domingo, 31 de maio de 2009

JÁ ERA DE SE ESPERAR!

Por Cléber Sérgio de Seixas

Em post anterior (clique aqui para ler) confessei meu ceticismo em relação a programas de calouros, nos quais o quesito voz deixou de ser o mais relevante. Em outras palavras, se o cantor tiver boa voz mas não tiver uma boa aparência, não for simpático com o público ou não souber dançar, dificilmente terá vez no mercado.

Eu torcia pela vitória de Susan Boyle no programa Britains Got Talent 2009, mas já suspeitava que a mesma não seria a vitoriosa, dada a tendência atual de serem relevados outras qualidades nos cantores que não a voz. Quem venceu a dona de casa britânica no concurso foi um grupo de street dance. Novamente, o espetáculo, a performance, prevaleceram sobre a garganta. Se Susan tivesse tido tempo de fazer uma transplante de face, se tivesse tido tempo de emagrecer e de aprender a dançar, talvez tivesse vencido. Mas aí também não seria ela mesma, e sim um mero reflexo, apêndice do mercado.

Para Susan resta o consolo de uma possível apresentação para a rainha e, quem sabe, patrocínio para a gravação de algum CD. No mais, boa sorte a ela.

Quanto ao grupo vencedor, talvez faça algum sucesso por um breve período de tempo, caindo no esquecimento logo em seguida, até porque dança a gente só tem como ver, não ouvir.

Para finalizar, fiquem com a última apresentação de Susan no concurso e aceitem meu conselho aqueles que valorizam mais nos cantores o quesito voz: não percam seu tempo assistindo a programas de calouros hoje em dia, vocês vão morrer de raiva!

sábado, 30 de maio de 2009

AS ELEIÇÕES DE 2010 E O SOCIALISMO DO SÉCULO XXI

Lula e Obama na V Cúpula das Américas

Por Cléber Sérgio de Seixas


Na introdução do livro Manifesto do Partido Comunista de 1848 – leitura indispensável para quem quer se iniciar no estudo do marxismo – Marx e Engels disseram: “Um fantasma ronda a Europa – o fantasma do comunismo”. Nos dias atuais, poderíamos parafrasear os pais do socialismo científico da seguinte forma: “Um fantasma ronda a América Latina – o fantasma do socialismo do século XXI”. De fato, experiências como a venezuelana, a equatoriana e a boliviana, acenam para o advento de um novo tipo de socialismo, o qual, em alguns aspecos, rompe com o socialismo nos moldes tradicionais. Chávez e Morales vão abrindo caminho para uma maior inserção social dos menos favorecidos em seus países. Da reforma agrária à nacionalização de setores estratégicos da economia, passando por mudanças na constituição, de forma a permitir ao presidente se candidatar à reeleição quantas vezes quiser – condição às vezes indispensável para a execução de políticas de Estado -, aqueles países vão tomando os rumos necessários à implantação do socialismo em novos moldes.

Quando digo novos moldes, estou levando em consideração os velhos, os que foram tentados, ou seja, o socialismo real. O paradigma russo foi referência por décadas para o mundo socialista, até que o castelo de cartas começou a ruir e, por fim, mostrar-se um fracasso sob o ponto de vista humano e econômico em fins dos anos 80. Antes de chegar a este ponto, a União Soviética passou pelos expurgos stalinistas, pelos excessivos gastos decorrentes da corrida armamentista levada a cabo por governantes como Khrushchov e Brejnev, pela burocracia excessiva e pela ineficiência econômico-administrativa. Na era Gorbachev houve a Perestroika e a Glasnost , reestruturação e transparência, tentativas de trazer aos prumos o elefante branco em que se converteu o socialismo soviético. Mas já era tarde. O povo soviético, que há anos padecia sob um sistema semi-ditatorial travestido de sistema socialista, ansiava pela “liberdade” do sistema capitalista. Os ventos da mudança varreram o leste da Europa. A Rússia então abraçou o capitalismo em sua versão mais selvagem, abrindo espaço às maiores máfias do leste europeu, bem como ostentando uma quantidade de milionários comparável à de países ricos. As ruas das cidades russas passaram a abrigar mendigos e a desigualdade social passou a ser lugar-comum. Com a queda do comunismo russo, o efeito dominó levou abaixo os demais representantes desse sistema que ainda se mantinham de pé no leste europeu. O fim da União Soviética trouxe também à tona os nacionalismos que desde Stálin haviam sido sufocados. O separatismo passou a ser a ordem do dia.

Com a derrocada do comunismo no leste europeu, restou como bastião do comunismo uma pequena ilha caribenha chamada Cuba. Fidel Castro, aos trancos e barrancos, cercado e cerceado por um bloqueio econômico criminoso imposto pelo Tio Sam, levou adiante a Revolução Cubana, que há décadas concede à população uma qualidade de vida superior à de muitas outras nações latino-americanas. Apesar da falta de liberdade política, da ausência de eleições, o regime cubano, mesmo tendo promovido um nivelamento por baixo no nível sócio-econômico, consegue, ainda assim, dar mais qualidade de vida a seus cidadãos, se comparado com outras nações subdesenvolvidas ou em vias de desenvolvimento. Em Cuba há pobreza, mas não há miséria. Em Cuba há privação de acumulação de bens, mas, por outro lado, há educação e saúde gratuitos e de qualidade, acessíveis a todos os cubanos. Não fosse o embargo econômico assassino imposto por Washington, os cubanos teriam um nível de vida muito superior ao que atualmente desfrutam.

Países como a Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina, Chile, Nicarágua, Brasil e outros, elegeram socialistas como presidentes. Os casos do Brasil, da Argentina e do Chile estão mais para sociais-democracias neoliberais que para países socialistas. No Brasil a cartilha neoliberal foi seguida a risca pelo governo Lula, o qual, desde o primeiro mandato, sempre esteve mais para cor de rosa do que para vermelho. Lula assumiu o governo nos braços do povo, mas perdeu o bonde da história por não ter aproveitado o momento para levar a cabo medidas para diminuir o profundo fosso que separa ricos e pobres na maior nação latino americana. Uma reforma agrária em profundidade não se efetivou, a reforma política não foi feita e políticas de inclusão ainda são tímidas diante do necessário. Lula não criminalizou movimentos sociais, tal como fizera o governo Fernando Henrique Cardoso, mas também não incluiu a pauta de reivindicações deles na agenda do governo. Sob o governo do barbudo, os ditames neoliberais do Banco Central ainda dão as cartas no cenário econômico, mantendo os juros do Brasil dentre os mais altos do mundo, refreando assim o mercado de consumo interno. No entanto, devemos ser justos e mencionar que as classes menos favorecidas, sob Lula, foram agraciadas com algumas políticas de inserção social, tais como o Bolsa Família, o Fome Zero, o PROUNI e outros. Contudo são avanços ainda insuficientes diante das enormes necessidades de que ainda padecem os brasileiros.

Acredito que Obama tenha chamado Lula de “meu cara” exatamente porque conta com ele para tentar frear a “onda vermelha” que se abate sobre a América Latina. Lula é “o cara” talvez porque Obama enxergue no Brasil um cordão sanitário para barrar a “maré vermelha” que ameaça tomar de assalto todo o continente sul-americano e também a América Central.

Assim, as eleições de 2010 são de extrema importância para o cenário que se descortina na América Latina, visto que se Lula eleger seu sucessor, os EUA não terão como estabelecer sua cabeça de ponte nas terras tupiniquins. Se, contudo, o tucanato ou o partido dos DEMOS (do verbo ‘dar’ ou forma diminuta de ‘demônio', como queiram) conseguirem eleger um presidente, Obama terá no Brasil um representante de seus mais espúrios interesses, com o qual poderá contar para refrear o avanço das esquerdas nesse continente. Isso significará menos investimentos na área social, fortalecimento das políticas de caráter neoliberal, criminalização de movimentos sociais e populares, expansão dos desertos verdes – representados em sua maioria pelos latifúndios monocultores de soja e cana de açúcar -, sobretudo na Amazônia.

O socialismo do século XXI direciona seu olhar e sua esperança sobre o Brasil. Uma derrota das esquerdas aqui pode significar a derrota de todas elas no restante do continente latino americano. Portanto, é necessário que os brasileiros estejam atentos na hora de depositarem seus votos, já que estarão em jogo interesses que extrapolam nossas fronteiras. Um passo errado nas urnas poderá significar também um passo para trás, visto que a volta ao poder de governos neoliberais puro-sangue ou comprometidos mais com interesses estrangeiros que nacionais, colocará fim às conquistas que oito anos de governo Lula levaram a cabo, conquistas estas que, repito, são insuficientes, mas consistem nos primeiros passos rumo a patamares superiores de justiça social.

CORPO EM PORÃO PODE SER DE ROSA LUXEMBURGO

Marcio Damasceno da BBC Brasil Atualizado em 29 de maio de 2009 às 18:14

Um cadáver guardado por décadas no porão do hospital universitário Charité, uma das mais importantes instituições científicas da Alemanha, pode ser o da famosa revolucionária Rosa Luxemburgo, segundo o diretor do departamento de medicina legal da instituição, Michael Tsokos.

"Há semelhanças espantosas com Rosa Luxemburgo", disse o especialista, após exames minuciosos feitos no corpo.

O torso de mulher, sem cabeça, mãos e pés, foi submetido a diversos exames, incluindo tomografia computadorizada. "A mulher sofria de artrose e tinha pernas de comprimentos diferentes, exatamente como Rosa Luxemburgo", acrescentou.

De acordo com resultado de análises laboratoriais para determinar a idade, a morta tinha entre 40 e 50 anos. Luxemburgo tinha 48 anos quando morreu.

Para Tsokos, a falta de pés, mãos e cabeça seria resultado dos arames de aço que foram amarrados com pesos nos pulsos, tornozelos e no pescoço para que o corpo não retornasse à superfície.

O especialista diz que acredita ser possível que os fios metálicos e a correnteza da água tenham provocado a separação dos membros.

Deputados da oposição, líderes do partido de esquerda Die Linke (A Esquerda), reivindicaram nesta sexta-feira a intervenção do governo federal alemão para que o mistério seja esclarecido rapidamente. A revolucionária é padroeira da agremiação.

A militante marxista foi assassinada com um tiro na cabeça em janeiro de 1919, após ser sequestrada e espancada por membros de uma organização paramilitar, a mando do governo social-democrata alemão. Depois, o corpo foi jogado em um canal fluvial de Berlim.

Um corpo encontrado no canal no dia 31 de maio de 1919 foi enterrado como sendo o de Rosa Luxemburgo.

O médico legista diz crer, com base na análise do relatório da autópsia realizada na época, que o corpo enterrado como sendo o da revolucionária pertencia a uma outra mulher, provavelmente alguém que se suicidou no mesmo canal.

Nas anotações, os legistas da época não atestam uma diferença no tamanho das pernas do cadáver, nem outras características físicas peculiares a Rosa Luxemburgo.

Ela apresentava uma deformação na coluna, que fazia com que andasse mancando. A cabeça da autopsiada também não apresentava marcas de tiro. O túmulo de Luxemburgo se encontra vazio, depois de ter sido saqueado pelos nazistas em 1935.

"Sob a pressão dos militares, que tinham pressa em resolver o caso, os médicos emitiram o atestado usando uma outra morta afogada", avalia Tsokos.

Ele reconhece, no entanto, que só poderá ter a prova definitiva por meio de exames de DNA. "Só assim poderemos ter uma identificação inequívoca", afirma.

Tsokos espera poder comparar o material genético com mostras retiradas de uma sobrinha de Luxemburgo, que viveria em Varsóvia, para comprovar a identidade do corpo.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O COMENTÁRIO DE GARCIA

Por Cléber Sérgio de Seixas

Confesso que iria escrever sobre um outro assunto hoje, mas após ouvir na rádio Itatiaia pela manhã o comentário político do jornalista Alexandre Garcia, me vi forçado a escrever este post. Eis a íntegra do infeliz comentário:

“A Fundação Getúlio Vargas está mostrando que o Brasil está em recessão desde o último trimestre do ano passado, e que a atividade econômica, o PIB, já caiu em 3,6%. Aí eu me sinto tentado a comparar o Brasil com o Chile. O Chile, com toda essa crise mundial, vai ter uma queda do PIB de só 0,5%. O Chile tem dívida paga, economia funcionando, guardou reservas do tempo em que o preço do cobre estava alto, aprendeu muito, mesmo os socialistas chilenos, e principalmente eles, com o desastre e a péssima administração que foi o governo de Salvador Allende, que arrasou a economia chilena com 500% de inflação enquanto recebia armas de Fidel Castro e brincava de fazer tiro ao alvo com metralhadora. O governo socialista do Chile passa longe das loucuras de Allende e no Chile não tem mais lugar para mais nada parecido com ele, um tipo assim que continua a graçar na América Latina...”

No comentário acima o jornalista aponta uma melhora da economia chilena nos últimos anos, o que está fazendo com o que o país, que dispõe de generosas reservas financeiras, não sinta tanto os efeitos da crise financeira mundial, situação semelhante à do Brasil. Garcia afirma que o governo socialista de Bachelet passa longe das “loucuras de Allende”, cujo governo teria sido uma “péssima administração” e teria arrasado a economia chilena. Não sei de onde o jornalista tirou essa de que Allende brincava de tiro ao alvo, mas se o presidente chileno comprou armas de Fidel, provavelmente foi para se defender dos militares golpistas chilenos ou do movimento Pátria e Liberdade, em cujos quadros se encontravam agentes da CIA infiltrados. Para fechar o pacote, Alexandre Garcia diz que regimes nos moldes do de Allende ainda teimam em graçar na América Latina, referência indireta a governos de cunho popular, socialista e progressista, tais como os de Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador.

Das duas uma: ou o nobre jornalista está mal informado ou então muito mal intencionado. Levando em conta o jornalismo de tipo sabujo que predomina na grande mídia brasileira, fico com a segunda alternativa.

Todos sabem que o governo de Salvador Allende foi sabotado desde que tomou posse. Instalado na presidência, Allende, o primeiro marxista na história a chegar ao poder através das urnas, tratou de nacionalizar as minas de cobre, uma das maiores riquezas do país, cujas minas, até então eram controladas por duas empresas estadunidenses, a Anaconda Cooper Mining Company e a Kennecott Copper Company. Posteriormente Salvador Allende levou a cabo a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras improdutivas. Nacionalizou também os serviços de telefonia e fez intervenções no sistema bancário. Tais medidas provocaram a fúria dos Estados Unidos e da burguesia chilena.

Nas eleições de março de 1973, a coalizão Unidade Popular conquistou a maioria de cadeiras no parlamento chileno, possibilitando, assim, a permanência de Allende no poder. Derrotada nas urnas, a oposição inicia um processo para desgastar o governo de várias formas, dentre elas:
- açambarcamento do setor de distribuição de alimentos, provocando crises graves de desabastecimento;
- sabotagem da governabilidade por intermédio de um sem número de comissões de investigação das políticas econômicas, cujo intuito real é provocar o afastamento de vários ministros;
- financiamento de greves patronais, sobretudo no setor de transporte, o que fará parar o país. Detalhe: para ficarem com os caminhões e ônibus parados, empresários do ramo de transporte recebiam dinheiro da CIA, conforme ratificou, tempos depois, o jornal New York Times;
- Indução de greves no setor do cobre, maior riqueza do país. Episódio emblemático é a greve dos mineiros da mina de El Teniente.

No entanto, nenhuma das medidas supra mencionadas foram suficientes para apear Allende do poder. A partir de então a oposição apelará para o golpe direto. Em 29 de junho de 1973 uma ala do exército tenta um golpe, que é logo rechaçado. Porém em 11 de setembro de 1973 é dado o golpe de misericórdia. Liderados pelo general Pinochet, até então homem de confiança de Allende, os golpistas ordenam o bombardeio do palácio de La Moneda. Munido e um fuzil AK 47, que teria sido um presente de Fidel Castro, Allende prefere o suicídio a entregar-se aos golpistas.

Militares golpistas sitiam o Palácio de La Moneda

No poder, a junta de governo liderada por Pinochet iniciará uma ditadura que durará cerca de 17 anos e deixará um rastro de mais de 3 mil entre mortos e desaparecidos. A ditadura fora amplamente apoiada por Washington e foi responsável por introduzir políticas econômicas neoliberais naquele país do cone sul, o que, segundo alguns, têm garantido até hoje a estabilidade financeira chilena.

Talvez seja a esta estabilidade que se referiu Garcia no comentário que reproduzi acima. Contudo, afirmar que o governo Allende foi um desastre é, para dizer o mínimo, leviano, já que fora, desde o início, uma administração vitimada por toda sorte de sabotagens levadas a cabo por opositores internos financiados por interesses externos. Contudo, a colocação do nobre jornalista fantoche é compreensível se considerarmos que passamos por um período onde está em franco processo um revisionismo histórico; a ponto de um jornal de grande circulação nacional ter rebatizado a ditadura que vigorou no Brasil de 1964 a 1985 com o nome de “ditabranda”.

Na América Latina a história sempre se repete: em nome de um suposto nacionalismo, nossas burguesias recorrem ao entreguismo como moeda de troca para manterem seus privilégios de classe, mesmo que isso redunde em ditaduras assassinas e num caudal que escoe para fora do país riquezas que poderiam alavancar o desenvolvimento interno, arrancando da miséria milhares de cidadãos.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

CANETA OU FERRAMENTA?

Por Frei Betto

Quantos advogados você conhece? Uns tantos, certamente. Mas na hora de socorrer o seu computador pifado, consertar o vazamento da pia da cozinha ou traduzir-lhe o manual de funcionamento do novo televisor, que você lê, lê e não entende, a quem recorre?

O Brasil é uma nação de bacharéis. Como abrigamos a mais longa escravidão das três Américas – 350 anos –, ainda guardamos, do período colonial, resquícios elitistas, como julgar que profissões técnicas são para incompetentes que não chegam a doutor... Boa profissão é a que domina a caneta, e não a ferramenta.

Você sabia que de cada 100 brasileiros(as) no mercado de trabalho, 72,4% (ou exatos 71,5 milhões de pessoas) nunca fizeram um curso profissionalizante? Entre os desempregados, 66,4% (5,3 milhões de pessoas) nunca passaram por um curso de educação profissional. O dado é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado no dia 22.

O mais grave é o poder público, como diria aquele deputado do Conselho de Ética, estar “pouco se lixando” para a qualificação de nossos trabalhadores. Segundo o IBGE, em 2007, apenas 22,4% dos alunos de cursos profissionalizantes estavam matriculados em escolas públicas. Dos que buscam tais cursos, 53% dependem de ofertas de organizações não governamentais, sindicatos e instituições particulares. O famoso Sistema S (como Senai, Senac, Sebrae), que recebe robustas verbas do governo, forma apenas 20% dos interessados em qualificação.

Mesmo os cursos existentes nem sempre primam pela qualidade. Entre os matriculados, 80,9% frequentavam cursos que não exigiam escolaridade prévia... O que explica o alto número de analfabetos virtuais em profissões técnicas. Consertam a geladeira, mas são incapazes de redigir um bilhete explicando a causa do defeito.

Na mesma pesquisa, o IBGE constatou que são analfabetos 13,5 milhões de brasileiros(as) (9,5% da população) com mais de 15 anos. E de 1,8 milhão que frequentavam salas de aula, 810 mil (45%) admitiram não saber ler nem escrever um simples recado.

A falta de motivação é a principal causa de desinteresse por cursos profissionalizantes. O Brasil é o reino do improviso. O auxiliar de eletricista aprende na prática, assim como o de cozinha acredita que, amanhã, a intimidade com o fogão fará dele um chef. Muitos (14,1%) admitiram não poder pagar um curso dessa natureza. E 8,9% se queixaram da falta de escola na região.

Dos alunos em cursos profissionalizantes, 17,6% frequentavam cursos técnicos de nível médio. E apenas 1,5% cursos de graduação tecnológica equivalente ao nível superior. O mais procurado é o curso de informática (41,7%), seguido de comércio e gestão (14%) e indústria e manutenção (11,2%). Ao todo, 215 mil estudantes, o que representa um índice muito baixo dada as dimensões do país e de suas necessidades.

Esse quadro explica, em parte, a razão do nosso subdesenvolvimento – ou eterna situação de país emergente. O Ministério da Educação (MEC) promete que, até o fim de 2010, o Brasil passará de 185 mil para 500 mil vagas em cursos profissionalizantes. As escolas – hoje, 140 – serão 354.

Um das causas dessa realidade preocupante foi a lei de 1988, proposta pelo presidente FHC e aprovada pelo Congresso, que proibiu a União de criar novas escolas técnicas federais. Felizmente, Lula a revogou em 2005.

Falta ao atual governo corrigir outro erro crasso: o EJA (Educação de Jovens e Adultos, que substituiu o antigo supletivo), embora acolha trabalhadores em suas aulas, não propõe educação profissionalizante. Isso explica o alto índice de evasão – 42,7% dos matriculados não concluem o curso, sobretudo no Nordeste (56%).

Muitas vezes, o horário das aulas coincide com o do trabalho (o que induz à evasão de quase 30% dos alunos), e a metodologia de ensino ignora Paulo Freire e os recentes avanços da educação popular.

O Brasil precisa trocar o PAC – Programa de Aceleração do Crescimento – pelo PAD, Programa de Aceleração do Desenvolvimento, sobretudo humano. Sem recursos humanos qualificados, uma nação está fadada a sempre depender do mercado externo e, portanto, do jogo cruel da especulação internacional, da flutuação de divisas conversíveis e das concessões aos importadores, que jamais abrem mão de suas políticas protecionistas.

Sem educação o Brasil não tem solução. Nem salvação.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

UNIDOS NO FUTEBOL

Mais um cartum do meu amigo Cleuber

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SUSAN QUASE LÁ




Por Cléber Sérgio de Seixas


Lá estava ela novamente. Desta vez os olhares iniciais não eram de desdém, mas de curiosidade, tomados de expectativa. O que viria? Qual seria a canção interpretada?

No início ela escorrega, desafina feio, derrapa nos graves - dificílimos até para as mais profissionais - mas aos trancos recupera a trajetória e brinda a platéia com uma belíssima interpretação de Memory, do mestre Loyd Weber. Para quem fora até então uma simples dona de casa, até que Susan manda bem. Confesso que desde Barbra Streisand não ouvia Memory tão bem cantada. Já classificada para a final, resta esperarmos o desfecho desta inusitada história.

Faço votos que Susan tenha êxito e seja coroada a vencedora do programa Britain's Got Talent (espécie de Ídolos das terras de madame Thatcher), mas sou cético quando se trata de programas de calouros. Desde que vi Shirley Carvalho perder o último ídolos exibido pelo SBT para uma loirinha sem graça chamada Thaeme Marioto, tomei birra deste tipo de programa e jurei nunca mais ver. O mais surreal foi constatar que foi o público quem votou e escolheu Thaeme, a mais "bonitinha". Prevaleceu a aparência, não o talento.

O exemplo de Boyle é um alento, já que, caso ela vença, estará quebrando o paradigma atual de que só têm vez no mercado fonográfico aqueles cantores que se encaixam nos padrões de beleza, juventude e carisma que o mercado impõe. Susan não é bela, não é jovem, não é magra e, provavelmente, não será daquelas cantoras que ficam saltitando no palco, além de ter o clássico com seu principal repertório, algo intragável para a maioria dos pobres mortais. No entanto ela tem o que realmente devia interessar num cantor: voz. O resto, ao meu ver, é mero acessório.

Depois que inventaram o vídeo-clip, os quesitos para ser um cantor nunca mais foram os mesmos. Envoltos por verdadeira parafernália eletrônica, maquiagem pesada, figurino extravagante, os cantores têm que estar sempre "bem na fita" para estrelar seus clipes. A mesma lógica é válida para os shows, que se convertem em verdadeiras performances artísticas, onde tudo é válido, da pirotecnia, passando pelos efeitos especiais, às acrobacias coreográficas estilo Madonna. É claro que uma produção pode dar uma guaribada na aparência de muita gente com a qual a natureza não tenha sido muito gentil, mas não a ponto de fazer milagres. Assim sendo, quem não tiver sido agraciado pela genética ficará relegado ao ostracismo artístico.

Portanto, Boyle já tem meu voto, mas não creio que ela vencerá a disputa. Se meu ceticismo for contrariado, quem sabe uma nova era se instaure para os feios porém talentosos?

terça-feira, 26 de maio de 2009

NEOLOGISMOS

Por Eduardo Galeano

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões;

O oportunismo se chama pragmatismo;

A traição se chama realismo;

Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;

A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;

O direito do patrão de despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral;

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;
em lugar de ditadura militar, se diz processo.

As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos;

O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de
enriquecimento ilícito;

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;

Em vez de cego, se diz deficiente visual;

Um negro é um homem de cor;

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou AIDS;

Mal súbito significa infarto;

Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;

Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais;

Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;

Chama-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob proteção militar;

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;

Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas.

(Do livro De pernas pro ar, editora L&PM)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

POR QUE A JUSTIÇA NÃO PUNE OS RICOS?

Por Tatiana Merlino Revista Caros Amigos, edição de maio/2009

Maria Aparecida evita olhar para sua imagem refletida no espelho. Faz quatro anos que a jovem paulistana saiu da cadeia, mas, nem que quisesse, conseguiria esquecer o que sofreu durante um ano de detenção. Seu reflexo remonta ao ocorrido no Cadeião de Pinheiros, onde esteve presa após tentar furtar um xampu e um condicionador que, juntos, valiam 24 reais. Lá, Maria Aparecida de Matos pagou por seu “crime”: ficou cega do olho direito.


Portadora de “retardo mental moderado”, a ex-empregada doméstica foi detida em flagrante em abril de 2004, quando tinha 23 anos. Na delegacia, não deixaram que telefonasse para a família. Foi mandada diretamente para a prisão, onde passou a dividir uma cela com outras 25 mulheres. Em surto, a jovem não dormia durante a noite, comia o que encontrava pelo chão, urinava na roupa.

Passado algum tempo, para tentar encerrar um tumulto, a carceragem lançou uma bomba de gás lacrimogêneo na área das detentas. Uma delas resolveu jogar água no rosto de Maria Aparecida, e a mistura do gás com o líquido fez com que seu olho fosse sendo queimado pouco a pouco. "Parecia que tinha um bicho me comendo lá dentro", conta.

A pedido das colegas de pavilhão, que não aguentavam mais os gritos de dor e os barulhos provocados pela moça, ela foi transferida para o "seguro", onde ficam as presas ameaçadas de morte. Maria Aparecida passou a apanhar dia e noite. "Eu chorava muito de dor no olho, e elas começaram a me bater com cabo de vassoura", relembra, emocionada. Somente quando compareceu à audiência do seu caso, sete meses depois de ter sido detida, sua transferência para a Casa de Custódia de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, foi autorizada. Lá, diagnosticaram que havia perdido a visão do olho direito.

Foi nessa época que sua irmã Gisleine procurou a Pastoral Carcerária, que a encaminhou para a advogada Sonia Regina Arrojo e Drigo, vice-presidente do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC). Sonia entrou com um pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça de São Paulo, que foi negado. Apelou, então, ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, em maio de 2005, concedeu liberdade provisória à jovem, 13 meses depois de ter sido presa por causa de 24 reais.

A advogada também entrou com um pedido de extinção da ação, baseando-se no “princípio da insignificância”, aplicado quando o valor do patrimônio furtado é tão baixo que não vale a pena a justiça dar continuidade ao caso. No entanto, até hoje, o processo não foi julgado, e Maria Aparecida continua em liberdade provisória.

A situação indigna Gisleine. "É um descaso muito grande. Já era para esse julgamento ter acontecido. Minha irmã pagou muito caro por esse xampu que não chegou a utilizar", critica. "Tem gente que não precisa estar na cadeia. Existem penas alternativas e o caso dela não seria de prisão, mas sim de internação, já que desde os 14 anos ela toma medicação controlada", afirma.

Justiça seletiva

O mesmo recurso jurídico – o habeas corpus – pedido pela advogada Sonia Drigo para que Maria Aparecida respondesse ao processo em liberdade foi solicitado e concedido, em 24 horas, a outra mulher. Mas um “pouco” mais rica: a empresária Eliana Tranchesi, proprietária da butique de luxo Daslu, em São Paulo, condenada em primeira instância a uma pena de 94,5 anos de prisão. Três pelo crime de formação de quadrilha, 42 por descaminho consumado (importação fraudulenta de um produto lícito), 13,5 anos por descaminho tentado e mais 36 por falsidade ideológica.

Somando impostos, multas e juros, a Justiça diz que a Daslu deve aos cofres públicos 1 bilhão de reais. Os representantes da empresa contestam esse valor, mas afirmam que já começaram a pagar as dívidas. A sentença inclui ainda o irmão de Eliana, Antonio Carlos Piva de Albuquerque, diretor financeiro da Daslu na época dos fatos, e Celso de Lima, dono da maior das importadoras envolvidas com as fraudes, a Multimport.

A prisão de Tranchesi foi consequência da Operação Narciso, desencadeada pela Polícia Federal em conjunto com a Receita Federal e o Ministério Público em julho de 2005, com o objetivo de buscar indícios dos crimes de formação de quadrilha, falsidade material e ideológica e lesão à ordem tributária cometida pelos sócios da butique.

De acordo com juristas e analistas ouvidos pela reportagem da Caros Amigos, a diferença de tratamento dispensado a casos como o de Maria Aparecida e Eliana Tranchesi acontece porque, embora na teoria a lei seja a mesma para todos, na prática, ela funciona de forma bem distinta para os representantes da elite e para os pobres.

Sonia Drigo ressalta, entretanto, que não existe uma justiça para ricos e outra para as camadas mais humildes. “Ela é uma só, mas é aplicada diferentemente”. Segundo o cientista político e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Andrei Koerner, a questão do acesso à justiça no Brasil é histórica. "Sempre houve uma grande diferença de tratamento dos cidadãos de diferentes classes sociais pelas instituições judiciárias".

Ele explica que dentro do judiciário há distinções no andamento e efetividade dos processos, que variam com a classe social dos envolvidos. Segundo ele, um dos maiores problemas do poder é sua morosidade. No entanto, "isso não significa que os processos dos ricos são mais ágeis. Depende dos interesses e efeitos produzidos pelos processos". Ou seja, a Justiça, quando interessa às classes dominantes, também pode ser lenta. Como exemplo, o professor cita "o longo tempo de uma execução para cobranças de dívidas de impostos, de contribuições previdenciárias".

Em relação a casos penais, isso também ocorre, "como quando uma pessoa com muitos recursos financeiros é acusada – Paulo Maluf, por exemplo. Nesse caso, ela é capaz de bloquear o andamento do processo até que a pena esteja prescrita. A agilidade em decidir a prisão ou soltura de uma pessoa também varia, de acordo com sua classe social", aponta Koerner. A diferença é que "um acusado de classe menos favorecida não será capaz de usar as oportunidades permitidas pelo processo".

O juiz criminal Sérgio Mazina, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim), acredita que o sistema judiciário reserva, aos pobres, o espaço da justiça criminal. "Essa desigualdade, mais servil aos interesses dos poderosos e mais repressiva em relação aos mais necessitados, acirra-se ainda mais em países como o Brasil, que tem uma sociedade baseada num sistema escravista".

De acordo com Roberto Kant de Lima, Professor Titular de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), existem “moralidades” distintas por parte dos agentes de segurança pública e justiça criminal no tratamento à criminalidade, quando ela está ligada ou não ao patrimônio. “Os latrocínios [roubo seguido de morte], por exemplo, são julgados por um juiz singular, enquanto que os outros homicídios são julgados pelo júri popular’’. Segundo o professor, que coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, pode-se concluir que as várias “moralidades” afetam desigualmente a aplicação da lei, sendo que algumas dessas desigualdades estão registradas em tipos processuais explícitos, enquanto outras, não.

Mazina sustenta que a justiça brasileira é constituída para não ser popular. Em sua avaliação, desde a formação da legislação, há uma preocupação muito maior com a preservação patrimonial em detrimento da proteção da integridade física. Isso contribui, portanto, para a criminalização das camadas mais baixas da população, mais propensas, por sua condição social, a cometerem delitos contra o patrimônio. "Há um acirramento da legislação para os crimes cometidos pelos pobres. O código penal brasileiro criminaliza a pobreza", denuncia Mazina.

Sonia Drigo acredita que há uma dupla criminalização, pois "a exclusão já é uma criminalização. Isso me lembra a diferença de tratamento dado para um sem-teto e para aquele que mora numa mansão. Vamos penalizar aquele que não tem endereço, nem carteira assinada. Então, vamos bater nele, torturá-lo porque não teve condições de estudar e trabalhar".

O caso da ex-empregada doméstica Maria Aparecida não deixa dúvidas a respeito de como isso acontece na prática. Na casa de sua irmã, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, a moça pouco fala. Mantém-se de cabeça baixa, cabelos longos e negros escondendo parte de seu rosto. Às vezes, esboça um sorriso ingênuo. Sua expressão é de uma menina.

Quando faz um balanço da prisão, da tortura e da perda da visão, muda a fisionomia: "Tudo isso por conta de um xampu. Minha vida acabou". Maria Aparecida compara-se com Eliana Tranchesi. "Eu peguei só um xampu e fiquei lá. Ela, cheia de dinheiro, saiu logo, e teve do bom e do melhor".

A alegação que foi dada à família de Maria Aparecida para a perda da visão foi de que a jovem havia batido com o rosto no trinco de uma porta. "Mas isso é mentira, não tinha porta com trinco nenhum lá", afirma Gislaine. Quando a moça foi transferida da cadeia para o manicômio em Franco da Rocha, fizeram um exame de corpo de delito, que atestou lesões corporais leves. "Ela perdeu um órgão vital, não a socorreram. Gostaria de saber o que seria a lesão corporal grave, entregá-la num caixão para a família?", questiona Gislaine, indignada.

Propriedade, o grande valor do direito penal

De acordo com a juíza Kenarik Boujikian Felippe, integrante da Associação de Juízes para a Democracia (AJD), "a propriedade é o grande valor do direito penal. Basta ver que a pena do furto é maior do que a pena de tortura. Para o direito penal, pegar algo da sua bolsa é mais grave do que a tortura", avalia. Ou seja, para a justiça brasileira, é mais importante proteger um xampu e um condicionador de alguma loja que a integridade física de Maria Aparecida.

A "sagrada" defesa da propriedade privada acaba sendo utilizada como argumento para criminalizar movimentos sociais, como no caso das organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). "Na medida em que esses movimentos possam a reivindicar uma redistribuição de riquezas, há sua criminalização. Se tiverem apresentando um reclamo como o da proteção do meio ambiente, não há necessidade de criminalizá-lo. Mas se eles questionam a estrutura econômica da sociedade, há uma propensão à sua criminalização".

Para Kenarik, a diferença de tratamento dispensado a ricos e pobres pode ser atribuída, ainda, a um "judiciário extremamente conservador, ideológico, que acha que pobre, por sua natureza, tem que estar preso. Ninguém assume isso, mas existe. É algo que vem de 500 anos de historia".

Especialistas ouvidos pela reportagem acreditam que, muitas vezes, os magistrados estão imbuídos de preconceito quando vão lidar com pessoas das classes menos favorecidas. De acordo com o defensor público Rafael Cruz, a exigência de endereço fixo e de trabalho para conceder liberdade provisória a uma pessoa que está sendo processada é um exemplo típico. "Na justiça federal, onde tem os crimes tributários, isso não acontece. Há uma seletividade, como se os crimes contra o patrimônio fossem mais graves que os crimes tributários".

Na avaliação do juiz Sérgio Mazina, aqueles que não têm bons antecedentes e não são proprietários acabam sendo estigmatizados. "Então, o discurso do juiz, dos policiais, é voltado para a priorização de quem tem condições econômicas, e para a punição do mais carente".

Sonia Drigo resume. A lógica, na cabeça dos magistrados, funciona assim: "vamos ver se esta pessoa não está envolvida em outros casos, se o endereço dela é este mesmo. É como se um morador de rua não tivesse cidadania para responder em liberdade qualquer processo que venha a ser instaurado contra ele".

Casos arbitrários é que não faltam. Desde 2005, após conseguir um habeas corpus para Maria Aparecida, Sonia trabalha defendendo voluntariamente mulheres acusadas de cometer pequenos furtos. O trabalho, segundo ela, não tem fim, pois sempre aparece um caso novo, o que evidencia o comportamento do Judiciário. "É como se a Justiça dissesse: 'Por que ela roubou picanha e não carne moída? Ela disse que estava com fome, mas quem garante?'. A dúvida sempre é contra aquela pessoa. Sempre se faz mau juízo, e não garante a ela os benefícios que são garantidos para aqueles que têm informação, instrução", critica.

Uma das mulheres que Sonia defende também se chama Maria Aparecida, e foi presa em flagrante por tentativa de furto de seis desodorantes de uma loja em São Paulo. Condenada a 14 meses, sua pena está próxima do fim.

A moça está na Penitenciária Feminina de Santana, a mesma onde Eliana Tranchesi esteve presa. A diferença é que a última teve habeas corpus concedido, enquanto a primeira não. Uma, era acusada de sonegar 1 bilhão em impostos. A outra, tentou subtrair objetos que não chegavam a totalizar 30 reais.

"A pena adequada não seria de privação de liberdade, e além disso, a liberdade provisória poderia ter vindo em favor dela 48 horas depois. Mas não veio. E aqui também seria aplicável o principio da insignificância", diz Sonia. Se o caso chegar ao STF, será anulado, garante. No entanto, a mulher já terá cumprido toda a sua pena.
"Ninguém vai prejudicar o patrimônio de uma grande rede de supermercados porque tentou furtar seis desodorantes que não foram usados, o chocolate que não foi comido, a picanha que não foi assada, o brinquedo que não foi usado. Há crimes contra a vida, homicidas famosos que têm o direito da liberdade provisória garantida. Já essas pessoas não, pois ousaram atingir o patrimônio de alguém".

Relações perigosas

O preconceito dos membros da Justiça com as classes mais pobres também é fruto da relação histórica entre representantes da elite e do Judiciário, afirmam os analistas. "No Brasil, ele é formado por quadros da classe dominante, especificamente no século 19. Havia a necessidade da formação de quadros, e eles vieram da elite agrária", lembra Mazina.

Na avaliação do Professor Titular de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Roberto Kant de Lima, "em qualquer sociedade, os membros do Judiciário serão parte das elites, seja por sua posição original, seja por merecimento". No entanto, ele avalia que a elite brasileira não é cidadã, pois reivindica sempre privilégios "como a aplicação particularizada e excepcional da lei no seu caso, ao invés de reivindicar a uniformidade na aplicação das normas para todos, sem distinção, característica de qualquer República".

Desse modo, acredita, o poder econômico e as relações pessoais assumem um peso crítico, "pois são acionados mecanismos legais e morais que encontram respaldo na sociedade brasileira, socialmente hierarquizada, embora teoricamente republicana".

Outro aspecto apontado é que quando se trata de crimes cometidos pela elite, como desvio de dinheiro, "parece que o acusado não é uma ameaça para a sociedade, e assim, não há um interesse para que o processo ande rapidamente", avalia Sonia Drigo. Ela lembra que nunca se encarcerou tanto no país como hoje. De acordo com dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), do Ministério da Justiça, em 1995, havia 148 mil detidos nas penitenciárias e delegacias no país. Em junho de 2007, esse número subiu para 422.373. "Esses presos não são da elite e uma boa parte não deveria estar preso. 30% do total poderia estar em liberdade”.

No Brasil, é consenso entre a população que os ricos nunca vão presos, e que cadeia é coisa de pobre. "Aqui na justiça estadual [de São Paulo] não temos a competência de investigar crimes financeiros, colarinho branco. Eles correm na justiça federal. Aqui temos roubo, tráfico de entorpecentes", relata a juíza Kenarik Boujikian Felippe. "Mas qual é o trabalho que a policia faz com eles?. O sistema policial funciona só para quem é pobre. Aquele que ganha rios de dinheiro eu não vejo, não sei quem é esse cara. Esses réus nem chegam aqui. Eles estão na esfera federal. E a policia sempre funcionou para isso, e acaba se refletindo.

Para Sérgio Mazina, presidente do Ibccrim, o principal motivo de haver poucos representantes da elite processados e condenados é fundamentalmente político, mas é resultado, também, de um sistema falho. "Não temos uma policia preparada para investigar esse tipo de crime, ela é preparada para investigar e prender aquele que está te assaltando no meio da rua com revólver, querendo pegar sua bolsa ou celular".

Já para ir atrás de crime cometido pelos representantes do poder econômico, segundo Mazina, não há estrutura, pessoal, equipamentos, e sequer formação para entender o delito que está sendo praticado, pois ele é, geralmente, complexo, por mexer com os aspectos tributário e financeiro. Assim, o sistema "se resume a fazer intervenções espetaculares, sensacionais, que acontecem em momentos da mídia, mas que são inconsistentes".

O presidente do Ibccrim destaca que a punição precisa estar assentada em cima de provas. "Não adianta sair dando sentenças de um século para todo mundo, porque ela não vai subsistir e a justiça vai ficar desacreditada. Esse é o grande perigo".

No caso de Maria Aparecida e Gisleine, isso já aconteceu. “O Judiciário precisa ser modificado. Tem que se tratar todos igualmente”, sentencia Gisleine. Já Maria Aparecida diz que a perda do olho abala muito sua vaidade: “Se pelo menos eu tivesse saído com a minha vista, nem precisava de nada mais”. Você se sente injustiçada? "Sim, muito", responde, escondendo o rosto, lágrimas escorrendo.

OUTRA LEITURA PARA A CRISE

Por José Saramago

A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

clique aqui para ir ao blog do Saramago

Nota do blog: há quase um mês escrevi um artigo neste blog com teor semelhante ao texto acima. Clique aqui para ler

domingo, 24 de maio de 2009

Cronologia - 24 de maio

24 de maio de 1954

EUA levam armas à América Central.
O governo americano informou que aviões da força aérea dos Estados Unidos estão levando armas para Nicarágua e Honduras, nos termos de acordos de ajuda militar recentemente assinados.

Comunistas poderão ser expulsos dos EUA.
A Suprema Corte americana manteve por 7 votos a 2 artigo da Lei de Segurança Nacional aprovada em 1950 permitindo a deportação de estrangeiros que tenham integrado o Partido Comunista no passado.

24 de maio de 1961

Kennedy defende troca de cubanos por tratores.
O presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, conclamou os cidadãos americanos a contribuírem para a campanha que visa a oferecer tratores em troca da liberdade de rebeldes cubanos presos pelo governo de Fidel Castro.

24 de maio de 1994

Congresso reduz mandato presidencial.
O Congresso Revisor aprovou por 323 votos contra 29 a emenda constitucional que reduziu de cinco para quatro anos o mandato do presidente. As eleições para a presidência, o Congresso, as assembléias legislativas estaduais e os governos de estado passaram assim a coincidir. A aprovação decorreu de acordo entre os partidos, que se comprometeram também a votar a favor da emenda que permitiria a reeleição para a presidência.

24 de maio de 1995

Câmara líquida monopólio estatal das telecomunicações.
Por 348 votos a 140 e cinco abstenções, a Câmara dos Deputados aprovou o fim do monopólio estatal sobre as telecomunicações. A constituição de 1988 atribuiu à União a competência para exploração dos serviços de telecomunicações e concedeu apenas a empresas estatais o direito de obter concessões para exercer atividades na área de serviços telefônicos, telegráficos e transmissão de dados. A emenda manteve o controle da União no setor, mas abriu a atividade a empresas privadas, mediante concessão, autorização ou permissão, e proibiu a edição de medidas provisórias para regulamentar a estrutura do setor.


Fonte: ENCICLOPÉDIA BARSA PLANETA INTERNACIONAL

DIÁRO DE FERNANDO: NOS CÁRCERES DA DITATURA MILITAR BRASILEIRA

Por Frei Betto

Eis um documento histórico, inédito, que esperou 36 anos para vir a público: trata-se do diário de prisão do frade dominicano Fernando de Brito, prisioneiro da ditadura militar brasileira, ao longo dos quatro anos (1969-1973) em que foi submetido a torturas e removido para diferentes cadeias. Fernando, em companhia de outros frades dominicanos, vivenciou algo inusitado em se tratando de presos políticos do Brasil: foi obrigado a conviver, durante quase dois anos, com presos comuns, em penitenciárias de São Paulo.

Assim como o "Diário de Anne Frank" nos revela a natureza cruel do nazismo, Diário de Fernando retrata o verdadeiro caráter do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Não se conhece similar entre as obras publicadas sobre o período.

Em papel de seda, em letras microscópicas, e sob risco de punição, Fernando anotava, dia a dia, o que via e vivia. Em seguida, desmontava uma caneta Bic opaca, cortava ao meio o canudinho da carga, ajustava ali o diário minuciosamente enrolado e remontava-a. No dia de visita, trocava a caneta portadora do diário com outra idêntica, levada por um dos frades do convento.

O medo de ser flagrado pelos carcereiros e o risco permanente de revistas, fizeram com que Fernando muitas vezes se visse obrigado a destruir as memórias registradas em papel. No entanto, o que vivenciou jamais se esvaneceu, e ultrapassou os muros das prisões. Frei Betto, seu companheiro de cárcere, resgatou as anotações, deu-lhes tratamento literário e as reuniu neste livro que se constitui num documento de inestimável valor histórico.

Nos episódios relatados, a trajetória dos frades se mescla à de personagens que são, hoje, figura de destaque na história brasileira, como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Caio Prado Jr., Apolônio de Carvalho, Paulo Vannuchi, Franklin Martins e Dilma Rousseff, para citar apenas alguns.

Para quem se interessa em conhecer a verdadeira face do regime militar e o Brasil dos "anos de chumbo", Diário de Fernando é um testemunho vivo, comovente, de uma de suas vítimas. Não se trata de investigação jornalística, nem resulta da pesquisa de historiador, mas sim de um sincero, emocionante e visceral relato de quem teve a ousadia de registrar, dia a dia, as entranhas de um dos períodos mais dramáticos da história do Brasil.

Está tudo ali: as torturas, os desaparecimentos, o sequestro de diplomatas, as guerrilhas urbana e rural, a greve de fome de quase 40 dias, e também a convivência dos prisioneiros marcada por momentos de inusitada beleza: as festas de Natal, as noites de cantoria, a solidariedade inquebrantável entre eles.

Diário de Fernando traduz a saga de uma geração que não se dobrou à ditadura e a qual o Brasil deve, hoje, a sua redemocratização. Eis uma obra que enaltece a dignidade humana, a capacidade de resistência frente à opressão e a vivencia da fé cristã como nas antigas catacumbas do Império Romano.

Fonte: Site Adital (clique aqui para visitar)

Nota do Blog: Em um post anterior (clique aqui para ler o post) eu já havia me referido ao lançamento do livro de que é assunto este artigo. Aproveito o ensejo para novamente convidar os leitores, sobretudo os que estiverem em Belo Horizonte e adjacências, para assistir à palestra de lançamento do livro. Para maiores detalhes sobre o evento clique aqui.

OS PRIMEIROS TRINTA

Por Cléber Sérgio de Seixas

Há exatamente um mês este blog foi lançado. Nos apresentamos num manifesto (clique aqui para ler o manifesto), nossa carta de intenções. Nesse mês que se transcorreu desde a criação do blog, confesso que muitas vezes pensei em desistir - parecia que estava falando ao vazio, que ninguém me lia, até que coloquei um contador de acessos e percebi que os textos meus e de minha esposa estavam sendo lidos e, consequentemente, nossas idéias estavam sendo expostas a mais pessoas.

Um novo alento veio quando o jornalista Luiz Carlos Azenha, a quem agradeço muitíssimo, publicou dois textos de minha esposa citando o blog dela e este (clique aqui para ler um dos textos divulgados pelo Azenha). Posteriormente o Eduardo Guimarães (clique aqui para ir ao blog Cidadania.com), a quem também sou grato, divulgou este blog. Ambas as citações colaboraram muito com o crescimento do número de leitores deste blog, tendo o número de acessos dado um salto desde então.

Confesso que não é coisa das mais fáceis manter um blog, pois requer constante atualização, diversificação nos conteúdos - sem, contudo, abandonar o estilo do blog - e, sobretudo, tempo. Como trabalho como técnico em suporte na área de informática, só tenho tempo à noite para postar algo. Tento postar sempre artigos originais, de minha autoria ou de minha esposa. Quando não é possível, reproduzo artigos de outros blogs, sempre tendo o cuidado de citar a fonte.

Apesar das dificuldades, está sendo uma experiência nova para mim. Já tive experiência anterior na escrita de artigos, pois já o fazia há uns três anos num jornal que circula na empresa onde trabalho. Mas não é a mesma coisa que ter um compromisso com um blog; além disso leitores de um blog são mais seletos, ou seja, entram no blog, conhecem-no e, caso voltem a visitá-lo, o farão por ter alguma afinidade com o conteúdo do mesmo, do contrário, não voltarão a visitá-lo.

Agradeço a todos os que leram este blog e o divulgaram nos bastidores. Pretendo manter-me, respeitadas as minhas limitações intelectuais, nesta linha de observação da sociedade, buscando desnudar-lhe as entranhas ocultas, ou seja, aquilo que está além do consensual, do lugar-comum, visto que nem sempre as aparências revelam toda a verdade. Acredito que muitas coisas parecem estar ocultas porque as pessoas estão demasiado ocupadas com entretenimentos diversos ou com os próprios problemas, olhando para o próprio umbigo e, por isso, ficam com a visão social embaçada, não percebendo que muitas das mazelas sociais com as quais convivem, são fruto da omissão, da falta de engajamento político ou social. Quando digo engajamento político ou social não estou me resumindo a filiação partidária ou a participação em alguma ONG, sindicato etc. Refiro-me ao exercício da cidadania puro e simples, o qual pode ser levado a cabo desde a denúncia da improbidade de órgãos públicos junto à imprensa ou outros órgãos de fiscalização, até o engajamento direto em algum movimento em prol dos direitos sociais. Confesso que não me incluo no rol dos que têm tempo para um engajamento direto - pretendo ter um dia. Por isto este blog foi criado, foi a forma que encontrei para, de alguma forma, exercer minha cidadania e incentivar outros a terem semelhante engajamento.

No mais, reitero minha opção pelo Socialismo/Comunismo, visto que creio ser o sistema econômico mais adequado à humanidade. Entenda o leitor que socialismo e comunismo não podem ser resumidos às experiências daquilo que muitos chamam de Socialismo Real, o qual foi experienciado e desvirtuado em diversas experiências históricas, tal como na antiga União Soviética, no Camboja, na Alemanha Oriental, na China etc. O ideário comunista que tenho em mente é aquele que garante justiça social a todos, conforme diz Marx em sua obra Crítica ao Programa de Gotha: "de cada um conforme a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades". Rejeito as experiências pseudo-social-comunistas, que se converteram em expurgos (URSS), lavagem cerebral (China de Mao) e matanças (Camboja). O mais próximo do que tenho como socialismo ideal é o que é praticado hoje em Cuba.

Prossigo na esperança de um mundo mais justo para mim e para meus semelhantes. Creio que um novo homem há de surgir das cinzas do capitalismo selvagem e de sua variante neoliberal. Tenho a esperança de viver o suficiente para ver a rúina do capitalismo, bem como a de todas as nefastas consequências para a humanidade que ele carrega em seu bojo, e o triunfo do socialismo e seu desenvolvimento em comunismo, uma sociedade sem classes e sem injustiças.

No mais, muito obrigado a todos os leitores.

sábado, 23 de maio de 2009

VELHICE OU EXPERIÊNCIA?

Meus pais: idosos e experientes

Por Cléber Sérgio de Seixas


Quando nascemos é como se nos dessem X reais para gastar. À medida que o tempo passa, temos X-1, X-2... X-60 e assim sucessivamente. Quando estivermos próximos à tumba - com o pé na cova, como muitos gostam de dizer - teremos talvez só alguns centavos no bolso. Os “valores” de que dispomos são, então, inversamente proporcionais ao número de anos que vivermos. À medida que o tempo age sobre nós, nos é roubada a vitalidade, um pouco da lucidez, mas não a experiência. Este processo culminará na inexorável sina de todo ser humano: a morte.

No filme O Estranho Caso de Benjamim Button é contada a história de um indivíduo que nasce velho e vai rejuvenescendo com o passar dos anos. Como seria se pudéssemos chegar à velhice com a vitalidade de um jovem aliada à experiência de um idoso?

Na sociedade onde tudo tem que ser novo, atual, belo, o que é velho tem que receber outros nomes para ser aceito. Na cultura da novidade, envelhecer é um pecado imperdoável. Chamar alguém de velho na cultura contemporânea é o mesmo que dirigir-lhe um impropério. Assim, apela-se a neologismos para suavizar termos utilizados para denotar uma pessoa avançada em dias. Antigamente se dizia que um indivíduo era velho quando já havia ultrapassado a barreira dos sessenta anos. Agora chamam-no de indivíduo da terceira idade. 

Contudo, o termo terceira idade ainda pressupõe velhice. Assim sendo, para suavizar ainda mais, eis que surge o termo “melhor idade” para denominar a fase mais avançada da vida de um indivíduo em termos de tempo. Já se fala até de “dign/idade”. O fato de eu chamar uma pessoa idosa de “indivíduo da melhor idade” não mudará o fato de que a mesma é velha. 

Considera-se idosas as pessoas que estão chegando perto da morte, mas o foco da consideração deveria ser em relação à experiência adquirida nos anos vividos, não em relação ao desgaste físico decorrente do passar pelo tempo. Velho, na concepção pós-moderna, é convertido em sinônimo de ultrapassado, antiquado. 

A “melhor idade”, segundo convenções atuais, é aquela idade na qual se pode aproveitar a vida melhor, já que os indivíduos nesta fase da vida já estariam aposentados, com os filhos e netos criados e, portanto, sem tais preocupações, livres para cuidarem mais de si, praticando esportes, dança, dedicando-se a atividades culturais e tantas outras das quais podem ter sido privados, por algum motivo, na juventude.

Faz-se de tudo para escapar da velhice: plásticas, botox, peeling, ingestão de vitaminas, alimentação saudável, atividades físicas etc. É o que chamam de envelhecer com qualidade. Não que tais coisas sejam negativas. O que se pretende relevar neste texto é a negatividade com a qual é abordada a questão da velhice. 

Em outras culturas, como a indígena, por exemplo, os indivíduos velhos são cercados do maior respeito, reverência e consideração, enquanto que em nossa sociedade às vezes faz-se necessário o apelo a mecanismos jurídicos para garantir às pessoas idosas aquilo que elas deveriam ter naturalmente: respeito, consideração e o direito à vida. Se tais pessoas cuidaram de outras, nada mais natural que fossem também cercadas de cuidados quando próximas do fim da vida.

Mas, infelizmente, não é assim que ocorre. Nossos velhos são maltratados, desrespeitados e ignorados. Não fossem as leis, tais como o Estatuto do Idoso, não teriam direito a assento preferencial nos coletivos, gratuidade nos transportes públicos, meia-entrada em eventos culturais e outras garantias.

O que há de errado em toda essa história não são os idosos, nem é a velhice o problema. O erro reside na maneira como encaramos o entardecer da vida. E isto decorre da perenização do presente, do carpe diem em seu aspecto mais negativo, ou seja, aquele que desconecta a vida humana da historicidade a ela inerente. 

Nossa história individual, tal como a história da humanidade, é composta de passado, presente e futuro. No passado foram armazenadas nossas origens, nossos erros, nossos acertos. O presente é onde vivemos e onde devemos dar os passos com um olhar no passado, a fim de não repetir os erros de outrora, aprendendo com eles e também olhando para o futuro, que é nosso norte, nosso objetivo, a esperança que nos leva a caminhar. Se o presente for perenizado, se for tornado o senhor absoluto de nossa existência, cairemos na falta de referência, e tudo será lícito para vivê-lo ao extremo. Assim, tudo valerá para levar a cabo nossos desejos, mesmo em prejuízo dos direitos de outrem. Quando os desejos não forem alcançados virá a frustração, a desilusão, a depressão e o suicídio.

Frei Betto, em sua obra A Mosca Azul, apresenta assim a questão: “Enfrenta-se, hoje, um processo de desistorização do tempo. Nessa crise da passagem da modernidade para a pós-modernidade, surge a dificuldade de consolidar valores como, por exemplo, a ética. Não existem projeção, prospecção, estratégia, sem a concepção do tempo como história. Esta é seguramente uma das melhores heranças recebidas pelo Ocidente. Sofre agora o risco de descaracterizar-se. Os gregos imaginavam um tempo cíclico. As coisas acontecem e se repetem. E comungavam a idéia do destino implacável... Quando se percebe o tempo como história, tem-se o varal onde dependurar valores. A vida ganha sentido. E este é o bem maior que todos procuram: um sentido que dê razão à existência e, assim, os faça felizes...Cessada a percepção do tempo como história, falta o fio de prumo dos valores e, portanto, corre-se o risco da perda de sentido. Na dinâmica do pensamento único, impõe-se a idéia de que esse modelo de sociedade capitalista neoliberal é o ideal. O que resulta dessa perspectiva? A perenização do presente”.

Das palavras de Frei Betto deve-se extrair um ponto crucial: o sentido da vida. Se estivermos conscientes de qual é nossa missão neste mundo, nossa vocação, teremos um varal, um sustentáculo, onde poderemos dependurar nossos valores, e nossa vida não será um rodopio louco de acontecimentos desconexos e sem sentido, onde valeria tudo para “aproveitar a vida”. 

Assim, quando a velhice chegar, não nos sentiremos frustrados e não ficaremos ofendidos quando alguém nos chamar de velhos ou idosos. Isso sim seria envelhecer com qualidade. Cabe-nos, então, viver nossos dias da melhor forma possível. Se haverá outra vida além desta, é outra história e assunto para outro post.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Sessão de Auto-Ajuda

por Luiz Carlos Azenha

Frequentemente eu encontro leitores deste (www.viomundo.com.br) e de outros blogs na rua. Em geral muitos deles lamentam a dureza de se contrapor à mídia corporativa, que tem uma aparência muito mais sólida que o exército de Brancaleone dos blogs "independentes" ou "progressistas" da internet.

Depois de quase quarenta anos de Jornalismo, respondo: calma, gente. Vamos devagar, mas sempre em frente. A graça está em guerrear, nem toda vitória é definitiva, muitas derrotas são necessárias antes de uma conquista.

A primeira sugestão que faço é que não se fique dependente do reconhecimento da mídia corporativa em relação ao nosso trabalho. "Eles" jamais vão reconhecer que estão perdendo público -- o que é possível auferir matematicamente -- ou que nós estamos ganhando. Falo pelo Viomundo, que tem um medidor de audiência bastante confiável, da Hostnet: a audiência é crescente, desde que este site debutou, quando eu ainda morava em Nova York.

Hoje pipocam propostas para algum tipo de organização envolvendo a blogosfera progressista, talvez nos moldes do movimento que, quando amadureceu, teve papel essencial na eleição de Barack Obama, nos Estados Unidos. Sim, o evento anual da blogosfera progressista dos Estados Unidos é o maior do gênero, atrai patrocinadores e políticos de todos os tipos, é um sucesso comercial e jornalístico.

Àqueles que duvidam eu também costumo dizer: todos os grandes movimentos sociais começaram em torno de meia dúzia de pessoas. Não duvidem de seu próprio poder. Não duvidem do impacto que UM SÓ e-mail de protesto tem naquele que o recebe, especialmente se contém uma crítica de qualidade, verdadeira, justa. Não duvide da sua presença em uma manifestação de 100 pessoas, da faixa que você mandou pendurar, da camiseta que decidiu usar.

A sociedade é um ser vivo e a sua disposição de mudá-la não terá impacto imediato: tudo obedece a um lento processo de amadurecimento. Lembram-se quando se pregava a abolição pura e simples do Bolsa Família? Faz tão pouco tempo, não faz? Pois é, hoje os tucanos tentam se passar por pais do Bolsa Família. Isso reflete uma mudança na sociedade brasileira, que já se deu conta de que os projetos sociais são importantes para ampliar o mercado interno, que reduziu enormemente o impacto da crise financeira mundial no Brasil.

Ou seja, aquela mensagem que você deixou em um site defendendo o Bolsa Família fez seu trabalho. Se sua argumentação foi boa e alguém leu, você ajudou a mudar a sociedade brasileira.

A terceira coisa que digo aos meus interlocutores desanimados é que precisamos construir nosso próprio espelho. É óbvio que numa sociedade complexa e midiatizada a gente precisa ver o resultado de nosso engajamento social. Mas a mídia corporativa se nega a refletir esse resultado, uma vez que remamos contra a maré. Você só será reconhecido se remar em favor das Idéias "certas": apoio à ideologia econômica neoliberal, ao Gilmar Mendes, ao estado mínimo, à candidatura Serra e à elite política e econômica do Brasil. Aos brancos de olhos azuis.

Construir nosso próprio espelho significa ampliar o alcance de uma rede de informações que atinja a massa crítica de brasileiros. Uma rede formada por blogs, sites, rádios e TVs comunitárias, revistas,editoras, rádios e TVs educativas. É um trabalho de formiguinha, que só vai amadurecer mesmo dentro de uns dez anos.

Eu costumo criticar com frequencia a idéia da auto-estima, que importamos dos Estados Unidos. Você não está bem? A culpa é da auto-estima. Bateu o carro? É a auto-estima. Engordou? É a auto-estima. Tenho comigo que muito de nossa felicidade diária depende da organização social a que estamos submetidos. E essa em que vivemos, calcada na sobrevalorização do indivíduo, precisa nos deixar eternamente insatisfeitos para que a gente tente se satisfazer consumindo. Comprando. Acumulando. É uma sociedade escravocrata, em que poucos mandam e muitos obedecem. Em que a elite se acostumou a usar o Estado para manter seus privilégios políticos e econômicos.

Num país assim, o recurso à auto-estima desloca a crítica -- da sociedade para o indivíduo. Em vez de mudar o mundo, você é convocado a mudar apenas a si mesmo, lendo um livro, malhando ou dizendo diante do espelho: "Sou bom o suficiente, estou bem o suficiente e me importo" (Bordão do programa americano Saturday Night Life, que brincava com a auto-estima).

Não seja enganado. Mudar o mundo é essencial. É tarefa de todos. E você vai se sentir muito melhor se se der conta de que é capaz de fazê-lo. De que você também faz a diferença.

Acabou a sessão de auto-ajuda. Remeta 100 reais para a conta bancária do Viomundo.

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

ENSAIO SOBRE A PERIFERIA

"...Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata. Mas com gente é diferente..."
Geraldo Vandré

"Ê, ô, ô, vida de gado. Povo marcado, ê, povo feliz"
Zé Ramalho


Por Cléber Sérgio de Seixas


A periferia abraça, circunscreve, cerca, ameaça e deixa apreensiva a cidade grande. É um amontoado de gente, gente sobre gente disputando espaço. Cresce desordenadamente, sobe morros, avança sobre calçadas, toma de assalto áreas comuns; constrói enquanto desconstrói. O homem da periferia não entende o porquê de tanto aperto, nem o preço salgado da terra, nem tampouco porque há tanto espaço livre, tão pouca gente no campo e tanta gente na cidade se espremendo em edificações que dariam inveja a Gaudí.

A cidade grande precisa dos braços baratos que a periferia possui em profusão. Mas a cidade grande também vomita homens, regurgita os desvalidos na periferia quando assim lhe convém, quando não os quer mais poluindo a paisagem, quando os espaços que ocupam nos guetos vão se transformar em viadutos.

O homem da periferia cansa mais indo ao trabalho do que trabalhando. Dorme no ônibus, cochila no metrô. Transportado feito gado, premido, espremido, quando não apanha para entrar no trem. As crianças da periferia não conhecem seus pais, só vultos que chegam a noite em casa depois de uma extenuante jornada laboral. A casa já não é casa, é dormitório. Diálogo com os filhos? Como, se o horário urge o descansar?

O homem da periferia vive das sobras que caem da mesa da metrópole: piores empregos, pior renda, piores serviços, piores políticos. Quando algum político vai à periferia, leva junto a escolta. Mas na qualidade de candidatos, à cata de votos, beijam e abraçam. A periferia casa-se com os projetos dos aspirantes a cargos eletivos, mas é divorciada deles tão logo os vencedores do pleito assumam os mandatos. Toda obra inaugurada na periferia precisa de multidão, massa de manobra para fazer número, dar show e sair na televisão. Novo hospital inaugurado: solenidade, fanfarra e um ou outro discurso inflamado. No dia a dia, porém, cadê o médico? Onde o clínico, o pediatra e o ortopedista?

O homem periférico planta trabalho e colhe dívidas, pois o ganho que obtém não lhe sustenta, e o desespero o leva ao agiota, para que uma dívida pague outra, pois é mais forte a máxima de que quem não deve não tem.

O homem da periferia vê TV e não se vê; e não se vendo, sonha em possuir o que não pertence a seu mundo. Ele seria mais feliz se não visse TV, pois não veria tanta coisa que não tem condições de possuir desfilando na tela diante da qual se assenta, se deita, se ajoelha. Alguns rompem o paradigma do não possuir e vão buscar o direito à posse, a ferro e fogo, do bem, do objeto, do talismã que lhes garantirá a aceitação alheia, tal como o cavalo que é apreciado pela beleza da sela que trás sobre os lombos. Vão lotar as prisões – presos por furtar pares de tênis ou de traficar para, com o ganho assim obtido, vestir roupas de marca.

A periferia da TV é poética, mas a vida na periferia real é prosa. No folhetim Global o homem de periferia se resigna, é feliz, contenta-se com o pouco que tem e sabe ficar em seu lugar. Ou, talvez, o homem que parte de baixo e atinge o topo, o self made man. Concordo que o homem periférico em carne e osso não se entrega, vai à luta e faz o que pode e o que não pode para sobreviver. A periferia não tem Duas Caras e não se sabe quem Ali depositou a fábula cujo enredo entoa loas à convivência harmoniosa entre seus moradores. A vida no arrabalde é cobra comendo cobra, luta encarniçada por sobrevivência, por espaço, por emprego, por dignidade. A vida é dura na periferia, e pode ser tudo, menos obra de idílio. Só é exótico na periferia o que é culturalmente aproveitável. No ex ótico, contudo, é que mora o perigo: o que se come, como se dorme, como se sobrevive sem dinheiro, não se sabe.

A cultura sai da periferia, desce o morro e transborda no asfalto. Contudo o asfalto não devolve o que tomou emprestado. Eis que as Vozes do Morro ecoam pedindo atenção aos ouvidos: “eu sou o samba”, “eu sou o funk”, “eu sou o rap”, "eu existo". Quem ouvirá? Quem socorrerá? Quem se compadecerá?


Assista abaixo um vídeo mostrando como se trata o gado

Bombardeio dos tucanos

MERCADO DA FÉ

Por Frei Betto

Como os supermercados, as igrejas disputam clientela. A diferença é que eles oferecem produtos mais baratos e, elas, prometem alívio ao sofrimento, paz espiritual, prosperidade e salvação.

Por enquanto, não há confronto nessa competição. Há, sim, preconceitos explícitos em relação a outras tradições religiosas, em especial às de raízes africanas, como o candomblé e a macumba, e ao espiritismo.

Se não cuidarmos agora, essa demonização de expressões religiosas distintas da nossa pode resultar, no futuro, em atitudes fundamentalistas, como a “síndrome de cruzada”, a convicção de que, em nome de Deus, o outro precisa ser desmoralizado e destruído.

Quem mais se sente incomodada com a nova geografia da fé é a Igreja Católica. Quem foi rainha nunca perde a majestade... Nos últimos anos, o número de católicos no Brasil decresceu 20% (IBGE, 2003). Hoje, somos 73,8% da população. E nada indica que haveremos de recuperar terreno em futuro próximo.

Paquiderme numa avenida de trânsito acelerado, a Igreja Católica não consegue se modernizar. Sua estrutura piramidal faz com que tudo gire em torno das figuras de bispos e padres. O resto são coadjuvantes. Aos leigos não é dada formação, exceto a do catecismo infantil. Compare-se o catecismo católico à escola dominical das igrejas protestantes históricas e se verá a diferença de qualidade.

Crianças e jovens católicos têm, em geral, quase nenhuma formação bíblica e teológica. Por isso, não raro encontramos adultos que mantêm uma concepção infantil da fé. Seus vínculos com Deus se estreitam mais pela culpa que pela relação amorosa.

Considere-se a estrutura predominante na Igreja Católica: a paróquia. Encontrar um padre disponível às três da tarde é quase um milagre. No entanto, há igrejas evangélicas onde pastores e obreiros fazem plantão toda a madrugada.

Não insinuo assoberbar ainda mais os padres. A questão é outra: por que a Igreja Católica tem tão poucos pastores? Todos sabemos a razão: ao contrário das demais igrejas, ela exige de seus pastores virtudes heroicas, como o celibato. E exclui as mulheres do acesso ao sacerdócio. Tal clericalismo trava a irradiação evangelizadora.

O argumento de que assim deve continuar porque o Evangelho o exige não se sustenta à luz do próprio texto bíblico. O principal apóstolo de Jesus, Pedro, era casado (Marcos 1, 29-31); e a primeira apóstola era uma mulher, a samaritana (João 4, 28-29).

Enquanto não se puser um ponto final à desconstrução do Concílio Vaticano II, realizado para renovar a Igreja Católica, os leigos continuarão como fiéis de segunda classe. Muitos não têm vocação ao celibato, mas sim ao sacerdócio, como ocorre nas igrejas anglicana e luterana.

Ainda que Roma insista em fortalecer o clericalismo e o celibato (malgrado os escândalos frequentes), quem conhece uma paróquia efervescente? Elas existem, mas, infelizmente, são raras. Em geral, os templos católicos ficam fechados de segunda a sexta-feira (por que não aproveitar o espaço para cursos ou atividades comunitárias?); as missas são desinteressantes; os sermões, vazios de conteúdo. Onde os cursos bíblicos, os grupos de jovens, a formação de leigos adultos, o exercício de meditação, os trabalhos voluntários?

Em que paróquia de bairro de classe média os pobres se sentem em casa? Não é o caso das igrejas evangélicas, basta entrar numa delas, mesmo em bairros nobres, para constatar quanta gente simples ali se encontra.

Aliás, as igrejas evangélicas sabem lidar com os meios de comunicação, inclusive a TV aberta. Pode-se discutir o conteúdo de sua programação e os métodos de atrair fiel. Mas sabem falar uma linguagem que o povo entende e, por isso, alcançam tanta audiência.

A Igreja Católica tenta correr atrás com as suas showmissas, os padres aeróbicos ou cantores, os movimentos espiritualistas importados do contexto europeu. É a espetacularização do sagrado; fala-se aos sentimentos, à emoção, e não à razão. É a semente em terreno pedregoso (Mateus 13, 20-21).

Não quero correr o risco de ser duro com a minha própria igreja. Não é verdade que ela não tenha encontrado novos caminhos. Encontrou-os, como as comunidades eclesiais de base (CEBs). Infelizmente não são suficientemente valorizadas por ameaçar o clericalismo.

Aliás, as CEBs realizarão seu 12º encontro intereclesial de 21 a 25 de julho deste ano, em Porto Velho (RO). O tema, “Ecologia e missão”; o lema, “Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia”. São esperados mais de 3 mil representantes de CEBs de todo o Brasil.

Bom seria ver o papa Bento XVI participar desse evento profundamente pentecostal.

Publicado no jornal Estado de Minas em 21/05/2009

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O DIA EM QUE A PETROBRAS DEIXOU DE SER BRASILEIRA

Por Emir Sader

Dia 26 de dezembro de 2000, um dia depois do Natal, o povo brasileiro foi surpreendido por mais uma medida antinacional do governo FHC. Coerente com a máxima de FHC de que “ia virar a página do getulismo no Brasil” – sem o que o neoliberalismo não seria possível – o presidente da Petrobrás, Henri Philippe Reichstul, anunciou que a empresa estava mudando seu nome comercial para PetroBrax. Segundo ele, o objetivo seria “unificar a marca e facilitar seu processo de internacionalização” (sic) (FSP, 27/12/2000). Afirmou ele que “a medida ganhou na semana passada o aval do presidente Fernando Henrique Cardoso”.

Segundo Alexandre Machado, consultor da presidência da Petrobras, a operação custaria à empresa 50 milhões de dólares, para realizar um projeto da agência paulista de design Und SC Litda, “contratada sem licitação”, segundo o presidente da Petrobras. “Um dos argumentos favoráveis – relata a FSP – foi que o sufixo “bras” estaria, internamente, associado à ineficiência estatal.” “No front externo, um dos argumentos para a mudança da marca é de tirar a associação excessiva que o nome Petrobras tem com o Brasil . Segundo Norberto Chamma, diretor da Und, que apresentou a nova marca ontem para jornalistas, a desvinculação é importante para que a empresa não seja obrigada a arcar com os ônus dessa ligação.” (sic)

A direita subestimou a capacidade de resistência do povo brasileiro, submetido a tantas afrontas no governo tucano, que este pensou que ele estava anestesiado. (Uma coluna do próprio jornal FSP diz que o jornal subestimou a reação popular contra a medida.) Mas a operação durou apenas algumas horas. Apesar da tentativa de pegar o povo distraído pelo período entre Natal e Ano Novo, em dois dias o governo teve que retroceder da sua vergonhosa tentativa de preparar a maior empresa brasileira para “facilitar seu processo de internacionalização” – não há melhor confissão da intenção de privatizá-la, de que a venda de ações na Bolsa de Nova York foi um passo concreto. O país estava submetido à nova Carta de Intenções do FMI, depois da terceira vez que o governo tucano de FMC e de Serra havia quebrado nossa economia e havia indícios claros que a privatização da Petrobras, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil faziam parte das contrapartidas dos novos empréstimos que o FMI concedia ao governo de FHC.

26 de dezembro foi um dia da vergonha nacional, com essa tentativa fracassada de tirar o nome do Brasil da Petrobras, para tirar a Petrobras do Brasil. Sabemos que FHC estava totalmente de acordo. Seria bom saber onde andavam e que atitude tomaram os que agora dizem se preocupar com a Petrobras. Que posição teve, por exemplo, José Serra diante dessa ignominiosa atitude do governo a que ele pertenceu? E as empresas da mídia e seus funcionários colunistas?

E que atitude tomaram os senadores, agora tão interessados nos destinos da Petrobras, ao subscrever o pedido da CPI, quando a existência mesma da empresa estava em jogo?

O senador Álvaro Dias talvez estivesse ocupado com a defesa dos processos por uso da cavalaria da PM contra professores ou preparando algum dossiê falso contra adversários políticos, ou tentando se defender das acusações de crime contra a administração pública, movidas pelo SupremoTribunalFederal.

Já o senador Artur Virgilio talvez estivesse tentando organizar sua defesa da acusação de envolvimento com prostituição infantil de que foi acusado ou preocupado em libertar o filho, preso por desacato e pornografia .

O senador Cicero Lucena talvez estivesse preocupado com o processo do Supremo Tribunal Federal por formação de quadrilha e desvio de verba.

O senador Eduardo Azeredo, fundador do mensalão mineiro, poderia estar preparando já seu projeto de lei que quer censurar a internet.

O senador Flexa Ribeiro talvez estivesse às voltas com o que depois foi revelado como sendo a inclusão do seu nome na “folha de pagamento” das empreiteiras.

Já o senador Marconi Perillo poderia estar preocupando-se pelo que o Ministério Publico Federal encontraria como irregularidades em seu governo, pedindo sua cassação.

O senador Tasso Jereissatti poderia estar às voltas com viagens em um do seus jatinhos, por conta das verbas do Senado, que ele consideraria “legais”.

O senador Efraim Morais poderia estar ocupado com a nomeação de algum dos seus 52 parentes que tem no seu gabinete.

Ou com a investigação do Ministério Público Federal sobre o que, uma vez apurado, se tornaria seu envolvimento em esquema de propinas no Senado, junto com o senador Romeu Tuma.

O senador Heraclio Fortes poderia estar preocupado com o caso de corrupção do Zoghibi, tentando esconder sem envolvimento.

Já o senador Jayme Campos poderia estar às voltas com o que viria a ser denunciado como sua participação no inquérito sobre sanguessugas.

O senador José Agripino poderia estar em contato com empreiteiras, segundo acusações de doações “por fora” de que foi objeto.

A senadora Katia Abreu poderia estar manifestando seu apoio aos escravagistas do Pará.

A senadora Maria do Carlo Alves poderia estar envolvida com o que se configurou depois como acusações de caixa dois.

Já o senador Jarbas Vasconcelos poderia estar gozando dos 17,3 mil reais mensais desde 1992, sem trabalhar.

O senador Pedro Simon poderia estar tomando a mesma atitude que tomaria diante da corrupção do governo de Yeda Crusius: silêncio total.

O senador Geraldo Mesquita poderia estar utilizando os salários que os seus funcionários lhe acusam de que lhes roubou.

O senador Mão Santa poderia estar ocupado em algum contato com Camargo Correa, da qual foi acusado de receber propinas.

O senador Romeu Tuma poderia estar preocupado com aquilo de que mais tarde foi acusado, de participação em esquema do Senado.

O senador Mozarildo Cavalcanti poderia estar ocupado em atividades que mais tarde seriam denunciadas como crimes contra a administração pública.

Poderiam os senadores que convocaram a CPI estar ocupados nisso. Mas o certo é que estavam centralmente ocupados em apoiar o governo que tentou privatizar a Petrobrás, que fez um balão de ensaio no dia 26 de dezembro de 2000, teve que recuar, e agora tenta voltar à carga, no momento em que se discute a nova regulamentação da exploração do petróleo e todo o processo do pré-sal. Une suas atuações um profundo sentimento de desprezo pelo que é brasileiro, pela que a Petrobrás representou e representa para o país.

Por isso precisam ser repudiados, na mesma lista dos políticos que resistiram à fundação da Petrobras, aos que quebraram o monopólio do petróleo e aos que desprezam o que representa a Petrobras para o Brasil. Defender hoje a Petrobras é defender o Brasil, de hoje e de amanhã.

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