terça-feira, 29 de setembro de 2009

Governo de Honduras é golpista e não interino, dizem especialistas


Reportagem de Maurício Tavarese


A falta de devido processo legal, a inexistência de apoio da comunidade internacional e a origem em um levante para remover um chefe de Estado legitimamente eleito só permitem chamar o governo de Honduras de golpista, não de interino, afirmam especialistas consultados pelo UOL Notícias. A atual administração do país centro-americano acusa o presidente deposto, Manuel Zelaya, de tentar violar a Constituição para buscar a renovação de seu mandato presidencial.

A administração liderada por Roberto Micheletti afirma que Zelaya está sujeito a ser preso se deixar a Embaixada do Brasil por ter violado a 4ª Cláusula da Constituição hondurenha, segundo a qual tentativas de mudar a Carta implicam perda imediata do cargo público. Os golpistas acusam o presidente deposto de abuso de poder e de traição à pátria.

Para os analistas, ainda que Zelaya tenha tentado promover um referendo para mudar a Constituição hondurenha, nada nela prevê que o mandatário seria expulso do país, o que reforça os contornos de golpe de Estado na ação promovida pelo grupo de Micheletti. Além disso, dizem eles, pesa contra o regime de Tegucigalpa a ausência de reconhecimento não apenas por outros países, mas também pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização dos Estados Americanos (OEA).

Os especialistas ouvidos foram unânimes ao considerar que chamar o governo de Micheletti de interino seria uma concessão a uma gestão com traços autoritários - inclusive com suspensão de direitos constitucionais e censura à imprensa - e que carece de respaldo globalmente. Nenhum governo do mundo até o momento reconheceu o regime estabelecido em Tegucigalpa após a deposição de Zelaya, que desde a semana passada está abrigado na Embaixada do Brasil na capital do país.

"Honduras faz parte da Convenção Americana dos Direitos Humanos e ali está claro que em todo processo legal deve haver direito ao contraditório. Mesmo uma pessoa acusada de um crime tem o direito de defesa. Isso não foi observado e diante de uma suposta violação decidiu-se simplesmente tirar o presidente do país e instituir outro regime. Isso permite dizer que há lá um governo golpista", afirmou Pedro Dallari, professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Especialista em questões latino-americanas, o venezuelano Rafael Villa diz que a administração de Micheletti não pode ser chamada de ditadura porque mal acabou de se instalar no poder, mas afirma que se trata de um governo golpista, que também pode ser chamado de regime de fato. "A linha divisória entre governo de fato e governo golpista não existe. Ambos emergem fora das regras estabelecidas e que dão legitimidade. Ambos supõem governo fora de legalidade e carentes de legitimidade. É esse o caso de Honduras", afirmou.

Exemplos internacionais

O professor da USP diz que a falta de reconhecimento internacional é um grande elemento que reforça o caráter golpista do grupo hondurenho. Ele lembrou a situação do Haiti, que afastou o então presidente Jean-Bertrand Aristide em meio a uma revolta popular e o isolou na África do Sul, em 2004. Depois de chegar ao continente africano, ele alegou que não tinha renunciado e que os Estados Unidos o tinham sequestrado.

"No caso do Haiti houve uma espécie de acordo entre países da comunidade internacional, um reconhecimento da situação de fato que se deu contra Aristide. Enquanto no caso do governo golpista de Honduras, em maior ou menor intensidade há apenas condenação. Tanto é que o governo golpista está desamparado nessa crise e está tomando medidas que reforçam esse caráter, como impedir a entrada de diplomatas da Organização dos Estados Americanos (OEA). Não é possível chamar de interino um governo que não aceita organizações internacionais", disse.

Para Gilberto Sarfati, professor das Faculdades Rio Branco e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o momento decisivo para o regime de Micheletti ganhar a alcunha de golpista é o sequestro de Zelaya e sua retirada do país. "Qualquer legitimidade foi perdida aí. Se o presidente estava aprontando e havia uma previsão institucional de que poderia perder o cargo se tentasse violar a Carta Magna, poderia haver alguma legitimação. Mas o que aconteceu não foi isso, foi uma remoção forçosa do poder. Isso só pode ter o nome de golpe de Estado", afirmou.

Além disso, diz o professor, se a Constituição hondurenha previsse todos esses passos - incluindo a expulsão de Zelaya do país - haveria mais justificativa para o afastamento de Zelaya do poder. Como isso não existe no texto, a ordem institucional de Honduras foi rompida.

"Na Turquia a Constituição prevê que se um partido muçulmano chegar ao poder e quiser aplicar algo da sharia [lei islâmica] pode ser removido. Isso aconteceu em 1997, os militares governaram um ano até chegarem as eleições. O movimento que aos nossos olhos ocidentais se assemelha a um golpe foi considerado legítimo, porque a ordem institucional foi mantida. Não foi o caso de Honduras", completou.

Fonte: UOL Notícias

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

HONDURAS: O BRASIL ACERTOU


Por Mário A. Jakobskind


O desespero da direita brasileira, hoje representada em grande escala pela mídia hegemônica e alguns políticos do gênero senso comum, é visível. No jornalismo diário os reflexos são visíveis, como no caso da embaixada brasileira em Honduras, episódio tratado de forma a confirmar que a imprensa deixou de ser quarto poder para se tornar aparelho ideológico do capital.

O despeito se reflete até nas manchetes dos jornais e alguns questionamentos dos colunistas de sempre. Um deles, que faz o gênero panfletário a favor, considerou o golpe militar que derrubou o presidente legítimo de Honduras, Manuel Zelaya, como um “golpe democrático”, um conceito que remete ao Brasil de abril de 1964 e aos editoriais dos principais jornais em apoio à derrubada do presidente constitucional João Goulart.

A mídia e políticos sem bandeira, sobretudo do Demo e do PSDB, consideram que o governo Lula agiu de forma “chavista” ao permitir o ingresso de Zelaya na representação diplomática brasileira em Tegucigalpa. O que eles queriam? Que os diplomatas entregassem ao cadafalso o presidente constitucional de Honduras?

Associados a direita encontram-se atualmente os ex-comunistas do PPS. O Deputado Roberto Freire, o tal que entregou de bandeja à Fundação Roberto Marinho os arquivos do Partido Comunista Brasileiro, e o parlamentar Raul Jungmann fizeram pronunciamentos vergonhosos, somando-se aos boquirrotos da direita que pedem a convocação do Ministro Celso Amorim no Congresso para explicar se o ingresso de Zelaya na Embaixada brasileira estava ou não acertado de antemão. Freire é um exemplo concreto de que na fauna política o pior que existe são os ex, especialmente os ex-comunistas.

Convocar Amorim, um dos principais quadros da diplomacia brasileira dos últimos tempos, não passa de uma provocação barata de políticos sem bandeira que se desesperam diante da evidência de que Lula é realmente uma liderança mundial, considerado por órgãos de imprensa insuspeitos do exterior, como a revista estadunidense Newsweek, o político mais popular do planeta.

Os brasileiros só têm de se orgulhar do posicionamento incisivo do governo Lula de condenação total do golpe militar e apoio a Manuel Zelaya, inclusive colocado com muita clareza no Conselho de Segurança das Nações Unidas pelo Ministro Celso Amorim, que aceitou os argumentos, embora a manchete de O Globo, na linha da direita, como sempre, tenha dito que “a ONU não condena no tom que o Brasil queria”. Se dependesse apenas da mídia golpista brasileira, nada teria acontecido na ONU.

A fauna de críticos despeitados da política externa do governo Lula ficaria incompleta se não fossem mencionados diplomatas que serviram ao governo FHC, entre os quais Luiz Felipe Lampreia, não ficando atrás o ex-Ministro Celso Lafer, para quem não se lembra, o cara que tirou os sapatos na alfândega dos Estados Unidos para ser revistado, isso durante a gestão que exercia no mandato do presidente Cardoso. Para eles, da mesma forma que a oposição de direita da Câmara dos Deputados e Senado, a presença de Zelaya na embaixada em Tegucigalpa prejudica o Brasil, quando acontece exatamente o contrário.

Não há como prever o desfecho do caso hondurenho, pelo menos no momento que esta reflexão estava sendo elaborada, neste domingo (27). Um fato grave que obriga o governo brasileiro a adotar uma posição ainda mais incisiva em relação aos golpistas.

O ministro-conselheiro de Negócios do Brasil em Honduras, Francisco Catunda confirmou o lançamento de gases tóxicos no local, como denunciou o Presidente Manuel Zelaya, que provocou problemas de saúde nas pessoas que lá se encontravam. Trata-se de um ato de guerra, que precisa ser respondida a altura. O que aconteceria se os golpistas hondurenhos fizessem isso na Embaixada dos Estados Unidos? O mundo ia abaixo e nesta altura do campeonato não seria surpresa se os marines estadunidenses desembarcassem por lá.

Os gases tóxicos desovados na embaixada são de fabricação israelense e entraram no país em vôos clandestinos. É preciso apurar a denúncia e punir com rigor os responsáveis, para começar um tal de Yehuda Leitner, terrorista israelense que age na América Central com o apoio da CIA e do Mossad, os respectivos serviços secretos dos Estados Unidos e Israel que derramam sangue pelo mundo.

A crise em Honduras é extremamente grave. Os golpistas sob o comando de Ricardo Micheletti não querem deixar o poder que pegaram a força. Matam, torturam e amordaçam a imprensa, segundo denúncias de entidades defensoras dos direitos humanos. Falam em eleições em novembro, algo absolutamente ilegítimo em função do clima repressivo que se abateu sobre o país. A comunidade internacional não reconhecerá quem for eleito.

É o caso de perguntar: e a saída, onde se encontra a saída? Num debate realizado na TV Cidade Livre, a TV Comunitária de Brasília, apareceu uma sugestão que poderia ser encampada pelo governo brasileiro e pela comunidade internacional: o envio imediato de capacetes azuis das Nações Unidas, como aconteceu em Timor Leste, que dariam segurança para a realização de eleições presidenciais e permitiram um ponto final ao violento esquema repressivo que se abateu sobre o povo hondurenho.

Se o governo brasileiro bancar a idéia, Lula vai ganhar mais pontos ainda no tabuleiro internacional e o Brasil, como nunca em sua história, consolidará a liderança que ocupa, não apenas na América Latina como agora em todo o mundo.

Fonte: Direto da Redação

domingo, 27 de setembro de 2009

MEU TESTEMUNHO - SEGUNDA PARTE

Cristão e comunista: é possível?

Por Cléber Sérgio de Seixas

Em minha adolescência fui um rapaz tímido que, em conseqüência, teve poucas amizades. Lá pelos 16 anos, em plena crise da adolescência, indagações clássicas vieram à tona, tais como “de onde viemos e para onde vamos?” ou “qual o tamanho do universo?” ou “quando o que conhecemos como tempo iniciou?” ou mesmo “se Deus criou o universo, quem criou Deus?”. Foi no contexto destas indagações que conheci algumas pessoas que pregaram o evangelho para mim. Falaram de uma Igreja que não tinha nome, já que o termo Igreja (do grego ekklesia, que quer dizer “chamados para fora”) em si já é suficiente para denotar um grupo de pessoas separadas do mundo por Deus, devendo assim ter um viver diferente das pessoas mundanas, qual seja, um viver mais justo. Converti-me e abracei aquela causa por 17 anos, tendo me impulsionado mais o quesito de justiça e fraternidade, ancorado na igualdade, que os anseios de salvação individual.

Dediquei toda a minha juventude àquela causa. Não direi aqui o nome da Igreja por respeito e estima aos que lá ainda se reúnem, dentre os quais se encontram meus sogros, e com os quais mantenho relativa amizade. Fiz de tudo um pouco naqueles anos: subi em montes à noite para orar; cooperei com os irmãos nos mais variados serviços, do cuidado com crianças, passando pelos jovens, chegando a servir na parte financeira da Igreja, além de ter ministrado mensagens por várias vezes. Neste tempo procurei ser o mais fiel possível, tendo pautado minha vida e minhas decisões – até mesmo profissionais e sentimentais – sempre por aquilo que eu acreditava ser a vontade de Deus e da Igreja. Nesse ínterim, conheci a mulher que se tornou minha esposa, a que tanto amo e estimo e que veio a se constituir em minha companheira de convicções sócio-políticas e afins.

No entanto, durante todo o tempo em que me dedicava à vida na Igreja, algumas interrogações sempre me atormentavam e não tinham resposta nem na Bíblia nem no falar dos irmãos. Uma delas é a questão do papel da mulher, colocada na Bíblia como o ser humano que precisa se submeter ao marido, cuidar do mesmo, ser-lhe submissa quase incondicionalmente, cuidar da casa e dos filhos etc porque assim diz a Bíblia. Se tomada ao pé da letra, a concepção bíblica para a mulher é aquela que foi cantada nos versos de Mário Lago, qual seja, “Amélia que era mulher de verdade”, aquela que não tinha menor vaidade e achava bonito não ter o que comer.

Outra questão que sempre me assolou é a da justificação pela fé e não pelas obras. Assim posto, as obras pelas obras seriam obras mortas, obras da carne. No entanto a epístola de Tiago nos diz o seguinte: “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Ti 2:14). Em outro trecho, Tiago ilustra com o exemplo de Abraão: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou...” (Ti 2:21,22). Por fim Tiago finaliza sua posição sobre o assunto da seguinte forma: “Verificais que uma pessoa é justificada por suas obras e não por fé somente (...) Porque , assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta”. Diante dos trechos supramencionados, podemos concluir que o simples fato de crer em Jesus, tendo uma mudança de vida e de caráter, se for uma experiência desacompanhada das obras (desde o sentido da justeza de caráter, exteriorizada na justiça dos atos, até a prática de boas obras para com o próximo, incluída aí a caridade), tornar-se-á uma fé vazia de sentido.

Assim interpretando, digo, com toda experiência de 17 anos dedicados à Igreja e tendo sempre buscado ter um viver cristão fervoroso, que há pessoas para as quais a salvação se resume em participar de reuniões cristãs, cantar belos hinos, motivar-se com as belas pregações e com o calor dos cultos. O outro lado da moeda é relegado, ou seja, aquele que presume que a fé tem que redundar na solidariedade, na humildade, no respeito ao próximo, no amor à causa da justiça, incluindo aí a social, no altruísmo, no pedir perdão ao próximo quando da prática de ofensas (mesmo em se tratando do pai pedir perdão ao filho por ofensas infligidas). Em outras palavras, quando se trata de fazer obras, muitos cristãos se abrigam confortavelmente debaixo da sombra da frondosa árvore em que transmutaram o termo fé, ou seja, quando se quer fugir das obras, apela-se à fé. Explico: se o cristão não é perfeito, tendo seus defeitos, mas possui fé, Deus há de, um dia, aperfeiçoá-lo. Por hora Deus o perdoa e ele prossegue em sua trajetória cristã, mesmo com os erros advindos dos defeitos se repetindo. Se somos edifícios inacabados e em nossa fachada se encontra uma placa com os dizeres “estamos em obras”, devemos perguntar para quando está previsto o término das mesmas. Conheço cristãos cujas obras ainda estão inacabadas e que ainda persistem no discurso “somos assim mesmo, mas Deus nos ama, nos perdoa e nos usa do jeito que somos”. Passam-se 10, 20, 30 anos e o indivíduo continua em obras, com os mesmos desvios de caráter e se justificando da mesma forma. Repito o que disse no texto O Maior Comunista é Deus, que não se trata de cobrar a perfeição de ninguém e sim de condenar o uso da condição de edifício inacabado para continuar errando. Feitas estas considerações pergunto: o que vem primeiro, a fé ou as obras? Deixo a resposta a cargo da consciência dos me lêem.

Em meio às várias interrogações que me assolavam e durante os anos mais prolíferos de minha trajetória como cristão praticante, conheci os clássicos da literatura socialista e comunista. Li O Capital de Marx, o Manifesto Comunista de Marx e Engels e vários outros livros da mesma vertente, de Gramsci a Lênin. Após tais leituras, convenci-me que o melhor sistema econômico e social para a humanidade é o socialismo e sua progressão – ou “definhamento”, tal qual assevera Lênin – o comunismo.

Contudo muitos cristãos vão dizer, arraigados que estão no mais profundo preconceito e ignorância, que o comunismo é “coisa do diabo” ou “os comunistas comem crianças”. Para fazerem tais afirmações, podem estar se baseando no socialismo tal qual existiu em países como a extinta União Soviética, na Alemanha Oriental, na China de Mao, no Camboja do Khmer Vermelho, vertentes do que chamo de deturpação do que há de mais elevado no socialismo. Se assim for, concordarei com eles em parte, visto que tenho conhecimento do que ocorreu nessas experiências socialistas fracassadas. A meu ver, porém, o socialismo, em sua essência - que, diga-se de passagem, é anterior a Marx e ao ateísmo - é um sistema muito mais próximo do que acredito ser a vontade de Deus do que o capitalismo, simplesmente por que o primeiro tem como base os princípios de igualdade, altruísmo e solidariedade. O capitalismo – que minha esposa apelidou de “capetalismo” - por seu turno, se baseia nos princípios de competição, acumulação e egoísmo, concentrando todas as suas energias no individual em detrimento do social.

Foi no rastro dessas considerações que deixei o meio cristão e hoje me encontro desvinculado de qualquer instituição cristã. O rompimento não foi devido a nenhuma contenda com quem quer que seja, embora tenha lá os meus desafetos. Rompi com os paradigmas passados por não acreditar mais que eles detenham as respostas que procuro com relação à justiça social. Em decorrência desta escolha, tanto eu quanto minha esposa, sofremos hoje uma espécie de apartheid por parte daqueles com quem outrora mantínhamos contato, ou seja, os membros da Igreja. Fomos colocados pelos irmãos numa espécie de quarentena pelo fato de pensarmos de forma um pouco diferente – mas não totalmente – do que pensávamos antes. Não deixei de ser um cristão assim como não pretendo deixar de ser um comunista. Não deixarei de ser um cristão por causa dos preceitos marxistas que identificam Deus com uma invenção humana, da mesma forma que não deixarei de ser comunista só porque a maioria diz que o comunismo é coisa do demônio. Foi nessa hibridez de pensamentos que escrevi o texto O Maior Comunista é Deus. Uma espécie de desabafo e confissão de minhas atuais crenças.

Se estar do lado dos oprimidos, dos que não têm, dos que são espoliados dia a dia pelos poderosos de plantão, me trará como salário a condenação, estou disposto a arcar com as consequências, fazendo-o com a consciência de quem almeja a justiça, a paz, a liberdade, o ser não só para um número reduzido de indivíduos, os que são, mas para a maioria da humanidade, os que hoje não são ou nada são.

Portanto, a minha trajetória é exatamente oposta à do leitor de Portugal José Fialho, a quem chamo agora de companheiro e irmão pelo fato de almejarmos a mesma coisa, porém de formas diferentes. Uma das diferenças cruciais entre cristãos e comunistas é quanto à dimensão espaço-temporal na qual será implantada a justiça – para os cristãos será numa dimensão chamada pelo apóstolo João de Nova Jerusalém, novos céus e nova terra onde habitará justiça, e para os comunistas será numa etapa superior chamada de comunismo, onde não mais existirão classes a oprimir. No entanto, cristãos e comunistas podem se abraçar, dar as mãos, caminharem juntos, lutarem juntos e comungarem juntos se procurarem um ponto em comum. E este denominador comum, ou seja, o que ambos almejam, se resume em uma só palavra: justiça.

sábado, 26 de setembro de 2009

MEU TESTEMUNHO - PRIMEIRA PARTE

Cartaz dos anos 30 onde se afirma que o comunismo despreza a religião

Por Cléber Sérgio de Seixas

Confesso aos leitores deste blog que estou meio sem tempo para escrever no mesmo, visto que iniciei minha faculdade no mês passado, o que me obriga a dividir meu tempo entre trabalho, faculdade e manter este blog. Já pensei até em desistir, mas não o farei tão facilmente, visto que já me sinto compromissado com os que me lêem, apesar de saber que não sou nenhum grande escritor nem expert em nada. Agradeço àqueles que direta ou indiretamente têm dado sua contribuição para que meu ânimo continue em alta no que tange à manutenção deste blog.

Estou há dias esperando uma oportunidade para dar uma resposta ao comentário do leitor José Fialho. Só o faço agora, atrasado, por força das circunstâncias, que não me têm sido favoráveis, como afirmei anteriormente. Mas devo fazê-lo por ter ficado extremamente emocionado ao saber que pessoas do outro lado do mundo, especificamente em Portugal, estão lendo este modesto blog.

No dia 17 de maio deste ano postei um artigo intitulado O Maior Comunista é Deus. Neste artigo eu afirmo que há mais coincidências do que divergências entre o cristianismo e o comunismo do que supõe tanto cristãos quanto comunistas ortodoxos. Afirmei também que “Creio, hoje, que uma crença, seja qual for o segmento religioso, jamais pode servir como elemento justificador de qualquer tipo de injustiça”. Vou dar um exemplo hipotético. Suponha um cristão que viva numa cidade onde o prefeito pratica corrupção e age de forma a prejudicar toda a municipalidade. Se o cristão for um fundamentalista, ou seja, alguém cujas ações são sempre fundamentadas ao pé da letra bíblica, mesmo sendo direta ou indiretamente prejudicado pelas ações do prefeito corrupto, ele deverá guiar-se, por exemplo, pelo versículo que diz que “todo homem esteja sujeito às autoridades superiores, porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm13:1). Portanto, seguindo o ponto de vista do apóstolo Paulo, mesmo que o munícipe cristão esteja absolutamente certo jurídica e políticamente, deverá submeter-se – não rebelando-se - ao prefeito pois ele é “ministro de Deus para teu bem” (Rm13:4). Em outras palavras, o cristão e cidadão deverá suportar, mesmo que de dentes cerrados, as consequências da corrupção praticada pela mais alta instância do poder executivo no município. Outro exemplo seria o de um funcionário que suporta por anos a fio os desmandos e maltratos do patrão porque este último seria um instrumento nas mãos de Deus para sua disciplina.

Não quero me alongar aqui em questões de exegese bíblica, mas afirmo que, independente da interpretação, não creio que seja vontade de Deus que a opressão seja justificada pela interpretação bíblica. Até que ponto a bíblia deve ser um conjunto de cânones a serem obedecidos sem questionamentos é algo a ser repensado e reconsiderado pelos cristãos, seja qual for a vertente a que pertençam.

Cartaz dos anos 30 em que o comunismo mata a liberdade

Em resposta ao artigo O Maior Comunista é Deus, o caro leitor José Fialho, postou um comentário que reproduzo abaixo na íntegra. Em seguida prosseguirei em meu raciocínio.

"Quando li este artigo, minha alma vibrou de alegria, qual copo de água fresca, após caminhada forçada debaixo de sol ardente. Vivo nos dias de hoje, uma procura incessante e incansável de harmonização entre o passado, o presente e o futuro. Fui durante anos marxista/leninista convicto, militante ativo, companheiro fiel, camarada solidário, político autêntico, ateu por conseqüência doutrinária, irresignado à injustiça e à crueldade religiosa. Hoje convertido, professando a religião Evangélica Baptista, na tentativa de encontrar um caminho que me aproxime da santidade de Jesus Cristo, afirmo convictamente ter encontrado a essência da vida, em Jesus. Sou hoje, afirmo-o categoricamente, um homem novo, diferente para melhor, pois vivo com Deus no coração. Mas na essência, continuo como sempre fui, humanista, solidário, fraterno, fiel, companheiro, amigo... Descobri em suma, características que ja me eram inerentes, enquanto comunista, que são apanágio do irmão cristão de hoje. Descobri, pois, que são muito mais as características que unem comunismo e cristianismo, do que as que opõem. Começava a notar, porém, alguma perplexão quando me afirmava comunista cristão, por parte dos irmãos. Uns, talvez procurando uma saída épica para a situação, achavam o máximo, um comunista convertido-que grande milagre-, outros achando que uma coisa não combinava com a outra, provavelmente achando uma maluquice do Português, e outros ainda (comunistas) achando que tinha pirado de vez. Bem a verdade, é que como ilustrado no texto, nem todos os comunistas se opunham ao cristianismo, e muito menos ferozmente, como foi larga e erradamente difundido, a par com outras enormidades do dtipo "comer criancinhas ao pequeno almoço". Mas não foi só em Cuba que a Igreja Católica e os Cristãos ombrearam lado a lado, com o comunismo. Em Portugal onde fui Prefeito e diretor local do Partido Comunista Português durante vinte anos, não só convivemos pacifica e cordialmente com os cristãos, como construímos conservamos, e melhoramos muitas igrejas, como colaboramos com a obra social e religiosa delas. Além de que mais de 30% dos membros e militantes comunistas locais serem cristãos. Tendo convivido e participado desta realidade, nada mais natural, para mim, afirmar alegremente em simultâneo a minha condição de comunista cristão, ou cristão comunista, dando continuidade pratica a uma colocação ativa de partilha, solidariedade, companheirismo, fidelidade e fraternidade, temperada agora, com a crença nas promessa de um Deus Vivo, onipresente, onipotente, misericordioso, bondoso e amoroso. Também como o irmão, tenho a certeza que Deus além de nos premiar com a salvação e a vida eterna, qual sublime promessa, para o homem pecador, nos quer igualmente proporcionar, uma vida mais fraterna, mais justa e solidária, mais equitativa, mais confortável e feliz, aqui na terra. Como porém, a nossa "passagem" por esta terra, está subordinada ao "livre arbítrio" de que todos fomos dotados, cabe-nos a nós "seres viventes", criados para dominar sobre toda a terra, mas não uns sobre os outros, encontrar a forma de governo ideal para obter esse desiderato. Eu acredito, que a seguir à democracia, a forma de organização política mais consentânea com a felicidade humana é o comunismo na sua forma pura, temperado com as humanidades cristãs. Não se diga, que isso não existe, que é mera utopia, e que no cerne o comunismo é um regime cruel, despótico e escravizante, porque algumas tentativas falhadas, nas quais não me revejo nem nunca me revi, antes pelo contrário condeno, conspurcaram, uma filosofia essencialmente humanitária, redistributiva e equitativamente justa. Da mesma forma que algumas práticas cristãs, envergonharam e envergonham os irmãos católicos, pela sua crueldade e nepotismo, mas nem por isso deixam de se afirmar como um ideal cristão para a salvação do homem".

A experiência de José Fialho é inversa à minha, mas não antagônica em essência. Vou tentar ser breve contando meu testemunho, tomando o cuidado de fazê-lo com a maior humildade possível.

O BRASIL NUM MATO SEM CACHORRO


Por Celso Lungaretti


Manuel Zelaya foi deposto por um golpe dsfechado pelas Forças Armadas hondurenhas, com apoio da Corte Suprema e da maioria do Congresso.

A nenhum comentarista parece ter ocorrido que o paralelo histórico mais apropriado é a tentativa de usurpação do poder do vice-presidente João Goulart em agosto/1961.

Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, os ministros militares e as forças reacionárias no Congresso Nacional pretenderam suprimir o direito do primeiro na linha sucessória, Goulart. Preferiam que o poder ficasse com o segundo substituto legal: o presidente da Câmara dos Deputados, Pascoal Ranieri Mazzilli.

A virada de mesa foi frustrada pela decidida reação do governador gaúcho Leonel Brizola, que entrincherou-se no Palácio Piratini e passou a exortar o povo à resistência através da rádio (a chamada rede da legalidade); pela rejeição de sargentos e cabos das Forças Armadas ao golpe a que havia aderido a maioria dos oficiais; e pela tomada de posição ao lado da democracia do III Exército, baseado no RS, criando a ameaça de uma guerra civil.

Golpes brancos como esses dois são mais difíceis de combater do que os nitidamente totalitários, como a quartelada brasileira de 1964 e o pinochetazzo de 1973.

Quando um Castello Branco ou Pinochet assume o poder, há a certeza de que o país será submetido ao arbítrio por tempo indeterminado.

Quando quem assume é um Mazzili ou Micheletti, prometendo entregar a presidência a quem sair vitorioso num próximo pleito, há tendência à acomodação: por que mover céus e terras se a democracia foi apenas arranhada, mas não extinta?

Os golpistas brasileiros de 1961 sucumbiram à reação interna. É provável que, dependendo apenas da OEA e da ONU, ficasse tudo como estava, com Mazzili completando o mandato de Jânio Quadros.

Em Honduras a reação interna foi insuficiente para reconduzir Zelaya ao poder.

E os organismos internacionais emitiram as resoluções condenatórias de praxe, mas ficaram nisso. Seu repúdio ao golpe não implica a tomada de medidas realmente eficazes para frustrar seu real objetivo: o afastamento do presidente legítimo durante o processo eleitoral.

Ao regressar clandestinamente a Honduras e colocar-se sob a proteção da embaixada brasileira, Zelaya apostou que sua presença na pátria desencadearia a sonhada reação popular, ou os organismos internacionais tomariam vergonha na cara, ou ambos.

Negativo. Povo desarmado pouco pode fazer contra as Forças Armadas. E a recém-finda reunião do Conselho de Segurança da ONU deu um claro recado aos golpistas hondurenhos: se vocês não invadirem a embaixada brasileira, nada de mais grave lhes acontecerá.

Assim, o Brasil ficou num mato sem cachorro.

É o chamado óbvio ululante que conhecia as intenções de Zelaya e compartilhou sua aposta. Só ingênuos engolirão os protestos de inocência angelical.

Ao conceder-lhe abrigo por tempo indeterminado, sem obedecer as regras do asilo político nem impor limites à sua atuação dentro da embaixada, colocou-se numa situação vulnerável. Formalmente, o governo ilegítimo não deixa de ter alguma razão ao pedir que o Brasil explicite qual o status de Zelaya. As regras do jogo diplomático são essas.

A resposta de Lula foi um irritado "vocês são golpistas e não têm direito de me cobrar nada". Rugiu como leão.

Mas, se os golpistas não cometerem a asneira de invadir a embaixada, legitimando uma intervenção militar contra eles, o impasse permanecerá.

E o Brasil terá de decidir entre conformar-se com um desfecho pífio ou agir como os grandes países sempre agiram: impondo sua vontade aos países menores.

Ou seja, a escolha será entre sair como banana ou sair como imperialista. Dar um rugido mais forte ainda ou miar.

E o pior é que o golpismo poderá ter feito seu reingresso furtivo na cena política latino-americana, por conta da inépcia de quem poderia/deveria mantê-lo onde merecidamente estava: na lata de lixo da História.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

CONSELHO DE SEGURANÇA ACATA PEDIDO DO BRASIL E DEBATE HONDURAS

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) se reunirá nesta sexta-feira (25) em Nova York para discutir a crise política em Honduras gerada pelo golpe que depôs o presidente Manuel Zelaya, informaram porta-vozes da ONU. A reunião de emergência foi solicitada pela diplomacia brasileira, que abriga Zelaya na sua embaixada em Tegucigalpa.

Os Estados Unidos exercem atualmente a presidência rotativa do Conselho e portanto têm a incumbência de convocar reuniões de emergência. "Como presidente do Conselho de Segurança, recebi uma carta do Brasil solicitando que o Conselho examine a situação em Honduras. Fizemos circular a carta entre outros membros do Conselho e este vai submeter o tema a consulta", dissera antes a diplomata americana Susan Rice.

Entretanto, diplomatas da ONU que não tiveram seus nomes revelados, adiantaram que a reunião será realizada, nesta sexta-feira, às 11 horas da manhã (hora de Nova York).

Zelaya foi deposto em um golpe em 28 de junho, sequestrado e enviado para fora do país num avião militar. Na segunda-feira, ele retornou secretamente à capital de seu país, Tegucigalpa, e se refugiou na embaixada brasileira. O regime golpista cercou a missão diplomática com tropas policiais e militares e chegou a ameaçar invadi-la – o que violaria as leis internacionais, que dão direito de extra-territorialidade às representações diplomáticas.

Colocado no centro dos acontecimentos, o Brasil solicitou formalmente na terça-feira (24) uma reunião do Conselho de Segurança. Na carta aos membros do Conselho de Segurança, a representante permanente do Brasil na ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, afirmou que o governo está preocupado com "a segurança do presidente Zelaya e com a segurança e integridade física da embaixada brasileira e de seus funcionários".

O Conselho é formado por 15 países, sendo que China, EUA, França, Reino Unido e Rússia são membros permanentes, com direito a veto. É o órgão executivo e mais ágil da ONU, e quem decide sobre sanções a países ou o envio das tropas de "capacetes azuis" das Nações Unidas. A reunião pode exercer forte pressão suplementar sobre os golpistas, que nas últimas horas deram sinais de dificuldades em sustentar sua posição de intransigência.

Fonte: Portal Vermelho

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

LIBERDADE E JUSTIÇA SOCIAL

exemplo de contradição capitalista

Por Frei Betto


Na década de 1980, visitei, com frequência, países socialistas: União Soviética, China, Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia e Cuba. Estive também na Nicarágua sandinista. As viagens decorreram de convites dos governos daqueles países, interessados no diálogo entre Estado e Igreja.

Do que observei, concluí que socialismo e capitalismo não lograram vencer a dicotomia entre justiça e liberdade. Ao socializar o acesso aos bens materiais básicos e aos direitos elementares (alimentação, saúde, educação, trabalho, moradia e lazer), o socialismo implantara, contudo, um sistema mais justo à maioria da população que o capitalismo.

Ainda que incapaz de evitar a desigualdade social e, portanto, estruturas injustas, o capitalismo instaurou, aparentemente, uma liberdade – de expressão, reunião, locomoção, crença etc. – que não se via em todos os países socialistas governados por um partido único (o comunista), cujos filiados estavam sujeitos ao “centralismo democrático”.

Residiria o ideal num sistema capaz de reunir a justiça social, predominante no socialismo, com a liberdade individual vigente no capitalismo? Essa questão me foi colocada por amigos durante anos. Opinei que a dicotomia é inerente ao capitalismo. A prática de liberdade que nele predomina não condiz com os princípios de justiça. Basta lembrar que seus pressupostos paradigmáticos – competitividade, apropriação privada da riqueza e soberania do mercado – são antagônicos aos princípios socialistas (e evangélicos) de solidariedade, partilha, defesa dos direitos dos pobres e da soberania da vida sobre os bens materiais.

No capitalismo, a apropriação individual e ilimitada da riqueza é direito protegido por lei. E a aritmética e o bom senso ensinam que quando um se apropria muitos são desapropriados. A opulência de uns poucos decorre da carência de muitos.

A história da riqueza no capitalismo é uma sequência de guerras, opressão colonialista, saques, roubos, invasões, anexações, especulações etc. Basta verificar o que sucedeu na América Latina, na África e na Ásia entre o século 16 e a primeira metade do século 20.

Hoje, a riqueza da maioria das nações desenvolvidas decorre da pobreza dos países ditos emergentes. Ainda agora, os parâmetros que regem a OMC são claramente favoráveis às nações metropolitanas e desfavoráveis aos países exportadores de matérias-primas e mão de obra barata.

Um país capitalista que agisse segundo os princípios da justiça cometeria um suicídio sistêmico: deixaria de ser capitalista. Nos anos 80, ao integrar a Comissão Sueca de Direitos Humanos, fui questionado, em Uppsala, por que o Brasil, com tanta fartura, não conseguia erradicar a miséria, como fizera a pequena Suécia. Perguntei-lhes: “Quantas empresas brasileiras estão instaladas na Suécia?” Fez-se prolongado silêncio.

Naquela época, nenhuma empresa brasileira operava na Suécia. Em seguida, indaguei: “Quantas empresas suecas estão presentes no Brasil?” Todos sabiam que havia marcas suecas em quase toda a América Latina, como Volvo, Scania, Ericsson e a SKF, mas não precisamente quantas no Brasil. “Vinte e seis”, esclareci. (Hoje são 180). Como falar em justiça quando um dos pratos da balança comercial é obviamente favorável ao país exportador em detrimento do importador?

Sim, a injustiça social é inerente ao capitalismo, poderia alguém admitir. E logo objetar: mas não é verdade que, no capitalismo, o que falta em justiça sobra em liberdade? Nos países capitalistas não predominam o pluripartidarismo, a democracia, o sufrágio universal, e cidadãos e cidadãs não manifestam com liberdade suas críticas, crenças e opiniões? Não podem viajar livremente e até mesmo escolher viver em outro país, sem precisar imitar os “balseros” cubanos?

De fato, nos países capitalistas a liberdade existe apenas para uma minoria, a casta dos que têm riqueza e poder. Para os demais vigora o regime de liberdade consentida e virtual. Como falar de liberdade de expressão da faxineira, do pequeno agricultor, do operário? É uma liberdade virtual, pois não dispõem de meios para exercitá-la. E se criticam o governo, isso soa como um pingo de água submergido pela onda avassaladora dos meios de comunicação – TV, rádio, internet, jornais, revistas – em mãos da elite, que trata de infundir na opinião pública sua visão de mundo e seu critério de valores. Inclusive a ideia de que miseráveis e pobres são livres...

Por que os votos dessa gente jamais produzem mudanças estruturais? No capitalismo, devido à abundância de ofertas no mercado e à indução publicitária ao consumo supérfluo, qualquer pessoa que disponha de um mínimo de renda é livre para escolher, nas gôndolas dos supermercados, entre diferentes marcas de sabonetes ou cervejas. Tente-se, porém, escolher um governo voltado aos direitos dos mais pobres! Tente-se alterar o sacrossanto “direito” de propriedade (baseado na sonegação desse direito à maioria). E por que Europa e EUA fecham suas fronteiras aos imigrantes dos países pobres? Onde a liberdade de locomoção?

Sem os pressupostos da justiça social não se pode assegurar liberdade para todos.

Fonte: Jornal Estado de Minas - 24 de setembro de 2009

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Record ataca Globo por matéria da Época

A Rede Record rebateu matéria publicada na revista Época desta semana que traz denúncias contra a Igreja Universal do Reino de Deus. O programa Domingo Espetacular de domingo (20) dedicou mais de cinco minutos para relembrar as acusações que faz contra as Organizações Globo, além de acusar a emissora de tratar evangélicos com desrespeito em sua programação. A reportagem da revista Época, intitulada “Aprendi a extorquir o povo”, apresenta declarações de Gustavo Alves da Rocha, ex-bispo da Igreja Universal que revela como é arrecado e utilizado o dinheiro dos fiéis. O entrevistado também acusa a Universal de pagar artistas e jornalistas e comprar estúdios com o dinheiro do dízimo de seus membros.

Segundo a Record, a publicação da reportagem acontece justamente na semana do lançamento de seu portal de notícias, o R7, que vai concorrer com o G1. Em nota oficial, a Record desmentiu as acusações veiculadas pela revista, afirmando que todos os investimentos e salários são pagos pela própria emissora.

Como resposta à matéria da Época, o Domingo Espetacular voltou às denúncias contra a emissora de Roberto Marinho, com acusações de uso de terreno público como parte de suas instalações em São Paulo, compra irregular da TV Paulista, empréstimo da Caixa Federal para a construção do Projac. A Record também apresentou cenas de novelas e minisséries em que afirma que a Globo trata os evangélicos com “intolerância, preconceito e desrespeito”.

A reportagem também anuncia que a edição especial da Folha Universal deste final de semana, com tiragem de 3,5 milhões de exemplares, traz a manchete “Como a família Marinho destrói o Brasil?”. A edição desta semana é dedicada a fazer denúncias contra a Globo e a família Marinho e levantar questionamentos. No final do jornal, a pergunta “Quem pode salvar o Brasil da Globo?”.

Fonte: Portal Vermelho

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

BOFETADA DO ATRASO

Por Leandro Fortes

Primeiro, a internet violentou o papel em sua essência física, palpável, dogmática. Roubou à História da escrita o movimento manual da pena e o batuque, ora mecânico, ora elétrico, das máquinas de escrever de outrora. Minou, por assim, dizer, o essencial, a rotina, para então começar a dizimar os modelos. Em pouco mais de uma década, derreteu a credibilidade e expôs as intenções das ditas mais sérias empresas de comunicação do Brasil, apesar da permanente tensão provocada pela expectativa de cerceamento e censura. Aliás, uma tentação autoritária pela qual, ao que parece, o Senado da República ensaia se ajoelhar. São sinais dessa tormenta em que vive o jornalismo brasileiro, confinado num vazio que se estende no éter de um rápido processo de decadência moral, em parte resultante de maus hábitos de origem, como o arrivismo e a calúnia pura e simples, mas também porque sobre as redações paira um ar viciado e irrespirável cheio de maus agouros de mudança, ou melhor, de status.

São ventos recentes, os da internet, que nem marolas faziam nos primeiros anos de concentração de usuários e funcionamento da rede mundial de computadores. Como fenômeno de jornalismo, foi preciso esperar que o ambiente virtual deixasse de ser eminentemente transpositivo, na verdade, uma cópia digital dos jornais, para surgir um espaço editorial novo, essencialmente individual, mas nutrido pelas idéias do coletivo. Definidos de forma simplista, no nascimento, de diários eletrônicos, os blogs se fixaram como um instrumento de comunicação social poderoso, a ponto de se tornarem subversivos, no melhor sentido da palavra. Passaram a devorar velhos esquemas como uma nuvem de insetos, milhões deles, em crescimento exponencial. Tornaram-se, na singular definição do ministro-jornalista Franklin Martins, “grilos falantes” da mídia e inauguraram uma regulação ética nominal e permanente do noticiário. Dentro desse papel, os blogs independentes têm conseguido desmascarar, muitas vezes em tempo real, tradicionais espaços editorais voltados, historicamente, para a manipulação e distorção de matérias jornalísticas a soldo de interesses inconfessáveis. Tornaram-se, em pouco tempo, imprescindíveis.

Pensei nisso tudo por várias razões, mas principalmente porque tenho que falar, no final de outubro, com estudantes de jornalismo da Universidade de Maringá, no Paraná, sobre o fenômeno da blogosfera e discutir as razões desses maus tempos de jornalismo em que vivemos. Mas também porque a animosidade das velhas elites políticas brasileiras com a internet alcançou seu paroxismo nesse projeto inacreditável assinado pela dupla de senadores Marco Maciel (DEM-PE) e Eduardo Azeredo (PSDB-MG), de restrição de liberdade na rede mundial de computadores. Onde estão os freios dessa gente? Ainda que não houvesse muitos motivos para repudiar uma intenção de censura no mais democrático ambiente de comunicação da cultura humana em todos os tempos, bastaria um – o da civilidade – para fazer calar esse clamor de alcova que nos envergonha.

Trata-se de uma tentativa primária, nos métodos e na intenção, de conter o poder iconoclasta e o viés crítico da internet, notadamente dos blogs. Pretende-se amordaçar uma rede formada, apenas no Brasil, por 64,8 milhões de pessoas, segundo pesquisa do Ibope publicada em agosto de 2009, ou seja, no mês passado. O instituto calcula que esse número cresça, na próxima década, cerca de 10% ao mês. Portanto, mais do que dobrando de tamanho em 10 anos, a depender da intensidade das diversas políticas de inclusão digital capitaneadas pelo governo do PT. Pensar em controlar o torvelinho de informação circulante, hoje, na internet, é um exercício absoluto de arrogância, quando não de ignorância. É um exagero surpreendente, até mesmo em se tratando de uma iniciativa dessa triste e reacionária elite política e econômica brasileira. De minha parte, não acredito que o Brasil vá aceitar, inerte, essa bofetada do atraso.

Eu não vou.

Fonte: Revista Carta Capital - edição 564

sábado, 19 de setembro de 2009

O PEDAGOGO DA ESPERANÇA


Hoje, Paulo Freire completaria 88 anos. Faço aqui minha homenagem ao maior pedagogo do Brasil, que nos deixou órfãos há 12 anos.


Por Cléber Sérgio de Seixas

É fim de tarde e trabalhadores rurais retornam da lavoura. José da Silva, um pai de família, chega em casa onde já o aguarda a “janta” que sua esposa cuidadosa e apressadamente preparou, já que esta noite ele quebrará a rotina que repete a anos após chegar do trabalho. Fará algo diferente de lavar-se, jantar, assistir televisão e dormir. Após a refeição este lavrador de 48 anos irá pela primeira vez à escola, onde espera ser apresentado a um mundo de novas descobertas, sonhos e possibilidades. Apesar de seu corpo tentar desanimá-lo, como se estivesse lhe dizendo que é inútil a esta idade aprender a ler e escrever, o homem vence o cansaço e prossegue rumo à Escola Municipal José Clementino Coelho, situada na zona rural de Limoeiro, uma pequena cidade situada no nordeste de Pernambuco, na transição entre a zona da Mata e o Polígono das Secas. Nesta escola são ministradas aulas de alfabetização para jovens e adultos no período noturno. Ao chegar o lavrador adentra a sala, senta-se, contudo estranha a configuração circular dos assentos em lugar das tradicionais fileiras. Recebidos os alunos por uma sorridente professora, inicia-se a aula.

Esta escola é uma dentre as várias que fazem parte do Projeto Sesi por um Brasil Alfabetizado, projeto este que utiliza um método de alfabetização que leva em conta na elaboração da cartilha de alfabetização, palavras oriundas do dia-a-dia e da realidade da comunidade à qual são ministradas as aulas. São os chamados Temas Geradores, obtidos através de uma pesquisa prévia do vocabulário utilizado pelo grupo social em questão. O método é baseado nas idéias de um educador pernambucano chamado Paulo Reglus Neves Freire e suas premissas estabelecem, entre outras coisas, que educadores e educandos estejam no mesmo patamar no que tange ao processo cognitivo, ou seja, o professor deixa de ser o dono da verdade para se engajar, auxiliado pelos alunos, no desvelamento dos temas estudados. O método não visa tão somente instruir o educando a dar os primeiros passos no mundo das letras, mas também formar cidadãos cônscios de sua capacidade de mudar a sociedade em que vivem tendo como uma das ferramentas a educação. Portanto é também objetivo desse método formar opinião e cidadania. Trata-se de levar os alfabetizandos a ter condições de ler a realidade para em seguida poder reescrevê-la, ou seja, transformá-la.
Apesar de parecer algo novo, esta forma de alfabetizar utilizando materiais e textos com temas extraídos da vida cotidiana dos alunos já foi utilizada com sucesso em outras ocasiões, dentre as quais podemos citar como expoentes o Movimento de Cultura Popular (MCP), criado pelo então prefeito de Recife, Miguel Arraes, e a experiência de Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963, na qual foram alfabetizados mais de 300 trabalhadores rurais em apenas 45 dias. Esta última foi uma experiência marcante e inovadora no cenário das práticas alfabetizadoras nesse país. Também se utilizou do citado método o famoso Plano Nacional de Alfabetização, capitaneado pelo MEC, cuja coordenação foi delegada a Paulo Freire pelo governo de João Goulart e pretendia ter alcance nacional, como mostram as palavras do próprio Freire concedidas a Sérgio Guimarães: "Não quero dizer que na época já estivéssemos com o esquema montado para o país todo, mas quase: estávamos cuidando da capacitação de quadros que, por sua vez, se multiplicavam, etc. Com esse Plano, pretendíamos alcançar o país todo". Eram tempos de inquietação e agitação social nos quais se assistia à hercúlea empreitada de educadores cubanos que erradicariam em poucos anos o analfabetismo naquela ilha.

As experiências de Angicos e do Programa Nacional de Alfabetização do MEC devem ter acirrado os temores dos setores conservadores. O Golpe Militar de 1964 matou, ainda no ventre, as expectativas de Paulo Freire. Encarcerado, ficaria durante 70 dias alternando entre as prisões de Recife e Olinda - momento trágico que ele traduziu em oportunidades de aprendizado e reflexão. No cárcere, aprenderia um pouco mais sobre solidariedade e também veria de perto o desrespeito à pessoa humana. Contudo, não se rendeu ao desespero nem e à autocomiseração.

Mas por que silenciar e enclausurar este simples educador pernambucano? Que ameaças ao regime político instaurado podiam estar contidas no pensamento deste homem? É que muitas vezes as idéias sobrepujam em envergadura e força o próprio homem que as traz à existência, fazendo-se extensões poderosas de suas mãos e pés. As idéias de Freire eram uma ameaça ao status quo de segmentos reacionários da sociedade porque posicionavam a educação no campo da luta de classes, elegendo-a instrumento de libertação da classe oprimida. O método freireano não estabelece inimizade entre educação e política, pelo contrário, torna-as indissociáveis. Ao mesmo tempo em que educa, politiza.

Liberto da prisão, Paulo Freire seria convencido por familiares e amigos a exilar-se devido aos perigos aos quais estaria exposto caso permanecesse no Brasil. Iniciava-se assim um novo período em sua vida. De 1964 a 1980 viveria em vários países desenvolvendo trabalhos de educação e alfabetização, ministrando cursos, participando de conferências, debates, palestras e escrevendo livros; enfim, foi um período de intensa atividade intelectual no qual pôde solidificar seu pensamento. Foram tempos de Bolívia, onde a altitude de La Paz abreviou sua estadia. No Chile reencontraria sua esposa, seus filhos e alguns intelectuais, igualmente exilados por motivos políticos. No entanto, sua estadia em Santiago também seria abreviada pelos temores que tinha de terremotos. Os tempos de Chile trouxeram à luz dois importantes livros: Educação como Prática da Liberdade e Pedagogia do Oprimido, sendo este último o livro que encerra o cerne de seu pensamento.
Do Chile Paulo Freire foi para os Estados Unidos. Dizem que devido ao frio deste país, ele deixou a barba crescer, marca registrada que o acompanharia até sua morte.
Saído dos Estados Unidos, Paulo Freire foi para a Suíça em resposta a um convite do Conselho Mundial das Igrejas para trabalhar no departamento de educação desta instituição. Para Paulo foram tempos em que ele respirou liberdade e desfrutou de certo conforto.
Às margens do Lago Léman, acúmulo das águas do Ródano, rio que divide em duas a cidade de Genebra, Paulo deve ter recordado da capital pernambucana, das águas do Capibaribe que retalham Recife e dos tempos idos de sua infância em Jaboatão dos Guararapes. Infância rica em experiências, quando era apenas um dos filhos do casal Joaquim Temístocles e Edeltrudes Neves, a dona Tudinha. Talvez tenha se lembrado do fundo do quintal de sua casa, ambiente de sua primeira experiência pedagógica, onde o chão lhe fora quadro e gravetos lhe foram giz, como ele próprio escreveu em A Importância do Ato de Ler: "Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo, não do mundo maior de meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz".
É possível que também tenha sido assediado pela lembrança do dia em que decidiu abandonar a carreira de advogado, por ocasião da cobrança de uma dívida; decisão difícil que, no entanto, revelou a coerência, o idealismo e, sobretudo, a amabilidade deste homem que não nasceu para estar do lado dos que oprimem e sim junto aos que sofrem com a opressão e a injustiça. Também deve ter se lembrado dos dias do SESI, onde teve suas primeiras e não menos importantes experiências como educador: “A Pedagogia do oprimido não poderia ter sido gestada em mim só por causa de minha passagem pelo SESI, mas minha passagem pelo SESI foi fundamental”, disse em Pedagogia da Esperança. De sua base no Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, Paulo Freire lançou ofensivas sobre os Estados Unidos, Ásia, Oceania e, sobretudo, a África portuguesa, em países como Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, tornando-se assim um educador cosmopolita.

Deve ter sido com muita emoção que Paulo Freire falou de seu apartamento em Genebra aos participantes do 1º Seminário de Educação Brasileira, via gravação telefônica, conforme revelam suas próprias palavras: "É uma alegria enorme me servir da possibilidade que a tecnologia me coloca à disposição, hoje, de gravar, de tão longe de vocês, essa palavra que não pode ser outra senão uma palavra afetiva, uma palavra de amor, uma palavra de carinho, uma palavra de confiança, de esperança e de saudades também, saudade imensa, grandona, saudades do Brasil...”.

A anistia possibilitou a Paulo e a tantos outros intelectuais, o retorno à pátria mãe. Por ocasião do retorno teria dito que queria, após tantos anos de exílio, reaprender o Brasil. De volta, Paulo Freire deu continuidade a sua vida como intelectual, educador e filósofo. A política era algo inédito na sua vida, contudo em 1980 ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. De 1989 a 1991 foi Secretário de Educação da cidade de São Paulo, na gestão de Luíza Erundina.

Em 22 de abril de 1997, deixou-nos órfãos o educador dos oprimidos, o educador amoroso que não tinha vergonha de sê-lo, conforme uma de suas célebres frases explicita: “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso. Eu amo as pessoas e amo o mundo...”. Morreu aos 75 anos de idade, de infarte.
As palavras de Mário Sérgio Cortella, então professor do Departamento de Teologia da PUC/SP, em entrevista à TV PUC, por ocasião da morte do educador, sintetizam que tipo de homem era Paulo Freire: “... era um homem que repartia seu coração de todos os lados. Ele morreu da única coisa da qual poderia morrer: do coração”. Paulo Freire é o exemplo marcante de alguém que viveu sempre em consonância com aquilo em que acreditava. A coerência foi uma de suas maiores marcas e seu pensamento figura em importância ao lado do de outros educadores famosos como Piaget, Vygotsky, Gramsci, Maria Montessori, entre outros.

Se no exterior Paulo Freire é o intelectual brasileiro mais agraciado com títulos de doutor Honoris Causa, no Brasil sua obra é pouco divulgada e explorada nos meios educacionais. Isto talvez se deva ao fato de que o pensamento freireano seja um convite ao abandono da inércia e letargia. Pode ser também que a castração daquilo que há de mais contundente em seu pensamento seja uma estratégia de grupos com interesses escusos tal como afirma Lênin em sua obra O Estado e a Revolução: “Os grandes revolucionários foram sempre perseguidos durante a vida; a sua doutrina foi sempre alvo do ódio mais feroz, das mais furiosas campanhas de mentiras e difamação por parte das classes dominantes. Mas, depois da sua morte, tenta-se convertê-los em ídolos inofensivos, canonizá-los por assim dizer, cercar o seu nome de uma auréola de glória, para ‘consolo’ das classes oprimidas e para o seu ludíbrio, enquanto se castra a substância do seu ensinamento revolucionário, embotando-lhe o gume, aviltando-o”.

Contudo, o enquadramento das idéias freireanas será necessário sempre que houver possibilidades de sonhar e injustiças e desigualdades a serem abolidas. Muitos têm falado sobre o “fim da história”, se referindo na verdade ao triunfo do liberalismo: fatalismo que nada mais é do que a imposição do pensamento e interesses das classes que se encontram abastadas e no topo da pirâmide social. Mas não se pode falar em “fim da história” enquanto existirem homens, tempo e mundo, ou seja, enquanto existirem possibilidades a serem conhecidas e exploradas pelos oprimidos e esfarrapados do mundo. O discurso da ideologia neoliberal apregoa, por exemplo, que o desemprego é uma fatalidade deste século. Porém não há fatalidade da qual não se possa fugir ou que não se possa enfrentar.
Se há um tempo em que se deva parafrasear Paulo Freire, este tempo é agora, pois sua palavra é aquela que leva os oprimidos a serem os atores do mundo, não mera platéia. É também uma palavra que visa convencer que o sonho não acabou, que a utopia é possível, que a história não morreu e que a esperança ainda deve fazer parte da natureza humana: “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero”, disse Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido. E mais: “... não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã” (Pedagogia da Esperança).

Terminada a aula, José da Silva toma o caminho de volta para casa, caminho que ele decidiu percorrer diariamente. Apesar de ser às vezes um caminho empoeirado e escuro, é o caminho da mudança, que se faz também caminho das letras, o qual deve ser palmilhado com paciência, perseverança e, sobretudo, esperança. Em sua cabeça agora pululam sonhos e expectativas. Paulo Freire vive! Seu legado permanecerá vivo e incólume enquanto houver esperanças e possibilidades, enquanto houver caminhos a trilhar.

Saiba mais visitando o site do Instituto Paulo Freire

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

NOTA DO MST SOBRE CPI PROTOCOLADA NO CONGRESSO NACIONAL

16 de setembro de 2009

A força das nossas mobilizações e o avanço das conquistas dos Trabalhadores Sem Terra causaram uma forte reação do latifúndio, do agronegócio, da mídia burguesa e dos setores mais conservadores da sociedade brasileira contra os movimentos sociais do campo, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), principalmente por conta do anúncio da atualização dos índices de produtividade da terra pelo governo Lula.

Denunciamos que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o MST é uma represália às nossas lutas e à bandeira da revisão dos índices de produtividade. Para isso, foi criado um instrumento político e ideológico para os setores mais conservadores do país contra o nosso movimento. Essa é a terceira CPI instalada no Congresso Nacional contra o MST nos últimos cinco anos. Além disso, alertamos que será utilizada para atingir os setores mais comprometidos com os interesses populares no governo federal. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO), os deputados federais Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), líderes da bancada ruralista no Congresso Nacional, não admitem que seja cumprida a Constituição Federal de 1988 e a Lei Agrária, de fevereiro de 1993, assinada pelo presidente Itamar Franco, que determina que "os parâmetros, índices e indicadores que informam o conceito de produtividade serão ajustados, periodicamente, de modo a levar em conta o progresso científico e tecnológico da agricultura e o desenvolvimento regional".

Os parâmetros vigentes para as desapropriações de áreas rurais têm como base dados do censo agrário de 1975. Em 30 anos, a agricultura passou por mudanças tecnológicas e químicas que aumentaram a produtividade média por hectare. Por que o agronegócio tem tanto medo da mudança nos índices?

A atualização dos índices de produtividade da terra significa nada mais do que cumprir a Constituição Federal, que protege justamente aqueles que de fato são produtores rurais. Os proprietários rurais que produzem acima da média por região e respeitam a legislação trabalhista e ambiental não poderão ser desapropriados, assim como os pequenos e médios proprietários que possuem menos de 500 hectares, como determina a Constituição.

A revisão terá um peso pequeno para a Reforma Agrária. A Constituição determina que, além da produtividade, sejam desapropriadas também áreas que não cumprem a legislação trabalhista e ambiental, o que vem sendo descumprido pelo Estado brasileiro. Mesmo assim, o latifúndio e o agronegócio não admitem essa mudança.

Os setores mais conservadores da sociedade não admitem a existência de um movimento popular com legitimidade na sociedade, que organiza trabalhadores rurais para a luta pela Reforma Agrária e contra a pobreza no campo. Em 25 anos, tentaram destruir o nosso movimento por meio da violência de grupos armados contratados por latifundiários, da perseguição dos órgãos repressores do Estado e de setores do Poder Judiciário, da criminalização pela mídia burguesa e até mesmo com CPIs.

Apesar disso, resistimos e vamos continuar a organizar os trabalhadores pobres do campo para a luta pela Reforma Agrária, um novo modelo agrícola, direitos sociais e transformações estruturais no país que criem condições para o desenvolvimento nacional com justiça social.

SECRETARIA NACIONAL DO MST

Fonte: site do MST

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

LUZES E SOMBRAS DA MEMÓRIA NACIONAL: OS 40 ANOS DA OBAN

Por Mariana Joffily

Alguns historiadores afirmam que vivemos na época da “obsessão comemorativa” e que nosso senso histórico vem sendo substituído pela celebração, nas efemérides, de eventos ocorridos em datas que completam aniversários “redondos”. As comemorações desse tipo têm tendência a iluminar com grandes holofotes determinados fatos e assim relegar à sombra outros, cuja memória coletiva prefere esquecer. Assim, 2008 foi o ano de celebração dos 40 anos do Maio de 1968, momento em que os estudantes saíram às ruas de Paris, França, defendendo plataformas de luta até então inéditas no cenário político: “é proibido proibir”, “a imaginação no poder”, “seja realista, exija o impossível”. Menos lembrado, aqui no Brasil, foram os 40 anos da edição do Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968, lei que consagrou o arbítrio e o autoritarismo da ditadura militar.

No ano de 2009, o aniversário que chamou a atenção foi o de 30 anos da proclamação da Anistia, em novembro de 1979. A data merece ser lembrada e comemorada, pois significou a soltura de vários presos políticos e o retorno de dezenas de exilados, entre os quais, personalidades importantes da vida política do país. Entretanto, salvo algumas poucas iniciativas – refiro-me aqui ao evento Sábado Resistente, organizado pelo Fórum Permanente de Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo – o dia 1º de julho de 2009 passou desapercebido para a grande maioria da sociedade brasileira. Completou-se, nessa data, 40 anos do início de uma experiência que daria frutos no cenário policial do país: a Operação Bandeirante, mais conhecida por Oban.

A Oban foi uma experiência piloto da ditadura militar para incrementar a atuação da repressão política. Foi concebida a partir da constatação de que as forças policiais então existentes não tinham capacidade de combater uma série de crimes políticos que vinham ocorrendo sob a batuta das organizações da esquerda armada. Tratava-se da ação de grupos que se formaram nos anos 1960, para lutar contra a ditadura e para iniciar um processo revolucionário que libertasse o Brasil do sistema capitalista, promovendo a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. O temor de que as organizações guerrilheiras tivessem sucesso levou a cúpula do Exército a pensar em uma estratégia específica de atuação frente a um novo tipo de ameaça. A primeira experiência foi criada na cidade de São Paulo, onde se estimava que a “subversão” era mais forte. Constituiu-se pela reunião de representantes de vários órgãos policiais e militares, de maneira que suas operações contassem com o apoio de todas essas forças repressivas. O nome Operação Bandeirante evocava uma antiga tradição da cidade de São Paulo, de homenagear os paulistas do século 17 que percorriam o interior do país capturando índios e vendendo-os como escravos. A associação com os bandeirantes apela para os emblemáticos paulistas que teriam desbravado com coragem e ousadia regiões inóspitas e “selvagens” do país. Ao mesmo tempo, diz respeito a um grupo que empregava uma violência extrema na captura e na sujeição dos índios.

O ato que celebrou a criação da Oban foi organizado com pompa, coquetéis e salgadinhos e contou com a presença das principais autoridades políticas de São Paulo: o governador Roberto de Abreu Sodré, o prefeito Paulo Maluf, o comandante do II Exército (atual Regional Sudeste), general José Canavarro Pereira, entre outros. Também acorreram à cerimônia figuras proeminentes da elite paulista, oriundas dos meios empresarial e financeiro: Luiz Macedo Quentel, Antonio Delfim Netto, Gastão Vidigal, Paulo Sawaya e Henning Albert Boilesen. Parte do setor empresarial paulista e das multinacionais – com representação em São Paulo – acreditava que as ações guerrilheiras colocavam em risco a boa conduta dos negócios e concorreu para o apoio financeiro e material. As autoridades da cidade colaboraram com infra-estrutura, incluindo a cessão de partes das dependências da 36ª delegacia de polícia, situada na rua Tutóia (Vila Mariana), para a acomodação do novo órgão repressivo.

A Oban era subordinada ao II Exército e composta por um centro de Coordenação, responsável pelo comando da Central de Informações, da Central de Operações e da Central de Difusão. Subordinada à Central de Informações, havia a Coordenação de Execução, cujas atividades centravam-se na busca, na captura e no interrogatório de indivíduos suspeitos de atividade política, bem como na investigação e análise de informações sobre as organizações de esquerda, seus dirigentes e militantes. A Coordenação de Execução era comandada pelo major Waldyr Coelho que, inicialmente contrário ao uso da tortura para obter informações dos presos, acabou se rendendo ao método. Essa seção operava ininterruptamente, de forma que os presos podiam ser interrogados a qualquer hora do dia ou da noite.

O órgão contava com forças policiais e militares. Os militares comandavam as operações, enquanto as forças policiais imprimiam o estilo de investigação e interrogatório desenvolvidos em décadas de experiência nessa área. Os métodos de tortura empregados na inquirição de presos comuns foram incrementados com o emprego de aparelhos de choque elétrico – gentilmente cedidos pelos agentes de segurança estadunidenses –, a palmatória, o “pau-de-arara”, o “telefone” (tapas em ambos os ouvidos, simultaneamente), a famosa “cadeira do dragão” (à qual o interrogado era preso, enquanto recebia choques) e a privação de alimentos e de água.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra

terça-feira, 15 de setembro de 2009

MENSALÃO MINEIRO NO SUPREMO

O ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do inquérito que apura fatos relacionados ao mensalão tucano mineiro, concluiu a análise da matéria. Conforme o andamento processual do site do Supremo Tribunal Federal, o ministro apresentou o caso para julgamento, devendo entrar em breve na pauta do Plenário.

O inquérito investiga a prática dos crimes de peculato e lavagem de dinheiro, durante a campanha para a reeleição do atual senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) ao governo de Minas Gerais, em 1998. Caso a denúncia contra o senador seja aceita, ela passará a figurar como réu em ação penal no STF.

Em maio, Joaquim Barbosa decidiu desmembrar o inquérito. Com a decisão, apenas Azeredo será investigado no STF, cabendo à Justiça Federal em MG analisar o processo quanto ao publicitário Marcos Valério e outros investigados.

Denúncias
O Ministério Público Federal em Minas Gerais (MPF-MG) acusou o publicitário Marcos Valério e outras 26 pessoas, incluindo diretores e ex-diretores do Banco Rural, de terem criado em Belo Horizonte um esquema considerado embrião do mensalão, que ficou conhecido como mensalão mineiro.

Segundo o MPF, os acusados construíam uma estrutura que utilizava a simulação ou o superfaturamento de contratos de publicidade firmados com o governo estadual. Empresas privadas - incluindo instituições financeiras - que tinham interesses econômicos junto ao Estado de Minas Gerais também participariam do esquema. Os recursos assim obtidos eram, em sua maioria, destinados à campanha eleitoral e tinham sua distribuição pulverizada entre os colaboradores da campanha, como contraprestação aos "favores" prestados.

Leia o artigo na íntegra no blog Amigos do Presidente Lula

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Serra e PSDB defendem princípios "éticos" de Yeda Crusius

O governador de São Paulo, José Serra, assinou um manifesto do PSDB em defesa da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, acusada pelo Ministério Público Federal do RS de integrar uma quadrilha que estaria instalada do aparelho de Estado. O manifesto destaca a "competência e o respeito a princípios éticos" de Yeda e dá total solidariedade à governadora que Justificarenfrenta um processo de impeachment na Assembléia Legislativa do RS. O texto afirma:

"A direção nacional do PSDB, os governadores eleitos pelo PSDB e os líderes partidários vêm reiterar o enorme respeito que têm pela governadora Yeda Crusius e por toda a sua longa trajetória política, construída com competência e respeito a princípios éticos.

Estamos seguros de que a governadora saberá responder a cada uma das acusações que lhe são imputadas por seus opositores no Estado.

Lamentamos ainda que a radicalização do quadro político no RS esteja colocando em segundo plano a importante obra administrativa do Governo Estadual, que vem buscando, com extrema seriedade, o equilíbrio das contas públicas e o resgate da credibilidade interna e externa do Estado.

Com este documento tornamos pública nossa total solidariedade à governadora Yeda Crusius, ao PSDB do RS e aos nossos aliados".

Assinam o documento:

José Serra - Governador de São Paulo
Aécio Neves - Governador de Minas Gerais
Teotônio Vilela Filho - Governador de Alagoas
José de Anchieta Junior - Governador de Roraima
Sérgio Guerra - Senador, presidente do PSDB
Arthur Virgílio - Senador
José Aníbal - Deputado Federal

Fonte: site Carta Maior

Comentário do blog: Crusius in credo!!

domingo, 13 de setembro de 2009

JIM JONES - Novo assessor de Segurança Nacional dos EUA


Por Rui Veiga


O que pretende Barack Obama ao escolher o general James Jones, conhecido na intimidade das casernas como o general “Jim Jones” - em referência a um norte americano fanático religioso, homônimo do general, que ordenou o assassinato de 909 fiéis em 1978 na Guiana - para ser seu estrategista na delicada área de segurança nacional dos Estados Unidos?

A biografia do general não é muito animadora – para se dizer o mínimo – em relação à defesa da soberania nacional dos países. Sequer é animadora para a mídia convencional e aos adeptos do politicamente correto, que, durante a campanha eleitoral, viram em Obama uma espécie de mentor de uma nova “revolução americana”. Tanto é assim que a recente (em agosto último) presença deste general Jim Jones na América Latina deixou setores progressistas e mesmo os democratas americanos preocupados, quanto ao ideário da política de defesa, que o novo titular da assessoria de segurança nacional está desenhando para a Casa Branca.

Mais que isso, demonstrando o espírito imperialista que permeia integralmente a sociedade de seu país, mesmo depois da crise, que abalou boa parte de seu modelo de vida e que principiou o fim do sonho americano, o estabilishment dos Estados Unidos mais uma vez inicia um novo governo cercado pelas velhas fórmulas. Retorna ao passado: com propostas, discursos e comentários intervencionistas em relação a outros países, prossegue com a instalação de bases militares na Colômbia, intensifica a guerra no Afeganistão, discurso contra os eternos inimigos dos Estados Unidos e adota uma política agressiva do conceito de defesa da segurança nacional.

Mas, afinal, o que há de semelhanças entre o general James Jones com seu homônimo e falso profeta Jim Jones que provocou aquela grande tragédia religiosa em 1978?

A primeira delas é que ambos serviram no corpo de mariners dos Estados Unidos. Tropa de ataque usualmente utilizada para “defender os interesses americanos em escala mundial”. Para bom entendedor, tropas para intervenções em outros países. Mais interessante que, James e Jim serviram entre o mariners à mesma época: final dos anos 60 e início dos 70, em plena Guerra do Vietnã, um dos momentos culminantes do militarismo americano no século 20.

A segunda similaridade é a grande agressividade verbal, que o general utiliza (e o profeta falsário utilizava em suas pregações) contra seus inimigos e na capacidade de comandar e dirigir com severidade seus comandados, no caso do general. E, por sua vez, manipular e explorar seus seguidores, no caso do homônimo Jim Jones. Ambos sem quaisquer tipo de problemas de manter uma fala mansa, mas contundente contra seus inimigos e aqueles que se rebelavam contra sua autoridade. Em ambos os casos, os comunistas. Mas também aqueles por ele considerados inimigos do país, no caso do general. E os inimigos de sua pretensa religião, por parte do pseudo-profeta Jim Jones.

O general James Jones é também tido na esfera política americana como representante da linha dura no Pentágono e o estabilishment de defesa o tem como um de seus principais interlocutores. Inclusive, é visto como muito próximo daqueles setores denominados falcões, militares que consideram estratégicas as ações ditas anti- terroristas em escala mundial e que, por conta destas, se beneficiam do comércio de armas e tecnologias militares. Afinal, ninguém é de ferro! Esta postura de falcão é outra das razões que justificam o fato do general levar consigo e em sua biografia o apelido de Jim Jones.

Esta carreira militar entre os mariners por 40 anos o tornou um defensor de intervenções externas. Nunca é demais lembrar que, há muitas ações intervencionistas através da força de mariners dos Estados Unidos pelo mundo afora. Enumeram-se entre outras nos últimos 40 anos: as presenças no Vietnã, Barbados, Panamá, Guerra do Golfo e no próprio Iraque. Além de estarem acantonadas nas centenas de bases americanas espalhadas pelos cinco continentes.

James Jones – ou se se preferir Jim Jones - é a face oculta do governo Obama, uma espécie de alter-ego. Enquanto o Presidente discursa “em defesa de pobres” e abraça crianças nas ruas americanas, já ao assumir o cargo, dinamiza o processo de estabelecimento de bases militares na Colômbia, ameaçando o equilíbrio político e tentando militarizar a América do Sul seguindo as orientações do seu Jim Jones

Uma passada de olhos nas gestões internacionais atuais do general James Jones revela que este dá continuidade aos conceitos de defesa nacional e da luta anti-terrorista do republicano Bush, que se tornou uma ameaça permanente à paz mundial. O general, antes mesmo de assumir, fez questão de discursar na associação dos veteranos de guerra americanos, antro da direita americana, onde como não poderia deixar de ser, atacou os inimigos externos do Estados Unidos pela ordem: as organizações “terroristas islâmicas”, o Irã, o governo de Cuba, Hugo Chávez e a Coréia do Norte. Aproveitando o ensejo, defendeu a invasão do Iraque e a intervenção no Afeganistão.

Os admiradores de Obama podem refletir sobre a nova política externa norte americana a partir das palavras e intervenções verbais do general Jim Jones. Um dos exemplos dessa “nova” concepção foi dado recentemente no Brasil, quando declarou que: “Hugo Chávez preocupa muito o governo americano”. E, simultaneamente, defendeu a presença militar dos Estados Unidos na terra de Uribe, a Colômbia.

Mais incisivo e acusador sobre o assunto foi à imprensa estrangeira no final de agosto em entrevista coletiva, na qual afirmou:

“Há evidências do transporte de armas da Venezuela para as Farc. E Chávez, não ajuda o esforço de paz e de segurança da região”, afirmou Jim Jones em reunião com jornalistas em Washington. Simultaneamente, este Jim Jones afirma que a presença de soldados americanos na Colômbia não afetará a segurança nacional colombiana, nem de seus vizinhos, do Brasil inclusive.

Ao falar em soberania nacional, o Jim Jones atual opta por discutir vendas de armas e tecnologia militar. Para ele, estas serão parcerias estratégicas e que, os Estados Unidos procurarão o Brasil para parceiro nos principais acordos militares na América Latina.

Para reforçar seu ponto de vista, trouxe em sua comitiva dois subsecretários de estado, ambos provenientes do Pentágono. A função dos dois é vender armas e tratar de assuntos relativos à transferência de tecnologia militar.

Em síntese, Obama, com seu Jim Jones, em política externa quer se comportar igual ao outro Jim Jones, o ”profeta”. Seu representante para segurança nacional ameaça governos eleitos constitucionalmente, reelege o “terrorismo internacional islâmico” como seu inimigo principal e esquece o discurso sobre a retirada do Iraque. Igualmente ao outro Jim Jones, que instalou no final dos anos 70 uma colônia, que explorava o trabalho escravo e fanatizava seus seguidores, dominando-os pela força, Obama se coloca dentro do viés da militarização e das intervenções para garantir a hegemonia americana. É mais uma prova real de que qualquer político representante dos Estados Unidos nos moldes atuais capitalista, não importando sua origem social, ao se sentar na cadeira mais alta do Salão Oval na Casa Branca desempenhará por definição o script traçado pelo imperialismo.

Fonte: Revista Caros Amigos

O LEGADO DO 11 DE SETEMBRO - SEGUNDA PARTE

La Moneda sob bombardeio

Por Cléber Sérgio de Seixas


Às vezes ouço a imprensa dizer que o atentado ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001 foi o maior da história. Diante de tal afirmação deve-se indagar a qual História estão se referindo: à História dos EUA ou à História de uma forma geral. Se a segunda for a alternativa, sou obrigado a discordar. O império norte-americano, tal como outros tantos impérios que o mundo já conheceu, tem a tendência de considerar as demais nações como meros canais por onde fluem seus interesses geopolíticos. Considera que a cultura mais elevada é a sua, em detrimento da riqueza de culturas alheias e apregoa que seu sistema de governo é o mais perfeito e ideal à humanidade. Sob este raciocínio, convém aos estadunidenses celebrar o american way of life, de forma a solidificar os interesses dos Estados Unidos pelo mundo, da mesma forma que lhes convém espalhar por aí que um atentado contra a América estadunidense é um atentado contra a humanidade, como se aquela nação fosse o bastião da liberdade, como se liberdade e democracia fossem sinônimos do capitalismo praticado naquele canto do mundo, como se os Estados Unidos fossem os representantes da humanidade. Assim sendo, o maior atentado terrorista àquela nação seria o maior ataque terrorista da história. O atentado às torres gêmeas não foi um ataque contra a humanidade, foi um atentado contra um país que se arvora como o paraíso perdido da democracia. Assim sendo, o atentado de 11 de setembro de 2001 não pode e nem deve ser considerado o maior da História.

Outros atentados bem mais contundentes e de consequências bem mais nefastas, foram praticados e/ou financiados pelos próprios EUA nas paragens latino-americanas. Só para citar um deles, quero lembrar aquele que ocorreu também em 11 de setembro, só que em 1973.

Em 1970 os chilenos elegeram Salvador Allende para presidente. Tratou-se do primeiro chefe de estado socialista e marxista que chegou ao poder por via das urnas na América Latina. No poder, Allende implementou uma série de medidas de mudança social. Nos primeiros 18 meses de seu governo nacionalizou as grandes minas de cobre, ferro, nitrato, carvão e cimento, estatizou quase todos os bancos nacionais e estrangeiros, empreendeu a reforma agrária, expropriando aproximadamente seis milhões de hectares de terras cultiváveis e, de uma forma geral, melhorou muito a vida dos chilenos pobres. As medidas que seu governo tomou desagradaram a burguesia, da mesma forma que desagradaram o governo de Richard Nixon.
Tropas tomam La Moneda de assalto

A partir de então o governo Allende passou a sofrer toda sorte de sabotagens. Em 11 de outubro de 1972 empresários do setor de transporte de caminhões iniciam uma greve por tempo indeterminado. Na capital, por exemplo, 70% dos ônibus deixam de trabalhar. Para manterem os veículos parados por tanto tempo, os empresários era subvencionados pelo governo norte-americano, conforme relataria, anos mais tarde o jornal New York Times. No dia seguinte, os caminhoneiros recebem o apoio da Sociedade Nacional de Agricultura e dos pequenos e grandes comerciantes, que também resolvem parar suas atividades. Em 14 de outubro o Partido Democrata Cristão também decide apoiar a greve. Como o setor de transporte é estratégico, a greve interrompe a distribuição de matérias primas em escala nacional, afetando diretamente o setor primário de produção. Empresários do ramo de distribuição de alimentos começam a estocá-los clandestinamente, de forma a criar uma situação de escassez generalizada.Crises de desabastecimento surgem em decorrência do fato de os grandes e pequenos comerciantes considerarem mais lucrativa a venda de seus produtos no mercado negro. Executivos, engenheiros e técnicos das indústrias também aderem à greve.

Em resposta a cada uma das sabotagens promovidas pelos golpistas, os trabalhadores chilenos se organizavam em auxílio ao governo. Devido à greve no setor de transportes os trabalhadores vão trabalhar como podem, uns em caminhões das próprias indústrias, outros em ônibus particulares e alguns a pé. Devido à ausência dos técnicos de primeiro escalão, encarregados e trabalhadores de maior qualificação assumiram as funções dos grevistas. Com este apoio dos trabalhadores, as sabotagens dos opositores de Allende não surtem o efeito desejado. Em resposta ao desabastecimento, indústrias começam a vender seus produtos diretamente à população; sindicatos se organizam para distribuir gêneros de primeira necessidade. Nascem os cordões industriais, que são organizações criadas para coordenar as atividades dos trabalhadores de um mesmo ramo, os quais se expandem, posteriormente, nos Comandos Comunitários. Por todo o país ecoa o lema “Criar, criar, poder popular!”
Salvador Allende

Todas as tentativas “democráticas” de apear Allende do poder não se mostraram eficientes. Diante de tal fracasso e diante do fortalecimento do “poder popular”, setores da burguesia chilena e das forças armadas tentaram, em junho de 1973, um golpe contra Allende. O levante só não logrou êxito porque alguns oficiais legalistas rechaçaram os golpistas. O golpe de misericórdia veio três meses depois com os golpistas, liderados pelo general Augusto Pinochet, bombardeando o palácio de La Moneda. Um avião fora oferecido para retirar Allende do país, mas interceptações telefônicas revelaram um diálogo de Pinochet com um oficial, no qual o futuro ditador do país dava ordens expressas de abater o avião em pleno vôo. Dentro do palácio alguns civis defendiam Allende. Às 14:15 de 11 de setembro de 1973 o presidente se matava no interior do palácio.

Às 21 horas daquele mesmo dia os golpistas se apresentam ao país. Na ocasião, Pinochet disse o seguinte: “As forças armadas e da ordem atuaram no dia de hoje só com a inspiração patriótica de tirar o país do caos agudo em que o precipitava o governo marxista de Salvador Allende. A junta manterá o Poder Judiciário e a assessoria da Controladoria Geral. As Câmaras ficarão em recesso até segunda ordem”. Em seguida o almirante José Toríbio Merino completou da seguinte forma: “Talvez seja triste ter quebrado uma tradição democrática que era longa neste continente. Mas quando o Estado perde seu poder, outros precisam, por procuração, preservá-las e assumir o fardo. É o que hoje fazemos. Temos certeza de que todo o Chile compreenderá que é um sacrifício”. Já o general Gustavo Leigh foi mais incisivo: “Depois de 3 anos suportando o câncer marxista que nos levou a um descalabro econômico, moral e social, não era mais tolerável. No sagrado interesse da pátria, nos vimos obrigados a assumir a triste e dolorosa missão que empreendemos. Não temos medo. Sabemos da enorme responsabilidade que recairá sobre nossos ombros. Mas temos certeza, a convicção, de que a imensa maioria dos chilenos está conosco, está disposta a lutar contra o marxismo e extirpá-lo até as últimas conseqüências!”.
Pinochet e a junta militar

Assim, a democracia mais longa e duradoura da América Latina deixava de existir sob as pesadas botas dos golpistas. A "via pacífica para o Socialismo" fora inviabilizada pela violência. A partir de então, o Chile seria mergulhado num banho de sangue, deixando de ser uma alternativa democrática na América do Sul, refúgio de exilados políticos vindos de nações como o Brasil. Pinochet seria um dos cabeças da famigerada Operação Condor.

Trinta e seis anos depois devemos refletir sobre o 11 de setembro de 1973 e atentarmos para o fato de que as democracias latino-americanas, soerguidas após o fim dos respectivos regimes militares, são muito recentes, e o fantasma do golpismo teleguiado de Washington ainda ronda essas terras, sobretudo após o exemplo hondurenho.



Clique aqui para conhecer o caso Victor Jara

Para saber mais:
- Documentário: "A Batalha do Chile", de Patricio Guzmán
- Filme: "Missing - o desaparecido", de Costa Gavras