG (Partido da Imprensa Golpista) se protege sob o manto do cinismo dos patrões, promovem a baixaria, a mentira, os factóides, além do tradicional corporativismo da classe. Materializa constantemente o olhar do preconceito, ignora verdades atemporais, exagera em digressões e aforismos impertinentes e carregados de afronta. Enfim, é um exemplo claro de receptáculo das intrigas e maledicências da direita. Sofre de uma compulsão obsessiva de desconstruir o lulopetismo, sobrepõe-se ao prazer das vitórias tucanas e é insaciável no afã de perseguir as esquerdas. 

A impressões que ficam são as de que o cérebro dos donos da mídia estão em pleno processo de regressão cognitiva, tamanha é a ideia fixa que desenvolveram contra o povo brasileiro carente. Buscam moldar a cultura nacional a um nível rasteiro, não têm respeito pela opinião publica e tentam influenciá-la através da sua opinião publicada. A qualidade das matérias é questionável, quando não visivelmente desprovidas de qualquer valor moral e ético.