quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Seminário legislativo - Pobreza e Desigualdade

Vão até sexta-feira, dia 02 de setembro, as inscrições, pela internet, para o encontro regional do Seminário Legislativo Pobreza e Desigualdade, que ocorrerá no dia 05 de setembro em Ribeirão das Neves. Trata-se do primeiro de 11 Encontros Regionais que acontecerão até o dia 7 de outubro. O intuito do seminário é buscar soluções para combater a pobreza e enfrentar as desigualdades sociais.

Para maiores detalhes, clique aqui. Para se inscrever, clique neste link.
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Para onde vão as multidões?

Multidão lota a Praça Tahrir (Cairo/Egito)


Por Gilberto Maringoni
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O ano de 2011 pode ficar marcado como aquele em que as multidões voltaram às ruas de forma vigorosa em diversas partes do mundo. O ano começou com o levante na Tunísia, que derrubou o presidente Ben Ali, passou pelas maciças concentrações na praça Tahrir, que culminaram com a queda de Hosni Mubarak e espalharam-se pela Argélia, Iêmen, Bahrein, Kwait e alcançaram Israel. A Líbia não entra na conta, pois o aspecto dominante na queda de Kadafi não foram inquietações internas, mas a invasão da OTAN. Milhões também se mobilizaram na Grécia, Espanha, Islândia, Portugal e Inglaterra. No Chile, após mais de dois meses de enormes protestos, os trabalhadores se uniram aos estudantes e deflagraram uma inédita greve geral, com a participação de diversas categorias profissionais.

Desde 1968 o mundo não assistia uma onda de levantes e marchas populares de tamanha envergadura. Ao mesmo tempo, apesar da proximidade no tempo, é difícil falar em “onda global” de protestos. Avaliar que imensos contingentes decidiram “votar com os pés”, numa expressão de Lênin, em protesto contra a “globalização neoliberal” é uma generalização de pouca valia. Em última instância tudo pode ser debitado no grande cesto da crise internacional, da pauperização acelerada da população e da submissão dos governos ao chamado “mercado”.

No entanto, mais do que nunca, olhar para os detalhes é fundamental. Até porque os países atingidos são muito distintos entre si.

Periferia e centro
As reações populares atingiram a periferia e o centro do sistema. Há diferenças mesmo entre os países do Oriente Médio. O Egito (84 milhões de habitantes, PIB de US$ 579 bilhões, PIB per capita de US$ 7,2 mil e 101º. no IDH-ONU) e a Tunísia (10,5 milhões de habitantes, PIB de US$ 53,2 bilhões, PIB per capita de US$ 5 mil e 81º.no IDH-ONU) são países pobres, com alta concentração de renda e socialmente instáveis. A Espanha (47 milhões de habitantes, PIB de US$ 1,48 trilhões, PIB per capita US$ 32 mil, 20º. no IDH ONU) e a Inglaterra (51 milhões de habitantes, PIB de US$ 2,27 trilhões, PIB per capita US$ 39,5 mil e 28º no IDH ONU) representam o chamado “mundo rico”. Israel (7,5 milhões de habitantes, PIB US$ 210 bilhões, PIB per capita de US$ 28 mil e 15º no IDH ONU) e Grécia (12 milhões de habitantes, PIB de US$ 310 bilhões, PIB per capita de US$ 27 mil e 22º no IDH ONU) apresentam formalmente indicadores próximos aos da Europa Ocidental. Todos os dados têm por fonte o FMI (http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2011/01/weodata/download.aspx) e a ONU (http://hdr.undp.org/en/media/HDR_2010_PT_Tables_reprint.pdf).

Na Tunísia e no Egito, o empobrecimento das maiorias, com altíssimas taxas de desemprego, foi rapidamente associado às antigas ditaduras locais. Na Grécia, o alvo visível foi o Parlamento. Na Espanha, aconteceu o fenômeno mais preocupante: após gigantescas manifestações que se arrastaram por várias semanas nas grandes cidades, a direita venceu as eleições municipais de 22 de maio. O Partido Popular obteve 37,58% dos votos contra 27,81% dos votos do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de José Luiz Zapatero. 33,7% dos eleitores não foram votar, o que equivale a cerca de 11 milhões de pessoas. Madri, entre outras, agora está nas mãos de conservadores que não escondem suas simpatias pela ditadura franquista (1938-75). Vários ativistas fizeram campanha pelo direito de não votar, como forma de protesto.

No caso inglês, os protestos aconteceram em regiões pobres da capital e de grandes cidades, com forte concentração de imigrantes. Ali o quadro se configura como uma grande catarse social diante de uma situação de precarização prolongada.

Forças organizadas
Nas ditaduras do Oriente Médio, os longos anos de repressão impediram o surgimento de forças populares organizadas de grande envergadura.

Expressão disso é que a formidável ebulição da praça Tahrir não apresentava lideranças claras. Um dos que buscou, sem sucesso, ficar a cavaleiro da situação foi o diplomata Mohamed El Baradei, de regresso ao país depois de três décadas no exterior. Como o Facebook foi um dos meios de comunicação dos rebeldes, chamaram até o representante local da rede social para falar à multidão. Entre outras organizações, a Irmandade Muçulmana foi acusada de estar por trás de tudo. Nenhum dos três atores parecia representar uma síntese orgânica da rebelião. Mesmo assim, multidões voltaram à praça nas últimas semanas.

O caso egípcio e o espanhol foram saudados por alguns como exemplo de mobilização horizontal, sem burocracias partidárias ou sindicais a tirar proveito da situação. O que parece ser uma vantagem tem se afigurado como problema. O viés contra a política institucional, no caso espanhol é claro. O desgaste dos partidos políticos – imersos em financiamentos milionários de campanha que atrelam governos cada vez mais a interesses privados – afasta o debate de alternativas reais às disputas sociais.

Socialismo conservador
O que seria um hipotético partido de esquerda, o PSOE, aplica desde os anos 1980 as medidas ultraliberais na Espanha com maior afinco que a direita tradicional. Daí o desalento e o afastamento da juventude em relação à política institucional. Várias das demandas clamam por uma democracia direta, acima de partidos e organizações tradicionais. Nunca parece ter sido tão grande a distância entre as ruas e o poder político, formalmente democrático.

Apesar do viés preocupante, não há dúvidas que as mobilizações têm representado enorme alento em um continente tomado por governos de direita e socialmente regressivos.

Uma lógica política institucionalizada só é mudada em casos extremos de rupturas por forças que se sobreponham ao status quo. Apesar da palavra “revolução” ter sido usada à exaustão para classificar os eventos árabes e europeus, não parece haver nada lá que se aproxime de algo dessa magnitude.

Diferencial chileno
O caso chileno parece ter certa distinção em relação aos anteriores. Isso se dá não apenas pela impressionante envergadura das atividades, mas por seu grau de organização. Não se trata mais de jornadas estudantis, mas de uma onda de protestos que passou a envolver a maioria dos trabalhadores urbanos, com forte apoio da opinião pública. A expressão disso foi a greve geral de 24 e 25 de agosto.

Na cabeça das agitações estão a Federação de Estudantes do Chile (Fech) e entidades do funcionalismo público (dirigidas majoritariamente pelo Partido Comunista) e a Central Unitária dos Trabalhadores (hegemonizada pelo Partido Socialista). Vale notar que a CUT sofreu, nos últimos anos, um processo de divisões e defecções por conta de seu apoio aos governos da Concertação (aliança PS-Democracia Cristã), que dirigiu o país entre 1990 e 2010 e deixou intocadas as estruturas econômicas da ditadura pinochetista (1973-89). A adesão da Central às manifestações, demandando mudanças na legislação trabalhista da ditadura, é também uma forma de superar seus desgastes.

O que era inicialmente um protesto contra altas taxas das universidades, todas particulares, se transformou em demanda contra a privatização dos serviços públicos e contra a crescente desigualdade social. Com 17 milhões de habitantes, PIB de US$ 162 bilhões, PIB per capita de US$ 9,5 mil e 44º lugar no IDH da ONU, o Chile é um dos que apresenta menor investimento público em saúde (2,2%) na América do Sul. O desemprego atingiu o pico de 9,7% em 2009.

Nada indica que o Chile fará uma revolução a partir das manifestações. A marca distintiva é que elas parecem concentrar suas energias nas organizações existentes e consegue potencializar a força dos protestos.

Limites do espontaneísmo
É sempre bom lembrar a história brasileira dos anos 1980-90 para ver as possibilidades da organização política e social e os limites das manifestações espontâneas e com demandas vagas, saudadas por alguns como “democráticas” e “não burocráticas”.

O Brasil dos anos 1980 assistiu às maiores mobilizações de massa de sua história. O movimento estudantil, as greves operárias e as Diretas Já geraram saldos organizativos que se materializaram na construção de partidos de esquerda – PT incluído – entidades democráticas – UNE, CUT, MST entre outras – e mudanças sensíveis expressas na Constituição de 1988. Não se discute aqui o transformismo conservador vivido por parcela desses organismos nos anos recentes. Havia demandas claras por democracia e conquista de direitos sociais, em boa medida vitoriosas.

No início da década seguinte, multidões voltaram às ruas. Dessa vez, o alvo eram os desmandos do governo Collor. A voz das ruas falou mais alto e o presidente teve de renunciar em 2 de outubro de 1992. No dia seguinte, houve eleições municipais em todo o país. Em São Paulo, a população deu vitória ao candidato da direita, Paulo Maluf, que enfrentava Eduardo Suplicy, do PT, agremiação que estivera à frente dos protestos. Guardadas as proporções, Collor e Maluf eram expressões do mesmo projeto político.

Os resultados eleitorais ainda suscitam polêmicas. Mas no centro estava o fato de a campanha contra Collor foi realizada com base num moralismo anticorrupção que, embora indignasse a população, não deixou saldos políticos. Sobre o projeto ultraliberal do governo, quase nada foi dito.

No Oriente Médio governos foram derrubados e na Europa os indignados podem voltar a marchar. Tomara que a disputa entre no decisivo terreno da política.


* Gilberto Maringoni é jornalista, cartunista, doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Fonte: Carta Maior.
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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um dragão chamado China


Por Jeferson Malaguti Soares *

Um determinado produto que o Brasil fabrica um milhão de unidades, uma só fábrica chinesa produz quarenta milhões... A qualidade já é equivalente. E a velocidade de reação é impressionante. Os chineses colocam qualquer produto no mercado em questão de semanas, com preços que são uma fração dos praticados aqui.

Uma das fábricas está de mudança para o interior, pois os salários da região onde está instalada estão altos demais: 100 dólares. Um operário brasileiro equivalente ganha 300 dólares no mínimo que acrescidos de impostos e benefícios representam quase 600 dólares. Quando comparados com os 100 dólares dos chineses, que recebem praticamente zero de benefícios, estamos perante uma escravatura amarela e alimentando-a. Horas extraordinárias? Na China? Esqueça! O pessoal por lá é tão agradecido por ter um emprego que trabalha horas extras sabendo que não vão receber nada por isso.

Atrás dessa "postura" está a grande armadilha chinesa. Não se trata de uma estratégia comercial, mas sim de uma estratégia de "poder" para ganhar o mercado ocidental. Os chineses estão tirando proveito da atitude dos 'marqueteiros' ocidentais, que preferem terceirizar a produção ficando apenas com o que ela "agrega de valor": a marca. Dificilmente você adquire atualmente nas grandes redes comerciais dos Estados Unidos da América um produto "made in USA". É tudo "made in China" com rótulo estadunidense.

As empresas ganham rios de dinheiro comprando dos chineses por centavos e vendendo por centenas de dólares. Nós, mineiros, lembramos muito bem do Centro Ótico, que comprava óculos de grife dos chineses por R$1,00 a unidade e os revendia por até R$1.000,00. Apenas lhes interessa o lucro imediato e a qualquer preço. Mesmo ao custo do fechamento das suas fábricas e do brutal desemprego.

Enquanto os ocidentais terceirizam as táticas e ganham no curto prazo, a China assimila essas táticas, cria unidades produtivas de alta performance, para dominar no longo prazo. Enquanto as grandes potências mercadológicas ficam com as marcas, com o design e com suas grifes, os chineses estão ficando com a produção, assistindo, estimulando e contribuindo para o desmantelamento dos já poucos parques industriais ocidentais.

Em breve, por exemplo, já não haverá mais fábricas de tênis ou de calçados pelo mundo ocidental. Só haverá na China. Então, num futuro próximo veremos os produtos chineses aumentando os seus preços, produzindo um "choque da manufatura", como aconteceu com o choque petrolífero nos anos setenta. Aí já será tarde de mais. O mundo perceberá que reerguer as suas fábricas terá um custo proibitivo e irá render-se ao poderio chinês. Perceberá que alimentou um enorme dragão e acabou refém do mesmo. Dragão este que aumentará gradativamente seus preços, já que será ele quem ditará as novas leis de mercado, e terá o monopólio da produção. Sendo ela, e apenas ela, quem possuirá as fábricas, inventários e empregos, é quem vai regular os mercados, não os "preçonhentos".

Iremos, nós e os nossos filhos e netos, assistir a uma inversão das regras do jogo atual que terão nas economias ocidentais o impacto de uma bomba atômica... chinesa. Nessa altura em que o mundo ocidental acordar será muito tarde. Nesse dia, os executivos "preçonhentos" olharão tristemente para os esqueletos das suas antigas fábricas, para os técnicos aposentados jogando baralho na praça da esquina, e chorarão sobre as sucatas dos seus parques fabris desmontados.

Lembrarão, com muita saudade, do tempo em que ganharam dinheiro comprando "balatinho dos esclavos" chineses, vendendo caro suas "marcas-grifes" aos seus conterrâneos. Entristecidos, abrirão suas "marmitas" e almoçarão as suas marcas que já deixaram de ser moda e, por isso, deixaram de ser poderosas pois foram todas copiadas.

Reflitam e comecem a comprar já os produtos de fabricação nacional, fomentando o emprego em seu país, pela sobrevivência do seu amigo, do seu vizinho e até mesmo da sua própria e de seus descendentes. Foi incentivando o consumo interno que o governo lula transformou o tsunami catastrófico da crise de 2008 em simples marolinha.

Pense mais. E o poderio bélico-militar? Ficaremos reféns e a mercê, ou seja, estamos hoje criando a cobra que nos morderá no futuro! Essa cobra já começou a picar, haja vista a grave crise financeira nos EUA, Itália, Espanha, Grécia, Portugal etc.

Não tenho nada contra os chineses, e até sou simpático ao comunismo capitalista deles, mas pensemos primeiro em nosso país e construamos para ele um projeto socialista.


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG.
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Agenda - 1º Debate Caros Amigos sobre a esquerda no Brasil

Por Cléber Sérgio de Seixas

A revista Caros Amigos, uma das publicações mais representativas da esquerda nacional na atualidade, promoverá um debate para comemorar o lançamento da Edição Especial "Dilemas e Desafios da Esquerda Brasileira". O evento será no dia 30 de agosto, às 20h30 no Tuca Arena em São Paulo.

As inscrições são gratuitas mas as vagas são limitadas. Garanta a sua!

Para maiores detalhes, consulte o convite à esquerda e/ou clique sobre o mesmo para ir ao site da revista.



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lula em BH - avanços e perspectivas do Brasil

Por Cléber Sérgio de Seixas

No dia 18 de agosto último, Lula esteve em Belo Horizonte participando de um evento promovido pelo PT mineiro e realizado no ginásio poliesportivo do Colégio Pio XII. Na ocasião, falou sobre os avanços do Brasil sob seu governo e do atual contexto político e econômico nacional. Estiveram presentes autoridades como o Deputado Federal Miguel Corrêa Júnior, o ex-secretário geral da Presidência da República Luiz Dulci, a prefeita de Contagem Marília Campos, os deputados estaduais Durval Ângelo e Rogério Correia e o vice-prefeito de Belo Horizonte Roberto Carvalho.

Reproduzo abaixo dois vídeos com a íntegra da fala do ex-presidente no evento.

1ª Parte:



2ª Parte:



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domingo, 21 de agosto de 2011

Será Deus homofóbico?

Por Maria Berenice Dias *

Recente pesquisa do Ibope revelou que mais da metade dos entrevistados se manifestaram contrários ao direito de homossexuais constituírem uma família. Não foi revelada – e por certo não foi questionada – a orientação sexual dos pesquisados. Mas caberia. Aliás, a pesquisa, para ter maior legitimidade, deveria ser feita somente entre a população LGBT. Afinal, é a ela que diz respeito.

Qual a justificativa para perguntar a alguém qual o direito do outro? Quem poderia falar, com mais propriedade, sobre o desejo de casar, de ser professor, médico ou policial? Um dado consolador é que os jovens, as pessoas com melhor nível de escolaridade e maior poder aquisitivo se mostraram mais tolerantes. Pelo jeito esse é o caminho. Educação. Só ela permite melhor renda e mais condições sociais.

Talvez o resultado mais surpreendente seja o quesito que identifica a religião dos pesquisados. Os mais intransigentes são os que se dizem evangélicos ou protestantes, seguidos pelos católicos e os adeptos de outras crenças e credos. De qualquer modo, das religiões que existem, não deve haver nenhuma que não pregue o amor ao próximo. As mais próximas, por terem sido trazidas com a colonização, acreditam em um Deus que veio à Terra encarnado na pessoa do próprio filho. Jesus Cristo desde menino exercitou a tolerância. Em nenhuma de suas pregações incitou o ódio ao semelhante ou negou a alguém o direito de subir ao reino do céu. Basta lembrar que impediu que Madalena fosse apedrejada, multiplicou pães para dar de comer a quem tinha fome e morreu na cruz para salvar toda a humanidade.

Assim, cabe questionar qual a justificativa de evangélicos, protestantes e católicos se posicionarem de modo tão assustadoramente preconceituoso contra quem tem orientação sexual diversa da maioria, mas não significa alguma ameaça nem causa mal a ninguém.

Afinal, o que querem lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis são os direitos mais elementares: direito à cidadania, à inclusão social. Direito de terem sua integridade física resguardada. Para isso é indispensável a garantia de acesso ao trabalho, para exercerem a profissão que lhes garantir a subsistência. Também precisam que lhes seja assegurado o direito de constituírem família, terem filhos. Enfim, eles, como todas as pessoas, querem somente o direito de ser felizes.

Mas o que se vê nos meios de comunicação, em face de chocante número de concessões a segmentos religiosos é a instigação sistemática e reiterada ao preconceito e à discriminação. As caminhadas e marchas que proliferam, em vez de pregarem o amor ao Deus que professam, nada mais fazem do que incitar o ódio a um determinado segmento da população.

A tudo isso a sociedade se mantém indiferente. Como o legislador se omite, vem o Judiciário fazendo justiça e o Executivo criando alguns mecanismos protetivos. Ainda assim, não há justificativa para tamanha rejeição. Não se atina a origem de tanta perseguição. Ao certo não pode ser a suposta incapacidade de procriar. Esse óbice, aliás, nem mais existe, quer com o advento de modernas técnicas de reprodução assistida, quer pela disposição dos casais homoafetivos de adotarem crianças cujos pais não souberem amar a ponto de protegê-las. Deste modo, cabe perguntar: quem disse aos pregadores, padres e pastores que é pecado amar o seu igual? Quem lhes outorgou a missão de banir a diversidade sexual da face da Terra? Será que Deus é homofóbico?


* Maria Berenice Dias é advogada

Fonte: Jornal Estado de Minas – 17 de agosto de 2011
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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Trabalho escravo na cadeia produtiva

Por Cléber Sérgio de Seixas

Ao contrário do que muitos pensam, o trabalho escravo é ainda uma realidade em pleno século XXI. Os avanços no âmbito dos direitos humanos e do trabalho ainda não lograram êxito em inviabilizar essa prática hedionda, cujo aumento é diretamente proporcional à busca por lucros cada vez maiores por parte das grandes empresas, sobretudo nesses dias em que o capital transnacional, ao sabor dos ventos da globalização, corre o mundo à procura de mercados que ofereçam mão-de-obra mais barata.

O Brasil é um desses lugares onde abundam empresários inescrupulosos, cuja avidez por lucros leva-os a contratar trabalhadores sob condições subumanas.

Por trás do boom do setor da construção civil nacional, embutidas no preço baixo de peças de vestuário, escondidas no carvão do churrasco nosso de cada fim de semana, e em tantos outros produtos que consumimos ou utilizamos diariamente, podem estar horas e horas de trabalho escravo ou semi-escravo. Empresas renomadas e aparentemente ilibadas podem conter trabalho escravo em sua cadeia produtiva.

Ontem o programa A Liga (BAND) foi de grande utilidade pública ao abordar a questão do trabalho escravo no Brasil. Não sou muito fã do Rafinha Bastos por motivos alheios ao assunto deste post, mas tenho que dar o braço a torcer e reconhecer que ele acertou em cheio com o programa de ontem.

Um dos pontos altos do programa ficou por conta da revelação de que a grife Zara subcontrata oficinas de costura que alocam mão-de-obra em condições análogas às da escravidão. A participação de Leonardo Sakamoto, atualmente um dos maiores combatentes contra o trabalho escravo no país, também deu credibilidade à reportagem.

Abaixo reproduzo um dos trechos do programa.


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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

As revoltas sociais e o neoliberalismo moribundo

Por Cléber Sérgio de Seixas

Os distúrbios em Londres, as manifestações dos “indignados” na Espanha e os protestos de estudantes no Chile, se não são sinais do início do fim do sistema capitalista, ao menos podem indicar os estertores do neoliberalismo.

A Inglaterra começa a experimentar agora os efeitos da globalização, isto é, seu lado menos glamouroso, algo que nós brasileiros já experimentamos há quase três décadas. A violência protagonizada pelos amotinados ingleses - jovens, negros e pobres em sua maioria - é uma resposta à segregação e marginalização a que vem sendo submetidos. Não se trata simplesmente de ações de grupos de vândalos ou delinqüentes, como quer a grande mídia, e sim de um grito desesperado de indivíduos privados do direito ao trabalho, aos estudos, à assistência social e à moradia, cujo clamor é contra uma sociedade excludente.

Se outrora o maior rival do capitalismo era o socialismo, hoje, em função do malogro do socialismo real, o Welfare State, o “Estado Providência” ou o Estado do bem-estar social, como queira o leitor, converteu-se no maior entrave aos interesses dos poucos eleitos que colhem os frutos do novo liberalismo econômico. A ortodoxia neoliberal tem como objetivo liquidar os últimos resquícios do keynesianismo e reinventar o laissez-faire. Qualquer tipo de regulação na economia é qualificada como controle, burocracia, censura etc, enquanto a acumulação desregrada e a competição predatória são louvadas.

Se atualmente a Europa e os EUA fazem uma curva cada vez mais acentuada à direita, a América do Sul posiciona-se à centro-esquerda, não seguindo à risca a bula neoliberal ou não dando ouvidos a um de seus mais sagrados princípios: diminuir o tamanho do Estado e soltar as rédeas do mercado. Enquanto a “direitização” estadunidense e européia avança sobre os setores financeiro, econômico e político, atingindo em cheio os direitos sociais daqueles que mais precisam do auxílio estatal, governos do sul do continente americano apostam no nacional-desenvolvimentismo, com maior participação do Estado na condução da economia, como meio de promover mais justiça e inclusão social. É paradoxal constatar que, enquanto ao sul do Rio Bravo se vivencia um processo de mudanças sociais há décadas ansiosamente esperado, nos Estados Unidos e na Europa ocorre algo diametralmente oposto, ou seja, um franco processo de “latino-americanização” da questão social.

No entanto, as burguesias entreguistas sul-americanas andam saudosas dos tempos em que, pelo poderio político e econômico que detinham, faziam prevalecer seus interesses sobre os da imensa maioria. Ao ver a ascensão à classe média de milhares de brasileiros pobres, a burguesia tupiniquim, por exemplo, dia-a-dia trata de minar as forças de governos progressistas que desde 2003 ocupam o poder. Quando faltam força e propostas à direita nacional, a grande imprensa, que há anos se converteu num partido político, assume o papel da oposição.

Se uma guinada mais radical à direita for a opção de norte-americanos e europeus, o mundo deve se preparar para tempos quase tão difíceis quanto aqueles da primeira metade do século passado. Em tal contexto, dificilmente nós, sul-americanos, não sentiremos os efeitos do aprofundamento das políticas conservadoras européias e estadunidenses.

Nos EUA a inépcia de Obama pode conduzir o Tea Party ao poder. Eventos esparsos como o atentado à congressista Gabrielle Giffords em Tucson (Arizona) e o caso Anders Breivik fornecem indícios de que no futuro tal processo pode desembocar em soluções fascistas.

Se de um lado temos um neoliberalismo moribundo que busca ser infinito enquanto perdurar, de outro temos uma massa excluída que apela à insurreição para fazer valer seus direitos, enquanto se candidata a coveira dos sacerdotes do deus Mercado.

O ditado que diz que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco tem sido aplicado nesses tempos de neoliberalismo agonizante. Ao invés de se cobrar dos especuladores que inflaram a bolha que estourou em 2008 o preço da desgraça, joga-se sobre os ombros da tão sofrida classe trabalhadora o ônus da crise.

Diante de tão eloqüentes eventos, uma coisa é certa: os explorados estão tomando consciência da exploração a que vêm sendo submetidos há décadas no contexto do capitalismo neoliberal. Resta saber até quando tal primavera dos povos irá durar e se manterá seu caráter anárquico ou evoluirá para algo mais propositivo e organizado.
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A guerra é um latrocínio

Há 75 anos o Major Butler já alertava sobre a verdadeira natureza da guerra


Amy Goodman *


“Cada guerra que os norte-americanos travaram ou irão travar no futuro fora dos seus limites continentais foi ou será um latrocínio. Um mesquinho, cruel e asqueroso latrocínio.” Assim dizia em 1935 o Major Smedley Butler. A afirmação – “a guerra é um latrocínio” – que também corresponde ao título do seu breve livro sobre o negócio da guerra, ainda soa como verdadeira na actualidade. Recentemente, uma corajosa trabalhadora civil do exército ganhou uma batalha para fazer com que os que lucram com a guerra sejam responsabilizados pelos seus actos. O seu nome é Bunnatine, “Bunny” de apelido, Greenhouse de sobrenome. Quando o seu empregador, o Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos, concedeu, sem chamar licitação, um contrato de sete mil milhões de dólares à filial da Halliburton Kellogg, Brown and Root, mais conhecida como KBR, pouco antes dos Estados Unidos invadirem o Iraque, Bunny fez a denúncia. Fazia parte do seu trabalho: garantir que os procedimentos de licitação competitivos poupassem dinheiro ao governo dos Estados Unidos. Justamente por fazer seu trabalho, foi obrigada a abandonar o seu cargo, humilhada e assediada.

Esta semana, depois de protagonizar uma batalha judicial de mais de meia década, Bunny Greenhouse finalmente venceu. O Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos chegou a um acordo de 970 mil dólares com Greenhouse, que inclui a restituição completa de vencimentos suspensos, compensação por danos e prejuízos, além dos custos legais.

O seu erro foi contestar um contrato de sete mil milhões de dólares outorgado a KBR sem prévia licitação. A invasão do Iraque em 2003 estava prevista para algumas semanas depois e os assessores militares de Bush avaliaram que Saddam Hussein explodiria as reservas petrolíferos como aconteceu na ocasião da invasão norte-americana de 1991. O projecto chamou-se “Restabelecer o Petróleo Iraquiano” ou RIO, na sigla do nome original em inglês, e foi criado para extinguir o fogo nas reservas de petróleo. KBR pertencia naquele momento à Halliburton, cujo presidente até o ano 2000 havia sido ninguém menos que o então Vice-presidente Dick Cheney. KBR foi a única companhia convidada a fazer uma oferta.

Bunny Greenhouse disse aos seus superiores que o procedimento era ilegal. Ignoraram-na. Greenhouse disse que a decisão de outorgar o contrato à KBR veio do Gabinete do Secretário de Defesa, dirigido pelo bom amigo do Vice-presidente Cheney, Donald Rumsfeld.

Como disse Bunny Greenhouse a um comité do Congresso: “Posso afirmar sem equívocos que a corrupção vinculada aos contratos outorgados à KBR representa o mais descarado e desonesto uso indevido de contratos que já vi no decorrer da minha carreira profissional.”

As reservas petrolíferas não arderam em chamas. No entanto, a KBR ganhou a autorização de readaptar o seu contrato não licitado de sete mil milhões de dólares a fim de fornecer combustível e apoio logístico das forças de ocupação. O acerto do negócio (de Estado, via terceirização) foi categorizado como um “contrato de custos reembolsáveis”, o que significa que a KBR não estava em condições de prover os serviços a um preço fixo e estabelecido. Em seu lugar, seriam cobrados os custos mais uma percentagem fixa como lucro. Quanto mais a KBR incluísse custos, mais lucros obteria.

Como chefe do sector de compras, a assinatura de Greenhouse deveria figurar em todos os contratos de valores superiores a dez milhões de dólares. Pouco depois de denunciar o atroz contrato RIO, Greenhouse foi rebaixada de função, foi-lhe retirado o acesso a informação classificada de ultra-secreta e começou a receber as qualificações de desempenho menores. Antes de fazer a denúncia, sempre recebera as qualificações mais altas. Finalmente, renunciou ao seu posto ao deparar-se com um ambiente de trabalho insuportavelmente hostil.

Depois de anos de litígio, o seu advogado, Michael Kohn, presidente do Centro Nacional de Denunciantes (National Whistleblower Center), conseguiu que o caso chegasse a um acordo. Kohn declarou: “Bunny Greenhouse arriscou o seu emprego e a sua carreira quando bateu de frente com o enorme desperdício de dólares dos contribuintes federais e as práticas de contratação ilícitas que aconteciam no Corpo de Engenheiros do Exército. Teve a coragem de se pôr de pé e desafiar poderosos interesses particulares. Evidenciou um ambiente de contratações corrupto nas quais as práticas informais e entre amigos são a norma em que se baseia a aprovação de contratos. A sua coragem levou à realização de modificações legais que impedirão para sempre os grosseiros abusos de poder que ela teve coragem de expor.”

Da sua parte, o director-executivo do Centro Nacional de Denunciantes, Stephen Kohn (irmão de Michael Kohn) disse-me: “Os empregados federais que denunciam práticas ilegais passam por maus bocados. Por isso cada vez que o governo se vê obrigado a pagar danos e prejuízos em virtude de remunerações em dívida, compensação por custos legais, é uma grande vitória. Espero que isto constitua um ponto de inflexão. O caso foi muito aguerrido, embora não devesse ser necessário já que Bunny fez a coisa certa.”

Segundo o economista vencedor do Prémio Nobel Joseph Stiglitz, os custos das guerras no Iraque e Afeganistão por si só superaram os cinco biliões de dólares. Com custos assim, porque não se encontra a guerra no centro de debate sobre a dívida nacional?

O Major Smedley Butler, por duas vezes vencedor da Medalha de Honra do Congresso, tinha razão há 75 anos quando falou sobre a guerra: “Provavelmente, é o roubo mais velho, de longe, o que deixa mais lucros e, seguramente, o mais impiedoso. É o único cujos ganhos se contam em dólares e as perdas, em vidas. Que acontece em benefício de poucos a custos de muitos.”

Enquanto o Presidente Obama e o Congresso argumentam que a Saúde Pública e a Segurança Social são os dois factores que desestabilizam o orçamento, o povo deveria exigir-lhes que deixem de financiar a guerra.

*Amy Goodman é co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.

Fonte: Esquerda.net
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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Eleições

Por Jeferson Malaguti Soares *

As eleições do próximo ano não serão nada fáceis, principalmente para os partidos de esquerda. A mídia tem feito uma cobertura das mais hidrófobas dos "escândalos" nos transportes, da saída de Pallocci, do Ministro da Defesa, da pasta da Agricultura, na tentativa de manter viva a direita raivosa, neoliberal, travestida de "salvadora da pátria", de "mãe " da ética(sic) e da sobriedade, tal qual arvorado no periodo da ditadura.

Aliás, a midia nacional, se pudesse, reconduziria os militares ao poder. É patético ver a imprensa brasileira lutar por partidos e politicos que sequer têm um projeto para o país, têm apenas projetos pessoais. A direita, hoje representada pelo PSDB, PPS, DEM e parte do PMDB, continua rancorosa, autoritária e fundamentalista. Sua opção pelo neoliberalismo está na contramão da Historia recente, onde países como os EUA, Italia, Espanha, Grécia e Portugal amargam mais uma crise economico-financeira.

Nossa mídia, que está muito mais para Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor do que para Mino Carta ou Mauro Santayana, pratica um jornalismo inculto, editorializando noticias, emitindo opiniões irresponsáveis, torcendo para o "quanto pior, melhor". Como a direita, sem projetos, nossa imprensa adota o discurso do ódio e do preconceito. Sectária e burguesa, repudia os avanços sociais dos ultimos anos.

Aqui em Minas, Anastasia vai se valer do mesmo recurso usado por Aécio nas eleições de 2010. Promessa de obras, inclusive começando algumas e depois as suspendendo, tão logo passem as eleições. Fora, claro, o apoio irrestrito de grande parte da mídia mineira, mendaz, aética, partidária, dependente das verbas do governo, tendenciosa, provinciana, burguesa e preconceituosa.

Como dizia Einstein, segundo Kaplan: "Época triste a nossa, em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo".

PS.: Não se assuste se ficar provado que Nelson Jobim forçou sua saida do governo, a fim de ser candidato a prefeito de São Paulo ou de Porto Alegre, pelo PSDB. Quem viver verá.


* Jeferson Malaguti Soares é membro da Executiva do PCdoB em Ribeirão das Neves/MG.
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domingo, 7 de agosto de 2011

Anders Breivik e a escalada fascista


Por Cléber Sérgio de Seixas

Matéria da Agência Brasil informa que o terrorista norueguês responsável pela morte de 77 pessoas no dia 22 de julho obteve ajuda do exterior. Segundo a reportagem, o advogado do terrorista afirmou que seu cliente foi ajudado por pessoas de fora do país, das quais obteve os materiais para seus atentados. Ainda é cedo para afirmar que o extremista faz parte de alguma organização radical de direita, mas já é seguro dizer que ele não agiu sozinho.

Exemplos como o de Anders Breivik não são casos isolados. Em todo o mundo ocidental há milhares de indivíduos ligados a grupos fascistas que às vezes externalizam seu preconceito em forma de agressões e atentados. Os alvos preferenciais são, basicamente, os mesmos de 70 anos atrás: imigrantes, negros, mestiços, judeus e homossexuais.

Nos anos 30, muitos empresários alemães financiaram o nazismo para impedir o avanço do comunismo no país. A história da colaboração de empresários alemães com o genocídio de judeus, eslavos, ciganos, negros, homossexuais e outros é pouco explorada por historiadores, cineastas e escritores, mas hoje é notório que grupos como Bayer, Krupp e Siemens colaboraram com o regime nazista. Apesar de tal colaboração, muitas dessas empresas ainda hoje gozam de boa reputação junto ao mercado e opinião pública.

Menos explorada ainda é a participação de empresas não alemãs no Holocausto. A empresa IBM, por exemplo, auxiliou o III Reich fornecendo aos nazistas o know-how para organizar a logística da matança. Não fossem as máquinas perfuradoras de cartão da IBM, espécie de avós dos computadores modernos, dificilmente os fascistas comandados pelo Führer teriam conseguido, com tamanha precisão, localizar, catalogar, separar, alojar e por fim, exterminar, de forma sistemática, contingente tão grande de seres humanos. Esta história é contada de forma brilhante por Edwin Black no livro A IBM e o Holocausto.

O pecado da usura


Por Marisa Matias *

- "Temos de fazer sacrifícios. Vocês têm que receber menos e pagar mais."
- "Mas, então, porquê?"
- "Porquê? Porque não há dinheiro!"
- "E não há dinheiro porquê? Desapareceu, foi queimado? E pagar o quê, se não estamos a ter mais, se estamos cada vez pior?"
- "Não, não desapareceu nem foi queimado, mas não há dinheiro, pronto. Quer dizer, haver, há, mas é só para quem sabe. Se vocês estão pior foi porque gastaram o que não deviam. Agora há que pagar a quem empresta e depois conversamos sobre o resto."
(Silêncio)

Este poderia bem ser um resumo personificado do que tem sido a política nos últimos tempos. Diz-se que houve tempos em que a "economia sem dinheiro" funcionava de forma simples: havia um empréstimo, com ele fazia-se um investimento, daí resultava um retorno, pagava-se ao credor e sobrava uma margem. Mas esses eram também os tempos em que a usura era 'pecado' e os juros não subiam e desciam conforme lhes dava o vento. Tanto credores como devedores eram "pessoas de bem", como se usava dizer nesses tempos.

Os tempos mudaram. Os credores continuam a ser pessoas de bem, mas os devedores não. Já não têm 'crédito', são, quase por definição, incumpridores. Aliás, os tempos mudaram tanto que quanto pior estiverem os devedores, melhor é para os credores... Mais ganham. Os tempos mudaram tanto que o dinheiro emprestado já não é para investir mas para continuar a pagar. E paga-se cada vez mais porque os juros são cada vez mais altos e porque a usura deixou de ser pecado e é alimento para os mercados financeiros. Nada disto soaria a muito normal não fosse a nossa nova condição: os devedores querem continuar a ter 'crédito', querem continuar a ser honrados junto dos mercados. Não foram os países deficitários que foram financeiramente resgatados, mas a política e a democracia que foram raptadas. Quem manda em seu nome são os mercados.

Na 'era dos credores' quem governa fá-lo por submissão e quem manda não representa. Alguns países encontram-se à beira da insolvência, enquanto outros se reúnem em assembleias de novos credores que ditam, para eles e para os antigos, as regras do jogo. Os governos dos ditos insolventes correm atrás, comportam-se como paus-mandados, e aceitam que as decisões fundamentais para a vida das pessoas sejam tomadas fora das instituições que elas elegeram.

Visão parcial esta, sem dúvida. Mas é de um braço-de-ferro que estamos a falar e ele desenha-se entre os mercados e a política. Se fosse um jogo de futebol e não as nossas vidas podíamos ser adeptos dos mercados, que nos anos de crise costumam ser sempre campeões. Mas como é das nossas vidas que se trata, convirá resgatar rapidamente a política e a democracia. Sem elas, estamos tramados - essa é a verdadeira lição que estamos a aprender com os mercados.


* Marisa Matias é Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda e socióloga.

Fonte:
Esquerda.net
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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Consumismo ameaça infância com moda de vestuário adulto

Por Andrea Juste

Saias curtas, sapatos de salto alto, camisas sociais e calças jeans. Não é novidade que as peças tradicionais do guarda-roupas dos adultos também fazem parte da moda para crianças. Longe de considerarem o comportamento "bonitinho", muitos pais, porém, dizem-se preocupados com a sexualização infantil.

No Reino Unido, uma associação de pais quer banir produtos que caracterizam esse avanço inapropriado da idade. No Brasil, porém, resta aos pais apenas deixar de atender os pedidos que forem considerados indevidos.

A vendedora Joyce Penido, 33, conta que a filha Vitória, 4, pede saias e blusas curtinhas e até mesmo sutiã. "Ela não quer mais esses vestidos ‘românticos’. Se eu visto uma calça jeans justa, ela quer; se uso decote, ela quer. Mas ela não tem idade para isso", comenta.

Preocupada, a mãe acredita que é preciso atenção para esse comportamento. "É muito difícil ter uma menina, pois vemos muitas coisas ruins acontecendo, como pais abusando de filhos. Se estimular a sexualidade da criança, pode estimular interesses, olhares. Tenho essa preocupação de ela não estar ‘sexy’, pois é uma menina", diz Joyce, que "negocia" com a filha. "Ela pede um short, mas não sabe diferenciar um ‘sexy’. Então, tento dar um mais menininha e, não, justinho", fala.

Quem é alvo dos mesmos pedidos é a psicóloga Luciana Dantas, 38, mãe de Laura, 4. "Ela pede batom, esmalte, roupa com brilho, sandália de salto. Ela ‘forçou tanto a barra’ que lhe dei uma sandália com salto de 3 cm, mas só a deixo usar uma vez por semana", diz, ressaltando que roupas curtas ou que mostrem a barriga são proibidas. "Acho um apelo à sensualidade", comenta. Para controlar as vontades, Luciana e o marido apostam no diálogo com a criança. "Explico para ela que existem limites. Não fazemos barganha, e ela entende, apesar de ser bem insistente", afirma.

A indicação da psicóloga Maria Cristiana Seixas Villani, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), é que as crianças se vistam como adulto somente em um contexto de brincadeira. "É natural e saudável que crianças queiram imitar o comportamento dos adultos para desenvolver habilidades. Mas nossa sociedade consumista se aproveita disso e acaba as impedindo de viver como crianças, de se divertirem com coisas do mundo da fantasia", diz.

Maria Cristiana alerta ainda que a criança que tem hábito de se vestir como gente grande poderá pensar que é normal agir como tal. "São comportamentos com os quais a própria criança não vai ter repertório para lidar", afirma a especialista, ressaltando que os pais devem conversar para estabelecer limites.

Proibição

Reino Unido. Em junho, lojistas se comprometeram a retirar das vitrines roupas com apelo sexual. Em outubro, o governo britânico deve se reunir com pais e comerciantes para avaliar a iniciativa.

Indústria tem as meninas como o seu principal alvo

As crianças estão querendo pular etapas, alerta Karla Couto Mussi, gerente de uma loja de artigos infanto-juvenis de um shopping em Belo Horizonte. "As mães não querem deixar, mas as crianças pedem sandália com saltinho", diz. As meninas são de fato os maiores alvos dessa indústria, segundo a professora de comunicação social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Laura Guimarães Correa. "As meninas começam muito cedo a querer se vestir como objetos desejáveis, e isso é lamentável. O agravante é que os produtos são cor-de-rosa, tudo feminino e quase sempre se limitam à beleza e aos cuidados domésticos", opina.

Para ela, a lógica do consumo é pautada pelo lucro. "Se tem jeito de vender unhas postiças, mechas de cabelo e salto para meninas de 7 anos, a indústria faz isso". O salto, porém, deve ser usado com moderação para não prejudicar a formação do esqueleto da criança, alerta o ortopedista Jefferson Soares Leal, professor da Faculdade de Medicina UFMG. "Ela tem o esqueleto imaturo e está mais suscetível aos estímulos externos. Se usar de vez em quando, não tem problema", diz.


Fonte: Publicado no Jornal OTEMPO em 31/07/2011
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