domingo, 30 de outubro de 2011

Dica cultural - Tancredo, a Travessia


Por Cléber Sérgio de Seixas

Sílvio Tendler é hoje, sem dúvida, um dos maiores documentaristas do Brasil. Em seu currículo figuram alguns dos mais importantes documentários para entender a história política do país nos últimos 60 anos, dentre os quais convém destacar os documentários Os Anos JK (1980) e Jango (1984).

Recentemente, Tendler produziu mais um documentário que ajuda a entender as várias e muitas vezes dolorosas mudanças políticas por que passou o país. O documentário Tancredo, a Travessia (2010) joga luz sobre a trajetória de Tancredo Neves, o político mineiro que transitou com certo protagonismo pelas eras Vargas e JK, fez oposição ao golpe militar que retirou o poder de João Goulart, e seria o primeiro civil a ocupar a Presidência da República não fosse seu adoecimento na véspera da posse em 14 de março de 1984 e seu falecimento no dia 21 de abril daquele ano. Em virtude do adoecimento e morte de Tancredo, Sarney, seu vice, tomou posse como presidente. Por sua coerência e habilidade política, Tancredo merece ser lembrado como um dos maiores homens públicos da história do Brasil.

De certa forma, Tancredo, a Travessia compõe uma trilogia com Os Anos JK e Jango, sendo, os três, filmes obrigatórios para aqueles que desejam compreender a política e a história brasileiras desde Vargas até os dias atuais.

Reproduzo abaixo o trailer deste documentário que deve estrear em breve no circuito comercial de cinemas.


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Carta de Foz do Iguaçu


O 1º Encontro Mundial de Blogueiros, realizado em Foz do Iguaçu (Paraná, Brasil), nos dias 27, 28 e 29 de outubro, confirmou a força crescente das chamadas novas mídias, com seus sítios, blogs e redes sociais. Com a presença de 468 ativistas digitais, jornalistas, acadêmicos e estudantes, de 23 países e 17 estados brasileiros, o evento serviu como uma rica troca de experiências e evidenciou que as novas mídias podem ser um instrumento essencial para o fortalecimento e aperfeiçoamento da democracia.

Como principais consensos do encontro – que buscou pontos de unidade, mas preservando e valorizando a diversidade –, os participantes reafirmaram como prioridades:
- A luta pela liberdade de expressão, que não se confunde com a liberdade propalada pelos monopólios midiáticos, que castram a pluralidade informativa. O direito humano à comunicação é hoje uma questão estratégica;
- A luta contra qualquer tipo de censura ou perseguição política dos poderes públicos e das corporações do setor. Neste sentido, os participantes condenam o processo de judicialização da censura e se solidarizam com os atingidos. Na atualidade, o WikiLeaks é um caso exemplar da perseguição imposta pelo governo dos EUA e pelas corporações financeiras e empresariais;
- A luta por novos marcos regulatórios da comunicação, que incentivem os meios públicos e comunitários; impulsionem a diversidade e os veículos alternativos; coíbam os monopólios, a propriedade cruzada e o uso indevido de concessões públicas; e garantam o acesso da sociedade à comunicação democrática e plural. Com estes mesmos objetivos, os Estados nacionais devem ter o papel indutor com suas políticas públicas;
- A luta pelo acesso universal à banda larga de qualidade. A internet é estratégica para o desenvolvimento econômico, para enfrentar os problemas sociais e para a democratização da informação. O Estado deve garantir a universalização deste direito. A internet não pode ficar ao sabor dos monopólios privados;
- A luta contra qualquer tentativa de cerceamento e censura na internet. Pela neutralidade na rede e pelo incentivo aos telecentros e outras mecanismos de inclusão digital. Pelo desenvolvimento independente de tecnologias de informação e incentivo ao software livre. Contra qualquer restrição no acesso à internet, como os impostos hoje pelos EUA no seu processo de bloqueio à Cuba.

Com o objetivo de aprofundar estas reflexões, reforçar o intercâmbio de experiências e fortalecer as novas mídias sociais, os participantes também aprovaram a realização do II Encontro Mundial de Blogueiros, em novembro de 2012, na cidade de Foz do Iguaçu. Para isso, foi constituída uma comissão internacional para enraizar ainda mais este movimento, preservando sua diversidade, e para organizar o próximo encontro.

Fonte: Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé
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Mais um Observador

Por Cléber Sérgio de Seixas

É uma imensa satisfação anunciar que este blog, a partir de agora, passa a contar com mais um colaborador. Trata-se de Jéferson Malaguti Soares, companheiro de militância partidária em Ribeirão das Neves.

Jeferson é administrador de empresas graduado pela FACE/UFMG desde 1972, pós-graduado pela FGV/RJ, ex-professor universitário e milita na esquerda desde 1969, quando se filiou ao antigo MDB. Atualmente é filiado ao PCdoB, militando no Comitê de Ribeirão das Neves como Secretário de Comunicação.

Malaguti já coopera com este blog há alguns meses com o envio de diversos artigos. Fico muito satisfeito em tê-lo como colaborador neste modesto blog, haja vista o peso do seu currículo e a qualidade de seus artigos.

Bem vindo, camarada Jeferson! É um prazer recebê-lo como mais um dos Observadores Sociais, os que se indignam ao observar as injustiças sociais e que transformam tal indignação em ações por um mundo melhor.
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sábado, 29 de outubro de 2011

Blogueiros do mundo em Foz

Por Cléber Sérgio de Seixas

Está ocorrendo em Foz do Iguaçu (PR) o 1º Encontro Mundial de Blogueiros. O encontro é organizado por entidades como a ALTERCOM o Centro de Estúdios de Mídia Barão de Itararé.

Participam do evento personalidades de renome nos meios de comunicação alternativos como Altamiro Borges, Renato Rovai, Pepe Escobar, o blogueiro egípcio Ahmed Bahgat, o blogueiro Pepe Escobar, o jornalista Luís Nassif, o também jornalista Ignacio Ramonet, o jornalista canadense Jesse Freeston, Kristinn Hrafnsson, representante do Wikileaks, entre outros.

O Encontro pode ser acompanhado ao vivo no endereço http://blogueirosdomundo.com.br/ao-vivo/

Reproduzo abaixo um vídeo com trechos do painel “Experiências na África e Ásia”.



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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CARTA ABERTA AO MINISTRO ORLANDO SILVA

Por Jeferson Malaguti Soares *


Prezado camarada Orlando,

Você foi mais uma vítima do julgamento sumário imposto pela oposição irracional ao governo Dilma, acobertado e estimulado pela mídia nacional.

Nosso universo midiático se associa ao grupelho de bajuladores do neoliberalismo, pela odiosidade, no reacionarismo, na falta de generosidade, no mercenarismo. Destila seu ódio mesmo sabendo que nunca conseguirá dobrar a espinha dorsal da presidenta, nem a sua e muito menos a do PCdoB, que, na véspera de seus 90 anos de vida ilibada é surpreendido por essa ignomínia. Movida por tamanha carga de ódio - uma decorrência, tenho certeza, da frustração que sente ao constatar a superioridade moral do nosso partido e dos governos populares de Lula e Dilma - participa com entusiasmo sádico da campanha que visa, primordialmente, desestabilizar o país e suas instituições democráticas, conquistadas duramente após a ditadura militar, a qual essa mesma mídia burguesa ajudou a colocar no poder.

É preciso registrar, no entanto, que em meio a essas manifestações de ódio e rancor, nós do PCdoB somos alvo de comovedoras demonstrações de afeto, solidariedade e apoio, de brasileiros verdadeiros, nacionalistas, patriotas.

A imprensa capitalista demanda capital à custa do sofrimento do povo. Encarrega-se de forjar, preservar e divulgar imagem positiva do neoliberalismo e negativa dos governos e partidos voltados para o social. Há na mídia nacional uma febre de aversão aos socialistas como nós, que lógica alguma é capaz de conter. Redatores servis e farsantes, cordatos e obsequiosos, são movidos pelas polpudas verbas publicitárias dos governos neoliberais que ainda grassam em alguns Estados. São profissionais que entraram pelas portas laterais do jornalismo. Não reconhecem o que representa para o povo brasileiro humilde uma esperança de vida melhor, de acesso a bens materiais. Essa é a mídia que adora criar “eventos” do nada, que controla todos os institutos de pesquisa. Claro que há exceções, pois são elas que justificam as regras. Revistas como Carta Capital e Caros Amigos são exemplos de jornalismo crítico, porém imparcial, apartidário e pluralista.

Nós do PCdoB sabemos que a miséria é desnecessária, que a conquista do bem-estar coletivo é essencial e que um país não pode sobreviver com injustiça social criminosa. Acreditamos também numa imprensa livre, mas responsável, independente face a grupos de poder e que mantenha com seus leitores/ouvintes/telespectadores relação de transparência e honestidade.

Repelimos e condenamos publicamente qualquer tipo de ingerência do poder do Estado e/ou do Capital sobre a atividade intelectual. No entanto não podemos aceitar que órgãos da imprensa promovam campanhas para desacreditar pessoas e entidades públicas, a serviço de partidos políticos, grupos econômicos ou de tendência ideológica diferente. A verdade não pode ser torcida ou politizada. As convicções não podem estar sujeitas a conveniências. Fatos não devem ser omitidos.

Uma realidade, porém, está vindo à tona. Quem se cansou da mídia mentirosa e golpista foi a classe operária brasileira e os verdadeiros intelectuais do país. Estamos fartos do discurso que protege uma cultura patrimonialista, em que a tradição é o privado se apropriar do público. Receba, pois, camarada Orlando, nosso apoio, solidariedade e a certeza de que, mais dia menos dia, a verdade prevalecerá.

VIVA O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL!


* Comitê Municipal do PCdoB de Ribeirão das Neves-MG - Secretário de Comunicação.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Anonymous responde à Veja

Por Cléber Sérgio de Seixas

A revista Veja tenta fazer uma ligação do grupo Anonymous com os protestos anti-corrupção que têm ocorrido no país, através da utilização da imagem da máscara de Guy Fawkes (símbolo do movimento) na capa da edição que foi publicada nesta semana.

No vídeo abaixo, o grupo Anonymous de Belo Horizonte responde ao semanário dos Civita e se refere à revista como "um instrumento de manipulação ideológica e política".


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domingo, 23 de outubro de 2011

Os EUA e os ditadores que lhes convêm

Obama e Khadafi em outros tempos


Por Cléber Sérgio de Seixas


Certa vez o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt proferiu a seguinte frase: “É um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”. Roosevelt, um dos mais queridos e lembrados presidentes dos EUA, artífice do New Deal, se referia ao ditador nicaragüense Anastácio Somoza, um títere de Washington que governara com mão de ferro a Nicarágua por quase duas décadas. Após o assassinato de Somoza, seus filhos, direta ou indiretamente, comandariam o país de forma ditatorial até o fim dos anos 70, quando a Revolução Sandinista pôs fim à ditadura.

Somoza fora apenas um dentre vários ditadores financiados por Washington. Só chegara ao poder porque o governo estadunidense sabia que podia contar com ele na defesa de seus interesses bem como os das corporações dos EUA.

À partir do momento que um governante simpático aos interesses do imperialismo norte-americano deixe de sê-lo, uma onda de infâmias tratará de assassinar a reputação do ex-títere, de forma a preparar o caminho para sua deposição ou eliminação. Assim ocorreu com Saddam Hussein.

No dia 19 de outubro o mundo inteiro viu as imagens de um Muamar Khadafi subjugado, ensangüentado e sendo arrastado pelas ruas de sua cidade natal Sirte. Imagens posteriores mostraram o corpo já inerte do ex-ditador líbio.

Muitos se apressam em dizer que a derrocada de Khadafi é sinônimo de vitória da democracia na Líbia, tal como outros tantos disseram que a prisão e assassinato de Saddam Hussein trariam de volta a democracia ao Iraque. O que pouco se ouve dizer é que a intervenção da OTAN na Líbia não passa de uma ação imperialista das potências ocidentais para se apropriarem das riquezas naturais daquele país, sobretudo do ouro negro que se esconde em seu subsolo. Morto Khadafi, os invasores iniciarão a repartição do butim.

De qualquer ângulo que se olhe, o saldo parece ser negativo, sobretudo se for considerado que os rebeldes líbios mantinham certa coesão na oposição a Khadafi. A morte do ditador pode significar uma luta fratricida entre as várias facções que compõem o CNT (Conselho Nacional de Transição). Tais facções não contam com nenhum denominador comum que as unifique. Na Babel que sucede a queda de Khadafi o que sobra são armas nas mãos de rebeldes que dificilmente se tornarão estadistas.

Obama prometeu retirar as tropas americanas do Iraque até o fim deste ano. Contudo, o Iraque do pós-retirada das tropas estadunidenses em nenhuma medida será um país mais seguro ou pacífico que aquele sobre o qual choveram mísseis teleguiados e bombas em 2003. O mesmo se aplica com o Afeganistão sem o Talibã e sem Bin Laden. Da mesma forma, a Líbia não será mais pacífica sem o excêntrico coronel ditador.

Donald Rumsfeld em 1983 como enviado especial ao Iraque para reforçar o apoio dos EUA ao governo de Saddam Hussein

Durante a Guerra Irã-Iraque os EUA apoiaram o Iraque como forma de deter o avanço da Revolução Iraniana. Enquanto Saddam Hussein era um “filho da puta” simpático aos interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio, não havia preocupações deste país com a democracia iraquiana. Quando as ações do ditador iraquiano destoaram dos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA, estes trataram de eliminá-lo. Seguindo o mesmo raciocínio, Khadafi era um “filho da puta” que não se curvou aos interesses econômicos das potências ocidentais e que, por isso, também foi eliminado.

Se enganam os que acreditam que a preocupação das forças da OTAN é com a democracia líbia. Khadafi era um terrorista de Estado que não deixa saudades, mas é possível que o que virá após sua morte deixará o povo líbio com saudades dos tempos do ditador.
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sábado, 22 de outubro de 2011

Carta de Orlando Silva à 17ª conferência do PCdoB-RJ


Camaradas,

Nosso trabalho à frente do Ministério do Esporte produziu êxitos e vitórias para o nosso país. Nossa condução é pautada pelo respeito sagrado à coisa pública e pelos nossos compromissos históricos de luta pela transformação do Brasil.


Vocês têm acompanhado os ataques violentos, as mentiras e calúnias, sem provas, que tentam imputar a mim e ao nosso Partido. Estes ataques são frutos da cobiça gerada pela dimensão alcançada pelo Ministério e pelo ódio de classe das forças conservadoras.


Repudiamos com todas as nossas forças a campanha difamatória veiculada na grande mídia nacional, que sem nenhum pudor quer macular 90 anos de uma história de lutas. Esta semana, chegaram ao cúmulo de veicular imagem de nosso camarada João Amazonas, atribuindo atos de corrupção ao nosso partido.

Desde o primeiro ataque fomos para luta de peito aberto. Chamamos uma coletiva, exigimos investigação e a apresentação de provas, que até hoje não apareceram. Nossa atitude e a unidade inquebrantável de nosso partido surpreenderam. Não seremos intimidados! Não aceitaremos o roteiro traçado pelas forças conservadoras!

Nos tempos de terror usavam a tortura, prisão e assassinatos. Hoje, as mesmas forças usam o linchamento político, a execração pública para eliminar nossos companheiros. Não nos iludamos, o objetivo final e derrotar o projeto transformador liderado pela presidente Dilma.


Não houve, não há e não haverá nunca ninguém capaz de nos intimidar. Nossa força vem dos que foram caçados no Estado Novo, dos que tombaram no Araguaia, dos ideais dos que foram fuzilados covardemente na Chacina da Lapa.


Nossa força para resistir a esta campanha infame vem da presença de todos vocês nesta conferência. Nada será capaz de nos dobrar porque nossos sonhos não se dobram, crescem a cada dia pela disposição de luta de cada um de vocês.


Neste momento, como disse Pablo Neruda em sua carta ao Partido, me sinto indestrutível, porque contigo, meu partido, não termino em mim mesmo.

Repito para vocês o que disse à Comissão Política Nacional do Comitê Central. Na dureza da presente luta, vivo um novo batismo no partido. No calor da luta de classes reafirmo: Viva o Partido Comunista do Brasil!!!


Orlando Silva Jr.



Fonte: Portal Vermelho
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Governo Dilma: do segundo tempo à decisão nos pênaltis

Lembram-se do Rubnei?


Por Cléber Sérgio de Seixas

É sempre oportuno frisar a necessidade das manifestações públicas de movimentos sociais, de entidades de defesa da cidadania e da participação popular, em suma, do povo na rua mobilizado e mostrando que tem força para lutar por seus direitos. Urge, também, enfatizar que a direita não dorme e que, portanto, a esquerda não pode cochilar e deve estar atenta aos sutis movimentos das forças que querem deter avanços sociais que a duras penas têm sido conquistados pelo povo brasileiro nos últimos anos.

De uns meses pra cá, a grande mídia tem dado eco a movimentos que supostamente ganham as ruas pelo combate à corrupção. Do Sete de Setembro até hoje, várias manifestações foram superdimensionadas pelas lentes da grande imprensa. A grande angular da imprensa conservadora - que há muito se transformou num partido que faz as vezes dos partidos de direita tradicionais, e que por isso é chamada pelo jornalista Paulo Henrique Amorim de Partido da Imprensa Golpista (PIG) – ajusta seu foco de forma a transformar meia dúzia de gatos pingados, massa amorfa e de objetivos esparsos e heterogêneos, em uma enorme massa homogênea, coesa e de norte definido, cujas manifestações seriam o ápice de uma indignação coletiva com a corrupção que grassaria nos três poderes da República.

Sabe-se, no entanto, que a maioria dos que têm saído às ruas, indignados com a corrupção, é formada de inocentes úteis arregimentados por indivíduos que não confessam sua predileção partidária nem tampouco sua indignação seletiva. Nada contra aqueles que se mobilizam contra a corrupção; tudo contra aqueles que são seletivos em sua indignação e que focam suas reclamações sobre apenas um partido, como se a corrupção fosse exclusividade de uma agremiação política no amplo espectro político-eleitoral brasileiro.

O dedo em riste do PIG só aponta para o governo, para o PT e para partidos aliados. Desde que o ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva assumiu o poder, factóides em cima de factóides têm sido produzidos de forma a enfraquecer o governo, tirar-lhe a legitimidade e fortalecer uma oposição vazia de idéias e propostas para o país. Nessa seletividade acusatória, escândalos envolvendo prefeituras e Estados cujo executivo seja encabeçado por partidos de oposição ao governo não merecem destaque nos jornais, não estampam as capas das revistas semanais de maior circulação e não são postos em relevo no Jornal Nacional. Quando muito, as falcatruas de partidos como o PSDB e DEM só merecem uma pequena nota nos jornais e revistas, ou uma tímida matéria nos telejornais. A parcialidade da cobertura midiática transforma o PT num bastião da corrupção, enquanto partidos com o PSDB e congêneres se convertem nos paladinos da probidade e moralidade.

O grande partido da imprensa se cobre de uma aura de suposta neutralidade para fazer as vezes de um partido de oposição. Seu expediente desde 2003 tem consistido numa série de ataques pontuais ao governo, onde se misturam verdades, meias verdades e mentiras. Apesar dos ataques, o governo do presidente operário e o atual governo de Dilma Rousseff têm alcançado altos índices de aprovação. Um dos maiores reveses da imprensa golpista nos últimos tempos foi a derrota de seu candidato nas eleições de 2010 – uma campanha marcada pelo baixo nível a que foi conduzida pelos apoiadores do candidato José Serra e pautada por questões menores como o aborto. Derrotados, mídia e a classe conservadora que ela representa tentam agora, num improvável mas não impossível terceiro turno, vencer a eleição.

Dilma errou ao flertar com a imprensa indo ao aniversário de noventa anos da Folha de São Paulo, assim como tem errado ao não dinamizar o processo de democratização do acesso à Internet através de um plano nacional para ampliação da banda-larga, condição sine qua non para o fomento de uma imprensa alternativa na Web.

A bandeira branca do governo não amainou a sanha golpista de nossa imprensa, cujo objetivo, ao que tudo indica, é abater, um a um, os integrantes do primeiro escalão do governo federal. Caem ministros após ministros e a bola da vez é Orlando Silva, da pasta dos esportes.

Denúncias da revista Veja não apresentam nenhuma prova concreta contra o ministro e podem não passar de mais um dos muitos factóides que a revista vem produzindo para desgastar o governo. Ainda é cedo para apontar o que pode estar recôndito sob as acusações do semanário, mas pode-se supor que as mesmas ocultem interesses da FIFA em relação às copas do Mundo e das Confederações.

Não é a primeira vez que a imprensa conservadora utiliza acusações levianas de indivíduos de caráter duvidoso com o intuito de derrubar ministros do governo. No ano passado, as acusações do “empresário” Rubnei Quícoli foram elevadas à condição de provas contra a então ministra da Casa Civil Erenice Guerra. Rubnei, que chegou a cumprir dez meses de prisão por receptação de mercadoria roubada, recentemente, desmentiu suas acusações para não ser processado por calúnia. Como era de se esperar, a grande imprensa não reservou o mesmo espaço que reservara às acusações de Quícoli no ano passado para informar que o empresário se retratou. Muito tarde para Erenice, que perdeu o cargo.

No lamaçal em que chafurda nossa imprensa, o princípio de presunção da inocência é totalmente desprezado. Até o momento, o policial militar João Dias Ferreira não apresentou nenhuma prova de suas acusações. O ministro Orlando Silva está sendo condenado à execração pública sem que nada de concreto seja apresentado, o que configura uma verdadeira inversão do princípio in dubio pro reo.

O lance do Ministério dos Esportes é apenas um dentre os vários que podem se desenrolar até o fim do jogo. Ninguém se engane: o objetivo do partido da imprensa golpista é retirar Dilma do Planalto, com ou sem provas, para que uma era de progressismo ceda lugar ao retrocesso neoliberal. Denúncias e denúncias de corrupção no primeiro escalão do governo visam criar um clima de comoção social que pode ser usado como pano de fundo para um golpe branco.

Se Dilma não acordar para o fato de que a melhor defesa contra os achaques da imprensa golpista é o ataque, ficará na retranca até que não haja mais zagueiros para defendê-la. Aí terá sido tarde demais, e a eleição que foi ganha nas urnas no ano passado, num acalorado segundo tempo, poderá ser decidida na loteria dos pênaltis.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pensar dói?

O Pensador, escultura de Rodin

Por Thomaz Wood Jr *

Em texto publicado no New York Times, Neal Gabler, da Universidade do Sul da Califórnia, argumenta que vivemos em uma sociedade na qual ter informações tornou-se mais importante do que pensar: uma era pós-ideias. Gabler é o autor, entre outras obras, de Vida, o Filme (Companhia das Letras), no qual afirma que, durante décadas de bombardeio pelos meios de comunicação, a distinção entre ficção e realidade foi sendo abolida. O livro tem o significativo subtítulo: Como o entretenimento conquistou a realidade.

No texto atual, Gabler troca o foco do entretenimento para a informação. Seu ponto de partida é uma constatação desconcertante: vivemos em uma sociedade vazia de grandes ideias, leia-se, conceitos e teorias influentes, capazes de mudar nossa maneira de ver o mundo. De fato, é paradoxal verificar que nossa era, com seus gigantescos aparatos de pesquisa e desenvolvimento, o acesso facilitado a informações, os recursos maciços investidos em inovação e centenas de publicações científicas, não seja capaz de gerar ideias revolucionárias, como aquelas desenvolvidas em outros tempos por Einstein, Freud e Marx.

Não somos menos inteligentes do que nossos ancestrais. A razão para a esqualidez de nossas ideias, segundo o autor, é que vivemos em um mundo no qual ideias que não podem ser rapidamente transformadas em negócios e lucros são relegadas às margens. Tal condição é acompanhada pelo declínio dos ideais iluministas – o primado da razão, da ciência e da lógica – e a ascensão da superstição, da fé e da ortodoxia. Nossos avanços tecnológicos são notáveis, porém estamos retrocedendo, trocando modos avançados de pensamento por modos primitivos.

Gabler critica o afastamento das universidades do mundo real, operando como grandes burocracias e valorizando o trabalho hiperespecializado em detrimento da ousadia. Critica também o culto da mídia por pseudoespecialistas, que defendem ideias pretensamente impactantes, porém inócuas.

No entanto, o autor aponta que a principal causa da debilidade das nossas ideias é o excesso de informações. Antes, nós coletávamos informações para construir conhecimento. Procurávamos compreender o mundo. Hoje, graças à internet, temos acesso facilitado a qualquer informação, de qualquer fonte, em qualquer parte do planeta. Colocamos a informação acima do conhecimento. Temos acesso a tantas informações que não temos tempo para processá-las.

Assim, somos induzidos a fazer delas um uso meramente instrumental: nós as usamos para nos manter à tona, para preencher nossas reuniões profissionais e nossas relações pessoais. Estamos substituindo as antigas conversas, com seu encadeamento de ideias e sua construção de sentidos, por simples trocas de informações. Saber, ou possuir informação, tornou-se mais importante do que conhecer; mais importante porque tem mais valor, porque nos mantêm à tona, conectados em nossas infinitas redes de pseudorrelações.

As novas gerações estão adotando maciçamente as mídias sociais, fazendo delas sua forma primária de comunicação. Para Glaber, tais mídias fomentam hábitos mentais que são opostos àqueles necessários para gerar ideias. Elas substituem raciocínios lógicos e argumentos por fragmentos de comunicação e opiniões descompromissadas.

O mesmo fenômeno atinge as gerações mais velhas. Nas empresas, muitos executivos passam parte considerável de seu tempo captando fragmentos de notícias sobre mercados, concorrentes e clientes. Seu comportamento é o mesmo no mundo virtual e no mundo real: eles navegam pela internet como navegam por reuniões de negócios. Vivem a colher informações e distribuí-las, sem vontade ou tempo para analisá-las. Tornam-se máquinas de captação e reprodução. À noite, em casa, repetem o comportamento nas mídias sociais. Seguem a vida dos amigos e dos amigos dos amigos; comunicam-se por uma orgia de imagens e frases curtas, signos cheios de significado e vazios de sentido.

O futuro aponta para a disponibilidade cada vez maior de informações. A consequência para a sociedade, segundo Gabler, é a desvalorização das ideias, dos pensadores e da ciência. A considerar a velocidade com que livros e outros textos estão sendo digitalizados e disponibilizados na internet, estamos no limiar de ter todas as informações existentes no mundo ao nosso dispor. O problema é que, quando chegarmos lá, não haverá mais ninguém para pensar a respeito delas.

Pode-se acusar o ensaísta de nostalgia infundada ou ludismo. Porém, ele não está só. Felizmente, há sempre um grupo de livres pensadores a se colocar contra o conformismo massacrante das modas tecnológicas e comportamentais, nesta e em outras eras.


* Thomaz Wood Jr é colunista da revista Carta Capital e escreve sobre gestão e sobre o mundo da administração.

Fonte: site da revista Carta Capital
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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Seminário para discutir o monitoramento dos poderes públicos

Clique na figura para ampliar

Dos dias 24 a 26 de outubro, o Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas (Nesp) promoverá o Seminário Monitoramento dos Poderes Públicos. O evento ocorrerá no período supracitado, sempre às 19 horas, no campus Coração Eucarístico, localizado à Avenida Dom José Gaspar, 500, prédio 43, auditório 03.

No encontro serão discutidos os modos como o cidadão pode monitorar as atividades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Programação:

Dia 24 - discussões sobre o monitoramento do poder Executivo. Convidados: Neila Batista (assistente social, ex-vereadora, assessora parlamentar na ALMG e ex-integrante do Conselho Municipal de Segurança Alimentar de Belo Horizonte), Samuel da Silva (membro da Cáritas Regional de Minas Gerais)

Dia 25 - discussões sobre o monitoramento do poder Legislativo. Convidados: Carolina Albuquerque (Associação Democracia Ativa), Eliana Magalhães (INESC - Brasília).

Dia 26 - debates sobre o monitoramento do poder Judiciário. Convidados: Ricarte Almeida Santos (secretário executivo da Cáritas Brasileira, regional Maranhão; coordenador do Tribunal Popular do Judiciário), professor José Luiz Quadros de Magalhães (Faculdade Mineira de Direito da PUC-MG e do curso de Direito da UFMG).

As inscrições são gratuitas e serão feitas no local. Será fornecido certificado de participação para quem solicitar.

Mais detalhes podem ser obtidos pelo e-mail nesp@pucminas.br ou pelo telefone (31) 3319-4978.
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Apelo à mídia mineira



Por Jeferson Malaguti Soares *


"Minas, são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais". A frase é de Guimarães Rosa, mas hoje até parece que Minas são apenas duas. A Minas da mídia mineira apresenta uma Minas sem problemas, onde tudo vai muito bem, obrigado, onde o choque de gestão magicamente conseguiu resultados fabulosos, uma Minas verdadeira filial do paraíso. Essa Minas foi conseguida através de gordas verbas publicitárias, que "compraram" a imprensa mineira. Em sete anos de (des)governo do "príncipe" Aécio Neves foram gastos mais de 1,4 bilhões com a propaganda favorável ao tucano e sonegados mais de 4 bilhões da saúde pública.

A outra Minas é onde nós vivemos, simples mortais. A Minas da educação sucateada, da saúde abandonada, da cidadania ultrajada, dos índices da segurança manipulados, da dívida escandalosamente aumentada, da mentira oficial, dos servidores públicos estaduais vilipendiados. Nesta Minas vivemos nós, pobres mineiros.

Na outra Minas vivem os apaniguados de Aécio Neves, mídia inclusa. Minas não tem um projeto de crescimento sustentável, de melhoria na saúde, na educação, nos transportes ou na segurança. Minas tem apenas o Projeto Aécio Neves.

Vivemos hoje em Minas a mais absoluta e verdadeira censura midiática. Muito pior que a censura imposta durante a ditadura militar. Naquela ocasião os jornais eram obrigados a se calar, a silenciar diante dos abusos. Hoje, as polpudas verbas publicitárias oficiais compraram a adesão da imprensa mineira ao projeto de marketing pessoal e de culto à personalidade do ex-governador.

Assim é a Minas de hoje, onde o judiciário, o ministério público e a imprensa foram cooptados ao projeto pessoal de Aécio Neves. A Assembléia Legislativa, cuja maioria dos deputados, comprados à base de emendas parlamentares e cargos na administração, vota com o governo e não pode ser chamada de Casa Legislativa. Melhor seria ser chamada de “Casa Homologativa” da vontade do Executivo.

Tudo o que eu escrevi até agora, e muito mais, você encontra no discurso do Deputado Sávio Souza Cruz do PMDB, proferido em março deste ano na tribuna da ALMG.

A imprensa mineira enterrou os princípios básicos do jornalismo honesto e saudável. Onde foi parar o jornalismo crítico, apartidário e pluralista? Onde estão as atitudes de independência em face de grupos de poder? O que fizeram com a competência profissional do jornalista? Não tratam com rigor técnico as notícias e idéias. Desprezam a relação de transparência com a opinião pública. Desestimulam o diálogo, a difusão de novas tendências e o desenvolvimento do próprio jornalismo.

Do ponto de vista político, a mídia mineira deixa de sustentar a democracia, a economia de mercado, os direitos dos mineiros e foge do debate dos problemas sociais da população. Ela se censura e permite a ingerência do poder do Estado sobre suas atividades, pelo dinheiro. A ética que se dane. Não ficam nem um pouco constrangidos; perderam a vergonha. Quem dita a linha editorial da imprensa em Minas é o Executivo. Nela não está contemplada a ética, a isenção na cobertura, a liberdade de expressão, a responsabilidade moral ou todas as versões dos fatos.

A independência econômica e financeira de qualquer empresa jornalística é condição essencial para a sua independência editorial e política. Os anúncios publicitários deveriam merecer tratamento análogo ao que se dá ao material jornalístico.

O interesse do leitor/ouvinte/telespectador, deveria ter sempre prioridade sobre qualquer outro, inclusive o do anunciante. Não se deveria, em nenhuma hipótese, sob pena de se perder a credibilidade, subordinar o trabalho jornalístico aos interesses, presumidos ou manifestos, de anunciantes. A isto chama-se ética. Isto se aprende em qualquer curso de Jornalismo ou Comunicação Social. É lamentável que o universo midiático de Minas Gerais não pense assim.

Em seu texto, a Constituição brasileira garante o acesso de todos à informação. Garante também a liberdade de imprensa, independente de censura, e a livre expressão do pensamento. Não podemos reconhecer legitimidade em nenhuma restrição, legal ou ilegal, que se faça à liberdade de imprensa. Não podemos aceitar que a imprensa seja "comprada" em benefício de quem quer que seja.

Imprensa mineira, acordai! Levantai sua cabeça. Erguei os olhos para seus leitores/ouvintes/telespectadores! Abandone de vez a desonra que a envergonha diante de si própria!


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG.
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Marx e o século XXI

Por Amanda Marina Lima Batista *

Karl Marx, através do método do materialismo histórico, anunciou o fim do Capitalismo através da revolução proletária. No entanto, tal sistema persiste corrompendo instituições e enfraquecendo valores. O motivo para o prevalecimento desse modo de produção é o fato de que a burguesia industrial, mais uma vez, contornou as adversidades e se manteve no poder.

Essa classe, considerada por Marx como revolucionária, ao perceber que o operariado estava revoltando-se contra o trabalho excessivo a baixos salários e péssimas condições, tornou-se mais sutil quanto à sua forma de exploração: as fábricas deixaram de ser “satânicas”, passaram a oferecer melhores condições de trabalho e a estimular seus trabalhadores a qualificarem-se. Porém, essa qualificação seria sempre voltada para a demanda dos meios de produção, os quais agora possuem indivíduos naturalmente disciplinados pela educação familiar e escolar.

Iniciamos assim a era da disciplina científica, na qual nos encontramos até hoje. Nela, não precisamos de contramestres para nos exigir disciplina e produtividade, exigimos isso de nós mesmos automaticamente porque agora, como diria Michelle Perrot, nosso contramestre é nossa consciência. Vivemos cada minuto de nossas vidas empenhados em sermos úteis e valiosos para o mercado e dessa forma - apenas dessa forma - sermos alguém, o que, na lógica capitalista quer dizer consumir e ascender economicamente para consumir mais.

Marx não pôde imaginar que a classe burguesa engendraria no proletariado seus valores e daria a ele essa possibilidade de consumo. E dando aos trabalhadores esse poder de compra, o qual varia conforme a função que cada um exerce, a burguesia inseriu - dentro da própria classe operária – distinções sociais que a impedem de ver-se como uma única classe. A dificuldade hoje não é apenas que o operariado torne-se para si e passe a lutar por seus objetivos, mas sim que se entenda como um estamento só, uma vez que o poder de compra diferenciado fragmentou-o em subclasses (baixa, média, média-alta e alta) que não se consideram iguais e conseqüentemente não se unem para fazer a revolução.

Mesmo perante esse quadro que só tornou o fim da era do capital mais distante, a esperança de uma nova realidade ainda existe e virá “de baixo” como já havia sido dito. Isso porque junto à onda do mercado veio a tecnologia, veio a internet e a formação da aldeia global. Conhecer o mundo deixou de ser um privilégio para a aristocracia e a cultura popular ganhou voz, ganhou face através da arte em suas variadas manifestações e da disseminação virtual dessa arte. Multiplicam-se pelo mundo movimentos contrários ao globaritarismo, recorrendo ao neologismo pertinente de Milton Santos,que utilizam os frutos do próprio Capitalismo para oporem-se a ele.

Diante disso, é possível afirmar que muitos acontecimentos colocaram à prova muitas afirmações marxistas, mas isso não significa que ele se equivocou quanto ao caminho.Uma outra globalização ainda é possível. Uma globalização aliada da cultura e do bem-estar social, não mais do mercado e do capitalismo financeiro, uma globalização inclusiva e não seletiva, libertadora e não alienante, disseminadora da transformação e não da adaptação, uma globalização enfim popular e de equidade.


* Amanda Marina Lima Batista é estudante de Direito na PUC/MG.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Esquizofrenia política em Minas Gerais

Por Cléber Sérgio de Seixas

Reproduzo abaixo um vídeo da fala do Deputado Estadual Sávio Souza Cruz (PMDB) durante reunião ordinária realizada no dia 24/03/2011 no Plenário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais - ALMG.

O deputado, que é integrante do bloco de oposição ao governo "Minas Sem Censura", fala sobre a "esquizofrenia política" que se implantou em Minas Gerais desde a primeira gestão de Aécio Neves. Segundo ele, tanto a Imprensa quanto o Judiciário estariam encabrestados pelo Governo do Estado na gestão do PSDB, e a Assembléia Legislativa teria se tornado uma "Assembléia Homologativa", o que configuraria um verdadeiro estado de exceção.



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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Para esquecer o voto distrital

Por Márlon Reis

O texto que você lerá a seguir é uma adaptação de ideias que expus em debates travados em meus perfis no Facebook e no Twitter. Peço-lhes, assim, que compreendam o tom direto das reflexões.

Tudo começou quando fiz uma postagem que dizia mais ou menos o seguinte: "o distrito eleitoral é o ambiente perfeito para o clientelismo e a corrupção". Depois dessa afirmação recebi diversas mensagens de apoio e de reprovação.

O que se vê agora é uma lista de considerações que apresentei na oportunidade, submetidas a uma edição e ampliadas. Foi da Lucrecia Anchieschi Gomes, da Policidadania e do Movimento de Combate à Corrupção (MCCE) de São Paulo a iniciativa de realizar a coletânea das minhas primeiras ponderações. A ela os meus sinceros agradecimentos.

Antes de tudo, peço-lhe que abra mão de ideias preconcebidas. Esqueça os sistemas eleitorais dos outros países e pense no Brasil como você o conhece. Compare-o com o que lerá adiante. Pense. Então decida se é isso mesmo o que você quer para o nosso país.

Imagine o seu município dividido em distritos eleitorais. Considere que serão tantos distritos quantas são as vagas em disputa para a Câmara de Vereadores. Sua cidade e a zona rural estarão recortadas em unidades políticas que incluirão diversos bairros e, às vezes, vilas e povoados. Agora responda: quem serão os eleitos em cada um desses distritos? Resposta: vencerão os poderosos locais.

Esse é o rosto desnudado do voto distrital. Nele, vence o mais forte. As Câmaras de Vereadores ficarão cheias de aliados do prefeito. Quem votará nos candidatos de oposição, que nada poderão conseguir com o prefeito, responsável pela execução do orçamento? Imaginando que ainda assim um ou outro oposicionista consiga vencer a terrível disputa contra a situação, resta imaginar quanto tempo ele resistirá antes de ceder e ingressar na situação, como forma de garantir "benefícios" para sua comunidade e assegurar sua reeleição futura.

Se um sistema não funciona bem no âmbito local, não pode servir também em esferas mais elevadas.

É preciso discutir o mito de que o voto distrital ‘aproxima o eleito dos seus eleitores”. Esse lugar-comum carrega consigo inúmeros perigos, bem conhecidos de muitos políticos tradicionais que o defendem, mas ignorados por grande número de brasileiros que vêm propondo de boa-fé a implantação, entre nós, desse sistema.

A adoção do voto distrital - ou da sua versão mais perversa, o “distritão” - teria um efeito prático inevitável: o sufocamento político das minorias e grupos de oposição.

Os partidos políticos, hoje já relegados a um plano secundário, teriam ainda mais reduzida sua pequena influência, já que nesse sistema a eleição se baseia exclusivamente na personalidade do candidato, com franco prejuízo para a construção de identidades políticas e ideologias desenvolvidas coletivamente.

Num país com uma história marcada por vínculos clientelistas, a introdução de sistemas eleitorais baseados no culto à personalidade constituiria um grave dano para a democracia, com sérias repercussões nos campos social e econômico.

O voto distrital, quando adotado em democracias recentes, não facilita o controle social dos mandatos, mas o clientelismo. Nesse modelo, os patronos assumem o comando político dos distritos. Sua reeleição, sem limites, torna-se cada vez mais simples à medida em que a oposição vai percebendo que não adianta disputar com quem detém o poder político e econômico num reduto concentrado.

O distrito é, assim, o reconhecimento oficial do reduto. Ele é o ambiente perfeito para a compra de votos, prática infelizmente comum em nosso país. Só para se ter uma ideia, quarenta e três por cento dos entrevistados em uma pesquisa realizada pelo IBOPE/AMB em 2010 afirmaram conhecer casos de políticos que compram votos. E quarenta e um por cento disseram conhecer pessoas que votaram em troca de benefícios pessoais.

Práticas políticas baseadas na outorga efetiva ou prometida de ofertas personalistas são encontradas em todos os estados brasileiros. Os agentes desse comércio são chefes políticos locais que mantêm o eleitorado sob vínculos de dependência mais ou menos sofisticados. A moeda de troca pode ser uma dentadura ou a promessa de legalização de um condomínio de luxo construído em área ilegal. Esse intercâmbio de favores é a tônica da política realizada em âmbito local.

Muitos se queixam hoje do fato de que alguns parlamentares recebem grande número de votos em um lugar onde sequer fizeram campanha. Pensam que o voto distrital seria capaz de solucionar esse problema, vinculando o eleito ao distrito. Nem para isso esse modelo serve.

A conquista de votos por candidatos sem base na comunidade, tal como ocorre hoje, é o fruto da ação de mercadores de votos (cabos eleitorais, líderes associativos, prefeitos, vereadores etc.) que atuam em redutos eleitorais determinados. A cada eleição, o "passe" desses agentes vai se tornando mais caro, expulsando dos mandatos políticos vocacionados que não aceitam essa condição. No sistema atual esses patronos locais não possuem na sua comunidade votos suficientes para serem eleitos, pois a circunscrição é todo o estado. Mas, se o país for dividido em distritos, o problema estará resolvido: esses mercadores se converterão eles mesmos em nossos deputados.

Por outro lado, deputados federais eleitos em distritos assumiriam a condição de meros despachantes de interesses locais, empenhados apenas em carrear recursos para o distrito, conferindo importância secundária aos debates estratégicos de interesse da nação. Isso faria com que o debate eleitoral se amesquinhasse, com os candidatos tentando demonstrar quem pode "trazer mais coisas de Brasília". Seriam quinhentos e treze “Vereadores Federais” na capital federal.

A lógica dos eleitores passaria a ser a seguinte: quem entre os candidatos poderá angariar mais vantagens para o distrito? Obviamente, saem na frente os políticos ligados ao governo, pois no nosso sistema constitucional é o Executivo quem dá a palavra final sobre a destinação das verbas. Votar num oposicionista é correr o risco de ver a comunidade alijada de novos investimentos públicos.

O voto distrital também tem o demérito de reduzir a política a um debate bipolar entre governistas e antigovernistas. Na votação majoritária – modelo adotado no sistema distrital – vence o que obtém mais apoios, ou seja, não há espaços para os portadores de bandeiras específicas, tais como ambientalistas, feministas e defensores dos direitos humanos. Índios, negros e mulheres veriam ainda mais reduzida a sua possibilidade de eleição, já que a votação adotada serve para verificar quem é capaz de arregimentar o maior número de votos.

O voto distrital é um sistema de seleção de poderosos, não de inclusão política dos diversos segmentos sociais.

Milhões de votos concedidos aos candidatos derrotados ficam sem nenhuma importância. É possível que a oposição fique com quarenta por cento dos votos nas eleições nacionais e que isso se converta, mesmo assim, em pouquíssimas cadeiras no Parlamento.

Agora vamos pensar em qualquer político escandaloso, daqueles que nos provocam sensações de repugnância ou indignação quando nos lembramos que estão entre os nossos dirigentes. Felizmente, são poucos. Pois bem, com o voto distrital esse nosso "herói" terá seus problemas definitivamente resolvidos. Bastará se vincular ao principal reduto eleitoral (eles os têm, em grande número), espaço onde continuará sendo eleito e reeleito com grande tranquilidade.

Outro problema para as oposições no voto distrital é o favorecimento da perseguição aos líderes oposicionistas. O distrito, para a liderança oposicionista de destaque, converte-se na sua prisão, para a qual se dirigem todas as forças políticas do governo. Todas as energias são dedicadas à derrota dos adversários mais ilustres. Considerando-se que esse esforço é empreendido por quem está no poder, pode-se imaginar o resultado.

Ainda temos que lembrar o Gerrymandering. Pode parecer algo chato, mas é até divertido. A origem desse termo se deve à observação feita por um cartunista sobre o formato adquirido por um distrito em Massachussets. De tão alterado para beneficiar o governador, Elbridge Gerry, ficou parecido com uma salamandra (salamander). O editor do jornal apelidou o distrito de Gerrymander, numa piada com o nome do governante.

Pois bem, quando fui ouvido pela Comissão Especial da Câmara que trata da Reforma Política, um deputado me perguntou: se for aprovado o voto distrital, quem definirá como serão desenhados os distritos? Respondi: "a maioria". Isso mesmo. Quem diz onde fica cada distrito é quem tem maioria suficiente para isso no Congresso. Acontece que a área de abrangência do distrito pode definir a sorte ou o azar dos candidatos. Um simples bairro a mais incluído em um distrito pode mudar o resultado do pleito. Se um distrito abrange duas cidades, o eleito pode ser um; mas se for incluído um terceiro município, a eleição pode terminar de forma bem diferente. Pergunto: você acha que os distritos terão seus desenhos definidos de forma neutra?

Fico muito admirado quando vejo oposicionistas aceitando a idéia do voto distrital. Esse modelo foi adotado no Brasil desde os tempos de colônia até a República Velha, tendo sido abolido justamente por inviabilizar a presença da oposição no Parlamento em níveis aceitáveis. O voto proporcional foi adotado como forma de assegurar a participação das minorias. É uma conquista histórica da qual não podemos abrir mão.

Enfim, existem muitos outros motivos para que você esqueça o voto distrital, mesmo na sua forma envergonhada, o voto distrital misto, que é uma maneira de entregar "apenas" metade das cadeiras parlamentares aos patronos e caciques locais.

Pense nisso: é isso o que você realmente quer para o Brasil?


Fonte: MCCE - Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral
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O perfeito imbecil politicamente incorreto

Por Cynara Menezes *

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.


* Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Atualmente escreve para a CartaCapital.

Fonte: Carta Capital
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