terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Em BH somos todos Pinheirinho!


Por Cléber Sérgio de Seixas

No dia 22 de janeiro último, um efetivo de aproximadamente 2 mil soldados foi encarregado de desocupar um terreno sob as ordens do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, do Tribunal de Justiça do Estado e do Ministério Público Estadual. A propriedade fica em São José dos Campos, está em nome da empresa Selecta, deve mais de 15 milhões em impostos para o município e faz parte da massa falida do especulador Naji Nahas. Na desastrada operação de reintegração de posse, marcada pela violência e por abusos perpetrados pelos agentes envolvidos, não foram poucos os moradores que foram removidos de suas casas sem ao menos terem tempo de retirar seus pertences; não foram poucas as residências que foram destruidas com quase tudo dentro.

Nenhuma casa ficou de pé no Pinheirinho, e cerca de 6 mil famílias permanecem amontoadas de forma subumana em abrigos que não oferecem condições mínimas de dignidade. Ao mesmo tempo, a grande mídia – que se faz pequena pela cobertura tendenciosa, mentirosa e partidarizada que pratica – trata de demonizar os flagelados e justificar a postura das autoridades paulistas.

Vários atos de solidariedade aos desabrigados do Pinheirinho marcaram a semana. Houve manifestações em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Teresina.

Ontem ocorreu mais um ato em repúdio ao que alguns já chamam de “Massacre de Pinheirinho”. Na ocasião, a Praça Sete, centro nervoso de Belo Horizonte, foi tomada por manifestantes que protestavam contra a postura do governo paulista com respeito à comunidade do Pinheirinho, bem como a política do governador de Minas, Antônio Anastasia. Depois da concentração na Praça Sete, os manifestantes seguiram em caminhada rumo à Prefeitura.

Participaram do evento manifestantes das Brigadas Populares, da Rede Nós Amamos Neves (Ribeirão das Neves), da ANEL, do SINDIREDE-BH, da CSP-Conlutas, além de moradores da comunidade Dandara e militantes de partidos como PSTU, PSOL, PT e PCdoB.

Neste post publico algumas fotos tiradas no evento e um vídeo com imagens da manifestação.




.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Metrô também para Betim

Metrô de Belo Horizonte: um túnel no fim da luz


Editorial do Jornal Hoje em Dia

Não tem sentido o metrô de Belo Horizonte parar um pouco depois da divisa com Contagem, no Eldorado. O trem metropolitano não chega aonde o povo está. Teria de atravessar Contagem e chegar também a Betim. É a ordem natural da Região Metropolitana. Na outra ponta da Linha 1, nada mais correto do que ampliar o metrô até pelo menos Justinópolis, o principal distrito de Ribeirão das Neves, maior que muitas cidades do interior mineiro.

Para quem não dispõe de metrô, o melhor é correr atrás, sendo isso o que a Prefeitura de Betim está fazendo. Na semana passada, a prefeita promoveu reunião com várias autoridades ligadas à Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas, a Transbetim, e o consultor contratado para o projeto do metrô. Debateram-se ações para viabilizar a expansão do trem metropolitano.

Desde 2009, a Prefeitura de Betim bate às portas de Brasília em busca de recursos para atualizar o projeto do metrô, sem o qual nada se faz. Quem é visto é lembrado e Betim tem feito o dever de casa desde quando Dilma Rousseff era ministra da Casa Civil. Buscam-se recursos de R$ 1 milhão, dentro do Plano Plurianual de Investimentos 2012/2015, para que o projeto do metrô até Betim, existente há mais de 20 anos, saia do papel.

Conforme a Transbetim, 110 mil pessoas por dia vão se beneficiar do metrô. A linha terá entre 17 a 23 quilômetros e cinco estações previstas para os bairros Jardim das Alterosas, PTB, Jardim Teresópolis/Laranjeiras e Imbiruçu.
Estima-se ainda que o metrô em Betim será capaz de retirar cerca de mil ônibus/dia da BR-381 (a rodovia Fernão Dias), que fica engarrafada todos os dias na chegada a BH.

Parece até o sonho dos sonhos. A capital luta há mais de 30 anos para implantar um metrô e não consegue. Agora, Betim arregaça as mangas e cobra a sua parte. O esforço parece que está sem coordenação, tendo em vista que Contagem está meio de lado e Ribeirão das Neves nem se pronuncia. A Prefeitura de Belo Horizonte tem ido também a Brasília, junto com representantes do Governo do Estado, mas é preciso ter uma compreensão em longo prazo de que o metrô é a solução para o trânsito de toda uma região metropolitana.

Não é mais possível ficar só no palanque, sem partir para ações concretas. Outras capitais, como Rio de Janeiro e São Paulo, continuam construindo seus metrôs, quilômetro por quilômetro, sem parar um dia sequer. Outras regiões metropolitanas pelo mundo, como as de Londres, Paris e Roma, são beneficiadas pelo trem metropolitano.

O que não pode é ficar como está, com as principais vias de trânsito rápido despreparadas para os veículos que deixaram as concessionárias e estão hoje rodando nas mesmas ruas e avenidas de antes. É preciso estimular o proprietário a deixar o carro em casa e ir trabalhar de metrô, de ônibus ou de BRT, o novo modelo de transporte que funciona em outros países e que deve ficar pronto em Belo Horizonte até a Copa do Mundo de 2014.
.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O capital ou a vida?

O Sacrifício de Isaque (1635), pintura de Rembrandt

Por Frei Betto *

O melhor papai-noel do mundo mereceram 523 instituições financeiras europeias quatro dias antes do Natal: 489 bilhões de euros (o equivalente a R$ 1,23 trilhão), emprestados pelo BCE (Banco Central Europeu) a juros de 1% ao ano! Curiosa a lógica que rege o sistema capitalista: nunca há recursos para salvar vidas, erradicar a fome, reduzir a degradação ambiental, produzir medicamentos e distribuí-los gratuitamente. Em se tratando da saúde dos bancos, o dinheiro aparece num passe de mágica.

Há, contudo, um aspecto preocupante em tamanha generosidade: se tantas instituições financeiras entraram na fila do Bolsa-BCE, é sinal de que não andam bem as pernas. Quais os fundamentos dessa lógica que considera mais importante salvar o mercado que vidas humanas? Um deles é mito de nossa cultura: o sacrifício de Isaac por Abraão (Gênesis 22. 1-19).

No relato bíblico, Abraão deve provar a sua fé sacrificando a Javé seu único filho, Isaac. No exato momento em que, no alto da montanha, prepara a faca para matar o filho, o anjo intervém e impede Abraão de consumar o ato. A prova de fé fora dada pela disposição de matar. Em recompensa, Javé cobre Abraão de bênçãos e multiplica-lhe a descendência como as estrelas do céu e as areias do mar.

Essa leitura, pela ótica do poder, aponta a morte como caminho para a vida. Toda grande causa – com a fé em Javé – exige pequenos sacrifícios, que acentuem magnitude dos ideais abraçados. Assim, a morte provocada, fruto do desinteresse do mercado por vidas humanas, passa a integrar a lógica do poder, como o sacrifício necessário do filho Isaac pelo pai Abraão, em obediência à vontade soberana de Deus. Abraão era o intermediário entre o filho e Deus, assim como o FMI e o BCE fazem a ponte entre os bancos e os ideais de prosperidade capitalista dos governos europeus – que, para escapar da crise, devem promover sacrifícios.

Essa mesma lógica informa o inconsciente do patrão, que sonega o salário de seus empregados sob o pretexto de capitalizar e multiplicar a prosperidade geral, e criar mais empregos. Também leva o governo a acusar as greves de responsáveis pelo caos econômico, mesmo sabendo que resultam dos baixos salários pagos aos que tanto trabalham sem ao menos a recompensa de uma vida digna.

O deus da razão do mercado merece, como prova de fidelidade, o sacrifício de todo um povo. Todos os ideais estão prenhes de promessas de vida: a prosperidade dos bancos credores, a capitalização das empresas ou o ajuste fiscal do governo. Salva-se o abstrato em detrimento do concreto, a vida humana. O espantoso dessa lógica é admitir, como mediação, a morte anunciada. Mata-se cruelmente por meio do corte de subsídios a programas sociais; da desregulamentação das relações trabalhistas; do incentivo ao desemprego; dos ajustes fiscais draconianos; da recusa de conceder aos aposentados a qualidade de uma velhice decente.

A lógica cotidiana do assassinato é sutil e esmerada. Aqueles que têm admitem como natural a despossessão dos que não têm. Qualquer ameaça à lógica cumulativa do sistema é uma ofensa ao deus da liberdade ocidental ou da livre iniciativa. Exige-se o sacrifício como prova de fidelidade. Não importa que Isaac seja filho único. Abraão deve provar sua fidelidade a Javé. E não há maior prova do que a disposição de matar a vida mais querida.

A lógica da vida encara o relato bíblico pelos olhos de Issac. Ele não sabia que seria assassinado, tanto que indagou ao pais onde se encontrava o cordeiro destinado ao sacrifício. Abraão cumpriu todas as condições para matar o filho. Subjugou-o, amarrou-o, colocou-o sobre a lenha preparada para a fogueira e empunhou a faca para degolá-lo. No entanto, inspirado pelo anjo, Abraão recuou. Não aceitou a lógica da morte. Subverteu o preceito que obrigava os pais a sacrificarem seus primogênitos. Rejeitou as razoes do poder. À lei que exigia a morte, Abraão respondeu com a vida e pôs em risco a sua própria, o que o forçou a mudar de território.

Se não mudarmos de território – sobretudo no modo de encarar a realidade –, como Abraão, continuaremos a prestar culto e adoração a Mamom. Continuaremos empenhados em salvar o capital, não vidas, e muito menos a saúde do planeta.


* Frei Betto é escritor, autor de Sinfonia universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin (Vozes), entre outros livros

Fonte: Jornal ESTADO DE MINAS – quarta-feira, 25 de janeiro de 2012.
.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A ditadura camuflada


Por Miriam Pacheco da Silva Seixas *


O ano de 2012 nem bem iniciou e apresenta uma série de acontecimentos em nosso país dignos de medalhas forjadas em papel brilhante, mas que, na verdade, merecem uma reflexão sobre o caminho que nossa sociedade tem tomado.

Da grávida falsa com barriga exorbitante a estupro televisionado e veiculado como algo comum, passando pelo caso da tal Luiza que veio do Canadá, fica patente que nossa sociedade passa por um período onde todos os valores e direitos precisam ser urgentemente revistos, em face das futilidades que dominam corações e mentes.

Algo anda em frangalhos em nossa sociedade. Os assuntos banais predominam nos burburinhos, enquanto temas dignos de reflexão passam longe de qualquer discussão coletiva. São poucas as pessoas que se aventuram a falar sobre assuntos mais sérios, e os que se atrevem a tal, sofrem o estigma da reprovação. Deixando de lado os assuntos banais que arrebatam os telejornais com uma importância desmedida, a intenção deste texto é versar sobre o episódio que tem me deixado estarrecida: o caso da favela de Pinheirinho.

Atrevo-me a “bedelhar” nos valores do Poder Judiciário e afirmo que oscilam entre as idiossincrasias do ser humano e a formalidade das leis. Acredito na lei e na justiça, desde que essas não sejam usadas para beneficiar poderosos e massacrar as massas. É preciso que a Justiça seja feita e que as nossas leis se orientem no sentido de amparar os que estão mais vulneráveis às mazelas sociais. Subentende-se que a Justiça foi feita para defender os mais fracos, mas no caso especifico de Pinheirinho vimos exatamente o contrário, a Justiça, uma res publica, sendo usada para defender interesses de particulares.

Pior que o Judiciário andam os governantes da ala centro-direita que, camuflados de pessoas bem intencionadas, arautos da ordem, são na verdade adeptos das balas de borracha, das bombas de gás, das caminhadas permeadas por indignação seletiva (onde estão os manifestantes indignados com as denúncias contidas no livro A Privataria Tucana?); são estes mesmos que aceitam, admitem e participam do processo de privatização dos bens nacionais e sua venda ao mercado estrangeiro, patrocinando, assim, a desvalorização da Nação.

Para estes governantes, o cheiro do povo é desagradável. E um governo como o de Lula trouxe uma “fragrância” incomoda às suas narinas, consideradas insensíveis ao cheiro de suor decorrente de trabalho duro. E o governo Dilma, por declarar ser de continuidade, promove o exalar do mesmo cheiro indesejável. Certa vez, o último dos ditadores do nosso período castrense, o General João Batista Figueiredo, afirmou que preferia o olor equino ao cheiro do povo. Governantes como os responsáveis pelo flagelo do povo de Pinheirinho tem na sua formação uma raiz de inspiração fascista, com resquícios da ditadura militar, especializados em tortura, humilhação e escárnio.

As massas às vezes se interpõem entre os interesses das classes dominantes, tornando-se algo inconveniente e que deve ser expurgado, espoliado e relegado aos rincões da Pátria, aos subúrbios ou para debaixo do tapete, para que o mundo não veja.

O que as massas precisam aprender é não render-se ao pensar dominante. Parafraseando Paulo Freire no livro A Pedagogia do Oprimido, o oprimido acaba adquirindo, introjetando, o discurso do opressor. Os oprimidos, assim, acabam achando que os opressores tem razão. O doutor sempre estaria certo porque tem estudo, detém meios e possui mais grana. No entanto, cabe ao povo mudar esse paradigma e não se deixar levar por um discurso que o oprime.

O caso Pinheirinho é emblemático e pode ser apenas o começo, um mau exemplo que pode ser seguido por governantes a serviço dos poderosos de plantão; uma tragédia que a qualquer momento pode se repetir em outras partes do Brasil, inclusive aqui em Minas Gerais, onde casos semelhantes como os das comunidades Dandara e Zilah Spósito geram inquietação em virtude dos interesses de especuladores imobiliários.

Os ex-moradores de Pinheirinho gritam, agonizam, padecem e cabe ao restante das massas não se calarem diante dos coronéis e dos engravatados que atrás deles se escondem.


* Miriam Pacheco da Silva Seixas é professora, psicopedagoga e mantenedora deste blog.
.

Sobre o massacre de Pinheirinho


Por Cléber Sérgio de Seixas

A ação das autoridades paulistas na desocupação da favela Pinheirinho (São José dos Campos/SP) gerou comoção e escândalo nos meios alternativos de comunicação e na imprensa internacional, ao passo que as reportagens da dita grande mídia nativa são obsequiosas à forma como foram conduzidas as operações de reintegração de posse.

Na imprensa tradicional sobejam matérias que procuram demonizar os já sofridos moradores, enquanto em blogs e redes sociais pululam vídeos que provam de forma inconteste os excessos policiais que ganharam corpo na forma de bombas de gás, balas de borracha, agressões gratuitas, derrubada de imóveis com pertences de moradores dentro etc. O vasto material audiovisual disponível em nichos como o Youtube sobre o que podemos denominar de “massacre de Pinheirinho”, remete-nos à primeira metade do século passado, quando a questão social era caso de polícia e não de políticas (políticas públicas).

Mais uma vez, ficou claro que o Executivo peessedebista, há mais de 16 anos à frente do Governo de São Paulo, possui pouca ou nenhuma sensibilidade no trato com as questões sociais. Campearam a arbitrariedade e a violência na retirada de moradores de uma área pertencente à massa falida do notório especulador Naji Nahas – mais um que esgueirou-se pelo cipoal jurídico nacional que garante a impunidade a tantos bandidos do colarinho branco. Confundiu-se, mais uma vez, pobre com bandido.

O jornalista Ricardo Boechat analisa a desocupação da favela Pinheirinho. Boechat integra o grupo BAND de jornalismo e, que eu saiba, não pertence a nenhum movimento popular, partido de esquerda ou organização subversiva, sendo, portanto, insuspeito para tratar do assunto.

Confira no vídeo abaixo (sugerido pelo sempre atento blogueiro Eduardo Guimarães) as considerações de Ricardo Boechat acerca da tragédia/massacre do Pinheirinho.


.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A tragédia do navio e o “fake show” do BBB

Por Ricardo Kotscho *

Vejam se não têm algo em comum as deprimentes imagens do navio emborcado na Itália e do edredom do BBB, os dois assuntos que dominam todas as conversas nos últimos dias. Até o tom esverdeado do vídeo mostrando os movimentos do "edredom do estupro" sugere que o casal está no fundo do mar.

Ninguém mais fala de outra coisa, nem do caso da imensa barriga da mulher de Taubaté apresentada pela imprensa como futura mãe de quadrigêmeos e que, segundo seu médico, não está grávida. O mundo está ficando muito louco para o meu gosto, difícil mesmo de entender.

Por mais que você tente evitar, não tem jeito. É impossível ficar indiferente ao caso do suposto estupro ao vivo no "reality show" chamado Big Brother Brasil, na verdade um "fake show", e às revelações sobre as causas e o triste papel do comandante do pior acidente da navegação mundial nos últimos muitos anos.

Na Itália, já foram contados 11 mortos e ainda há 24 desaparecidos; no Brasil, não morreu ninguém, a não ser a reputação de algumas pessoas que fazem qualquer coisa por grana, fama ou audiência, se possível tudo junto.

Quando vai ver, você já está no meio de uma discussão sem fim sobre as misérias e os limites da natureza humana.

A absoluta falta de senso de ridículo e de amor próprio movem desde sempre estes infelizes alegres que expõem seus corpos e sua pobreza mental ao vivo na televisão. Até aí, faz parte do jogo, quem entra na chuva é para se molhar.

Só não consigo entender o que pode levar o comandante do navio Costa Concordia, de 13 andares, com quase cinco mil pessoas a bordo, um dos maiores do mundo, a desviar da rota nas águas calmas do mar Mediterrâneo só para fazer umas gracinhas em volta da ilha de Giglio, onde nasceu o chefe dos garçons e mora um ex-comandante da companhia.

Pior: depois da lambança, o comandante foi um dos primeiros a pular para um barco salva-vidas e chegar em terra firme.

Jamais alguém vai ouvir num programa do BBB, por mais "fake show" que seja, em qualquer novela ou filme de terror, um diálogo mais dramático do que o travado entre o comandante Francesco Schettino e o comandante da Capitania dos Portos de Livorno, Gregorio de Falco, quando o navio começou a afundar.

_ Aqui é o De Falco, falando de Livorno. Estou falando com o comandante?

_ Sim, boa noite comandante De Falco.

_ Schettino? Escute, Schettino! Há pessoas a bordo. Agora, vá com seu barco até a proa, do lado estibordo. Há uma escada de emergência. Você sobe a bordo e me diz quantas pessoas estão lá.

_ Comandante, deixe-me falar uma coisa...

_ Fale mais alto! Coloque a mão na frente do microfone e fale mais alto, está claro?

_ Neste momento o navio está se inclinando...

_ Eu entendo, escute, há pessoas descendo pela escada da proa. Você sobe esta escada, sobe no navio e me diz quantas pessoas ainda estão a bordo. E do que elas precisam. Está claro? (...) Escute, Schettino, você se salvou, mas vou fazer com que você tenha problemas, vou fazer com que você pague por isso! Volte ao navio, caralho!

_ Comandante, por favor...

_ Não tem por favor!

A lambança estava feita e não tinha volta. Na Globo, as cenas do edredom na TV aberta foram editadas, depois apagadas na TV paga, mas a esta altura as imagens já estavam circulando nos youtubes e redes sociais da vida. No dia seguinte, as crianças puderam ver tudo nos celulares dos amigos.

Quando a polícia ameaçou entrar no caso, resolveram expulsar o fogoso rapaz da casa e chamaram os advogados da Globo. Depois de orientada, a moça supostamente embrigada e supostamente violentada sem perceber, deu diferentes versões e, enquanto autoridades e setores da sociedade mostravam indignição com o acontecido, a audiência do programa quase dobrava no momento em que o poeta popular Pedro "É o amor..." Bial dava as explicações oficiais da emissora sobre o episódio.

As figuras patéticas de Bial e de Boninho, o diretor do programa, ao tentar defender a casa do Projac dos ataques inimigos, lembraram as primeiras declarações do comandante Schettino ao falar com o comandante da Capitania dos Portos.

Após ser beneficiado com a prisão domiciliar pela juíza Valeria Montesarchio, na tarde de terça-feira, fiquei pensando o que será que o comandante Schettino contou ao chegar em casa olhando para a mulher e os filhos. Acusado de homicídio múltiplo culposo (sem intenção), naufrágio e abandono de navio, o comandante pode pegar até 15 anos de prisão.

E o que vai acontecer com os responsáveis pelo "fake show" que se chocou contra as rochas do que ainda nos resta de dignidade humana?

Com tanto ócio, brothers & sisters permanentemente no cio, bebida farta e edredons para todos, estava na cara que um dia isto iria acontecer. A onipotência, a irresponsabilidade e a covardia acabam nisso. É triste.


* Ricardo Kotscho é repórter desde 1964. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos da imprensa brasileira, nas funções de repórter, repórter especial, editor, chefe de reportagem, colunista, blogueiro e diretor de jornalismo.


Fonte: Balaio do Kotscho

domingo, 15 de janeiro de 2012

Os banqueiros e o sonho americano

O padrão de vida mais alto do mundo? Norte-americanos fazem fila para obter comida e água em Louisville, Kentuchy, em 1937. Foto: Margaret Bourke/Getty Images


Por Cléber Sérgio de Seixas


A mais recente crise capitalista iniciou em meados de 2007 e se estende até os dias atuais. Os efeitos da crise se espalham por todo o Globo e ameaçam as economias de vários países.

Nem mesmo os Estados Unidos, onde a crise foi gestada, escaparam dos efeitos da mesma. Aquele país passa por um constante processo de empobrecimento de sua população. Apesar disso, os milionários e financistas de Wall Street permanecem abocanhando a maior parcela da riqueza do país. Nesse contexto, uma pergunta deve ser feita: o neoliberalismo e sua mais recente crise sepultaram o assim chamado “sonho americano”?

A animação reproduzida abaixo demonstra o que está por trás do sistema financeiro estadunidense e mostra que o FED não é uma entidade financeira estatal, mas privada, apesar de ser denominada Reserva Federal.


.

Democracia e capitalismo

Por Mino Carta *

No final de 2008 pareceu que o segundo muro havia ruído 19 anos após a queda do primeiro em Berlim. Este para selar o colapso do chamado socialismo real, aquele da main street do capitalismo para precipitar o enterro do neoliberalismo. Enganaram-se os esperançosos analistas, apressados. O célebre wall resistiu e o mercado prosseguiu no comando, perdão, o MERCADO, deus último e famigerado.

Leio um texto exemplar de Carlo Azeglio Ciampi, límpido funcionário do Estado, ex-presidente do Banco Central da Itália, ex-primeiro-ministro, ex-presidente da República. Diz ele: “Desafiaram a lei moral que permite distinguir a comunidade humana da selva (…) fizeram da finança, aquela que, conforme os manuais de economia, está a serviço da produção, da troca, do desenvolvimento, uma selva onde se satisfazem apetites ferinos, onde impera a lei não escrita do desprezo por todos os valores, afora o ganho, o sucesso, o poder”.

Ciampi fala de uma tormenta que dura há três décadas e confere ao capitalismo “um rosto desumano”. A crise global atiça, em diferentes instâncias, o debate sobre o estágio atual do capitalismo. Das lideranças das forças produtivas aos intelectuais de diversos calibres e aos analistas de publicações de alto nível, como The Economist, Foreign Affairs, Financial Times. Em questão, o modelo político e econômico ocidental, a partir de mudanças consolidadas. A globalização com seus efeitos mais recentes, por exemplo. Ou o galope do avanço tecnológico.

É do conhecimento até do mundo mineral que conseguimos globalizar a desgraça ao aprofundar os desequilíbrios entre ricos e pobres em todas as latitudes de uma forma bastante peculiar. Deixemos de lado o Brasil, reservado, como se diz de certos elementos de receitas culinárias. Sobram países pobres, ou mesmo paupérrimos, e que continuam como tais, e países ricos cada vez mais empobrecidos. A constatação inevitável nos leva a validar a tese de que a riqueza foi transferida para algumas corporações e seus mandachuvas. São eles os donos do mundo. A senhora Merkel, o senhor Sarkô, tentam se dar ares de superioridade, mas não convencem.

É a vitória dos especuladores e de -suas artimanhas, e não era com isso que sonhava Adam Smith. Ou, muito tempo antes, o banqueiro genovês que financiou a construção dos barcos destinados ao transporte das tropas da Primeira Cruzada. As consequências do neoliberalismo, deste selvagem fundamentalismo, não põem em xeque somente o sistema econômico mundial, mas também a própria democracia, a qual não se satisfaz com a -liberdade para buscar a igualdade. Ao menos, a igualdade de oportunidades.

O mundo mineral continua a confirmar o senhor De La Palisse. O neoliberalismo promove o predador espertalhão, ou, por outra, a lei da selva, a acentuar a desigualdade. E onde fica a democracia? Daí a preocupação de quem ainda a considera indispensável à realização de uma sociedade que se pretenda justa. Chegou a hora de retirar o Brasil da reserva em que me permiti colocá-lo, à espera de completar a receita. O Brasil tende a sofrer menos com a crise, talvez muito menos, do que a turma outrora seleta do ex-Primeiro Mundo.

O País deu e dá importantes passos à frente nos últimos nove anos. Começa finalmente a aproveitar suas extraordinárias potencialidades, os generosíssimos presentes da natureza, graças a governos contrariados pela desigualdade. Como haveria de ser, aliás, todo capitalista consciente das suas responsabilidades de cidadão de uma nação democrática. Podemos crer que, de fato, somos uma nação democrática?

O Brasil é, a seu modo, um caso à parte, como alguns outros países. Carecemos da passagem pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa. A dita elite brasileira é uma das mais atrasadas do mundo. Nunca usufruímos de um Estado de Bem-Estar Social e os sistemas da indiscutível atribuição estatal, educação, saúde e transporte público, são além de bisonhos. São Paulo tem a segunda maior frota de helicópteros do mundo e uma enorme área do País não conta com saneamento básico. Nesta moldura, a democracia há de lutar bravamente para se afirmar.

A vantagem quem sabe esteja no seguinte ponto: a democracia perde terreno para tantos que a conheceram e praticaram, nós temos largo espaço à frente para conquistá-la.


*Mino Carta é um jornalista, editor, escritor e pintor ítalo-brasileiro.

Fonte: site da Carta Capital

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

QUANDO BANQUEIROS SE TORNAM GANGSTERES


Por Mauro Santayana *

Primeiro ministro da França entre 1988 e 1991, Michel Rocard é homem respeitável em seu país. Ele, e um economista mais moço, Pierre Larrouturou, publicaram, segunda-feira, em Le Monde, artigo baseado em fontes americanas sobre os empréstimos concedidos pelo Tesouro dos Estados Unidos aos bancos, em 2008. De acordo com as denúncias – feitas pela agência de informações econômicas Bloomberg – os juros cobrados pelo FED aos bancos e seguradoras foram de apenas 0,01% ao ano, enquanto os bancos estão emprestando aos Estados europeus em dificuldades a juros de 6% a 9% ao ano – de seiscentas a 900 vezes mais. De acordo com as denúncias da Bloomberg, retomadas por Rocard e Larrouturou, o montante do socorro por Bush e Henry Paulson, seu secretário do Tesouro, aos banqueiros, chegou a um trilhão e duzentos bilhões de dólares, em operações secretas.

O artigo cita a cáustica conclusão de Roosevelt, durante sua luta para salvar os Estados Unidos depois da irresponsabilidade criminosa dos especuladores que haviam provocado a Grande Depressão: "um governo dirigido pelo dinheiro organizado é igual a um governo dirigido pelo crime organizado".

Dentro do raciocínio de Roosevelt, podemos comparar a carreira de Henry Paulson à de qualquer grande boss de Chicago ou de Nova Iorque no crime organizado. Desde 1974 – quando tinha 28 anos – Paulson tem servido ao Goldman Sachs, a cuja presidência chegou em 1999. Nos sete anos seguintes, ele consolidou a posição do banco em sua atuação internacional – e foi convocado por Bush para ocupar a Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos em 2006. Poucos dias antes, ele deixou a presidência do banco, e preferiu converter a indenização a que teria direito (o famoso bônus), em participação acionária. Isso o manteve ligado, por interesse próprio, aos destinos do banco.

Uma das primeiras firmas a serem beneficiadas pela ajuda do Tesouro, por decisão de Paulson, durante a crise de 2008, foi a AIG - a maior seguradora norte-americana - com cerca de 80 bilhões de dólares. Ocorre que o principal credor da AIG, era o Goldman Sachs, que desse dinheiro, recebeu quase 30 bilhões, logo em seguida.

O Goldman foi multado, em julho de 2010, pela SEC (Securities and Exchanche Commission) por fraude, em 550 milhões de dólares, por ter atuado de má fé na questão das operações com papéis da dívida imobiliária. E são ex-diretores do Goldman Sachs (provavelmente ainda grandes acionistas do banco, como é o caso de Henry Paulson) que se encontram agora no controle do Banco Central Europeu (Mario Draghi), na chefia dos governos da Itália (Mario Monti) e da Grécia (Lucas Papademos). O que farão esses interventores do Goldman Sachs, no controle das finanças européias, a não ser defender os interesses dos bancos - e seus lucros fraudulentos? Se Roosevelt fosse vivo, naturalmente estaria pensando em sua advertência dos anos 30.

É brutal a semelhança entre a situação atual e a de 1929. Ao analisar os fatos daquele tempo, John Galbraight disse que “o outono de 1929 foi, talvez, a primeira ocasião em que os homens tiveram, em grande escala, a capacidade de enganar a si mesmos”. A escala do auto-engano parece ser ainda maior em nossos dias. Rocard lembra a observação de Paul Krugman, de que a Europa entrou em uma “espiral da morte” – mas não é apenas a Europa que corre esse risco.

Assim podemos explicar a advertência de Edgar Morin – também citada por Rocard – de que a civilização ocidental está entre a metamorfose e a morte. “O capitalismo sem regras é o suicídio da civilização”, como afirmam Morin e Stephane Hessel, em seu livro recente “Le Chemin de l’espérance”.

O ex-premier Rocard registra, em seu artigo de Le Monde, que as dívidas dos países europeus para com os grandes bancos são antigas, e sua solução não é difícil. Se o Tesouro americano foi capaz de emprestar a 0,01 aos bancos fraudadores e irresponsáveis, o Banco Central Europeu poderia emprestar, com as mesmas taxas, a instituições nacionais européias - seu estatuto veda o empréstimo direto aos estados-membros - como os bancos estatais de fomento e caixas econômicas. Essas instituições repassariam as somas aos estados, cobrando-lhes juros em dobro – a 0,02% ao ano. Se prevalecesse a razão e a ética, estaria resolvido o problema europeu da dívida pública.

Registre-se, no entanto, que o lema do Goldman Sachs, creditado a um de seus antigos controladores, Gus Levy, nos anos 50, é auto-elucidativo: “long-term greedy”, ganância a longo prazo. O fato singelo é o de que, em tempos de crise – como disse Keynes em 1937, e Krugman relembrou também em texto recente – não cabe a austeridade, com corte de gastos sociais e de infraestrutura, mas, sim, é preciso investir e criar empregos. Os governantes de hoje, em sua maioria, não servem a seus povos, e em razão disso, desprezam pensadores como Keynes. Estão a serviço de grandes corporações, dirigidas por fraudadores, como os banqueiros do Goldman Sachs.

Talvez tenhamos que ir mais adiante ainda – e seguir o conselho de Morin: para não perecer, a civilização ocidental terá que sofrer a metamorfose necessária, encasular-se na razão e, nela, criar asas para o vôo.


* Mauro Santayana é um dos mais renomados e respeitados jornalistas do país.

Fonte: maurosantayana.com
.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

2011, o ano da Rede


Por Cléber Sérgio de Seixas

2011 foi muito produtivo para a Rede Nós Amamos Neves. Para quem não sabe o que é a Rede Nós Amamos Neves, explico que se trata de uma entidade que congrega movimentos sociais, associações comunitárias, cidadãos comuns, empresários, etc, que juntos lutam pela mudança da realidade social de Ribeirão das Neves, esta tão sofrida cidade mineira cujo IDH é o menor dentre os municípios da RMBH (Região Metropolitana de BH).

Ribeirão das Neves coleciona dois adjetivos nada positivos: cidade dos presídios e cidade dormitório. Essa fama não é infundada porque Neves abriga hoje a maior população carcerária de Minas Gerais (cerca de 13%) e é uma cidade que experimentou um boom populacional dos anos 70 em função do baixo custo de aquisição dos imóveis, sendo a cidade da RMBH que mais cresceu demograficamente. O vertiginoso aumento populacional não se fez acompanhar de um aumento nos postos de trabalho, obrigando a maior parte de sua população economicamente ativa a buscar emprego e trabalho em cidades vizinhas como Belo Horizonte e Contagem, o que justifica o segundo adjetivo supracitado.

A Rede foi criada em 2005 tendo como bandeira inicial a luta contra a implantação do presídio José Martinho Drumond em Ribeirão das Neves. De lá pra cá as demandas se diversificaram e a Rede atua em várias frentes de interesse popular, auxiliando as associações de moradores, atuando junto a movimentos pela melhoria no transporte público da cidade, em prol dos direitos das mulheres, a favor da preservação do meio ambiente, contra a corrupção e pela moralização na política. Além disso, a Rede apóia movimentos sociais fora do município, como ocorreu recentemente com o apoio às famílias da comunidade Dandara (BH).

No ano passado, a Rede protagonizou uma série de eventos de relevância social para o município de Ribeirão das Neves. Dentro os eventos organizados pela Rede em 2011, convém destacar os seguintes:
* 13/02/11 - Manifestantes da Rede fecham um trecho da rodovia BR-040 para protestar contra a construção de mais presídios. Não tarda para a PM chegar e dissolver a manifestação;
* 10/04/11 - Membros da Rede e lideranças comunitárias promovem uma pacífica caminhada ecológica rumo às proximidades do canteiro de obras do futuro complexo prisional. Apesar de a manifestação ter sido previamente comunicada às autoridades competentes, os caminhantes são barrados no meio do caminho por agentes do GIT (Grupo de Intervenções Táticas) fortemente armados. A ação é desproporcional, haja vista que a maioria dos manifestantes é composta de idosos, mulheres e crianças;
* 26/04/11 – Em audiência pública solicitada pela Rede e encabeçada por deputados da Comissão de Direitos Humanos da ALMG, cerca de 400 cidadãos nevenses manifestam ao legislativo mineiro seu descontentamento com a vinda de mais presídios para a cidade.
* 16/06/11 - militantes da Rede participam da reunião organizada pelos gestores responsáveis pela construção na cidade do novo complexo prisional em regime de PPP (Parceria Público-Privado). Na ocasião, a população diz um sonoro “não” à construção de mais presídios na cidade;
* 31/07/11 – A Rede organiza o 1° Encontro de Movimentos Populares de Ribeirão das Neves. Apesar de ser num domingo, o Encontro arregimenta um número considerável de representantes de movimentos sociais do município e de outras localidades;
* 07/09/11 – A Rede organiza o Grito dos Excluídos. A manifestação é marcada por repressão policial, culminando na detenção arbitrária de um manifestante, que é preso por portar uma faixa com dizeres contrários à corrupção política local, à empresa que monopoliza o transporte público no município (Transimão) e à construção de mais presídios na cidade. É bom destacar que Ribeirão das Neves foi a única cidade mineira onde houve repressão ao Grito dos Excluídos;
* 10/12/2011 – Para lembrar o Dia Internacional dos Direitos Humanos e o aniversário de 58 anos de Ribeirão das Neves, sob intensa chuva, a Rede promove um debate sobre temas afins.

Em 2011, a Rede colheu muitas vitórias, apesar de ter tropeçado em algumas pedras pelo caminho - nada que abalasse o ânimo dos aguerridos militantes desse movimento que tem assumido o protagonismo na luta por uma Ribeirão das Neves mais justa e humana para seus munícipes.

No vídeo abaixo o companheiro de lutas Sidnei Martins fala sobre sua experiência enquanto militante de movimentos sociais e membro da Rede Nós Amamos Neves, além de apresentar um breve histórico da Rede, mostrando as expectativas e os desafios que 2012 reserva para esse importante movimento.



Ler também:
- Dos que amam Ribeirão das Neves;
- A primavera dos povos nevense;
- Se não nos deixarem sonhar, não dormirão;
.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Tudo começou na Grécia e tudo acabará na Grécia?


Por Leonardo Boff *

Nossa civilização ocidental hoje mundializada tem sua origem histórica na Grécia do século VI antes de nossa era. Ruira o mundo do mito e da religião que era o eixo organizador da sociedade. Para pôr ordem àquele momento crítico fez-se, num lapso de pouco mais de 50 anos, uma das maiores criações intelectuais da humanidade. Surgiu a era da razão critica que se expressou pela filosofia, pela política, pela democracia, pelo teatro, pela poesia e pela estética. Figuras exponenciais foram Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas que gestaram a arquitetônica do saber, subjacente ao nosso paradigma civilizacional: foi Péricles como governante à frente da democracia; foi Fídias da estética elegante; foram os grandes autores das tragédias como Sófocles, Eurípides e Ésquilo; foram os jogos olímpicos e outras manifestações culturais que não cabe aqui referir.

Esse paradigma se caracteriza pelo predomínio da razão que deixou para trás a percepção do Todo, o sentido da unidade da realidade que caracterizava os pensadores chamados pré-socráticos, os portadores do pensamento originário. Agora se introduzem os famosos dualismos: mundo-Deus, homem-natureza, razão-sensibilidade, teoria-prática. A razão criou a metafísica que na compreensão de Heidegger faz de tudo objeto e se instaura como instância de poder sobre este objeto. O ser humano deixa de se sentir parte da natureza para se confrontar com ela e submetê-la ao projeto de sua vontade.

Este paradigma ganhou sua expressão acabada mil anos depois, no século XVI, com os fundadores do paradigma moderno, Descartes, Newton, Bacon e outros. Com eles se consagrou a cosmovisão mecanicista e dualista: a natureza de um lado e o ser humano de outro de frente e encima dela como seu “mestre e dono”(Descartes) e coroa da criação em função do qual tudo existe. Elaborou-se o ideal do progresso ilimitado que supõe a dominação da natureza, no pressuposto de que esse progresso poderia caminhar infinitamente na direção do futuro. Nos últimos decênios a cobiça de acumular transformou tudo em mercadoria a ser negociada e consumida. Esquecemos que os bens e serviços da natureza são para todos e não podem ser apropriados apenas por alguns.

Depois de quatro séculos de vigência desta metafísica, quer dizer, deste modo de ser e de ver, verificamos que a natureza teve que pagar um preço alto para custear esse modelo de crescimento/desenvolvimento. Agora tocamos nos limites de sua possibilidades. A civilização técnico-científica chegou a um ponto em que ela pode por fim a si mesma, degradar profundamente a natureza, eliminar grande parte do sistema-vida e, eventualmente, erradicar a espécie humana. Seria a realização de um armgedon ecológico-social.

Tudo começou há milênios na Grécia. E agora parece terminar na Grécia, uma das primeiras vitimas do horror econômico, cujos banqueiros, para salvar seus ganhos, lançaram toda uma sociedade no desespero. Chegou à Irlanda, a Portugal, à Itália, podendo-se se estender à Espanha e à França e, quiçá, a todo o sistema mundial.
Estamos assistindo a agonia de um paradigma milenar que está, parece, encerrando sua trajetória histórica. Pode demorar ainda dezenas de anos, como um moribundo que resiste, mas o fim é previsível. Com seus recursos internos não tem condições de se reproduzir.

Temos que encontrar outro tipo de relação para com a natureza, outra forma de produzir e de consumir, desenvolvendo um sentido geral de interdependência face à comunidade de vida e de responsabilidade coletiva pelo nosso futuro comum. A não encetarmos esta conversão, ditaremos para nós mesmos o veredito de desaparecimento. Ou nos transformamos ou desapareceremos.

Faço minhas as palavras de Celso Furtado, economista-pensador:”Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade”. Mas à condição de mudarmos de paradigma.


* Leonardo Boff é autor de Opção-Terra. A solução para a Terra não cai do céu, Record, Rio 2009.


Fonte: LeonardoBoff.com
.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Privataria na visão de Bob Fernandes

Por Cléber Sérgio de Seixas

No vídeo abaixo, o jornalista Bob Fernandes faz uma elucidante síntese do contexto em que se inscrevem o livro A Privataria Tucana, best-seller de autoria do também jornalista Amaury Ribeiro Jr., e a atitude da mídia em relação a obra. O ensurdecedor silêncio da mídia depõe muito mal contra ela e faria o Cidadão Kane, bastião da manipulação midiática, corar de vergonha.


.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Amaury Ribeiro entrevistado pelo jornalista Eduardo Costa


Por Cléber Sérgio de Seixas

O livro A Privataria Tucana continua causando furor em meios alternativos de comunicação como blogs e redes sociais.

Apesar de já ter vendido cerca de 120 mil exemplares, a obra permanece ignorada pela grande mídia, vulgo PIG (Partido da Imprensa Golpista). Quando é lembrada, o que se diz da mesma é que se trata de uma peça de propaganda arquitetada por partidários do PT. O jornalista Amaury Ribeiro, autor do livro, já é alvo de processos por parte da alta cúpula do PSDB, como era de se esperar.

Recentemente o jornalista Ricardo Boechat falou sobre o livro e agora foi a vez da Rádio Itatiaia, uma emissora de Minas Gerais, ser mais uma a furar o bloqueio midiático à obra. A rádio mineira veiculou hoje uma entrevista de Amaury concedida ao jornalista Eduardo Costa.

O blog Observadores Sociais preparou o vídeo abaixo com a íntegra da entrevista.



.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O quarto poder

Os métodos da grande imprensa tupiniquim fariam o Cidadão kane corar de vergonha


Por Jeferson Malaguti Soares *


Temos ouvido que a mídia é o quarto poder da república. Ela vem tentando ocupar esse lugar, com algum sucesso. A força política da grande imprensa é muito grande, e os donos de jornais, revistas e canais de TV sabem como poucos usá-la em beneficio próprio. Roberto Marinho, por exemplo, foi um dos homens mais poderosos do Brasil, a partir do golpe militar de 64. Poucos políticos se negaram a atender seus pedidos e convites que, na verdade, eram imposições.

É público o fato de que a grande imprensa trabalha contra Lula, desde, principalmente, sua primeira candidatura à presidência, em 1989. Hoje, fazem o mesmo com a presidenta Dilma. Fica claro que as vitórias do PT não foram contra adversários políticos, foram contra a imprensa, que sempre esteve a serviço do capital e da burguesia (raras exceções como a revista Carta Capital, por exemplo, cuja postura é de independência e seriedade).

Como, então, implementar a formação política e cidadã das classes menos favorecidas, se o Estado é instado pela mídia a se vincular, exclusivamente,à defesa dos interesses da burguesia liberal?

Lula e Dilma estão conseguindo essa proeza e, por mais surpreendente, sem fugir do regime capitalista, sem tirar um centavo sequer dos ricos. Por que então essa frenética campanha contra os governos populares do PT? Por que o silêncio “ensurdecedor” frente às denúncias do livro A Privataria Tucana? Por que a falta de isenção da imprensa, que condena atos dos governos de Lula e Dilma e ignora os de governos anteriores, que sabidamente prejudicaram o erário e a soberania nacional? Jornalista que não tem autonomia para falar sobre política, tem credibilidade para discorrer sobre qualquer outro assunto? Não creio.

O que amedronta a mídia e a burguesia nacionais é o fato de Lula e Dilma se apresentarem por inteiro, sem dissimulações, mentiras ou máscaras. Transitam imperturbáveis diante do clima de radicalização da imprensa. Nada têm a esconder. São verdadeiros e falam a língua do povo. São herdeiros dos clamores populares de outrora, e quebraram os argumentos pobres das forças políticas oligárquicas que predominavam no Brasil até então. Essa mesma oligarquia que, ancorada pela mídia burguesa, nunca se deu conta da emergência das demandas sociais do nosso povo, preferindo se escudar nos argumentos intimidadores de uma falsa intelectualidade sacralizada no capitalismo liberal, esquecendo-se que tudo o que é geral, é social.

A mídia não aceita o povo no poder. Não aceita descer até o “populacho” – como adjetiva os menos favorecidos – para dialogar, ou para ouvi-lo. A arrogância, o orgulho e a discriminação são as características marcantes da burguesia neoliberal. O universo midiático nacional ignora que as opiniões sustentadas em fatos são muito mais fortes e confiáveis do que aquelas apenas adjetivadas.

O capitalismo liberal, ao qual a imprensa internacional está atrelada, e a nossa a reboque, pode ser muitas coisas, mas nunca, a meu ver, fonte de equilíbrio social ou de dignidade cidadã. Constata-se diariamente que o capitalismo é um modelo de atuação político econômico aético e hipócrita. No mesmo caminho transita nossa mídia.


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG e colaborador deste blog.
.