quarta-feira, 31 de outubro de 2012

São Paulo, uma guerra particular


Por Luciano Martins Costa

Agora a informação é oficial: a explosão de violência em São Paulo tem relação com uma guerra entre o crime organizado e a Polícia Militar. Os jornais de quarta-feira (31/10) revelam detalhes que confirmam suspeitas de descontrole das autoridades do estado sobre seus agentes e evidenciam que a causa principal da onda de assassinatos é a própria estratégia de segurança.

O Estado de S.Paulo informa, com reportagem destacada na primeira página, que a polícia encontrou uma “lista da morte” na favela de Paraisópolis, com nomes e descrições físicas de policiais marcados para morrer. A relação teria sido apreendida numa “central de espionagem” do grupo conhecido como Primeiro Comando da Capital, que, segundo a imprensa, controla presídios, domina o tráfico de drogas e mantém sob seu poder muitas comunidades da periferia da cidade.

O Estado de S. Paulo reproduz o que seria um fac-símile da ordem para a execução de policiais militares. Sob o título “Salve geral”, o texto convoca os integrantes do grupo a reagir contra flagrantes forjados pela polícia e contra as execuções de seus parceiros.

Para cada membro do PCC preso sob falsa alegação, a ordem é matar um policial, e para cada integrante do grupo morto em circunstância que eles consideram desigual, sem chance de reação, devem ser mortos dois policiais, sempre da mesma corporação e na mesma região onde ocorrerem os eventos, diz o comando.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Um choque na saúde

Por Cléber Sérgio de Seixas

O assim chamado "choque de gestão" do parece ter atingido em cheio alguns equipamentos hospitalares de Minas Gerais. Reportagem exibida na edição de 30/10/12 do Jornal da Record mostra as mazelas em dois hospitais de Belo Horizonte mantidos pelo Estado e o desespero de funcionários e usuários.

Abaixo a reportagem.


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Belo Horizonte nos tempos de JK

 Juscelino discursando diante de Getúlio e do governador de MG, Benedito Valadares, durante a inauguração do asfalto na Avenida do Contorno em 12/05/1940

Por Cléber Sérgio de Seixas

Nessa segunda década do século XXI, Belo Horizonte é a terceira cidade mais importante do País. Trata-se de uma cidade que enfrenta problemas típicos de uma grande metrópole, como caos na infra-estrutura viária, déficit habitacional, desemprego, violência urbana, precariedade no sistema sanitário, aumento da densidade populacional, etc. A cidade que Márcio Lacerda vai novamente administrar pelos próximos quatro anos é bem diferente da Belo Horizonte dos tempos em que Juscelino Kubitschek era o prefeito.

A gestão JK (1940 - 1945) empreendeu importantes obras que mudaram a cara da capital mineira, dando-lhe ares de metrópole. Juscelino asfaltou várias vias como a Avenida do Contorno e a Afonso Pena, canalizou córregos, construiu o complexo turístico e arquitetônico da  Pampulha,  criou o Instituto de Belas Artes, construiu um hospital municipal com capacidade para 306 leitos no Bairro da Lagoinha, dentre várias outras obras.

O documentário abaixo, produzido pelo Escritório de Coordenação de Negócios Inter-Americanos, mostra a cosmopolita BH dos anos JK.  É interessante sublinhar os trechos nos quais pode-se perceber o interesse implícito em nossos minerais estratégicos, o que pode ser explicado pelo fato de o documentário ter sido produzido durante o governo de Eurico Gaspar Dutra, o presidente brasileiro que mais escancarou a economia nacional aos interesses do capital norte-americano.

Vale assistir por causa das imagens da época, onde é possível ver os bondes circulando a Praça 7, a construção da Cidade Industrial, a Feira de Amostras, o Parque Municipal, a Mina de Morro Velho e a Penitenciária Agrícola de Neves, descrita como uma das mais modernas do mundo.

 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pavor aristocrático na reta final


Por Paulo Moreira Leite na Época

A iminência de uma derrota histórica  na cidade que consideravam sua reserva de mercado têm levado alguns observadores a fazer um trabalho vergonhoso em defesa da candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo.

Em vez de defender  José Serra, o que seria natural na reta final da eleição, eles procuram levantar o fantasma da ameaça de um avanço da hegemonia do PT no país inteiro. Enquanto acreditavam que seu candidato era favorito,  diziam que a polarização política era ótima, que o conflito ideológico ajudava a formar a consciência do eleitor. Mas agora, diante de pesquisas eleitorais constrangedoras, querem mudar o jogo de qualquer maneira.

É um comportamento arriscado e pode ser contraproducente.

Do ponto de vista democrático, o PT só chegou ao poder de Estado, em qualquer instância,  pelo voto direto. Bem ou mal, é o único dos grandes partidos brasileiros  – já existentes na época — que pode exibir essa condição.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Jango e os abutres da Condor


Mesmo no exílio, Jango era sistematicamente vigiado (Créditos: EBC)

Por Cléber Sérgio de Seixas

A EBC (Empresa Brasileira de Comunicação) está dando uma grande contribuição à memória da nação brasileira com sua série de reportagens sobre a Operação Condor. 
 
A Operação Condor, oficialmente criada na primeira metade dos anos 70, foi uma aliança política e militar firmada entre os vários regimes militares da América do Sul — Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai — e criada com o objetivo de coordenar a repressão a opositores das ditaduras desses países, sobretudo eliminando líderes de esquerda. A operação contou com auxílio financeiro de várias empresas multinacionais.

Supõe-se que as ações da Condor tenham resultado em aproximadamente 400 mil torturados e cerca de 100 mil assassinados. Tal operação repressiva perdurou até a onda de redemocratização que varreu os países sul-americanos. Fora assim batizada em alusão à grande ave que sobrevoa os Andes e se alimenta de carniça, tal qual abutres e urubus.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A Privataria Tucana, didaticamente


 Por Cléber Sérgio de Seixas

Quem ainda não leu o livro "A Privataria Tucana", de autoria do premiado jornalista Amaury Ribeiro Júnior, está perdendo o bonde da História ou, para dizer o mínimo, uma grande oportunidade de conhecer os bastidores das privatizações nos tempos em que Fernando Henrique Cardoso ocupava a Presidência da República e tinha como seu Ministro do Planejamento o senhor José Serra. O processo não beneficiou o povo brasileiro, e sim alguns ricos que com ele se tornaram milionários, como a filha, o genro e alguns amigos de José Serra. Tal esquema envolvia lavagem de dinheiro em paraísos fiscais das Ilhas Virgens e do Caribe e pode ser chamado de "privataria", expressão que Amaury tomou emprestado do jornalista Hélio Gaspari.

A obra, um Best Seller que bateu vários records de vendagem já nos primeiros dias de lançamento e chegou a ser classificada como “lixo” por José Serra, concorre atualmente ao Prêmio Jabuti, a maior premiação literária do Brasil.

Abaixo um vídeo que explica de forma didática o conteúdo do livro.

domingo, 14 de outubro de 2012

A esperança venceu o medo em Ribeirão das Neves

A candidata Daniela Corrêa (PT) com militantes do PCdoB durante o Grito dos Excluídos



Por Cléber Sérgio de Seixas *

Ribeirão das Neves/MG, 23 de agosto de 2012 – reunidos no salão paroquial da Igreja Nossa Senhora das Neves estão dezenas de militantes dos partidos que disputam as eleições municipais. Ali também se encontram os cinco candidatos a prefeito para o primeiro debate envolvendo os aspirantes ao cargo. Gláucia Brandão (PSDB), Maria Rasgacena (PPL), Daniela Corrêa (PT), Marquinhos (PRB) e Ronaldo Sena (PSOL). Neste momento já se sabe que as eleições estão polarizadas entre Gláucia e Daniela.

Durante o debate, o clima entre os militantes é de hostilidade. As perguntas são direcionadas para os cinco candidatos, mas sempre que a candidata do PT tenta responder é interrompida por militantes tucanos mais exaltados. Pouco depois do início do debate um ônibus fretado chega ao local cheio de cabos eleitorais do PSDB. Ao começar a responder a uma pergunta sobre a Emenda 29, Daniela Corrêa passa a ser vaiada por militantes tucanos. Dalí em diante, não houve clima para o prosseguimento do evento e seus organizadores, membros do Sind-Saúde, Sindicato dos Trabalhadores da Saúde de Ribeirão das Neves, são obrigados a encerrar o evento.

Os ânimos, que já estavam exaltados, ficam ainda mais. Em uníssono, alguns tucanos gritam “uhu, mensalão!”. Enquanto a candidata petista deixa o local, escoltada por correligionários, não faltam ameaças de agressão. Há relatos de que um militante adversário, apontando para a candidata petista, teria dito a outro “cospe nela!”. Também se soube que um militante petista deteve um militante tucano que teria ameaçado agredir a candidata Daniela.

Desde o início da campanha em Ribeirão das Neves era sabido que o julgamento da Ação Penal 470 seria utilizado pelo PSDB local para minar as forças da campanha petista à prefeitura. De fato, os tucanos nevenses usaram e abusaram do marketing negativo proporcionado pela ação penal que ora é julgada pelo STF. Contudo, os efeitos deletérios do assim chamado “mensalão” sobre o PT não foram tão intensos em Ribeirão das Neves e, ao contrário do que esperavam os tucanos, Ribeirão das Neves elegeu sua primeira prefeita petista.  

Contraponto à SIP

Saiba mais clicando na figura acima.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O STF escreve página de vergonha e arbítrio



Por Breno Altman *

Poucas vezes, no registro das decisões judiciais, assistiu-se a cenas tão nefastas como as do julgamento da ação penal 470, o chamado “mensalão”. A maioria dos ministros da corte suprema, ao contrário do que se passou em outros momentos de nossa história, dessa vez embarcou na violação constitucional sem estar sob a mira das armas. Simplesmente dobrou-se à ditadura da mídia.

A bem da verdade, alguns dos magistrados foram coerentes com sua trajetória. Atiraram-se avidamente à chance de criminalizar dirigentes de esquerda e prestar bons serviços aos setores que representam.

O voto de Gilmar Mendes, por exemplo, transbordava de revanchismo contra o Partido dos Trabalhadores. O ministro Marco Aurélio de Mello, o mesmo que já havia dito, em entrevista, que considerava o golpe de 1964 como um “mal necessário”, seguiu pelo mesmo caminho. Mandaram às favas a análise concreta das provas e testemunhos. Apegaram-se às declarações de Roberto Jefferson para fabricar discurso de rancor ideológico, ainda que disfarçado por filigranas jurídicas.

Outros juizes, porém, simplesmente abaixaram a cabeça, acovardados. Balbuciavam convicções sem fatos ou argumentos dignos. A ministra Carmen Lúcia não listou uma única evidência firme contra José Dirceu ou Genoíno, contentando-se com ilações que invertem o ônus da prova. Foi pelo mesmo caminho de Rosa Weber, sempre pontificando sobre a “elasticidade das provas” em julgamentos desse naipe.

O papel nobre e honroso de resistência à chacina judicial coube ao ministro Lewandovski, o único a se ater com rigor aos autos, esmiuçando tanto os elementos acusatórios quanto as contraposições da defesa. Teve a companhia claudicante de Dias Toffoli, sempre apresentado pela velha midia como “ex-advogado do PT”, sem que o mesmo tratamento fosse conferido a Mendes, notório aúlico tucano.

Convite: Programa Café com prosa

 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O paladino da imprensa conservadora

 Veja lança a candidatura de Joaquim Barbosa à Presidência em 2014.

Por Cléber Sérgio de Seixas


Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o ministro Joaquim Barbosa (STF) deu declaraçãos heterodoxas do ponto de vista da oposição e grande imprensa. Por exemplo, disse que a mídia e o empresariado brasileiros são todos brancos e conservadores e que vê "dois pesos e duas medidas" na cobertura da imprensa que "nunca deu bola para o mensalão mineiro". "Todas as engrenagens de comando no Brasil estão nas mãos de pessoas brancas e conservadoras”, salientou ele em outro trecho da entrevista. Afirmou também que vota em Lula desde 1989 e votou em Dilma nas últimas eleições presidenciais. Disse também que nunca foi procurado por Lula ou Dilma para tratar de assuntos referentes ao “mensalão”.

As afirmações de Barbosa à Folha desmontam parte da estratégia da oposição e de seu braço midiático de demonizar Lula e o PT aproventando-se do julgamento da Ação Penal 470.

Sem um nome de peso para disputar o Planalto com Dilma (ou Lula?) em 2014, a oposição pode não retornar ao poder nas eleições vindouras. Seria Barbosa um nome à direita a ser trabalhado pela mídia visando às próximas eleições presidenciais? A capa da última edição da revista Veja fornece um indício.

No entanto, as declarações do futuro presidente do STF não se coadunam com a ideologia conservadora da elite tupiniquim, propagada aos quatro ventos pela sua mídia que ora faz as vezes de partido político.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A espetacularização e a ideologização do Judiciário



Por Leonardo Boff *

É com muita tristeza que escrevo este artigo no final da tarde desta quarta-feira, após acompanhar as falas dos ministros do Superemo Tribunal Federal. Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal 470 sob julgamento no STF. Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.

Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades e o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.

Desde A Ideologia Alemã, de Marx/Engels (1846), até o Conhecimento e Interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.

Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Hebe Camargo e o "mensalão"

Hebe (à esquerda) e as cansadas "musas" do movimento "Cansei"

 Por Jeferson Malaguti Soares *

Não sei se apenas eu consigo separar a artista de TV Hebe Camargo, da pessoa Hebe Camargo. Entusiasta do golpe de 64 – inclusive, participou da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, entrevistou a partir de 1971 várias figuras dos governos da época, até a esposa de um presidente de plantão –, eleitora e cabo eleitoral de Paulo Maluf, deu seu apoio a Fernando Collor contra Lula, aliás, era anti-petista de carteirinha e não escondia sua preferência pelos tucanos paulistas. Participou do malfadado "Cansei", movimento conservador e elitista cujo objetivo era desgastar a imagem do governo Lula, de que participavam socialites, empresários e algumas "celebridades", a exemplo de Regina Duarte, Ivete Sangalo, João Dória Júnior, Luiz Flávio Borges D'Urso e Ana Maria Braga.

Fico muito triste ao ver quantas rainhas e reis a mídia entroniza a cada dia em nossas vidas, seja na televisão, nos esportes ou na música. Poucas dessas pseudo-realezas contribuem ou contribuiram, efetivamente, com a cultura nacional. Servem, isso sim, para vender comerciais e mexer com a nossa sensibilidade, no afã de não nos deixar pensar nos problemas da nação.

O arreganho golpista do STF


Deve demorar alguns anos para que a farsa em curso no STF seja denunciada por organismos internacionais como a Corte Interamericana de Justiça. Por conta disso, as ameaças que estão se levantando contra a democracia brasileira terão muito tempo para se desdobrar.

Todavia, cada vez mais juristas e cientistas sociais vão se espantando com o esmagamento de direitos individuais que vai sendo produzido pela mais alta instância do Judiciário brasileiro.

O inconformismo vai se espalhando pelos setores pensantes da sociedade de tal maneira que o ministro Celso de Mello, na sessão de segunda-feira do julgamento da AP 470, passou recibo e respondeu às críticas, afirmando que a Corte que integra não estaria promovendo inovação alguma.

É uma piada. A crer que o STF não está inovando e invertendo princípios consagrados no Direito teremos que aceitar a teoria estapafúrdia de que a corrupção na política brasileira teve início em 2003 com a chegada do PT ao poder, pois jamais aquela Corte agiu como está agindo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Hobsbawm, um historiador de princípios

 Eric Hobsbawn: *1917  +2012

 Hoje, 1º de outubro de 2012, faleceu o historiador britânico Eric Hobsbawm, que talvez tenha sido o maior estudioso da História Contemporânea.

Por Thomas de Toledo*

Em sua carreira, Hobsbawm jamais deixou de lado seus princípios. Compreendia que o discurso histórico e historiográfico de forma alguma é neutro, e por isto foi também um militante político, contribuindo como poucos com as lutas sociais de seu tempo. Hobsbawn era marxista, e mesmo em tempos de debacle jamais negou suas raízes. Ao contrário, aperfeiçoou-as, pois as fundamentava em um método que era o materialismo dialético. Este método consiste em compreender as transformações históricas como produtos das contradições concretas (por isto dialético) da realidade concreta (por isto materialista). Assim, suas análises conseguiam ser profundas e sutis, sempre se baseando na verdade histórica.

Hobsbawm esteve entre os grandes historiadores marxistas britânicos como Perry Anderson, E. P. Tompsom e Christopher Hill, que sabiamente enfrentaram no debate acadêmico as correntes historiográficas fragmentadoras como a Nova História. Porém, dentre todos os citados, Hobsbawm destacou-se por ter se colocado o desafio de escrever a macro-história de nosso tempo, demonstrando uma visão da totalidade, sem negar suas contradições e o seu ponto-de-vista de um britânico socialista. Era, dessa forma, um historiador de “eras”.