domingo, 31 de outubro de 2010

Canto de vitória


Por Cléber Sérgio de Seixas

Solte o grito da garganta. Exorcize os fantasmas que do âmago das almas mais conservadoras, preconceituosas e fundamentalistas da nação ressurgiram em forma de calúnias, boatos, preconceitos e no antigo, porém redivivo, voto de cabresto.

Mande às favas os neofascistas, os pequeno-burgueses mal agradecidos, os machistas empedernidos, os pastores fundamentalistas e os jornalistas que se assentam sobre a verdade enquanto devoram seu prato de lentilhas. Aos padres arvorados em pseudo-moralismos, diga que Estado e Igreja há muitos verões já não dividem o mesmo leito.

Você, mulher brasileira, veja-se representada. Celebre a quebra do paradigma da fêmea frágil e submissa, condenada ao cuidado do lar e da prole. Esclareça que nem só de cama vive a mulher, e que no nicho do lar se confundem obrigações enquanto se fundem interesses e se afundam preconceitos. Evoque suas musas: Anitas, Pagus, Leilas, Dolores, Evitas...

Cante o canto das senzalas, dos mocambos e favelas. Diga a si e aos quatro cantos que sua voz foi ouvida, mas denuncie o olvido daqueles que muito ganharam e pouco agradeceram, que se fartaram e na sequência cuspiram no prato.

Parabéns ao povo brasileiro que soube, mais uma vez, eleger candidatos à sua imagem e semelhança, sobrepondo a esperança ao medo. Parabéns às mulheres brasileiras. Parabéns, presidente Dilma!

sábado, 30 de outubro de 2010

Da apatia política à cidadania

Por Cléber Sérgio de Seixas

No início desta semana, escutei um diálogo numa fila de um dos restaurantes populares de Belo Horizonte cujo teor girava em torno dos motivos para a escolha de um ou outro candidato no 2º turno das eleições presidenciais. Um senhor dizia que o governo Lula foi o pior dos últimos tempos, enquanto sua interlocutora argumentava que não votaria em Dilma porque seu vice era adorador do diabo. Resolvi intervir na conversa dizendo à moça que aquilo não passava de um dos vários boatos disseminados pela internet para prejudicar a candidatura de Dilma. Ela retrucou dizendo que um amigou seu ouviu aquilo de outro amigo que por sua vez ouviu de outro... Já quase vencidos em suas argumentações, resolveram atacar o PT dizendo ser o partido composto só de corruptos. A ironia ficou por conta do fato de que a idéia dos restaurantes populares em BH, projeto elogiado e premiado por entidades internacionais, foi obra e graça de um prefeito petista: Patrus Ananias. Assim, de certa forma, os que ali criticavam Lula e o PT, cuspiam no prato em que comiam.

Este episódio revela a falta de memória da grande maioria dos brasileiros. Não me refiro aqui à memória de um passado distante, e sim dos últimos oito anos do governo Lula. São inegáveis os avanços da nação sob a gestão Lula, tal como é estatisticamente comprovado que sob a batuta do petista o Brasil avançou muito mais em termos de inclusão social, crescimento econômico, distribuição de renda, respeito e projeção na geopolítica mundial, do que durante os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Dirão alguns que Lula só recebeu a herança bendita da gestão tucana, mas isso não se sustenta nem pelos fatos nem pelos dados. Uma das provas do fracasso da política econômica neoliberal tucana foi a falta de investimento da era FHC que redundou num “apagão” que obrigou milhões de brasileiros serem comedidos no consumo de energia elétrica.

Poucos são os que se lembram do desemprego durante os anos 90, os que se recordam da repressão aos movimentos sociais, com destaque para o massacre de Eldorado dos Carajás, e das privatizações que venderam grande parcela das nossas grandes empresas públicas ao capital estrangeiro a preços módicos – o exemplo da Vale do Rio Doce é emblemático. Também são poucos os que se recordam do quão difícil era para o cidadão de poucos recursos a aquisição de um automóvel, de como era quase impossível o ingresso de um jovem humilde numa faculdade, do como não passava de um sonho distante para o pobre viajar de avião. Poucos também se lembram dos episódios que macularam a gestão tucana (mensalão para aprovação da emenda da reeleição, escândalo do “socorro” aos bancos Marka e FonteCindam, o escândalo do Sivam, as propinas na privatização do sistema de telecomunicações, os vários acidentes ambientais protagonizados pela Petrobrás, o aumento de mais de 300% da dívida pública etc). Poucos, também, são aqueles que se lembram do procurador-geral da República Geraldo Brindeiro, o “engavetador-geral da união”, apelidado assim por arquivar inquéritos criminais contra deputados, ministros e contra o próprio Fernando Henrique Cardoso.

Como disse certa vez o saudoso Nelson Gonçalves, este país não tem memória. É possível que uma parcela considerável dos 28 milhões que foram elevados à classe média opte amanhã pelo voto no candidato José Serra, esquecida dos benefícios da era Lula. Tal atitude só pode ser explicada à luz da despolitização e da alienação promovida pelos grandes meios de comunicação.

Grande parte dos cidadãos tem aversão à política. Tal antipatia tem uma de suas raízes na forma como a grande mídia aborda as questões políticas e como apresenta os políticos. É dever dos meios de comunicação denunciar as mazelas políticas e lutar pela condenação daqueles que se apropriam do público para satisfazer a seus interesses privados. Além disso, é obrigação da grande mídia apresentar os corruptos e ímprobos de todos os segmentos do leque político, ao invés de eleger como Judas um partido e concentrar nele suas denúncias, como se apenas nele se abrigassem os de má índole. Contudo, tal abordagem não pode visar criar nos cidadãos um desinteresse pela política, o que só beneficia aos maus políticos. A máxima de Bertold Brecht ainda hoje é válida: “Quem não gosta de política é governado por quem gosta”.

Quero, então, declarar meu voto pela continuidade de um processo iniciado em 2003 e que pode ter seqüência no governo de Dilma Rousseff. Tal processo pode, de uma vez por todas, romper o legado dos 500 anos em que a Casa Grande sujeitou a Senzala, em que uma minoria composta pelas classes alta e média alta ditou os rumos políticos e econômicos do país em detrimento dos interesses de uma esmagadora maioria.

Assevero, porém, que a democracia não pode se resumir a voto e que, uma vez empossados os eleitos em sufrágio popular, os brasileiros devem cobrar deles as propostas por eles apresentadas em campanha e a probidade no exercício de seus mandatos, além de exercerem sua cidadania participando das questões políticas. O povo brasileiro precisa saltar da apatia política para a cidadania, da alienação para a participação.

Que amanhã a verdade suplante a mentira que ganha fôlego nos boatos disseminados boca a boca, e-mail a e-mail. Que o Brasil siga crescendo, distribuindo renda e promovendo justiça social. Torço para que amanhã, mais uma vez, a esperança vença o medo.

O mau uso da religiosidade popular

Por Leonardo Boff

A religiosidade popular está hoje em alta pois foi um dos eixos fundamentais da campanha eleitoral, especialmente em sua vertente fundamenalista. Foi induzida pela oposição e por uma ala conservadora de bispos de São Paulo, à revelia da CNBB, acolitada depois por pastores evangélicos. Sem projeto político alternativo, Serra descobriu que podia chegar ao povo, apelando para temas emocionais que afetam à sensível alma popular, como o aborto e a união civil de homosexuais, temas que exigem ampla discussão na sociedade, fora da corrida eleitoral. Política feita nesta base é sempre ruim porque faz esquecer o principal: o Brasil e seu povo, além de suscitar ódios e difamações que vão contra a natureza da própria religião e que não pertence à tradição brasileira.

Historicamente a religiosidade popular sofreu todo tipo de interpretação: como forma decadente do cristianismo oficial; os filhos da primeira ilustração (Voltaire e outros) a viam como reminiscência anacrônica de uma visão mágica do mundo; os filhos da segunda ilustração (Marx e companhia) a consideravam como falsa consciência, ópio endormecedor e grito ineficaz do oprimido; neodarwinistas como Dawkins a leem como um mal para a humanidade a ser extirpado.

Estas leituras são canhestras pois não fazem jutiça ao fenômeno religioso em si mesmo. O correto é tomar a religiosidade por aquilo que ela é: como vivência concreta da religião na sua expressão popular. Toda religião significa a roupagem sócio-cultural de uma fé, de um encontro com Deus. No interior da religião se articulam os grandes temas que movem as buscas humanas: que sentido tem a vida, a dor, a morte e o que podemos esperar depois desta cansada existência. Fala do destino das pessoas que depende dos comportamentos vividos neste mundo. Seu objetivo é evocar, alimentar e animar a chama sagrada do espírito que arde dentro das pessoas através do amor, da compaixão, do perdão e da escuta do grito do oprimido. E não deixa de fora a questão do sentido terminal do universo. Portanto, não é pouca coisa que está em jogo com a religião e a religiosidade. Ela existe em razão destas dimensões. Um uso que não respeite esta sua natureza, significa manipulação desrespeitosa e secularista, como ocorreu nas atuais eleições.

Não obstante tudo isso, importa tomar em conta as instituções religiosas que possuem poder e um peso social que desborda do campo religioso. Este peso pode ser instrumentalizado em diferentes direções: para evitar a discussão de temas fortes como a injustiça social e a necessidade de políticas públicas orientadas para quem mais precisa e outros temas relevantes.

É nesse campo que se verifica a disputa pela força do capital religioso. E ela ocorreu de forma feroz nestas eleições. Curiosamente o candidato da oposição, se transformou num pastor ao fazer publicar num jornal que eu vi:”Jesus é verdade e justiça”, com a assinatura de próprio punho, como se não nos bastassem os evangelistas para nos garantirem esta verdade. O sentido é insinuar que Jesus está do lado do candidato, enquanto o outro é satanizado e feito vítima de ódio e rejeição. Eis uma forma sutil de manipulação religiosa.

Um católico fervoroso me escreveu que queria “me retalhar em mil pedaços, queimá-los, jogá-los no fundo do poço e enviar a minha alma para os quintos dos infernos”. Tudo isso em nome daquele que mandou que amássemos até os inimigos. O povo brasileiro não pensa assim porque é tolerante e respeitador das diferenças e porque crê que no caminho para Deus podemos sempre somar e nos dar as mãos.

Só não desnatura a religiosidade aquela prática que potencia a capacidade de amor, que nos ajuda na auto-contenção da dimensão de sombras, nos desperta para os melhores caminhos que realizam a justiça para todos, garante os direitos dos pobres e nos torna não apenas mais religiosos, mas fundamentalmente mais humanos. A quem ajuda a difamação e a mentira? Deus as abomina.

Fonte: site da Revista Fórum

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Última bala de prata?

Por Cléber Sérgio de Seixas

Segundo a renomada filósofa Marilena Chauí (clique aqui para ler), há rumores de que no dia 29/10, durante um comício de Serra em São Paulo, alguns militantes do PSDB se farão de militantes petistas (com camisa do PT e toda a indumentária) e simularão um confronto no centro da cidade. Toda a grande imprensa golpista já estaria sabendo disso e se prepararia para gravar as imagens da suposta violência e publicá-las na forma matérias cujo intuito seria denegrir a imagem do PT e, por extensão, da candidatura de Dilma Rousseff. As imagens de suposta violência petista contra os tucanos seriam usadas à exaustão na sexta-feira, no sábado e no domingo de forma a solidificar a idéia que a mídia já está trabalhando no imaginário do eleitor sobre o PT desde o incidente da bolinha de papel, ou bolinhagate, como queiram. Não haveria tempo hábil nem para o PT nem para Dilma se explicarem porque a partir de sexta-feira não haverá programa eleitoral. Em tal situação, a grande mídia estaria sozinha tecendo suas conjeturas.



Pode parecer teoria conspiratória, mas, lembrem-se: já aconteceu outras vezes, como em 1989 no seqüestro do empresário Abílio Diniz, dono do grupo Pão de Açúcar, quando o fato de os sequestradores estarem utilizarando camisas do PT foi explorado pela grande mídia contra Lula. O esclarecimento só veio depois, quando Collor já havia vencido Lula nas eleições presidenciais.

Como temos visto, a mídia está descaradamente ao lado de Serra e já não faz nenhum esforço para esconder isso, como comprovam matérias recentes. Lembrem-se também que por detrás de polêmicas sobre coisas menores como aborto, corrupções aqui e acolá - comuns a todos os governos brasileiros, diga-se de passagem - estão interesses em coisas muito maiores, tais como a entrega do Pré-Sal a preço de banana para o capital estrangeiro e a dilapidação das políticas sociais do governo Lula em nome de um neoliberalismo já moribundo no mundo capitalista.

Não pensem que o impacto de tais imagens não teria o poder de decidir uma eleição presidencial. Em outros lances da História imagens se mostraram decisivas, como recentemente demonstrou a vitória de Sílvio Berlusconi na Itália após este ter sido agredido por um homem com distúrbios mentais.

Peço encarecidamente a todos quantos lerem este post que espalhem-no, pois eleição não se ganha com mentiras e armações. Agindo assim, acredito que estaremos desarticulando um suposto golpe partidário-midiático e contribuindo com a democracia.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Os cães de guarda do Serra em ação

à esquerda um veículo da Folha de São Paulo incendiado durante a ditadura


Por Emiliano José
*

Estamos a seis dias das eleições. Não sei por que, mas logo me veio à mente o título do notável livro de John Reed – Os dez dias que abalaram o mundo. É uma notável reportagem sobre a aurora da Revolução Russa. A lembrança talvez venha porque tenho absoluta convicção de que esses próximos dez dias são fundamentais para o nosso destino, para o destino do povo brasileiro. E mais do que isso, e é disso que quero tratar, serão dias de um estrebuchar midiático nunca antes visto neste País. Nós não temos o direito de nos enganar quanto a isso. Não podemos nos iludir.

Está posto que a mídia no Brasil é uma das mais partidarizadas do mundo. Não há no Brasil, ao menos se consideramos o seleto núcleo de famílias de onde sai as diretivas para o resto do País, não há aquilo que no jornalismo se denomina cobertura, que implica um olhar sobre o fato o mais verdadeiro possível. O núcleo é constituído pelas famílias que controlam os complexos midiáticos Globo, Folha, Estadão e Abril. Esse é o secretariado do Comitê central do partido político midiático brasileiro. E está posto que a ação deles nesses 10 dias será intensa. E que não haverá qualquer compromisso com os fatos.

O candidato do partido é Serra – ou será que há ainda quem duvide? E por esse candidato eles – os barões midiáticos – continuarão a fazer mais do mesmo – utilizar os fatos para construir as versões que melhor atenderem aos interesses de Serra. Lula, antes da divulgação do relatório da Polícia Federal sobre os supostos dossiês sobre os tucanos, disse que o problema eram sempre as versões, e acertou em cheio. Deturparam tudo. Os tucanos se engalfinham e o PT é culpado.

Os barões midiáticos atuarão nesses dias com uma intensidade maior do que tudo aquilo que nós já vimos, embora o que se viu até agora em nossa história não seja pouco. Estão considerando que esta é a eleição da vida deles. A expectativa de continuarem fora do controle direto do Estado os preocupa e por isso cotidianamente a cobertura e os colunistas se empenham todo o tempo em subsidiar a oposição, em municiar o candidato do partido.

Que não me alertem sobre o perigo de uma visão conspirativa.

A mídia brasileira, ao menos aquele núcleo hegemônico, conspira há muito tempo, e sempre a favor das classes dominantes, dos setores mais conservadores da sociedade brasileiros, dos eternos detentores de privilégios. Eles não guardam sequer o recato de cumprir os manuais de redação, aquelas coisas do beabá do jornalismo, que se aprende nos primeiros semestres das escolas de comunicação. No partido político midiático, que o deputado Fernando Ferro chamou de Partido da Imprensa Golpista, o famoso PIG, a pauta tem sempre direção, orientação política, e ao reportariado cabe cumpri-la, sem discussão. Aqui e ali, alguma distração.

Vou insistir: não temos o direito da ilusão. Não esperemos nenhuma atitude séria, honesta do partido político midiático. Aliás, se voltamos ao passado, e não precisa ser tão remoto, vamos ver sempre esse partido atuando em favor das causas mais conservadoras, sem temer pelas conseqüências. Quem quiser, dê uma lida no capítulo denominado Mar de Lama, do livro de Flávio Tavares denominado O dia em que Getúlio matou Allende e outras novelas do poder. Nesse capítulo, fica evidente como a mídia orientou toda a ação política para derrubar Getúlio, e que terminou com o suicídio do presidente.

Quem não se lembra da atividade militante de nossa mídia a favor do golpe de 1964, salvo sempre as exceções, e nesse caso só Última Hora? Não importa que daí sobreviesse, como ocorreu, um regime de terror e morte. E durante a ditadura, a mídia teve sempre uma atitude complacente, como denomina o jornalista e professor Bernardo Kucinski em seu livro Jornalistas e Revolucionários – nos tempos da imprensa alternativa. Complacente e muitas vezes conivente com a ditadura.

Quem quiser conhecer um pouco da atitude do Grupo Folhas durante a ditadura é só ler o extraordinário livro de Beatriz Kushnir – Cães de Guarda – Jornalistas e Censores. Ali fica evidente como o Grupo Folhas foi um entusiasta defensor da ditadura militar. O Estadão, se sabe, foi sempre um jornal vinculado à direita. Teve o mérito, ao menos, agora, de declarar o voto em Serra. E mostrou a sua verdadeira face ao censurar Maria Rita Khel por publicar artigo defendendo o Bolsa Família. Do grupo Civita, há pouco que dizer, por desnecessário. A revista Veja é uma excrescência, um panfleto da extrema-direita. Do grupo Globo, que dizer? Há uma caudalosa bibliografia a respeito, que a desnuda, e que eu não vou perder tempo em citá-la. Era porta-voz da ditadura, esteve sempre ao lado dos privilegiados e se aliou ao longo de sua história, sem qualquer variação, aos mais destacados homens da direita brasileira.

Por tudo isso, quero reiterar: vamos manter acesa a idéia de que é preciso mostrar o que esse projeto político em curso, com Lula à frente, fez pelo povo brasileiro, as extraordinárias mudanças que estamos fazendo no Brasil. E, por todos os meios que tivermos, no leito da democracia, desmontar o festival de mentiras, de calúnias, de sordidez que vem sendo orquestrado pela campanha de Serra, com a participação decisiva do partido político midiático.

Mais do que nunca é necessário dar adeus às ilusões de uma mídia com características democráticas no Brasil atual. E é necessário ter clareza de que temos que dar passos firmes na direção da democratização da mídia, por mais que ela estrebuche. A imprensa tem que cumprir com suas obrigações constitucionais. Não pode se constituir em partido político disfarçando-se de imprensa. A democracia há de chegar à mídia também. Para que o país avance. E para que façamos isso é preciso eleger Dilma presidente.


*Jornalista, escritor, prof. Dr. em Comunicação e Cultura Contemporâneas.

Fonte: site Conversa Afiada

domingo, 24 de outubro de 2010

Contra o fascismo, politização

Getúlio Vargas flertou com os integralistas e quase foi derrubado por eles


Por Cléber Sérgio de Seixas

Qualquer cidadão com algum conhecimento histórico ou com uma memória política razoável se lembrará de vários episódios em que a mídia se posicionou claramente a favor de determinados candidatos. Foi assim com Collor em 1989, com FHC nas duas vitórias dos anos 90 e tem sido com os adversários de Lula desde 2003. A história, agora, se repete com José Serra.

Acolitado, por exemplo, pelos grandes conglomerados de comunicação – que, diga-se de passagem, sempre se colocaram à direita do espectro político –, por pastores fundamentalistas e pela extrema-direita católica, o candidato tucano não precisa fazer o serviço sujo. Serra, que na reta final posa de bom moço e de vítima, não precisa sujar suas mãos, já que seus sabujos o farão por ele de forma aberta ou velada.

Quem assistiu ao Jornal Nacional na quinta-feira (21/10) pôde ver um show de parcialidade, um descomunal contorcionismo para transformar uma simples bolinha de papel num artefato semi-letal, além de um esforço para jogar no colo de Dilma um escândalo que na verdade se trata de uma desavença no ninho tucano, em cujos extremos estão José Serra e Aécio Neves. A última edição da revista Veja tenta escamotear a animosidade entre Aécio e Serra colocando o primeiro na capa. É importante salientar que tal animosidade deita suas raízes na luta do ex-governador mineiro pelas prévias do PSDB para escolha de um candidato à presidência.

O que ficará para a posteridade com respeito a essas eleições são as baixarias perpetradas por partidários e simpatizantes do candidato tucano, o patético engajamento da mídia em prol do mesmo, a despolitização de grande parte do eleitorado e, o que é mais grave, o ressurgimento de forças fascistas que até então estavam hibernando nas sombras de nossa História. É sobre esse último aspecto das eleições deste ano que quero versar um pouco mais.

As forças fascistas estão hibernando desde que saíram de cena no fim da ditadura militar. Hibernar significa manter um sono letárgico e acordar do mesmo somente quando as condições do ambiente estiverem favoráveis. O período democrático reinaugurado em 1985, quando o poder foi devolvido a um civil, tem significado para a extrema-direita brasileira um inverno forçado. Engana-se quem acredita que os saudosos dos tempos da ditadura e dos tempos em que se observava uma pior distribuição de renda não caminham mais entre nós. De generais de pijama e seus discípulos, passando por padres fascistas, aos integralistas do século XXI, vários são aqueles que têm se abrigado nas trincheiras do que se tornou a campanha de José Serra à presidência. A campanha tucana, ao deixar de lado a apresentação de propostas e pautar-se por temas de cunho moral e religioso, ao invés de questões estruturais, deu a oportunidade de sair do ostracismo àqueles que até então estavam reservados ao submundo político. O fascismo não sai das sombras a troco de nada. Ele cobrará a fatura caso o tucano seja eleito, a partir de sua posse. Se Dilma for a escolhida, pode ser que a extrema direita ainda tenha fôlego para se manter visível e influente, sobretudo se for levado em conta a campanha que alguns meios de comunicação continuarão a articular contra o governo, acirrando os ânimos.

Não descarto que a vitória de Dilma enseje uma tentativa de golpe branco por parte das forças conservadores derrotadas no pleito. Sei que muitos que lerem este artigo não concordarão comigo, argumentando que não há mais no Brasil um ambiente político para golpes de Estado. Se tal for a assertiva, trago à baila o caso hondurenho e, mais recentemente, a tentativa de golpe no Equador. É importante lembrar que estamos assentados sobre uma das maiores riquezas do planeta: as reservas petrolíferas da camada pré-sal, alvo da cobiça de empresas estrangeiras.

O baixo nível de politização do eleitorado brasileiro, sua permeabilidade a discursos de ordem moral e religiosa e a facilidade com que é influenciado pelo canto de sereia dos veículos de comunicação a que tem acesso – a maioria conservadores - explica a boataria e as calúnias que tomaram conta da campanha presidencial e, de certa forma, que Dilma Rousseff não tenha liquidado a eleição já no primeiro turno.

Contra o fascismo, só mesmo politização. Se Dilma for vitoriosa, é mister que seu governo invista maciçamente na politização do povo brasileiro, que crie meios que possibilitem à sociedade cobrar dos meios de comunicação uma satisfação a respeito dos conteúdos por eles veiculados ou uma responsabilização em caso de excessos, tal qual já ocorre em nações mais avançadas, e que fortaleça as mídias alternativas. Só dessa forma será possível impedir que mentiras, boatos e calúnias se sobreponham a propostas políticas.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Violação da lógica


Por Leandro Fortes* na revista Carta Capital

Apesar do esforço em atribuir a culpa à campanha de Dilma Rousseff, o escândalo da quebra dos sigilos fiscais de políticos do PSDB e de parentes do candidato José Serra que dominou boa parte do debate no primeiro turno teve mesmo a origem relatada por CartaCapital em junho: uma disputa fratricida no tucanato.

Obrigada a abrir os resultados do inquérito após uma reportagem da Folha de S.Paulo com conclusões distorcidas, a Polícia Federal revelou ter sido o jornalista Amaury Ribeiro Júnior, então a serviço do jornal O Estado de Minas, que encomendou a despachantes de São Paulo a quebra dos sigilos. O serviço ilegal foi pago. E há, como se verá adiante, divergências nos valores desembolsados (o pagamento­ ­teria ­variado, segundo as inúmeras versões, de 8 mil a 13 mil reais).

Ribeiro Júnior prestou três depoimentos à PF. No primeiro, afirmou que todos os documentos em seu poder haviam sido obtidos de forma legal, em processos públicos. Confrontado com as apurações policiais, que indicavam o contrário, foi obrigado nos demais a revelar a verdade. Segundo contou o próprio repórter, a encomenda aos despachantes fazia parte de uma investigação jornalística iniciada a pedido do então governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que buscava uma forma de neutralizar a arapongagem contra ele conduzida pelo deputado federal e ex-delegado Marcelo Itagiba, do PSDB. Itagiba, diz Ribeiro Júnior, agiria a mando de Serra. À época, Aécio disputava com o colega paulista a indicação como candidato à Presidência pelo partido.

Ribeiro Júnior disse à PF ter sido escalado para o serviço diretamente pelo diretor de redação do jornal mineiro, Josemar Gimenez, próximo à irmã de Aécio, Andréa Neves. A apuração, que visava levantar escândalos a envolver Serra e seus aliados durante o processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso, foi apelidada de Operação Caribe. O nome sugestivo teria a ver com supostas remessas ilegais a paraísos fiscais.

Acuado por uma investigação tocada por Itagiba, chefe da arapongagem de Serra desde os tempos do Ministério da Saúde, Aécio temia ter a reputação assassinada nos moldes do sucedido com Roseana Sarney, atual governadora do Maranhão, em 2002. Naquele período, a dupla Itagiba-Serra articulou com a Polícia Federal a Operação Lunus, em São Luís (MA), que flagrou uma montanha de dinheiro sujo na empresa de Jorge Murad, marido de Roseana, então no PFL. Líder nas pesquisas, Roseana acabou fora do páreo após a imagem do dinheiro ter sido exibida diuturnamente nos telejornais. Serra acabou ungido a candidato da aliança à Presidência, mas foi derrotado por Lula. A família Sarney jamais perdoou o tucano pelo golpe.

Influente nos dois mandatos do irmão, Andréa Neves foi, por sete anos, presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) de Minas Gerais, cargo tradicional das primeiras-damas mineiras, ocupado por ela por conta da solteirice de Aécio. Mas nunca foi sopa quente ou agasalho para os pobres a vocação de Andréa. Desde os primeiros dias do primeiro mandato do irmão, ela foi escalada para intermediar as conversas entre o Palácio da Liberdade e a mídia local. Virou coordenadora do Grupo Técnico de Comunicação do governo, formalmente criado para estabelecer as diretrizes e a execução das políticas de prestação de contas à população. Suas relações com Gimenez se estreitaram.

Convenientemente apontado agora como “jornalista ligado ao PT”, Ribeiro Júnior sempre foi um franco-atirador da imprensa brasileira. E reconhecido.­ Aos 47 anos, ganhou três prêmios Esso e quatro vezes o Prêmio Vladimir Herzog, duas das mais prestigiadas premiações do jornalismo nativo. O repórter integra ainda o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e é um dos fundadores da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Entre outros veículos, trabalhou no Jornal do Brasil, O Globo e IstoÉ. Sempre se destacou como um farejador de notícia, sem vínculo com políticos e partidos. Também é reconhecido pela coragem pessoal. Nunca, portanto, se enquadrou no figurino de militante.

Em 19 de setembro de 2007, por exemplo, Ribeiro Júnior estava em um bar de Cidade Ocidental, em Goiás, no violento entorno do Distrito Federal, para onde havia ido a fim de fazer uma série de reportagens sobre a guerra dos traficantes locais. Enquanto tomava uma bebida, foi abordado por um garoto de boné, bermuda, casaco azul e chinelo com uma arma em punho. O jornalista pulou em cima do rapaz e, atracado ao agressor, levou um tiro na barriga. Levado consciente ao hospital, conseguiu se recuperar e, em dois meses, estava novamente a postos para trabalhar no Correio Braziliense, do mesmo grupo controlador do Estado de Minas, os Diários Associados. Gimenez acumula a direção de redação dos dois jornais.

Depois de baleado, Ribeiro Júnior, contratado pelos Diários Associados desde 2006, foi transferido para Belo Horizonte, no início de 2008, para sua própria segurança. A partir de então, passou a ficar livre para tocar a principal pauta de interesse de Gimenez: o dossiê de contrainformação encomendado para proteger Aécio do assédio da turma de Serra. O jornalista tinha viagens e despesas pagas pelo jornal mineiro e um lugar cativo na redação do Correio em Brasília, inclusive com um telefone particular. Aos colegas que perguntavam de suas rápidas incursões na capital federal, respondia, brincalhão: “Vim ferrar com o Serra”.

Na quarta-feira 20, por ordem do ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, a cúpula da PF foi obrigada a se movimentar para colocar nos eixos a história da quebra de sigilos. A intenção inicial era só divulgar os resultados após o término das eleições. O objetivo era evitar que as conclusões fossem interpretadas pelos tucanos como uma forma de tentar ajudar a campanha de Dilma Rousseff. Mas a reportagem da Folha, enviezada, obrigou o governo a mudar seus planos. E precipitou uma série de versões e um disse não disse, que acabou por atingir o tucanato de modo irremediável.

Em entrevista coletiva na quarta-feira 20, o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, e o delegado Alessandro Moretti, da Divisão de Inteligência Policial (DIP), anunciaram não existir relação entre a quebra de sigilo em unidades paulistas da Receita Federal e a campanha presidencial de 2010. De acordo com Moretti, assim como constou de nota distribuída aos jornalistas, as provas colhidas revelaram que Ribeiro Júnior começou a fazer levantamento de informações de empresas e pessoas físicas ligadas a tucanos desde o fim de 2008, por conta do trabalho no Estado de Minas. A informação não convenceu boa parte da mídia, que tem arrumado maneiras às vezes muito criativas de manter aceso o suposto elo entre a quebra de sigilo e a campanha petista.

Em 120 dias de investigação, disse o delegado Moretti, foram ouvidas 37 testemunhas em mais de 50 depoimentos, que resultaram nos indiciamentos dos despachantes Dirceu Rodrigues Garcia e Antonio Carlos Atella, além do office-boy Ademir Cabral, da funcionária do Serpro cedida à Receita Federal Adeildda dos Santos, e Fernando Araújo Lopes, suspeito de pagar à servidora pela obtenção das declarações de Imposto de Renda. Ribeiro Júnior, embora tenha confessado à PF ter encomendado os do­cumentos, ainda não foi indiciado. Seus advogados acreditam, porém, que ele não escapará. Um novo depoimento do jornalista à polícia já foi agendado.
De acordo com a investigação, a filha e o genro do candidato do PSDB, Verônica Serra e Alexandre Bourgeois, tiveram os sigilos quebrados na delegacia da Receita de Santo André, no ABC Paulista. Outras cinco pessoas, das quais quatro ligadas ao PSDB, tiveram o sigilo violado em 8 de outubro de 2009, numa unidade da Receita em Mauá, também na Grande São Paulo. Entre elas aparecem o ex-ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, e Gregório Preciado, ex-sócio de Serra. O mesmo ocorreu em relação a Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor do Banco do Brasil e tesoureiro de campanhas de Serra e FHC.

Segundo dados da PF, todas as quebras de sigilo ocorreram entre setembro e outubro de 2009. As informações foram utilizadas para a confecção de relatórios, e todas as despesas da ação do jornalista, segundo o próprio, foram custeadas pelo jornal mineiro. Mas o repórter informou aos policiais ter disposto de 12 mil reais, em dinheiro, para pagar pelos documentos – 8,4 mil reais, segundo Dirceu Garcia – e outras despesas de viagem e hospedagem. Garcia revelou ao Jornal Nacional, da TV Globo, na mesma quarta 20, ter recebido 5 mil reais de Ribeiro Júnior, entre 9 e 19 de setembro passado, como “auxílio”. A PF acredita que o “auxílio” é, na verdade, uma espécie de suborno para o despachante não confessar a quebra ilegal dos sigilos.
A nota da PF sobre a violação fez questão de frisar que “não foi comprovada sua utilização em campanha política”, base de toda a movimentação da mídia em torno de Ribeiro Júnior desde que, em abril, ele apareceu na revista Veja como integrante do tal “grupo de inteligência” da pré-campanha de Dilma Rousseff. Embora seja a tese de interesse da campanha tucana e, por extensão, dos veículos de comunicação engajados na candidatura de Serra, a ligação do jornalista com o PT não chegou a se consumar e é um desdobramento originado da encomenda feita por Aécio.

A vasta apuração da Operação Caribe foi transformada em uma reportagem jamais publicada pelo Estado de Minas. O material, de acordo com Ribeiro Júnior, acabou por render um livro que ele supostamente pretende lançar depois das eleições. Intitulado Os Porões da Privataria, a obra pretende denunciar supostos esquemas ilegais de financiamento, lavagem de dinheiro e transferência de recursos oriundos do processo de privatização de estatais durante o governo FHC para paraísos fiscais no exterior. De olho nessas informações, e preocupado com “espiões” infiltrados no comitê, o então coordenador de comunicação da pré-campanha de Dilma, Luiz Lanzetta, decidiu procurar o jornalista.

Lanzetta conhecia Ribeiro Júnior e também sabia que o jornalista tinha entre suas fontes notórios arapongas de Brasília. Foi o repórter quem intermediou o contato de Lanzetta com o ex-delegado Onézimo Souza e o sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, o Dadá. O quarteto encontrou-se no restaurante Fritz, localizado na Asa Sul da capital federal, em 20 de abril. Aqui, as versões do conteú­do do convescote divergem. Lanzetta e Ribeiro Júnior garantem que a intenção era contratar Souza para descobrir os supostos espiões. Segundo o delegado, além do monitoramento interno, a dupla queria também uma investigação contra Serra.

O encontro no Fritz acabou por causar uma enorme confusão na pré-campanha de Dilma e, embora não tenha resultado em nada, deu munição para a oposição e fez proliferar, na mídia, o mito do “grupo de inteligência” montado para fabricar dossiês contra Serra. A quebra dos sigilos tornou-se uma obsessão do programa eleitoral tucano, até que, ante a falta de dividendos eleitorais, partiu-se para um alvo mais eficiente: os escândalos de nepotismo a envolver a então ministra da Casa Civil Erenice Guerra.

O tal “grupo de inteligência” que nunca chegou a atuar está na base de outra disputa fratricida, desta vez no PT. De um lado, Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte que indicou a empresa de Lanzetta, a Lanza Comunicações, para o trabalho no comitê eleitoral petista. Do outro, o deputado estadual por São Paulo Rui Falcão, interessado em assumir maior protagonismo na campanha de Dilma Rousseff. Essa guerra de poder e dinheiro resultou em um escândalo à moda desejada pelo PSDB.

Em um dos depoimentos à polícia, Ribeiro Júnior acusa Falcão de ter roubado de seu computador as informações dos sigilos fiscais dos tucanos. Segundo o jornalista, o deputado teria mandado invadir o quarto do hotel onde ele esteve hospedado em Brasília. Também atribuiu ao petista o vazamento de informações a Veja. O objetivo de Falcão seria afastar Lanzetta da pré-campanha e assumir maiores poderes. À Veja, Falcão teria se apresentado como o lúcido que impediu que vicejasse uma nova versão dos aloprados, alusão aos petistas presos em 2006 quando iriam comprar um dossiê contra Serra. Em nota oficial, o parlamentar rebateu as acusações. Segundo Falcão, Ribeiro Júnior terá de provar o que diz.

As conclusões do inquérito não satisfizeram a mídia. Na quinta 21, a tese central passou a ser de que Ribeiro Júnior estava de férias – e não a serviço do jornal – quando veio a São Paulo buscar a encomenda feita ao despachante. E que pagou a viagem de Brasília à capital paulista em dinheiro vivo. Mais: na volta das férias, o jornalista teria pedido demissão do Estado de Minas sem “maiores explicações”.

É o velho apego a temas acessórios para esconder o essencial. Por partes: A retirada dos documentos em São Paulo é resultado de uma apuração, conduzida, vê-se agora, por métodos ilegais, iniciada quase um ano antes. Não há dúvidas de que o diá­rio mineiro pagou a maioria das despesas do repórter para o levantamento das informações. Ele não é filiado ao PT ou trabalhou na campanha ou na pré-campanha de Dilma.

Ribeiro Júnior pediu demissão, mas não de forma misteriosa como insinua a imprensa. O pedido ocorreu por causa da morte de seu pai, dono de uma pizzaria e uma fazenda em Mato Grosso. Sem outros parentes que ­pudessem cuidar do negócio, o jornalista decidiu trocar a carreira pela vida de pequeno empresário. Neste ano, decidiu regressar ao jornalismo. Hoje ele trabalha na TV Record.

Quando o resultado do inquérito veio à tona, a primeira reação do jornal mineiro foi soltar uma nota anódina que nem desmentia nem confirmava o teor dos depoimentos de Ribeiro Júnior. “O Estado de Minas é citado por parte da imprensa no episódio de possível violação de dados fiscais de pessoas ligadas à atual campanha eleitoral. Entende que isso é normal e recorrente, principalmente às vésperas da eleição, quando os debates se tornam acalorados”, diz o texto. “O jornalista Amaury Ribeiro Júnior trabalhou por três anos no Estado de Minas e publicou diversas reportagens. Nenhuma, absolutamente nenhuma, se referiu ao fato agora em questão. O Estado de Minas faz jornalismo.”

No momento em que o assunto tomou outra dimensão, a versão mudou bastante. Passou a circular a tese de que Ribeiro Júnior agiu por conta própria, durante suas férias. Procurado por CartaCapital, Gimenez ficou muito irritado com perguntas sobre a Operação Caribe. “Não sei de nada, isso é um absurdo, não estou lhe dando entrevista”, disse, alterado, ao telefone celular. Sobre a origem da pauta, foi ainda mais nervoso. “Você tem de perguntar ao Amaury”, arrematou. Antes de desligar, anunciou que iria divulgar uma nova nota pública, desta vez para provar que Ribeiro Júnior, funcionário com quem manteve uma relação de confiança profissional de quase cinco anos, não trabalhava mais nos Diários Associados quando os sigilos dos tucanos foram quebrados na Receita.

A nota, ao que parece, nem precisou ser redigida. Antes da declaração de Gimenez a CartaCapital, o UOL, portal na internet do Grupo Folha, deu guarida à versão. Em seguida, ela se espalhou pelo noticiário. Convenientemente.

O que Gimenez não pode negar é a adesão do Estado de Minas ao governador Aécio Neves na luta contra a indicação de Serra. Ela se tornou explícita em 3 de fevereiro deste ano, quando um editorial do jornal intitulado Minas a Reboque, Não! soou como um grito de guerra contra o tucanato paulista. No texto, iniciado com a palavra “indignação”, o diário partiu para cima da decisão do PSDB de negar as prévias e impor a candidatura de Serra contra as pretensões de Aécio. Também pareceu uma resposta às insinuações maldosas de um articulista de O Estado de S. Paulo dirigidas ao governador de Minas.

“Os mineiros repelem a arrogância de lideranças políticas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governador Aécio Neves”, tascou o editorial. Em seguida, desfiam-se as piores previsões possíveis para a candidatura de Serra: “Fazem parecer obrigação do líder mineiro, a quem há pouco negaram espaço e voz, cumprir papel secundário, apenas para injetar ânimo e simpatia à chapa que insistem ser liderada pelo governador de São Paulo, José Serra”. E termina, melancólico: “Perplexos ante mais essa demonstração de arrogância, que esconde amadorismo e inabilidade, os mineiros estão, porém, seguros de que o governador ‘político de alta linhagem de Minas’ vai rejeitar papel subalterno que lhe oferecem. Ele sabe que, a reboque das composições que a mantiveram fora do poder central nos últimos 16 anos, Minas desta vez precisa dizer não”.

Ao longo da semana, Aécio desmentiu mais de uma vez qualquer envolvimento com o episódio. “Repudio com veemência e indignação a tentativa de vinculação do meu nome às graves ações envolvendo o PT e o senhor Amaury Ribeiro Jr., a quem não conheço e com quem jamais mantive qualquer tipo de relação”, afirmou. O senador recém-eleito disse ainda que o Brasil sabe quem tem o DNA dos dossiês, em referência ao PT.

Itagiba, derrotado nas últimas eleições, também refutou as acusações de que teria comandado um grupo de espionagem com o intuito de atingir Aécio Neves, no meio da briga pela realização de prévias no PSDB. “Não sou araponga. Quando fui delegado fazia investigação em inquérito aberto, não espionagem, para pôr na cadeia criminosos do calibre desses sujeitos que formam essa camarilha inscrustada no PT.”


* Leandro Fortes é jornalista, professor e escritor, autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado Brasília eu Vi.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A universidade e o segundo turno das eleições

*Ronaldo Tadêu Pena, **Heloisa Murgel Starling, *** Marcos Borato Viana


Quanto mais bem informado um voto, melhor para o país. É com esse objetivo que nós, participantes da gestão da UFMG em anos recentes, nos dirigimos à comunidade da Universidade. O momento é de comparação de dois projetos para o Brasil. De um lado, Dilma Rousseff, representando a continuidade do projeto desenvolvido nos últimos anos, e de outro, José Serra, a oposição a esse projeto.

O sistema universitário público federal viveu anos difíceis no governo Fernando Henrique Cardoso. As dificuldades financeiras foram tais que, no segundo semestre de 2003, com o último orçamento da era FHC, a UFMG, pela primeira vez, viu-se obrigada a suspender o pagamento de suas contas de água e energia elétrica. Foi graças à compreensão do governador Aécio Neves que tais contas puderam ser saldadas em 2004, sem cortes no fornecimento.

A partir de 2004, em contraste, o Brasil passa a experimentar a maior expansão de seu sistema federal de educação superior. Universidades foram criadas em várias regiões do país. Muitas universidades já existentes implantaram campi fora das sedes. No caso da UFMG, optou-se pela expansão em Belo Horizonte e no campus de Montes Claros. Outro projeto de enorme alcance e significado para a população brasileira é a Universidade Aberta do Brasil (UAB). Instituições públicas de todo o país participam da UAB com projetos de cursos de graduação a distância, preponderantemente licenciaturas, formando pessoas em suas próprias cidades. A Universidade Aberta, ainda em franco crescimento, já conta hoje com polos presenciais em quase mil cidades do interior do Brasil. A participação da UFMG na UAB ocorre através de quatro cursos de licenciatura, um de bacharelado e quatro cursos de especialização. São 2.548 alunos de graduação e 1.005 alunos de especialização, espalhados em 24 polos presenciais no interior de Minas.

Cabe enfatizar que todos esses projetos de expansão do sistema federal contaram com a indução do Ministério da Educação, que aporta recursos orçamentários de custeio, investimento e pessoal para viabilizá-los. Mesmo numa estrutura que cresce em velocidade, estando, portanto, sujeita a naturais perturbações, todos os acordos com as universidades do sistema foram sempre cumpridos pelo governo do presidente Lula. Na realidade, muitos acordos foram até aditados pelo MEC, sempre em benefício das instituições participantes, a partir de solicitações dos respectivos reitores.

O ministro Fernando Haddad, inspirador e artífice das políticas do governo Lula para a educação, claramente recusa o conceito de Paulo Renato, ministro de FHC e secretário de Educação do Estado de São Paulo, e anunciado nas propagandas de José Serra, de que ao governo cabe preocupar-se apenas com o ensino básico e tecnológico, deixando o ensino universitário submetido às forças do mercado. O governo Lula estabeleceu, de fato, a educação, em todos os níveis, como prioridade absoluta.

Prioridade no setor público se mede pela destinação de recursos orçamentários. É aí, na questão orçamentária, que a comparação pode ser feita com a maior clareza. Enquanto no governo anterior era comum a presença de reitores em Brasília buscando recursos para cobrir despesas de custeio do dia a dia, no governo atual a preocupação dos gestores deslocou-se para a busca de investimentos e do financiamento da expansão do sistema. Trata-se de uma grande mudança no nível de priorização da educação superior em nosso país. Um bom exemplo é o orçamento da rubrica Outros Custeios e Capital (OCC) da UFMG, que cresceu 86% entre os anos de 2004 e 2010.

A partir de 2004, a UFMG realiza a maior expansão de sua história. Concluímos o Projeto Campus 2000 com a construção da Face e da Escola de Engenharia. Isto não seria possível sem aportes muito significativos do MEC para as duas obras. O Projeto Reuni, ora em execução na UFMG, viabiliza 2.100 novas vagas no Vestibular (aumento de 45%), cerca de 75% das quais em cursos noturnos, favorecendo jovens trabalhadores e utilizando a infraestrutura disponível. Estão sendo contratados cerca de 600 novos professores e 623 servidores técnicos e administrativos em educação, apenas com base na expansão do Reuni. Houve aporte de recursos para a construção de quatro novos prédios, além de reformas e ampliações em vários outros. O Reuni viabiliza ainda a expansão da pós-graduação, laboratórios e bibliotecas. Além disso, a Rádio UFMG Educativa, antigo sonho da comunidade, foi implantada com o apoio decidido do governo Lula; novo aporte, já assinado, permitirá o aumento da potência de transmissão, viabilizando sua sintonia em toda a Grande BH.

Finalmente, mencionamos o apoio à assistência estudantil. A ampliação de 2.100 vagas nos cursos presenciais de graduação, conjugada com medidas de inclusão de estudantes de famílias pobres, ficaria inviabilizada sem a implantação, pelo MEC, do Programa Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes). Ele destinou à UFMG R$ 6,6 milhões em 2008, R$ 9,4 milhões em 2009, R$ 11,5 milhões em 2010, e tem a previsão de R$ 15,4 milhões em 2011.

Por tudo isso, consideramos essencial evitar o retrocesso e garantir que a universidade pública continue a ser valorizada como política de Estado.


*Reitor da UFMG na gestão 2006-2010
**Vice-reitora da UFMG na gestão 2006-2010
***Vice-reitor da UFMG na gestão 2002-2006

Fonte: UFMG

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Boatos no lugar de propostas

Por Cléber Sérgio de Seixas

Esta é sem dúvida a campanha com o mais baixo nível político que conheço. No lugar de debates sobre questões relevantes para a nação, denúncias vazias calcadas no mais sórdido fundamentalismo. Ao invés de propostas para o Brasil, o que se encontra é toda sorte de boatos e calúnias sendo espalhados pelos partidários de José Serra, um candidato, diga-se de passagem, sem propostas estruturais para o país, cujo apoio vai da imprensa golpista a, supostamente, entidades como Opus Dei e TFP (Tradição Família e Propriedade).

A candidata Dilma Rousseff, acossada por constantes calúnias, se vê obrigada a pautar-se pelas mesmas, desmentindo-as. Tal expediente acaba tomando-lhe um tempo que poderia ser mais bem utilizado ao apresentar suas propostas aos eleitores. Isso ficou claro na sabatina do Jornal Nacional de ontem, cuja pauta se resumiu à questão do aborto.

Um dos ataques mais notórios veio através de um panfleto que tem sido distribuído em várias regiões do país, em cujo teor há orientações para não votar na candidata petista. O panfleto foi produzido a pedido do bispo da diocese de Guarulhos numa gráfica cuja proprietária é afiliada ao PSDB e irmã de um dos coordenadores nacionais da campanha de José Serra à presidência. Com tais indícios, é difícil que não haja ligação da campanha tucana com os panfletos.

Sobre tal assunto, não deixe de assistir abaixo a matéria do Jornal da Record que foi ao ar ontem.

Caso saiba de algum boato ou calúnia contra a candidata Dilma Rousseff, você pode fazer a denúncia no site Espalhe a Verdade. A democracia agradeçe.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O significado da privatização




Por Paulo Daniel


Discutir privatização pode parecer uma questão complexa, que está no cerne da doutrina neoliberal, diz respeito ao papel do Estado na economia. E que de certa maneira, ressurge com uma forte pauta nas eleições presidenciais deste ano.

É praticamente consensual que o Estado deve ser forte e ágil e não um big government paralisante, mas sua capacidade de intervenção e regulação eficientes não deveria desaparecer e sim, ao contrário, fortalecer-se para poder encaminhar reformas institucionais necessárias, tanto do mercado quanto do próprio Estado.

A partir dos anos 70, o Estado surge de vilão. Todos os males parecem poder ser resolvidos pela abertura da economia, pela diminuição do Estado e/ou pela contração de seus gastos. No coração do sistema, os Estados Unidos atacam de reaganomics e supply side economics; a Inglaterra vem com Mrs. Thatcher e suas privatizações; para o terceiro mundo reserva-se o Consenso de Washington.

No Brasil, na década de 70, o “milagre econômico” e o II PND pavimentaram o crescimento brasileiro, com forte participação do Estado via empresas estatais. Entretanto, a partir do final da década com a elevação das taxas de juros norte-americanas, a capacidade de investimento do setor público e privado, tornaram-se decrescentes.

A década de 80 brasileira tem uma preocupação principal; resolver a vulnerabilidade internacional que é a dívida externa, portanto, é a partir daí, tardiamente, que o Brasil inicia-se seu processo de liberalização e abertura econômica.

Nesse período, devido a escassez de crédito nacional, internacional e o alto volume da dívida externa brasileira as empresas nacionais e estatais vão perdendo a capacidade de investimento e inovação tecnológica, por conta disso, surge o centro do discurso neoliberal; o Estado e suas empresas são ineficientes. É fato, por uma razão simples, o Estado brasileiro naquele momento preferiu pagar a dívida externa, de acordo com a cartilha do FMI (Fundo Monetário Internacional) à continuar os investimentos em políticas de infraestrutura e social.

Na década de 90, com a eleição de Fernando Collor, inicia-se concretamente o processo de privatização brasileiro, mas é justamente com Fernando Henrique Cardoso que esse programa é intensificado, tanto é que “rendeu” aos cofres públicos entre 1995 a 2002 US$ 93 bilhões, nesse processo foram bancos como o Banerj e o Banespa, a Vale do Rio do Doce, a Usiminas, a CSN, o sistema de telecomunicações e elétrico.

A partir de 1994, o plano Real estrutura-se em um dos principais pilares; o ajuste fiscal, ou seja, privatização, enxugamento da máquina administrativa e redução dos gastos públicos, principalmente, em investimentos de infraestrutura, sucateando ainda mais o Estado brasileiro.

O Estado não sai de cena, apenas modifica sua agenda, consolida-se não mais como produtor de bens e serviços, mas sim, um Estado financeirizado, em que a lógica é dinheiro e mais dinheiro, sem passar pelas agruras do processo de produção.

Portanto, a lógica neoliberal, iniciada com Collor e consolidada com FHC, é o Estado não mais produzir para gerar emprego e renda e sim economizar (superávit primário e nominal) para pagamento de juros da dívida pública, ou seja, venderam o patrimônio do povo brasileiro, financiado pelo BNDES, que ainda é patrimônio de todos nós, pois sua maior fonte de receita advém do PIS e PASEP.

O processo de privatização brasileiro, como em qualquer país da América Latina, representou e representa concentração de renda e riqueza, desnacionalização de nossas empresas, redução e má qualidade dos serviços prestados; uma comprovação disso, basta observar o sistema de telecomunicações brasileiro, o gasto em telefonia praticamente triplicou entre 98 e 2010, as tarifas de energia elétrica sobem sempre acima da inflação e as rodovias, principalmente as paulistas, a cada dia com mais pedágios e cada vez mais caros.

Entender a lógica e o significado da privatização é entender o debate presidencial travado nesse 2º.turno. Que papel as empresas estatais brasileiras terão no desenvolvimento brasileiro? O Estado manterá a lógica de superavits primários elevados? Esse é justamente alguns dos pontos que as candidaturas à Presidência da República se diferenciam.

Nesse momento de crise internacional, o candidato que ainda insistir em privatizar ou até mesmo defender a privatização brasileira, estará remando contra a maré do próprio sistema capitalista atual, talvez ainda não tenha entendido, ou não quer entender, o conselho de um prêmio Nobel de economia Paul Krugman em que diz; “a difundida crença de que as reformas voltadas para a abertura das economias e a liberação dos mercados produzirá uma dramática aceleração no crescimento dos países em desenvolvimento representa um salto no escuro e um ato de fé.


Fonte: revista Carta Capital - edição 618

domingo, 17 de outubro de 2010

Colocando na balança as eras FHC e Lula

Reproduzo abaixo um infográfico - criado pelo designer Bruno Barros - que compara alguns dados dos governos FHC e Lula. Ao invés de desinformar e espalhar boatos, são apresentadas informações que realmente importam quando se trata de uma escolha entre dois modelos.



Veja o panfleto num tamanho maior!
Via @IlustreBOB

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um país dividido

Reproduzo a seguir excelente artigo de Eduardo Guimarães publicado em seu blog

Informações privilegiadas me caíram no colo ontem por volta da hora do almoço, mas só consegui postar no fim da tarde. Devido à proximidade da hora em que brotariam as pesquisas, porém, optei por tratar do assunto aqui da forma que me pareceu mais lógica, ou seja, fazendo uma baita crítica à condução da campanha de Dilma e ao próprio PT.

Isso porque, em vez de reagirem no primeiro turno, de travarem o debate político, de dizerem na tevê tudo o que dizíamos nos blogs, ficaram ouvindo marqueteiros dizerem que tinham que apanhar calados. E obedeceram.

Quem cala, consente. A versão do governo Lula poderia ter sido dada pela campanha de Dilma na tevê, mas o PT e certamente o próprio presidente acreditaram que poderiam não responder. A corrente de e-mails difamatórios contra Dilma ganhou força porque as acusações da mídia tucana, do partido da mídia e do candidato dessa mídia não foram respondidas à altura.

E quem do PT cobrou a mídia, no horário nobre da TV, pelo caso Alstom, pelo caso da filha de Serra e da irmã de Daniel Dantas, por exemplo? Quem foi que desprezou todas as vezes em que estes blogs sujos todos suplicaram a Lula e ao PT que travassem o debate político diretamente com a mídia diante da população brasileira?

Por que não vieram a público dizer que não queriam censurar ninguém porcaria nenhuma e que só queriam dar a própria versão dos fatos? Por que, com serenidade, não explicaram ao povo brasileiro, didaticamente, no que consiste a forma de manutenção da desigualdade tupininiquim?

Queriam fazer uma revolução silenciosa contra um inimigo dotado de mega alto-falantes para berrar a sua versão dos fatos nas 24 horas do dia, nos sete dias da semana, nos trinta dias do mês e nos 365 dias do ano – ano após ano do mandato de Lula.

Dilma Rousseff não tem culpa de nada. Superou-se. É uma mulher sincera, corajosa, digna. Já Lula, é um gigante. Um homem como poucas vezes se viu na história da humanidade. Um fenômeno, um mito. Seu nome está gravado para sempre na história. Mas cometeu um erro como cometeram os maiores generais. É humano.

Tudo está perdido? Claro que não. O país está longe de estar com Serra e com a mídia. Está dividido, pendendo para o lado do PT. Ainda. E pode seguir assim, mesmo que por pouco, até a última hora. A esta altura não há mais muitas dúvidas e Serra ainda precisa tirar uma boa diferença para se aproximar de Dilma.

As pesquisas, porém, estão equilibradas. Mostram uma tendência. A mídia não precisa mais arriscar. A onda foi criada. Será suficiente? Bem, sempre se pode usar mais um pouquinho de mídia. Afinal, o PT, Lula e os marqueteiros, mesmo que reajam finalmente contra a utilização da mídia pelos tucanos, irão a reboque dos fatos.

A hora de começar a explicar ao povo brasileiro, didaticamente, no que consiste essa descomunal armação que é José Serra e a sua relação promíscua com a mídia – e de começar, principalmente, a lembrar quem são os que querem voltar ao poder ou a mostrar o que teriam feito durante a crise do ano passado –, é já.

Ainda repetirei mais uma vez:

1 – Cadê a Regina Duarte e o discurso do medo?

2 – Cadê o flashback do apagão?

3 – Cadê a reprodução detalhada da situação do país que Lula herdou de FHC?

4 – Cadê a cobrança da mídia, enquanto denunciava o caso Erenice, de que há um monte de escândalos envolvendo Serra e o PSDB?

5 – Cadê a cobrança da mídia do reconhecimento de que o caso do sigilo fiscal de tucanos foi utilização eleitoreira de um processo antigo de venda de “cadastros” que atravessou governo após governo desde sempre?

6 – Cadê a explicação didática da privataria?

7 – Cadê a explicação de que querem pôr as garras no pré-sal?

8 – Cadê a explicação de como se concentrou a renda no Brasil?

9 – Cadê a explicação a essa classe média de que ela não faz parte da festa da elite branca dos Jardins e da Barra da Tijuca?

10 – Cadê a denúncia de que os que acusam Lula, seu governo, seu partido e sua candidata de “censores” foram os que jogaram o Brasil em uma ditadura militar de 20 anos?

Tem mais? Muito mais. Tem material para umas dez campanhas eleitorais. Por que o PT não usa? Não sei. Se o PT usar só agora funcionará? Não sei. O que sei? Que não está tudo perdido. Isso eu sei. Aliás, muito pelo contrário. Este governo e o grupo político que o apóia têm muito a mostrar. Mas têm que mostrar quem são seus adversários.

Eu vou lutar. Vou conversar, escrever, pensar, trabalhar sem parar. Farei por meus filhos e netos. Farei pelos meus semelhantes. Todos faremos. Mas não está mais tanto em nossas mãos. Travamos o discurso político durante anos e não recebemos o menor apoio. Poderiam ter ouvido o que dizíamos, ao menos.

Agora, porém, o país está dividido. Estamos em cima da hora da eleição, mas o PT também tem, ainda, um tempo ENORME em rede nacional de rádio e tevê. Pode lutar, pode criar fatos políticos poderosos. A parte da sociedade que resiste precisa de armas para lutar. Estamos lutando com estilingues contra um inimigo armado com canhões.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Razões para não votar em Serra - intolerância com jornalistas dissidentes

No passado os jornalistas dissidentes terminavam assim. Este tempo voltará?

Por Cléber Sérgio de Seixas

Qualquer observador atento do comportamento da mídia corporativa concordará que nessas eleições a mesma engajou-se na missão de eleger Serra presidente. Recentemente, estive numa palestra na PUC MG na qual as duas palestrantes, ambas professoras daquela faculdade, afirmaram categoricamente que a grande mídia está a favor do candidato tucano.

O candidato à presidência José Serra está tão acostumado a ser bajulado pelos grandes meios de comunicação, que quando suas idéias são confrontadas, ou quando os defeitos de sua administração à frente do governo paulista são expostos, se irrita e perde a compostura.

No primeiro debate do segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes, Serra ficou visivelmente transtornado com as investidas de Dilma Rousseff , a ponto de a certa altura começar a tremer. Ficou devendo em vários momentos, preferindo tergiversar, como destacou Dilma muitas vezes durante o debate, a responder claramente algumas perguntas mais incisivas que lhe foram feitas pela candidata petista.

Com base em fatos recentes, não seria surpresa se Serra mandasse calar jornalistas ou processar blogs e jornais caso chegasse à presidência da República. Basta lembrar ao leitor nomes como Luís Nassif, Heródoto Barbeiro e Gabriel Priolli para que se tenha uma idéia da suposta posição do ex-governador de São Paulo com relação à liberdade de imprensa. Barbeiro foi, sob circunstâncias ainda nebulosas, afastado do cargo de apresentador do Roda Viva da TV Cultura após ter feito uma pergunta embaraçosa sobre pedágios ao entrevistado José Serra durante o programa. Já Luís Nassif, sem maiores explicações, não teve seu contrato renovado com TV Cultura. Após permanecer apenas uma semana no cargo de diretor de jornalismo dessa mesma emissora, Gabriel Priolli foi afastado do cargo porque teria permitido a veiculação de uma reportagem sobre pedágios no Jornal da Cultura. É importante pontuar que a TV Cultura é pública e subordinada ao governo do Estado de São Paulo.

Outro caso recente, já abordado nesse blog (clique aqui para ler), foi durante a gravação do programa Jogo do Poder. Serra chegou a dizer à apresentadora Márcia Peltier que iria embora caso algumas perguntas não fossem suprimidas da sabatina.

Serra é assim. Fico a imaginar qual seria a sua atitude para com jornalistas dissidentes caso fosse eleito presidente da República. Se o leitor pensa em votar em Serra no dia 31 de outubro, assista aos vídeos abaixo antes de tomar sua decisão. E lembre-se também que os que hoje acusam o presidente Lula de ser contra a liberdade de imprensa poderão ser os censores de amanhã.



Com Márcia Peltier no programa Jogo do Poder


Com Heródoto Barbeiro no Roda Viva


Leia também:
- Trololó na Cultura;
- Razões para não votar em Serra - promessas fajutas.

domingo, 10 de outubro de 2010

Dilma, mostre que é de briga


Por Mino Carta na Carta Capital

O Brasil merece a continuidade do governo Lula em lugar da ferocidade dos eleitores tucanos

As reações de milhares de navegantes da internet envolvidos na celebração dos resultados do primeiro turno como se significassem a derrota de Dilma Rousseff exibem toda a ferocidade – dos súditos de José Serra. Sem contar que a pressa de suas conclusões rima sinistramente com ilusões.

Escrevi ferocidade, e não me arrependo. Trata-se de um festival imponente de preconceitos e recalques, de raiva e ódio, de calúnias e mentiras, indigno de um país civilizado e democrático. É o destampatório de vetustos lugares-comuns cultivados por quem se atribui uma primazia de marca sulista em relação a regiões- entendidas como fundões do Brasil. É o coro da arrogância, da prepotência, da ignorância, da vulgaridade.

É razoável supor que essa manifestação de intolerância goze da orquestração tucana, excitada pelo apoio maciço da mídia e pelos motes da campanha serrista. Entre eles, não custa acentuar, a fatídica intervenção da mulher do candidato do PSDB, Mônica, pronta a enxergar na opositora uma assassina de criancinhas. A onda violeta (cor do luto dos ritos católicos) contra a descriminalização do aborto contou com essa notável contribuição.

Ocorre recordar as pregações dos púlpitos italianos e espanhóis: verifica-se que a Igreja Católica não hesita em interferir na vida política de Estados laicos. Não são assassinos de criancinhas, no entanto, os parlamentares portugueses que aprovaram a descriminalização do aborto, em um país de larguíssima maioria católica. É uma lição para todos nós. Dilma Rousseff deixou claro ser contra o aborto “pessoalmente”. Não bastou. Os ricos têm todas as chances de praticar o crime sem correr risco algum. E os pobres? Que se moam.

A propaganda petista houve por bem retirar o assunto de sua pauta. É o que manda o figurino clássico, recuar em tempo hábil. Fernando Henrique Cardoso declarava-se ateu em 1986. Mudou de ideia depois de perder a Prefeitura de São Paulo para Jânio Quadros e imagino que a esta altura não se abstenha aos domingos de uma única, escassa missa. Se não for o caso de comungar.

A política exige certos, teatrais fingimentos. Não creio, porém, que os marqueteiros nativos sejam os melhores mestres em matéria. Esta moda do marqueteiro herdamos dos Estados Unidos, onde os professores são de outro nível, às vezes entre eles surgem psiquiatras de fama mundial e atores consagrados. Em relação ao pleito presidencial, as pesquisas falharam e os marqueteiros do PT também.
Leio nesses dias que Dilma foi explicitamente convidada por autoridades do seu partido a descer do salto alto. Se subiu, de quem a responsabilidade? De todo modo, se salto alto corresponde a uma campanha bem mais séria e correta do que a tucana, reconhecemos nela o mérito da candidata.

Acaba de chegar o momento do confronto direto, dos debates olhos nos olhos. Ao reiterar nosso apoio à candidatura de Dilma Rousseff, acreditamos, isto sim, que ela deva partir firmemente para a briga, o que, aliás, não discreparia do temperamento que lhe atribuem. Não para aderir ao tom leviano e brutalmente difamatório dos adversários, mas para desnudar, sem meias palavras, as diferenças entre o governo Lula e o de FHC. Profundas e concretas, dizem respeito a visões de vida e de mundo, e aos genuínos interesses do País, e a eles somente. Em busca da distribuição da riqueza e da inclusão de porções cada vez maiores da nação, para aproveitar eficazmente o nosso crescimento de emergente vitorioso.

CartaCapital está com Dilma Rousseff porque é a chance da continuidade e do aprofundamento das políticas benéficas promovidas pelo presidente Lula. E também porque o adágio virulento das reações tucanas soletra o desastre que o Brasil viveria ao cair em mãos tão ferozes.

P.S. Bem a propósito: a demissão de Maria Rita Kehl por ter defendido na sua coluna do Estado de S. Paulo a ascensão social das classes mais pobres prova que quem constantemente declara ameaçada a liberdade de imprensa não a pratica no seu rincão.

Máquina conservadora em ação: bispos católicos têm novo manifesto anti Dilma

Reproduzo abaixo um artigo de autoria do jornalista Rodrigo Vianna, publicado em seu blog.


Há quem acredite, ainda, que eleger Dilma ou Serra não faz tanta diferença assim.

Serra já deu todas as demonstrações de que vai bater da “medalhinha pra cima” – como se dizia na época em que eu jogava de lateral-direito (e batia da medalhinha pra cima, aliás). Com Serra estão a extrema-direita militar, as igrejas evangélicas mais conservadores, a Opus Dei, a TFP, a ala mais nefasta do novo catolicismo e os interesses econômicos de quem quer interromper a política de independência econômica e diplomática do Brasil.

Essa turma não brinca em serviço. Acabo de receber a seguinte mensagem, de uma pessoa muito bem informada sobre os bastidores da CNBB:

Rodrigo

Informação quente e urgente… Um bispo de direita tentou aprovar no conselho-geral da CNBB um manifesto ultra conservador, mas a plenária não apoiou.

Dai, os bispos da Regional Sul da CNBB resolveram por conta própria fazer um folheto igual. O Dom Demétrio escreveu um texto denunciando esse novo panfleto feito pela regional.

Por causa dessa reação do Dom Demétrio, a CNBB soltou a nota oficial de ontem, você deve ter visto.

O PSDB soube do panfleto da regional sul, e MANDOU IMPRIMIR 2 MILHÕES DE CÓPIAS DO MESMO PARA DISTRIBUIR NAS ESCOLAS CATÓLICAS !

Acho que isso deveria ser difundido… Já foram distribuídos, pelo que soube.

A fonte é de um diretor de escola católica das mais tradicionais.”

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Imaginem se Serra ganhar graças a essa onda. O que será o governo dele? Um vale-tudo em que a Globo, a Veja, os ruralistas, a direita católica, os mercadistas mais reacionários, os demo-tucanos derrotados nas urnas (e loucos para uma vingança contra “essa raça” de lulistas) vão dominar o Estado.

Diante disso, a pergunta: o PT vai continuar jogando feito seleção do Parreira? Vai tocar a bola de lado, esperando o tempo passar?

O programa da Dilma, na reestréia do horário eleitoral, foi muito bem feito. O de Serra também, diga-se (apesar de lamentável, pela exploração do tema do aborto). Tecnicamente, Dilma levou alguma vantagem porque o programa dela foi mais bem acabado, com um toque mais autoral da turma de João Santana. Ok. Tudo ótimo.

Acontece que a eleição não será decidida no horário eleitoral. Lula e o PT acostumaram-se a avançar sem politização. Tudo feito sem choque, dissolvendo os conflitos, aparando as arestas, chamando um ou outro empresário de comunicação pra pedir: “vocês estão pegando muito pesado, vamos maneirar…”.

Pois bem. Isso não vai da certo. O que Dilma e Lula precisam fazer é partir para o ataque. Até porque o tempo de TV no horário político é o mesmo para Serra e Dima. Serra tem todo o resto: “Veja”, “Folha”, Globo e as Igrejas a pautar o Brasil com a pauta que interessa a Serra.

Como equilibrar esse jogo?

Não é com marquetagem, mas com povo na rua.

Acabo de ler, no Azenha, que Jacques Wagner (governador eleito da Bahia) já percebeu que o caminho é esse.

Lula quer a comparação entre dois polos: FHC/Serra X Lula/Dilma. Serra, que não é burro, pautou Brasil pra outro debate. E, convenhamos, a pauta virou pro lado que interessa a Serra.

Enquanto Dilma aposta na TV, de forma leve, Serra joga tudo na máquina conservadora: panfletos, missas, manchetes, boatos…

Aliás, leio na “CartaCapital” que a campanha petista reconheceu que “demorou a reagir aos boatos no primeiro turno”. Demorou porque só consulta marqueteiros e pesquisas qualitativas.

Aqui nese blobg em meados de setembro, eu postei o primeiro alerta sobre a boataria religiosa, que me chegou de um militante de esquerda do Rio Grande do Sul. Passei dias e dias falando sobre isso. Vários amigos blogueiros, confiando no comando da campanha petista e nos marqueteiros, diziam: você é pessimista demais, alarmista, essa eleição está ganha.

O resultado está ai. Há quem diga: faltaram apenas 3 milhões de votos. É fato. O problema é que Serra pode sangrar Dilma com a máquina conservadora que está a seu serviço. Máquina que, nada me tira da cabeça, tem entre seus operadores gente de fora do Brasil.

Nos anos 60, achavam que era paranóia dizer que a CIA queria derrubar Jango. A turma mais à esquerda dizia: “Jango é moderado, não precisa de CIA pra derrubar o Jango, os Estados Unidos não iam se meter nisso”. O professor Moniz Bandeira provou, na reedição de seu livro sobre o Governo João Goulart, que os EUA enviaram pra cá centenas e agentes nos dois anos que antecederam a queda de Jango.

A articulação pra derrubar Lula/Dilma também é grandiosa. Também ouço muita gente- de esquerda – a dizer: Lula é moderado, fez um overno morno, pra que iam querer derrubar o lulismo?

Bem, o fato é que esse operação em curso envolve interesses economômicos gigantescos (o pré-sal), envolve reduzir Brasil ao papel de Colônia como no governo de FHC, envolve calar os movimentos sociais, e envolve por fim – ao reconquistar o Brasil - asfixiar outros governos progressistas da América do Sul.

Esse é o jogo – pesado!

Dilma, Lula e seus aliados acham que vão ganhar só tocando a bola de lado?

É hora de povo na rua. Marketing é bom. Internet e blogs têm o seu papel. Mas eleição (ainda mais numa guerra como essa) ganha-se na rua.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sobre Dilma e aborto

O mestre Goebbels deixou discípulos na grande mídia e na internet


Por Cléber Sérgio de Seixas


Está rolando uma campanha de baixo nível na internet a respeito de uma suposta declaração da candidata Dilma Rousseff a favor do aborto, além de outra suposta declaração da mesma na qual teria dito que nem mesmo Jesus Cristo tiraria dela a vitória nas eleições. Infelizmente, muitos néscios e incautos tem reverberado tais boatos sem antes checar a fonte.

Assistindo ao vídeo relativo à acusação do suposto favorecimento de Dilma à questão do aborto, é possível constatar que em nenhum momento ela diz ser favorável a tal prática, e sim que a mesma seja tratada como questão de saúde pública, ou seja, que seja dado tratamento àquelas que por livre e espontânea vontade, se decidam por ela. O Estado entraria com os meio necessários para que métodos "medievais" não sejam utilizados por mulheres de baixa renda, métodos estes que resultam em morte na maioria das vezes (cliquem aqui para assistir ao vídeo que fomentou a boataria).

A segunda declaração, em cujo teor a candidata petista teria dito que somente Jesus tiraria dela a vitória, simplesmente não foi feita e não existe nenhum vídeo comprovando-a. Assim sendo, não vou tecer comentários a respeito de algo inexistente.

É importante ressaltar que tal nível de baixarias nos remete à campanha de 1989, quando a campanha e Collor de Mello fez pesadas e falsas acusações ao candidato Lula, que naquele pleito fora derrotado. É triste ver, de novo, a eleição pautada por baixarias e acusações sem prova. Acredito que a decisão por um ou outro candidato deve estar embasada em propostas para o Brasil seguir crescendo, não em lendas urbanas, calúnias e boatarias.

Em 31 de outubro, vote em conformidade com as propostas de seu candidato, não em boatos. Parafraseando Goebbels, "uma mentira cem vezes dita, torna-se verdade". Reflitam sobre isso. Reflitam também sobre uma frase de minha autoria: "navegar na internet é uma viagem que resulta em mais náufragos que navegantes".

A respeito das lendas, convido-os a assistir ao vídeo abaixo, no qual o segundo deputado mais votado em São Paulo, Gabriel Chalita - ex-secretário de educação do governo Alckmin, católico praticante - desfaz alguns boatos a respeito de Dilma nessa campanha. Eis o link com a entrevista recente de Chalita.

http://www.youtube.com/watch?v=xS2pv2z8BP4

Caso discordem deste post e saibam qual é o link do vídeo onde Dilma se declara a favor do aborto e/ou onde ela afirma que nem Jesus Cristo tira dela esta eleição, fico grato se me informarem. Do contrário, peço encarecidamente que divulguem este texto da forma que acharem melhor.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marina Silva pode reforçar o projeto do novo Brasil

Por Leonardo Boff na Adital

O Brasil está ainda em construção. Somos inteiros, mas não acabados. Nas bases e nas discussões políticas sempre se suscita a questão: que Brasil finalmente queremos?

É então que surgem os vários projetos políticos elaborados a partir de forças sociais com seus interesses econômicos e ideológicos com os quais pretendem moldar o Brasil.

Agora, no segundo turno das eleições presidenciais, tais projetos repontam com clareza. É importante o cidadão consciente dar-se conta do que está em jogo para além das palavras e promessas e se colocar criticamente a questão: qual dos projetos atende melhor às urgências das maiorias que sempre foram as "humilhadas e ofendidas" e consideradas "zeros econômicos" pelo pouco que produzem e consomem.

Essas maiorias conseguiram se organizar, criar sua consciência própria, elaborar o seu projeto de Brasil e digamos, sinceramente, chegaram a fazer de alguém de seu meio, Presidente do país, Luiz Inácio Lula da Silva. Foi uma virada de magnitude histórica.

Há dois projetos em ação: um é o neoliberal ainda vigente no mundo e no Brasil apesar da derrota de suas principais teses na crise econômico-financeira de 2008. Esse nome visa dissimular aos olhos de todos, o caráter altamente depredador do processo de acumulação, concentrador de renda que tem como contrapartida o aumento vertiginoso das injustiças, da exclusão e da fome. Para facilitar a dominação do capital mundializado, procura-se enfraquecer o Estado, flexibilizar as legislações e privatizar os setores rentáveis dos bens públicos.

O Brasil sob o governo de Fernando Henrique Cardoso embarcou alegremente neste barco a ponto de no final de seu mandato quase afundar o Brasil. Para dar certo, ele postulou uma população menor do que aquela existente. Cresceu a multidão dos excluídos. Os pequenos ensaios de inclusão foram apenas ensaios para disfarçar as contradições inocultáveis.

Os portadores deste projeto são aqueles partidos ou coligações, encabeçados pelo PSDB que sempre estiveram no poder com seus fartos benesses. Este projeto prolonga a lógica do colonialismo, do neocolonialismo e do globocolonialismo, pois sempre se atém aos ditames dos países centrais.

José Serra do PSDB representa esse ideário. Por detrás dele estão o agrobusiness, o latifúndio tecnicamente moderno e ideologicamente retrógrado, parte da burguesia financeira e industrial. É o núcleo central do velho Brasil das elites que precisamos vencer pois elas sempre procuram abortar a chance de um Brasil moderno com uma democracia inclusiva.

O outro projeto é o da democracia social e popular do PT. Sua base social é o povo organizado e todos aqueles que pela vida afora se empenharam por um outro Brasil. Este projeto se constrói de baixo para cima e de dentro para fora.

Que forjar uma nação autônoma, capaz de democratizar a cidadania, mobilizar a sociedade e o Estado para erradicar, a curto prazo, a fome e a pobreza, garantir um desenvolvimento social includente que diminua as desigualdades. Esse projeto quer um Brasil aberto ao diálogo com todos, visa a integração continental e pratica uma política externa autônoma, fundada no ganha-ganha e não na truculência do mais forte.

Ora, o governo Lula deu corpo a este projeto. Produziu uma inclusão social de mais de 30 milhões, e uma diminuição do fosso entre ricos e pobres, nunca assistido em nossa história. Representou em termos políticos uma revolução social de cunho popular, pois deu novo rumo ao nosso destino. Essa virada deve ser mantida, pois faz bem a todos, principalmente às grandes maiorias, pois lhes devolveu a dignidade negada.

Dilma Rousseff se propõe garantir e aprofundar a continuidade deste projeto que deu certo. Muito foi feito, mas muito falta ainda por fazer, pois a chaga social dura já há séculos e sangra.

É aqui que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. Ela mostrou que há uma faceta significativa do eleitorado que quer enriquecer o projeto da democracia social e popular. Esta precisa assumir estrategicamente a questão da natureza, impedir sua devastação pelas monoculturas, ensaiar uma nova benevolência para com a Mãe Terra. Marina em sua campanha lançou esse programa. Seguramente se inclinará para o lado de onde veio, o PT, que ajudou a construir e agora a enriquecer. Cabe ao PT escutar esta voz que vem das ruas e com humildade saber abrir-se ao ambiental. Sonhamos com uma democracia social, popular e ecológica que reconcilie ser humano e natureza para garantir um futuro comum feliz para nós e para a humanidade que nos olha cheia de esperança.