quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Moradores de Neves protestam contra prisão de manifestante


Matéria: Assessoria de Comunicação da ALMG

Moradores de Ribeirão das Neves (Região Metropolitana de Belo Horizonte) protestaram na manhã desta quarta-feira (28/9/11) contra a prisão do representante da Rede Nós Amamos Neves, Sidnei Moraes Martins, durante a realização do movimento "Grito dos Excluídos", em 7 de setembro. Eles participaram de audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e afirmaram que a prisão teria sido uma tentativa de impedir a realização do movimento. Representante da Polícia Militar presente na reunião negou que a prisão tenha tido o objetivo de impedir a manifestação.

Durante o "Grito dos Excluídos", cerca de outros 250 moradores teriam sido impedidos de apresentarem suas reivindicações por meio de faixas, carro de som e outros meios de ação. "A Polícia Militar impediu a realização de uma manifestação pacífica e ordeira dos movimentos populares, associações de bairros, sindicatos e comunidades religiosas que lutavam pela vida e pelos direitos sociais", afirmaram os líderes do movimento, por meio de nota.

O representante da Rede Nós Amamos Neves, Sidnei Moraes Martins contou que foi preso, algemado e conduzido à prisão e que teria sido humilhado pelo subtenente Gilberto Soares de Oliveira durante a manifestação. "Tenho a consciência tranquila de que não desacatei nenhuma autoridade, nem fui agressivo na minha manifestação. Será que a ordem era impedir que o povo simples se manifestasse na luta pelos seus direitos?", quis saber.

Discriminação - Sidnei Martins afirmou que os moradores da periferia não podem ser tratados de maneira diferente pelo Estado. Ele lembrou que a Constituição Federal estabelece os direitos dos cidadãos brasileiros e que todos são iguais perante a lei. O morador também destacou que a Rede Nós Amamos Neves tem como objetivo promover a paz na comunidade e a que a atitude da Polícia Militar foi para impedir a manifestação dos moradores de Ribeirão das Neves.

O padre José Geraldo de Souza afirmou que todas as manifestações da rede são pacíficas, mas que sempre há a presença de um grande número de policiais. Segundo ele, a prisão do morador teve um significado maior, pois mostrou que era "a Rede Nós Amamos Neves que estaria sendo presa". Para ele, a ação da polícia mostrou uma visão de que o pobre é visto como baderneiro.

Já o representante da Comissão dos Usuários de Transportes de Ribeirão das Neves, Jurandir de Souza, destacou que é testemunha de que o morador preso não teria desacatado o policial, nem resistido à prisão. Ele também protestou contra o fato de que a polícia teria impedido a manifestação, proibindo os moradores de ligar o som e abrir as faixas.

Moradores - Durante a audiência vários moradores do município se manifestaram e repudiaram a ação da Polícia Militar. Para eles, está havendo uma perseguição contra a Rede Nós Amamos Neves, que, entre outros, protesta contra a construção de outras unidades prisionais no município.

PM não atuou para impedir a realização da manifestação

O comandante do 40o Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Luiz Carlos Godinho, negou que a prisão de Sidnei Martins tenha tido como objetivo impedir a manifestação. Segundo ele, o morador foi preso porque suas ações estariam provocando tumulto e por ele ter desrespeitado uma ordem policial.

Luiz Carlos Godinho explicou que no dia 7 de setembro foi solicitado que a manifestação não acontecesse durante o desfile cívico-militar, tendo sido pactuado que, logo que o desfile acabasse, os moradores poderiam entrar na avenida e fazer seu protesto. "O acordo foi cumprido, pois a manifestação aconteceu conforme o combinado", afirmou.

Ainda segundo o relato, durante o desfile, Luiz Carlos Godinho foi comunicado de que teria havido uma prisão por provocação de tumulto. Segundo ele, o morador teria sido preso após desobedecer quatro ordens consecutivas do policial de aguardar o término do desfile para fazer a manifestação. "O que motivou a prisão não foi o conteúdo das faixas, mas a sua postura de procurar causar tumulto", afirmou.

Por fim, ele disse que a Polícia Militar não desenvolve ações para impedir as manifestações da Rede Nós Amamos Neves. Para o policial, a prisão do manifestante foi um fato isolado.

Comissão vai acompanhar próxima manifestação

Com o objetivo de verificar se o direito constitucional de se manifestar pacificamente está sendo cumprido, a Comissão de Direitos Humanos vai acompanhar a próxima manifestação da Rede Nós Amamos Neves. O presidente da comissão, deputado Durval Ângelo (PT), considerou fundamental a presença da comissão na próxima manifestação já que, para ele, a Rede Nós Amamos Neves vem tendo um papel fundamental na melhoria das condições de vida em Ribeirão das Neves.

O autor do requerimento para a audiência pública, deputado Celinho do Sinttrocel (PCdoB), afirmou que direito à manifestação está previsto no Estado democrático, sendo que, de acordo com os relatos, a manifestação em Ribeirão das Neves teria acontecido de forma pacífica. Para ele, ficou constatado que houve abuso de poder. Durval Ângelo lamentou o ocorrido e lembrou que o "Grito dos Excluídos" existe há duas décadas e é fruto de um movimento da Igreja Católica. "É um movimento que acontece em todo o Brasil e o único local em que tivemos uma prisão foi em Ribeirão das Neves", disse.

Requerimentos - No final da reunião, o deputado Celinho do Sinttrocel apresentou requerimentos com pedidos de providências. Em um deles, o deputado pede que seja encaminhado ofício com as notas taquigráficas da reunião para várias entidades, como a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o Ministério Público e a Ordem dos Advogados (Minas Gerais) para conhecimento dos fatos relatados. Outro requerimento solicita que sejam encaminhadas as notas taquigráficas e as fotos à Corregedoria da Secretaria de Estado de Defesa Social para averiguar denúncias sobre desvio de função e abuso de autoridade de agentes penitenciários em Ribeirão das Neves.

Um terceiro requerimento solicita que seja encaminhado ofício ao Corregedor da Polícia Militar, solicitando providências para averiguar possíveis violações de direitos humanos pelos policiais durante a manifestação. Celinho do Sinttrocel também pede que seja encaminhado ofício à Polícia Civil de Ribeirão das Neves para que sejam devolvidos aos proprietários as faixas, cartazes e pertences pessoais apreendidos durante a manifestação. Por fim, ele solicita que seja encaminhado pedido de informações ao secretário de Estado de Defesa Social para que ele esclareça quais os procedimentos e a quem compete as atividades de manutenção da ordem e segurança no canteiro de obras da penitenciária que está sendo construída no município.

Foram também aprovados três requerimentos do deputado Durval Ângelo (PT). Dois deles pedem que sejam encaminhadas as notas taquigráficas da reunião à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) solicitando o registro do episódio; e ao comandante do 40° Batalhão da Polícia Militar, para providências. Outro requerimento pede que seja encaminhado ofício ao corregedor da PM pedindo a apuração de denúncia de que um policial teria cometido o crime de prevaricação na tentativa de coibir a manifestação.

Moções - Na reunião, foram também aprovadas duas moções apresentadas por Durval Ângelo. Uma delas é de repúdio à atitude do vereador da Câmara Municipal de São Paulo, Quito Formiga, pela sua proposta de homenagem a Davi dos Santos Araújos (Capitão Lisboa), que seria responsável direto por crimes de assassinato e tortura de presos políticos no regime militar. A segunda é uma moção de apoio à ministra do Superior Tribunal de Justiça, Eliana Calmon, pelo trabalho que ela vem prestando ao País na fiscalização de irregularidades na magistratura brasileira e pela sua coragem em enfrentar o corporativismo de entidades de classe e de magistrados brasileiros.

Presenças - Deputados Durval Ângelo (PT), presidente; Paulo Lamac (PT), vice; Celinho do Sinttrocel (PCdoB), Adelmo Carneiro Leão (PT) e Luiz Carlos Miranda (PDT). Além dos convidados já citados, participaram o subcomandante do 40o Batalhão de Polícia Militar, major Júlio Cesar; e o 2º tenente Alexandre Fagner.


Fonte: ALMG
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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Agenda - Sílvio Tendler em BH

(clique para ampliar)
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Mensagem de João Pedro Stédile aos Professores de MG


São Paulo, 26 de setembro de 2011

QUERIDOS PROFESSORES E PROFESSORAS DE NOSSA IMENSA MINAS GERAIS,

De longe estamos acompanhando com muita atenção e carinho vossa greve.
A luta que vocês estão desempenhando é uma luta histórica, que representa a indignação de todos os professores do Brasil, não só pelo cumprimento da Lei Federal 11.738/08, mas, sobretudo, para recuperarmos a qualidade e a dignidade da educação pública nesse país.

O governo Anastasia não tem vergonha e se comporta irresponsavelmente, não apenas perante o magistério, mas perante todo povo de Minas Gerais, pelo desrespeito que manifesta pela educação de nossos filhos.

Imagino os sacrifícios que vocês estão enfrentando. Imagino as pressões dos setores conservadores e da mídia hipócrita e venal que se mantém às custas do erário público, para mentir e manipular a opinião pública.

Não desanimeis. O povo e a historia estão de vosso lado.

A vocês cumpre agora a missão de travar essa batalha em nome de todos nós, pela recuperação do sentido da educação pública e universal que todos os cidadãos têm direito, com qualidade e valorizando o trabalho missionário dos pedagogos.

Estamos com vocês. Permaneçam firmes, que a vitória é certa.


Um forte abraço de todos os militantes do MST, de todo o Brasil.


João Pedro Stédile,
da coordenação Nacional do MST e da Via campesina Brasil.
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domingo, 25 de setembro de 2011

MENSAGEM AO POVO DE NEVES


A mensagem abaixo foi divulgada e lida hoje durante a 5ª Conferencia Municipal do Partido Comunista do Brasil de Ribeirão das Neves.


Um dos aspectos mais intrigantes a partir da explosão da crise financeira mundial em 2008, nascida nos EUA e que infectou o resto do planeta, foi a explicação para o evento, gerada pelos economistas de plantão. O problema estava exclusivamente na substituição da produção pela especulação do capital. Ninguém se lembrou, no entanto, que a exclusão política do povo, a marginalização da população votante, o cinismo político das promessas não cumpridas, os projetos políticos pessoais, a burocratização do acesso aos direitos individuais e coletivos, foram também ingredientes importantes em mais essa derrocada do capitalismo neoliberal.

Um povo que nunca é ouvido se cansa de gerar soluções. Um povo que só é lembrado na véspera de eleições, com promessas que nunca vão ser cumpridas, se distancia da política saudável.
Felizmente aqui no Brasil, o ex-presidente Lula e a presidente Dilma vêm enfrentando a crise de forma eficiente apesar dos neoliberais de plantão torcerem pelo contrário. Para eles, não importa o bem estar do povo e muito menos da nação. Quanto pior, melhor é o seu lema, na busca insana do poder, exclusivamente pelo poder.

Por isso mesmo fazemos parte da base do governo desde 2003. A partir da união das forças progressistas de esquerda, PCdoB, PSB, PT foi possível trazer para Neves o PAC 1, está vindo aí o PAC 2, além do IFET, da implantação de dois terminais rodoviários em breve na cidade - os quais nós do PCdoB ajudamos a concretizar - além de mais duas Unidades de Pronto Atendimento nos bairros Justinópolis e Veneza, numa parceria dos governos federal, estadual e municipal.

No entanto, é bom que se esclareça que apoiar um governo não significa abrir mão das convicções pessoais e dos programas partidários. Apoiamos Lula e Dilma, mas mantemos nossa posição crítica contra os juros altos, por exemplo.
Sabemos que o crescimento do ser humano se dará sempre nos patamares da ética, do caráter e do cuidado com o outro. Não abrimos mão dessas posições. Ser ético não é virtude, mas obrigação. É muito importante que quebremos o paradigma de que no ponto central da política está sempre a preocupação com o mundo e não com os homens. A política baseia-se na pluralidade dos homens. Se todos os homens fossem iguais a política não seria necessária.

Acreditamos na política, não na politicagem. Acreditamos no coletivo, não no individualismo.
Daí conclamarmos a população de Ribeirão das Neves para votar no próximo ano com a plena consciência da cidadania a que tem direito inalienável.

Nós do PCdoB, às vésperas de completarmos 90 anos de existência, temos nos empenhado firmemente na formação da consciência cidadã, na construção de um Brasil melhor, na preservação da natureza. Somos um partido pequeno para o tamanho dos desafios atuais, mas isso não nos amedronta. Fazemos política com transparência e liberdade. Afinal, a política só faz sentido quando é libertária. O diretório do PCdoB de Ribeirão das Neves, à frente o camarada João Faísca, militante há mais de 20 anos, fundador do partido em Neves, tem se colocado sempre ao lado da população da cidade, assumindo seus reclamos, sofrendo com ela suas decepções sem desânimo. Temos também o apoio irrestrito da direção estadual do partido, cuja presidente, a deputada federal Jô Moraes, o vice-presidente Zito Vieira, os deputados estaduais Carlin Moura e Celinho do Sinttrocel e nosso vereador nesta casa, o professor Valter Bento, têm presença constante no município.

Por isso, várias vezes viemos a público manifestar nosso repúdio à implantação de mais um complexo carcerário na cidade, obra do governo do Estado numa parceria público-privado, onde os presos serão tratados como mercadoria e quanto maior o numero deles maior o lucro da iniciativa parceira do governo estadual. Àquele governo cabe nos livrar do estigma de “cidade presídio”, que carregamos de longa data. Cabe suprir o governo municipal de instrumentos para melhoria das condições de vida da população. Melhoria no sistema da saúde, de educação, de transporte, de segurança, no lazer e nos serviços públicos. Cabe resgatar a divida social e moral que o estado tem historicamente para com o município. Para isso o governo do Estado tem apenas de cumprir o que estabelece a Constituição nacional que já prevê percentuais da arrecadação estadual destinados àquelas áreas, o que ele, o governo, não faz.


Apoiamos o projeto de expansão do metrô e de terminais rodoviários na área metropolitana, mas passando também por Neves. Precisamos atrair novos empreendimentos para a cidade a fim de que nossos trabalhadores não precisem se deslocar para BH, Betim ou Contagem em busca de empregos, além de reforçar o orçamento do município.


Nossa população sofre e é penalizada diante do desprezo e da ausência dos governos estaduais, atual e pretéritos, e de políticas públicas voltadas para a melhoria das condições de vida do povo nevense. Estamos cansados de projetos pessoais. Cansados de promessas vãs. Cansados de presídios.
Por isso é importante votarmos, no ano que vem e em 2014, em candidatos que não tenham exclusivamente projetos pessoais, mas que trabalhem e trabalhem muito pela cidade.

Somos um partido criativo, que valoriza e respeita a diversidade cultural do país, que tem na mais alta conta seus eleitores, preocupado com as questões sociais e ambientais, enfim, que valoriza a vida prioritariamente. Estamos empenhados em um programa socialista para o Brasil, através do qual a produção nacional seja socializada. Que transforme o país em uma sociedade de alta produtividade social do trabalho, oposto do que prega o capitalismo neoliberal. É um programa comprometido com o bem estar do homem, com a distribuição harmoniosa da renda e da riqueza nacionais, com o respeito à dignidade humana.

Este é o nosso partido, pequeno para a grandeza dos problemas de Ribeirão das Neves, mas enorme, do tamanho de nossas idéias e de nosso plano de desenvolvimento para a cidade.
Para melhor enfrentar esses desafios, estamos empenhados na formação de uma excelente bancada nesta câmara municipal nas próximas eleições, a começar pela recondução do professor Valter Bento, primeiro vereador do PCdoB eleito em Neves. Além de eleger outros camaradas, oriundos de movimentos e quadros sociais, comprometidos com a população. Para tanto contamos com os simpatizantes com a nossa causa, com nossa militância, aguerrida, voluntariosa, que não desiste nunca e, principalmente, contamos com o nevense.

VIVA RIBEIRÃO DAS NEVES!
VIVA O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL!

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Imbróglio na Assembléia Legislativa

Por Jeferson Malaguti Soares *

Sobre a confusão que houve nesta quarta-feira na ALMG, onde professores foram intimidados pelos seguranças da instituição, o apresentador Mauro Tramonte foi muito infeliz quando disse no seu programa, Balanço Geral , desta quinta-feira, 22/09, que o povo não está preparado para a democracia.

Inicialmente quero dizer que admiro o Mauro, seu bom humor e sua sempre correta postura frente aos problemas que divulga diariamente. Mas, não posso concordar com o que disse. Quem não está preparado para a democracia são os deputados estaduais ligados ao governador Anastasia. O Deputado Dilzon Melo do PTB teve a audácia de dizer que a área interna da Assembléia é restrita aos deputados e seus assessores. Esse deputado se esquece que a ALMG não é sua casa, mas a casa do povo. O Deputado Sargento Rodrigues, do PDT, reclamou que pessoas na galeria do plenário estavam usando termos poucos apropriados para se referirem aos deputados, como ladrões, safados, corruptos etc... No entanto, não vi nenhum deputado do PT, PCdoB ou de qualquer outro partido de oposição ao governo estadual que tenha feito o mesmo reclamo. Certamente porque não se sentiram atingidos.

Quem também não está acostumada com a democracia é boa parte de nossa mídia, que se cala diante dos desmandos que vem acontecendo em Minas desde o primeiro mandato de Aécio Neves. Da mesma forma, partidos como o PSDB, DEM, PP e seus áulicos estão acostumados a reprimir a democracia.

Além desses, quem também não está familiarizada com a democracia é parte do Ministério Publico de Minas e do Tribunal de Contas do Estado.

Repudio a fala do Mauro Tramonte, apesar de tê-lo em alta conta como apresentador. Repudio o desempenho da maioria que compõe a ALMG no episódio desses mais de 100 dias de greve legítima dos professores. Repudio veementemente a impostura do Sr. Governador do Estado, de nossos senadores e dos deputados federais de Minas ligados ao senador Aécio Neves. Repudio a grande maioria da imprensa de Minas, sabuja dos poderosos e por eles encabrestada.

A democracia não pode ser tratada de forma tão vil.


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG.
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Nota do Blog: Como se não bastasse o governo do Estado de Minas Gerais não pagar o piso salarial previsto em lei, os professores ainda são humilhados. Durante o episódio descrito no artigo acima, o sr Flávio Castro, assessor do Deputado Luiz Humberto Carneiro, disse a uma manifestante que se ganhasse 712 reais ia ser servente de pedreiro, conforme atesta uma reportagem cujo vídeo reproduzo abaixo.


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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Dilma na ONU

Por Cléber Sérgio de Seixas

A última campanha presidencial foi a de mais baixo nível dos últimos tempos no Brasil. Não faltaram factóides na grande imprensa e toda sorte de boatos difundidos pela internet para tentar desqualificar a candidata apoiada pelo então presidente Lula. Dilma Rousseff foi alvo de uma impiedosa campanha de mentiras por parte de partidários de José Serra. Desde os tempos da UDN não se via ardis tão sórdidos sendo utilizados para destruir a imagem de um candidato à Presidência da República.

Dilma foi acusada de ser lésbica, de ter um vice adorador do diabo, de ter planejado o seqüestro de Delfim Neto nos tempos da ditadura, além de várias outras pérolas. Uma das mais preciosas era que Dilma, caso pisasse nos EUA, seria imediatamente presa por conta de suas ações nos tempos da ditadura militar. Até uma ficha criminal de Dilma foi difundida pela Folha de São Paulo para “comprovar” o passado terrorista da candidata do PT. Posteriormente descobriu-se que a ficha era falsa.

Pois bem, hoje Dilma entrou para a história como a primeira mulher a discursar na abertura da Assembléia Geral da ONU. Sabe-se que a sede da ONU fica em Nova York, ponto nevrálgico do sistema econômico norte-americano. Se Dilma fosse uma procurada, seria uma ótima oportunidade para prendê-la. Pelo que consta a este blogueiro, até agora a presidente brasileira não foi presa em solo estadunidense.

Onde estão os boateiros agora? Lembrar-se-ão das mentiras que espalharam na rede?

Abaixo reproduzo trechos do discurso de Dilma na ONU hoje de manhã.



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domingo, 18 de setembro de 2011

A filantropia de auditório

Por Cléber Sérgio de Seixas

Um dos trechos mais marcantes do filme Germinal (Claude Berri, França, 1993), baseado no romance homônimo de Émile Zola, é quando a personagem Maheude, interpretada pela atriz Sylvette Herry, chega com dois de seus filhos à casa de uma abastada família de burgueses. Espantados com a situação famélica e maltrapilha da mulher e suas crianças, os burgueses, tomados de um arroubo caritativo, tratam de lhes trazer roupas e alimentos. A cena não teria tanta importância não fosse o fato de o esposo de Maheude, interpretado pelo ator Gérard Depardieu, ser um dos empregados daquela rica família proprietária de minas de carvão. Se de um lado os trabalhadores eram submetidos por seus patrões a jornadas extenuantes de trabalho nas minas em troca de ínfimos salários, de outro esses mesmos proprietários dos meios de produção lhes estendiam a mão, ali, de forma assistencialista.

Desse pequeno trecho do filme podemos extrair grandes lições. Uma delas é que no sistema capitalista muitos que mais lucram com a situação deplorável em que se encontram as massas de trabalhadores são os mesmos que praticam ou apregoam a importância da prática da filantropia.

Há grandes empresas que pagam salários baixos a seus funcionários ou os submetem a condições degradantes de trabalho e, por outro lado, promovem campanhas ou projetos filantrópicos que têm como um de seus objetivos mitigar o sofrimento das classes subalternas. Nesse curioso contraste, a mesma mão que hoje acaricia alguns pode ter sido a que ontem fustigou outros. Ao mesmo tempo em que os empresários lutam pela “flexibilização” das relações de trabalho (sinônimo de precarização), procuram “remediar” os efeitos de tal processo.

A responsabilidade social empresarial se insere no contexto do neoliberalismo e é uma das formas de este intervir na questão social. Esta intervenção tem como um de seus principais objetivos impedir que se avancem as conquistas da classe trabalhadora no sentido da ampliação da remuneração e melhorias nas condições de trabalho. O neoliberalismo apregoa a minimização do Estado na área social para que as respostas à questão social, quando lucrativas, sejam transferidas ao mercado e, quando não lucrativas, à sociedade civil ou ao terceiro setor, fornecedores “gratuitos” de serviços sociais.

À medida que a responsabilidade de tratar com a questão social sai de sobre os ombros do Estado e recai sobre os do iniciativa privada, esta concentra seus esforços não sobre as causas da questão social, mas sobre suas conseqüências, de forma a manter sempre fértil o campo para a incidência da filantropia.

Se sob o Welfare State a questão social era internalizada na ordem econômico-política, constituindo um caso de políticas públicas, no contexto atual do neoliberalismo ela é externalizada da ordem social e transferida para o âmbito individual e imediato, sob a égide corporativa.

Exemplos de ações imediatistas e individuais são mostrados todos os fins de semana na programação televisiva. Abundam programas em que os apresentadores dão corpo a ações filantrópicas que promovem reformas de casas e de veículos, repaginação do visual pessoal, auxílio à alavancagem de carreiras artísticas etc, tudo em tom emotivo e em caráter espetacular.

Naquilo que chamo de “filantropia de auditório”, a palavra sonho é repetida inúmeras vezes. Frases como “eu não desisto dos meus sonhos” ou “eu corro atrás do meu sonho” são repetidas à exaustão. Mas a realização desses sonhos fica sob a dependência da boa vontade empresarial, cujo auxílio caritativo camufla interesses puramente econômicos.

A “filantropia de auditório” possui mecanismos idênticos aos da sociedade capitalista. O capitalismo tem a esperteza de socializar os sonhos e privatizar o acesso à realização dos mesmos. Assim, todos podem sonhar com dias melhores para si, contudo a maioria não conseguirá materializar seus sonhos. É lícito a todos sonharem que suas cartas serão escolhidas pela equipe de triagem do programa de TV que distribui benesses. Da mesma forma, qualquer um é livre para gastar parcelas de sua renda em jogos de loteria, esperando ganhar o prêmio que garantirá dias melhores. Contudo, no turbilhão de sofredores, uma ínfima parcela será agraciada. É nisso que consiste a força do sistema: fazer com que os indivíduos acreditem ser possível a todos a ascensão social, quando esta, na verdade, sempre estará restrita a poucos e/ou sujeita à caridade alheia.

Na loteria biológica, poucos são os selecionados para serem agraciados pela “filantropia de auditório”. O efeito tanto nos escolhidos quanto nos preteridos é a despolitização, o individualismo e a diluição da consciência de classe. Assim, em lugar de buscar melhorias para toda a sociedade, o cidadão parte em busca da solução dos problemas individuais. Dividir para conquistar, é exatamente isso que deseja a sociedade burguesa. À medida que cada um buscar os próprios interesses, os da sociedade serão diluídos, e não haverá multidões nas ruas reivindicando direitos e melhorias.

O que pouco se considera é que a “filantropia de auditório” só é viável pela participação de empresários que convertem o auxílio em marketing para suas empresas. Na relação custo/benefício, fica mais barato para o empresário bancar a reforma de uma casa do que pagar alguns segundos de propaganda no horário nobre.

Nem só de Sílvio Santos e eventos esportivos é composta a programação das emissoras de TV nos fins de semana. Há também os programas que vendem a idéia de que todos estão livres para sonhar um sonho impossível. Muitos expectadores se embriagam no ópio televisivo sabático e dominical e só despertam na segunda-feira, quando a realidade se revela nua e crua.
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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Jefferson, pai do “Mensalão”, nega tudo – quem vai pedir o teste de paternidade?

Por Rodrigo Vianna em seu blog

Foi pelo twitter que recebi a notícia: o @emeluis anunciava (entre irônico e estupefato) que a defesa de Bob Jefferson apresentada ao STF já estava disponível na internet, num site especializado em assuntos jurídicos. Fui olhar, e chamou-me atenção o último parágrafo: “Sobre a acusação do MP, a defesa de Jefferson seguiu o mesmo tom dos demais acusados: é incompleta e faltam provas. Trata-se, segundo a petição, de uma acusação “puramente retórica” e “sem argumentos fáticos”. Não há na acusação, segundo a defesa de Jefferson, nada que prove a existência do mensalão, ou de algum esquema de lavagem de dinheiro para a compra de votos parlamentares.” (grifo meu, RV).

Dividi com os leitores no twiter minha surpresa: ora, se Bob Jefferson (que era o principal denunciante do chamado “Mensalão”) nega que haja provas do referido esquema, então sobra o que? Claro, sobram evidências de caixa 2 na contabilidade petista, e nas estranhas relações com Marcos Valério. Caixa 2 é ilegal. E deve ser punido. Mas é muito diferente de “Mensalão” - esquema sistemático de compra de votos no Congresso, como dava a entender Bob Jefferson na tal entrevista à Folha que foi serviu como estopim do escândalo.

Em 2005, a velha imprensa tentou provar que o tal “Mensalão” era “o maior escândalo da história do Brasil”. Franklin Martins era comentarista da Globo. E eu era repórter da Globo em São Paulo. Na redação, era nítido que os comentários de Franklin destoavam da cobertura da emissora – claramente dirigida. A Globo, em suas “reportagens” diárias – jogando de tabelinha com ACM Neto e outros gigantes da moralidade - martelava o “Mensalão” como fato consumado. Aí Franklin entrava no ar e dizia que o “Mensalão” precisava ser “provado”. Foi um dos motivos que levaram Ali Kamel a rifar Franklin no início de 2006 – aquele tormentoso ano em que Lula conseguiria a reeleição.

Foi aquela campanha desenfreada para derrubar Lula em 2005 (e que só não foi adiante porque FHC teve a brilhante idéia de “sangrar” o presidente até a eleição, para evitar o “trauma” de um impeachment) que levou o deputado Fernando Ferro (PT-PE) a ir à tribuna e cunhar a expressão “Partido da Imprensa” para se referir à máquina que tentou derrubar Lula. Paulo Henrique Amorim aproveitou o discurso de Ferro, e acrescentou “Golpista” à expressão (uma referência histórica ao papel que a mesma imprensa cumprira em 1954, no suicídio de Vargas; em 1961, no veto à posse de Jango, só garantida após a resistência de Brizola com a Legalidade no sul; e em 1964, com o golpe largamente apoiado pela velha mídia). Assim, nasceu o PIG.

O PIG foi a mãe do “Mensalão”. E Bob Jefferson, o pai. Bob Jefferson agora nega o “Mensalão”. Quem vai pedir o teste de paternidade? A “Folha”, Kamel, ou Diogo Mainardi (o colunista fujão)?

Quando escrevi sobre essas coisas no twitter, recebi da doutora Janice Ascari um puxão de orelha; ela lembrou que todo réu, sempre, nega o crime de que é acusado. Bob, denunciante, é também réu. Por isso, não haveria nada de surpreendente na negativa de Bob. Ele poderia ter negado participação sem negar o esquema. Seria uma forma de evitar a desmoralização. Não o fez.

Juridicamente, a doutora Ascari pode ter razão. Mas politicamente, a negativa de Bob é devastadora. Qual a prova de que o “Mensalão” existiu? A entrevista de Bob a Renata Lo Prete na (sempre ela) “Folha”, em 2005. Bob agora negou o “Mensalão”. Politicamente, fica mais evidente a operação golpista que acompanhei de perto em 2005, e à qual tenho o orgulho de ter resistido nos difíceis dias finais na campanha de 2006 (manobra patrocinada pelo PIG, com ajuda do delegado Bruno - desmascarado num histórico post de Azenha, e numa histórica reportagem de Raimundo Pereira na “CartaCapital”). Tudo isso ocorreu em 2005/2006.

Em 2010, Lula estava muito mais forte. Mas a Globo e seus parceiros ainda tentaram operar no limite da irresponsabilidade: a “bolinha de papel” de Ali Kamel e Molina foi a tentativa de repetir a história e dar a eleição aos tucanos. Mas dessa segunda vez a operação soou como farsa.

Em 2005/2006, a situação foi muito mais séria. Essa história, em detalhes, ainda está por ser melhor contada. Ainda mais agora que Bob – o tenor do “Mensalão” – jogou por terra a encenação.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Depoimento de Dom Tomás a favor dos professores

Por Cléber Sérgio de Seixas

Os professores da rede estadual de Minas Gerais completarão amanhã cem dias de paralisação, numa greve que já é a mais longa das duas últimas décadas.

Recentemente, o Estado se dispôs a pagar o piso salarial proporcional a 24 horas semanais de trabalho, mas desconsiderou o plano de carreira. Assim sendo, um professor com 20 anos em sala de aula ganharia o mesmo que um recém-concursado.

Num dos últimos lances do movimento, o sindicato da categoria (SindUTE) denunciou que policiais militares à paisana estariam espionando membros do sindicato.

Reproduzo abaixo um depoimento de Dom Tomás Balduíno apoiando a greve dos professores estaduais de Minas Gerais e de outros Estados do Brasil.


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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

11 de Setembro

Por Jeferson Malaguti Soares *

A histeria com que se “comemoram” os 10 anos do 11 de Setembro é a mesma de que os judeus lançam mão há décadas para nos fazer lembrar do Holocausto. A coisa é tão bem orquestrada pela mídia internacional, seguida fielmente pela nossa obediente imprensa, que presenciei pérolas como estas na televisão, ditas por transeuntes entrevistados na rua: “...os mulçumanos são terroristas de nascença...”; “...a bíblia deles ensina fazer homens bombas”.

Os estadunidenses usaram o mesmo método para denegrir a imagem dos japoneses quando da Segunda Guerra. Diversos filmes foram lançados onde o Japão aparecia como uma terra de ensandecidos criminosos traiçoeiros. A casa imperial japonesa foi ridicularizada, alvo de chacotas e as gueixas até hoje são apresentadas como prostitutas. Da mesma forma, os povos asiáticos, árabes, latinos e africanos são retratados por eles como pessoas de segunda classe.

No entanto, a imprensa mundial se cala quando os criminosos são exatamente os governos dos EUA e de Israel: o Agente Laranja usado pelas forças norte-americanas na Guerra do Vietnam, o bloqueio econômico de Cuba, as invasões do Iraque e do Afeganistão, o holocausto do povo palestino, o apoio a diversas e sanguinárias ditaduras pelo mundo, enquanto serviam aos seus interesses. E o que não dizer das bombas de Hiroshima e Nagasaki? Tudo isso tem as mesmas características de crimes contra a humanidade usados para condenar outros governos. Os EUA e Israel chacinaram milhões de pessoas nos últimos 60 anos.

Outro 11 de Setembro, no entanto, sequer é citado, o de 1973, dia em que o presidente Salvador Allende, do Chile, legalmente eleito pelo seu povo, foi assassinado. A partir daí foi instalada a mais cruel ditadura da América Latina naquele país, sob o patrocínio dos EUA.

E não nos esqueçamos da nossa Amazônia. Os EUA trabalham sorrateiramente para tirá-la de nós. Fiquemos atentos.

O povo norte-americano é forte na medida em que o é seu poderio militar. Fortes, física, moral e espiritualmente são os povos agredidos e vilipendiados por ele e seus aliados, Israel à frente.


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG.
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Agenda - Movimento Minas Sem Censura

Companheiros e companheiras

Em nome da assessoria coletiva do Movimento Minas Sem Censura (em construção) convidamos os blogueiros e blogueiras progressistas de MG a integrarem esse esforço de FORTALECIMENTO de iniciativas que visem liberar nosso estado do torniquete tucano, em termos de direito à informação plural e de qualidade. E, de acordo com denúncias recentes, até mesmo de atividades de espionagem que caracterizam um estado policial.

O MOVIMENTO MINAS SEM CENSURA é sucedâneo do bloco Minas Sem Censura. E buscará ser mais amplo que sua origem parlamentar. Nesse sentido é suprapartidário e extrapartidário.

Deve ser composto por movimentos e entidades com orientação democrática e progressista. Pelas frentes sociais dos partidos (mulheres, juventude, frentes de igualdade étnico e racial, pessoas deficientes, cultura, meio ambiente, idosos etc).

Por blogueiros e blogueiras. Por Intelectuais, acadêmicos e pesquisadores. Ativistas da cultura. Dirigentes partidários e parlamentares de oposição ao governo tucano e de apoio ao governo da presidenta Dilma Rousseff.

E, respeitada a autonomia e a dinâmica de cada movimento, entidade, indivíduo e partido, pretendemos forjar um amplo movimento que se apresente como alternativa, nas Gerais, ao estado de exceção que aqui se instalou, desde 2003.

Para a organização desse novo movimento, convidamos a todos e a todas.

Reunião: na próxima segunda-feira, dia 12 de Setembro, às 14:00, no plenarinho 4 da ALMG.

A proposta inicial é que façamos o lançamento público do MMSC em Ouro Preto fixando, para Minas e para o Brasil que se faz necessário reescrever e dizer novos “discursos sediciosos”, como assim eram acusados os pronunciamentos dos Inconfidentes, nos “Autos da Devassa”.

Saudações libertárias.

Pedro Ferraz

@MGsemcensura

Fonte: Blog Quarto Poder
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domingo, 11 de setembro de 2011

11 de setembro: de Allende às Torres Gêmeas

O Palácio de La Moneda sob fogo dos militares golpistas em 11 de setembro de 1973

Por Cléber Sérgio de Seixas

Não faltam teorias conspiratórias sobre os ataques às torres do World Trade Center em Manhattan. Tais teorias vão da atribuição das explosões a organizações ligadas aos próprios EUA, à suposição de que foram orquestradas por entidades obscuras como os Iluminatti. Alardeia-se que os atentados de 11 de setembro de 2001 são os maiores de toda a humanidade, como se a humanidade fosse sinônimo de Estados Unidos da América.O fato é que, com os atentados às Torres Gêmeas, os Estados Unidos obtiveram a desculpa que necessitavam para ampliar sua escalada imperialista.

Com o fim da União Soviética no início dos anos 90, o mundo, de bipolar, passou a ser unipolar, ou seja, passou a estar sob a hegemonia inconteste dos EUA. Aproveitando essa unipolaridade, os EUA optam pela vocação de polícia do mundo, intensificando suas intervenções diretas e indiretas no contexto de uma geopolítica que lhes seja favorável.

Contrariando as resoluções da ONU, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão em outubro de 2001, declarando que o objetivo era encontrar Osama Bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda. Foi assim que, sob o pretexto de uma suposta ligação da Al-Qaeda com o regime de Saddam Hussein, e da também suposta existência de armas de destruição em massa nas mãos do ditador iraquiano, os Estados Unidos decidiram invadir o Iraque em 2003.

Por trás das supostas intenções de libertar o Iraque do jugo de Saddam Hussein ou de capturar Osama Bin Laden e desmantelar a Al-Qaeda, escondiam-se os mais execráveis interesses econômicos. Não é necessário discorrer aqui sobre o interesse norte-americano nas fontes de petróleo iraquianas, da mesma forma que são desnecessárias elucubrações para concluir que a invasão da Líbia e a deposição de Gadaffi é uma campanha pela apropriação do ouro negro líbio. É mais que notório, também, que a invasão do Iraque tem sido um grande negócio para empresas norte-americanas do ramo da logística de guerra.

O fato é que desde que o presidente Dwight Eisenhower denunciou a existência de um complexo industrial-militar a ditar os rumos político-econômicos dos Estados Unidos, as guerras e intervenções são uma constante na história norte-americana. Infelizmente, a economia estadunidense está umbilicalmente ligada a tal complexo industrial e militar. O saldo de tais intervenções e invasões é uma macabra contabilidade de mortos, mutilados e desabrigados. O número de mortos no Afeganistão já ultrapassa a cifra de 38 mil. Artigo recente de Marco Aurélio Weissheimer aponta que para “vingar” as 2.900 vítimas dos ataques ao World Trade Center, os EUA já teriam feito mais de 900.000 vítimas nas guerras do Afeganistão e Iraque.

Não são recentes as intervenções imperialistas dos EUA, assim sendo, nesta data não poderia ser esquecido outro 11 de setembro, o de 1973, quando um violento golpe de Estado patrocinado por Washington sepultou a "via pacífica" para o socialismo no Chile. Naquela data, a democracia chilena morria juntamente com seu presidente Salvador Allende, acuado dentro do Palácio de La Moneda pelas tropas golpistas lideradas pelo general Augusto Pinochet.

Em seu livro As Veias Abertas da América Latina o jornalista Eduardo Galeano diz que do subsolo de nosso continente é que brotam os golpes de Estado. No caso do Chile, o mote era a nacionalização das minas de cobre.

Desde o início de seu governo, Allende era persona non grata para os políticos norte-americanos, a ponto de o então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, dizer o seguinte: “Não temos porque aceitar que um país se faça marxista pela irresponsabilidade do seu povo". Era o sinal verde para que os Estados Unidos utilizassem todos os meios, lícitos ou não, para desestabilizar a economia e a política chilenas. As intervenções norte-americanas no Chile foram do apoio a assassinatos de políticos apoiadores do governo Allende, passando pelo fomento a greves desestabilizadoras, até o apoio militar direto aos golpistas, como ocorreu nas vésperas e durante o golpe de setembro de 1973.

Nos últimos 70 anos, os Estados Unidos se acostumaram a serem caçadores, fazendo vítimas em todo o globo terrestre. No dia 11 de setembro de 2001, no entanto, eles foram a caça.

As perguntas que ficam são as seguintes: até quando os EUA terão fôlego econômico para manter sua política imperialista mundo afora? Até quando os cidadãos estadunidenses terão paciência para ver bilhões de dólares sendo investidos em guerras no exterior, enquanto o país padece de males típicos do capitalismo periférico como desemprego e falência do sistema público de saúde?

Se a guerra é o terrorismo dos países ricos contra os pobres, o terrorismo é a guerra destes contra os países ricos. Esta máxima é bem ilustrada pela história recente dos Estados Unidos - uma história marcada por um expansionismo que no seu rastro fez surgir figuras como Saddam Hussein, Bin Laden, Pinochet e tantos outros de triste memória.

Enquanto prosseguirem a escalada imperialista e o espírito expansionista, chauvinista e vingativo norte-americano, o mundo, com certeza, não será um lugar tranqüilo para se viver.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Leonardo Boff dá seu apoio aos professores de MG

Reproduzo abaixo um vídeo no qual Leonardo Boff presta seu apoio aos professores da rede pública estadual de Minas Gerais, em greve há mais de 90 dias pelo pagamento do piso nacional salarial.



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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Se não nos deixarem sonhar, não dormirão!


Por Cléber Sérgio de Seixas


Se duas palavras podem resumir o Grito dos Excluídos em Ribeirão das Neves esse ano, essas palavra são repressão e revolta. Este indignado blogueiro - que há alguns meses se converteu num aprendiz de ativista social - acompanhou hoje a movimentação dos manifestantes do Grito desde o início e pôde constatar como nesse país nossa democracia ainda engatinha.

Concentrados em frente à Câmara Municipal de Ribeirão das Neves, manifestantes capitaneados pela Rede Nós Amamos Neves - entidade que congrega vários movimentos populares da cidade - gritavam palavras de ordem, entoavam cânticos e cantavam hinos que evocavam justiça social e igualdade. Portavam faixas e cartazes cujas mensagens falavam da revolta contra a corrupção e contra a implantação de mais presídios no município, que externalizavam a insatisfação popular com a precariedade do transporte público na cidade, que cobravam a valorização dos profissionais da educação, que pediam menos violência, que cobravam obras públicas etc.

Logo na concentração, os manifestantes foram surpreendidos com a informação de que o alto comando da PM não permitiria a passeata acompanhada do carro de som, mesmo após a última ala do desfile, conforme fora acordado a princípio. Depois de muita negociação com a PM, foi decidido que os manifestantes só poderiam sair depois que fosse feito o anúncio oficial do fim do desfile. Ficou claro para este blogueiro diferenciado que a intenção era evitar constrangimentos às autoridades que ocupavam o palanque oficial do 7 de setembro, distante dalí cerca de 300 metros.

Acatada a ordem, os manifestantes aguardavam sua vez de “desfilar”, enquanto aumentava o contingente de policiais nas imediações, como se crianças, adolescentes, idosos e gente humilde do povo pudessem oferecer algum perigo à população e à Polícia Militar.

Depois de mais uma rodada de discussões e negociações, ficou decidido que seguiríamos nossa jornada. Súbito, somos abalados com a notícia de quem um dos manifestantes fora preso por portar um cartaz com palavras de ordem próximo ao palanque das autoridades.

Recobrado o ânimo após o abalo com a notícia supramencionada, o já pequeno grupo segue sua caminhada até a praça central de Ribeirão das Neves. Pelo caminho ficou o carro de som. Munidos de um megafone, os manifestantes seguiam entoando palavras de ordem e revolta com a situação atual de Ribeirão das Neves – um cenário dantesco que vai de escândalos envolvendo o executivo municipal, até a construção de mais um complexo prisional na cidade, promovida a contragosto da população nevense pelo governo do Estado.

Como disse certa vez o poeta itabirano, eis que no meio do caminho tinha uma pedra: o equipamento de som utilizado no desfile de 7 de setembro permanecia ligado no último volume, apesar de as autoridades já terem se retirado. Mais negociação. Dessa vez os manifestantes do Grito exigiam que o equipamento fosse desligado, pois na guerra entre Davi e Golias, o megafone era uma de nossas poucas armas.

Desligado o som, se tornaram mais audíveis os clamores dos passantes. Os poucos populares que ainda ocupavam a região central de Ribeirão das Neves nada entendiam. Muitos não sabiam que grupo era aquele e o que reivindicava. Sob olhares admirados, os indignados manifestantes do Grito seguiram sua jornada, contornando a praça central e ocupando-a.

Essa concentração final contou com o discurso de várias lideranças comunitárias, sindicais e pastorais. As frases das faixas e cartazes foram lidas e estes foram depositados sobre o chão da praça. Nesse momento lembrei-me do poeta Castro Alves: “a praça é do povo como o céu é do condor...”.

Esse último ato foi coroado pelo canto do hino nacional, pela mais ecumênica das orações – o Pai Nosso –, e pelo grito propriamente dito. Os excluídos, a plenos pulmões, externalizaram toda a sua dor e revolta com a calamitosa situação de Ribeirão das Neves.

Aos poucos que restaram, um convite foi feito para que se dirigissem à delegacia onde estava o companheiro que fora brutalmente abordado e detido ao portar uma faixa cujos dizeres eram os seguintes: “Grito dos Excluídos e das Excluídas – Pela Vida, por direitos ! Por isso Gritamos! Fora Cadeias, Chega de Corrupção! Xô Transimão! Rede Amamos Neves”.


Este blogueiro que vos escreve partiu junto com os bravos manifestantes até a 10º seccional de Ribeirão das Neves. Lá ficamos concentrados até que, depois de muita tensão, nosso camarada de lutas foi liberado.

A grande imprensa fora chamada, mas só chegou depois do último ato, depois que o pano já tinha abaixado, como é característico da mesma.

Uma lição, para mim, ficou patente. Esse país que há 26 anos livrou-se do jugo opressor de uma ditadura militar, e há 189 anos deixou de ser colônia, tem muito pouco a comemorar no dia 7 de setembro. A independência que muitos propalam nesse dia ainda não rimou com democracia.

Como falar em democracia se ainda somos detidos por delitos de opinião? Onde está a democracia quando esta se resume ao voto naqueles que, uma vez eleitos, vão nos massacrar no executivo e no legislativo? Onde a igualdade de todos, se os mais poderosos, detentores do poderio econômico e, por extensão, do político, fazem da res publica uma res privada? Como permanecermos calados e estáticos se uma empresa de ônibus detém o monopólio do transporte coletivo na cidade há mais de 20 anos, prestando um desserviço à população com seus veículos imundos, que “quebram” todos os dias e ficam pelo caminho, apesar do alto preço das passagens? Como não gritarmos por uma Ribeirão das Neves melhor, se somos a cidade que concentra a maior população carcerária do Estado de Minas Gerais e o governo do Estado nos empurra um novo complexo prisional goela abaixo? Como não nos revoltarmos se, apesar de sermos quase 400 mil habitantes, não temos serviços públicos de qualidade, suficientes para todos? Se nos calarmos, as pedras gritarão!

Se hoje perdemos a batalha, o brio não abandonou as nossas faces. Dormiremos hoje o sono dos justos, tranqüilos porque nossos rostos se coram de revolta, não de vergonha. Não temos uma consciência atormentada pela lembrança de atos de corrupção ou injustiça. Essa noite, revolverão os lençóis aqueles que protagonizam o arbítrio, que oprimem o povo sofrido e desarmado com as armas da injustiça e do opróbrio. Amanhã, no entanto, vai ser outro dia! Não descansa, porém, a nossa revolta, e não nos deixa fechar os olhos o escândalo com as injustiças cometidas contra o povo pobre e sofrido de Ribeirão das Neves. Se não nos deixarem sonhar com uma cidade melhor, mais justa para a maioria que ela hospeda e não apenas para uma meia dúzia de famílias que se julga “dona do pedaço”, não os deixaremos dormir!


Nota: abaixo reproduzo um vídeo do exato momento em que o companheiro citado neste texto é violentamente imobilizado por policiais militares.


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Sempre Um Papo - 25 anos


Por Cléber Sérgio de Seixas

Este inquieto blogueiro não poderia perder o evento que marcou os 25 anos do projeto Sempre Um Papo, sobretudo pelo quilate dos convidados. Abaixo reproduzo dois vídeos gravados na ocasião.

1ª Parte



2ª Parte


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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Agenda - Conferência Municipal do PCdoB - Ribeirão das Neves


VOCÊ É NOSSO CONVIDADO ESPECIAL!
Conferência Municipal do PCdoB
Ribeirão das Neves/MG


Data: 25 de Setembro de 2011 (Domingo), início às 09 h.
Local: Plenário da Câmara Municipal de Ribeirão das Neves - Avenida dos Nogueiras, 226 - Centro.
Mais informações pelos telefones: 96535131, 97528352, 99566703.

“Mais vida Militante para um partido do tamanho de nossas ideias”
Comitê Municipal do PCdoB - Ribeirão das Neves-MG
pcdobrneves@hotmail.com
www.pcdob.org.br

Acesse www.vermelho.org.br - o portal do PCdoB.
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domingo, 4 de setembro de 2011

O Grito


Por Cléber Sérgio de Seixas

Quando o imperador Dom Pedro I emitiu o famigerado Grito do Ipiranga, o Brasil teoricamente deixava de ser uma colônia portuguesa. Cento e oitenta e nove anos depois, em muitos aspectos, ainda encontramos traços coloniais na realidade social brasileira, apesar de recentemente ter ocorrido uma considerável ascensão sócio-econômica de parcela significativa da população.

O colonialismo, ou neocolonialismo para ser mais exato, se revela, por exemplo, na dependência de nossa economia do capital transnacional, na influência cada vez maior das culturas estrangeiras (filmes, músicas, hábitos, vestimentas) sobre a nossa, e na subordinação de nossa política e economia aos ditames das grandes potências.

Esse novo colonialismo produz efeitos nefastos sobre a vida dos brasileiros, sobretudo os mais vulneráveis socialmente, ou seja, os mais pobres. Assim sendo, em nossa experiência, o neocolonialismo tem nome de desemprego, de violência, de analfabetismo, de degradação ambiental, de precarização das condições de trabalho, de falta de moradia, de apatia política, etc.

Com o intuito de contribuir para a superação desse status quo, todos os anos, desde 1995, é realizado o Grito dos Excluídos. Trata-se de um conjunto de manifestações protagonizado por movimentos populares de várias vertentes, realizado no dia 7 de setembro com o intuito de chamar a atenção da sociedade para as mazelas que caracterizam a realidade brasileira.

Em Ribeirão das Neves o Grito dos Excluídos é realizado há cerca de quatro anos. Neste ano o lema nacional do Grito será: “Vida em Primeiro Lugar! Pela vida grita a Terra… Por direitos, todos nós!”. A versão nevense do Grito terá o seguinte lema: “Pela vida, por direitos. Por isso gritamos: ‘Fora cadeia, chega de corrupção, xô Transimão’ ”.

Nunca como agora a cidade de Ribeirão das Neves presenciou tantas manifestações de cidadania: movimentos contra a implantação de mais presídios na cidade, contra a precariedade dos transportes coletivos, contra a corrupção, em prol de melhores salários e condições de trabalho para os profissionais da saúde e educação, em prol da cultura nevense, etc.

O Grito deste ano em Ribeirão das Neves será mais um capítulo do que chamo de “primavera dos povos nevense”, oportunidade para que soltemos nosso grito de revolta com o que tem sido feito com nossa cidade por aqueles que têm pouco apreço pela mesma.

No dia 7 de setembro, a partir das 08hs, em frente à Câmara Municipal, o Grito começará a ecoar pelas ruas de Neves. Todos os cidadãos que amam Ribeirão das Neves estão convidados a participar. Vamos soltar a nossa voz e exigir a moralização na política local, a transparência na administração pública, o impedimento da construção de mais presídios na cidade, a melhoria na qualidade dos transportes coletivos, melhorias na educação e na saúde.

Participe e solte o seu grito!
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sábado, 3 de setembro de 2011

Agenda - 25 anos do Sempre Um Papo

Para saber mais sobre o evento, clique na figura acima


Por Cléber Sérgio de Seixas


Comemorando seus 25 anos, a Associação Cultural Sempre Um Papo promoverá nesta segunda-feira, dia 05/09, às 19h30, no Grande Teatro do Palácio das Artes, um megaevento que contará com escritores renomados que marcaram presença nas duas décadas e meia do projeto.

No palco, mediados pelo jornalista Zeca Camargo, estarão Frei Betto, Leonardo Boff, Fernando Morais, Ruy Castro, Heloísa Seixas, Zuenir Ventura e Luis Fernando Veríssimo.

No evento os seguintes escritores estarão lançando seus livros:
- Fernando Morais: “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” (Companhia das Letras);
- Frei Betto: “Minas do Ouro” (Rocco);
- Leonardo Boff: “Cuidar da Terra, Proteger a Vida” (Record);
- Ruy Castro e Heloisa Seixas: “Terramarear – Peripécias de um Turista Cultural” (Companhia das Letras);

Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo e Zeca Camargo estarão autografando seus diversos livros.

Se você está em Belo Horizonte ou região, não perca!
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A mentira de Anastasia

Professores da rede estadual ocupam a Praça da Assembléia em MG


Por Jeferson Malaguti Soares *


Os professores mineiros estão em greve há quase três meses. Para combater a greve, logo no seu início, o governador Antônio Anastasia declarou que Minas já pagava aos professores da rede estadual um valor acima do piso nacional.

Em 06/04 deste ano o Supremo Tribunal Federal referendou o direito dos professores de receberem o piso nacional da categoria, estipulado em R$1.187,00 por mês para uma carga de 40 horas semanais de trabalho. Alguns Estados da federação recorreram então ao STF questionando a constitucionalidade da lei que estipulou o piso (Lei 11.738/2008). Na semana passada, 24/08, o Supremo publicou um acórdão, ratificando a constitucionalidade da lei, legitimando o direito dos professores ao piso. Imediatamente o governador de Minas declarou que não tem condições financeiras para pagar o piso.

Ora, no início da greve disse que já pagava acima do piso e agora vem com a balela de que o Estado não pode arcar com a despesa. Quando mentiu o governador? No inicio da greve ou agora?

Aliás, não é novidade para os mineiros que foram mendazes os governos Aécio Neves e o é o atual. Mentem sobre o choque de gestão, sobre a dívida monstruosa do Estado (R$65 bilhões, o dobro da arrecadação anual), sobre a saúde pública, a segurança, os transportes, a educação e tudo o mais que seja de exclusiva responsabilidade do governo.

Minas não tem projetos em beneficio da sociedade mineira. Minas só tem um projeto: o projeto Aécio Neves. Mas nem tudo está perdido, como nos ensina Gramsci em seus Escritos Políticos: “... o individualismo burguês produz necessariamente, no proletariado, a tendência ao coletivismo. Ao indivíduo-capitalista se contrapõe o indivíduo associação; ao comerciante, a cooperativa."

Aí está o Sind-UTE, coletivo da classe educadora, lutando galhardamente contra o projeto individualista dos tucanos em Minas. OS TRABALHADORES UNIDOS, JAMAIS SERÃO VENCIDOS!


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG.
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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A repercussão do corte dos juros é mais uma prova de que o negócio deles não é jornalismo

Por Renato Rovai em seu blog

A repercussão na mídia ao corte do juro básico pelo Copom de 12,50% para 12% é algo que não merece ser levado em conta do ponto de vista jornalístico nem econômico, mas psicanalítico ou talvez policial.

Boa parte dos jornais de hoje (em especial o Estado de S. Paulo) trata do assunto como se o país estivesse correndo sérios riscos em função de uma medida que sempre foi tratada como necessária para que a indústria nacional pudesse garantir algum nível de competitividade internacional.

De repente, não mais do que repente, o problema do Brasil deixou de ser o juro alto e o grande risco se tornou o fato o de o Banco Central estar “se politizando”. Ou seja, ter perdido o que se convencionou chamar midiaticamente de independência.

O Banco Central, porém, não é independente no Brasil. Mesmo com toda a força feita pelo mercado e num dado momento pelo ex-ministro Palocci, isso não se consumou. O que o Banco Central tem é autonomia nas suas decisões. E ao que parece passou a ter mais autonomia na gestão Trombini do que na de Meirelles.

Parece o samba do branquinho-doido, mas não é.

O mais grave que pode vir a acontecer com o país não é o BC ter algum nível de relação com os interesses do governo e do Estado brasileiro. Mas sim o de ele vir a ter relação promíscua com o mercado. Ou seja, ser dependente dos chamados “players do mercado”.

E é o fato de ele se mostrar mais independente desse segmento que levou a essa grita dos urubólogos econômicos desde ontem.

Numa matéria assinada por Toni Schiarretta, na Folha de hoje, Marcio Cardoso, diretor da corretora Título, traduz qual é o “problema” do corte de 0,5% de ontem. Segundo ele, “os que mais perderam ontem foram os bancos e os fundos agressivos, que fazem o papel de ‘especulador’ ao oferecer hedge [proteção] às empresas, com base nos estudos de seus economistas.” Ou seja, aqueles economistas que sempre souberam tudo o que o BC iria fazer e que alertavam seus clientes para que eles pudessem ganhar sempre às custas dos juros altos que a sociedade brasileira paga.

Um outro trecho da matéria é ainda mais interessante: “Só a BM&FBovespa, praça que junta quem quer se proteger desse risco com juros com quem “especula” com a variação de cenários e de taxas, viu ontem R$ 2,11 bilhões trocarem de mãos.”

Ou seja, o BC surpreendeu o mercado ao cortar os juros. E tem gente que acha isso um absurdo.

Por isso, a partir de agora quando você vier a ouvir analistas econômicos da mídia-mercado criticando os altos juros do Brasil, não dê bola. Eles não estão falando sério. O negócio deles não é jornalismo. O negócio deles é outro.
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